13 janeiro, 2013

Para nos posicionarmos mais uma vez




Mais uma vez iremos para a rua – 26 de Janeiro de 2013.
A opinião pública entende os professores como uma classe privilegiada, e então em tempo de crise, aproveita-se para nivelar tudo por igual – temos que ser funcionários públicos como os outros! Esta frase é capaz de gerar unanimidade e consensos. E aqueles que não concordam, incluindo professores, acordam os falsos problemas de consciência, impedindo-os de assumir que há muitas particularidades na profissão de professor que os impede de entrar no mesmo saco.
Se bem se lembram as escolas começaram a aparecer nos jornais desde o tempo da Maria de Lurdes. Isto é uma estratégia concebida há muito para destruir a escola pública que foi progredindo passo a passo, subtilmente - denegrir a imagem do professor, colocar pais contra os professores, colocar os pais dentro da escola, mudar a gestão da escola, mudar estatutos, etc. etc. Quando um governo pretende algo, primeiro tem de ter a opinião pública do seu lado. Diga-se opinião pública ignorante e manipulável. Foi um longo caminho, que continua em aberto.
Nos mass média, as excepções de professores incompetentes transformam-se em regra, comportamento disruptivos de certos alunos, passam a ser o perfil dos alunos, o insucesso ganha destaque e toma lugar ao sucesso. Rankings, estatísticas, números enchem os écrans e esquecem-se das pessoas e dos seus problemas.
Logo à cabeça e repetindo-me porque é algo que me causa grande desconforto: O paradigma da escola a tempo inteiro é termos as crianças e jovens na escola mais tempo que os trabalhadores estão nas fábricas, nas empresas, nos escritórios. Encerrar uma criança numa escola durante 10 horas é um crime. Façam as contas: das 8 às 18h.
Vamos lá mais uma vez desfazer a teia enrodilhada dos pré conceitos, para nos posicionarmos perante a luta que não acaba nunca.
 Quem quiser reforce a lista.
A escola deve ser para todos? SIM
A escola deve essencialmente ensinar? SIM
A educação é função dos pais? SIM
Os pais passam pouco tempo com os filhos? SIM
Os alunos passam horas a mais na escola? SIM
A maioria dos professores são bons profissionais? SIM
A escola pode atenuar as desigualdades sociais? SIM
As práticas artísticas, cada vez têm menos valor nos currículos? SIM
A escola deve estar direccionada para o sucesso escolar? SIM
Os alunos e o seu desenvolvimento beneficiam com as pausas lectivas? SIM
Actualmente na escola, os professores têm funções de pais, amigos, psicólogos, sociólogos e administrativas, afastando-os cada vez mais da sua verdadeira missão que é ensinar? SIM
A escola deve combater a exclusão social? SIM
Há vantagens em turmas heterogéneas? SIM
Há vantagens em turmas homogéneas? SIM
É necessário cada vez mais reforçar a articulação vertical e horizontal e a partilha do conhecimento? SIM
A docência é uma profissão de desgaste rápido? SIM
Existem professores com 11 turmas X 30 alunos= 330 alunos? SIM
A escola pode e deve contrariar a desigualdade no acesso à informação? SIM
 A agressividade dos alunos e mau comportamento atenua-se através da exploração dos domínios relacionados com a arte? SIM
Existe inercia e algum complexo injustificado nos docentes ao defender a sua classe profissional? SIM
A escola é um espaço essencial para a socialização? SIM.
Deixou de haver uma eleição directa e democrática dos órgãos de gestão da escola? SIM
Turmas de 30 alunos e menos professores a leccionar são medidas exclusivamente financeiras? SIM
Os governos têm que decidir se querem uma escola para todos ou se querem sucesso escolar? SIM

É possível ministrar uma aprendizagem com qualidade em turmas de 30 alunos? NÃO
É possível avaliar a acção de uma escola através da estatística? NÃO
Actualmente a avaliação dos alunos traduz rigorosamente o seu conhecimento? NÃO
A escola deve ser um armazém de alunos? NÃO
Os professores devem ser entertainers? NÃO
Os pais devem interferir na vida pedagógica da escola? NÃO
Um aluno que não reconhece o poder paternal, é um aluno que obedece às regras da escola? NÃO
Os professores trabalham apenas 22h? NÃO
Os professores têm tempo para fazerem uma actualização de conhecimento constante como a nossa sociedade exige? NÃO
É possível a um professor conhecer as capacidades e dificuldades de mais de 150 alunos por ano? NÃO.
Os professores faltam quando querem? NÃO
Os professores têm mais dias de férias que os outros trabalhadores? NÃO
A escola possui espaços e equipamentos suficientes para que os docentes possam a exercer toda a sua actividade no espaço escola? NÃO
O Estado atribui alguma compensação financeira ao docente, por este utilizar a sua casa como espaço de trabalho diário?  NÃO
A maioria dos professores tem tempo para acompanhar os progressos tecnológicos no acesso e utilização da informação? NÃO
A escola actual consegue dar resposta aos problemas da sociedade? NÃO
O facto dos professores terem 22h de componente lectiva e mais de 14h de componente não lectiva ocupada com inúmeras tarefas pedagógicas, converte-os em privilegiados? NÃO

"A maioria dos professores portugueses devia ser condecorada pela resistência, pela capacidade de sobrevivência, pela Arte de constante renovação da esperança. Às escolas de hoje, às públicas claro, exige-se tudo: - Que se ensine, que se eduque, que se acompanhem alunos, que se giram diferenças, que se encontrem estratégias para combater desinteresse, insucesso, consumos de drogas, consumo de tabaco, sinais de esquizofrenia, problemas familiares, práticas sexuais de risco, etc. Nas escolas de hoje há clubes de saúde, clubes europeus, clubes de solidariedade, clubes de alimentação, clubes de ciência, clubes de tudo aquilo que se possa imaginar porque, na escola de hoje, cabe tudo! Só começa a não haver espaço para se ser professor." Opinião in "O Distrito de Portalegre" - Maria Luísa Moreira
Aconselho a leitura de:
(continua actualizado)
Anabela Quelhas (desrespeitando o acordo ortográfico)

11 janeiro, 2013

05 janeiro, 2013

Faz anos...talvez



Faz talvez ... anos

Ainda não se falava do tal de buraco de ozono, já ele fazia das suas lá na banda.
Progenitor Quelhas, usando e abusando de cautelas não se atrevia com ele, fazendo-nos a cabeça num oito, quando nós só queríamos mesmo, muito bronze.
Gozávamos as delicias do mar na ilha, mesmo junto à barracuda, agarrando o sol com a imaginação e ele ficava em casa.
Brincávamos dentro de duas brutais camaras de ar de camião nas manhãs de domingo na Corimba, fazendo o sol rir, como só ele sabe, e ele ficava na esplanada à sombra, lendo o jornal até ao limite das 11 horas.
Boiávamos nas águas paradas da baía, mais parecia mar morto, fazendo o sol bocejar e ele desconhecia que estávamos lá.
Aventurávamos nas ondas das calemas da Restinga, fazendo perigar até o sol e a ele nem lhe passava pela imaginação.
 Lhe adivinhava, com rosto fechado umas horas depois, quando o queimado do sol avermelhava sobre o nariz, dando-nos aquele ar saudável que rapidamente dourava a nossa pele tropical.
Um dia se aventurou a fazer picnic lá para as praias de Belas, debaixo de um cajueiro se não me falha a minha memória de botânica tropical, ou de um velho embonda, já nem sei.
Levou tenda!
Tenda com forma de prisma triangular, amarela e azul, que nunca ninguém usava, para não perder nenhum dos raios eficaz na pintura solar tropical.
Vestiu calções, e ficou debaixo da tenda aberta, lendo A Provincia de Angola” e destilando suor, salteando água com Cuca e Cuca com água.
Nós, fazendo trinta por uma linha na água.
Agua morna, água tépida, daquela que nada arrepia ao mergulhar.
Água que nos acaricia e nos acolhe muitas horas e nos faz soltar gargalhadas como se fossem borboletas, até ao sol se por, em tons vibrantes de laranja, mesmo ao nosso lado.
Sol da manhã, sol do meio dia, sol do entardecer,  com musicalidades diferentes das ondas que visitam a areia naquela cadencia fresca e ritmada… shuá….. shuáááá… shuá...
Ele distante e com calor dentro de uma tenda azul e amarela.
Vira pagina, vira dum lado, vira do outro, até páginas de precisa-se, aluga-se e vende-se ele leu.
Leu a necrologia.
 Leu a LoLa.
Releu as noticias importantes. Mudou para o livro que andava a ler, romance de 8cm de altura que custava a segurar na mão.
Nós, abraçando as pequenas vagas, e andando, andando quase até ao Mussúlo, sempre com pé. De quando em vez, um gritava,
- atenção à alforreca!!! Umas vezes verdade, outra só para destabilizar. De costas de bruços, guerra d’água…. Dar palmadas na agua só para  xingar.
- Não te armes  que levas, depois vem-me pedir o Patinhas que levas com ele na tromba!!!!
 - Pópilas, Xê minha, não zanga não, que faz ruga ná tésta!!!
-Te atreve, então!!! Queres mais o que? A kianda te leva no mar, e fico a rir!
Shaaaaapppp!
- Vais levar, mana atrevida, te pego e te dou um pirolito!
- Só quero ver, tens de comer muita ginguba!
Almoço de prato na mão, sentados na areia.
Alguém enterrou todas as ervilhas da salada de atum na areia fina e branca, demonstrando por A+B o agrado pelo primeiro prato. (Lena quem foi?!)
Passou o almoço, passou o lanche, nos vestimos para vir embora e mais um mergulho mesmo com o vestido encharcado a agarrar ao corpo para despedir e manter o sorriso aberto e feliz de diversos lábios. Uma ultima corrida de pega pega à volta do ultimo coqueiro.
- Me vão molhar os estofos do carro e encher de areia! Não chegou de brincadeira? Se portem bem, senão vos deixo cá!
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Um desconforto lhe chegou lentamente aos pés, até chegar à noite, já em casa. Um ardor, uma quentura com a forma de meias vermelhas desenhadas, enquanto lia o jornal com os pés de fora.

Moral da estória: O sol quando nasce é para todos. Mais vermelho menos vermelho.

In Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado, Anabela Quelhas