09 setembro, 2017

A BALLET STORY

Há espectáculos que são imperdiveis, Este é um deles.
‘A BALLET STORY’
VICTOR HUGO PONTES 

‘A Ballet Story’ tem como ponto de partida o bailado clássico ‘Zephyrtine’, de David Chesky. No entanto, não se trata da representação teatral ou da ilustração da história original, mas de um exercício de abstracção que parte do movimento dos corpos no espaço em articulação com a música. Não há contos de fadas, nem elementos do maravilhoso ou do fantástico. A moral é outra, o desenlace, diferente. Em ‘A Ballet Story’ não sabemos se a história se ajusta à música ou se a dança se ajusta à história. A narrativa será fabricada por cada espectador (ou não). Não se trata de uma articulação linear entre música, narrativa e dança, mas sim de um processo de influências mútuas e afinidades electivas que originam uma peça manipulável de modos diversos e, tanto quanto possível, inteira.

Numa coreografia que mistura sem complexos elementos do bailado, da dança contemporânea e do street dance, os sete intérpretes formam uma estranha tribo urbana, um grupo de seres talvez humanos, que vão ocupando a plataforma ondulada onde se encontram, num equilíbrio frágil entre o indivíduo e o colectivo. Não há contos de fadas, mas o ambiente permanece misterioso e intrigante do início ao fim.

Direcção artística: Victor Hugo Pontes
Música: David Chesky
Versão musical: Fundação Orquestra Estúdio, sob a direcção do Maestro Rui Massena
Cenografia: F. Ribeiro
Direcção técnica e desenho de luz: Wilma Moutinho
Intérpretes: André Mendes, João Dias, Joana Castro, Iuri Costa, Liliana Garcia, Marco da Silva Ferreira e Valter Fernandes.
Figurinos: Victor Hugo Pontes
Produção executiva: Joana Ventura
Co-produção: Nome Próprio, Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura
Apoio: Ao Cabo Teatro, Ginasiano Escola de Dança e Lugar Instável
Aqui fica para memória
https://www.youtube.com/watch?v=NsG7wkrk_18&feature=youtu.be

06 setembro, 2017

Moholy Nagy

Quando tinha 15 anos,  o meu pai presenteou-me com um livro de Moholy Nagy, “História ilustrada de la evolucion de la ciudad” da editorial Blume. Nessa época este livro era um luxo, as fotografias são a preto e branco, mas é um livro bem concebido, com papel de qualidade e eu enchi-me de orgulho pois já nessa época me interessava por cidades.
Quando vim para Portugal reduzi  1 quilo na minha bagagem para trazer esse meu livro. Este livro sobre cidades já viveu em várias cidades pois reboco-o sempre comigo. Nessa altura nem fazia ideia quem era Moholy Nagy . Já consultei outras obras dele mas há dias cruzei-me pela primeira vez com o seu caminho. 
Deparei com uma pintura original da sua autoria à minha frente, no museu Thyssen em Madrid, e várias décadas sobre muita coisa passaram na minha cabeça tal como um filme.

Gostaria de ter uma máquina para filmar o meu pensamento. Apenas fiz uma selfie.

30 agosto, 2017

em maré de elogio rasgado

em maré de elogio rasgado
- Porque é que eles têm saudades de Portugal? Achas que é lamechice?
- Devemos viver onde temos trabalho, o resto é treta. E agora temos que saber andar de casa às costas, permanentemente, pois teremos que fazer várias migrações ao longo da vida. Voltamos a ser nómadas tal como os nossos antepassados.
- Sim, mas porque querem sempre voltar ao país que não lhes garante trabalho?
Estava eu na conversa sobre o que acima se enquadra em diálogo.

            Porque querem voltar, porque manifestam saudades, porque gostam de reencontrar portugueses onde quer que estejam? 

            Eu nasci a sul do equador, sou uma sem terra, pertenço a sítio nenhum, qualquer sítio me serve para viver, mas considero que Portugal é um dos melhores países do mundo para se viver e portanto as saudades e toda a lamechice que envolve a distância forçada deste país, é compreensível. Vivemos aqui diariamente e não entendemos bem a dimensão desse “bordado regional” que se chama saudade, único no mundo, que só nós entendemos, quando estamos fora do país.
            O sol, a morfologia variada, a paisagem, o oceano atlântico como fronteira, a gastronomia e a localização na Europa, são cinco de vários parâmetros a considerar.
            Temos clima mediterrânico, cerca de 216 dias sem chuva, 3.000 horas de sol por ano, as temperaturas raramente baixam dos zero graus centígrados, a paisagem é lindíssima – planície, planalto, montanha, cerca de 526 praias, cidades cheias de património, os portugueses são afáveis e acolhedores, mistura de várias raças, boa rede de vias de comunicação, excelente e variada gastronomia, 900 anos de história, é um país seguro, com baixos índices de criminalidade,…
            Os portugueses não gostam de viver com espartilho vivencial, gostam de convívio, agora cada vez mais na rua, gostam de festejar as festas tradicionais, quer populares, quer as eruditas, gostam do bailarico e dos foguetes no ar. Até os compreendo porque isto de andar deprimido não leva a lado nenhum.  
            Isto é um povo com a cultura do serão. Ninguém gosta de se deitar com as galinhas. O estar com alguém após o jantar, seja a família em casa, seja os amigos no café ou na esplanada, é essencial para o equilíbrio psicológico. O clima permite, exige e promove o convívio social fora de casa.
            Temos um país pequenino, mas temos muitas cidades com história e com património – Lisboa, Porto, Coimbra, Viseu, Braga, Guimarães, Évora,… cada uma com a sua gastronomia própria e agora começamos a ter orgulho naquilo que é nosso e faz parte de nós, os nossos artistas plásticos – Paula Rego, Cutileiro, Joana Vasconcelos, Graça Morais, Bandarra, Amadeo, Almada – os nossos músicos – Abrunhosa, Rui Veloso, Camané, os Xutos, Carminho – os nossos escritores – Saramago, Afonso Cruz, Lobo Antunes,… temos os dois melhores poetas do mundo que fazem invejinha a muita gente – Camões e Pessoa – temos o melhor vinho do mundo – Porto – aqui bebe-se o melhor café do mundo e somos o pais-estado mais antigo da Europa.
            Nós somos, os azulejos, a sericaia, o queijo da serra, os canastros, as filigranas, o fito, a francesinha, a bica, o bairro-alto, o Douro, a guitarra portuguesa, a alheira, as gravuras do Côa, o barroco, os pauliteiros, o templo de Diana, a caravela, as marchas populares, o galo de Barcelos, o futebol, os descobrimentos, o Favaios, Sintra, os cravos de abril, o cantochão, o cacilheiro, a salsa e os coentros, o marnoto, as cavacas… e isto só há aqui, em Portugal.

(Revoltando os dias, em maré de elogio rasgado a Portugal)
Publicado em NVR a 30/08/2017

09 agosto, 2017

Relógio astronómico



Olhem para a minha cara depois de viver um voyeurismo tótó – um sorriso à Mona Lisa, que não é carne, nem é peixe, um verdadeiro sorriso amarelo, sem ofensa para a cor que eu adoro.
Aguardei pelas 12h para ver o relógio astronómico e medieval, a funcionar, uma relíquia da cidade de Praga, concebido pelo relojoeiro Mikulas, em 1410, que a determinadas horas adquire movimento através de pequenas estátuas que contém.
40 graus ao sol, centenas de pessoas a aguardar pelas 12h, para escolher estratégicamente um local ortogonal na horizontal (o que eu invento!!! J ), tive que dizer muitos com licenças, muitos sorrys e vários pleases, e finalmente batem as 12 horas e apenas 2 estátuas vieram simplesmente espreitar e recolheram-se… não há pachorra, que praga!

Diário de viagem, VIII/17 Praga

Apetece perder-me

Apetece perder-me por estas ruas, sem hora de regresso e sem mapa. Dobrar cada esquina, obedecendo à curiosidade do olhar e ao desejo de desvendar o desconhecido, sem rumo e sem destino, sem preocupações de sentido ou direção. Gostaria de afagar cada porta e cada janela, confirmando a harmonia naturalista da arte nova, a simetria da art decô e o geometrismo do cubismo analítico… e quando estivesse perdida e já tivesse passado várias vezes no mesmo lugar, chamaria um táxi para me levar de regresso ao hotel. Praga é uma cidade para visitar sem mapa. É uma cidade para gerar paixão e regressões a várias épocas. Parece que está á nossa espera, aguardando pacientemente a nossa chegada, para se revelar e nos envolver em cada detalhe.

Diário de viagem, VIII/2017 

08 agosto, 2017

Edifício Cordeiro













Identificar ruas e edifícios, é assinalar a história de uma cidade, é sublinhar a identidade local. É como passar rimmel pelas pestanas, tornando-as mais belas e elevando o nosso ego. Em Praga tudo se encontra bem assinalado e juntamente com a identificação das ruas, podemos encontrar os níveis de cheias dos rios Elba e Moldava, permitindo-nos avaliar e imaginar uma cidade inundada de água e outras placas que certamente os praguenses entenderão. Mas o invulgar deste registo é o facto dos edifícios antes de terem numeração, eram identificados por um elemento decorativo colocado na parte superior da porta principal. A casa cordeiro, é a que está assinalada nesta imagem, com o desenho emoldurado de um cordeiro, com paisagem de fundo e um elemento heráldico na parte inferior. Uma identificação muito naif que dá brilho a esta cidade.

Diário de viagem, VIII/2017    









   




07 agosto, 2017

Aguardando Kafka

São 7h da manha, chego à janela de uma cidade que se abre para mim. Ensonada digo.lhe bom dia, e abraço.a. Recuo para um dia de primavera, lá longe em que se festejava a liberdade. Tal como eu era jovem, sonhadora, com flores nos cabelos e muito determinada a cumprir os meus ideais. (Primavera de Praga)
....

Sentada numa esplanada, na frescura possível da sombra de um sol ardente, penso no bizarro da vida, no imprevisível, naquilo que nunca poderia acontecer, mas que acontece. Sinto.me surreal, aguardando Kafka que deve chegar a qualquer momento, metamorfoseado de um insecto qualquer com aroma a Trdelnik. Pausa para saborear um pecena kachna. Faca e garfo aí vou eu. Uhhhh delicia! 



....

Encerro o dia pela noite fora entre os reflexos do Elba e do Vitava, de queixo em repouso sobre a minha mão esquerda e sonho sonhos já acontecidos e outros que poderão acontecer. Recordo o paganismo dos eslavos lido num livro já sem nome na minha memória, os cristãos e os judeus.... e eu eternamente procurando de onde sou.
Diário de viagem VIII/2017

Café Alba

Sento-me no café Alba, vigiando as escadas que dão acesso à igreja mais popular de Praga, Igreja de Nossa Senhora Vitoriosa.

Sobem e descem às centenas, pessoas de todo o mundo, crentes e ateus, para homenagear, o Menino Jesus de Praga  -  estátua com estrutura de madeira e enchimento de cera, ícone de devoção de muitos católicos. Reparo num casal de idosos, ela com mobilidade reduzida, que chegaram de táxi. Falam espanhol da América do Sul. Têm ainda uma dezena de escadas para subir. Ela arrasta-se
Um menino vaidoso que troca de roupa várias vezes e cujos vestidos estão aqui também expostos numa sala da torre desta igreja barroca. 
Ele é ouro, ele é prata, ele é brilhantes, sedas, veludos, bordados e brocados. O objecto em si não tem nada de especial, há cópias bem mais giras, em todas as montras da cidade.
Aprecio a devoção e a fé e acho piada ao Menino, parece um boneco com o qual as meninas religiosas vestem e despem… o poky game do barrocão.
No interior há uma pequena imagem com a bandeira brasileira – um verdadeiro ícone internacional..
Encontro aqui o primeiro de vários…. Não sei como lhes chamar…. Penitente, dobrado de quatro com os antebraços e joelhos apoiados no chão, pedindo esmola. Permanecem horas nessa posição. O que será isto? As práticas sadomasoquistas das religiões que me convertem em afastada e observadora crítica.


Diário de viagem, VIII/2017


25 julho, 2017

A lealdade anima-me,
A fome deprime-me,
A arte inquieta-me,
A arrogância revolta-me,
A paciência engrandece-me,
A guerra tolhe-me,
A liberdade fascina-me,
A mentira enoja-me,
A paixão transcende-me.

AQ