09 setembro, 2017

A BALLET STORY

Há espectáculos que são imperdiveis, Este é um deles.
‘A BALLET STORY’
VICTOR HUGO PONTES 

‘A Ballet Story’ tem como ponto de partida o bailado clássico ‘Zephyrtine’, de David Chesky. No entanto, não se trata da representação teatral ou da ilustração da história original, mas de um exercício de abstracção que parte do movimento dos corpos no espaço em articulação com a música. Não há contos de fadas, nem elementos do maravilhoso ou do fantástico. A moral é outra, o desenlace, diferente. Em ‘A Ballet Story’ não sabemos se a história se ajusta à música ou se a dança se ajusta à história. A narrativa será fabricada por cada espectador (ou não). Não se trata de uma articulação linear entre música, narrativa e dança, mas sim de um processo de influências mútuas e afinidades electivas que originam uma peça manipulável de modos diversos e, tanto quanto possível, inteira.

Numa coreografia que mistura sem complexos elementos do bailado, da dança contemporânea e do street dance, os sete intérpretes formam uma estranha tribo urbana, um grupo de seres talvez humanos, que vão ocupando a plataforma ondulada onde se encontram, num equilíbrio frágil entre o indivíduo e o colectivo. Não há contos de fadas, mas o ambiente permanece misterioso e intrigante do início ao fim.

Direcção artística: Victor Hugo Pontes
Música: David Chesky
Versão musical: Fundação Orquestra Estúdio, sob a direcção do Maestro Rui Massena
Cenografia: F. Ribeiro
Direcção técnica e desenho de luz: Wilma Moutinho
Intérpretes: André Mendes, João Dias, Joana Castro, Iuri Costa, Liliana Garcia, Marco da Silva Ferreira e Valter Fernandes.
Figurinos: Victor Hugo Pontes
Produção executiva: Joana Ventura
Co-produção: Nome Próprio, Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura
Apoio: Ao Cabo Teatro, Ginasiano Escola de Dança e Lugar Instável
Aqui fica para memória
https://www.youtube.com/watch?v=NsG7wkrk_18&feature=youtu.be

06 setembro, 2017

Moholy Nagy

Quando tinha 15 anos,  o meu pai presenteou-me com um livro de Moholy Nagy, “História ilustrada de la evolucion de la ciudad” da editorial Blume. Nessa época este livro era um luxo, as fotografias são a preto e branco, mas é um livro bem concebido, com papel de qualidade e eu enchi-me de orgulho pois já nessa época me interessava por cidades.
Quando vim para Portugal reduzi  1 quilo na minha bagagem para trazer esse meu livro. Este livro sobre cidades já viveu em várias cidades pois reboco-o sempre comigo. Nessa altura nem fazia ideia quem era Moholy Nagy . Já consultei outras obras dele mas há dias cruzei-me pela primeira vez com o seu caminho. 
Deparei com uma pintura original da sua autoria à minha frente, no museu Thyssen em Madrid, e várias décadas sobre muita coisa passaram na minha cabeça tal como um filme.

Gostaria de ter uma máquina para filmar o meu pensamento. Apenas fiz uma selfie.

30 agosto, 2017

em maré de elogio rasgado

em maré de elogio rasgado
- Porque é que eles têm saudades de Portugal? Achas que é lamechice?
- Devemos viver onde temos trabalho, o resto é treta. E agora temos que saber andar de casa às costas, permanentemente, pois teremos que fazer várias migrações ao longo da vida. Voltamos a ser nómadas tal como os nossos antepassados.
- Sim, mas porque querem sempre voltar ao país que não lhes garante trabalho?
Estava eu na conversa sobre o que acima se enquadra em diálogo.

            Porque querem voltar, porque manifestam saudades, porque gostam de reencontrar portugueses onde quer que estejam? 

            Eu nasci a sul do equador, sou uma sem terra, pertenço a sítio nenhum, qualquer sítio me serve para viver, mas considero que Portugal é um dos melhores países do mundo para se viver e portanto as saudades e toda a lamechice que envolve a distância forçada deste país, é compreensível. Vivemos aqui diariamente e não entendemos bem a dimensão desse “bordado regional” que se chama saudade, único no mundo, que só nós entendemos, quando estamos fora do país.
            O sol, a morfologia variada, a paisagem, o oceano atlântico como fronteira, a gastronomia e a localização na Europa, são cinco de vários parâmetros a considerar.
            Temos clima mediterrânico, cerca de 216 dias sem chuva, 3.000 horas de sol por ano, as temperaturas raramente baixam dos zero graus centígrados, a paisagem é lindíssima – planície, planalto, montanha, cerca de 526 praias, cidades cheias de património, os portugueses são afáveis e acolhedores, mistura de várias raças, boa rede de vias de comunicação, excelente e variada gastronomia, 900 anos de história, é um país seguro, com baixos índices de criminalidade,…
            Os portugueses não gostam de viver com espartilho vivencial, gostam de convívio, agora cada vez mais na rua, gostam de festejar as festas tradicionais, quer populares, quer as eruditas, gostam do bailarico e dos foguetes no ar. Até os compreendo porque isto de andar deprimido não leva a lado nenhum.  
            Isto é um povo com a cultura do serão. Ninguém gosta de se deitar com as galinhas. O estar com alguém após o jantar, seja a família em casa, seja os amigos no café ou na esplanada, é essencial para o equilíbrio psicológico. O clima permite, exige e promove o convívio social fora de casa.
            Temos um país pequenino, mas temos muitas cidades com história e com património – Lisboa, Porto, Coimbra, Viseu, Braga, Guimarães, Évora,… cada uma com a sua gastronomia própria e agora começamos a ter orgulho naquilo que é nosso e faz parte de nós, os nossos artistas plásticos – Paula Rego, Cutileiro, Joana Vasconcelos, Graça Morais, Bandarra, Amadeo, Almada – os nossos músicos – Abrunhosa, Rui Veloso, Camané, os Xutos, Carminho – os nossos escritores – Saramago, Afonso Cruz, Lobo Antunes,… temos os dois melhores poetas do mundo que fazem invejinha a muita gente – Camões e Pessoa – temos o melhor vinho do mundo – Porto – aqui bebe-se o melhor café do mundo e somos o pais-estado mais antigo da Europa.
            Nós somos, os azulejos, a sericaia, o queijo da serra, os canastros, as filigranas, o fito, a francesinha, a bica, o bairro-alto, o Douro, a guitarra portuguesa, a alheira, as gravuras do Côa, o barroco, os pauliteiros, o templo de Diana, a caravela, as marchas populares, o galo de Barcelos, o futebol, os descobrimentos, o Favaios, Sintra, os cravos de abril, o cantochão, o cacilheiro, a salsa e os coentros, o marnoto, as cavacas… e isto só há aqui, em Portugal.

(Revoltando os dias, em maré de elogio rasgado a Portugal)
Publicado em NVR a 30/08/2017

09 agosto, 2017

Relógio astronómico



Olhem para a minha cara depois de viver um voyeurismo tótó – um sorriso à Mona Lisa, que não é carne, nem é peixe, um verdadeiro sorriso amarelo, sem ofensa para a cor que eu adoro.
Aguardei pelas 12h para ver o relógio astronómico e medieval, a funcionar, uma relíquia da cidade de Praga, concebido pelo relojoeiro Mikulas, em 1410, que a determinadas horas adquire movimento através de pequenas estátuas que contém.
40 graus ao sol, centenas de pessoas a aguardar pelas 12h, para escolher estratégicamente um local ortogonal na horizontal (o que eu invento!!! J ), tive que dizer muitos com licenças, muitos sorrys e vários pleases, e finalmente batem as 12 horas e apenas 2 estátuas vieram simplesmente espreitar e recolheram-se… não há pachorra, que praga!

Diário de viagem, VIII/17 Praga

Apetece perder-me

Apetece perder-me por estas ruas, sem hora de regresso e sem mapa. Dobrar cada esquina, obedecendo à curiosidade do olhar e ao desejo de desvendar o desconhecido, sem rumo e sem destino, sem preocupações de sentido ou direção. Gostaria de afagar cada porta e cada janela, confirmando a harmonia naturalista da arte nova, a simetria da art decô e o geometrismo do cubismo analítico… e quando estivesse perdida e já tivesse passado várias vezes no mesmo lugar, chamaria um táxi para me levar de regresso ao hotel. Praga é uma cidade para visitar sem mapa. É uma cidade para gerar paixão e regressões a várias épocas. Parece que está á nossa espera, aguardando pacientemente a nossa chegada, para se revelar e nos envolver em cada detalhe.

Diário de viagem, VIII/2017 

08 agosto, 2017

Edifício Cordeiro













Identificar ruas e edifícios, é assinalar a história de uma cidade, é sublinhar a identidade local. É como passar rimmel pelas pestanas, tornando-as mais belas e elevando o nosso ego. Em Praga tudo se encontra bem assinalado e juntamente com a identificação das ruas, podemos encontrar os níveis de cheias dos rios Elba e Moldava, permitindo-nos avaliar e imaginar uma cidade inundada de água e outras placas que certamente os praguenses entenderão. Mas o invulgar deste registo é o facto dos edifícios antes de terem numeração, eram identificados por um elemento decorativo colocado na parte superior da porta principal. A casa cordeiro, é a que está assinalada nesta imagem, com o desenho emoldurado de um cordeiro, com paisagem de fundo e um elemento heráldico na parte inferior. Uma identificação muito naif que dá brilho a esta cidade.

Diário de viagem, VIII/2017    









   




07 agosto, 2017

Aguardando Kafka

São 7h da manha, chego à janela de uma cidade que se abre para mim. Ensonada digo.lhe bom dia, e abraço.a. Recuo para um dia de primavera, lá longe em que se festejava a liberdade. Tal como eu era jovem, sonhadora, com flores nos cabelos e muito determinada a cumprir os meus ideais. (Primavera de Praga)
....

Sentada numa esplanada, na frescura possível da sombra de um sol ardente, penso no bizarro da vida, no imprevisível, naquilo que nunca poderia acontecer, mas que acontece. Sinto.me surreal, aguardando Kafka que deve chegar a qualquer momento, metamorfoseado de um insecto qualquer com aroma a Trdelnik. Pausa para saborear um pecena kachna. Faca e garfo aí vou eu. Uhhhh delicia! 



....

Encerro o dia pela noite fora entre os reflexos do Elba e do Vitava, de queixo em repouso sobre a minha mão esquerda e sonho sonhos já acontecidos e outros que poderão acontecer. Recordo o paganismo dos eslavos lido num livro já sem nome na minha memória, os cristãos e os judeus.... e eu eternamente procurando de onde sou.
Diário de viagem VIII/2017

Café Alba

Sento-me no café Alba, vigiando as escadas que dão acesso à igreja mais popular de Praga, Igreja de Nossa Senhora Vitoriosa.

Sobem e descem às centenas, pessoas de todo o mundo, crentes e ateus, para homenagear, o Menino Jesus de Praga  -  estátua com estrutura de madeira e enchimento de cera, ícone de devoção de muitos católicos. Reparo num casal de idosos, ela com mobilidade reduzida, que chegaram de táxi. Falam espanhol da América do Sul. Têm ainda uma dezena de escadas para subir. Ela arrasta-se
Um menino vaidoso que troca de roupa várias vezes e cujos vestidos estão aqui também expostos numa sala da torre desta igreja barroca. 
Ele é ouro, ele é prata, ele é brilhantes, sedas, veludos, bordados e brocados. O objecto em si não tem nada de especial, há cópias bem mais giras, em todas as montras da cidade.
Aprecio a devoção e a fé e acho piada ao Menino, parece um boneco com o qual as meninas religiosas vestem e despem… o poky game do barrocão.
No interior há uma pequena imagem com a bandeira brasileira – um verdadeiro ícone internacional..
Encontro aqui o primeiro de vários…. Não sei como lhes chamar…. Penitente, dobrado de quatro com os antebraços e joelhos apoiados no chão, pedindo esmola. Permanecem horas nessa posição. O que será isto? As práticas sadomasoquistas das religiões que me convertem em afastada e observadora crítica.


Diário de viagem, VIII/2017


25 julho, 2017

A lealdade anima-me,
A fome deprime-me,
A arte inquieta-me,
A arrogância revolta-me,
A paciência engrandece-me,
A guerra tolhe-me,
A liberdade fascina-me,
A mentira enoja-me,
A paixão transcende-me.

AQ

08 julho, 2017

O FUNK DO PEDRO ABRUNHOSA

Experienciar um concerto de Pedro Abrunhosa é sempre bom e fica registado na nossa memória para sempre. Existem sempre dois espectáculos, o do palco e o que acontece entre o público. Todo o mundo sabe as letras, canta, dança, responde aos desafios interagindo com o Pedro, como se este fosse alguém muito próximo de nós, fazendo parte da nossa identidade. E ele de facto faz parte de nós, pois a sua música, a sua voz, faz-se presente em diversos momentos da nossa vida. É exactamente como ele diz, a música anula barreiras e une-nos.
Hoje aconteceu de novo, desta vez ao ar livre, não permitindo um certo intimismo que se gera nos espaços mais pequenos, mas a entrada livre dá a oportunidade de participação a muitos que não têm outra forma de o fazer.
Obrigada Pedro, por voltares mais uma vez ao Reino Maravilhoso, acompanhado sempre de uma mensagem de paz e de amor, iluminando o nosso mundo interior.
Vivemos tempos de esperança e a partilha da tua música faz-nos acreditar ainda mais em que este país, ainda é um projecto possível. O momento de evocação dos que perderam a vida há dias tentando salvar-se, foi profundo e emocionante, mas houve outros momentos ternos e irrepetíveis. Registo aqui o momento em que um casal de certa idade que assistia ao concerto à minha frente, se abraçou ternamente ouvindo uma certa música, ainda conseguindo vislumbrar romantismo através das tuas palavras. Foi lindo.

Pedro volta sempre.   Fazes-nos bem!





05 julho, 2017

Aguardo pelo Messias

Aguardo pelo Messias
         Copiei esta imagem da internet numa rede social. Não sei quem é o autor, alguém copiou de alguém e eu copei descaradamente a seguir, mas sei com certeza que a sua profissão é ser professor. Só um professor entende esta imagem que é um verdadeiro pedido por socorro. 
         Um professor para além ensinar e tentar educar (escrevo “tentar”, porque a educação adquire-se em casa), lida com uma rede de problemas de grande complexidade que é o reflexo da nossa sociedade, o bom e o mau, dispondo de poucos recursos e reinventando estratégias para ser bem-sucedido, através de práticas resultantes de um trabalho intrínseco à arte de ensinar e em paralelo, que consta em planear, articular, partilhar, avaliar, acompanhar, reflectir. Até aqui, tudo bem… mas exige-se algo verdadeiramente esgotante, sem grande visibilidade e utilidade, o registo, a prova, a evidência em como fez e em como desempenhou bem o seu papel, com se ensinar se convertesse num processo jurídico onde é necessário reunir provas consistentes para exibir no tribunal. Ao professor não basta esgotar-se, falando alto para se fazer ouvir, não basta interromper o seu raciocínio de cinco em cinco minutos, para mandar calar, para evitar confusão na sala, para captar a atenção dos distraídos, para dar autorização para ir ao WC, para… para…, não basta fingir que não ouve comentários desagradáveis e rudes proferidos a baixa voz, não basta estimular aqueles que de facto querem aprender, não basta proteger os tímidos e os mais sensíveis, não basta refrear os mais rebeldes, não basta servir de mãe, de pai, de psicólogo, de sociólogo, de pedagogo, de enfermeiro, de mediador de conflitos, de amigo e de cúmplice, não basta cuidar da socialização e das interações em grupo, não basta! o professor ainda deve ser uma máquina de produção de documentos supérfluos, teoricamente correctos e necessários, mas que na prática adormecem e apodrecem nos dossiers, reais ou digitais.
         Os documentos são imensos e agora felizmente já é tudo informatizado, reduzindo substancialmente a quantidade de papel - as árvores agradecem. A grande papelada que a imagem refere, já é uma papelada digital, mas que não deixa de ser uma catrafiada de documentos distribuídos por pastas, subpastas e mini pastas que carregamos no computador pessoal e que de pouco serve.
         As salas dos professores, onde se respirava alguma tranquilidade entre uma aula e outra, onde todos carregavam energias para ir à luta, foram transformadas em algo parecido com um call center, onde os professores se sentam aproveitando o tempo para teclar desesperadamente documentos para entregar aos coordenadores, aos diretores, ou aos encarregados de educação, olhando apenas para os monitores, alucinados com as evidências da sua competência. Documentos que ninguém mais lerá. Eventualmente se houver uma queixa ou uma reclamação, todos terão informação escrita para exibir, ninguém lerá, mas importa ter. Quem tem, é competente, quem não tem é um calaceiro incompetente. Não interessa se o professor tem raciocínio, criatividade, memória, experiência, se reflete sobre os desafios do dia-a-dia e tem a arte de gerar empatias com os alunos, tentando dar a melhor resposta e o melhor de si. O que interessa é ter muitos documentos para exibir e em ordem. Quem lê os documentos? Quem cruza a informação? Poucos ou ninguém.
         É necessário ter papelada para mostrar e manter os professores ocupados. Porque os professores são duma raça, que gosta de praia e de piqueniques em todas as estações do ano e são os campeões das pontes e das esplanadas. Ai do professor que dá uma negativa, se não tiver tudo bem documentado e justificado! Ao aluno não basta não estudar, perturbar as aulas, ter testes negativos e estar a marimbar-se para escola e para o cota do prof. São necessárias análises, reflexões, estratégias, objectivos, articulações, partilhas, reforços positivos, diálogos assertivos, motivações personalizadas, trabalho colaborativo, comunicações aos DTs e aos encarregados de educação… e não basta praticar-se é necessário escrever-se e repetir-se em diversos documentos. E cada caso é um caso, feito de domínios sócio-afectivo, cognitivo e psico-motor… agora multipliquem por 170 casos/professor, cada um com pai e mãe, ambos a achar que o professor tem boa vida, é um baldas, é um verdadeiro vilão cheio de preguiça e incompetência, lerdo das ideias, não faz nada, passa a vida em férias e faz greves durante o ano sempre em momentos errados, e ainda por cima faz queixa dos seus queridos e adorados filhinhos que são sempre uns anjinhos e as más companhias é que lixam tudo (esta é a imagem que a sociedade infelizmente resolveu construir nos últimos anos sobre os professores). Como pais brilhantes, não lhes ensinam que se diz com licença, faz favor, obrigado, bom dia e até amanhã, que não se dizem palavrões e que é obrigatório respeitar o outro.    
         Mas voltando à papelada… no meu tempo (não gosto da expressão, mas por vezes é imperiosa), quando na pauta estava escrito 10 valores queria dizer que passei à rasquinha, e ia ter os meus pais de trombas por umas semanas, quando tinha 8 valores queria dizer que tinha andado a vadiar o 1º período e que os meus pais iriam suspender tudo o que me desse prazer até eu recuperar, e quando tinha 14 valores, eu respirava de alívio, mas os meus pais ainda iriam perguntar porque não tirei melhor nota e quando tinha 17 valores, finalmente os meus pais sorriam. Numa escala de zero a vinte, com os números alinhados numa pauta, eu sabia exactamente onde tinha acertado, onde tinha errado, e os meus pais não precisavam de mais nenhuma explicação ou esclarecimento.

         Ai, ai papelada… aguardo com certa urgência pelo Messias do ensino, que entenda quão nobre é a profissão que prepara a sociedade do futuro. Devolvam-nos o tempo que é necessário para nos despirmos dos problemas da escola, o tempo para reciclar informação, o tempo para regenerar a mente e a paciência, o tempo para actualizar conhecimento. Devolvam-nos a dignidade, pois os nossos alunos são os vossos filhos!
Anabela Quelhas
Publicado em NVR a 5/07/2017

13 junho, 2017

Anita nas folias juninas

Anita nas folias juninas





         Cheira a farturas, bem ensopadas em óleo e açúcar, já há vários dias, anunciando o solstício de verão reflectido nesta modernidade dos carros de farturas estacionados nas ruas dos centros urbanos, escondendo jardins e edifícios barrocos interessantes. Ai de quem lhe enjoe o cheiro, pois terá que conviver com esta realidade durante o mês de Junho, quer queira, quer não, e passados uns dias, terá como paisagem, os doces da Teixeira fabricados em Baião, agora misturados com fatias de Resende e os pormenores púbicos de S. Gonçalo de Amarante. 
         Como som de fundo, temos o que há de mais popularucho e pimba, com letras que fazem corar o próprio Quim Barreiros, anunciando carrinhos de choque, e agora a vanguarda da diversão, resultante da tecnologia carrosseleira, onde o cinto de segurança é essencial, tal como ter o estômago vazio, como se fossemos fazer uma endoscopia digestiva no hospital mais próximo, para não fazer feio, vomitando o hambúrguer, a bifana, a bejeca, e a tal fartura que assentou mal com o café, sobre os mirones que ficam em baixo.     
         As festas juninas são mesmo assim!  
         Afastei-me propositadamente das noivas de Sto António – não vá o diabo tecê-las!!! Alguém me pode acertar com o bouquet de noiva… às vezes pareço ter um íman para atrair complicações. Vi-as ao longe, fora de alcance da maior atleta olímpica lançadora de bouquets, discos ou dardos, vestidas cada uma com 50 metros de renda de Sevilha, carregando consigo baús cheiinhos de amor para dar, cumprindo um sonho de subir ao altar nas festas de Sto António, mesmo que em grupo, com vestido a arrastar, véu e grinalda brancos ou pérola. Mas que bem!!! - agora com muita selfie, muita base, muito rimmel, muito eye liner, muito esfoliante, muito gel, muita extensão, muito silicone, muito babyliss, muito makeup, muito reafirmante, muito under bra, muito fio dental, muito fitness, muito adelgaçante, muita tatuagem, muito sérum, muita barba de 3 dias, muito jet bronze, muito laser… (ufff) realizando as fantasias mais imaginativas a que qualquer mortal tem direito e que consegue realizar com ajuda do chinês da esquina.
         Meu  Deus dai-me juízo até à hora da morte!!!
         Oh meu Santantoninho, tu divertes-te à brava, à custa destes encantamentos passageiros de nós pecadores de todos os dias… quantos pontos fazes por cada um, no reino monótono do céu? Deve haver aí competição séria, tipo caça ao Pokémon, só que transformada em caça ao casamento de Sto António. Não vês que nunca ninguém foi feliz para sempre, mesmo os abençoados por ti, e aqueles que dizem que sim, simplesmente mentem?… é muito mais fácil mentir do que assumir a verdade. Dá muito menos trabalho!
         Sabes também muito bem, que o casamento não é solução para quem tem problemas financeiros! Sempre ouvi dizer que em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão!
….  
         O calor mantem-se depois das 19h anunciando uma noite excelente para a folia, não precisarei de carregar o casaco e sim a garrafa da água que depois de ingerida se descartará no lixo.
         Optei por comida leve ao jantar, para que o vestido acetinado cheio de brilho possa ficar justo, mas sem apertos e para que não sobre nada para fora, do tipo estou a asfixiar, deixai-me tomar ar puro do lado de fora do decote ou da cava - 3 sardinholas e pimentos, para evidenciar o tempo deles, deglutidos com um branco fresquinho de Terras da Maria Boa. (ok, pronto, uma cola zero calorias)
         Rego o manjerico, ponho a erva-cidreira à`janela, o alho-porro já está encomendado, assim como o lugar na esplanada para na noite de S. João saborear o caldo verde, e o púcaro negro para o S. Pedro, ajeito a pestana e o báton, penteio-me, deixo um cravo vermelho a navegar pelo meu cabelo sob a luz do luar e cá vai a Anita para a folia. Já que é assim, fazer o quê? Aproveito para me divertir.

Meu Santo António se tu vires passar
Algum rapaz sem par
Sozinho pela rua
Vai-lhe dizer que eu já tenho um balão
Um arco e uma canção
E a imagem tua
Faz um milagre, dá-me um lindo par…

(Cuca Roseta)

07 junho, 2017

…daria uma exposição para o mundo

…daria uma exposição para o mundo  

            A visita à exposição “ A cidade global” que decorre no Museu Soares dos Reis no Porto, despertou a minha curiosidade para a pintura que deu origem a toda a ideia da exposição.
            Trata-se da pintura adquirida por Dante Gabriel Rossetti, dividida em 2 partes, representando uma rua renascentista, supostamente a Rua Nova dos Mercadores, localizada na Lisboa manuelina dos séculos XV e XVI e que já levantou dúvidas sobre a sua autenticidade alimentando uma polémica que parece não ter fim.
            A história oficial é que esta(s) pintura(s) terá sido descoberta pelas  historiadoras inglesas, Kate Lowe e Anne Marie Jordan Gschwend numa mansão do século XIX, em Oxford  cujo proprietário era o conhecido William Morris, com quem trabalhou Rossetti.
            Quanto à “Rua Nova dos Mercadores”, está dividida em dois painéis, é propriedade da Society of Antiquaries of London e deu origem a esta exposição, "A Cidade Global", que exibe cerca de 250 obras da época, entre mobiliário, pintura, tapeçaria, livros, esculturas em marfim, manuscritos, animais embalsamados e outros objectos em uso na época. É interessante a ideia de nos transportarem a cinco séculos atrás, através das obras expostas, porém descodifica pouco a pintura referida sobre a Rua Nova dos Mercadores – o vídeo exibido, sabe a pouco.
            A representação expressa imensos pormenores sobre aquela Lisboa que era um grande centro europeu e falta uma análise detalhada da pintura de uma rua onde passava o mundo através dos produtos vendidos, a mais rica da europa naquela época. Falta a história da construção da rua, a explicação sobre a grade que divide a área dos cambista, a característica dos edifícios com 3 ou 4 pisos, as colunas duplas, a concentração de comerciantes de todas as partes do mundo, os produtos exóticos vendidos e os modelos de negócio, a sua organização, a ocupação dos espaços que se adivinha no desenho dos edifícios (apesar da referência à Casa de Guiné e da Índia), o elevado número de escravos, o que transportavam, o traje dos portugueses e de outras pessoas com diferentes origens, as pedras de bezoar, etc..
            Unir a informação contida nesta(s) pintura(s) à informação escrita existente sobre essa época, daria uma exposição para o mundo, uma exposição também global, a partir novamente de Portugal, tal como aquela rua, justificando o nome da exposição. Infelizmente temos apenas um “cheirinho”-  uma exposição com informação insuficiente, gerando pelo menos aos visitantes, a curiosidade que levará a investigar posteriormente. As pinturas originais não as vi e a mega ampliação que fizeram das mesmas, está colocada ao longo de uma comunicação horizontal da exposição e não possui espaço suficiente para se realizar uma leitura global da mesma.
            Gostei de ver o rinoceronte embalsamado que pertencia a D. Sebastião. Percebi à posteriori que não era o mesmo que foi oferecido a D. Manuel e que talvez tenha sido a fonte de informação para o desenho de Albrecht Dürer –primeiro rinoceronte vivo que esteve na Europa desde o Império Romano.

            Esqueci de relatar que o único elemento informativo existente na entrada e na loja do museu, é um calhamaço escrito pelas historiadoras, de custo avultado, que pesa cerca de 3 kg, o que desmotiva qualquer um - Irão sobrar no final.
Publicado em NVR - 7/06/2017

30 maio, 2017

O FATO QUE NUNCA VESTIMOS

Anabela Quelhas—nasceu em Luanda, arquitecta, licenciada pela Escola Superior de Belas Artes do Porto, discípula do arquitecto José Maria Pulido Valente.
 Desenvolve regularmente actividade relacionada com arquitectura, pintura, vitral, fotografia e artes gráficas, nomeadamente ilustração.
Professora profissionalizada do ensino básico e secundário. Autora de, diversos projectos pedagógicos /artísticos – seis premiados a nível nacional – exposições pedagógicas e registos digitais
Pratica o exercício da escrita criativa e da poesia.

Livro publicado:
"O FATO QUE NUNCA VESTIMOS"
ISBN: 978-972-8546-65-6
Depósito Legal: 424472/17
Capa: Anabela Quelhas
Impressão e Acabamento: Minerva Transmontana, Tip., Lda




Antigamente é que era bom?
            São retratos dum país rural, esquecido do mundo, localizados no tempo da “outra senhora” e por quem muita gente ainda suspira, passados mais de cinquenta anos, revelando memória curta e coração pouco ginasticado.
             O registo de episódios enquadrados num regime político asfixiante é descrito na primeira pessoa, inspirado nos olhares interrogativos de uma garota curiosa e atenta a uma década entre 63 e 73. O privilégio de ter crescido dividida entre duas províncias desse Portugal imenso, uma do Portugal Continental e outra do Portugal Ultramarino, Trás-os-Montes e Angola, deu-lhe uma visão aberta multifacetada, sem preconceitos, sem amarras, sem pretensões de qualquer espécie e permanentemente questionadora da vida e do mundo que a rodeava. É um testemunho aligeirado de “como era” aqui no Portugal Continental, possibilitando uma leitura dinâmica e descomprometida.
            A ordem apresentada é próxima à ordem cronológica da memória, mas sem um fio condutor real, permitindo assim e também, uma leitura desorganizada e desconstruída.
            Leia e compare este país com o resto do mundo, e a sua dimensão temporal completamente desajustada e fracturante. As contínuas referências presentes em rodapé, são janelas que se vão abrindo, para contextualizar de forma ainda mais visível este olhar juvenil.
            Alguns leitores talvez activem a memória e se revejam em algumas destas histórias.
            Esta obra é a primeira de uma possível trilogia, que constitui uma narrativa triplicada, localizada em tempos e espaços diferentes, possibilitando ao leitor presenciar o amadurecimento crítico do seu olhar, sobre o que a rodeava, onde a realidade se sobrepõe ao imaginário ou ao contrário, consoante os casos e a inspiração.

24 maio, 2017

… que estratégia foi essa?

… que estratégia foi essa?
- O que vai ser esta semana? (ACM)
- Talvez a onda dos produtos naturais e o sarampo sarampelo… (AQ)
- Oh isso já passou! (ACM)
- Pois!!! e esta semana há muito assunto para abordar… (AQ)
                Sobre Fátima, com todo o respeito, nem liguei a televisão, porém alguém levou a fotografia da família para benzer, não vá o diabo tece-las, apesar que adorei os cartoons de João Vaz de Carvalho.
                Sobre a victória do Benfica… os festejos à volta de uma escultura que foi imaginada por um sportinguista… prefiro o azul.
                Resta-me o Salvador Sobral. Lembro-me dele num dos programas “Ìdolos”, ainda um menino de 19 anos, mas já com muita pedalada, mas muito imaturo. Agora isto! Admiro-o porque persegue os seus sonhos e vai à luta, e ele foi à luta apesar que agora tem um sabor segundo ele é agridoce. Passou por Madrid, Maiorca, Barcelona, …
                Poderia ter tirado o seu cursinho de psicologia, ser tradutor, fechado em casa com o dicionário do lado esquerdo, a gramática do lado direito e computador ao centro, contabilizando palavras, mas foi á luta, para fazer aquilo que gosta, que é cantar…. E quando se gosta é mais provável haver sucesso.
                Um músico amigo, que tal como eu navega em contra-corrente,  classificou o poema como delico-azeiteirote, e eu concordei, pois é fraquinho, fraquinho, comparado com os poemas de  Guinot 
“Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal aquilo que sou
Sou um grito
Ou sou uma pedra
De um lugar onde não estou”
                                                                                                              ou de Ary dos Santos,
“Olhos de amêndoa
cisterna escura
onde se alpendra
a desventura.”
                                                                                                                             que foram à Eurovisão e perderam. E essa de amar pelos dois, tem muito que se lhe diga, tirando pais e irmãos, normalmente não resulta, mais ano, menos ano, a relação claudica e sucumbe estrondosamente, gerando chorudos honorários aos psiquiatras. Não aconselho mesmo! No amor tem que ser como as contas à moda do Porto, tu pagas o teu e eu pago o meu e pronto, ficamos amigos para sempre
                A figura de Sobral contrariou o estereótipo festivaleiro – casaco engelhado e de defunto falecido de 3 números acima, onde os ombros não encaixam, sobrando forma e tecido, cabelo em tótó, barba em desalinho, voz meiga, doce e expressão de olhar de ursinho de peluche – assim como a melodia, na onda cibernauta… convenceu e venceu. Mas oh Salvador tens de explicar melhor essa história, pois o puzzle ainda não está completo! O que é que aconteceu mesmo? Tops, sondagens, versões noutras línguas… que estratégia foi essa tão bem sucedida?
                É uma canção bonita, mas não é maravilhosa – uma la la land da música que derreteu os corações empedernidos, que sempre valorizam o lado dramático da vida do cantor, e este infelizmente parece que tem um melodrama na sua vida. Temos uma canção simples, genuína, intimista. Cantas bem, tens voz de anjo, com sentimento e com expressão, transmites emoção, nós sabemos, mas normalmente não chega…. Tu dás tudo, mas recebes nada. 
                Penso que a máquina “FESTIVAL da EUROVISÂO” quis dar uma arejada, não ficando atrás da máquina do prémio nobel da literatura, sorte a do Salvador, porque para o Dylan, tanto fez como faz. E o nosso primeiro já lhe deu os parabéns com sorriso de orelha a orelha. Oh Costa isto não é só tomar conta dos miúdos do outro, num sábado de manhã, agora é preciso organizar o festival do próximo ano, muito brilho, muita luz, muito glamour, muito botox, muito plástico, muitas horas extraordinárias, muitos efeitos especiais, muito IRS a rolar…. Depois queixem-se.

- PARABÈNS SALVADOR ao menos tu estás na maior, é assim mesmo!!! (MEC).

Publicado em NVR - 24/05/2017

20 maio, 2017

CONVITE


CASA DE ANGOLA
LISBOA, 20 DE MAIO DE 2017
19H

CONVITE


Anabela Quelhas tem o prazer de convidar V. Exa para o lançamento do seu livro "O fato que nunca vestimos".
Anabela Quelhas, arquitecta e professora, aventura-se nos caminhos da escrita e brevemente apresentará o seu primeiro livro como escritora. Será um caminho novo entre vários que gosta de percorrer em simultâneo, arriscando criticas e comentários em contramão. O seu território são as artes plásticas, porém a sedução pelas palavras levam-na a ser ousada e criar uma trilogia autobiográfica de ensaios de escrita, da qual a primeira parte “O FATO QUE NUNCA VESTIMOS” será brevemente partilhada com a comunidade vila-realense, a 11 de Maio de 2017, pelas 21h15m no Centro Cultural Regional de Vila Real e com a comunidade angolana, no dia 20 de Maio de 2017, pelas 19h na Casa de Angola em Lisboa

10 maio, 2017

Mas que aventura é esta, Madame?



Mas que aventura é esta, Madame?

(Publicado em NVR)
            Deveria escrever sobre as eleições francesas, mas vou ser um pouquinho egoísta, egocêntrica, narcisista e escreverei sobre mim. Não é todos os dias que se publica um livro…
            A mala do meu carro está cheia de livros e agora tenho que lhes dar rumo, soltá-los no mundo. Publiquei o meu primeiro livro como escritora. Esta designação não me assenta bem, pois sou uma humilde aprendente da arte de escrever, que me tem encantado ao longo dos anos, sem estilo, fragmentada e em contramão. Costumo estar no lado dos desenhos, mas agora… Ser escritora sugere algo de profissional, que não sou. Não resisto a um desafio, tenho a mania de meter o nariz onde não sou chamada e não me intimido o suficiente, em percorrer caminhos que não domino.
            Enfim, sou mesmo assim!
            Poderia estar quietinha a viver a maturidade, sentada num sofá, olhando a televisão, fazendo tricot para olear as artroses das mãos, chupar rebuçados para a tosse, cortando os dias no calendário um após outro e queixando-me todos os dias, desta vida madrasta. Levaria uma vida mansa cheirando a mofo, mas santa, sem trambolhões, respirando todos os dias da mesma forma, conservando o batimento cardíaco na mediana, rezando a Deus para me manter a tensão arterial estável e substituindo as gargalhadas por um mero esgar dorido da mandíbula.
            Pois, mas essa não sou eu.
            Tenho uma mala cheia de livros de cor azul-cueca, com um título polissémico e uma fotografia minha, com rosto que oscila entre o desconfiado e o aborrecido, como se estivesse no tal sofá da vida mansa - fotografia de adolescente incompreendida em idade do armário, sempre a descobrir uma forma de questionar, de protestar contra tudo e contra todos-
            Tenho um filho maravilhoso, nunca plantei uma árvore, pois a botânica dá-se mal comigo e o livro não passa da primeira parte de uma aventura, que nem sei como irá terminar. O que dirão os verdadeiros escritores que muito respeito, deste “projecto de livro”?
            Nestes dias, permaneço meia obtusa, quando percebo que criei grandes expectativas naqueles que me estão próximos…. E agora? A responsabilidade cresce e desgasta. Sou assaltada pela insegurança. Onde arrumei os Kompensan? E se eles não gostarem? ou forem indiferentes, o que é muito pior? A obra deixará de ser minha e passará a ser pública. Cada um lerá e interpretará do seu jeito, que poderá não coincidir com o meu.
            Porque não criei mais um pseudónimo, que me assegurasse o anonimato, livrando-me deste desconforto que me acelera o ritmo cardíaco? Lá está o meu nome, a fotografia, a biografia e o conteúdo, multiplicados por muitos exemplares – todos seguidinhos azuis; á espera de destino. Não bastava um!!!…
            Socorro quero sair em andamento!!!!! Tirem-me deste filme!!!! Grito para mim mesma, nesta postura de conversar de mim para mim, olhando os livros agrupados em pacotes plastificados, aguardando decisões e apelando para o bom senso que emigrou da minha vida há muito tempo.
            Mas que aventura é esta, Madame? Meto-me em trabalhos e agora? Ando sem filtro, sem airbag, sem rede, sem cinto de segurança e estiquei-me demais…  
            E agora o que fazer com a adrenalina em excesso?
            - Coloco chapéu e óculos escuros e vou fingir que não me conheço. E os espelhos cá de casa?
            - Aproveito e vou de fim-de-semana para a Islândia durante 30 dias? Todos sabem que nunca fugirei para norte.
            - Invento doença contagiosa, daquelas de pintar a pele com bolhas gigantes? Certamente me irão esperar na saída do hospital
            - Salto da ponte? Colocar-me-ão um elástico à cinta e gritarão: SALTA! SALTA! S-A-L-T-A!
            Fazer o quê?
            - Transformar os livros numa bela escultura azul cueca?

“O fato que nunca vestimos”
No Centro Cultural e Regional de Vila Real, dia 11 de maio pelas 21h15m.

Vestirei coragem e lá estarei. J

09 abril, 2017

AGORA É TARDE!














Estava a 1000km de Vila Real e recebo três sms com a notícia da demolição da panificadora, e mensagens respectivas:
1 – Sem comentários
2 – Olha para isto!!! Quelhas, não fazes nada?
3 – Professora, perdemos a luta, rebentaram com a panificadora, não serviu de nada o trabalho que fizemos na escola.
Nem sei o que devo dizer/escrever e não ouso partilhar o que já me passou pelo pensamento.
Sinto-me triste.
Vila Real acaba de perder um edifício com algum valor arquitectónico e a culpa não é de ninguém, dizem. Nunca ninguém tem culpa de nada. Dizem que a culpa morre sempre solteira.
Se alguém pensa que um edifício de apartamentos será um ponto de atração para forasteiros virem visitar à cidade….
Se alguém pensa que um caixote qualquer pode gerar orgulho nos habitantes desta cidade…
Se alguém pensa que uma máquina a derrubar paredes dará brilho à nossa identidade…
….tstststst desenganem-se.
Não culpo o proprietário do edifício, seja um tal senhor da Régua ou seja a cadeia dos supermercados LIDL, ou seja quem for…. Até admiro a sua paciência e tolerância pela indefinição que certamente rodeia este investimento.
Sinto-me triste pela inercia das instituições, pelo “deixa andar” ao longo de 20 anos, dos que gerem a nossa cultura e o nosso património,  … mesmo sem dinheiro é possível fazer tanta coisa, entre as quais classificar, proteger, legislar e informar.
Não deveriam ser os cidadãos a propor a integração de determinado edifício como património, o IPPAR, a Secretaria de Estado da Cultura, as Câmaras Municipais e Juntas de freguesia, deveriam ter os seus territórios inventariados, evitando a revolta e a indignação dos cidadãos. As instituições estão cheias de arquitectos, engenheiros, economistas e a fina flor do conhecimento, e o q fazem?
Sabem, fico triste porque o Pioledo já não existe, os SLAT também não, a casinha dos azulejos da rua Visconde de Carnaxide cedeu espaço para a rotunda, a tasca do alemão fechou, o Excelssior eclipsou-se, o jardim da avenida foi decepado, os brasões estão esquecidos nas bordas de um jardim…  Sabem, fico triste, porque a seguir, serão as adufas que irão apodrecer, será a varanda renascentista que se irá desmontar, serão os brasões que irão perecendo em nome do progresso. Um dia cairá o coreto do jardim da carreira, o jardim será transformado em parque de estacionamento, o telhado da igreja de S. Dinis ruirá completamente, já ninguém saberá do Espadeiro e a casa de Diogo Cão passará a ter um chinês na máquina registadora. Nesse dia o Carvalho Araújo fará um manguito a esta cidade. Somos pobres, cada vez mais pobres, com a mania que somos os maiores.
Isto representa trinta anos de sucessivas asneiras e perdas.
Ah mas temos um LiDL, um Continente, um Shoping, um MacDonald, um teatro, um museu, rotundas e edifícios gigantescos que parecem caixotes fatiados, que tanto poderiam estar aqui como em qualquer ponto do planeta.


“Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) abriu agora o processo de forma “a impedir danos continuados no imóvel em vias de classificação”, informou este organismo, que considerou que o edifício está em risco.

AGORA É TARDE!!!!!

Sinto-me triste… uma tristeza que engloba dezenas de alunos, respectivas famílias, e alguns Vila-Realenses que acompanharam toda a tentativa de preservar o edifício.

- Bruno, confirmo, perdemos a luta, não serviu de nada o nosso trabalho.
- … e não faço nada, já fiz a minha parte e há um registo na net para quem quiser consultar.


Copio a parte final da minha acção (9/06/2014)
Avaliação
Este foi um tema muito oportuno para levar os alunos a pensar na sua cidade, despertando as suas consciências como cidadãos críticos e intervenientes e ampliando os seus conhecimentos culturais e estéticos.
Lancei este tema sem antecipar que seria desenvolvido em simultâneo com o desaparecimento do grande artista plástico. Tive o privilégio de provocar ainda os últimos sorrisos de Nadir ao comunicar-lhe o entusiasmo que rodeava este projeto de trabalho.
A minha tarefa termina aqui.
Relembrei à população de Vila Real, como é necessário estar atenta para conservar o seu património, divulguei a obra de Nadir Afonso e solicitei à Câmara Municipal a classificação da panificadora de Vila Real.
Fica aqui o registo de toda a dinâmica realizada.
Bem hajam a todos

Anabela Quelhas