Mostrar mensagens com a etiqueta revoltando. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta revoltando. Mostrar todas as mensagens

20 maio, 2026

A CAIXADE PANDORA

 


A CAIXA DE PANDORA

Na mitologia grega, a Caixa de Pandora (na verdade, um jarro) era um presente de Zeus para Pandora, a primeira mulher, criada por Hefesto a mando de Zeus. O presente constava de uma caixa

E o que continha a caixa?

Continha todos os males e desgraças do mundo, como doenças, dor, a guerra, a fome, o ódio, a discórdia, a inveja, as doenças do corpo e da alma, mas continha também a esperança, que ficou retida no fundo. A caixa estava lacrada, e Zeus deu ordem expressa de nunca a abrir, pois continha os males destinados à humanidade como punição.

Vencida pela curiosidade, e desconhecendo o seu conteúdo Pandora abriu o recipiente, libertando uma nuvem de todos os males (doenças, miséria, discórdia, etc.) que passaram a afligir toda a humanidade.

Assustada, Pandora fechou a tampa rapidamente, mas já era tarde. Apenas a esperança ficou presa na caixa, que deu aos humanos a força para suportar as adversidades.

Este mito explica a origem do sofrimento humano e a importância da esperança para enfrentá-lo, tornando-se uma metáfora para atos que desencadeiam consequências imprevisíveis. Adverte também sobre os perigos da curiosidade excessiva e as consequências irreversíveis das acções humanas, especialmente quando há desobediência a ordens divinas.

 Hoje, a expressão "abrir a caixa de Pandora" por vezes é utilizada de forma leviana, e parece conter algo de mágico, na verdade significa "a origem de todos os males" é usada para descrever acções que geram consequências negativas, imprevistas e incontroláveis.

Apesar dos males, a Esperança que ficou na caixa simboliza a resiliência humana e a capacidade de perseverar diante das adversidades. Por isso dizemos que a Esperança é a última a morrer.

A esperança é considerada uma força inesgotável que sustenta o ser humano, ajudando a superar momentos de crise, dor ou desespero. Antes da desistência total (desesperança), a pessoa mantém a expectativa de que o amanhã trará algo melhor, agindo como uma protecção contra o desânimo profundo.

Que os deuses te sorriam. Alegra-te! Kairé!

 

[Emissão “Zeus não dorme”, descubra a mitologia grega na sua vida – Rádio Universidade FM – 08|09|10 de Maio de 2026.]

13 maio, 2026

CAIR NOS BRAÇOS DE MORFEU


 CAIR NOS BRAÇOS DE MORFEU

Apesar dos milénios que nos separam da Grécia Antiga, é evidente que o legado dessa civilização ainda exerce uma influência profunda em diversos aspectos da nossa vida quotidiana.

As propriedades revigorantes do sono são amplamente conhecidas, e a ausência dele pode gerar uma série de problemas de saúde. Muitos estudiosos continuam a investigar de que maneira essa actividade, que ocupa praticamente um terço das nossas vidas, interfere no funcionamento do organismo. É comum ouvirmos pessoas celebrarem uma noite de sono reparador dizendo que “caíram nos braços de Morfeu”.

Mas, afinal, de onde vem essa expressão?

A expressão "cair nos braços de Morfeu" é uma metáfora que descreve o acto de adormecer de forma profunda, tranquila e reconfortante, quase como um sono hipnótico. Essa locução remete à mitologia grega, na qual Morfeu é o deus dos sonhos. Representado com asas poderosas, Morfeu tem a capacidade de se mover silenciosamente durante a noite, viajando rapidamente pelo mundo para visitar os seres humanos enquanto dormem, moldando e influenciando os seus sonhos. Ele é um dos mil filhos de Hipnos, o deus do sono e de Pasiteia (deusa do relaxamento, do descanso ou das alucinações), e neto da deusa primordial da noite, Nix.

Segundo a mitologia grega, Morfeu adormecia os mortais tocando-os com uma folha de papoila, mergulhando-os num sono propício à experiência dos sonhos. Os gregos acreditavam que uma noite bem dormida e os seus efeitos positivos só poderiam ser explicados pela presença dessa divindade nos sonhos.

A imagem de corpos entrelaçados ao dormir, ou de estar nos braços de Morfeu, é uma metáfora clássica tanto na literatura quanto na nossa vida real. Quando alguém diz que “caiu nos braços de Morfeu”, refere-se ao momento em que a pessoa abandona a consciência para mergulhar num repouso reparador, como se estivesse a ser acolhida pelo próprio deus. Estar sob os seus braços significa, portanto, estar sob a protecção da divindade que governa o mundo dos sonhos.

Voltando à mitologia, quando Hipnos, pai de Morfeu, precisa de enviar uma mensagem a um mortal através do sonho, envia um de seus filhos. Os filhos, Fobetor e Fantaso, imitam animais ou objetos inanimados, como árvores ou utensílios, nos sonhos dos mortais. Contudo, Morfeu tem uma função especial: pode assumir a forma de qualquer ser humano. Nenhum outro filho imita tão bem, reproduzindo o andar, o rosto, a voz, as palavras e até as roupas de cada pessoa.

Assim, Morfeu pode assumir diversas formas de cada um de nós e de outros personagens que surgem nos nossos sonhos. Essa capacidade de caracterizar e representar o sonho inspirou Freud ao desenvolver as suas teorias sobre a ligação entre os personagens do inconsciente e as nossas experiências oníricas.

Foi justamente por meio dessa expressão e da história de Morfeu que um dos mais potentes analgésicos existentes, a morfina, recebeu esse nome.

A associação deve-se ao facto de que a morfina é extraída da papoila, a mesma planta que, na mitologia, Morfeu utilizava para adormecer os mortais. Além da sua origem, a morfina possui propriedades sedativas potentes, induzindo o sono e aliviando a dor.

Em conclusão, embora a mitologia não tenha bases científicas, é inegável que uma noite de bom descanso é, de certa forma, divinal. Afinal, o sono reparador é um presente que nos conecta com uma cultura que explica a origem do mundo, fenómenos naturais e comportamentos humanos por meio de deuses, heróis e seres sobrenaturais.

Que os deuses te sorriam. Alegra-te! Kairé!

[Emissão “Zeus não dorme”, descubra a mitologia grega na sua vida – Rádio Universidade FM – 24|25|26 de Abril de 2026.]

06 maio, 2026

EFEITO PIGMALIÃO

EFEITO PIGMALIÃO 

Em Zeus não dorme, hoje trazemos o EFEITO PIGMALIÃO palavras muito utilizadas na nossa sociedade, especialmente nas empresas e na escola. 

O Efeito PigmaIião é um fenómeno psicológico onde as altas expectativas de alguém sobre outra pessoa influenciam positivamente o desempenho desta, criando uma "profecia auto-realizável". Originado na mitologia grega e validado por estudos (Efeito Rosenthal), demonstra que acreditar no potencial de colaboradores ou alunos gera maior empenho e sucesso.

Baseado no mito grego do escultor Pigmalião, que se apaixonou pela sua própria criação, e esta, pela intensidade da crença, ganhou vida.

Na mitologia grega, Pigmalião foi um rei da ilha de Chipre, que, segundo Ovídio, poeta romano contemporâneo de Augusto, também era um escultor talentoso.

Pigmalião andava desgostoso com o comportamento condenável das mulheres da sua época, que desafiavam a deusa Vénus, Afrodite da Grécia jurando nunca se casar.

O escultor dedicou-se à construção de uma estátua de mulher, mais bela e perfeita, que já tivesse existido, à escala natural e de mármore alvíssimo.

A estátua parecia tão real que por vezes Pigmaliáo tinha de a tocar para constatar que era de mármore e não de carne e osso. Apaixonou-se pela sua criação – beijava-a, abraçava-a, dizia-lhe palavras doces e de amor e até lhe oferecia presentes, mas ela não abria a pestana, continuava fria e quieta. Dormia a seu lado, preparava-lhe refeições deliciosas, mas nada. A sua ligação à estátua era tão forte que numa das cerimónias em honra a deusa Afrodite, ele fazia oferendas à Deusa do amor (Afrodite ou Vénus) e implorou que lhe desse uma mulher linda como a sua estátua. Afrodite, deusa do amor ficou sensível aquele pedido, e enquanto ele estava ali a rezar, Afrodite deu vida a estátua.

Quando chegou a casa, abraçou e beijou a estátua como costumava fazer, e para seu espanto a carne estava morna. A estátua ganhara vida e levantou-se. Respondeu aos seus beijos, e abraços, abriu os olhos e viu o seu amor pela primeira vez. Pigmalião casa com ela e foram felizes para sempre.

Alguns pedagogos da atualidade acreditam no efeito Pigmalião. Um líder ou um professor acreditando no potencial de um indivíduo, dando-lhe mais atenção, mais estímulo, propondo mais desafios e feedback, aumenta a sua auto-confiança e o esforço do indivíduo, resultando num melhor desempenho. É um conceito crucial na gestão, liderança e educação, onde acreditar e nutrir expectativas positivas é uma ferramenta para transformar o potencial em resultados reais.

Também há o Efeito Inverso (Efeito Golem): Baixas expectativas por parte de gestores ou educadores levam a um desempenho inferior, confirmando a capacidade do observador em moldar a realidade.

Existe uma versão mais obscura, associando Pigmalião, às origens do machismo, porque criou uma mulher à sua medida, condicionando-a, e protegendo-a como se faz a uma boneca, dominando-a e limitando a sua acção.

Que os deuses te sorriam. Alegra-te! Kairé!

 

Emissão “Zeus não dorme”, descubra a mitologia grega na sua vida – Rádio Universidade FM – 10|11|12 de Abril de 2026.

Publicado em NVR 06|05|2026

 

22 abril, 2026

Rebaldaria, não obrigada.

Rebaldaria, não obrigada.

O financiamento político é um tema central no funcionamento de qualquer sistema democrático, pois influencia directamente a transparência, a integridade e a legitimidade das instituições e dos processos eleitorais.

Em Portugal, recentes mudanças promovidas pela Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) representam um retrocesso preocupante na transparência do efeito do dinheiro, que sustenta os partidos e campanhas eleitorais.

Historicamente, a divulgação dos doadores permitia à sociedade compreender quem financiava o quê, ajudando a identificar possíveis interesses ocultos e essencialmente a evitar a influência indevida de grandes financiadores. Essa prática convertia este monstro da política em algo mais confortável para todos (se calhar sou ingénua) e mais transparente. No entanto, a decisão actual, de tornar confidencial a consulta pública dos doadores, rompe com essa tradição e abre espaço para a opacidade, que eu chamaria rebaldaria.

A ocultação põe em risco a integridade do processo eleitoral ao facilitar doações de grandes empresários, que podem ficar ocultas, e ao permitir que interesses específicos influenciem as decisões políticas sem a devida fiscalização. A ocultação entorta a democracia!

Deve-se à transparência sabermos o que interessava à Mota-Engil grupo Barraqueiro e à família Salgado e muitos outros… e por quê Cavaco Silva foi como foi. Só assim se consegue unir as pontas do labirinto de interesses, doa a quem doer.

No contexto europeu, outros países continuam a divulgar os doadores na internet, reforçando o compromisso com a transparência e o combate à corrupção. Nós aqui em Portugal queremos dar vez ao “Chico-espertismo” e legalizá-lo.

O argumento de que a confidencialidade protegeria os doadores de possíveis represálias (ai coitadinhos, ai coitadinhos) é contestado por muitos democratas tentando evitar que os partidos possam tornar-se dependentes de financiamentos obscuros ou de interesses particulares, distorcendo a representação democrática. Numa sociedade verdadeiramente democrática, deveria eliminar-se a influência do dinheiro privado.

Na minha modesta opinião, na fase madura da democracia, até eliminaria o financiamento directo dos partidos e das campanhas eleitorais. Quem quer exercer o seu direito altruísta no campo das eleições democráticas deveria fazer doações para a Comissão geral de eleições e estaria o assunto arrumado. O raciocínio é sempre o mesmo, quem tem dinheiro financia os partidos mais próximos da sua ideologia e interesses, ou seja, os partidos que defendem o dinheiro e não as pessoas, sendo algo secreto facilita ainda mais a gestão de interesses obscuros. É urgente inverter esta lógica e apoiar sem interesse por qualquer ideologia política. 

A proposta de limitar ou eliminar o financiamento privado visa reduzir a influência de interesses económicos na política, promovendo uma democracia mais justa, onde a participação não seja condicionada por recursos financeiros. Assim, é fundamental repensar o modelo de financiamento político, buscando uma alternativa que priorize o interesse público, promova a transparência e fortaleça a confiança na democracia e não o contrário.

É importante também, sabermos se num país pobre como o nosso, é isto que queremos, campanhas eleitorais exuberantes, exageradas, sem qualquer criatividade, com cartazes gigantes, debates televisivos maçadores e intermináveis, entrada nas escolas e outros locais de trabalho, o domínio completo da Notícia nos meios de comunicação social, e depois, ainda mais grave, não se obrigar a retirar toda a poluição visual utilizada e nós cidadãos comuns termos de levar todos os dias com a tromba daquele que nunca digo ou escrevo o nome.

Publicado em NVR 22|04|2026
 

15 abril, 2026

QUEM É ZEUS?


 QUEM É ZEUS?

Zeus é o criador do Universo.

Zeus é o rei dos deuses na mitologia grega, governante do Monte Olimpo, deus do céu, do trovão e do relâmpago, responsável pela justiça e ordem entre deuses e humanos, sendo filho dos Titãs Cronos e Reia, e pai de muitos outros deuses e heróis. Conhecido pelo seu poder e intervenção nos assuntos mortais. Ele é o mais poderoso do panteão grego, simbolizado pelo raio e pela águia, sendo adorado através de rituais solenes e dos Jogos Olímpicos.

 Zeus é a figura central da mitologia grega. Ele é identificado com o deus Júpiter na mitologia romana, e a sua importância reside em supervisionar as leis divinas e o funcionamento do Estado, garantir a ordem, segundo as narrativas, proteger suplicantes e estrangeiros, a embora nem sempre aja de acordo com o nosso conceito de justiça.

Zeus vive e governa o Monte Olimpo, o lar dos doze deuses olímpicos. Casado, primeiro com Métis, gera a deusa Atena (deusa da sabedoria e das artes)e, depois, com Hera, gera Ares (deus da guerra), Hefesto (deus do fogo e da metalurgia), Hebe (deusa da juventude) e Ilítia (deusa do parto).

Pai de outros deuses (como Apolo, Ártemis, Hermes) e heróis (como Hércules, Perseu, Helena de Troia), fruto dos seus muitos casos amorosos, o que cria ciúmes na sua esposa Hera.

Monte Olimpo, o lar dos doze deuses olímpicos, governado por Zeus, a montanha mais alta da Grécia, localizada no norte da Grécia, na Tessália, perto do Mar Egeu, é lugar místico, reino celestial acima da Terra, um ponto de ligação entre o mundo mortal e o divino, envolto em nuvens, com palácios de cristal construídos por Hefesto, acessível por um portão de nuvens guardado pelas Horas, onde vivem, alimentando-se com néctar e ambrósia e envolvem-se nos assuntos humanos. No lar de Zeus e Hera, vivem, Poseidon Deméter (irmãos de Zeus) e os filhos Atena, Apolo, Ártemis, Ares, Hermes, Hefesto e Dionísio e ainda a tia Afrodite.

E por que Zeus não dorme?

Os deuses do Olimpo não têm as mesmas necessidades biológicas dos humanos, não precisando de dormir para descansar. Não sofrem de fadiga como os humanos; eles podem ficar sem dormir por longos períodos, mas podem escolher dormir para relaxar.

Como Rei dos Deuses e governante do Olimpo, Zeus está sempre atento aos assuntos do mundo, às intrigas dos outros deuses e aos problemas dos mortais, precisando de estar desperto. Zeus é frequentemente descrito como aquele que tudo vê e que mantém a ordem no universo. Embora seja o governante supremo e quase todo-poderoso, ele não está imune às forças fundamentais como o sono. A relação entre Zeus e o sono é marcada pelo equilíbrio entre a sua omnipotência e as forças primordiais do universo que ele não consegue controlar totalmente.

Hypnos (o deus Sono) é a única divindade que consegue dominar Zeus através do sono, e fê-lo em duas ocasiões importantes a pedido de Hera: A primeira vez para castigar Hércules, a segunda, aconteceu durante a Guerra de Troia. Hera pediu a Hypnos que adormecesse Zeus para que ela pudesse interferir na guerra sem ele perceber. A soneca de Zeus, será o seu ponto frágil, adormecendo em momentos estratégicos, permitindo que outros deuses ajam contra a sua vontade, deixando-o furioso.

Actualmente, existe um sistema anti-ronco chamado Zeus “Sleep” que utiliza estimulação elétrica para ajudar pessoas que não conseguem dormir bem, devido ao ronco. Há também suplementos como o “Zeus Dormiben” que ajudam a regular o sono através da melatonina.

Que os deuses te sorriam. Alegra-te! Kairé!

Emissão “Zeus não dorme”, descubra a mitologia grega na sua vida – Rádio Universidade FM – 27|28|29 de Março de 2026

Publicado em NVR 15|04|2026

https://voca.ro/1c08sHwC2OEv

Musica: Tarkus – Emerson, Lake & Palm

08 abril, 2026

“Eu sou eu e a minha circunstância”


 

“Eu sou eu e a minha circunstância”

“Guerra e Paz”, programa de Germano de Almeida, teve como convidado o cantor e compositor Pedro Abrunhosa, para realizar análise internacional. Abrunhosa, vai muito além da interpretação “à letra” de “Talvez f%der”. Homem inteligente, culto, informado, sensível e interventivo, não opinou sobre “lugares comuns” e citou por duas vezes Ortega. Este filósofo espanhol do século XX é uma figura central na reflexão sobre a condição humana e a sociedade moderna e por isso é tão referenciado por pensadores do século XXI.

Afinal quem foi Ortega?

José Ortega y Gasset (1883–1955) foi um dos mais influentes filósofos, ensaístas e intelectuais espanhóis do século XX e é amplamente reconhecido pela sua expressão célebre: "Eu sou eu e a minha circunstância", que assume a sua abordagem vitalista e perspectivista. Essa frase reflecte a compreensão de que o indivíduo não existe isoladamente, mas em constante diálogo e interacção com o seu contexto social, cultural e histórico, que moldam a sua identidade e as suas acções. A realidade não é algo estático ou meramente lógico, mas um fluxo de forças e afectos. O pensamento deve servir à vida, e não o contrário. Isso significa avaliar ideias pela sua capacidade de expandir a nossa potencialidade de agir e de criar. Não existe um "olhar neutro" [adoro quando alguém assume a possibilidade de não se ser político e não ter opinião] ou um sujeito desvinculado do seu corpo e circunstância. Cada interpretação é uma perspectiva necessária para o crescimento da vida. Quanto mais perspectivas somos capazes de integrar, mais rica e "objectiva" (no sentido de plural) se torna a nossa compreensão do mundo. Entre o binário SIM e NÃO existe um complexo mundo de análises e de percepções, umas mais humanistas do que outras, acrescento eu.

Ortega destacou-se pela sua filosofia que valoriza a experiência concreta e a condição humana, rejeitando visões essencialistas e buscando compreender a realidade por meio de uma perspectiva dinâmica e relacional. A sua obra é marcada por uma análise profunda das forças que influenciam o indivíduo e a sociedade, realçando a importância da liberdade, da responsabilidade e do entendimento do homem como um ser real e condicionado pelas suas circunstâncias.

A sua análise revela uma preocupação com o papel do indivíduo na sociedade e com o risco de uma homogeneização cultural que pode levar à mediocridade colectiva. Para Ortega, a compreensão das circunstâncias é fundamental para a actuação consciente e responsável do indivíduo, que deve buscar uma vida autêntica e uma cultura que valorize a excelência e a criatividade.

Uma das principais contribuições de Ortega é a ideia de que o indivíduo deve assumir a responsabilidade pela sua própria existência e pelo seu destino, num mundo cada vez mais complexo e acelerado. Ele destacou a importância da "vida concreta" e do "homem-massa", alertando para os perigos da conformidade e da perda da individualidade diante das forças sociais e tecnológicas.

Ortega alerta para os perigos da massificação e destaca a importância de uma postura consciente frente às circunstâncias que moldam a existência humana. Também é pioneiro ao discutir a crise dos valores tradicionais e a necessidade de uma cultura que seja capaz de responder às exigências dos novos tempos. A sua ênfase na razão prática, na liberdade pessoal e na criatividade como elementos essenciais para o desenvolvimento humano ressoa na sociedade contemporânea, marcada por rápidas mudanças culturais e tecnológicas, que podem ser nocivas.

Além disso, a sua visão de que o homem moderno deve buscar um projecto de vida que seja autêntico e que tenha sentido, diante do caos e da fragmentação do mundo, inspira muitas correntes filosóficas e existenciais actuais. Assim, Ortega influencia o pensamento do Homem do século XXI ao oferecer uma reflexão sobre autonomia, responsabilidade e a busca por significado num mundo em constante transformação.

Publicado em NVR 08|04|2026

01 abril, 2026

Quando o mundo vira uma trágico-comédia.

 


Quando o mundo vira uma trágico-comédia. 

Donald Trump conseguiu transformar o mundo numa comédia perigosa, onde não se encontra lógica, nem coerência, entre muitas vidas perdidas.

Quem diria que, numa era de comunicação e de informação, a estratégia de política externa de um país poderia transformar-se numa novela de episódios desconexos?

Contra a Venezuela e o Irão — é um verdadeiro espectáculo de lógica confusa e objectivos tão claros quanto um espelho embaciado. 

Primeiro, temos o amuo do Nobel da Paz.

Segue-se a Venezuela, aquele país que, aparentemente, se tornou num objecto de obsessão de Trump, como se fosse um episódio de um reality show político. Entre sanções que mais parecem tentativas de jogar um jogo de Jenga com a economia de um país já fragilizado, e declarações que mais parecem tweets de um fã de futebol que tenta jogar futebol, a Venezuela virou o palco de uma guerra de narrativa: de um lado, a luta pelo "democracia verdadeira", do outro, a tentativa de derrubar um governo que, segundo Trump, é uma ameaça à estabilidade mundial. Entretanto, capturam o Presidente Maduro e inundam as televisões com ele algemado a segurar uma garrafa de água, vestindo moleton, olhos vendados… convenhamos, se a intenção era ajudar o povo venezuelano, as sanções parecem mais uma forma de mandar um presente de Natal com um pacote de rebuçados  de hortelã, deixando os venezuelanos a perguntarem se estão a jogar um jogo de xadrez ou uma partidinha do 1º de Abril.

E o Irão? Aquele país de cultura milenar virou o inimigo favorito do Twitter e do discurso político do Sr. Trump, quase como uma novela de televisão que nunca termina e tem na produção o guru sanguinário, da estrelinha de 6 pontas, que eu não atino a escrever o nome. Entre acordos nucleares que mais parecem promessas de um namoro que nunca começa, e sanções que parecem mais uma tentativa de fechar o restaurante do amigo do bairro do que uma estratégia de paz, a relação com o Irão é um verdadeiro espectáculo de incoerência. Afinal, se o objectivo era evitar a proliferação nuclear, por que então apostar na pressão máxima que só faz o país mais resistente, como um gato que não gosta de ser agarrado?

E isto agora é assim? Legitima-se o poder invadir países, e querer decidir por quem lá vive?

Depois ai, ai, quero ajuda!

Afinal era para ver a vossa reacção!

Isto parece uma check list de erros: promessas, sanções, vaidade, falsidade, provocação, ironia e declarações de guerra que mais parecem frases soltas de um poeta confuso. Uma verdadeira obra de arte da confusão internacional, onde a lógica foi deixada de lado e o espetáculo continua, com uma plateia que tenta entender, mas só consegue assistir, boquiaberta, à peça mais imprevisível do século. Às vezes o mais incoerente é justamente o que faz mais sentido… para quem gosta de um bom caos.

O número dos trapezistas e palhaços já foi, o que se seguirá? O que se seguirá para que o Sr. Trump continue a ter as parangonas da informação?

Ah, claro, em nome da estabilidade global imagino o Sr. Trump a cruzar os mares, vestindo a revolução empresarial, onde apenas existe o sistema binário, o Deve e o Haver, para ocupar Cuba e, com jeito, o Brasil. A táctica é sempre a mesma, primeiro promove-se a carência, a instabilidade e o pânico, e depois toma-se conta com anuência da população no desespero - “Make Cuba Great Again” .

Desta salgalhada toda só se extrai uma coisa positiva: O Sr. Trump conseguiu uma indignação global, quer se seja de esquerda ou de direita, vermelho, amarelo ou azul. A Gronelândia ficará mais para o Verão devido às condições climatéricas. Ouvi dizer que a famosa estátua da liberdade, oferecida pelos franceses, já fechou os olhos e com as mãos tapou aos ouvidos. Sinto orgulho dos nuestros hermanos.

Na próxima semana quando o leitor me ler, certamente, com a velocidade que o mundo vai, já teremos novas realidades.

Publicado em NVR 01|04|2026


25 março, 2026

Velharias/antiguidades

 

Velharias/antiguidades

Nas grandes cidades gosto de visitar mercados e espaços de venda de velharias. O meu gosto pelas velharias é uma forma de me confrontar com o passado por meio de objectos em desuso, mas que resistiram ao tempo. Alguém os dispensou para estarem ali simultaneamente visíveis e incógnitos.

Procurar antiguidades é uma aventura que mistura o espírito de Indiana Jones com a ansiedade de um coleccionador em busca do objecto perfeito — aquele que faz o coração acelerar mais do que um electrão em movimento. Essa procura rapidamente passa de um gosto para um vício.

Nunca se sabe o que se vai encontrar, portanto é como uma navegação sem destino e sem GPS. Caricaturando parece que levamos uma lupa na mão, desvendando os mistérios do passado, enquanto o nosso cérebro, equipado com a sabedoria de séculos de história, tenta distinguir uma verdadeira relíquia entre várias réplicas de plástico.

O charme do caçador de relíquias é que acredita que aquele objecto banal pode esconder uma história fascinante. Como um mini Sherlock Holmes, o coleccionador treina o olhar, evoca conhecimento rápido e um pouco de intuição para poder realizar uma avaliação rápida, com o objectivo de comprar bom, único e barato; segundo estudos, é uma combinação de experiências acumuladas e uma pitada de sorte, ou como dizem na ciência, uma variável aleatória que dá aquele tempero especial à pesquisa.

Às vezes observo as pessoas que compram com critérios diferentes dos meus, e interrogo-me sobre o que motivou determinada compra. Uns preferem os “cacos”, outros, mobiliário, joias, moedas, automóveis, livros, cassetes, discos, rádios, relógios e por aí fora.

Há sempre peças únicas misturadas com corriqueiras. A sorte sorri quando se encontra uma peça invulgar, única, valiosa por uma pechincha.

Há também o lado divertido dessa busca: as histórias fantasiosas que surgem, as negociações quase dramáticas, e a esperança de encontrar um tesouro escondido no sótão da avó de alguém ou na loja de antiguidades mais suspeita. Afinal, quem nunca sonhou em encontrar uma peça única, que possa valer uma fortuna ou, pelo menos, proporcionar uma boa história para contar aos amigos?

Normalmente lamento-me por várias peças que perdi, por falta de dinheiro, por receio de arriscar ou porque alguém se antecipou a mim.

O segredo para comprar uma boa velharia reside no equilíbrio entre o conhecimento técnico e a capacidade de "garimpar" em locais menos óbvios. Para encontrar peças com valor real, deve focar-se na autenticidade, no estado de conservação e no potencial de valorização.

Na próxima vez que o leitor se aventurar na procura por antiguidades, lembre-se: além de uma pesquisa científica, é uma jornada divertida, cheia de descobertas, surpresas e, claro, uma boa dose de humor. Porque, no fundo, o segredo da busca por relíquias é exatamente isso: uma mistura de ciência, sorte e uma pitada de loucura.

            Quando procurar móveis procure por encaixes manuais assimétricos (em vez de cortes industriais perfeitos) e acabamentos originais em verniz boneca ou cera.

Se o seu foco for prataria e porcelana, verifique as marcas do fabricante - nomes famosos elevam significativamente o valor. Se forem materiais avulsos, as antiguidades genuínas (geralmente com mais de 100 anos) utilizam materiais sólidos e técnicas de construção artesanais que as distinguem das réplicas modernas.

O conhecimento do design e da história é um parâmetro necessário em todas as procuras, para evitar comprar gato por lebre.

Avalie se a peça precisa de restauro profissional. Móveis que exigem logística complexa (desmontagem e transporte) devem ser comprados a preços mais baixos. Evite o Valor Sentimental, o preço de mercado não considera o apego emocional do vendedor.

Em mercados de usados, o preço inicial é raramente o final; esteja preparado para negociar com base nos defeitos ou na necessidade de restauro. E não esqueça, quando se interessar por uma peça, não mergulhe de imediato no negócio. Primeiro manifeste interesse por outras peças, e quando sentir o cansaço do vendedor, é o momento para mencionar aquilo que, na verdade, lhe interessa. Se pretende um bom negócio procure um ferro-velho em vez de um antiquário.

Publicado em NVR|25|03|2026


18 março, 2026

POESIA


 POESIA

A poesia é uma forma de expressão artística que ultrapassa as palavras, utilizando as próprias palavras, permitindo transmitir emoções, pensamentos e experiências de maneira profunda e muitas vezes universal.

Desde os tempos antigos, a poesia desempenha um papel fundamental na cultura e na história das sociedades, sendo uma ferramenta poderosa de comunicação, resistência e reflexão. Ela tem a capacidade de tocar o coração e emocionar a alma das pessoas, despertando sentimentos e promovendo a conexão entre indivíduos e a sociedade, além de preservar tradições e identidades culturais.

No contexto da poesia lusófona, essa importância amplia-se ainda mais, pois ela reflecte a diversidade e a riqueza cultural dos países de expressão portuguesa, afirmada em diversos territórios. A poesia lusófona abrange uma vasta gama de estilos, temas e expressões, temas clássicos de amor e saudade, reflexões contemporâneas sobre identidade e sociedade que abordam questões sociais, políticas e ambientais. Poetas como Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Mia Couto, Alda Lara e Cesário Verde, entre outros, representam essa diversidade, cada um contribuindo com uma visão única do mundo, marcada por influências de diferentes histórias, idiomas e tradições.

O que dizer de Camões, reconhecido como o maior poeta da língua portuguesa e uma figura cimeira da literatura universal? A sua obra, funde o génio erudito do Renascimento com uma sensibilidade popular, explora a fundo a condição humana, o amor contraditório, as mudanças do tempo e a epopeia dos Descobrimentos Portugueses, elevando a língua a um patamar de excelência.

A poesia lusófona é especialmente importante pelo seu papel na formação da identidade e na resistência cultural, sobretudo em contextos de colonização e pós-colonização. Ela serve como meio de manter viva a história, as memórias e os valores das comunidades, promovendo o orgulho pela herança cultural e incentivando a reflexão sobre o presente e o futuro. Além disso, a poesia lusófona enriquece o panorama literário mundial, trazendo vozes únicas que contribuem para um diálogo intercultural mais amplo e rico.

A poesia, é uma ferramenta essencial para fortalecer a cultura, promover o entendimento mútuo e celebrar a diversidade do mundo. Ela continua a inspirar gerações, demonstrando que, por meio da palavra, é possível construir pontes de esperança, resistência, criatividade e liberdade. É uma ferramenta rigorosa, meticulosa e ousada exigindo uma introspecção do leitor. A poesia não é um consumo passivo; é um impacto dialético. Ela exige que o leitor abandone a superfície e mergulhe no próprio silêncio para encontrar sentido nos versos que lê. É um exercício de paciência e coragem. Se a poesia é ousada, o leitor precisa de ser, no mínimo, um cúmplice disposto a ser transformado.

O processo poético que obriga o leitor a olhar para dentro não é apenas estético, mas sim uma arquitetura do pensamento simbólico. Para que a poesia deixe de ser apenas palavras e se torne um espelho policromático, ela utiliza mecanismos de desestabilização do sentido comum.

Destabilize-se!

[21 de Março, Dia Mundial da Poesia]

Publicado em NVR 18|03|2026

11 março, 2026

Soou o alarme sobre o paracetamol na Era Digital.

 


Soou o alarme sobre o paracetamol na Era Digital.

Recentemente, fomos surpreendidos por um alerta contundente: “o paracetamol, um medicamento amplamente acessível, considerado seguro e utilizado por milhões de pessoas para aliviar dores e febres, apresenta riscos sérios à saúde quando consumido de maneira inadequada.” Este aviso deve despertar uma reflexão profunda sobre a cultura de risco que se dissemina entre os jovens, especialmente nas redes sociais, onde desafios perigosos se tornam virais e atraentes, mesmo diante de evidências dos perigos envolvidos.

Alguns dos desafios:

          O desafio da canela consiste em ingerir, on line, filmado com câmara de vídeo, uma colher de sopa cheia de canela em pó seca, sem água ou qualquer outro líquido, em menos de 60 segundos. A consequência imediata invariavelmente resulta em tosse intensa, engasgos e uma nuvem de canela saindo pela boca e nariz e depois a aspiração involuntária da canela para os pulmões.

          Tide Pod Challenge – o desafio consiste em ingerir cápsulas de detergente concentrado da máquina de lavar a loiça, mordendo-as até que o revestimento solúvel rebente, libertando o detergente líquido e espumoso. O objetivo é filmar a reacção de aversão, o vómito ou a espuma que sai da boca de quem aceita o desafio, partilhando o vídeo para ganhar popularidade e likes.

          O paracetamol – o desafio consiste em tomar comprimidos de paracetamol até ir para o hospital. Entretanto, os participantes filmam-se e quem ganha é aquele que fica mais tempo hospitalizado.

Isto tem alguma piada ou interesse? Não tem e é muito perigoso.

Porém, isto não é recente, há uns anos um dos programas da televisão mais visto pelos jovens, constava de filmagens com desafios completamente loucos, que colocavam em risco os protagonistas e os outros que tentavam imitar. 

Então, por que os jovens se sentem atraídos por tais desafios, mesmo sabendo do perigo de morte ou sequelas graves? A resposta está na combinação de factores biológicos, psicológicos e sociais.

Nas redes sociais, especialmente em plataformas como TikTok, surgem desafios que envolvem acções extremas e perigosas, voltados principalmente para os jovens, que buscam reconhecimento, validação e sentimento de pertença.

Essas acções, além de serem perigosas, não têm qualquer valor de entretenimento ou benefício real. Pelo contrário, representam uma busca por adrenalina e validação social que pode custar vidas.

Durante a adolescência, o cérebro ainda está em desenvolvimento, especialmente as áreas responsáveis pelo controle de impulsos e pela avaliação de riscos. Essa fase aumenta a sensibilidade ao desejo de novidade, recompensa instantânea e aprovação social. As redes sociais potencializam esse comportamento ao oferecer uma validação rápida e acessível mediante “likes”, comentários e partilhas, criando uma ilusão de reconhecimento e pertença dentro de grupos virtuais. Para muitos jovens, participar de desafios perigosos torna-se uma forma de se sentirem únicos, importantes e valorizados, mesmo que temporariamente.

Quando algo se torna repetitivo e viral, o cérebro tende a interpretar essa acção como algo valioso ou aceitável. Assim, o comportamento de colocar a saúde em risco passa a parecer normal, e a capacidade de recusa diminui.

O paracetamol é um comprimido "extremamente acessível" na casa de qualquer pessoa, porém, torna-se "nocivo" quando consumido em quantidades elevadas.

Segundo as Ordens dos profissionais ligados à saúde, a dose máxima diária para um adulto saudável é de quatro gramas. Os comprimidos (de 500 miligramas ou 1 grama) devem ser ingeridos em intervalos de 4 a 6 horas. A ingestão excessiva de paracetamol constitui um sério risco para a saúde: insuficiência hepática aguda, alterações graves da coagulação, hipoglicemia, encefalopatia, lesão renal aguda e morte.

Somente através de uma conscientização colectiva e de uma comunicação clara podemos evitar que esses desafios, que parecem apenas uma brincadeira, causem tragédias. Afinal, a saúde e a vida não podem ser objecto de experiências nocivas ou de busca por popularidade a qualquer custo.

Publicado NVR 11|03|2026

04 março, 2026

2026: Ano Internacional da Mulher Agricultora e Rural


 2026: Ano Internacional da Mulher Agricultora e Rural 

O ano de 2026 foi declarado como o Ano Internacional da Mulher Agricultora e Rural, uma iniciativa proposta originalmente pelos Estados Unidos e apoiada por mais de 120 países, e oficialmente adoptada pela Assembleia Geral da ONU em Maio de 2024. Este reconhecimento pretende celebrar e valorizar o papel fundamental das mulheres na segurança alimentar global, além de promover a eliminação das desigualdades de género no sector agrícola.

Este é um momento de comemoração e de reforçar, diariamente, o reconhecimento às acções das mulheres agricultoras e rurais, destacando a sua contribuição indispensável para o desenvolvimento sustentável das comunidades e das sociedades em todo o mundo.

O processo histórico destas mulheres no meio rural é marcado por uma longa luta contra a invisibilidade, jornadas duplas e subordinação, onde o seu trabalho foi muitas vezes considerado apenas como “ajuda” doméstica, e não uma actividade profissional de valor.

Embora as mulheres representem aproximadamente 43% da força de trabalho agrícola mundial, menos de 20% possuem terras próprias, enfrentando obstáculos no acesso a financiamentos, tecnologias e formação especializada. A tecnologia surge como uma aliada importante na redução de barreiras físicas e na ampliação do acesso a tarefas mais complexas e exigentes, contribuindo para a sua autonomia. No entanto, as desigualdades salariais ainda persistem, chegando a disparidades de até 40% em relação aos homens, no caso de Portugal.

As mulheres rurais acumulam longas horas de trabalho, dividindo-se entre a produção agrícola, as tarefas domésticas e os cuidados com a família. Muitas dessas mulheres não são reconhecidas oficialmente como agricultoras ou trabalhadoras, o que as exclui dos direitos de protecção social. Além disso, factores culturais e tradicionais continuam a limitar a sua participação nos espaços de decisão governamentais, mantendo a posse da terra predominantemente nas mãos dos homens.

Apesar dessas dificuldades, as mulheres rurais permanecem como agentes essenciais na conservação da biodiversidade e na garantia da segurança alimentar. Elas lutam por autonomia, por maior acesso a recursos e por condições de trabalho dignas. Para promover mudanças efectivas, é fundamental implementar políticas públicas que garantam acesso ao crédito, à terra, à assistência técnica e a regimes de protecção social.

A MARP – Associação das Mulheres Agricultoras e Rurais Portuguesas – reafirma o seu compromisso de dar visibilidade à realidade dessas mulheres em Portugal e de actuar na construção de políticas que valorizem o seu trabalho no campo. Para a Associação, a celebração de 2026 Ano Internacional representa uma oportunidade de reconhecimento e mobilização, reforçando o papel das mulheres rurais na produção de alimentos, na sustentabilidade e na coesão territorial.

Pretende-se que 2026 seja um marco na afirmação das mulheres rurais portuguesas — um ano em que o país reconheça que, sem elas, não há soberania alimentar, nem futuro para o meio rural. Para isso, diversas acções e eventos serão realizados ao longo do ano, a saber:

 

·      Lançamento oficial do Ano Internacional 2026 pela CCDR Centro;

·      Exposição “Raízes de Mulher: Sementes de Futuro”, em Coimbra;

·      Apoio às candidaturas do Programa TalentA;

·      Criação e divulgação da Caderneta da Mulher Agricultora e Rural (CNA/MARP);

·      Programas de capacitação e formação promovidos pela Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural;

Estas acções visam ampliar a visibilidade, fortalecer a participação e promover a valorização das mulheres rurais, reconhecendo o seu papel vital na construção de um campo mais justo, sustentável e igualitário.

Após uma rápida pesquisa, parecem-se serem acções sobretudo palavrosas, que conduzirão a poucas mudanças, certamente secundarizadas pelo cenário de catástrofe que Portugal enfrenta actualmente, devido à sucessão de tempestades severas que atingiram o país.

[8 de Março – Dia Internacional da Mulher]

Publicado em NVR 04|03|2026

25 fevereiro, 2026

GERAÇÃO SANDUÍCHE

 

GERAÇÃO SANDUÍCHE

A geração, que fecha a porta para o mundo real, é aquela que viveu a sua infância e a juventude ainda sem grandes saltos tecnológicos, sem computadores, sem internet… nem micro-ondas havia, a sopa tinha de ser aquecida numa panela e ir ao fogo.

Usámos fraldas de tecido quando nascemos, jogámos às escondidas, saltámos à corda, deslizámos de patins sem joelheiras, andámos de bicicleta sem capacete, por vezes brincávamos com bonecas de trapos, lançávamos o pião, brincávamos à macaca, ao berlinde, ao macaquinho do chinês, ao jogo do lencinho e à corrida de sacos… ia-se à casa da vizinha para telefonar, comíamos pão com manteiga e açúcar, líamos livros aos quadradinhos, ainda não havia betadine para desinfectar os joelhos sem pele e havia brinquedos para meninos e brinquedos para meninas.

Se queríamos ouvir música sem ser na rádio, ou tínhamos gira-discos e discos de vinil, ou cassetes, o que era raro – e já se considerava um sucesso relativamente à geração anterior. Colecionámos selos, cromos e carteiras de fósforos.

Utilizámos a máquina de escrever para dar bom aspecto a alguns trabalhos de casa, mas era um problema quando não havia corrector.

Às refeições usámos guardanapo de pano, que era substituído por outro, no fim de semana, se queríamos ver filmes, tínhamos de ir ao cinema, e televisão só tinham os mais empoderados e era a preto e branco. Os meninos calçavam sandálias no verão até aos 15 anos e as meninas, vestiam saiote e calçavam peúgas brancas até serem adultas e só depois tinham autorização para usar meias de vidro ou de mousse.

Não havia classe média, havia a classe dos remediados e aquelas famílias que tinham sorte em não passar fome.

Ter uma esferográfica preta de esfera fina era um luxo e não havia fotocópias. A maioria das mães eram domésticas, faziam as tarefas de casa e tratavam dos filhos, que só iam à escola a partir dos sete anos e a nossa ambição era sermos independentes dos pais para podermos ter opinião e usufruir de um espaço fora de casa deles.

A comida não tinha nomes esquisitos, não havia tiramisu, cheesecake, pavlovas e vol-au-vent; havia pudim boca-doce, arroz-doce, aletria, queijo com marmelada e a mousse era um luxo. Rapávamos o tacho quando a mãe fazia um bolo ao fim de semana.

Esta geração é considerada a última a ter vivenciado uma infância e adolescência predominantemente analógicas, correndo alguns perigos e com imaginação suficiente para resolver problemas, mesmo sem saber quem seria no futuro Mark Zuckerberg, Steve Jobs e Bill Gates, o que seria um telemóvel e uns smartphones. Desenvolvemos várias competências principalmente saber esperar, saber pensar e ultrapassar uma contrariedade. Por vezes o chinelo da mãe ganhava asas e voava, acertando o nosso rabo ou as pernas. Na classe dos remediados urbanos, nas festas, os rapazes usavam Old Spice e as raparigas usavam Madame Rochas.

O nosso Facebook era a conversa da treta entre os amigos. Se queríamos fotografias tínhamos duas despesas, a primeira, comprar o rolo de 24 fotografias, e depois revelar o rolo em loja própria e com sorte demorava só 4 dias a revelar. Alguns ainda fizeram serviço militar.

A Era Digital começou quando já éramos adultos, aprendemos a desenrascar e a assumir a transição para o mundo digital.

As mulheres emanciparam-se e adiaram a gravidez, para se dedicar por inteiros às suas carreiras profissionais.

Agora com 50/60 anos chamam-nos a "geração sanduíche" porque cuidamos simultaneamente de filhos jovens e pais idosos. Este fenómeno, impulsionado pelo aumento da longevidade e maternidade tardia, gera sobrecarga emocional, financeira e física, aumentando o risco de “burnout” e depressão.

Temos uma esperança de vida mais longa, mas temos um percurso com excesso de responsabilidades. Estamos entre duas gerações dependentes – os filhos que dependem financeira dos pais até muito tarde e que não desejam sair de casa e temos os pais a perder autonomia e a necessitar de cuidados e atenção – e fora de casa temos a exigência máxima profissional. Alguns, cujos filhos se descuidaram, já são avós e têm outra geração para cuidar. Estar na casa dos pais é sempre mais cómodo e mais barato.

Éramos sonhadores e divertidos, e agora somos os faz-tudo e os que desenrascam tudo em casa. Falta-nos tempo e o que temos não é para nós.

Estamos exaustos!

Publicado em NVR 25|02|2026

19 fevereiro, 2026

O livre arbítrio

 

O livre arbítrio

Palavras que tantas vezes ouvimos, em diversos contextos, sem ter a verdadeira noção do que isto significa.

O livre-arbítrio é um exercício de liberdade, é a capacidade humana de tomar decisões independentes, segundo a nossa própria vontade, sem influência externa.

Este tema tem sido amplamente estudado e discutido ao longo da história, tanto na filosofia quanto na teologia e na ética.

Na perspectiva religiosa, o livre-arbítrio é visto como um dom concedido por Deus ao ser humano, permitindo-lhe optar entre o bem e o mal. Essa visão distingue os humanos dos demais animais, que agem apenas por instinto. Mesmo diante da fé, a divindade não impõe as suas vontades, pelo contrário, concede ao Homem a liberdade de escolha e, com ela, a responsabilidade pelas suas acções.

Muitos filósofos defendem a chamada “Visão Tradicional”, que diferencia os humanos dos animais pelo fato de possuírem capacidade de abstração e reflexão. Enquanto os animais reagem a estímulos imediatos e necessidades biológicas, os seres humanos podem pensar o presente e o futuro, analisar informações, ponderar consequências e tomar decisões que, por vezes, vão contra os seus impulsos que resultam do seu instinto. Assim, apenas os humanos seriam moralmente responsáveis pelos seus actos, pois têm a capacidade de distinguir entre o “certo” e o “errado”.

A “Visão Científica” refere que até animais simples, como moscas, não são completamente previsíveis nos seus comportamentos. Eles podem escolher entre diferentes opções numa mesma situação, não reagindo sempre da mesma forma. Portanto, o livre-arbítrio não seria uma exclusividade humana, mas uma característica biológica presente em graus variados.

Nos seres humanos, essa liberdade de escolha é mais complexa devido ao cérebro mais desenvolvido. O nosso conhecimento, cultura, raciocínio lógico-abstracto, sensibilidade, educação, valores e a consciência de tudo isso, influenciam as nossas decisões. A consciência tem um potencial extraordinário, pois pode travar impulsos e raciocínios ilógicos.

É importante distinguir entre decisões simples, quase instintivas—como mover um dedo—e escolhas mais complexas, que envolvem processos de reflexão, conhecimento e análise de informações, referidos anteriormente.

Alguns neurocientistas preferem usar termos como “autonomia” ou “capacidade de deliberação”, para descrever o funcionamento do cérebro quando opera de forma “livre”, no sentido de que segue as suas próprias motivações internas e o raciocínio lógico. Ser livre, assim, implica ter múltiplas respostas diante de um estímulo e a capacidade de criar novos desejos e objectivos por meio da reflexão.

Para aqueles que acreditam no destino, na sorte/azar ou em pragas, é importante esclarecer que essas ideias muitas vezes escondem a recusa em assumir responsabilidades e a tentativa de evitar culpas, sossegando consciências. Atribuir a culpa a outros humanos ou a entidades superiores é uma forma de desresponsabilização, acreditando que essas forças controlam os nossos caminhos e manipulam os nossos destinos, como se fossemos marionetes.

Essas questões impactam o campo da Justiça, pois abrem espaço para argumentações que defendem ou acusam, culpados e inocentes, dependendo da interpretação sobre liberdade, responsabilidade e destino.

Publicado em NVR 18|02|2026


11 fevereiro, 2026

Plano estratégico, precisa-se.


 Plano estratégico, precisa-se. 

É impossível ficar indiferente a esta tragédia nacional, que muitos portugueses viveram nos últimos dias.

Neste momento já não basta proibir a construção e a impermeabilização do solo em zonas de leito de cheia dos rios. Daqui para frente, perante o cenário que estamos a viver, acrescido com a previsão das alterações climáticas e por consequência a subida do nível da água do mar, os municípios devem providenciar a desocupação de muitos edifícios já construídos e que ficarão submersos.

É urgente repensar e ordenar o território de outra forma. É fundamental realizar um levantamento criterioso do limite a que as águas chegaram e repensar o território com um risco acrescido, atendendo às bacias hidrográficas. O meio rural não se pode desligar do meio urbano, nem do país vizinho, porque tudo isto está interligado. Rios e ribeiras atravessam o nosso território e alguns dos nossos rios nascem em Espanha.

A forma de pensar cidades ou outros aglomerados, tem que ser pensada de forma realista e futurista. Não podem ser os políticos a decidir estas situações, nem a solidariedade será a solução. São os geógrafos, engenheiros e arquitectos que devem tomar decisões sobre os ecossistemas funcionais, com a ligação entre solo, vegetação, clima e espaço construído. Temos que repensar o presente para estarmos preparados no futuro, que se antevê dramático.

Até 2050, a elevação do nível da água do mar fará com que as inundações costeiras médias anuais ultrapassem o nível das terras que hoje abrigam cerca 300 milhões de pessoas no mundo, de acordo com um estudo da Climate Central. A Ásia será o continente mais afectado.

Já na década de 70, os ambientalistas alertavam para esse cenário, que parecia longínquo e improvável. Faltam só 24 anos e a natureza envia-nos sinais cada vez mais evidentes e catastróficos.

Existem mapas de Portugal, com esta situação calculada e representada. Estudos apontam como zonas mais críticas o estuário do Tejo e do Sado, a Ria Formosa, Aveiro e a Figueira da Foz. Estima-se que cerca de 150 mil portugueses, que residem na faixa costeira, possam ser afectados directamente. Junta-se a isto, a questão dos leitos de cheia dos rios, a existência de pequenas linhas de água invisíveis durante o verão, mas que se preenchem durante o inverno, acrescido pela impermeabilização do solo resultante dos incêndios e da ocupação desgovernada e insensata do solo.

Os incêndios florestais aumentam a impermeabilização do solo ao criarem uma camada hidrofóbica (repelente à água) e eliminam a vegetação, favorecendo a erosão e a escorrência superficial.

O que se pode fazer?

Injecção de areia para criar "amortecedores" naturais contra tempestades, recuperação de paredões e muros de proteção que sofrem danos com a agitação marítima, planos de drenagem (com túneis gigantes), investimento em comportas e sistemas de bombagem para controlar a entrada em alguns espaços, abandonar o betão em favor de soluções "verdes" e permeáveis, instalação de paliçadas e passadiços elevados para proteger a vegetação que segura a areia, não passam de soluções temporárias, vulneráveis e frágeis.

É impensável conseguir contrariar a Natureza; criar um plano de desocupação progressiva dessas áreas inundáveis, talvez seja a solução mais eficaz.

Não será fácil. Alguém está disponível para abandonar os seus bens? Por quanto tempo poderemos proteger a população?

Habitar o interior não se evita o problema. Vimos várias cidades do interior afectadas pelas cheias, porque a rede hidrográfica é algo complexo e abrange todo o território.,  

É necessário um plano estratégico nacional assumido por todos os políticos, rigoroso, sem cedências, que contemple também o parâmetro educativo dirigido à população, que desconhece o cenário futuro, e que terá de deixar de ser problema e contribuir para a solução. Não podemos ignorar ou camuflar este futuro de calamidade.

Já só temos 24 anos!

Claro que tudo que provoca alterações climáticas é um perfeito acelerador e antecipador da previsão referida.

Publicado em NVR 11|02|2026