09 agosto, 2017

Relógio astronómico



Olhem para a minha cara depois de viver um voyeurismo tótó – um sorriso à Mona Lisa, que não é carne, nem é peixe, um verdadeiro sorriso amarelo, sem ofensa para a cor que eu adoro.
Aguardei pelas 12h para ver o relógio astronómico e medieval, a funcionar, uma relíquia da cidade de Praga, concebido pelo relojoeiro Mikulas, em 1410, que a determinadas horas adquire movimento através de pequenas estátuas que contém.
40 graus ao sol, centenas de pessoas a aguardar pelas 12h, para escolher estratégicamente um local ortogonal na horizontal (o que eu invento!!! J ), tive que dizer muitos com licenças, muitos sorrys e vários pleases, e finalmente batem as 12 horas e apenas 2 estátuas vieram simplesmente espreitar e recolheram-se… não há pachorra, que praga!

Diário de viagem, VIII/17 Praga

Apetece perder-me

Apetece perder-me por estas ruas, sem hora de regresso e sem mapa. Dobrar cada esquina, obedecendo à curiosidade do olhar e ao desejo de desvendar o desconhecido, sem rumo e sem destino, sem preocupações de sentido ou direção. Gostaria de afagar cada porta e cada janela, confirmando a harmonia naturalista da arte nova, a simetria da art decô e o geometrismo do cubismo analítico… e quando estivesse perdida e já tivesse passado várias vezes no mesmo lugar, chamaria um táxi para me levar de regresso ao hotel. Praga é uma cidade para visitar sem mapa. É uma cidade para gerar paixão e regressões a várias épocas. Parece que está á nossa espera, aguardando pacientemente a nossa chegada, para se revelar e nos envolver em cada detalhe.

Diário de viagem, VIII/2017 

08 agosto, 2017

Edifício Cordeiro













Identificar ruas e edifícios, é assinalar a história de uma cidade, é sublinhar a identidade local. É como passar rimmel pelas pestanas, tornando-as mais belas e elevando o nosso ego. Em Praga tudo se encontra bem assinalado e juntamente com a identificação das ruas, podemos encontrar os níveis de cheias dos rios Elba e Moldava, permitindo-nos avaliar e imaginar uma cidade inundada de água e outras placas que certamente os praguenses entenderão. Mas o invulgar deste registo é o facto dos edifícios antes de terem numeração, eram identificados por um elemento decorativo colocado na parte superior da porta principal. A casa cordeiro, é a que está assinalada nesta imagem, com o desenho emoldurado de um cordeiro, com paisagem de fundo e um elemento heráldico na parte inferior. Uma identificação muito naif que dá brilho a esta cidade.

Diário de viagem, VIII/2017    









   




07 agosto, 2017

Aguardando Kafka

São 7h da manha, chego à janela de uma cidade que se abre para mim. Ensonada digo.lhe bom dia, e abraço.a. Recuo para um dia de primavera, lá longe em que se festejava a liberdade. Tal como eu era jovem, sonhadora, com flores nos cabelos e muito determinada a cumprir os meus ideais. (Primavera de Praga)
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Sentada numa esplanada, na frescura possível da sombra de um sol ardente, penso no bizarro da vida, no imprevisível, naquilo que nunca poderia acontecer, mas que acontece. Sinto.me surreal, aguardando Kafka que deve chegar a qualquer momento, metamorfoseado de um insecto qualquer com aroma a Trdelnik. Pausa para saborear um pecena kachna. Faca e garfo aí vou eu. Uhhhh delicia! 



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Encerro o dia pela noite fora entre os reflexos do Elba e do Vitava, de queixo em repouso sobre a minha mão esquerda e sonho sonhos já acontecidos e outros que poderão acontecer. Recordo o paganismo dos eslavos lido num livro já sem nome na minha memória, os cristãos e os judeus.... e eu eternamente procurando de onde sou.
Diário de viagem VIII/2017

Café Alba

Sento-me no café Alba, vigiando as escadas que dão acesso à igreja mais popular de Praga, Igreja de Nossa Senhora Vitoriosa.

Sobem e descem às centenas, pessoas de todo o mundo, crentes e ateus, para homenagear, o Menino Jesus de Praga  -  estátua com estrutura de madeira e enchimento de cera, ícone de devoção de muitos católicos. Reparo num casal de idosos, ela com mobilidade reduzida, que chegaram de táxi. Falam espanhol da América do Sul. Têm ainda uma dezena de escadas para subir. Ela arrasta-se
Um menino vaidoso que troca de roupa várias vezes e cujos vestidos estão aqui também expostos numa sala da torre desta igreja barroca. 
Ele é ouro, ele é prata, ele é brilhantes, sedas, veludos, bordados e brocados. O objecto em si não tem nada de especial, há cópias bem mais giras, em todas as montras da cidade.
Aprecio a devoção e a fé e acho piada ao Menino, parece um boneco com o qual as meninas religiosas vestem e despem… o poky game do barrocão.
No interior há uma pequena imagem com a bandeira brasileira – um verdadeiro ícone internacional..
Encontro aqui o primeiro de vários…. Não sei como lhes chamar…. Penitente, dobrado de quatro com os antebraços e joelhos apoiados no chão, pedindo esmola. Permanecem horas nessa posição. O que será isto? As práticas sadomasoquistas das religiões que me convertem em afastada e observadora crítica.


Diário de viagem, VIII/2017


25 julho, 2017

A lealdade anima-me,
A fome deprime-me,
A arte inquieta-me,
A arrogância revolta-me,
A paciência engrandece-me,
A guerra tolhe-me,
A liberdade fascina-me,
A mentira enoja-me,
A paixão transcende-me.

AQ

08 julho, 2017

O FUNK DO PEDRO ABRUNHOSA

Experienciar um concerto de Pedro Abrunhosa é sempre bom e fica registado na nossa memória para sempre. Existem sempre dois espectáculos, o do palco e o que acontece entre o público. Todo o mundo sabe as letras, canta, dança, responde aos desafios interagindo com o Pedro, como se este fosse alguém muito próximo de nós, fazendo parte da nossa identidade. E ele de facto faz parte de nós, pois a sua música, a sua voz, faz-se presente em diversos momentos da nossa vida. É exactamente como ele diz, a música anula barreiras e une-nos.
Hoje aconteceu de novo, desta vez ao ar livre, não permitindo um certo intimismo que se gera nos espaços mais pequenos, mas a entrada livre dá a oportunidade de participação a muitos que não têm outra forma de o fazer.
Obrigada Pedro, por voltares mais uma vez ao Reino Maravilhoso, acompanhado sempre de uma mensagem de paz e de amor, iluminando o nosso mundo interior.
Vivemos tempos de esperança e a partilha da tua música faz-nos acreditar ainda mais em que este país, ainda é um projecto possível. O momento de evocação dos que perderam a vida há dias tentando salvar-se, foi profundo e emocionante, mas houve outros momentos ternos e irrepetíveis. Registo aqui o momento em que um casal de certa idade que assistia ao concerto à minha frente, se abraçou ternamente ouvindo uma certa música, ainda conseguindo vislumbrar romantismo através das tuas palavras. Foi lindo.

Pedro volta sempre.   Fazes-nos bem!





05 julho, 2017

Aguardo pelo Messias

Aguardo pelo Messias
         Copiei esta imagem da internet numa rede social. Não sei quem é o autor, alguém copiou de alguém e eu copei descaradamente a seguir, mas sei com certeza que a sua profissão é ser professor. Só um professor entende esta imagem que é um verdadeiro pedido por socorro. 
         Um professor para além ensinar e tentar educar (escrevo “tentar”, porque a educação adquire-se em casa), lida com uma rede de problemas de grande complexidade que é o reflexo da nossa sociedade, o bom e o mau, dispondo de poucos recursos e reinventando estratégias para ser bem-sucedido, através de práticas resultantes de um trabalho intrínseco à arte de ensinar e em paralelo, que consta em planear, articular, partilhar, avaliar, acompanhar, reflectir. Até aqui, tudo bem… mas exige-se algo verdadeiramente esgotante, sem grande visibilidade e utilidade, o registo, a prova, a evidência em como fez e em como desempenhou bem o seu papel, com se ensinar se convertesse num processo jurídico onde é necessário reunir provas consistentes para exibir no tribunal. Ao professor não basta esgotar-se, falando alto para se fazer ouvir, não basta interromper o seu raciocínio de cinco em cinco minutos, para mandar calar, para evitar confusão na sala, para captar a atenção dos distraídos, para dar autorização para ir ao WC, para… para…, não basta fingir que não ouve comentários desagradáveis e rudes proferidos a baixa voz, não basta estimular aqueles que de facto querem aprender, não basta proteger os tímidos e os mais sensíveis, não basta refrear os mais rebeldes, não basta servir de mãe, de pai, de psicólogo, de sociólogo, de pedagogo, de enfermeiro, de mediador de conflitos, de amigo e de cúmplice, não basta cuidar da socialização e das interações em grupo, não basta! o professor ainda deve ser uma máquina de produção de documentos supérfluos, teoricamente correctos e necessários, mas que na prática adormecem e apodrecem nos dossiers, reais ou digitais.
         Os documentos são imensos e agora felizmente já é tudo informatizado, reduzindo substancialmente a quantidade de papel - as árvores agradecem. A grande papelada que a imagem refere, já é uma papelada digital, mas que não deixa de ser uma catrafiada de documentos distribuídos por pastas, subpastas e mini pastas que carregamos no computador pessoal e que de pouco serve.
         As salas dos professores, onde se respirava alguma tranquilidade entre uma aula e outra, onde todos carregavam energias para ir à luta, foram transformadas em algo parecido com um call center, onde os professores se sentam aproveitando o tempo para teclar desesperadamente documentos para entregar aos coordenadores, aos diretores, ou aos encarregados de educação, olhando apenas para os monitores, alucinados com as evidências da sua competência. Documentos que ninguém mais lerá. Eventualmente se houver uma queixa ou uma reclamação, todos terão informação escrita para exibir, ninguém lerá, mas importa ter. Quem tem, é competente, quem não tem é um calaceiro incompetente. Não interessa se o professor tem raciocínio, criatividade, memória, experiência, se reflete sobre os desafios do dia-a-dia e tem a arte de gerar empatias com os alunos, tentando dar a melhor resposta e o melhor de si. O que interessa é ter muitos documentos para exibir e em ordem. Quem lê os documentos? Quem cruza a informação? Poucos ou ninguém.
         É necessário ter papelada para mostrar e manter os professores ocupados. Porque os professores são duma raça, que gosta de praia e de piqueniques em todas as estações do ano e são os campeões das pontes e das esplanadas. Ai do professor que dá uma negativa, se não tiver tudo bem documentado e justificado! Ao aluno não basta não estudar, perturbar as aulas, ter testes negativos e estar a marimbar-se para escola e para o cota do prof. São necessárias análises, reflexões, estratégias, objectivos, articulações, partilhas, reforços positivos, diálogos assertivos, motivações personalizadas, trabalho colaborativo, comunicações aos DTs e aos encarregados de educação… e não basta praticar-se é necessário escrever-se e repetir-se em diversos documentos. E cada caso é um caso, feito de domínios sócio-afectivo, cognitivo e psico-motor… agora multipliquem por 170 casos/professor, cada um com pai e mãe, ambos a achar que o professor tem boa vida, é um baldas, é um verdadeiro vilão cheio de preguiça e incompetência, lerdo das ideias, não faz nada, passa a vida em férias e faz greves durante o ano sempre em momentos errados, e ainda por cima faz queixa dos seus queridos e adorados filhinhos que são sempre uns anjinhos e as más companhias é que lixam tudo (esta é a imagem que a sociedade infelizmente resolveu construir nos últimos anos sobre os professores). Como pais brilhantes, não lhes ensinam que se diz com licença, faz favor, obrigado, bom dia e até amanhã, que não se dizem palavrões e que é obrigatório respeitar o outro.    
         Mas voltando à papelada… no meu tempo (não gosto da expressão, mas por vezes é imperiosa), quando na pauta estava escrito 10 valores queria dizer que passei à rasquinha, e ia ter os meus pais de trombas por umas semanas, quando tinha 8 valores queria dizer que tinha andado a vadiar o 1º período e que os meus pais iriam suspender tudo o que me desse prazer até eu recuperar, e quando tinha 14 valores, eu respirava de alívio, mas os meus pais ainda iriam perguntar porque não tirei melhor nota e quando tinha 17 valores, finalmente os meus pais sorriam. Numa escala de zero a vinte, com os números alinhados numa pauta, eu sabia exactamente onde tinha acertado, onde tinha errado, e os meus pais não precisavam de mais nenhuma explicação ou esclarecimento.

         Ai, ai papelada… aguardo com certa urgência pelo Messias do ensino, que entenda quão nobre é a profissão que prepara a sociedade do futuro. Devolvam-nos o tempo que é necessário para nos despirmos dos problemas da escola, o tempo para reciclar informação, o tempo para regenerar a mente e a paciência, o tempo para actualizar conhecimento. Devolvam-nos a dignidade, pois os nossos alunos são os vossos filhos!
Anabela Quelhas
Publicado em NVR a 5/07/2017

13 junho, 2017

Anita nas folias juninas

Anita nas folias juninas





         Cheira a farturas, bem ensopadas em óleo e açúcar, já há vários dias, anunciando o solstício de verão reflectido nesta modernidade dos carros de farturas estacionados nas ruas dos centros urbanos, escondendo jardins e edifícios barrocos interessantes. Ai de quem lhe enjoe o cheiro, pois terá que conviver com esta realidade durante o mês de Junho, quer queira, quer não, e passados uns dias, terá como paisagem, os doces da Teixeira fabricados em Baião, agora misturados com fatias de Resende e os pormenores púbicos de S. Gonçalo de Amarante. 
         Como som de fundo, temos o que há de mais popularucho e pimba, com letras que fazem corar o próprio Quim Barreiros, anunciando carrinhos de choque, e agora a vanguarda da diversão, resultante da tecnologia carrosseleira, onde o cinto de segurança é essencial, tal como ter o estômago vazio, como se fossemos fazer uma endoscopia digestiva no hospital mais próximo, para não fazer feio, vomitando o hambúrguer, a bifana, a bejeca, e a tal fartura que assentou mal com o café, sobre os mirones que ficam em baixo.     
         As festas juninas são mesmo assim!  
         Afastei-me propositadamente das noivas de Sto António – não vá o diabo tecê-las!!! Alguém me pode acertar com o bouquet de noiva… às vezes pareço ter um íman para atrair complicações. Vi-as ao longe, fora de alcance da maior atleta olímpica lançadora de bouquets, discos ou dardos, vestidas cada uma com 50 metros de renda de Sevilha, carregando consigo baús cheiinhos de amor para dar, cumprindo um sonho de subir ao altar nas festas de Sto António, mesmo que em grupo, com vestido a arrastar, véu e grinalda brancos ou pérola. Mas que bem!!! - agora com muita selfie, muita base, muito rimmel, muito eye liner, muito esfoliante, muito gel, muita extensão, muito silicone, muito babyliss, muito makeup, muito reafirmante, muito under bra, muito fio dental, muito fitness, muito adelgaçante, muita tatuagem, muito sérum, muita barba de 3 dias, muito jet bronze, muito laser… (ufff) realizando as fantasias mais imaginativas a que qualquer mortal tem direito e que consegue realizar com ajuda do chinês da esquina.
         Meu  Deus dai-me juízo até à hora da morte!!!
         Oh meu Santantoninho, tu divertes-te à brava, à custa destes encantamentos passageiros de nós pecadores de todos os dias… quantos pontos fazes por cada um, no reino monótono do céu? Deve haver aí competição séria, tipo caça ao Pokémon, só que transformada em caça ao casamento de Sto António. Não vês que nunca ninguém foi feliz para sempre, mesmo os abençoados por ti, e aqueles que dizem que sim, simplesmente mentem?… é muito mais fácil mentir do que assumir a verdade. Dá muito menos trabalho!
         Sabes também muito bem, que o casamento não é solução para quem tem problemas financeiros! Sempre ouvi dizer que em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão!
….  
         O calor mantem-se depois das 19h anunciando uma noite excelente para a folia, não precisarei de carregar o casaco e sim a garrafa da água que depois de ingerida se descartará no lixo.
         Optei por comida leve ao jantar, para que o vestido acetinado cheio de brilho possa ficar justo, mas sem apertos e para que não sobre nada para fora, do tipo estou a asfixiar, deixai-me tomar ar puro do lado de fora do decote ou da cava - 3 sardinholas e pimentos, para evidenciar o tempo deles, deglutidos com um branco fresquinho de Terras da Maria Boa. (ok, pronto, uma cola zero calorias)
         Rego o manjerico, ponho a erva-cidreira à`janela, o alho-porro já está encomendado, assim como o lugar na esplanada para na noite de S. João saborear o caldo verde, e o púcaro negro para o S. Pedro, ajeito a pestana e o báton, penteio-me, deixo um cravo vermelho a navegar pelo meu cabelo sob a luz do luar e cá vai a Anita para a folia. Já que é assim, fazer o quê? Aproveito para me divertir.

Meu Santo António se tu vires passar
Algum rapaz sem par
Sozinho pela rua
Vai-lhe dizer que eu já tenho um balão
Um arco e uma canção
E a imagem tua
Faz um milagre, dá-me um lindo par…

(Cuca Roseta)