05 dezembro, 2011

24 novembro, 2011

Me encanta a dança


Aos sons das chávenas e das colheres

em compasso aleatório

soma-se o aroma dos cimbalinos

que circulam entre iguais

numa dança

desenhada sobre bandejas.

Aprecio a dança.

Não aprecio o sabor,

Sou de uma anormalidade genética

de não apreciar café.

Sofro de ausência de sensibilidade

para apreciar o precioso liquido.

Liquido marron de tingimento de café,

liquido fumegante

que obriga a rituais e dependências após almoços e jantares,

geração após geração,

acompanhados de conversa sobre coisa nenhuma

gravada nas madeiras,

nos espelhos,

nas mesas dos cafés da baixa do Porto.

Não aprecio,

mas me encanta a dança

E a dependência.


A. Quelhas

20 novembro, 2011

Reflexo dos espelhos

(Clique para ampliar)

Num reflexo dos espelhos

Espreito a alma

De alguém que se silencia a meu lado:

Um ilustre desconhecido.

Divirto-me pensando no acaso

Que me permite aproximar daquilo

Que não conheço

Observar o que nunca vi

Desnudar a intimidade

Do quotidiano de alguém

Que nunca mais encontrarei.

Dentro de minutos voará

Para outras dimensões urbanas

Transportando essências únicas

E in codificáveis

Ignorando-me.

Eu olharei os espelhos novamente

Espreitarei de novo

E saborearei o chá entretanto arrefecido.

Doce

E aromatizado com limão.

Filigrana


Foto: A. Quelhas ( Confeitaria do Bolhão)

17 novembro, 2011

12 novembro, 2011

ALMADA NEGREIROS








Deparei-me com este painel em baixo relevo do ilustríssimo mestre Almada Negreiros localizado no interior do Hotel Ritz em Lisboa. É uma parede revestida em mármore com um baixo-relevo, em que as áreas esculpidas são retocadas com pigmento dourado, dando um contraste belíssimo. Está representado um cavalo com cavaleiro, duas figuras femininas - alguém que dorme a sesta junto aos molhos de trigo e outra que transporta um cântaro à cabeça- e ainda uma figura masculino na parte da obra que evolui para um pilar.
O painel está integrado numa zona de circulação comum não principal, no piso da entrada.


http://www.sodim.pt/hotelritz.htm



11 novembro, 2011


Este é um momento único da minha existência.
Dia 11.11.11 às onze horas e onze minutos.
Data 11 - polissémica. Não vou dizer, mas com muitas, muitas referências na minha vida.
Este momento proporciona-se a alguma reflexão sobre o tempo, que é impossível de parar e de repetir. Sintome-me pequena, minúscula perante a complexidade que é o parâmetro TEMPO.

07 novembro, 2011

Dead Combo





"É editado hoje o quarto álbum da dupla portuguesa, no qual colaboram Marc Ribot, Camané ou Sérgio Godinho.

Os Dead Combo começaram por ser apenas dois. Tó Trips, o homem da cartola e de guitarra em punho, e Pedro Gonçalves, de contrabaixo na mão. À medida que os anos foram passando receberam mais e mais convidados. No último ano vimo-los recorrentemente acompanhados pela Royal Orquestra das Caveiras. As canções que eram então apenas de duas figuras ganharam uma nova dimensão.
Chegados ao quarto álbum surge pela primeira vez uma questão: "O que é que vamos fazer? Mais do mesmo?". A decisão foi então de voltar à base, quando eram apenas dois. Ainda assim, não resistiram a desafiar outros músicos. O resultado dá pelo nome de 'Lisboa Mulata'."
3/11/2011

http://www.dn.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=2030578&seccao=M%FAsica

06 novembro, 2011

Um professor que um dia roubou o céu

O LIVRO DO MEU AMIGO PENA. FRESQUINHO, FRESQUINHO!

04 novembro, 2011

29 outubro, 2011

A perspectiva das coisas

Van Gogh




Matisse





“ A perspectiva das coisas”
Exposição sobre a Natureza-Morta na Europa – Séculos XiX e XX
Esta é a 2ª exposição que ocorre em Portugal, a 1ª aconteceu no ano passado, com obras dos séculos XVII e XVIII. As obras são todas de pintores de referencia na história da pintura, e esta é uma oprtunidade para os apreciarmos aqui bem perto e todos juntos – Matise, Van Gogh, Braque, Cezanne, Picasso, Amadeo, Magritte, Courbet, Gris, Manet, Dali, Rousseau, Morandi, Renoir, Basille, Vieira da Silva, Bonnard e admirem-se até Corbousier.
Todos incidem sobre a Natureza-morta que não me anima muito em si, mas francamente esta exposição permitiu-me refletir sobre muita coisa,pude comparar, observar detalhadamente e viajar mentalmente até outras obras que estão na minha memória.
Pensei em que? Apesar de morta a natureza suscita forma, textura, estrutura, materialidade/imaterialidade, primitivismo,fotografia,sonhos, pesadelos.... várias perspectivas de simples objectos.
Retive Henri Matisse, Amadeo, Van Gogh e Cezanne.
Não percam na Gulbenkian!


17 agosto, 2011

Caricaturas com letras

Fernando Pessoa

Michael Jackon
Dunga

Jean Paul Belmondo

Che Guevara

The Beatles

Amy




Não sei fazer caricaturas

Fiz uma abordagem muito rápida na minha formação académica e apercebi-me apenas da grande dificuldade em que consiste caricaturar através do desenho. Construir um desenho capaz de exprimir de forma simples e rápida as características de alguém, acentuar os gestos, os hábitos, os defeitos, as qualidades ou determinadas formas de um rosto, conferindo-lhe uma identidade única, revelando por vezes a sua personalidade é algo que necessita de uma boa observação, análise de pormenores, muitas horas a praticar e ter sempre presente a economia do traço.

Eu não sei fazer.

Há muito que conheço uma caricatura do Fernando Pessoa de autoria do cartonista Ubiratan Porto. Foi essa caricatura que me levou a descobrir o trabalho deste artista plástico e especialmente as suas caricaturas concebidas a

partir das letras dos nomes das pessoas a representar.

Partilho convosco.

Para ver mais e mais:Aqui


Albert Einstein


02 agosto, 2011

Senti o telemóvel a tocar



Senti o telemóvel a tocar!

Eram 4,00 horas da madrugada, ainda nem tinha começado o dia.

Este foi o primeiro dos vários sintomas de grande stress dos últimos anos, em tempo de

férias.

Dormia superficialmente, logicamente estava a sonhar e não tinha conseguido desligar toda a rede de circuitos tecidos ao longo do jurássico. Dormia,

sonhava e acordava dormindo e sonhando.

Virei as costas ao mundo, pensei em como é difícil desligar e con

venci-me que iria dormir de novo.

Escutei a música das ondas do mar e senti a brisa fresca a empurrar suavemente as cortinas transparentes, misturando o atrito da seda, grávido de vento..

Poderia desligar o telemóvel… mas não uso relógio há muit

os anos… e ele nem sequer tocou…mas…. Tento conciliar o dormir, mas o suposto toque, fechou a porta do meu sono.

Revi as características do perfil dum stressado, tentando auto-convencer-me que estaria tudo sob controle (pura ilusão):

Responsabilidade – quente

Ambição – frio

Liderança – quente

Responder em simultâneo a várias situações – a ferver

Exigência – quente

Ansiedade - quente

Perfeccionismo - caliente

Pontualidade – a ferver

Competitividade - morno

Tempo – boa gestão, tépido

Dificuldade em desligar – escladante

Realizei um gráfico mental atendendo aos conceitos artesianos e à disposição ortogonal, visualizando a predominância do vermelho sinónimo de quente e de alarme, sobre o frio inexistente, no meu adorável azul.

Desliguei o tecnicolor do pensamento e embrulhei-me

em supostos s

onhos em que gostaria de entrar naquela hora tardia – ementa tropical sempre. Fiquei à porta, presa aos eixos das abcissas, colada ao eixo das ordenadas e afastando-me da verdadeira função de DORMIR. Nem a visão de terras ocres, e cacimbos húmidos me deixaram entrar num repousante sono.

Tentei organizar alguma desordem nos pensamentos, segundo uma estrutura de prioridades: os que serenam e os que agitam.. passei para segundo plano os que agitam. Pensei em quem queria pensar. Pensei com carinho, porque queria pensar e escutei mais uma vez o mar… e pensei. As horas escoaram-se após cada ciclo sessenta

minutos deste fait di

vers, ausente de palavras sonantes e rico em palavras imaginadas.

Dei várias voltas na cama, naquela ansiedade do cobre, descobre… pensei no antes, no depois, no faz de conta, no que poderia ser e não foi, no futuro e no condicional, pensei na Corimba e nas musicas que nunca chegaram ao seu devido destino e destrincei cada variante da ausência de sono articulada com as possíveis palpitações do meu velho telemóvel.

Pedi um pacote de sono com pouco açúcar.

Pedi uma cabeça vazia perdida

de s

ono

Pedi aromas de espera para a minha paciência.

Pedi tempo de mim e de brisas do mar.

Pedi o resto da madrugada.

Pedi para não pe(r)d(i) (e )r

Perdi o sono!


Ensaios de escrita – um projecto sempre adiado

(A. Quelhas)


14 julho, 2011

Casa de Chá - Boa Nova





Entra-se, senta-se e mergulha-se numa tela de pintor naturalista, que afinal é uma janela...uma ampla janela de rochas e mar. Uma janela de sonhos e cumplicidades. Uma janela que nos convida a reflectir e depois sonhar.
Mão na mão, um café e um carioca de limão.
...e o mar manso formando pequenas vagas teimosas em invadir a areia, as rochas, as consciências...por vezes reina o silêncio matizado pela música do mar e um jazz qualquer.
Fecha-se os olhos, com o corpo acolhido numa velha poltrona... partilha-se o sonho, toca-se a alma, suavemente como "uma lágrima de cristal", e lentamente o olhar voa até à linha do horizonte, contornando as rochas, sobrevoando a tarde, como a quem já conhece ainda sem se conhecer. Envolve-nos, seduz-nos.
Apetece olhar, apetece tocar, apetece reter o cheiro, apetece parar os ponteiros do relógio e saltar para a outra dimensão, apetece pintar o mundo de azul ciano, apetece mudar de ângulo de visão, apetece apetecer.
Para quando uma, outra e outra vez?

03 julho, 2011

Lucidez e dor

A lucidez não tem que ser necessariamente dolorosa, embora resulte inegavelmente do facto de romper com aquilo que nos “cegava” e o abrirmos a visões mais amplas e menos ingénuas das coisas, é um acto de ruptura com as disposições das nossas cabeças e com as nossas vidas e muda radicalmente os nossos vínculos, para o qual quase sempre parece implicar um parto doloroso. (…) lucidez e dor são inseparáveis em todos os momentos? A felicidade é possível no momento de lucidez? O iluminado está condenado à dor da solidão? (…) parece ser mais aconselhável o risco da dor da clareza do que viver a felicidade na ignorância. Não acham?


http://noticiasderionegro.blogspot.com/2011/06/entre-el-dolor-de-la-lucidez-y-la.html

25 junho, 2011

S. João no Porto







Há certos eventos que para mim, só no Porto fazem sentido. Um deles é a festa popular: O S. João.

O S. João do Porto é uma das festas populares mais significativas do mundo, e eu gosto (informem-se, pois é mesmo).

O S. João é uma festa incomensorável, não sei bem quantas pessoas se envolvem na noite de festa. É uma festa de massas, dos cidadãos do Porto, dos aglomerados vizinhos e de muitos outros lugares que afluem principalmente ao centro histórico, na noite de 23 de Junho, contando que podem virar a noite na rua, aliás em várias ruas, numa diversão sem fim. É uma cidade inteirinha na rua, a sua rua e a rua dos outros da sua cidade.

À partida é uma festa cristã, centrada na figura de João baptizando Jesus, no entanto ela desdobra-se em diversas situações, que talvez estejam mais ligadas aos rituais pagãos assinalando a chegada do verão.

S. João não é padroeiro do Porto, pois esse lugar esta ocupado pela Nossa Senhora da Vandoma, no entanto como fica tudo em familia, tanto dá, João foi adoptado há mais de 5 séculos creio eu, e continuará como símbolo religioso desta cidade, inconfundível nos seus contornos liberais/republicanos, onde o seu povo é genuíno, simpático, acolhedor, lutador pelas suas causas incapaz de se submeter a ideais que não sejam os seus e capaz dos maiores sacrifícios para fazer vingar a sua vontade. Sempre foi assim e assim será. É este o povo que gosto e com o qual me identifico.

A noite de S. João é para complicados e descomplicados (os segundos divertem-se à brava e os primeiros não resistem a divertir-se ao ver o primeiros), foliões, alegres e brincalhões. É uma manifestação de fraternidade numa amálgama de todo o tipo de pessoas. Todo o mundo se veste descontraídamente, não se distinguindo classes sociais, nem profissões, nem ricos, nem pobres e todos gostam de sardinhas e broa. Esta é a cidade da liberdade que sai à rua na noite de S. João para partilhar a alegria de viver. A alegria é um traço comum. Muitos procuram pela sardinha para comer, pela bifana, pela francesinha, pelas tripas, …. Sei lá tudo o que se faz de bom nesta cidade. Porque isto de pular e brincar, faz fome.

Sempre que posso venho até cá.

Preparo-me com sapatilhas, uma pequena carteira a tiracolo (BI, dinheiro, chaves de casa, pequena máquina fotográfica e telemóvel… o resto fica em casa), um pequeno casaco pelos ombros (por vezes há o orvalho de S. João) e aí vou eu.

A melhor maneira de nos divertirmos no S. João é juntarmo-nos ao nosso grupo de amigos, fazer uma filinha para ninguém se perder e atacar a tristeza. Nunca há hora de regresso e a palavra de ordem é folia e diversão – é proibido estar triste.

Começo sempre pelo Bonfim, para admirar uma das várias cascatas Joaninas, Jardim de S. Lázaro, onde compro o meu martelo, para dar resposta as marteladas (inventado nos anos sessenta e logo proibido pelo fascismo) e desço a rua das Fontainhas até ao passeio do séc. XIX do mesmo nome. O cheiro das sardinhas assadas abre-me o apetite. Para comer uma sardinhada, e um caldo verde não é preciso sentar, pois elas, as sardinhas, assam-se e vendem-se no meio da rua.

Gosto de apreciar os moradores desse sitio, onde eu tantas vezes parei a lhes desenhar e fotografar. De seguida vou até à muralha fernandina e desço a escada dos Guindais. A descida desta escada em noite de S. João é uma bela experiência. Inicia-se pela abordagem visual do atelier de um dos maiores pintores portuenses vivos, Júlio Resende, encostado à muralha do séc. XIV e depois entra-se na descida (escrevi bem "entra-se"). Fica-se envolvido na festa para além de se sentir a urbe medieva em plena festa iluminada pelo luar e pelas luzinhas coloridas. As bandeirinhas a atravessar a escadaria sinuosa, os vizinhos juntos a jantar em pequenas plataformas, ao som da musica popular… o convite para a mesa, o brindar de um copo de verde ou maduro, é isto o genuíno S. João… as luzes, as filinhas de foliões, sempre…. Sempre, mais um lanço de escadas, mais uma curva em linha quebrada. De quando em vez, ouve-se Abrunhosa, Rui Veloso, Reininho, Godinho, mas predomina sempre a música popular brejeira e o seu rei, Quim Barreirosss.

Óptimas fotos que fiz, ao cair da noite.

Até que se chega ao rio.

O contraste entre a rua sinuosa e a grandeza da ponte de Eiffell,… e o rio Douro, que eu tanta vez já vi em tom de prata, corre manso reflectindo a vontade do povo na rua, ali naquele local histórico, simbólico, local de luta e coesão social, local de passagem para à outra margem e para outros tempos, onde o tempo marcou as almas das gentes . O bizarro sucede-se ao inesperado. O inesperado sucede-se ao invulgar e ao surpreendente.

E o rio corre manso, colorido de gente, luzes e aromas.

Surge alguém a fotografar o policia na entrada do tabuleiro de baixo, alguém que esfrega o alho porro pelo meu cabelo desejando-me sorte e fortuna e logo a seguir o aroma da erva cidreira. A guerra dos martelinhos… a escolha de uma cabeça arranjadinha para dar uma boa martelada. Os carecas são os melhores, mas que não tragam alho porro, senão a vingança é sempre terrível.

A Ribeira a encher, a encher de gente e mais gente, sentar, nem pensar. Vou até ao cubo do Zé Rodrigues e até ao S. João do Cutileiro que se esqueceu do cordeiro,... e a gente a descer até à praça de S. João, pela rua dos Mercadores e pela rua de S. João Novo. Parece uma torrente de povo a descer para o cais da Ribeira. Rios de gente a correr para o seu rio.

O povo a descer pela rua Mouzinho da Silveira.

Uma bifana servida numa caravana em frente ao Mercado Ferreira Borges e Palácio da Bolsa, ambos lindamente iluminados… e os balões, muitos, mais que muitos a subir, uns com sucesso outros não, incendiando-se a 20 ou 30 m da altura, todos homenageando o Sol e o solstício de verão. O vento puxa a sul, uns mais altos outros menos, mas todos rumam a Gaia, Marrocos para alguns.

Os manjericos e as quadras populares, brejeiras, jocosas, irónicas algumas e sempre divertidas , onde não se pode sentir o aroma com o nariz mas sim com a mão– dá sorte e energia positiva..

(perdoem-me os mais castos)

"Oh meu rico S. João

Casai-me que bem podeis

Já tenho teias de aranha

No sítio que bem sabeis."

…..

Pinta meus olhos pinta

Pediu-me ela de joelhos

Peguei no pincel e nas tintas

Pintei-lhos.

.....

Se me arranjares um doutor

sozinha já não fico

prometo pôr-te no andor

um manjerico e um penico.

S. Bento, um mar de gente, o encontro da avenida, rua 31 de Janeiro, rua do Corpo da Guarda, Mouzinho da Silveira e rua das Flores. A estação belíssima e a seus pés estão os vendedores das plantas mágicas aromáticas e centenas de martelinhos abastecendo os folgazões.

A avenida e a praça repletas. Subi Sto António pois a Sé adivinha-se a abarrotar e fui ver o fogo de artificio no viaduto da duque de Loulé.

O resto da noite fica preenchida com diversos bailaricos das ilhas (pequenas comunidades urbanas retiradas das principais ruas) ao ar livre, com as suas fogueiras, onde é obrigatório saltar, em Massarelos, Miragaia, Passeio Alegre. Impossível ir a todos.

Os momentos que antecipam o nascer do sol devem ser vividos num belo banho de mar . Nesses momentos os foliões cansados e carregando já grandes doses de álcool, devem estar nas praias da Foz para receber o novo dia, refrescar-se e descansar.. descansar a folia, o corpo e a alma.

Gosto mesmo. É bonito.

21 junho, 2011

16 junho, 2011

Casa de Ofir

Há obras que são as referências de uma série de indivíduos que pertencem a gerações que viveram a ESBAP e a FAUP, onde eu me incluo. Obras que marcaram a nossa entrada para o mundo da arquitectura e que permanecerão sempre na nossa memória.

A conhecida casa de Ofir é uma delas. Localizada em 41°31'7.00"N 8°47'1.11"W. projectada por Fernando Távora, nosso mestre, foi visitada por todos nós, porque ela era uma aula viva da arquitectura moderna.

Casa de Férias de Ofir (1957-1958)
«Uma das mais elementares noções de química ensina-nos qual a diferença entre um composto e uma mistura e tal noção parece-nos perfeitamente aplicável, na sua essência, ao caso particular de um edifício. Na verdade, há edifícios que são compostos e edifícios que são misturas (para não falar já nos edifícios que são mixórdias) e, no caso presente desta habitação construída no pinhal de Ofir, procurámos, exactamente, que ela resultasse um verdadeiro composto».Fernando Távora.

Naveguei na página de Alexandre Araújo e deparei-me com fotos desta habitação destruída parcialmente por um incêndio.

http://www.facebook.com/media/set/?set=a.185606991464622.43133.100000459668462

Fiquei triste, apeteceu-me chorar! Fluiram todas as imagens que ainda tenho memorizadas de 2 ou 3 visitas que fiz à casa acompanhada uma das vezes com o mestre e autor.

Espera-se que se gere um movimento no sentido da sua correcta e rápida recuperação, pois ela é um marco na arquitectura moderna portuguesa.



Another Brick In The Wall. Poema de Fernando Pessoa

15 junho, 2011

Explicações para que?


Sou terra

Sou lua

Sou espaço entre mim e ti

Sou rua deserta de luz

Com módulos de penumbras

E sombras minhas

Que agarro

Que abraço

Em noites de mãos vazias

E te ofereço num beijo

Cantado de eclipses

Totais

À procura do sol,

Tu.

Explicações

Para que?


Ana d' Or




LE CHIEN




Le chien Léo Ferré
À mes oiseaux piaillant debout
Chinés sous les becs de la nuit
Avec leur crêpe de coutil
Et leur fourreau fleuri de trous
À mes compaings du pain rassis
À mes frangins de l'entre bise
À ceux qui gerçaient leur chemise
Au givre des pernods-minuit
A l'Araignée la toile au vent
A Biftec baron du homard
Et sa technique du caviar
Qui ressemblait à du hareng
A Bec d'Azur du pif comptant
Qui créchait côté de Sancerre
Sur les MIDNIGHT à moitié verre
Chez un bistre de ses clients
Aux spécialistes d'la scoumoune
Qui se sapaient de courants d'air
Et qui prenaient pour un steamer
La compagnie Blondit and Clowns
Aux pannes qui la langue au pas
En plein hiver mangeaient des nèfles
A ceux pour qui deux sous de trèfle
Ça valait une Craven A
A ceux-là je laisse la fleur
De mon désespoir en allé
Maintenant que je suis paré
Et que je vais chez le coiffeur
Pauvre mec mon pauvre Pierrot
Vois la lune qui te cafarde
Cette Américaine moucharde
Qu'ils ont vidée de ton pipeau
Ils t'ont pelé comme un mouton
Avec un ciseau à surtaxe
Progressivement contumax
Tu bêle à tout va la chanson
Et tu n'achètes plus que du vent
Encore que la nuit venue
Y a ta cavale dans la rue
Qui hennnit en te klaxonnant
Le Droit la Loi la Foi et Toi
Et une éponge de vin sur
Ton Beaujolais qui fait le mur
Et ta Pépée qui fait le toit
Et si vraiment Dieu existait
Comme le disait Bakounine
Ce Camarade Vitamine
Il faudrait s'en débarrasser
Tu traînes ton croco ridé
Cinquante berges dans les flancs
Et tes chiens qui mordent dedans
Le pot-au-rif de l'amitié
Un poète ça sent des pieds
On lave pas la poésie
Ça se défenestre et ça crie
Aux gens perdus des mots FERIES
Des mots oui des mots comme le Nouveau Monde
Des mots venus de l'autre côté clé la rive
Des mots tranquilles comme mon chien qui dort
Des mots chargés des lèvres constellées dans le dictionnaire des
constellations de mots
Et c'est le Bonnet Noir que nous mettrons sur le vocabulaire
Nous ferons un séminaire, particulier avec des grammairiens
particuliers aussi
Et chargés de mettre des perruques aux vieilles pouffiasses
Littéromanes
IL IMPORTE QUE LE MOT AMOUR soit rempli de mystère et non
de tabou, de péché, de vertu, de carnaval romain des draps cousus
dans le salace
Et dans l'objet de la policière voyance ou voyeurie
Nous mettrons de longs cheveux aux prêtres de la rue pour leur
apprendre à s'appeler dès lors monsieur l'abbé Rita Hayworth
monsieur l'abbé BB fricoti fricota et nous ferons des prières inversées
Et nous lancerons à la tête des gens des mots
SANS CULOTTE
SANS BANDE A CUL
Sans rien qui puisse jamais remettre en question
La vieille la très vieille et très ancienne et démodée querelle du
qu'en diront-ils
Et du je fais quand même mes cochoncetés en toute quiétude sous
prétexte qu'on m'a béni
Que j'ai signé chez monsieur le maire de mes deux mairies
ALORS QUE CES ENFANTS SONT TOUT SEULS DANS LES
RUES
ET S'INVENTENT LA VRAIE GALAXIE DE L'AMOUR
INSTANTANE
Alors que ces enfants dans la rue s'aiment et s'aimeront
Alors que cela est indéniable
Alors que cela est de toute évidence et de toute éternité
JE PARLE POUR DANS DIX SIECLES et je prends date
On peut me mettre en cabane
On peut me rire au nez ça dépend de quel rire
JE PROVOQUE-À L'AMOUR ET À L'INSURRECTION
YES! I AM UN IMMENSE PROVOCATEUR
Je vous l'ai dit
Des armes et des mots c'est pareil
Ça tue pareil
II faut tuer l'intelligence des mots anciens
Avec des mots tout relatifs, courbes, comme tu voudras
IL FAUT METTRE EUCLIDE DANS UNE POUBELLE
Mettez-vous le bien dans la courbure
C'est râpé vos trucs et manigances
Vos démocraties où il n'est pas question de monter à l'hôtel avec
une fille
Si elle ne vous est pas collée par la jurisprudence
C'est râpé Messieurs de la Romance
Nous, nous sommes pour un langage auquel vous n'entravez que
couic
NOUS SOMMES DES CHIENS et les chiens, quand ils sentent la
compagnie,
Ils se dérangent et on leur fout la paix
Nous voulons la Paix des Chiens
Nous sommes des chiens de " bonne volonté "
El nous ne sommes pas contre le fait qu'on laisse venir à nous
certaines chiennes
Puisqu'elles sont faites pour ça et pour nous
Nous aboyons avec des armes dans la gueule
Des armes blanches et noires comme des mots noirs et blancs
NOIRS COMME LA TERREUR QUE VOUS ASSUMEREZ
BLANCS COMME LA VIRGINITÉ QUE NOUS ASSUMONS
NOUS SOMMES DES CHIENS et les chiens, quand ils sentent la
compagnie,
II se dérangent, ils se décolliérisent
Et posent leur os comme on pose sa cigarette quand on a quelque
chose d'urgent à faire
Même et de préférence si l'urgence contient l'idée de vous foutre
sur la margoulette
Je n'écris pas comme de Gaulle ou comme Perse l
JE CAUSE et je GUEULE comme un chien
JE SUIS UN CHIEN

12 junho, 2011

Como matar uma esquina - Miranda do Douro




Miranda do Douro

Como se mata uma esquina em 9 passos apenas:

1. 1- Olha-se para uma varanda de ângulo e pensa-se: grande complicação! Quero “simplificar”, “melhorar” e “modernizar”.

2. 2 - Duas portas em ângulo não servem para nada, janelas é melhor!

3. 3 - Elimina-se o gradeamento que faz de guarda e parapeito -menos um elemento para atrapalhar!

4. 4 - Constroem-se 2 panos de parede de 0,90m, convertendo as portas em janelas e pintam-se de branco.

5. 5 - O carpinteiro desenrasca duas janelas.

6. 6 - Para proteger da luz, não há nada melhor que duas persianas exteriores.

7. 7 - Chama-se o técnico das persianas. Este apresenta uma solução sem complicação nenhuma, persiana exterior com caixas salientes.

88 - Consciência tranquila do proprietário pois deu resposta às suas exigências actuais de habitabilidade e segundo ele preservou o património não mexendo nos elementos de granito, cumprindo assim o seu dever de cidadão.

9 - 9 - Permitir também que pendurem no cunhal um sinal de transito e uma placa identificadora da rua - fica sempre bem à autarquia!

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As janelas e varandas servem para assegurar o arejamento e a iluminação do interior dos edifícios, até aqui todos estamos de acordo.

A sua função alarga-se para a ligação entre interior e exterior, permitindo utilizar esse rasgo nas paredes para observar o exterior, estender o olhar até à linha do horizonte ou até onde as barreiras exteriores permitirem, criando a ilusão, que estamos ligados ao meio envolvente, que fazemos parte de uma comunidade ou que estamos em comunhão com a natureza.

Parece-me que aceitar isto e compreender é pacífico.

Utilizá-las como canal de comunicação oral para o exterior, também será possível. Nem todos gostam de falar pela janela ou pela varanda… mas é aceitável.

Também ninguém tem dúvidas que são elementos arquitectónicos que imprimem características únicas nos edifícios onde se inserem, ajudando a definir estilos arquitectónicos.

Uma janela é muito mais que um vão, que um espaço vazio de parede… As padieiras, as ombreiras e os peitoris organizam-se numa geometria simples, mas podem assumir formas, volumes e texturas diversas, que imprimem quase um BI a cada janela. A inspiração do arquitecto combinada com a mestria do pedreiro, podem gerar uma obra de arte, que se convertem eventualmente num sinal da cultura de um povo.

Passeei por Miranda do Douro, dentro das muralhas medievais, do tempo de D. Dinis, ficando muito agradada pelo esforço desta comunidade em manter e conservar diversas edificações.

Dobrei uma esquina e vi o resultado de um assassinato arquitectónico e cultural – varanda de ângulo “moderninha”.

As varandas / janelas de ângulo que existem no nosso país são poucas, talvez menos que 50 exemplares. São elementos arquitectónicos utilizados durante o Manuelino e Renascimento, normalmente enquadrados em molduras em granito, com mais ou menos requinte, mas que os convertem em fenestrações muito especiais, de construção mais elaborada, permitindo a visualização para duas ruas em simultâneo e assumindo uma faceta estética única. Estes exemplares são pequenos pormenores, que reforçam a nossa identidade cultural e deverão encher de orgulho os seus proprietários.

Olhei a esquina e apeteceu-me chorar!

Outro exemplar, este, felizmente, ainda não "modernizado"


05 junho, 2011

AMIGOS - Fão 2011



Reencontramo-nos na praia de Fão, perto de Esposende, um grupo de amigos que se conheceu na 2ª parte da década de 70.

Foi um dia feliz, de emoções muito fortes e doloroso também.


Fui com o Mário e com a Gabi. O Mário apanhou-me em frente do Rivoli. Tudo combinado previamente via telemóvel. Ele o mentor do nosso reencontro, recolheu ao longo dos últimos meses os nossos contactos.


-Conheci-te logo! - disse-me ele.


Eu beijei-o alegremente depois de entrar no automóvel.


-Estás igual!


- Tu também, conheci-te logo, quando entrei na rua! Vamos buscar a Gabi e seguiremos para Fão.


- Porque Fão?


-O Aristides mora perto e decidiu irmos almoçar num restaurante de praia.


Encontramos a Gabi, está tão bem, beijei-a emocionada. Falei-lhe duma manif do 1º de Maio em que desfilamos na Portucel, eu, ela e Gorete; já não se recordava.



Éramos um grande grupo heterogéneo, formado aleatoriamente num café da rua do Breiner, no Porto. O grupo foi crescendo naturalmente, o amigo do amigo, que também era amigo ia avolumando o grupo de tertúlia. Juntavamo-nos ao fim do dia em certos dias da semana, ao sábado à tarde e especialmente, sexta e sábado à noite. Uns residiam próximo do café outros não.


O grupo era heterógeneo, cada um frequentava sua faculdade, ou até já trabalhava, numa faixa de idades que oscilava entre os 18 anos e os 30 anos sensivelmente. Tínhamos dois propósitos: amizade e diversão.


Despíamos os problemas de cada curso ou do trabalho e afastávamos ou intervalávamos um pouco as nossas ideologias políticas, para evitar os atritos de maior e conseguirmos um convívio saudável e duradouro. Os exames, as frequências, os projectos ficavam a repousar na casa de cada um. Isto era um grupo de escape à rotina, aos problemas, aos compromissos, às responsabilidades.... O café servia de ponto de encontro, saboreando cimbalinos, meias de leite e outras coisas, fumando muito, partilhávamos a nossa juventude, as nossas fragilidades, os nossos desejos e a vontade de viver a vida. Era um grupo que já vivia os tempos da liberdade pós 25 de Abril e que se encontrava em crescimento /amadurecimento tal com a liberdade.


Jantávamos frequentemente juntos e saíamos para a noite do Porto, uns de boleia dos outros, poucos tinham carro, a maioria vivia de mesada bem esticada durante o mês.


Não importava quem não estava, o que importava era "estar".


Hoje 30 anos depois, sensivelmente, cada um fez um percurso profissional. Clara (educadora aposentada) Anabela (arquitecta e prof), Mário (engenheiro de minas) Gabi (designer gráfica) Gorete III (bancária) Aristides (médico) Alzira (serviço de catering’) Cajó (bancário) ….Foi um dia de afectos, traduzido nos abraços que demos, nas nossas carícias de olhar, sim os vossos olhares, senti-os como carícias. Os nossos cérebros certamente fizeram uma ginástica tremenda entre o passado e o presente... o presente... o passado...


Faltou ainda muita gente que tentaremos encontrar e virão certamente nas próximas vezes.


Este foi o 3º encontro, a mim só me encontraram agora.


De repente eu estava nos braços da Gabi


De repente eu estava nos braços da Clarinha,


De repente eu estava nos braços do Aristides… que abraço grande que nos demos, tentanto estreitar e engolir os 30 anos passados, grande, grande, vigoroso, apertado, gostoso… pelo caminho já tinha falado com ele pelo telemóvel alta voz do Mário.


– Aristideeeeeees, ainda tens um dente amovível? – faltam-lhe, o bigode enorme e os caracóis louros.


A cada um, eu pedia o “curriculum” – qtos casamentos, qtos filhos e o que se passou em 30 anos. O balanço dos afectos é “desastroso”, excepto a Clarinha (união feliz com Fernando) e a Gabi (eternamente consciente – solteiríssima sempre). Tudo o resto oscila entre casamentos e divórcios, pelo menos uma vez.


A Gorete I , a nossa Gorete suicidou-se. Neste grupo existem 3 Goretes, parece que o “destino” reforçou esse nome prevendo grandes danos com uma delas. Recordamo-la...contaram-me sobre ela, os últimos que a viram ou que falaram ao telefone. Decidiu não viver mais em sofrimento, num acto de grande coragem, devido a um problema de saúde grave. Contei também como a procurei e como soube.


Eu precisava visceralmente desta reunião de amigos, para me ajudar a fazer o luto da nossa Gorete. Acho que precisamos todos. Lembrei-me por diversas vezes do filme “Amigos de Alex”. Também nós estávamos aqui a recordar a Gorete, para nos mimarmos sobre a sua falta, para nos confortarmos, para conseguirmos algum equilíbrio perdido, para não nos perdermos mais uns dos outros. Por vezes eu colocava os óculos escuros e permanecia em silêncio, de resto notado por alguns que tentaram despertar-me.


- Como é que tu não tendo vícios (café, alcool e tabaco), és uma mulher tão interessante? Bajulou-me o Aristides, talvez para me despertar dum desses momentos. Rimos todos. Aristides tu és único, nunca mudes!


- Ouviram, ouviram…. Ele acha-me interessante – risada geral.


Mal acabamos os nossos cursos instalou-se a vontade de cada um investir nas suas profissões, de se realizar nas mesmas, de constituir família, afastando-nos geograficamente e perdendo-nos.


Andamos perdidos décadas… eu, 30 anos.


Não havia telemóveis, e todos se conheciam apenas por um único nome… apelidos era coisa que nem nos passava pela cabeça que poderiam vir a ter alguma utilidade.


Recordamos a Gorete, recordamos-nos a nós, numa sintonia bonita de ver e de sentir. Parece que os nossos afectos permaneceram intocáveis, como se nos tivéssemos visto no dia anterior. Senti-me feliz, apesar de tudo.


Observamos fotos antigas - todos mais novos, mais bonitos, com grandes bigodes, os rapazes, delicadas e frescas, as raparigas.


Vi uma foto tirada em Lagos (nós três tão bonitas num final de tarde, preciso dessa foto – eu Clara e a outra Ana- eu moreninha com uns óculos à Janis Joplin). Falamos do nosso campismo em Lagos, da viagem de ida (Porto-Lisboa viagem nocturna dos Clérigos, Castelo Branco, Pastelaria Suiça em Lisboa, Porto Côvo e finalmente Lagos, dentro de uma Diane), daquela tenda colectiva em que não havia lugares marcados, o lugar para dormir era segundo a ordem de recolha de cada noite – Gorete e Claudino (namorados), Clara, Anabela, Aristides e Lúís, estes dois normalmente só chegavam já de dia. Falamos da praia, da diversão diária e nocturna na discoteca ELÉCTRICO, gozávamos como se fosse o ultimo dia das nossas vidas.. Rimos por a Gorete se chatear connosco, devido às desvantagens de se fazer férias com o namorado, eheheh, rimos da contínua ocupação do Luís e Aristides em orientar as alemãs…. Recordei na minha cabeça, a praia de naturismo, o Jorge, o Carlos e a sua caldeirada de peixe, única, feita pelos pescadores de Lagos, o meu reencontro com alguém de Angola, as danças frenéticas, o encontro com o luar de Agosto à beira mar..


Do Porto, a nossa cidade do coração, recordamos alguns jantares e o apartamento da Clara, que servia de abrigo no final das nossas incursões nocturnas. Os mais dorminhocos e claro a dona do apartamento iam para os quartos, os resistentes que ainda queriam conversar e ouvir musica na companhia dos outros, dormiam no chão da sala - eu habituada a directas a trabalhar, pertencia sempre aos resistentes. Fazíamos lutas de almofadas, parecendo garotos. O Luís tinha uma pedalada de conversa até todos adormecerem.


Revivemos as festas na garagem do Cajó… as fotografias de um Carnaval, onde o Álvaro (desaparecido ainda, espero que só temporariamente desaparecido ), se pintou todo de dourado, e eu com umas pestanas enormes colocadas pela Clara. Falando no Álvaro direccionamos o canal memória para o teatro TUP, onde alguns de nós experimentou as artes de Talma e onde conhecemos o Óscar Branco e a irmã, e o ensaiador João – eu com uma permanência muito curta… os projectos ocupavam-me o tempo todo. A Gabi recordou o edifício SICAP.


Falei do Rui Nogueira e do Zeca, meus colegas da ESBAP, que pontualmente saiam também connosco, e do café campismo de Montes Burgos – outra plataforma de alguns de nós. O meu almoço com ele na semana passada, vindo de Tavira, que foi uma loucura.


Referimos o uso e abuso que fizemos do pub do Hotel Infante D. Henrique no 16º andar.


- Foi aí que conheci o meu ex-marido!- dizia a GoreteIII.


Uma pista de dança com uma vista soberba para toda a cidade do Porto que todos tinham o privilégio de usufruir. Éramos uns privilegiados por podermos viver aquele espaço, projectado pelo arquitecto Rica.Tanta vez subimos e descemos aquele elevador! Tanta vez que dançamos naquela pista!


Falamos do Arnaldo, foi ai que o conhecemos.


_ Quem é o Arnaldo? questionaram alguns.


Avivaram-se memórias. Últimamente encontro o Arnaldo regularmente.


Falamos da Milú, do Joãozinho, da Carmo, da Claudina, da Ana, do Jorge, do Luís e do outro Luís, do Manel Neto, do Augusto, e de outros que faltaram, mas estão localizáveis. Este continuará a ser um grupo com as mesmas características, dificilmente estaremos todos, todos reunidos, porque o grupo é enorme… o que interessa é estarmos os que estiverem.


Falamos com a Milú no telemóvel. Trocamos informações.


Lembrei o apartamento da Ana na rua do Breiner, onde o Cajó se vestia com as roupas dela, bandolete, molas da roupa nas orelhas e depois se passeava divertidamente, pela rua do Breiner e rua Miguel Bombarda. Ele era sempre o mais animado e louco de todos. A Ana casou com o Jorge. Lembrei também as experiências exotéricas dos dois Luíses e Manel Neto, deitados na cama da Ana, a tentar levitar e viajar fora do corpo….loucos varridos!!!


Perguntei pelos colegas do Aristides, e um especial que para mim tinha uns olhos irresistíveis! Eheheh, médico algures.


Olhamos as fotos uma e outra vez , e outra vez, e o nosso olhar entristecia ao ver o rosto alegre da nossa Gorete. Brindamos aos presentes duas vezes, mas foram dois brindes cansados e emociados por 30 anos de experiencias diversas, não partilhadas e muito amadurecimento.


Foi uma óptima ementa, escolhida pelo Aristides. Escolheu um restaurante junto à praia , muito agradável, para que alguém que levasse os filhos pudesse usufruir do sítio. Aristides não tem filhos e esqueceu-se que os filhos dos outros têm mais de 18 anos, já não brincam na praia nem saem com os pais. Acho adorável esta desordem do raciocínio do Aristides !!!!!!!!!!


Eu e o Mário despedimo-nos e regressamos ao Porto, os outros ainda ficaram. Ficou marcado próximo almoço e entretanto pretendemos continuar a divertirmo-nos, desta vez no Porto, sempre que estiver por lá, para que os nossos encontros ultrapassem a fase da recordação e continuem a ser momentos vividos em pleno com novos episódios.


A sós com o Mário, foi possível partilharmos situações mais pessoais das nossas relações afectivas que por sinal e estranhamente coincidem em tantos aspectos.


Regressei a VR e pelo caminho foi inevitável reflectir sobre este dia especial. Somos uma geração de grande riqueza interior, temos em comum tanta coisa boa! Temos a nossa vida afectiva um pouco perturbada, mas isso dá-me a certeza que não somos pessoas conformadas e lutamos para estar bem connosco e com a vida.


Todos me pareceram chocados com o suicídio da nossa amiga e todos carentes desta grande amizade que nos une e ficou adormecida tantos anos.


Todos parecemos pessoas crescidas, amadurecidas, profissionalmente realizadas, autónomas, mas todas evoluíram no meio de frustrações, desejos, contradições… e é isso que somos hoje.


Gostamos da companhia uns dos outros, pois todos nos aceitamos como na verdade somos, seres imperfeitos, como semelhanças e muitas diferenças, defeitos e qualidades. Já não temos tanto sangue na guelra, mas continuamos heterogéneos, queremos estar juntos, resistimos a tanta coisa, respeitamo-nos. Cada um carrega consigo a sua história, que o distingue dos outros, mas com intersecções, com zonas de coincidência que todos entendemos como comuns.


Precisamos do ombro de cada um, para chorarmos e para sorrirmos.


Deixem-me acreditar que precisamos.


Até breve.


Anabela Quelhas