11 novembro, 2018

CATAFALCO . Sé de Luanda





Dos catafalcos erigidos em Portugal e nas suas colónias, restaram alguns projectos, entre os quais um, merece atenção pelo remate de coroa real fechada sobre volutas, trata-se daquele, desenhado pelo sobrinho de Santos Pacheco para a Sé da cidade de São Paulo de Luanda em 1751. Este carpinteiro de nome ainda desconhecido, foi degredado para Angola durante o governo de D. Antônio Soares Portugal, Conde do Lavradio, que dirigiu as exéquias em honra de D. João V (pela sua morte).

No catafalco da Sé de Luanda uma pequena coroa real fechada sobre seis volutas rematam, juntamente com dois anjos sobre os ressaltos fronteiros do entablamento, o baldaquino, que têm como elementos de sustentação, oito colunas coríntias de fustes lisos com o terço inferior destacado com estrias helicoidais, sendo o seu limite cingido por pontas de folhas.

No centro do entablamento fica a segunda coroa real fechada de onde pendem cortinas delgadas, sustentada por anjos esvoaçantes, ficando a terceira coroa real sobre almofada por cima da Essa. O carácter desta solução são as volutas que evoluem em curvas e contracurvas, em três secções, além das oito colunas.




Fig.2


A configuração do catafalco de Luanda deve muito ao desenho de altar elaborado por G. M. Oppenord (Paris1672-1742) e publicado no seu livro “D’Autels et Tombeaux” (Fig. 3).

 Neste altar concebido para um ambiente doméstico palaciano, quatro colunas compósitas de fustes lisos sustentam um entablamento rematado por quatro volutas que sustentam uma pequena coroa real fechada que tem por baixo dois querubins. As volutas deste baldaquino são sinuosas ou ondeadas, podendo ter influenciado o formato das volutas do catafalco de Luanda, que entretanto, têm formato mais expressivo e movimentado. 


Fig. 3

  
Figura 1 - Catafalco das pompas fúnebres de D. João V, erguido na Sé da cidade De São Paulo de Luanda, projeto do sobrinho de Santos Pacheco. Arquivo Histórico Ultramarino - Lisboa
Figura 2 - Planta baixa do catafalco da Sé de Luanda - Arquivo Histórico Ultramarino - Lisboa
Figura 3 - Proposta para altar doméstico, gravura nº 5, do Livro de altares e túmulos de G. M. Oppenord. Faculdade de Belas Artes da UP – Portugal.

 Fonte: adaptação realizada a partir de:

A GÊNESE FORMAL E SIMBÓLICA DO RETÁBULO DE N. SR. DO BONFIM DA BAHIA E SEUS DERIVADOS, Luiz Alberto Ribeiro Freire, revista OHUM (revista do programa de pós graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia).

  
Catafalco ou Essa, estrado erguido numa igreja para nele se colocar o caixão de um defunto, enquanto se procede às cerimónias fúnebres.
 Voluta, ornamento enrolado em espiral.
 Entablamento, conjunto de elementos horizontais assentes em colunas ou em pilares.
Baldaquino, remate arquitectónico ou escultórico que resguarda um portal, um altar, ou escultura importante.
  
A. Quelhas

07 novembro, 2018

I'm your mirror

I'm your mirror
            Visitar a exposição de Joana Vasconcelos "I'm your mirror", no museu Guggenhein em Bilbau, requer fazer cerca de 590 km por estrada, apenas com uma portagem em território castelhano e várias no Norte de Portugal. E eu fiz.
            Joana de Vasconcelos gera urticária em alguns artistas plásticos e críticos de arte portugueses, virando uma artista “maldita”, combatida com Fenistil verbal. Dizem que as suas esculturas são feitas de sucata e que não têm valor artístico. Talvez seja a arte pimba.
            Não percebo esta antipatia, este cerrar de fileiras em relação a uma mulher que faz esculturas inesquecíveis, consideradas em todo o mundo, usando uma escala grandiosa. Torna-se impossível negar o impacto que gera nos observadores.
            Não quero acreditar que esta negação tenha a ver com o aspecto físico da artista. Ser gorda não é fácil. Quando uma gorda ganha destaque é mesmo por mérito. Prefiro não perceber do que acreditar neste bullying idiota.
            Já vi esculturas gigantescas de objetos utilitários realizadas em fibra de vidro e betão, em que os mesmos críticos teceram grandes elogios. Qual é a diferença? A diferença é que a obra de Joana tem significados e empatias muito mais interessantes, provocando a tal urticária inexplicável do contragosto ou do desgosto, acompanhada de sorrisinho IIC (irritante, irónico e condescendente). Será que irrita o terço de Fátima? O Siza Vieira também andou por lá. Parece ser proibido unir, o kitsch, o trabalho artesanal, os objectos utilitários e a criatividade numa postura irreverente e com algum conteúdo reflexivo.
            Ainda por cima uma mulher grandona, gorda e exuberante, que não encontra a forma certa e cinzenta de vestir!
            Pobre do Duchamp se tivesse nascido português, encarnando uma mulher gorda ao lado de um mictório. E Picasso com a cabeça do touro feito com o selim e o guiador de uma bicicleta? E a mulher de Miró?
            A primeira vez que vi uma obra de Joana foi no museu Berardo e outras se seguiram. Sorri com o candelabro, tão delicado e feminino, feito de tampões, tão contestado nesta sociedade falsamente puritana, ou então a escultura com cães que esteve numa exposição do riso em Lisboa.
            O que dizer do cadeirão Aspirina, o sofá Valium, os sapatos Dorothy, o solitário, a mascarilha espelho, o helicóptero pluma, as esculturas de Bordalo Pinheiro, o cacilheiro, o bule, o coração independente, o piano, o cão malmequer, os mictórios geminados, a pistola Call Center e as Valquírias? Eu aprecio.
            Felizmente a artista revela-se um pouco indiferente às críticas empedernidas e avança. Joana Vasconcelos, desde 1994, reúne uma equipa, que a ajuda a concretizar as peças imaginadas, formada por senhoras idosas, que fazem crochet, de costureiros, serralheiros, trolhas, engenheiros e divulga aspectos culturais portugueses – o azulejo, Bordalo Pinheiro, a filigrana e a arte popular, que de ouro modo estariam confinados ao nosso pequeno rectângulo. Acham pouco?
            O reconhecimento internacional chegou com a exposição realizada no Palácio de Versalhes (primeira portuguesa que ali expôs individualmente), com a Bienal de Veneza e agora com o Guggenheim de Bilbau (também a primeira portuguesa).
            Tenho o hábito de observar quem observa e sorrir perante as reacções de agrado e surpresa, completamente seduzida por uma obra de arte. No Guggen, vive-se uma escultura, por dentro de uma Valquíria gigante, utilizando diversos espaços que o museu oferece no seu átrio central. Todos os visitantes parecem jovens irrequietos usufruindo da cor, do tacto quando possível, das texturas dos materiais e da escala. Conversam, trocam comentários e reforçam verbalmente certos detalhes. O átrio enche-se e não há vontade para sair dali.
            Alguns consideram que ela é, ou era, a artista do regime. Resta-me apenas dizer que os governos mudam e a obra dela permanece, transportada de um lado para o outro, conquistando o mundo. Permanece também no meu arquivo memorizado, envolta em algum carinho que dedico a todas aquelas mulheres que contribuem para mostrar a arte no feminino.
            Não percam!

Publicado em NVR - 7/11/2018

13 outubro, 2018

Anita vai à farmácia


Anita vai à farmácia
         Anita era cliente de uma farmácia localizada a rua Aureliano Barrigas. Com urgência ou não, a qualquer hora, costumava estacionar o seu automóvel, junto do passeio da mesma e dirigia-se à farmácia adquirindo os comprimidos para combater a gripe, os antipiréticos para anular a temperatura que galopa, os xaropes para a tosse persistente e os comprimidos para a maldita ciática. Tem sido assim ao longo dos anos até que chegou o progresso e o progresso é bom, portanto há que aderir e elogiar.
         Um dia a Anita não pode mais estacionar junto à sua farmácia.
         Credo! E depois? Ninguém morreu! O tráfego flui melhor.
         Procurou o lugar de estacionamento reservado da farmácia e encontrou-o ocupado, pois não era a única cliente interessada nesse espaço. Decidiu procurar outro sítio onde estacionar, aproveitando para conhecer melhor a cidade… junto ao Jardim da Carreira - tudo ocupado - , quinta de S. Pedro - não se distinguem as faixas viárias dos passeios, nem dos sítios onde é permitido estacionar -, em frente à Escola Diogo Cão- sempre lotado -, largo de S. Pedro - não dava -, Pioledo - nem pensar -, Av 1º de Maio – esgotada -, entre aos “caixotes” da avenida Aureliano Barrigas - impensável. Que óptimo!
         Os lugares mais próximos, que a Anita previa encontrar lugar para estacionar foram o parque de Codessais, o largo da Estação, o largo do Cemitério de Sta Iria, o parque de estacionamento da Escola das Árvores, os parque do Lidl e Continente e o parque de estacionamento da Avenida Carvalho Araújo, este sem garantia de acesso.
         Cidade grande é assim e a Anita gosta. Movida urbana é com ela mesmo.
         A Anita optou pelo parque de Codessais e ligou para um táxi, para a transportar para a farmácia. Só não há solução para a morte.
         Eram 18h30m. O táxi tardou em chegar, o chofer vinha feliz da vida pela corrida ser tão curta, imaginava um frete para a Régua, Chaves ou Sta Marta… saiu-lhe uma “corrida” com menos de 1km. Na boa! Poderia jantar mais cedo com a família! Olhava a Anita com cara de sorriso afiambrado nas orelhas e emitia comentários agradáveis tanto sobre o trânsito congestionado, assim como sobre as faixas de rodagem cada vez mais apertadas e sobre as família dos que decidem sobre as vias de comunicação desta Royal Village, em relação às quais parecia haver muita intimidade. Andou ali às voltas para se apresentar pela esquerda na rotunda de Codessais e conseguir realizar um check-mate politicamente correcto aos que estavam na fila, que se estendia até a Araucária, conseguindo uma melhor posição na mesma. Fiquem espertos! Aprendam, aproveitem todas as oportunidades de aprendizagem! A fila avançou em marcha lenta, muito lenta; entretanto Anita puxou do tricot e foi puxando mate e laçada, mate e laçada, no banco traseiro do táxi, podendo dispor dos novelos de diferentes cores em filinha ao seu lado. O chofer tirou do porta-luvas umas folhas para resolver problemas de Sudoku, tão aconselhados para contrariar o Alzeimer, um palito para retirar o resto do salpicão ingerido à merenda, que se prendia na dentadura postiça e ligou o rádio na Antena 3. Ambos disfrutaram do programa “A prova oral” do Fernando Alvim, com um tema sobre Sexo Exótico, o que fazia todo o sentido numa fila de trânsito, dentro de um táxi, naquela situação, a Anita já um pouco largada na idade e o chofer, com tufos a sair das orelhas, um quadro digno de um hardcore de Sá Leão.
         A Anita chegou à farmácia que entretanto fechou e a “corrida” continuou em sentido inverso, divertida, animada e altamente formativa.
         Anita não sabia como poderia levantar os famigerados medicamentos reservados, pois no dia seguinte, no outro e no outro, a animação urbana seria igual com tendência a crescer. Pegou no telemóvel e obviamente cancelou a reserva apelando para aquelas desculpas da praxe, sinceras, pragmáticas e incontornáveis, que contribuem muito para a cidadania de todos, dignificando-nos: tive que viajar, faleceu uma pessoa da família, tive que me deslocar a Viseu, o meu médico alterou-me a medicação sem eu contar… não dando tempo à formulação da resposta do outro lado e já se despedindo e desejando felicidades para todos.
         Sempre educada a nossa Anita!
         No dia seguinte, a ciática apertou e Anita dirigiu-se à farmácia mais distante do centro urbano, pois o tricot terminou e esta seria a sua 4ª farmácia que utiliza nesta cidade - é sempre bom arejar e conhecer pessoas novas atrás de um balcão de farmácia. 
AQ
Publicado em Notícias de Vila Real - 10/10/2018

31 agosto, 2018

Ir ou não ir

Ir ou não ir

         Ir, ou não Ir de férias. Eis a questão que se coloca a muitos casais neste verão infernal. Todo o ano, cheios de rotinas, de horários sobrecarregados, sempre a correr, enfrentando filas de trânsito, tratar das crianças, exige umas férias, que serão o oásis desejado na vida das pessoas.
         - Môôor, vamos de férias para uma praia com os garotos, descansar, fugir desta vida citadina frenética, andamos tão cansados, ainda temos dois meses para arranjar alojamento…
         - Ok Krida, vou preparar tudo com tempo, alinhar a direcção e trocar dois pneus do carro… achas que faça depilação aos ombros?
         - Claro, caso contrário mostrarás o Carpélio que há em ti. Eu vou fazer laser e jet bronze para levar já uma corzinha e a partir de hoje, só como saladas.
         Tudo bem planeado pelos casais na expectativa de que irão viver uns dias românticos no Éden, pelo menos é com isso que sonham todas as noites - reservas pela net, unhas de gel, dieta, fato de banho novo, corte no barbeiro, madeixas no cabeleireiro…
         Chega o dia terão de atravessar Portugal para chegar a uma praia localizada bem a sul, para assegurar a água menos fria. O automóvel fica acanhado, com as malas, as tralhas da praia e a prancha gigante. A porta da mala consegue fechar-se e as crianças têm que levar o colchão de ar debaixo dos rabiotes apesar dos protestos.
         Os primeiros 20 km correm bem, depois o banco de trás revela-se insuficiente para as duas crianças que disputam o espaço ao milímetro, beliscando-se dando calduços, mordendo-se e proferindo constantemente, “chega pra lá”, transformando o habitáculo numa verdadeira batalha campal. Só se interessam pelo que vão comer e quanto tempo falta para chegar à área de serviço.
         Viva as férias!
         Relaxar, carregar baterias, viver uns dias fixes à beira-mar, sem stress, dormir muito, usufruir da família…
         Chegam finalmente. Saem de um edifício de apartamentos e entram num edifício de apartamentos, o que mudou foram apenas os vizinhos, que aqui são bem mais barulhentos e o espaço que é menor. Ou saem de uma moradia e entram num apartamento, o que de facto não se entende. Normalmente as férias têm menos conforto do que usufruem o resto do ano, o que é bizarro e faz pensar.
         Mas férias são férias!
         O que interessa é relaxar.
         -Oh diabo, primeiro dia de praia, chegámos tarde e com uma dor de cabeça do camandro por falta de cafeína logo às 7 horas da manhã. A praia está cheia, quase não sobra um sítio para estender a toalha! Teremos que vir mais cedo, toca a levantar de manhã, minha gente!
         -Hummm a barriga cresceu, afinal os abdominais não resistiram a tanta cerveja! - pensa o chefe de família.
         O passeio à beira-mar para admirar as garinas é feito com o sacrifício de um encolhimento de barriga permanente até faltar o ar.
         … e os putos continuam a chatear, atiram areia para todo o lado, sempre a guerrear e a querer bolas de berlim, gelados e línguas da sogra – estomagos sem fundo!
         Keep cool! Não stresses, pá! Vamos tirar umas fotos com o telemóvel, para mais tarde recordar. Um, dois, três, banana, um, dois, três, cheese,… o mesmo de sempre, um momento de fingimento de alegria e felicidade, agora também agrupada numa selfie.
         Este ano, vamos sempre jantar fora, para evitar a canseira da cozinha, compras, o cheiro de cebola frita…. Filas intermináveis e as ementas em inglês, tiram-nos do sério. Então a caldeirada, as iscas de fígado, a sardinha e a feijoada? Querem ver que o empregado de mesa insiste em falar connosco em inglês? Comer hambúrgueres e combinados, tudo bem, mas ter o azar de encontrar montes de pessoas que se cruzam connosco o resto do ano e ter que cumprimentar e falar do tempo, pendurar um sorriso de orelha a orelha, falar do alojamento e fingir que estamos no paraíso, as melhores férias de sempre. Fantásticas. É demais! Todos decidiram vir para este lugar, como se não houvesse outra praia no mundo. Que azar!
         -Môôôôr vamos pedir ao pintor para fazer o retrato das crianças? Que giro, oh são caricaturas, ai que engraçado!
         Lá vão as crianças fazer pose, uma delas insiste em por cornos à outra. O resultado é sempre o mesmo: uns primos afastados das crianças numa caricatura manhosa, que todos aplaudem e acham admirável.
         Para fortalecer as férias vamos comprar ricuerdos Ti Maria nas lojas ou nas barracas, enchemos um saco de pedras contra o mau-olhado, ímanes para o frigorífico, bangla dans, ray bans de 3 euros, grãos de arroz pintados que só os míopes veem e outros pechisbeques horrorosos, que não prestam para nada e que se compram por falta de alternativa e porque o sol nos põe a pensar devagar.
         E as férias terminam numa viagem de regresso ainda mais esgotante, com o sol a bater continuamente no braço esquerdo do condutor, uma odisseia com as áreas de serviço cheias, com fila para os WC e nós mais cansados e desiludidos com estas maravilhosas férias que desejámos e imaginámos ao longo do ano. O bronze nunca falha, valha-nos ao menos isso, porque as fotos,…  socorro, o cenário tinha sempre uma mama fora do soutien, um rabo com celulite, uma garrafa de plástico abandonada, umas pernas com varizes, uma pirisca ou uns pés com joanetes, dos nossos companheiros de infortúnio de praia lotada.   

Publicado em NVR em 29/08/2018    

26 agosto, 2018

9ª Bienal Internacional de Gravura do Douro 2018





 Gosto
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 Gosto


 Parece um Bosch, com centenas de histórias e promenores
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