17 dezembro, 2017

NATURALIS

NATURALIS é uma mostra de pintura executada em suportes de vidro, sobre temas da natureza.
           A natureza andou sempre arredada do percurso artístico da autora e agora expressa-se excepcionalmente nesta exposição, como reflexo de uma acção investigativa sobre a utilização dos elementos naturais nas obras de arte e nas artes que se converteram em decorativas, por vezes muito próximas do saber popular.
Van Gogh, M. C. Escher assim como o movimento Arts & Crafts são inimitáveis, porém, neste caso, foram a alavanca para a descoberta da obra de outros artistas plásticos e para a reflexão que deu suporte a este acto de pintar quase clandestino, por ser divergente à formação da autora, transportando-a para outros saberes por vezes tão femininos e tão associados às românticas “fadas do lar”. Tapeçarias, rendas, bordados, arte gráfica de consumo doméstico, estampagem de tecidos e tatuagens foram alguns dos caminhos explorados nesta obra em tinta dourada sobre fundo negro, sóbria e delicada, como delicada é a natureza.
A técnica e a composição de cada Naturalis recusam o excesso, não admitindo erros nem insegurança na gestualidade do traço, implicando assim um grande rigor.  A economia da cor e a riqueza das texturas complementam-se na construção da simplicidade e delicadeza, num enquadramento estético proposto pela autora, convidando cada observador a dialogar serenamente com o seu mundo interior.

13 novembro, 2017

só falta fazer um desenho

Só falta fazer um desenho
         Agora percebo a polémica de quem tem direito a ir passar o resto dos dias até à eternidade no Panteão Nacional.
         Finalmente fez-se-me luz. A morte tem muito que se lhe diga. Uma coisa é morrer e ir para o cemitério, ficar lá eternamente sempre em filinha e em esquadria e ser visitado pelas viúvas e viúvos chorosos, a tresandar a naftalina e a crisântemos, outra coisa é morrer e ir ocupar  espaços alternativos e comerciais da DGPC (Direcção Geral do Património Cultural). Pode-se morrer e ser tumulado (acabei  de inventar a palavra), num espaço onde vão os turistas mórbidos e as visitas de estudo de adolescente endiabrados – nesta situação a qualidade de morte é mais elevada, menos monótona que a primeira.     Mas bom, bom é morrer e ser tumulado em espaço com vista para salão de festas, por onde passam as ladies de vestidos cheios de brilhos e transparências e  os mens com asa de grilo e muito gel na repa, perfumando o espaço, com perfume “Já cheguei”. Estes últimos podem deliciar-se em visualizar verdadeiros manjares de rei, sentir os odores da alta gastronomia. Uma coisa é cheirar o chicharro frito que salta a parede do reles cemitério, outra coisa é sentir o aroma da lagosta em vapor e do caviar. Uma coisa é sentir o pisar dos sapatos ortopédicos que se moldam aos calos da terceira idade, outra coisa é sentir o pisar delicado de um tacão de 10cm da Diamond Shoe. Uma coisa é ouvir o fru fru da meia calça comprada no Jumbo. Outra coisa é ouvir o fru fru da meia de fio fino de seda adquirido em Londres na Pantyhose. Uma coisa é um cuecão que rola há varias décadas já sem etiqueta, outra coisa são uns boxers anatómicos Calvin Klein. Uma coisa são os perfumes de marca branca comprados nas parafarmácias, outra coisa são os perfumes originais Dior. Uma coisa é ouvir um reles Fiat a estacionar à porta do cemitério, outra coisa é ouvir o ronrorar de um Ferrari. Uma coisa é uma carraspana de tinto carrascão outro coisa é um alegrete no final de vários Moet Chandons. Uma coisa é teres um coveiro desdentado a ordenar as campas rasas, outra coisa é teres a sra diretora do Panteão a rentabilizar e a seleccionar a clientela.
         Quem teve  a sorte de estar no Panteão, saiu-lhe a sorte grande, pois segundo parece (Isabel Melo), muitos jantares se organizam por ali.
         "Demitir-me? Nem pensar" diz a senhora directora. E eu concordo com ela, reanimar os mortos é uma boa acção e faz-se muito dinheiro para suportar a manutenção destes edifícios. É preciso lixívia para os sanitários, palha d’aço para os cromados, naftalina para os túmulos, óleo para as dobradiças, … 
         “Aqui não há corpos. Há sempre essa confusão. Sempre que há algum evento aqui no corpo central, as salas tumulares estão todas fechadas” – essa parte é que eu acho mal, já me parece do tipo estraga-prazeres. Então só o corpo central pode assistir  à comerzaina e os outros corpos? Assim, os que lá estão já nem se podem organizar para socializar:
- Oh people passem para cá uns tournedos de Rossini,
         eu quero uma Vichyssoise,
                   que saudades de um croquete,
                            raisparta o gourmet eu quero comida bem portuguesa, sardinhas, peixinhos da horta, favas com chouriço.
         Acho mal, fecharem-lhes a porta.
         Comigo, a partir de agora, já vou avisando, é assim: Jantar especial tem de ser em Paris junto do Napoleão. O resto é um deja vu.

         Escrevendo a sério, esta não novidade foi hilariante. A corrida desenfreada ao lucro dá nisto.
         Fui ler o despacho 8356/2014, as minhas gargalhadas duplicaram.
Artigo 3.º
Princípios Gerais
1. Todas as atividades e eventos a desenvolver terão que respeitar o posicionamento associado ao prestígio histórico e cultural do espaço cedido.
2. Serão rejeitados os pedidos de carácter político ou sindical.
3. Serão, ainda, rejeitados os pedidos que colidam com a dignidade dos Monumentos, Museus e Palácios ou que perturbem o acesso e circuito de visitantes bem como as atividades planeadas ou já em curso.

         Ora políticos e sindicalistas não são recomendados. Se for o casamento de um Salgado vá que não vá, agora se for jantar de Natal de um sindicato, isso não.
Uma coisa é um jantar de Halloween, outra coisa é um jantar da Web Summit O Halloween´está para o MacDonald, assim como a WEB Summit está para o Panteão Nacional.  Mai nada!
         Se for uma reunião de carteiristas, poderá ser? E se for apresentação de um livro sobre Alves dos Reis?
         Se for um baile de debutantes pode? E se for uma dança de varão, não pode? E se for Pole Dance integrada em feira medieval ou seja a bailarina vestida de D. Urraca, já pode?
         Onde anda o bom senso dos que aprovam estes eventos? Ainda é preciso mais legislação? Acho que só falta fazer um desenho!

Por favor parem, senão salto em andamento!!!!

10 novembro, 2017

PEREGRINAÇÃO

 Não fico em casa porque está em exibição o filme “Peregrinação” de João Botelho.
O tema e o herói interessa-me,  o realizador também e tinha curiosidade em saber como se interligou a música “Por este rio acima” do Fausto.
Valeu a pena ver. Mais uma obra de arte assinada por João Botelho, que ultimamente nos presenteia muito acima do bom.
Quem viu O desassossego, que para mim que não sou cinéfila, é o top do top, não se decepciona com Peregrinação.
As aventuras e desventuras desta figura histórica que navegou pelo Oriente durante 21 anos, onde foi “13 vezes cativo e 16 ou 17 vendido, são tratadas com grande inteligência e sensibilidade. Não há cenas a mais nem a menos. É um relato de imagem personalizado pela imaginação do realizador, sabiamente articulado com o coro personificado pelos companheiros de Fernão Mendes Pinto.
Predominam cenas com pouca luz, que propositadamente evita erros de cenário e converte todo o registo muito intimista.  Só falhou o pormenor das cordas, sempre novas, sempre branquinhas, acabadas de sair da cordoaria.

06 outubro, 2017

A grande onda

A grande onda de Kanagawa

uma famosa xilogravura do mestre japonês Hokusai.Foi publicada em 1830. Nesta gravura observa-se uma enorme onda que ameaça um barco de pescadores, na província de Kanagawa, estando o monte Fuji visível ao fundo. Apesar da sua dimensão, esta onda pode não retratar um tsunami, mas uma onda normal criada pelo efeito do vento e das marés.
… E DEPOIS

Sou eu a brincar
Ana Kanagawa

05 outubro, 2017

Escada infinita

es
A escultura Escada Infinita foi desenhada por Olafur Eliasson e encontra-se em Munique, Alemanha.. A forma curva liga-se a si mesma, criando uma estrutura contínua que parece mais uma ilusão de óptica. Difícil de contemplar por um longo tempo sem ficar um tanto tonto, a escada de 9 metros parece estar indo para cima e para baixo ao mesmo tempo. Esta escada em espiral sem fim está localizada no exterior de um edifício da firma de contabilidade da KPMG, em Munique, na Alemanha, o que facilita os passeios ou dá um rápido treino nas pausas do almoço sem ter que se afastar muito.

23 setembro, 2017

AnimaiZ





 AnimaiZ
         Maria Amparo de Oliveira Rainha apresentou a sua nova obra “AnimaiZ”, destinada ao público infanto-juvenial, na tarde de 23 de setembro de 2017, no auditório do IPJ em Vila Real.
         Esta obra tem um título invulgar, já que aproveitou a palavra “animais” para esta simbolizar de A a Z relacionando-a com o conteúdo, expressando a ideia de dicionário. AnimaiZ é de facto um livro de poesia sobre animais e que vai de A a Z. 
          A poesia é rimada e ritmada, a maioria está construída em quadras, com uma linguagem concreta adaptada às exigências juvenis, motivando o imaginário e proporcionando um melhor conhecimento de cada espécie. Contém mensagens ecológicas e de protecção ambiental, descreve habitats, o sistema alimentar de alguns animais, alguns aspectos anatómicos e temperamentais, a sua locomoção, as migrações e a hibernação – os animais escolhidos são diversos, uns mais conhecidos do que outros.
         A ilustração é de Alcina Rabaço Gonçalves que tem ilustrado todos os livros da Amparo - este já é o terceiro. Neste livro a ilustração é muito realista, policromada, muito exuberante, alternando planos gerais com planos de pormenor, introduzindo numa dinâmica diferente em cada página, provocando conforto e curiosidade ao leitor. Cada página tem uma cor concordante com o colorido da ilustração.
         É muito interessante associar a poesia aos animais certamente vai fazer sucesso entre as crianças e jovens. Animais e crianças ou jovens é algo que combina bem. Qual é a criança que não gostaria de ter um animal de estimação? Todas gostariam. Quem fica insensível com momentos de ternura que alguns animais nos oferecem?
         A apresentação foi partilhada com a arquitecta Anabela Quelhas, que realçou a biografia da autora e a sua resiliência em escrever, sublinhou a sua determinação em ser professora, a forma de interagir com os pequenos leitores e divagou por uma serie de memórias que lhe suscitou o livro AnimaiS – de Einstein até Walt Disney, passando por Spilberg, Saramago, Luís Sepulveda e Albert Durer.
AQ


09 setembro, 2017

A BALLET STORY

Há espectáculos que são imperdiveis, Este é um deles.
‘A BALLET STORY’
VICTOR HUGO PONTES 

‘A Ballet Story’ tem como ponto de partida o bailado clássico ‘Zephyrtine’, de David Chesky. No entanto, não se trata da representação teatral ou da ilustração da história original, mas de um exercício de abstracção que parte do movimento dos corpos no espaço em articulação com a música. Não há contos de fadas, nem elementos do maravilhoso ou do fantástico. A moral é outra, o desenlace, diferente. Em ‘A Ballet Story’ não sabemos se a história se ajusta à música ou se a dança se ajusta à história. A narrativa será fabricada por cada espectador (ou não). Não se trata de uma articulação linear entre música, narrativa e dança, mas sim de um processo de influências mútuas e afinidades electivas que originam uma peça manipulável de modos diversos e, tanto quanto possível, inteira.

Numa coreografia que mistura sem complexos elementos do bailado, da dança contemporânea e do street dance, os sete intérpretes formam uma estranha tribo urbana, um grupo de seres talvez humanos, que vão ocupando a plataforma ondulada onde se encontram, num equilíbrio frágil entre o indivíduo e o colectivo. Não há contos de fadas, mas o ambiente permanece misterioso e intrigante do início ao fim.

Direcção artística: Victor Hugo Pontes
Música: David Chesky
Versão musical: Fundação Orquestra Estúdio, sob a direcção do Maestro Rui Massena
Cenografia: F. Ribeiro
Direcção técnica e desenho de luz: Wilma Moutinho
Intérpretes: André Mendes, João Dias, Joana Castro, Iuri Costa, Liliana Garcia, Marco da Silva Ferreira e Valter Fernandes.
Figurinos: Victor Hugo Pontes
Produção executiva: Joana Ventura
Co-produção: Nome Próprio, Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura
Apoio: Ao Cabo Teatro, Ginasiano Escola de Dança e Lugar Instável
Aqui fica para memória
https://www.youtube.com/watch?v=NsG7wkrk_18&feature=youtu.be

06 setembro, 2017

Moholy Nagy

Quando tinha 15 anos,  o meu pai presenteou-me com um livro de Moholy Nagy, “História ilustrada de la evolucion de la ciudad” da editorial Blume. Nessa época este livro era um luxo, as fotografias são a preto e branco, mas é um livro bem concebido, com papel de qualidade e eu enchi-me de orgulho pois já nessa época me interessava por cidades.
Quando vim para Portugal reduzi  1 quilo na minha bagagem para trazer esse meu livro. Este livro sobre cidades já viveu em várias cidades pois reboco-o sempre comigo. Nessa altura nem fazia ideia quem era Moholy Nagy . Já consultei outras obras dele mas há dias cruzei-me pela primeira vez com o seu caminho. 
Deparei com uma pintura original da sua autoria à minha frente, no museu Thyssen em Madrid, e várias décadas sobre muita coisa passaram na minha cabeça tal como um filme.

Gostaria de ter uma máquina para filmar o meu pensamento. Apenas fiz uma selfie.

30 agosto, 2017

em maré de elogio rasgado

em maré de elogio rasgado
- Porque é que eles têm saudades de Portugal? Achas que é lamechice?
- Devemos viver onde temos trabalho, o resto é treta. E agora temos que saber andar de casa às costas, permanentemente, pois teremos que fazer várias migrações ao longo da vida. Voltamos a ser nómadas tal como os nossos antepassados.
- Sim, mas porque querem sempre voltar ao país que não lhes garante trabalho?
Estava eu na conversa sobre o que acima se enquadra em diálogo.

            Porque querem voltar, porque manifestam saudades, porque gostam de reencontrar portugueses onde quer que estejam? 

            Eu nasci a sul do equador, sou uma sem terra, pertenço a sítio nenhum, qualquer sítio me serve para viver, mas considero que Portugal é um dos melhores países do mundo para se viver e portanto as saudades e toda a lamechice que envolve a distância forçada deste país, é compreensível. Vivemos aqui diariamente e não entendemos bem a dimensão desse “bordado regional” que se chama saudade, único no mundo, que só nós entendemos, quando estamos fora do país.
            O sol, a morfologia variada, a paisagem, o oceano atlântico como fronteira, a gastronomia e a localização na Europa, são cinco de vários parâmetros a considerar.
            Temos clima mediterrânico, cerca de 216 dias sem chuva, 3.000 horas de sol por ano, as temperaturas raramente baixam dos zero graus centígrados, a paisagem é lindíssima – planície, planalto, montanha, cerca de 526 praias, cidades cheias de património, os portugueses são afáveis e acolhedores, mistura de várias raças, boa rede de vias de comunicação, excelente e variada gastronomia, 900 anos de história, é um país seguro, com baixos índices de criminalidade,…
            Os portugueses não gostam de viver com espartilho vivencial, gostam de convívio, agora cada vez mais na rua, gostam de festejar as festas tradicionais, quer populares, quer as eruditas, gostam do bailarico e dos foguetes no ar. Até os compreendo porque isto de andar deprimido não leva a lado nenhum.  
            Isto é um povo com a cultura do serão. Ninguém gosta de se deitar com as galinhas. O estar com alguém após o jantar, seja a família em casa, seja os amigos no café ou na esplanada, é essencial para o equilíbrio psicológico. O clima permite, exige e promove o convívio social fora de casa.
            Temos um país pequenino, mas temos muitas cidades com história e com património – Lisboa, Porto, Coimbra, Viseu, Braga, Guimarães, Évora,… cada uma com a sua gastronomia própria e agora começamos a ter orgulho naquilo que é nosso e faz parte de nós, os nossos artistas plásticos – Paula Rego, Cutileiro, Joana Vasconcelos, Graça Morais, Bandarra, Amadeo, Almada – os nossos músicos – Abrunhosa, Rui Veloso, Camané, os Xutos, Carminho – os nossos escritores – Saramago, Afonso Cruz, Lobo Antunes,… temos os dois melhores poetas do mundo que fazem invejinha a muita gente – Camões e Pessoa – temos o melhor vinho do mundo – Porto – aqui bebe-se o melhor café do mundo e somos o pais-estado mais antigo da Europa.
            Nós somos, os azulejos, a sericaia, o queijo da serra, os canastros, as filigranas, o fito, a francesinha, a bica, o bairro-alto, o Douro, a guitarra portuguesa, a alheira, as gravuras do Côa, o barroco, os pauliteiros, o templo de Diana, a caravela, as marchas populares, o galo de Barcelos, o futebol, os descobrimentos, o Favaios, Sintra, os cravos de abril, o cantochão, o cacilheiro, a salsa e os coentros, o marnoto, as cavacas… e isto só há aqui, em Portugal.

(Revoltando os dias, em maré de elogio rasgado a Portugal)
Publicado em NVR a 30/08/2017

09 agosto, 2017

Relógio astronómico



Olhem para a minha cara depois de viver um voyeurismo tótó – um sorriso à Mona Lisa, que não é carne, nem é peixe, um verdadeiro sorriso amarelo, sem ofensa para a cor que eu adoro.
Aguardei pelas 12h para ver o relógio astronómico e medieval, a funcionar, uma relíquia da cidade de Praga, concebido pelo relojoeiro Mikulas, em 1410, que a determinadas horas adquire movimento através de pequenas estátuas que contém.
40 graus ao sol, centenas de pessoas a aguardar pelas 12h, para escolher estratégicamente um local ortogonal na horizontal (o que eu invento!!! J ), tive que dizer muitos com licenças, muitos sorrys e vários pleases, e finalmente batem as 12 horas e apenas 2 estátuas vieram simplesmente espreitar e recolheram-se… não há pachorra, que praga!

Diário de viagem, VIII/17 Praga

Apetece perder-me

Apetece perder-me por estas ruas, sem hora de regresso e sem mapa. Dobrar cada esquina, obedecendo à curiosidade do olhar e ao desejo de desvendar o desconhecido, sem rumo e sem destino, sem preocupações de sentido ou direção. Gostaria de afagar cada porta e cada janela, confirmando a harmonia naturalista da arte nova, a simetria da art decô e o geometrismo do cubismo analítico… e quando estivesse perdida e já tivesse passado várias vezes no mesmo lugar, chamaria um táxi para me levar de regresso ao hotel. Praga é uma cidade para visitar sem mapa. É uma cidade para gerar paixão e regressões a várias épocas. Parece que está á nossa espera, aguardando pacientemente a nossa chegada, para se revelar e nos envolver em cada detalhe.

Diário de viagem, VIII/2017 

08 agosto, 2017

Edifício Cordeiro













Identificar ruas e edifícios, é assinalar a história de uma cidade, é sublinhar a identidade local. É como passar rimmel pelas pestanas, tornando-as mais belas e elevando o nosso ego. Em Praga tudo se encontra bem assinalado e juntamente com a identificação das ruas, podemos encontrar os níveis de cheias dos rios Elba e Moldava, permitindo-nos avaliar e imaginar uma cidade inundada de água e outras placas que certamente os praguenses entenderão. Mas o invulgar deste registo é o facto dos edifícios antes de terem numeração, eram identificados por um elemento decorativo colocado na parte superior da porta principal. A casa cordeiro, é a que está assinalada nesta imagem, com o desenho emoldurado de um cordeiro, com paisagem de fundo e um elemento heráldico na parte inferior. Uma identificação muito naif que dá brilho a esta cidade.

Diário de viagem, VIII/2017    









   




07 agosto, 2017

Aguardando Kafka

São 7h da manha, chego à janela de uma cidade que se abre para mim. Ensonada digo.lhe bom dia, e abraço.a. Recuo para um dia de primavera, lá longe em que se festejava a liberdade. Tal como eu era jovem, sonhadora, com flores nos cabelos e muito determinada a cumprir os meus ideais. (Primavera de Praga)
....

Sentada numa esplanada, na frescura possível da sombra de um sol ardente, penso no bizarro da vida, no imprevisível, naquilo que nunca poderia acontecer, mas que acontece. Sinto.me surreal, aguardando Kafka que deve chegar a qualquer momento, metamorfoseado de um insecto qualquer com aroma a Trdelnik. Pausa para saborear um pecena kachna. Faca e garfo aí vou eu. Uhhhh delicia! 



....

Encerro o dia pela noite fora entre os reflexos do Elba e do Vitava, de queixo em repouso sobre a minha mão esquerda e sonho sonhos já acontecidos e outros que poderão acontecer. Recordo o paganismo dos eslavos lido num livro já sem nome na minha memória, os cristãos e os judeus.... e eu eternamente procurando de onde sou.
Diário de viagem VIII/2017

Café Alba

Sento-me no café Alba, vigiando as escadas que dão acesso à igreja mais popular de Praga, Igreja de Nossa Senhora Vitoriosa.

Sobem e descem às centenas, pessoas de todo o mundo, crentes e ateus, para homenagear, o Menino Jesus de Praga  -  estátua com estrutura de madeira e enchimento de cera, ícone de devoção de muitos católicos. Reparo num casal de idosos, ela com mobilidade reduzida, que chegaram de táxi. Falam espanhol da América do Sul. Têm ainda uma dezena de escadas para subir. Ela arrasta-se
Um menino vaidoso que troca de roupa várias vezes e cujos vestidos estão aqui também expostos numa sala da torre desta igreja barroca. 
Ele é ouro, ele é prata, ele é brilhantes, sedas, veludos, bordados e brocados. O objecto em si não tem nada de especial, há cópias bem mais giras, em todas as montras da cidade.
Aprecio a devoção e a fé e acho piada ao Menino, parece um boneco com o qual as meninas religiosas vestem e despem… o poky game do barrocão.
No interior há uma pequena imagem com a bandeira brasileira – um verdadeiro ícone internacional..
Encontro aqui o primeiro de vários…. Não sei como lhes chamar…. Penitente, dobrado de quatro com os antebraços e joelhos apoiados no chão, pedindo esmola. Permanecem horas nessa posição. O que será isto? As práticas sadomasoquistas das religiões que me convertem em afastada e observadora crítica.


Diário de viagem, VIII/2017


25 julho, 2017

A lealdade anima-me,
A fome deprime-me,
A arte inquieta-me,
A arrogância revolta-me,
A paciência engrandece-me,
A guerra tolhe-me,
A liberdade fascina-me,
A mentira enoja-me,
A paixão transcende-me.

AQ

08 julho, 2017

O FUNK DO PEDRO ABRUNHOSA

Experienciar um concerto de Pedro Abrunhosa é sempre bom e fica registado na nossa memória para sempre. Existem sempre dois espectáculos, o do palco e o que acontece entre o público. Todo o mundo sabe as letras, canta, dança, responde aos desafios interagindo com o Pedro, como se este fosse alguém muito próximo de nós, fazendo parte da nossa identidade. E ele de facto faz parte de nós, pois a sua música, a sua voz, faz-se presente em diversos momentos da nossa vida. É exactamente como ele diz, a música anula barreiras e une-nos.
Hoje aconteceu de novo, desta vez ao ar livre, não permitindo um certo intimismo que se gera nos espaços mais pequenos, mas a entrada livre dá a oportunidade de participação a muitos que não têm outra forma de o fazer.
Obrigada Pedro, por voltares mais uma vez ao Reino Maravilhoso, acompanhado sempre de uma mensagem de paz e de amor, iluminando o nosso mundo interior.
Vivemos tempos de esperança e a partilha da tua música faz-nos acreditar ainda mais em que este país, ainda é um projecto possível. O momento de evocação dos que perderam a vida há dias tentando salvar-se, foi profundo e emocionante, mas houve outros momentos ternos e irrepetíveis. Registo aqui o momento em que um casal de certa idade que assistia ao concerto à minha frente, se abraçou ternamente ouvindo uma certa música, ainda conseguindo vislumbrar romantismo através das tuas palavras. Foi lindo.

Pedro volta sempre.   Fazes-nos bem!





05 julho, 2017

Aguardo pelo Messias

Aguardo pelo Messias
         Copiei esta imagem da internet numa rede social. Não sei quem é o autor, alguém copiou de alguém e eu copei descaradamente a seguir, mas sei com certeza que a sua profissão é ser professor. Só um professor entende esta imagem que é um verdadeiro pedido por socorro. 
         Um professor para além ensinar e tentar educar (escrevo “tentar”, porque a educação adquire-se em casa), lida com uma rede de problemas de grande complexidade que é o reflexo da nossa sociedade, o bom e o mau, dispondo de poucos recursos e reinventando estratégias para ser bem-sucedido, através de práticas resultantes de um trabalho intrínseco à arte de ensinar e em paralelo, que consta em planear, articular, partilhar, avaliar, acompanhar, reflectir. Até aqui, tudo bem… mas exige-se algo verdadeiramente esgotante, sem grande visibilidade e utilidade, o registo, a prova, a evidência em como fez e em como desempenhou bem o seu papel, com se ensinar se convertesse num processo jurídico onde é necessário reunir provas consistentes para exibir no tribunal. Ao professor não basta esgotar-se, falando alto para se fazer ouvir, não basta interromper o seu raciocínio de cinco em cinco minutos, para mandar calar, para evitar confusão na sala, para captar a atenção dos distraídos, para dar autorização para ir ao WC, para… para…, não basta fingir que não ouve comentários desagradáveis e rudes proferidos a baixa voz, não basta estimular aqueles que de facto querem aprender, não basta proteger os tímidos e os mais sensíveis, não basta refrear os mais rebeldes, não basta servir de mãe, de pai, de psicólogo, de sociólogo, de pedagogo, de enfermeiro, de mediador de conflitos, de amigo e de cúmplice, não basta cuidar da socialização e das interações em grupo, não basta! o professor ainda deve ser uma máquina de produção de documentos supérfluos, teoricamente correctos e necessários, mas que na prática adormecem e apodrecem nos dossiers, reais ou digitais.
         Os documentos são imensos e agora felizmente já é tudo informatizado, reduzindo substancialmente a quantidade de papel - as árvores agradecem. A grande papelada que a imagem refere, já é uma papelada digital, mas que não deixa de ser uma catrafiada de documentos distribuídos por pastas, subpastas e mini pastas que carregamos no computador pessoal e que de pouco serve.
         As salas dos professores, onde se respirava alguma tranquilidade entre uma aula e outra, onde todos carregavam energias para ir à luta, foram transformadas em algo parecido com um call center, onde os professores se sentam aproveitando o tempo para teclar desesperadamente documentos para entregar aos coordenadores, aos diretores, ou aos encarregados de educação, olhando apenas para os monitores, alucinados com as evidências da sua competência. Documentos que ninguém mais lerá. Eventualmente se houver uma queixa ou uma reclamação, todos terão informação escrita para exibir, ninguém lerá, mas importa ter. Quem tem, é competente, quem não tem é um calaceiro incompetente. Não interessa se o professor tem raciocínio, criatividade, memória, experiência, se reflete sobre os desafios do dia-a-dia e tem a arte de gerar empatias com os alunos, tentando dar a melhor resposta e o melhor de si. O que interessa é ter muitos documentos para exibir e em ordem. Quem lê os documentos? Quem cruza a informação? Poucos ou ninguém.
         É necessário ter papelada para mostrar e manter os professores ocupados. Porque os professores são duma raça, que gosta de praia e de piqueniques em todas as estações do ano e são os campeões das pontes e das esplanadas. Ai do professor que dá uma negativa, se não tiver tudo bem documentado e justificado! Ao aluno não basta não estudar, perturbar as aulas, ter testes negativos e estar a marimbar-se para escola e para o cota do prof. São necessárias análises, reflexões, estratégias, objectivos, articulações, partilhas, reforços positivos, diálogos assertivos, motivações personalizadas, trabalho colaborativo, comunicações aos DTs e aos encarregados de educação… e não basta praticar-se é necessário escrever-se e repetir-se em diversos documentos. E cada caso é um caso, feito de domínios sócio-afectivo, cognitivo e psico-motor… agora multipliquem por 170 casos/professor, cada um com pai e mãe, ambos a achar que o professor tem boa vida, é um baldas, é um verdadeiro vilão cheio de preguiça e incompetência, lerdo das ideias, não faz nada, passa a vida em férias e faz greves durante o ano sempre em momentos errados, e ainda por cima faz queixa dos seus queridos e adorados filhinhos que são sempre uns anjinhos e as más companhias é que lixam tudo (esta é a imagem que a sociedade infelizmente resolveu construir nos últimos anos sobre os professores). Como pais brilhantes, não lhes ensinam que se diz com licença, faz favor, obrigado, bom dia e até amanhã, que não se dizem palavrões e que é obrigatório respeitar o outro.    
         Mas voltando à papelada… no meu tempo (não gosto da expressão, mas por vezes é imperiosa), quando na pauta estava escrito 10 valores queria dizer que passei à rasquinha, e ia ter os meus pais de trombas por umas semanas, quando tinha 8 valores queria dizer que tinha andado a vadiar o 1º período e que os meus pais iriam suspender tudo o que me desse prazer até eu recuperar, e quando tinha 14 valores, eu respirava de alívio, mas os meus pais ainda iriam perguntar porque não tirei melhor nota e quando tinha 17 valores, finalmente os meus pais sorriam. Numa escala de zero a vinte, com os números alinhados numa pauta, eu sabia exactamente onde tinha acertado, onde tinha errado, e os meus pais não precisavam de mais nenhuma explicação ou esclarecimento.

         Ai, ai papelada… aguardo com certa urgência pelo Messias do ensino, que entenda quão nobre é a profissão que prepara a sociedade do futuro. Devolvam-nos o tempo que é necessário para nos despirmos dos problemas da escola, o tempo para reciclar informação, o tempo para regenerar a mente e a paciência, o tempo para actualizar conhecimento. Devolvam-nos a dignidade, pois os nossos alunos são os vossos filhos!
Anabela Quelhas
Publicado em NVR a 5/07/2017

13 junho, 2017

Anita nas folias juninas

Anita nas folias juninas





         Cheira a farturas, bem ensopadas em óleo e açúcar, já há vários dias, anunciando o solstício de verão reflectido nesta modernidade dos carros de farturas estacionados nas ruas dos centros urbanos, escondendo jardins e edifícios barrocos interessantes. Ai de quem lhe enjoe o cheiro, pois terá que conviver com esta realidade durante o mês de Junho, quer queira, quer não, e passados uns dias, terá como paisagem, os doces da Teixeira fabricados em Baião, agora misturados com fatias de Resende e os pormenores púbicos de S. Gonçalo de Amarante. 
         Como som de fundo, temos o que há de mais popularucho e pimba, com letras que fazem corar o próprio Quim Barreiros, anunciando carrinhos de choque, e agora a vanguarda da diversão, resultante da tecnologia carrosseleira, onde o cinto de segurança é essencial, tal como ter o estômago vazio, como se fossemos fazer uma endoscopia digestiva no hospital mais próximo, para não fazer feio, vomitando o hambúrguer, a bifana, a bejeca, e a tal fartura que assentou mal com o café, sobre os mirones que ficam em baixo.     
         As festas juninas são mesmo assim!  
         Afastei-me propositadamente das noivas de Sto António – não vá o diabo tecê-las!!! Alguém me pode acertar com o bouquet de noiva… às vezes pareço ter um íman para atrair complicações. Vi-as ao longe, fora de alcance da maior atleta olímpica lançadora de bouquets, discos ou dardos, vestidas cada uma com 50 metros de renda de Sevilha, carregando consigo baús cheiinhos de amor para dar, cumprindo um sonho de subir ao altar nas festas de Sto António, mesmo que em grupo, com vestido a arrastar, véu e grinalda brancos ou pérola. Mas que bem!!! - agora com muita selfie, muita base, muito rimmel, muito eye liner, muito esfoliante, muito gel, muita extensão, muito silicone, muito babyliss, muito makeup, muito reafirmante, muito under bra, muito fio dental, muito fitness, muito adelgaçante, muita tatuagem, muito sérum, muita barba de 3 dias, muito jet bronze, muito laser… (ufff) realizando as fantasias mais imaginativas a que qualquer mortal tem direito e que consegue realizar com ajuda do chinês da esquina.
         Meu  Deus dai-me juízo até à hora da morte!!!
         Oh meu Santantoninho, tu divertes-te à brava, à custa destes encantamentos passageiros de nós pecadores de todos os dias… quantos pontos fazes por cada um, no reino monótono do céu? Deve haver aí competição séria, tipo caça ao Pokémon, só que transformada em caça ao casamento de Sto António. Não vês que nunca ninguém foi feliz para sempre, mesmo os abençoados por ti, e aqueles que dizem que sim, simplesmente mentem?… é muito mais fácil mentir do que assumir a verdade. Dá muito menos trabalho!
         Sabes também muito bem, que o casamento não é solução para quem tem problemas financeiros! Sempre ouvi dizer que em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão!
….  
         O calor mantem-se depois das 19h anunciando uma noite excelente para a folia, não precisarei de carregar o casaco e sim a garrafa da água que depois de ingerida se descartará no lixo.
         Optei por comida leve ao jantar, para que o vestido acetinado cheio de brilho possa ficar justo, mas sem apertos e para que não sobre nada para fora, do tipo estou a asfixiar, deixai-me tomar ar puro do lado de fora do decote ou da cava - 3 sardinholas e pimentos, para evidenciar o tempo deles, deglutidos com um branco fresquinho de Terras da Maria Boa. (ok, pronto, uma cola zero calorias)
         Rego o manjerico, ponho a erva-cidreira à`janela, o alho-porro já está encomendado, assim como o lugar na esplanada para na noite de S. João saborear o caldo verde, e o púcaro negro para o S. Pedro, ajeito a pestana e o báton, penteio-me, deixo um cravo vermelho a navegar pelo meu cabelo sob a luz do luar e cá vai a Anita para a folia. Já que é assim, fazer o quê? Aproveito para me divertir.

Meu Santo António se tu vires passar
Algum rapaz sem par
Sozinho pela rua
Vai-lhe dizer que eu já tenho um balão
Um arco e uma canção
E a imagem tua
Faz um milagre, dá-me um lindo par…

(Cuca Roseta)

07 junho, 2017

…daria uma exposição para o mundo

…daria uma exposição para o mundo  

            A visita à exposição “ A cidade global” que decorre no Museu Soares dos Reis no Porto, despertou a minha curiosidade para a pintura que deu origem a toda a ideia da exposição.
            Trata-se da pintura adquirida por Dante Gabriel Rossetti, dividida em 2 partes, representando uma rua renascentista, supostamente a Rua Nova dos Mercadores, localizada na Lisboa manuelina dos séculos XV e XVI e que já levantou dúvidas sobre a sua autenticidade alimentando uma polémica que parece não ter fim.
            A história oficial é que esta(s) pintura(s) terá sido descoberta pelas  historiadoras inglesas, Kate Lowe e Anne Marie Jordan Gschwend numa mansão do século XIX, em Oxford  cujo proprietário era o conhecido William Morris, com quem trabalhou Rossetti.
            Quanto à “Rua Nova dos Mercadores”, está dividida em dois painéis, é propriedade da Society of Antiquaries of London e deu origem a esta exposição, "A Cidade Global", que exibe cerca de 250 obras da época, entre mobiliário, pintura, tapeçaria, livros, esculturas em marfim, manuscritos, animais embalsamados e outros objectos em uso na época. É interessante a ideia de nos transportarem a cinco séculos atrás, através das obras expostas, porém descodifica pouco a pintura referida sobre a Rua Nova dos Mercadores – o vídeo exibido, sabe a pouco.
            A representação expressa imensos pormenores sobre aquela Lisboa que era um grande centro europeu e falta uma análise detalhada da pintura de uma rua onde passava o mundo através dos produtos vendidos, a mais rica da europa naquela época. Falta a história da construção da rua, a explicação sobre a grade que divide a área dos cambista, a característica dos edifícios com 3 ou 4 pisos, as colunas duplas, a concentração de comerciantes de todas as partes do mundo, os produtos exóticos vendidos e os modelos de negócio, a sua organização, a ocupação dos espaços que se adivinha no desenho dos edifícios (apesar da referência à Casa de Guiné e da Índia), o elevado número de escravos, o que transportavam, o traje dos portugueses e de outras pessoas com diferentes origens, as pedras de bezoar, etc..
            Unir a informação contida nesta(s) pintura(s) à informação escrita existente sobre essa época, daria uma exposição para o mundo, uma exposição também global, a partir novamente de Portugal, tal como aquela rua, justificando o nome da exposição. Infelizmente temos apenas um “cheirinho”-  uma exposição com informação insuficiente, gerando pelo menos aos visitantes, a curiosidade que levará a investigar posteriormente. As pinturas originais não as vi e a mega ampliação que fizeram das mesmas, está colocada ao longo de uma comunicação horizontal da exposição e não possui espaço suficiente para se realizar uma leitura global da mesma.
            Gostei de ver o rinoceronte embalsamado que pertencia a D. Sebastião. Percebi à posteriori que não era o mesmo que foi oferecido a D. Manuel e que talvez tenha sido a fonte de informação para o desenho de Albrecht Dürer –primeiro rinoceronte vivo que esteve na Europa desde o Império Romano.

            Esqueci de relatar que o único elemento informativo existente na entrada e na loja do museu, é um calhamaço escrito pelas historiadoras, de custo avultado, que pesa cerca de 3 kg, o que desmotiva qualquer um - Irão sobrar no final.
Publicado em NVR - 7/06/2017

30 maio, 2017

O FATO QUE NUNCA VESTIMOS

Anabela Quelhas—nasceu em Luanda, arquitecta, licenciada pela Escola Superior de Belas Artes do Porto, discípula do arquitecto José Maria Pulido Valente.
 Desenvolve regularmente actividade relacionada com arquitectura, pintura, vitral, fotografia e artes gráficas, nomeadamente ilustração.
Professora profissionalizada do ensino básico e secundário. Autora de, diversos projectos pedagógicos /artísticos – seis premiados a nível nacional – exposições pedagógicas e registos digitais
Pratica o exercício da escrita criativa e da poesia.

Livro publicado:
"O FATO QUE NUNCA VESTIMOS"
ISBN: 978-972-8546-65-6
Depósito Legal: 424472/17
Capa: Anabela Quelhas
Impressão e Acabamento: Minerva Transmontana, Tip., Lda




Antigamente é que era bom?
            São retratos dum país rural, esquecido do mundo, localizados no tempo da “outra senhora” e por quem muita gente ainda suspira, passados mais de cinquenta anos, revelando memória curta e coração pouco ginasticado.
             O registo de episódios enquadrados num regime político asfixiante é descrito na primeira pessoa, inspirado nos olhares interrogativos de uma garota curiosa e atenta a uma década entre 63 e 73. O privilégio de ter crescido dividida entre duas províncias desse Portugal imenso, uma do Portugal Continental e outra do Portugal Ultramarino, Trás-os-Montes e Angola, deu-lhe uma visão aberta multifacetada, sem preconceitos, sem amarras, sem pretensões de qualquer espécie e permanentemente questionadora da vida e do mundo que a rodeava. É um testemunho aligeirado de “como era” aqui no Portugal Continental, possibilitando uma leitura dinâmica e descomprometida.
            A ordem apresentada é próxima à ordem cronológica da memória, mas sem um fio condutor real, permitindo assim e também, uma leitura desorganizada e desconstruída.
            Leia e compare este país com o resto do mundo, e a sua dimensão temporal completamente desajustada e fracturante. As contínuas referências presentes em rodapé, são janelas que se vão abrindo, para contextualizar de forma ainda mais visível este olhar juvenil.
            Alguns leitores talvez activem a memória e se revejam em algumas destas histórias.
            Esta obra é a primeira de uma possível trilogia, que constitui uma narrativa triplicada, localizada em tempos e espaços diferentes, possibilitando ao leitor presenciar o amadurecimento crítico do seu olhar, sobre o que a rodeava, onde a realidade se sobrepõe ao imaginário ou ao contrário, consoante os casos e a inspiração.

24 maio, 2017

… que estratégia foi essa?

… que estratégia foi essa?
- O que vai ser esta semana? (ACM)
- Talvez a onda dos produtos naturais e o sarampo sarampelo… (AQ)
- Oh isso já passou! (ACM)
- Pois!!! e esta semana há muito assunto para abordar… (AQ)
                Sobre Fátima, com todo o respeito, nem liguei a televisão, porém alguém levou a fotografia da família para benzer, não vá o diabo tece-las, apesar que adorei os cartoons de João Vaz de Carvalho.
                Sobre a victória do Benfica… os festejos à volta de uma escultura que foi imaginada por um sportinguista… prefiro o azul.
                Resta-me o Salvador Sobral. Lembro-me dele num dos programas “Ìdolos”, ainda um menino de 19 anos, mas já com muita pedalada, mas muito imaturo. Agora isto! Admiro-o porque persegue os seus sonhos e vai à luta, e ele foi à luta apesar que agora tem um sabor segundo ele é agridoce. Passou por Madrid, Maiorca, Barcelona, …
                Poderia ter tirado o seu cursinho de psicologia, ser tradutor, fechado em casa com o dicionário do lado esquerdo, a gramática do lado direito e computador ao centro, contabilizando palavras, mas foi á luta, para fazer aquilo que gosta, que é cantar…. E quando se gosta é mais provável haver sucesso.
                Um músico amigo, que tal como eu navega em contra-corrente,  classificou o poema como delico-azeiteirote, e eu concordei, pois é fraquinho, fraquinho, comparado com os poemas de  Guinot 
“Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal aquilo que sou
Sou um grito
Ou sou uma pedra
De um lugar onde não estou”
                                                                                                              ou de Ary dos Santos,
“Olhos de amêndoa
cisterna escura
onde se alpendra
a desventura.”
                                                                                                                             que foram à Eurovisão e perderam. E essa de amar pelos dois, tem muito que se lhe diga, tirando pais e irmãos, normalmente não resulta, mais ano, menos ano, a relação claudica e sucumbe estrondosamente, gerando chorudos honorários aos psiquiatras. Não aconselho mesmo! No amor tem que ser como as contas à moda do Porto, tu pagas o teu e eu pago o meu e pronto, ficamos amigos para sempre
                A figura de Sobral contrariou o estereótipo festivaleiro – casaco engelhado e de defunto falecido de 3 números acima, onde os ombros não encaixam, sobrando forma e tecido, cabelo em tótó, barba em desalinho, voz meiga, doce e expressão de olhar de ursinho de peluche – assim como a melodia, na onda cibernauta… convenceu e venceu. Mas oh Salvador tens de explicar melhor essa história, pois o puzzle ainda não está completo! O que é que aconteceu mesmo? Tops, sondagens, versões noutras línguas… que estratégia foi essa tão bem sucedida?
                É uma canção bonita, mas não é maravilhosa – uma la la land da música que derreteu os corações empedernidos, que sempre valorizam o lado dramático da vida do cantor, e este infelizmente parece que tem um melodrama na sua vida. Temos uma canção simples, genuína, intimista. Cantas bem, tens voz de anjo, com sentimento e com expressão, transmites emoção, nós sabemos, mas normalmente não chega…. Tu dás tudo, mas recebes nada. 
                Penso que a máquina “FESTIVAL da EUROVISÂO” quis dar uma arejada, não ficando atrás da máquina do prémio nobel da literatura, sorte a do Salvador, porque para o Dylan, tanto fez como faz. E o nosso primeiro já lhe deu os parabéns com sorriso de orelha a orelha. Oh Costa isto não é só tomar conta dos miúdos do outro, num sábado de manhã, agora é preciso organizar o festival do próximo ano, muito brilho, muita luz, muito glamour, muito botox, muito plástico, muitas horas extraordinárias, muitos efeitos especiais, muito IRS a rolar…. Depois queixem-se.

- PARABÈNS SALVADOR ao menos tu estás na maior, é assim mesmo!!! (MEC).

Publicado em NVR - 24/05/2017

20 maio, 2017

CONVITE


CASA DE ANGOLA
LISBOA, 20 DE MAIO DE 2017
19H