07 junho, 2018

EUTANÁSIA


Eutanásia

          O dicionário esclarece
Eutanásia - Direito a uma morte sem dor nem sofrimento para doentes incuráveis, praticada com o seu consentimento, de forma digna e medicamente assistida.      

Os legisladores acrescentam: a pedido do paciente, repetidas vezes e num enquadramento médico/legal bem estudado, respeitando a liberdade do paciente em decidir sobre a sua própria vida.
         A eutanásia é um tema polémico tal como o aborto, mas que precisa de legislação.
         Considero que cada caso é uma caso, não me voluntario para mudar a opinião de ninguém, nem quero, e acrescento que as opiniões e conceitos se vão alterando conforme as situações que vivemos, e consoante os tempos. Respeito as opiniões distintas da minha e respeito que cada um tem um tempo diferente para perceber e se integrar na mudança.
         Não passou na assembleia mas irá passar no futuro.
         Recuso-me a confrontos verbais, pois normalmente a discussão incendeia-se e parece que dum lado estão os bonzinhos e do outro os assassinos, que atentam contra a vida dos outros, especialmente a dos velhinhos. Entendo que há 3 grupos de opinião, que devemos analisar:
1 – O grupo que se considera sempre a favor da vida, seja em que situação for, por motivos religiosos, filosóficos ou por pura teimosia e que nada os demove. Acreditam que quanto mais sofrerem na terra, mas felizes serão no céu, e portanto qualquer esclarecimento e ou informação é mal sucedida.
2 – O grupo que considera o sofrimento humano, as diversas situações se sofrimento (porque há várias), a liberdade de cada um em por termo à vida, e essencialmente a grande vontade em aliviar o sofrimento dessas pessoas. O sofrimento pode ser resultado de saturação psicológica — alguém que está imobilizado numa cama sem autonomia— ou físico — vivendo um estado terminal de uma doença, em que já não há cuidados paliativos ou condições que possam tornar a situação tolerável. É disto que se trata. Os cuidados paliativos não resolvem todas as situações, nem sempre são eficazes e há pessoas que abandonam a vida num sofrimento atroz. Para defender a vida é urgente perceber como se morre. Cada caso é um caso, cada doença tem as suas características, cada pessoa tem mais ou menos resistência à dor, e cada final é uma morte diferente. A maior parte das pessoas nunca assistiram à morte de ninguém e provavelmente nunca viveram a escalada de desespero e sofrimento das últimas horas ou dos últimos dias e iludem-se com possibilidades que nem sempre têm sucesso. A abordagem teórica do sofrimento está muito distante de viver cada segundo em desespero. O grupo que considera a eutanásia um último recurso e não um propósito, não é formado por assassinos, mas por pessoas com muita decência que após esgotadas todas as alternativas paliativas, concorda em poupar o sofrimento dos outros, por compaixão, por humanismo, recorrendo à eutanásia legalmente e medicamente estabelecida e assistida. 

Sou a favor da vida, não sou assassina e é neste grupo que me situo. O problema existe e não vale a pena contrapor que os cuidados paliativos e a família resolvem, porque não é verdade. Muitos de nós temos a ideia que a medicina associada à farmacologia, pode tudo, resolve tudo. Grande erro! Quando viverem uma situação de doença grave verão que as nossas expectativas caem por terra rapidamente. E se temos esse problema é melhor legislar, saber quando e como, do que enterrar a cabeça na areia e pronto. Há que estudar diversos casos, estabelecer limites e saber classificar cada caso. Há químicos que aliviam dores mas provocam complicações que levam à morte – paragem respiratória por exemplo - neste caso é eutanásia ou é estratégia paliativa. 

3 – O grupo que considera também, os casos em que, os doentes nem sequer estão em condições de decidir nada, porém, estão em grande sofrimento, também em estado terminal. E este é ainda o grupo mais dramático, pois estar impossibilitado de comunicar não impede que gemam com dores e que as sintam.
Também acho que se deve atender a estes casos.

Considerações finais: Não sou médica, já vivi de perto algumas situações familiares muito dramáticas que se for eu a vivê-las, agradeço que me ajudem a resolvê-las, mesmo que isso signifique viver menos 1 dia, 1 semana ou 1 mês.
Enquanto há vida há esperança, é algo que conforta, mas nem sempre se verifica, e a espera pode ser insuportável.
Há doenças e momentos que nós, leigos e ignorantes, achamos indignas e de sofrimento e pensamos que não poderá haver pior, mas iludimo-nos que com ajuda serão suportáveis. Mas há sempre pior e pior, até que os nossos órgãos abrem falência progressiva, incontornável e irreversivelmente num mar de dor e sofrimento, que se torna misericordioso que se ponha um ponto final, se essa for a vontade repetida do doente.
Legalizar não significa que ninguém vai obrigar ninguém, mas que tudo pode estar bem claro a nosso favor. 
A eutanásia já é uma prática, mas age-se de forma camuflada, clandestina e isso sim é que se torna perigoso.
Quando se desliga a máquina que nos sustenta a vida? Quem decide? Por quanto tempo? Quem avalia se suspende ou não um tratamento? Quando o alivio da dor poderá comprometer a vida do doente de forma indirecta, o que se deve fazer?
         Não passou, mas passará!

25 abril, 2018

BEM OS VEJO!


Bem os vejo!

            Tenho a minha rua em obras desde Novembro.
            Abrem buracos, retiram alcatrão, juntam areia, juntam pedras, movimentam máquinas para um lado e para o outro, fecham buracos, voltam a escavar os mesmos buracos, passam os fios de nível, arrumam carretas pás e picaretas no meu quintal, mudam a areia de sítio, impedem o acesso à minha garagem, fazem barulho… tubos empilhados, caixas de visita, condutas de betão encostados aos muros e a rua vai-se enchendo de terra vermelha… a ilusão de uma obra rápida, vai dando vez a uma espectativa inqualificável, do tipo vamos ver o que dá, depois vence o desânimo e o desespero.
            Em Dezembro compro umas botas de obra, com palmilha de aço.
            O vestíbulo da minha casa passa a ser o depósito de sapatilhas e de botas sempre cheias de terra, que se deposita aos carreirinhos consoante a textura da sola das mesmas.
            E o Natal chega.
            Os meus convidados têm honras de tapetes enlameados e tiras de cartão colocadas desde a rua até à porta principal. O Pai Natal estaciona o trenó em contramão na rua paralela, pois a rena Rudolfo recusa-se a entrar na rua em obras. É um Natal diferente para crianças e adultos e até hilariante. Não é todos os dias que vemos os sapatos altos de tigreza da tia Elza todos enlameados e a sua estola a varrer os montinhos de terra. Não é todos os dias que os meus convidados saem da minha casa a cantar o Jing Bells, com as mãos cheias de presentes e metam os pés nas poças de água, rematando com um valente “porra”.
            O S. Pedro esquece-se do mundo, arranja namorada nas redes sociais…. nunca mais fecha a torneira! A chuva instala-se, mais a potes do que na morrinha. Passo a ter uma mini lagoa à saída do portão e o meu jeep obriga-se a descobrir o anfíbio que existe dentro dele e começa a sofrer do síndrome do abandono pois fica com frequência numa rua qualquer a passar as frias noites de Inverno.
            Compro umas galochas e de guarda-chuva aberto, aproveito para fazer equilibrismo em cima do canal das águas pluviais. Todas as manhãs faço a minha exibição. Espanto-me com as minhas capacidades. Pareço a bailarina do circo lá a 5 metros de altura…
— Senhoras e senhores, estimado público, vamos observar a grande equilibrista no seu momento da manhã, no grande circo da vida.
            Os vizinhos vêm à janela, eu bem os vejo! São todos tímidos nenhum aplaude, mas lá no fundo, invejam-me.
            Os buracos multiplicam-se, abrem-se, fecham-se voltam-se a abrir, transporta-se terra para fazer rampas provisórias para alguém entrar ou sair de emergência das garagens. Escava-se de novo e tapa-se outra vez. O manobrador da máquina principal (escavadora), parece o maestro louco, sem aplausos, vira para um lado, vira para o outro, rotação completa, por vezes passa de maestro a dançarino de hip hop…
            Vou para o Reveillon e em vez de carteira de lantejoulas, levo um saco de plástico para poder trocar das galochas pelos sapatos e depois vice versa.
            No Carnaval visto-me de sereia - a grande sereia da Bila. Tinha mesmo que ser!
            Na Páscoa vou ao chinês e em vez de uns coelhinhos compro uns patinhos de plástico e coloco na lagoa.
            Compro outro par de galochas, porque alguma vez eu tenho de lavar as primeiras. Estas são vermelhas e os meus números circenses continuam ainda mais coloridos, por vezes enriquecidos por pequenos passos de dança com pulinhos para vencer charcos e charquinhos – desde o rombe de jambé até ao Jeté. (Não inventei, consultei o google brasileiro). Pontas, não, porque com galochas não dá. Penso que brevemente poderei ensaiar o lago dos cisnes, com meia dúzia de vizinhos…
            Estamos em abril e parece que finalmente se vê uma luz ao fundo do túnel. Não sei se é luz ou se é um comboio a avançar para mim. Em dois ou três dias e em duas fases, pavimentam a rua toda. Uma rua, não!  uma ruela com doze moradores, que mais parece um tubo de ensaio da construção civil. Malditos calceteiros, trabalham rápido e de cócoras, colocaram paralelepípedos de granito, certinhos, uns atrás dos outros, rápido demais. Acabam com parte da minha diversão. Escrevo parte, porque desconfio que ainda me irei divertir com o tal comboio que me tentará atropelar, pois esta comédia não está para terminar. Os meus números circenses posso faze-los numa rua perpendicular e em todas as outras aqui do bairro, que irão passar pelos mesmos trabalhos.
            Há uns anos tentavam convencer-nos que os trabalhadores da função pública e neste caso os camarários, eram todos uns calaceiros imprestáveis - dois trabalhavam e oito viam os dois a trabalhar - e por isso as obras públicas eram uma desgraça. O país não saía da cepa torta, por causa do Estado e dos seus preguiçosos e inúteis funcionários. Quando as obras públicas passaram a ser executadas pelas empreitadas privadas, havia a grande esperança que tudo mudaria… as empresas trabalhariam noite e dia, pois no privado não se anda a brincar e tudo seria muito mais económico, com mais qualidade, mais rápido e mais eficiente.
            Bem os vejo!

Publicado em NVR

06 abril, 2018

a coisa aqui está preta



a coisa aqui está preta

               
Um caso, o Brasil.
                Quando era jovem achava que o Brasil seria o sítio ideal para eu viver, já que não poderia viver na terra onde nasci. O Brasil parecia-me bem, pelo calor, pela língua, pela gastronomia, por Jorge Amado, por Chico Buarque de Holanda, por Augusto Boal, por Óscar Niemeyer, pelo movimento Tropicalismo, pela praia, pela fruta tropical, pelo Carnaval, pela Amazónia, por Manaus, por Pélé, por Brasília, pelo Rei, pelo samba, pelo forró, pelo chorinho, pelo artesanato, pelas telenovelas, pela água de côco, pelas redes para dormir, por Juscelino Kubitschek, pelas sandálias prateadas de salto alto, pelos batuques, pelas baianas, pelos terreiros, pelo Zé Carioca, pelo sotaque doce, por Salvador da Baía, pela simpatia de alguns malandros, pela garota de Ipanema, pelos candomblés, pelos bolos de fubá, pela Gabriela, pelo Mundinho e pelo Tuísca, pela capoeira, pelo Sr. do Bonfim, pelos discursos dirigidos ao povo de Sucupira… achava que o “design” daquele país encaixava como um puzzle em Angola, o que reforçava a meu favor a divisão da Pangeia.

…. E o meu pai, afirmava: Brasil nem pensar!
                                               … dizia: O Carnaval do Rio é o espectáculo mais perigoso do mundo, são assassinadas (não sei quantas)??? pessoas por dia!

                Mesmo assim, achava que o meu pai tinha prazer em me contrariar.
                Ao Brasil só lhe encontrava um defeito: o mar ter nascer do sol e não ter pôr-do-sol, pois um pôr-de-sol sobre o oceano é o melhor e maior espectáculo do mundo. Dura poucos minutos, mas mesmo assim, é o top.
                Percebi quem era o tal Militar João Figueiredo, a ditadura, o tempo dos coronéis, os jagunços, a violência gratuita, as clivagens e as desigualdades sociais, a corrupção, os cartéis da droga, os índices de analfabetos, as favelas, a desvalorização da vida, o desconforto das denúncias do PT, o desmatamento da Amazónia, o Collor de Mello, o Michel Temer, os milhões de pobres…
                … encantei-me com a Rosa de Hiroshima de Ney  e dos seus Secos e Molhados, gargalhei com o Caco Antibes e Ribamar, trauteei os Mamonas Assassinas, Gabriel o Pensador, admirei Lula e Dilma, surpreendi-me com Millor Fernandes, descobri Augusto Cury e a “Saga de um pensador”.
                Percebo todos os dias a manipulação da opinião pública através dos media, vivo sempre na dúvida e preocupada em separar a mentira da verdade, ou a quase verdade da inverdade incompleta. Não é tarefa fácil.
                Um caso, o Brasil, com o melhor e com o pior – uma situação explosiva num país, onde se jogam inúmeros interesses. Aparecem na TV comentários lúcidos, esclarecedores e coerentes, outros que denunciam pouca cautela para com a situação

“Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando que também sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão (…)
(Meu caro amigo – Chico Buarque)

Escrito às 21h de 6/04/2018, preocupada, aguardando os acontecimentos.

05 abril, 2018

Alhambra


Momento único e emocionante da minha vida - explicando aos alunos a urbanidade do complexo de Alhambra, na entrada do mesmo. 
Em poucos minutos se abordaram 3 épocas, 3 formas de ocupar o espaço e 3 formas de viver a história.
Palácio de Alhambra da dinastia de Nasrida, palácio de Carlos V e a villa Generalife, constituem o espaço mais visitado do mundo - património UNESCO..

28 março, 2018

O nosso silêncio e o hospital


O nosso silêncio e o hospital


            O nosso hospital foi inaugurado há 26 anos. Nessa época permaneci por lá internada por uns dias e tudo me pareceu relativamente bem. Voltei outras vezes, felizmente a maioria das vezes, como visita, construindo sempre uma opinião positiva em relação aos cuidados prestados. Nestes últimos dias aconteceu de novo.
            Defendo a saúde pública, o Sistema Nacional de Saúde, os hospitais públicos, médicos e enfermeiros que aí trabalham, e até acho que deveriam ganhar mais, para que a exclusividade fosse uma realidade maior e mais consistente. Em todas as profissões há bons e maus profissionais, mas os que tratam doentes, admiro-lhes a paciência e a resiliência. Não é fácil trabalhar nas condições em que trabalham nos hospitais públicos.
            Não sei se têm os equipamentos necessários ou os mais modernos, não sei quantas horas trabalham, desconheço por completo as suas carreiras… esta minha reflexão remete-se exclusivamente à posição de utente. Trabalhar num edifício, com 26 anos, em que os pequenos detalhes arquitectónicos denunciam falta de manutenção e um envelhecimento continuado das instalações, merece já por si uma medalha de mérito para quem lá trabalha.
            Os vidros das janelas, já não são transparentes, são apenas translúcidos devido ao acumular de limpezas inexistentes, funcionando quase como quebra sol nos dias de verão. Os parapeitos exteriores têm várias camadas de pó e detritos que parecem vestígios do Jurássico. O revestimento do chão, em linóleo, tem 26 anos, todos os dias é limpo de esfregona e lixívia que vai acumulando milhares de micróbios, nos remates do rodapé, nas emendas do material, que aí residem felizes e contentes, admitindo sempre novos residentes – cabe sempre mais umas dezenas por dia! Há um percurso traçado através do linóleo menos brilhante, por onde se realiza a maioria dos passos dos utentes e profissionais, semelhantes aos jardins pisados em carreirinhos para chegar mais rapidamente ao lado oposto, sem os contornar. Se apurarmos o olhar, o linóleo é feito de uma camada superficial de diversas texturas vincadas que expressam os 26 anos de desgaste diário. Os cortinados que funcionam como separadores entre as camas das enfermarias, tem mais argolas soltas do que as que funcionam. Resultam como um plano de contorno irregular, assemelhando-se a formas fantasmagóricas que se devem adensar nos delírios febris de cada doente. Nunca vejo ninguém a limpar paredes, a desinfectar camas, a lavar azulejos das instalações sanitárias, muito menos interruptores e puxadores de portas… aquilo que nas nossas casas fazemos com regularidade, quando nós somos os únicos que lá vivem. Não me pronuncio sobre as condutas de ventilação, mas fico a pensar numa rede invisível, que deve estar inclassificável. Tudo isto confere ao edifício um odor que mistura sofrimento humano com limpezas imperfeitas, acentuadas pela degradação natural dos materiais. Os maiores inimigos das bactérias são efectivamente as máscaras, as luvas e o doseador de desinfectante de mãos, que estão no lugar certo. Os técnicos de saúde são uns verdadeiros heróis e anatomicamente especiais, pois já nascem com anti-corpos para enfrentar toda esta amálgama de potenciais infecções.
            Anteriormente, em cada piso, havia um compartimento no final do corredor, com 2 camas, para que médicos e enfermeiros pudessem eventualmente repousar durante a noite. O último piso era destinado a doentes que necessitassem de apoio familiar. Tudo isto desapareceu para aumentar as enfermarias. Não vi camas nos corredores, aqui não, nas urgências tantas vezes.
            Os doentes queixam-se dos enfermeiros que os atendem tardiamente, quando tocam à campainha. Não os vejo parados e quando os vejo, estão a escrever. Também devem ter que fazer relatórios por tudo e por nada. 
            Vi doentes com o tabuleiro da refeição à espera durante uma hora, que alguém chegasse para lhes dar à boca, vi enfermeiros a tentar salvar vidas, como acto solitário, vi-lhes a paciência infinita, vi voluntários a tentar ajudar… vi as refeições, o jantar desmotiva qualquer doente! É provável que nos quarteis e nos estabelecimentos prisionais se coma melhor. Há panados servidos a negro, depois de passados em óleo queimado e requeimado. Quem controla a qualidade das refeições executadas por empresas que apresentam o orçamento mais barato?
            [O sr. presidente Marcelo, agora que constatou que há pobres em Portugal, poderia de repente aparecer de surpresa numa enfermaria do Hospital de Vila Real, e comer a refeição de um dos doentes, num sábado ao jantar…]
             Percorro o longo corredor da medicina interna, vou olhando para o interior das enfermarias e vejo pernas esqueléticas de velhos no final da linha, expostas aos olhares, solitários no zelo pela sua intimidade/dignidade.
            Nem refiro os problemas das consultas… esperei 3 anos por uma consulta de pneumonologia/apneia do sono, mas percebi que havia quem tivesse esperado mais e parei de reclamar.
            Sou altamente alérgica a ácaros, ou coloco uma máscara quando entro nas enfermarias ou sou atingida por ataques de tosse violenta. Tenho um filho, que com 22 anos, esteve entre a vida e a morte, e foi tratado neste hospital durante 15 dias. Teve uma equipa fantástica a tratar dele, Dr. Rui Couto, Dr.a Filipa e Dr. Diogo Portugal, a quem estarei eternamente grata. Num fim-de-semana o meu filho pediu-me que lhe levasse uma máscara protectora, com vários filtros, daquelas que uso para pintar com sprays, pois era insuportável o cheiro de urina, que exalava do doente da cama ao lado. Descobriu um quarto banho no 1º piso, que raramente era utilizado, e descia 4 andares todos os dias, para ali fazer a sua higiene.
            Por vezes é impossível eliminar ou atenuar o sofrimento humano, mas há universos de situações que precisam de ser denunciadas e solucionadas, porque têm solução. A morte não tem solução, mas amaciar o seu caminho, tem muitas soluções. Cada doente, devido à sua vulnerabilidade, raramente reclama ou manifesta a sua indignação. Quer apenas ir para casa rapidamente, livrar-se daquilo e não olhar para trás. Ir à secretaria, denunciar, ou reclamar sobre isto e aquilo, é um processo que não cabe na mente daqueles que querem chegar a sua casa rapidamente e que receiam ter de voltar para lá.
                                               (…) e o nosso silêncio significa legitimar situações.
            Há aqui a urgência de se juntarem vontades políticas para se resolver tudo isto, com máquina de calcular, mas estabelecendo como prioridade a saúde pública. O que interessam festivais da canção, grandes congressos de partidos políticos, fundações disto e daquilo, institutos público-privados, grandes lucros na EDP, PETROGAL e PINGO DOCE,  guerras do futebol, perdões de divida dos nossos ladrões figuras públicas, apoios financeiros a escolas e a hospitais privados?
             A fuga para os hospitais privados, não são a solução. A atitute, cada um safa-se como pode, não é dignificante, nem civilizacional.   
            Para finalizar, a nossa actual ministra do mar, Ana Paula Vitorino, há dias numa entrevista na televisão, abordou corajosamente a problemática da experiencia que teve, como paciente oncológica, numa mensagem racional, positiva e optimista. Esteve hospitalizada na Fundação Champalimaut, mas afirmou que a única diferença em relação ao serviço público são questões de “aspecto”.
                                                 (…) e o nosso silêncio significa legitimar situações.
“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.” Martin Luther -King

Publicado emNVR,  28/03/2018

14 março, 2018

Capela da dupla espiral

 Capela projetada por Hiroshi Nakamura localizada na base de um resort de luxo no Japão.
A dupla espiral foi a inspiração para a concepção deste projecto, simbolizando a união de duas pessoas através do casamento.
Estrutura delicada que proporciona imagens brutais, sempre diferentes.
Localização: Hiroshima

O corte é muito interessante. 

08 março, 2018

Ahed Tamimi


Ahed Tamimi
"Eu gostaria que toda a minha família fosse libertada assim como todos os outros prisioneiros palestinianos. Quero ver o meu grande sonho de um dia viver numa Palestina livre".
         Desta vez, antecipo-me ao Dia Internacional da Mulher, reflectindo sobre uma declaração de Ahed Tamimi, uma menina palestiniana de 16 anos, acusada de 12 crimes.
         A guerra não tem sexo, assim como o terror e a injustiça. Mas exactamente por ser uma menina e corajosa, os relatos das suas acções continuadas de protesto e de revolta, correm o mundo, apenas porque a guerra se vulgarizou. Todos os dias somos bombardeados por imagens da Síria e da Palestina. Por vezes até as confundo, umas com as outras, quando chocam com uma barreira que eu própria construí na minha mente, para proteger a minha sensibilidade. E como a guerra se vulgarizou, esta menina parece que desperta consciências. Por quanto tempo?
         Ahed deveria estar a sonhar com príncipes e princesas, ir aos festivais rock, criar a sua primeira maquilhagem, ler os primeiros romances de amor a sério, jogar ao Stardolls, ansiar pelas festinhas com os amigos, aborrecer-se com os pais por querer mais vezes comer hambúrgeres, experienciar as suas primeiras saídas nocturnas e dedicar-se às novidades tantas vezes fúteis que invadem a vida das adolescentes, revoltando-se com as rotinas e obrigações familiares.
         Ahed personifica todos os meninos e meninas do mundo com experiências diárias ligadas a situações de guerra, de morte, de detenção dos familiares e amigos, quando deveria viver em paz, frequentar a escola e respirar educação, conforto e amor.         Imaginem-se na situação destes seres humanos em miniatura, que lhes tiram o direito de serem crianças e de serem adolescentes. Passam directamente à idade adulta, sem viverem essas fases de desenvolvimento do ser humano, preciosas na construção das suas personalidades. Uma passagem rápida e sofrida, que resvala diariamente em direcção à luta pela sobrevivência e de luto permanente por aqueles que lhes são próximos e que vão desaparecendo numa guerra estúpida.
         Todas as guerras são estúpidas.
         E todas as guerras geram angústia, depressão e revolta em quem sofre.
         Ahed Tamimi encontra-se detida desde Dezembro de 2017, para que os seus protestos se anulem, se emudeçam, por isso é necessário falar acerca dela e sobre o que ela representa.
         Segundo a Amnistia Internacional, há actualmente 350 crianças ou adolescentes palestinianos na cadeia, regularmente sujeitos a "maus tratos, sendo vendados, ameaçados, colocados em prisão solitária, ou interrogados sem a presença dos seus advogados ou familiares".
         Isto não é uma humilhação para o exército israelita, isto é uma humilhação para o mundo.

Publicado em NVR
Anabela Quelhas