20 maio, 2026
O silêncio do kisanji na Rádio Portimão
03 agosto, 2025
01 dezembro, 2024
10 junho, 2024
faz 50 anos
FAZ 50 ANOS
De crisálida
a borboleta
Há
vinte e quatro horas, eu era uma adolescente alegre, despreocupada, feliz e
hoje transformo-me numa mulher. Despi a adolescência em Luanda, pouco antes de
entrar no Aeroporto Craveiro Lopes, com destino a Lisboa, já sem esperança de
regresso breve. Abandono essa fase de transição da vida e adquiro competências
rápidas para aceder à maturidade social.
Entro
na idade adulta, tal como uma crisálida que se transforma em borboleta, da
noite para o dia, encurtando preguiças, dúvidas juvenis, inseguranças,
rebeldias e acelerando a autonomia, a tentativa de um maior discernimento e responsabilidade da maturidade.
É
nesse estado do meu desenvolvimento holístico que entro no avião, desconhecendo
onde me levará esta metamorfose activa que levo comigo.
Tento
resistir ao choro. Não entendo esta retirada precipitada, desconheço razões que
justifiquem a determinação do pai em sair e não voltar a Luanda, após as
férias. Despedi-me da minha cidade, contrariada, receando nunca mais ver os
meus amigos. Nasci e vivi em Luanda os últimos anos. Sete anos, os melhores
anos da minha vida, com o desabrochar da minha personalidade, da minha
rebeldia, o desenho das minhas convicções e valores, numa cidade encantada,
cheia de contradições e de assimetrias, mas motivadora, exuberante, apostada em
crescer e em desenvolver o potencial de um território.
Após
a ceia servida a bordo, já passa da meia-noite, os pais tentam dormir. Fingimos
dormir. De olhos fechados, penso em tudo que se passou nestas últimas vinte quatro
horas e a despedida inesperada da cidade de Luanda, determinada pelo pai, mês e
meio após a Revolução dos Cravos[1].
Luanda parecia serena e tranquila, reinava a paz em todas as ruas, porém, o pai
considerou que retirar a família para a Metrópole, agora, é a decisão mais
sensata e assertiva.
Fingimos
dormir. Sim, fingimos. Como alguém poderá dormir vivendo este trambolhão
impensado? Ao contrário das outras viagens de avião, não me interessa em que
lugares viajamos, se vou ou não à janela, nem presto atenção a ninguém. Faço um
balanço da minha vida e das inseguranças que me invadem nestas últimas horas,
de olhos fechados tento controlar a minha respiração, tornando-a aparentemente
regular, cadenciada e serena. Sinto que parte da minha vida foi amputada sem eu
perceber as razões, e esta ferida marcar-me-á para a vida. Não me matará, mas
irá moer-me toda a vida sem escolher hora ou local.
Não
consigo projectar-me no futuro, prever o que acontecerá em Setembro, quando se
iniciar um novo ano lectivo, e como me irei organizar. A caminho do aeroporto,
o meu pai deu indicações precisas à minha irmã que ficou em Luanda, para ir ao liceu,
obter o meu certificado de habilitações do 6º ano / 1º ano do Curso Complementar
e enviar com urgência para a Metrópole.
Vou
dormitando por cansaço, encostada ao braço do pai, ou melhor dizendo, o sono
tropeça em mim ao longo da noite. A minha cabeça parece um labirinto de ideias
e situações que me empurram para este amadurecimento repentino e prematuro, que
se traduz anatomicamente, num brutal nó na garganta. Apesar de contrariada, ainda
no interior do avião, decido não pressionar os pais com o regresso a Luanda.
Esta mudança repentina na nossa vida, deve ser ainda mais penosa e complexa
para eles, que já têm cinquenta anos e grandes responsabilidades. Aguardarei
serenamente, tentarei não criar conflitos, fingirei até algum entusiasmo para
que não se preocupem comigo. Terei de aprender a digerir tudo sozinha. Serei
uma óptima aluna para fazer o meu curso rapidamente, se o pai conseguir
suportar as despesas, confio que sim.
Chegamos
a Lisboa, sem grandes conversas, uma viagem inundada por mutismo e pessimismo.
Esta viagem não se reveste de alegria nem de entusiasmo, como todas as
anteriores, em que eu exteriorizava por excesso, a minha adolescência divertida
e irónica. A minha metamorfose despe-se de amigos e conhecidos, recheando-me de
um grande vazio existencial e revolta, sem saber o que será o meu futuro e o da
minha família e o que faço ao passado. Parece-me que dispo uma túnica leve e
fresca e visto uma camisa-de-forças, contendo-me, apertando-me e sufocando-me. Não
me foi dado poder de decidir sobre ficar ou partir, porque apenas tenho dezasseis
anos e não sou autónoma.
Em
Lisboa, não vejo militares nas ruas, nem cravos nas mãos das pessoas, como eu
imaginava, vejo cerejas, lá estão elas na rua a vender, tudo parece normal, com
mais animação transpirada em frases escritas em paredes, apelando à Revolução
de Abril. O entusiasmo de algumas pessoas contrasta com o nosso constrangimento,
a nossa contenção, os nossos sucessivos nós na garganta. Os táxis continuam a
cheirar a combustível, a estofo mal lavado e o rosário continua pendurado no
espelho retrovisor, a oscilar a cruz durante a viagem. Lisboa continua
movimentada e parece-me iluminada já pela luz do Verão. Oiço uma carrinha com
um megafone a percorrer as ruas perto do aeroporto, emitindo uma canção que
apela à revolução e anuncia um comício.
Tomamos
a rota da aldeia transmontana onde os pais nasceram, onde estão as origens da
nossa família e onde conservam uma casa adquirida pelos pais no pós-guerra.
Vivi nessa aldeia alguns anos da minha infância e nas férias dos últimos quatro
anos.[2] Este
ano não é igual, não sinto ansiedade, nem alegria, ao pensar no reencontro
familiar. Sinto peso na alma, como se carregasse um fardo de toneladas de
saudades, que já se manifestam, recentes e densas e que me asseguram tristezas
futuras, amanheceres apáticos e entardeceres melancólicos.
Passamos por Coimbra para ver a
minha irmã mais velha que estuda História, na Universidade. Coimbra mantém o seu ambiente estudantil.
“Nem
mais um soldado para a Guiné”, vejo escrito junto às Escadas Monumentais.
Dirigimo-nos para a Rua da Matemática, junto à Real República dos Corsários das
Ilhas. Agora é diferente das outras vezes. Os meus pais expressam cansaço e
desânimo, apesar da alegria do reencontro com a minha irmã. Não conversamos
sobre ontem, sobre a despedida nocturna da cidade de Luanda. Esta é uma
cumplicidade silenciosa que guardaremos para sempre no interior do nosso
coração. Falamos do crescimento da minha sobrinha pequenina, que ficou em
Luanda, sobre as suas primeiras palavras e as suas travessuras. Falar sobre uma
criança sempre dá cor aos diálogos, pacifica a nossa mágoa e imprime alguma
esperança no futuro.
.10 de Junho de 1974 - a
revolução aconteceu há menos de dois meses e está viva na memória de todos. As
cerimónias fascistas realizadas no Dia da Raça, em anos anteriores, para
exaltar o Portugal do Império Colonial, fizeram, este ano, uma pausa para
ajustar reflexões e procedimentos, coordenados com a revolução e com o Portugal
democrático.
02 abril, 2024
Um dia me apaixono
Um
dia me apaixono
(escrito
em lusumbundu)
Me
apaixono por um camaleão, estonteadamente.
Não
é um ndenge, é um kiama, camaleão de verdade.
Me
apaixono na exacta proporcionalidade indirecta da minha tenra idade de uso de
saia brinca-n’areia e sandálias de plástico.
Ele
não se apresenta, sobe logo na parede como se fosse tudo dele e num bem-estar
sem cerimónias, pára olhando para mim, virando aqueles olhos 360 e muitos mais
graus, de ângulos giros, como quem questiona:
— Xê!!! Kem é esta meia
tolá, de ares espantadu e kom us koração a batê juntu dás boká?
Se
aquieta cinzento, tal como a cor da parede onde estaciona. Me mostra sua cauda
espiralada desenhada com mão e inteligência de mestre renascentista, daqueles
que desenham quase tão bem como a mãe natureza
Camaleão
vaidoso não faz por menos!
Me
aproximo cautelosamente e me rendo àquela forma geométrica, com principio e sem
fim, que mais tarde uns e outros copiarão e chamar-lhe-ão de espiral recessiva,
para explicar fracassos económico-financeiros, nem sei de que país e não sei
mais o quê.
Olho
de um e de outro lado e ele se deixando estar, se aquecendo ao Sol tórrido, que
faz hoje, igualmente como os outros dias do ano, deliciado com as minhas
carícias de olhar de kandenge
surpreendida.
Tenho
olhinhos puxados, e ele parece gostar desta visão meio oriental, mesmo no
centro da África, passando ao longo do seu corpo como se fosse uma carícia.
— Komo te xamas meu kamba? — pergunto docemente, mascando xuinga.
— Me xamu de kamaleão.
Dizem, eu num sei bem, más akreditu nus mwadyés ke têm livrus dus kiama! – responde.
— Ué, todu u mundu
sabe seu nome! tu num sabe bem?! Tás xoné!
— riposto. — Perante a incerteza, ti chamo Kasimiru!
— Ué tás máluuuKa, num
sei bem, mas é de certeza, kum certeza!
— Qual é a maka? Te chamu memo Kasimiru! sempre
tive gostu nu chamar e num vou eskutá às tuas rekramações e justifikativas de kem
num ker ser xamadu de Kasimiru. És bunitu e deves ser
Kasimiru! Nome ke te
faz banga, meu! Kasimiru, é nome lindu
prá kiama de kauda enrolada prá dentru,
komu tu.
Lhe
posso chamar coisinha, coisinha fofa, mas acho desajustado para um réptil de
escama regular, sangue frio e tudo no lugar.
Lhe
pergunto sobre a sua família e me diz:
— Tudu lagartus tal kal
eu! Uns vive áki n’ Angola, nus desertu também pode ser, alguns também nás
Península Ibérika, lá nás Europa. Eu vivu nu mangal du Kikolu dá Luá. U melhor
sítiu dus mundu prá murar. Aki mésmu.
Conta-me
de sua família erudita e muito antiga. Já há mais de 100 milhões de anos ele
tinha avós e bisas. Meus olhos achinesam
ainda mais e minha franjola voa com meu suspiro de admiração. Tantos anos de
tempo, com zeros até ao infinito!
— Que númeru tão
graaaande!!! Tantos zeru! Tás a mangar
de mim, né? Tem jakaré nás tua fámília? Cumo esses Lacoste dás kamisas dos mwadyés?
— Tem sim, mas é
parente afastadu, ke só vive nus rius, não há nenhum áki pertu — primu dus tiu
dás irmã dus kunhadu, tás a vér? Nunká terás u desprazer de ver pur áki, nem eu
propriamente keru vê. Fama de mau si pega e eu sou muitu du beim.
— E pangolim tem? Desenhei um na iskola, já
mortu, mas parecendo vivu num embalsamentu feitu prá aula dás ciência. Um mortu
vivu ke nem sei purkê, prá guardá em prateleirá dentru dus armáriu ke cheira a
formol.
— Iso és pérfume?
— Sim, pérfume dus
maus, ke não é beim. Perfume dus mortu ke pareci vivu.
— Deskonsigu conhecér,
mas eu num sei de toda a árvore genealógika dás miá fámíliá e dus seus mambo,…
mas tu inventas demáis… mortu ke párece vivu? perfume ke num é bem. Nunká vi nãum,
kuando estáis vivu, estáis vivu, kuando morres, estáis mortu. Ná miáa famíliá é
ásim mému, num tem párece ke num é.
Lhe
conto da minha família e que lhe desconheço a antiguidade, mas acho ser a
melhor do mundo: meu pai, minha mãe, minhas manas e meu cão Fiel já falecido…
que eu vivo num cubico alto, no centro da Luanda do asfalto e visito o mangal
ao sábado de tarde, pra abastecer a fruteira lá do meu cubico.
Kasimiro
desconhece os lares dos humanos, mas sabe tudo acerca de árvores e daquele
mangal que me presenteia com as mangas mais gostosas do mundo, fibrosas, doces
e com sabor a resina como toda a manga deve saber, deixando sempre vontade de
repetir. Me conta sobre a mulemba, a jaqueira e o velho embonda do Kikolo, com mais de mil anos.
Me
deita a língua pra fora e na hora acho má educação. Deita de novo e vejo que tem
uma língua dupla, dois em um.
— Kumé Ki é? Mémo!
Juro! Xê, m’irmão ke línguas rápida nás horas!!! Mal sai dás boká já se enrola
nus regressu e recheada com muskitu, feitu duas língua?!
Afinal
a sua língua apanha insectos. Me explica e demostra cheio de destreza, tal qual
aula de ciências da natureza lá na escola. Imagino num replay de câmara lenta como fazem no cinema de acção, permitindo ao
olhar, ver aquilo que os olhos não conseguem ver.
— Dagghhh ki noju! — penso.
Lhe
disse que eu comia bife com batatas fritas e ele faz igual expressão de
repugnância, como se fosse a pior ementa do mundo e arredores. Bife com molho do
Bar América, acrescento na esperança de lhe mudar a avaliação. A repugnância se
mantém. Lhe explico que também pode ser muamba com kiabos ou peixe calulu com funji… puré com frango de fricassé ou
bacalhau da Tuga grelhado do Restaurante
Vilela…
Me
indica que prato delicioso é mesmo, mosquito, besouro, gafanhoto, joaninha e
pequenas imbyámbya. Lhe prometo que
um dia lhe trago uma salada de frutas e ele vai gostar — mamão, papaia,
abacaxi, laranjéeee, maçã, uva… bananééé´… tudo misturado numa proporção igual
ou desigual, tanto faz. Uma mistura que encanta o gosto, o olhar e o olfato,
rematando refeições de churrasco ou outras, com nome de sobremesa.
Os
seus olhos reviram de novo tipo carrossel, mostrando enfado sobre minhas
sugestões e minhas tentativas de partilhar coisas boas e disse que só provaria
mesmo no dia em que já não houvesse mais mosquito no mundo. Perco a esperança!
Quer que eu prove besouro e aí eu desisto destes carinhos de trocar comidas.
Depois
das apresentações e primeiras demonstrações de afecto, passa para outra parede
pintada de verde, e aí me encanta e me apaixono mesmo!
—
Minino Kasimiru virou verde tambéim! Ki
banga, meu! Ki koisinhá lindá!!!
As
suas escamas verdejam e em vários tons conforme a incidência dos raios de Sol.
Ué,
como pode?
Ele
me mostra… passa para um telhado fica na cor da telha. Passa para a casa
amarela e fica amarelo.
Eu
fico louca, numa cor que não sei qual é. Não sei como ele consegue tal proeza,
parece umbanda da brava e também eu
quero virar uma criança de várias cores como o hongolo. Nunca tinha pensado nesse mambo, mas ele surge aqui na minha imaginação olhando o Kasimiro
mudando a cor, parecendo o arco-íris.
— Kasimiru meu kamba m’
insina a amarelá, à laranjá e azulá!!!!! Vá m’ insina. Keru ser umás mininà
multikolor kom’ às kaixa di aguarelas dás minhás mána.
Ele
tenta, acho até que sorri e brincamos por conta das cores numa pedagogia activa
e lúdica em pleno entardecer. Ele se esconde entre as folhas das mangueiras e
eu o perco, ele volta no tronco principal e eu o encontro e rio transformando-se num bom jogo colorido e divertido de
esconde-esconde, para eu aprender — ora amarelo, ora laranja, ora azul. Se
camufla, se mimeta, mas eu permaneço sempre vestida com os mesmos calções azuis
e camisola às riscas laranja sobre um corpo branquela. Desconsigo aprender.
Começo
a sonhar …
— … ah si a minhá
roupa mudasse di kor, ke nem u Kasimiru!!!!. Lhe vou sonhar nus dia e nás noiti!!!
Lhe
explico que sou uma menina mimada mas que gosto muito de brincar. Me confidencia
igual e que até é filho kasule como
eu. Conta que todos gostam dele e o protegem, pois acreditam que ele traz a
sorte consigo. Me fala até que é um animal sagrado e entra com frequência em
fábulas como personagem principal que nem actor de cinema. Me intimido e me fico
apenas pela menina mimada, não tenho muito mais a contar da minha singela e
curta história de vida, para além de que não gosto de peixe, tomo leite
condensado às colheres e ando muitas horas de patins incomodando vizinhos kotas, que se chateiam à toa.
Lhe
digo que adoro a forma da sua cauda, lhe falo de uma linha espiral, que me irá
inspirar muitos anos mais tarde, que todos irão querer perguntar porquê, e eu
nunca irei responder. Lhe informo que tenho um livro que ensina a sua construção
geométrica, com um compasso e que essa linha pode ter 2, 3 ou 4 centros. Me
obriga a jurar, admirado.
— Juro, mésmo, sangue
di Cristu! A tua kauda vem nu manual eskolar dos desenhus geométriku dos álunu
mais velhus!
— Komu sabes se ainda
usás os kabélus embrulhadus nás trança?
— Eu tenhu manas mais
velha, ke me deixam sonhar nus livros dela, dás geometria e imaginar formas ki
parecem nem existir, existindu.
Me
diz que para ele é fácil, não lhe sabe desenhar, nem precisa mesmo, nem com
passo, nem sem passo, precisa sim que a cauda seja poderosa, enrolada capaz de
agarrar e tomar aquela forma sem pensar muito. Lhe ajuda muito a subir e descer
rapidamente das árvores sem cair.
Lhe
quero fazer um carinho, me aproximo mais e passo a mão na sua cauda, me arrepio
toda, apesar que neste momento a sua cauda é quase rosa da cor igual à cor dos
meus laços das tranças. Responde com um muxoxo.
Ao toque rugoso e frio, meus olhos fazem o ângulo raso e quase se anulam na
estranha impressão reptilária. Disfarço a sensação, ruborizada para não o
magoar.
Lhe
convido a ir comigo para o meu cubico chamado
apartamento, lhe prometo convencer o pai e a mãe, juntar mosquito fresco para o
almoço e para o jantar e lhe transportar as imbambas.
Lhe prometo banho diário e perfume com água de colónia bien être, lhe levar a
ver as montras da loja Saratoga da Avenida Paiva Couceiro e lhe comprar muitas xuingas Gorila...
Pergunta-me
se tenho árvore para correr e saltar. Entristeço e digo que não, mas tenho
varanda pintada sempre com Sol, com vista para a baía mais bela do mundo e a
linha do horizonte, lá mesmo no final do olhar, sempre vigilante assegurando
que a terra é redonda como bola de futebol e que ninguém vai estragar isso.
—
Váranda num serve!
...
o meu belo sonho fragmenta-se em caquinhos. Mais um animal sem estimação por
mim e pelo sítio onde vivo.
Lhe
prometo desenhar a toda a hora, uma caixa forrada de algodão para lhe
adormecer, partilhar guloseimas, torrão, paracuca,
jinguba e xuinga para entreter, e mais isto, mais aquilo. Poderemos jogar
micado, abafa, toca e foge, elástico, lhe ensino a deslizar nos meus patins e a
fazer bolas de sabão... prometo lhe passear dentro do maximbombo para conhecer a cidade de Luanda, lhe levar ao Cinema
Miramar ver filmes de cow-boys com as
estrelas lá no alto olhando para nós, lhe mostrarei o Morro da Lua, a Barracuda
e, com sorte, o Mussúlo. Revela estranheza, me olha e me diz com carinho que
prefere o mangal, a fofura das folhas como colchão e os raios de Sol filtrados
de várias quenturas do nascer ao pôr-do-sol, com vista para o maior embondeiro
do Kikolo, que fica em frente do Sol
africano, em laranja, vermelho e carmim.
—
Vá lá Kasimiru, meu kamba t’ensinu a
ver um mundu muitu pikininu, ke nunca lhi viste, através dumas mákina chamada
mikroskópiu… ti mostru um parakedas, um livro de kuadradinhos, um submarinu e us
segredus du mar ki deskonsegues konhecér. Ok, ti mostru a magia du kalendoskópiu.
Me
lê a tristeza nos meus olhinhos puxados de ângulo raso de água e me deita de
novo a sua comprida língua de fora, desta vez se colando peganhosamente ao meu
braço, tipo carinho e diz que me espera sempre no mangal ou na parede azul da
casa vizinha. Diz que me deixará tirar retrato sempre que eu quiser, talvez até
me ensine a mudar de cor, quando eu já souber melhor as leis da física. Lhe
pergunto se poderemos brincar também dentro da velha carrinha abandonada junto
ao embonda, eu metendo mudanças e
rodando o volante, fingindo acelerar e ele no meu ombro indicando caminhos de
imaginação por entre as frondosas mangueiras orientado pelo seu mapa
camaleónico
Me
diz que sim.
—
Ah ki bom!
Me
pergunta o nome e combinamos os sábados seguintes de todas as semanas, que se
transformam num romance de amigos inseparáveis, vivendo aventuras, e descobrindo
afectos, no meio de sorrisos e gargalhadas. Nos meses seguintes fazemos
quilómetros e quilómetros em velocidades vertiginosas através do mangal, dentro
da carrinha abandonada e sem pneus, que ora é floresta, ora são kimbos, ora é cidade, ora é mar de
piratas, ora é deserto, encontramos Tarzan, Tintim, Zorro, Obelix, Mogli,
Capitão Gancho, Tic-Tac e outros heróis… lhe ensino a assobiar, lhe ensino
geografia, lhe segredo ao ouvido histórias de encantar na minha voz esganiçada,
sobre príncipes e princesas que beijam sapos, sobre gigantes e kambutas e garanto que ele me sorri.
Sorri mesmo!
Eu
continuo sorrindo.
Beijinho
Kasimiru.
O território angolano possui uma fauna muito diversificada, com quase todos os exemplares da fauna selvagem
africana. O leão, a pacaça, o elefante e a palanca negra são os mais
emblemáticos deste território. As guerras coloniais e civis prejudicaram os
seus habitats, reduzindo certas
populações, nomeadamente os elefantes.
22 junho, 2023
07 fevereiro, 2021
O SILÊNCIO DO KISANJI - análise parte II
O Livro
Objecto de culto. Como tal tem toque, tem peso, tem imagem e tem cheiro.
Companhia é outras das suas funções. Não existe solidão quando há um livro por perto.
O Silêncio do Kisanji é um objecto muito bonito, talvez dos mais bonitos que já tenha manuseado.
Capa e contracapa com uma estética irrepreensível, carregadas de detalhes plenos de informação e conteúdo. Cores africanas num sóbrio pano que embrulhando o livro, sobre ele são impressas, em lettering de fontes bem escolhidas, as informações habituais, nome do autor e título da obra. Destaco a preocupação do deixar a bainha com a impressão da origem do pano, o que, para além de autenticar a sua origem, nos indica que tudo foi pensado ao mais ínfimo pormenor.
Discretamente, a autora deixa a marca do seu país de origem,
homenageando-o com as cores da sua bandeira, sendo também, mais uma prova inequívoca
da latitude do tema.
Finalizo com a apreciação do interior da contracapa. Discretamente, porque este objecto prima pela discrição, daí a sua elegância estética, o final mostra-nos que os personagens são reais e, estando atentos, também por aqui temos estórias para ver.
O Silêncio do Kisanji, obriga-nos a uma leitura atenta, desde a capa até à contracapa.
O Título
Em terra de ritmos e de múltiplos sons, mas também dos
silêncios que a grande dimensão proporciona, fácil seria escolher um qualquer
instrumento entre muitos daqueles que todos se lembrariam à primeira.
Contrariamente, fugindo à banalidade óbvia de um batuque, a escolha recaiu
sobre o kisanj, instrumento de origem angolana. Mais uma mensagem implícita a
qual se vai percebendo ao longo do percurso da leitura.
03 fevereiro, 2021
O SILÊNCIO DO KISANJI - análise - parte 1
Questiono-me sobre a legitimidade da minha apreciação, sendo eu um dos personagens implícitos, inclusive fazendo parte do rol de anónimos a quem a autora também dedica o livro, hesitei.
A apresentação gráfica facilita a leitura não faltando apontamentos, em rodapé. de informação histórica que enquadram a narrativa no tempo e, em simultâneo, ajudam a entender a sequência do texto.
Uma nota especial para os salpicos de poesia com os quais
Anabela Quelhas, em nome próprio ou sob pseudónimo, vai entrecortando a prosa.
João Pedro
Fonseca
16 dezembro, 2020
O SILÊNCIO DO KISANJI
2º livro de uma trilogia que aborda a cidade de Luanda na fase final do colonialismo. Uma análise dos musseques, da vida cosmopolita, dos cinemas, da arquitectura e de lugares comuns vividos por uma adolescente com perspectiva crítica. Aqui estão as referências locais e as referências globais dos anos 60 e 70.
26 novembro, 2019
Sessão de apresentação - pp
No final da apresentação passou um power point com imagens que ilustram o conteúdo da obra.
Pode consultar no E- Book.
https://issuu.com/culturalmente/docs/apresenta__o_silencio_kisanji_ebook
Cheias de Lisboa
No início da noite, começa a chover.
A chuva vira mau tempo, temporal,
dilúvio.
Temos dificuldade em arranjar um
táxi que nos transporte da Avenida Almirante Reis até o aeroporto. Vamos para o
aeroporto debaixo de chuva intensa, o simpático casal acompanha-nos. Vejo
através dos vidros, que a chuva cai como num duche descontrolado, impedindo o
acesso a algumas ruas que irão aceder mais directamente ao aeroporto. Não me
deixam abrir os vidros, nem pôr os braços de fora, como é meu hábito. Temos de
fazer um transbordo, porque o taxista quer voltar para trás preocupado com a
sua família, que vive em sítio que se vai inundar certamente, e decide,
transferir-nos para um segundo táxi e regressar, transportando o casal amigo e
depois ir à vida dele, em socorro da família. Chegamos ao aeroporto e
encontramo-nos com o Agostinho, que estuda em Lisboa no Instituto Superior Técnico,
para se despedir de nós. Informa alguma coisa sobre o temporal que se abate
sobre Lisboa e a dificuldade em circular em certas ruas. O Agostinho, meu quase
irmão, e pessoa por quem nutro um carinho desmedido, presenteia-me com um
espesso livro de BD do Pernalonga,
para encurtar a noite que tenho pela frente. Adoro. Fazemos os três, uma
refeição ligeira no bar do aeroporto e, finalmente, perto da meia-noite chega a
hora de embarcar.
Já se iniciou o processo de
especulação do solo urbano na capital do Portugal imenso, já há patos-bravos a alterar o mapa
hidrográfico da textura urbana. Recordo os anúncios na televisão sobre o empresário
J. Pimenta “Pois, pois, Jota Pimenta” e as suas torres na Reboleira que marcam
esta época do início do desordenamento urbano e respectiva especulação
imobiliária de Lisboa e áreas satélites. A alteração dos cursos hidrográficos
permanentes e, ou cíclicos evidencia que a natureza não se deixa enganar, nem se
ilude com tretas e promessas de progresso. Há, e continuará a haver, vários
Jotas Pimenta, este, provavelmente, é mais inofensivo do que todos os outros
que se seguirão.
A chuva cai e não encontra os seus
cursos de escoamento naturais, provocando inundações inimagináveis na noite de
25 para 26 de novembro de 1967.
Chove mais e mais, sem parar. Parece
que quem vive lá em cima, se desgovernou, abriu um grande buraco no céu e agora
não sabe como o vedar. Tapar com o dedo não dá, mesmo sendo um dedo do Todo O Poderoso.






















