16 novembro, 2023

15 novembro, 2023

Tectos

Tecto de restaurante

Moscovo


 

Anónimos (4)

 


Anónimos (4)

Cruzo-me com elas no corredor do hospital, com bata azul e não usam estetoscópio ao pescoço. Arrastam um balde e uma esfregona sobre o pavimento de linóleo azul ou de marmorite, rematado por um rodapé de plástico, colocado a trouxa moucha, sem grandes preocupações estéticas, a dobrarem esquinas de forma pouco rigorosa. Revestimentos de diferentes famílias foram aplicados com se nunca ninguém olhasse para eles, fruto da desatenção do responsável pela construção do edifício, que desconsiderou que nos hospitais não pode haver ângulos onde se acumulam sujidade e toda a comunidade de vírus e bactérias.

Elas passam a esfregona, que foi crescendo, até atingir a dimensão de cerca de 95 centímetros da largura. Aquela plataforma de limpeza vai deslizando por aqui, por ali, dando a aparência de piso higienizado. Desinfectado já não digo, porque me parece que a maioria das vezes o piso apenas se molha e a sujidade troca de lugar com a sujidade vizinha, e vai estacionando nos rodapés que deveriam ser inexistentes sobre remate circular, até que a esfregona se levanta, encolhe e mergulha num balde que contém água e detergente líquido, adquirido aos quilolitros, sempre com o mesmo cheiro. Desconheço-lhes o nome, a idade, o seu contracto de trabalho. Ninguém lhes liga, ninguém fala com elas, apenas pisamos as superfícies que acabaram de limpar, sem qualquer reactividade por parte delas. Parecem autómatos, sem coração, nem alma, a percorrer centenas de metros quadrados de corredores, enfermarias e gabinetes. Quando chegam ao fim, voltam ao princípio, num percurso sem fim. O seu trabalho nunca está concluído e isso parece não incomodar a sua apatia crescente.

Quantas serão?

O que sentirão num serviço tão cheio e tão monótono?

Quantas horas estarão em pé?

Alguém sabe o seu nome?

Há alguém que lhes ofereça um sorriso?

Parece que fazem parte das infraestruturas hospitalares, parecidas com a canalização, as condutas de água e de ar condicionado, mas são pessoas, são mulheres, com idade, com família, com filhos e com o seu mundo de complexidades semelhante ao nosso. Não são robots, não são mecanismos com porcas e parafusos, nem mesmo com chips programados para esta função.

Algum dia usufruíram de alguma gentileza?

Ouvem as palavras mágicas, obrigada, com licenças, por favor, desculpe, bom dia, até já?

Alguém se importa com elas quando ficam doentes?

Sabemos quanto ganham num mês de arrasta e limpa?

E elas continuam naquela tarefa impessoal, por aqui, por ali… Para elas também deve ser indiferente com quem se cruzam, se são velhos ou novos, se chegam adiantados ou atrasados, se estão internados ou se estão na urgência com um AVC.

Esta é uma das muitas facetas da desumanização da nossa sociedade, atribuindo indiferença à dor e sentimentos dos seres humanos. É a falta de empatia entre seres humanos fisicamente próximos, não se comovem ou não se indignam.

Os motivos são diversos, as circunstâncias, individuais e sociais, existentes são ignoradas e as pessoas tornam-se cada vez mais distanciadas da “essência” da chamada condição humana.

Publicado em NVR, 15/11/2023

11 novembro, 2023

10 novembro, 2023

ANTECIPANDO

 


Parece interessante.... bora lá. Que surpresa boa.

Barrio Bajo Castellanos 44 46, 49390 Puebla de Sanabria Espanha


LOUVRE PARIS


 

08 novembro, 2023

Chrysanthemums

 

Chrysanthemums

Os crisântemos chegam aos braçados para o dia dos mortos, que ainda vivem na nossa memória. Os cemitérios enchem-se de uma azáfama anual, de esfregar, lixiviar e espanar os mármores, que assinalam as últimas moradas. À porta dos cemitérios, acumulam-se viaturas e na maioria deles, pontos de negócio de flores brancas e amarelas, a preço elevado. Um dia, não são dias, e o preço nem se discute. 

Ajeitam-se as flores nas jarras, recordam-se momentos de quem já cá não está…, estando, cada um com a sua história, cada um com o seu tempo de afastamento e de saudade.

Há muitos mortos, há mais mortos do que vivos, cada vivo tem os seus, alguns preferidos, mas a quantificação de mortos, perde-se nos tempos. Dois ou três identificáveis, o resto são entidades que passaram por cá, pensando como nós, com os seus problemas e os seus sonhos, com momentos de alegria e de tristeza, uns mais sofredores do que outros, mas com uma única certeza, a de um dia morrer. Importa como nasceram, porque até para nascer é preciso ter sorte, porém, ninguém escapa da morte. São mortos incógnitos, desconhecidos, perdidos para sempre no nevoeiro da eternidade, enquadrado na esquadria de cada cemitério; a única coisa que nos podem querer ensinar é relativizar o que acontece na vida, porque mais dia, menos dia, estaremos ali na parte de baixo, onde reina a escuridão à espera que alguém se digne a depositar um singelo ramo de flores, ou personificados e agrilhoados a uma obra de arte funerária, por vezes de gosto duvidoso.

Os mortos são ilustres desconhecidos, zés-ninguém sem eira nem beira, não quantificáveis e despersonalizados, sofredores, sobrevivendo num Purgatório virtual, que cada um imaginará à sua maneira, esgotado a rebentar pelas costuras de almas imperfeitas, à espera que tudo isto termine rápido.

Imagino um Triller confuso, mistura de Michael Jackson e Bosch, perdido em outras dimensões, algo pouco compreensível, porque aos meus olhos agnósticos, são apenas herança surreal, talvez útil para domesticar as mentes perversas. Dizem que são almas que só subirão ao Céu no dia do Juízo Final, segundo a cultura da igreja católica.

Curiosamente, existe uma contradição, desejamos aos nossos mortos pouco tempo de Purgatório, mas não pretendemos abreviar o dia do Juízo Final, porque isso significa o final do Universo. Isto é para reflectir sobre a coerência dos nossos princípios, afectos e a fé de alguns.

Confunde-me.

 Assalta-me a imagem da grandiosa e famosa pintura de Miguel Ângelo, “Juízo Final” organizada em 4 planos, dando destaque ao ponto central da composição, dedicado a Maria e a Jesus. Esta pintura da Capela Sistina engloba mais de 400 figuras, todas em atitudes diferentes. Encontram-se situações estranhas de múltiplos significados, penso que deliberadas, na escala das figuras, no seu posicionamento, umas levitam, outras não, num fundo de céu e terra, muito ambíguo. Não é seguro que quem levita, se apresenta com aspecto saudável e que será salvo. Alguns acham que esta pintura é uma representação sombria, outros atribuem-lhe significados que não vislumbro, eu sinto-a inquietante, não tanto pelo desenho, mais pelo que desperta nos mortais, futuros finados, na inquietação questionadora, se serão merecedores da salvação e quando.

A questão temporal “quando”, causa desconforto, porque não se consegue conhecer a dimensão da eternidade da espera; e a contradição continua, ninguém pretende que o mundo acabe num sentido de solidariedade para com as almas sofredoras? A eternidade parece-me tempo a mais para qualquer pecador.

O culminar desta situação é a representação de um Cristo exageradamente musculado em posição dinâmica parecendo uma inspiração da mitologia grega, decidindo quem salva e a quem castiga, desconhecendo-se com rigor, o critério que se aplica, tendo na invisibilidade, o Deus todo-poderoso, glorioso, zeloso, magnânimo, conciliador, omnipresente, único, perfeito, misericordioso, criador do mundo e responsável pelo mesmo, em quem se acredita.

Voltando aos Chrysanthemums, na simbologia cristã, tentam embelezar as contradições da fé no dia dos fiéis defuntos e são um atributo da Virgem Maria, dizem; de origem asiática florescem no Outono e são flores resistentes, capazes de ficar vários dias a cumprir a sua missão de mediadores entre o céu e a terra, a vida e a morte, e assim faz sentido.

07 novembro, 2023

31 outubro, 2023

30 outubro, 2023

ANTECIPANDO


Meliã Castelo Branco




29 outubro, 2023

SAPATOS




 CHEGANDO



O exagero da cidade verde.


 O exagero da cidade verde.

Faz-me recordar a história do burro trabalhador que dava alto rendimento, porque trabalhava muito, cada vez comia menos. Até que morreu. 

28 outubro, 2023

26 outubro, 2023

DE CEREJA EM CEREJA BEIJO O VERÃO


 


EM FASE DE APRESENTAÇÃO

TRILOGIA COMPLETA

25 outubro, 2023

ISRAEL-PALESTINA

 

ISRAEL-PALESTINA


 

O conflito Israel-Palestina poderá converter a guerra da Ucrânia em brincadeirinha de crianças.

Criou-se a maior barafunda no Médio Oriente, e no resto do mundo, poucos sabem de que lado estão. Continuamos a alimentar guerras em vez de alimentar a paz e contrariar a miséria e fome dos países pobres.

3.000 anos de conflitos que culminam em imagens que transmitem no tik tok, cada qual com a sua narrativa confundindo cada vez mais a tonalidade da verdade e da razão, não se tendo a certeza quem são os maus e quem são os bons. Já me perdi em número de mortos, em objectivos, estratégias, múltipla informação que se afoga, em mortes sucessivas e ódios. A única ideia que me fica, é mortandade. Terror.  Mortandade perigosa que pode colocar o mundo em estado de sítio, sem linhas vermelhas, sem limites, porque estes já foram ultrapassados por todos, não se entendendo como se pode sair desta barbárie.

Para mim, recordando as palavras de Mia Couto, “só há duas nações, as dos vivos e a dos mortos” e eu opto sempre pela nação dos vivos, porque a outra virá com toda a certeza, depois.

A brutalidade segue contínua e cega, ninguém sabe como isto irá prosseguir e como vai terminar, se é que algum dia chegará ao fim. Apresenta-se uma complexidade que pode representar a destruição das fronteiras do ódio em todo o mundo. O que se pretende com um crescendo de radicalização? Que se exterminem mutuamente e nós a olhar? Essa não pode ser a saída, porque seria o fim da Humanidade.

Penso nos mortos, penso nos vivos e num estado cambaleante onde se encontram os reféns. Penso nas crianças. Penso nos hospitais, o sangue é todo da mesma cor e o pânico não escolhe lados. Penso também nos “eternos prisioneiros da Faixa de Gaza”.

A minha imaginação sobre o terror, está no limite e detesto quando ela se amplia através da observação de certas imagens. Tenho evitado ver vídeos para conseguir manter alguma racionalidade perfeitamente consciente de que ontem é diferente de hoje, e o hoje é diferente do amanhã. A raiva e a vingança são conceitos que não podem existir na procura da paz. Tenho evitado conversas. Não me agrada falar deste assunto. Incomoda-me não ter lado, e constatar que alguém tenha, porque esse é o lado do ódio e da vingança, sem qualquer lógica argumentativa.

Estamos a querer avaliar um problema que se perde no tempo, com reforço evidente, e até certo ponto, provocatório, na 2ª guerra mundial e apesar de todos lamentarmos muito a perseguição aos judeus e o holocausto, também entendo que os palestinianos foram escorraçados dos seus territórios quando a recém-formada ONU decidiu que ali nasceria Israel, sem o acordo dos palestinianos. Supõe-se que até 1948, mais de 500 vilas e cidades palestinianas foram destruídas, e mais de 15 mil palestinianos foram mortos. Em 1948, 78% do território da Palestina foi ocupado pelos judeus, e os 22% foram divididos entre o que hoje são a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. 750 mil pessoas foram forçadas a deixar as suas casas.

Decorridos 75 anos, querer ficar de um lado é absurdo, porque isto é uma bolha feita de muitas Histórias, com todas as abordagens traduzidas em fracasso, sangue, mortos, violência, opressão, sofrimento, injustiça e ódios.  

Publicado em NVR, 25 | 10 | 2923

 

 

22 outubro, 2023

21 outubro, 2023

18 outubro, 2023

DOURO JAZZ

 


DOURO JAZZ

Durante uma semana kafkiana, submersa na ausência da cidadania, que espero sempre de retorno à minha, e revivendo velhos fantasmas que julguei, ingenuamente, que já teriam desaparecido, desmofizando certas instituições, utilizei o Jazz como relaxante e terapia do retorno à vida saudável. Este ano tive oportunidade de assistir a cinco espectáculos do Douro Jazz. Foi bom, carreguei “baterias” para um ano. Destaque para Gume, Orquestra de Jazz do Douro e Tord Gustavsen Trio.  

Gosto cada vez mais de Jazz, porém, não é o meu estilo preferido de música. Eu sou mais da turma melosa dos Blues, e do desconcertante Rock and Roll, mesmo assim, reconheço que ao envelhecer vou dando mais espaço ao Jazz (sem abusar). O Jazz exige amadurecimento e desprendimento. É preciso encontrar o ponto de equilíbrio em algo que parece caótico e desordenado, é preciso sentir uma nova perspectiva do mundo, relativizar as contradições deste e deixar-nos conduzir pela aquela onda sem barco, nem maré, capaz de abrir todas as nossas janelas para novos horizontes musicais e emocionais.

O Jazz é o tipo de música mais livre que eu conheço, e não quer saber quem gosta ou não gosta – atravessa o tempo simplesmente. O Jazz é para se aprender a gostar, apreciar o improviso e encontrar-lhe encanto e rebeldia, mesmo assim teria preferido ouvir o contrabaixo de William Parker, apenasmente. Sozinho é que ele brilharia!

Quando estou com uma boa telha, os Blues confortam a minha tristeza e alimentam o meu mal-estar. O Jazz, desvaloriza, e provoca uma boa conversa comigo mesma, e segreda-me ao ouvido, que há muito mundo à minha espera. Semicerro o olhar e encontro por vezes o fio condutor que me leva às minhas afro-raízes.  

Aqueles estudos, sempre duvidosos que lemos na net, dizem que a preferência musical revela a personalidade da pessoa, e que os interesses musicais podem ir mudando consoante o passar do tempo, coordenados com a alteração da nossa personalidade.

Greenberg, após alguma investigação, criou uma tipificação entre música e personalidades e ao fim de dois parágrafos de leitura, percebi que é como nos signos: dá sempre certo, porque algumas palavras são enganadoras, especialmente quando atravessam mares emocionais de águas profundas. Retive apenas o que me interessa e se identifica comigo, indivídua do signo Peixes, que já não suporta a conversa do Moedas sobre o 25 de Novembro e se indigna com a falta de rigor e discernimento de Cravinho, que sempre considerei, neste ultimo “barraco” "sobre a “matança descontrolada” de palestinianos em Gaza. Então, retive que os arquitectos oscilam entre a Clássica e o Heavy Metal (intervalo mais abrangente penso que não existe), os advogados ficam mais na World Music, os executivos e empresários no Hip Hop e o Jazz fica para os comandantes não se sabendo do quê. Isto são estudos “rigorosos e científicos” de 2015 e espera-se que em 8 anos, a análise dos resultados se tenha alterado, porque não dispenso o meu Kuduro em situações de euforia e os meus Blues quando preciso de mimo.

Publicado em NVR 18|10|2023

17 outubro, 2023

BERNINI x BORROMINI


 

BERNINI X BORROMINI

os artistas Gian Lorenzo Bernini e Francesco Borromini, arquitectos e escultores odiavam-se com muita dedicação, competiam com firmeza e criatividade com o objectivo de conquistar obra no Vaticano. Sobrou talento, inspiração e obra a favor da cidade de Roma, nomeadamente a Piazza Navona

Ganhou o barroco, Bernini ganhou o Vaticano e todos perdemos Borromini.

Auto-retrato - Piazza Navona, Roma 26 | 04| 2018