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20 maio, 2026

O silêncio do kisanji na Rádio Portimão

 


Hoje fui surpreendida por João Carlos Carranca no seu programa Karranca às Quartas. Palavras sobre o silêncio, afectuosas que gostei de ouvir. Grata à Rádio Portimão que me proporciona estas viagens semanais.
Livro "O silêncio do kisanji" - edição de autor.♥

10 junho, 2024

faz 50 anos

 FAZ 50 ANOS


De crisálida a borboleta

 

              Há vinte e quatro horas, eu era uma adolescente alegre, despreocupada, feliz e hoje transformo-me numa mulher. Despi a adolescência em Luanda, pouco antes de entrar no Aeroporto Craveiro Lopes, com destino a Lisboa, já sem esperança de regresso breve. Abandono essa fase de transição da vida e adquiro competências rápidas para aceder à maturidade social.

              Entro na idade adulta, tal como uma crisálida que se transforma em borboleta, da noite para o dia, encurtando preguiças, dúvidas juvenis, inseguranças, rebeldias e acelerando a autonomia, a tentativa de um maior discernimento e responsabilidade da maturidade.

              É nesse estado do meu desenvolvimento holístico que entro no avião, desconhecendo onde me levará esta metamorfose activa que levo comigo.

              Tento resistir ao choro. Não entendo esta retirada precipitada, desconheço razões que justifiquem a determinação do pai em sair e não voltar a Luanda, após as férias. Despedi-me da minha cidade, contrariada, receando nunca mais ver os meus amigos. Nasci e vivi em Luanda os últimos anos. Sete anos, os melhores anos da minha vida, com o desabrochar da minha personalidade, da minha rebeldia, o desenho das minhas convicções e valores, numa cidade encantada, cheia de contradições e de assimetrias, mas motivadora, exuberante, apostada em crescer e em desenvolver o potencial de um território.

              Após a ceia servida a bordo, já passa da meia-noite, os pais tentam dormir. Fingimos dormir. De olhos fechados, penso em tudo que se passou nestas últimas vinte quatro horas e a despedida inesperada da cidade de Luanda, determinada pelo pai, mês e meio após a Revolução dos Cravos[1]. Luanda parecia serena e tranquila, reinava a paz em todas as ruas, porém, o pai considerou que retirar a família para a Metrópole, agora, é a decisão mais sensata e assertiva.              

              Fingimos dormir. Sim, fingimos. Como alguém poderá dormir vivendo este trambolhão impensado? Ao contrário das outras viagens de avião, não me interessa em que lugares viajamos, se vou ou não à janela, nem presto atenção a ninguém. Faço um balanço da minha vida e das inseguranças que me invadem nestas últimas horas, de olhos fechados tento controlar a minha respiração, tornando-a aparentemente regular, cadenciada e serena. Sinto que parte da minha vida foi amputada sem eu perceber as razões, e esta ferida marcar-me-á para a vida. Não me matará, mas irá moer-me toda a vida sem escolher hora ou local.

              Não consigo projectar-me no futuro, prever o que acontecerá em Setembro, quando se iniciar um novo ano lectivo, e como me irei organizar. A caminho do aeroporto, o meu pai deu indicações precisas à minha irmã que ficou em Luanda, para ir ao liceu, obter o meu certificado de habilitações do 6º ano / 1º ano do Curso Complementar e enviar com urgência para a Metrópole.

              Vou dormitando por cansaço, encostada ao braço do pai, ou melhor dizendo, o sono tropeça em mim ao longo da noite. A minha cabeça parece um labirinto de ideias e situações que me empurram para este amadurecimento repentino e prematuro, que se traduz anatomicamente, num brutal nó na garganta. Apesar de contrariada, ainda no interior do avião, decido não pressionar os pais com o regresso a Luanda. Esta mudança repentina na nossa vida, deve ser ainda mais penosa e complexa para eles, que já têm cinquenta anos e grandes responsabilidades. Aguardarei serenamente, tentarei não criar conflitos, fingirei até algum entusiasmo para que não se preocupem comigo. Terei de aprender a digerir tudo sozinha. Serei uma óptima aluna para fazer o meu curso rapidamente, se o pai conseguir suportar as despesas, confio que sim.

              Chegamos a Lisboa, sem grandes conversas, uma viagem inundada por mutismo e pessimismo. Esta viagem não se reveste de alegria nem de entusiasmo, como todas as anteriores, em que eu exteriorizava por excesso, a minha adolescência divertida e irónica. A minha metamorfose despe-se de amigos e conhecidos, recheando-me de um grande vazio existencial e revolta, sem saber o que será o meu futuro e o da minha família e o que faço ao passado. Parece-me que dispo uma túnica leve e fresca e visto uma camisa-de-forças, contendo-me, apertando-me e sufocando-me. Não me foi dado poder de decidir sobre ficar ou partir, porque apenas tenho dezasseis anos e não sou autónoma.

              Em Lisboa, não vejo militares nas ruas, nem cravos nas mãos das pessoas, como eu imaginava, vejo cerejas, lá estão elas na rua a vender, tudo parece normal, com mais animação transpirada em frases escritas em paredes, apelando à Revolução de Abril. O entusiasmo de algumas pessoas contrasta com o nosso constrangimento, a nossa contenção, os nossos sucessivos nós na garganta. Os táxis continuam a cheirar a combustível, a estofo mal lavado e o rosário continua pendurado no espelho retrovisor, a oscilar a cruz durante a viagem. Lisboa continua movimentada e parece-me iluminada já pela luz do Verão. Oiço uma carrinha com um megafone a percorrer as ruas perto do aeroporto, emitindo uma canção que apela à revolução e anuncia um comício.

              Tomamos a rota da aldeia transmontana onde os pais nasceram, onde estão as origens da nossa família e onde conservam uma casa adquirida pelos pais no pós-guerra. Vivi nessa aldeia alguns anos da minha infância e nas férias dos últimos quatro anos.[2] Este ano não é igual, não sinto ansiedade, nem alegria, ao pensar no reencontro familiar. Sinto peso na alma, como se carregasse um fardo de toneladas de saudades, que já se manifestam, recentes e densas e que me asseguram tristezas futuras, amanheceres apáticos e entardeceres melancólicos.

              Passamos por Coimbra para ver a minha irmã mais velha que estuda História, na Universidade. Coimbra mantém o seu ambiente estudantil.

              “Nem mais um soldado para a Guiné”, vejo escrito junto às Escadas Monumentais. Dirigimo-nos para a Rua da Matemática, junto à Real República dos Corsários das Ilhas. Agora é diferente das outras vezes. Os meus pais expressam cansaço e desânimo, apesar da alegria do reencontro com a minha irmã. Não conversamos sobre ontem, sobre a despedida nocturna da cidade de Luanda. Esta é uma cumplicidade silenciosa que guardaremos para sempre no interior do nosso coração. Falamos do crescimento da minha sobrinha pequenina, que ficou em Luanda, sobre as suas primeiras palavras e as suas travessuras. Falar sobre uma criança sempre dá cor aos diálogos, pacifica a nossa mágoa e imprime alguma esperança no futuro.

 

 

.10 de Junho de 1974 - a revolução aconteceu há menos de dois meses e está viva na memória de todos. As cerimónias fascistas realizadas no Dia da Raça, em anos anteriores, para exaltar o Portugal do Império Colonial, fizeram, este ano, uma pausa para ajustar reflexões e procedimentos, coordenados com a revolução e com o Portugal democrático.



[1] O silêncio do kisanji, segundo livro desta trilogia.

[2] O fato que nunca vestimos, o primeiro livro da trilogia.


In "De cereja em cereja beijo o verão" de Anabela Quelhas

02 abril, 2024

Um dia me apaixono

EM DIA DO LIVRO INFANTIL PARTILHO UM CAPITULO DO MEU LIVRO "O SILÊNCIO DO KISANJI" 

Um dia me apaixono

(escrito em lusumbundu)

 

              Me apaixono por um camaleão, estonteadamente.

              Não é um ndenge, é um kiama, camaleão de verdade.

              Me apaixono na exacta proporcionalidade indirecta da minha tenra idade de uso de saia brinca-n’areia e sandálias de plástico.

              Ele não se apresenta, sobe logo na parede como se fosse tudo dele e num bem-estar sem cerimónias, pára olhando para mim, virando aqueles olhos 360 e muitos mais graus, de ângulos giros, como quem questiona:

— Xê!!! Kem é esta meia tolá, de ares espantadu e kom us koração a batê juntu dás boká?

              Se aquieta cinzento, tal como a cor da parede onde estaciona. Me mostra sua cauda espiralada desenhada com mão e inteligência de mestre renascentista, daqueles que desenham quase tão bem como a mãe natureza

              Camaleão vaidoso não faz por menos!

              Me aproximo cautelosamente e me rendo àquela forma geométrica, com principio e sem fim, que mais tarde uns e outros copiarão e chamar-lhe-ão de espiral recessiva, para explicar fracassos económico-financeiros, nem sei de que país e não sei mais o quê.

              Olho de um e de outro lado e ele se deixando estar, se aquecendo ao Sol tórrido, que faz hoje, igualmente como os outros dias do ano, deliciado com as minhas carícias de olhar de kandenge surpreendida.

              Tenho olhinhos puxados, e ele parece gostar desta visão meio oriental, mesmo no centro da África, passando ao longo do seu corpo como se fosse uma carícia.

— Komo te xamas meu kamba? — pergunto docemente, mascando xuinga.

— Me xamu de kamaleão. Dizem, eu num sei bem, más akreditu nus mwadyés ke têm livrus dus kiama! – responde.

— Ué, todu u mundu sabe seu nome! tu num sabe bem?! Tás xoné! — riposto. — Perante a incerteza, ti chamo Kasimiru!

— Ué tás máluuuKa, num sei bem, mas é de certeza, kum certeza!

— Qual é a maka? Te chamu memo Kasimiru! sempre tive gostu nu chamar e num vou eskutá às tuas rekramações e justifikativas de kem num ker ser xamadu de Kasimiru. És bunitu e deves ser

Kasimiru! Nome ke te faz banga, meu! Kasimiru, é nome lindu prá kiama de kauda enrolada prá dentru, komu tu.

              Lhe posso chamar coisinha, coisinha fofa, mas acho desajustado para um réptil de escama regular, sangue frio e tudo no lugar.

              Lhe pergunto sobre a sua família e me diz:

— Tudu lagartus tal kal eu! Uns vive áki n’ Angola, nus desertu também pode ser, alguns também nás Península Ibérika, lá nás Europa. Eu vivu nu mangal du Kikolu dá Luá. U melhor sítiu dus mundu prá murar. Aki mésmu.

              Conta-me de sua família erudita e muito antiga. Já há mais de 100 milhões de anos ele tinha avós e bisas. Meus olhos achinesam ainda mais e minha franjola voa com meu suspiro de admiração. Tantos anos de tempo, com zeros até ao infinito!

— Que númeru tão graaaande!!! Tantos zeru! Tás a mangar de mim, né? Tem jakaré nás tua fámília? Cumo esses Lacoste dás kamisas dos mwadyés?

— Tem sim, mas é parente afastadu, ke só vive nus rius, não há nenhum áki pertu — primu dus tiu dás irmã dus kunhadu, tás a vér? Nunká terás u desprazer de ver pur áki, nem eu propriamente keru vê. Fama de mau si pega e eu sou muitu du beim.

 — E pangolim tem? Desenhei um na iskola, já mortu, mas parecendo vivu num embalsamentu feitu prá aula dás ciência. Um mortu vivu ke nem sei purkê, prá guardá em prateleirá dentru dus armáriu ke cheira a formol.

— Iso és pérfume?

— Sim, pérfume dus maus, ke não é beim. Perfume dus mortu ke pareci vivu.

— Deskonsigu conhecér, mas eu num sei de toda a árvore genealógika dás miá fámíliá e dus seus mambo,… mas tu inventas demáis… mortu ke párece vivu? perfume ke num é bem. Nunká vi nãum, kuando estáis vivu, estáis vivu, kuando morres, estáis mortu. Ná miáa famíliá é ásim mému, num tem párece ke num é.   

              Lhe conto da minha família e que lhe desconheço a antiguidade, mas acho ser a melhor do mundo: meu pai, minha mãe, minhas manas e meu cão Fiel já falecido… que eu vivo num cubico alto, no centro da Luanda do asfalto e visito o mangal ao sábado de tarde, pra abastecer a fruteira lá do meu cubico.

              Kasimiro desconhece os lares dos humanos, mas sabe tudo acerca de árvores e daquele mangal que me presenteia com as mangas mais gostosas do mundo, fibrosas, doces e com sabor a resina como toda a manga deve saber, deixando sempre vontade de repetir. Me conta sobre a mulemba, a jaqueira e o velho embonda do Kikolo, com mais de mil anos.

              Me deita a língua pra fora e na hora acho má educação. Deita de novo e vejo que tem uma língua dupla, dois em um.

— Kumé Ki é? Mémo! Juro! Xê, m’irmão ke línguas rápida nás horas!!! Mal sai dás boká já se enrola nus regressu e recheada com muskitu, feitu duas língua?!

              Afinal a sua língua apanha insectos. Me explica e demostra cheio de destreza, tal qual aula de ciências da natureza lá na escola. Imagino num replay de câmara lenta como fazem no cinema de acção, permitindo ao olhar, ver aquilo que os olhos não conseguem ver.

— Dagghhh ki noju! penso.

              Lhe disse que eu comia bife com batatas fritas e ele faz igual expressão de repugnância, como se fosse a pior ementa do mundo e arredores. Bife com molho do Bar América, acrescento na esperança de lhe mudar a avaliação. A repugnância se mantém. Lhe explico que também pode ser muamba com kiabos ou peixe calulu com funji… puré com frango de fricassé ou bacalhau da Tuga grelhado do Restaurante Vilela…

              Me indica que prato delicioso é mesmo, mosquito, besouro, gafanhoto, joaninha e pequenas imbyámbya. Lhe prometo que um dia lhe trago uma salada de frutas e ele vai gostar — mamão, papaia, abacaxi, laranjéeee, maçã, uva… bananééé´… tudo misturado numa proporção igual ou desigual, tanto faz. Uma mistura que encanta o gosto, o olhar e o olfato, rematando refeições de churrasco ou outras, com nome de sobremesa.

              Os seus olhos reviram de novo tipo carrossel, mostrando enfado sobre minhas sugestões e minhas tentativas de partilhar coisas boas e disse que só provaria mesmo no dia em que já não houvesse mais mosquito no mundo. Perco a esperança! Quer que eu prove besouro e aí eu desisto destes carinhos de trocar comidas. 

              Depois das apresentações e primeiras demonstrações de afecto, passa para outra parede pintada de verde, e aí me encanta e me apaixono mesmo!

              — Minino Kasimiru virou verde tambéim! Ki banga, meu! Ki koisinhá lindá!!!

              As suas escamas verdejam e em vários tons conforme a incidência dos raios de Sol.

              Ué, como pode?

              Ele me mostra… passa para um telhado fica na cor da telha. Passa para a casa amarela e fica amarelo.

              Eu fico louca, numa cor que não sei qual é. Não sei como ele consegue tal proeza, parece umbanda da brava e também eu quero virar uma criança de várias cores como o hongolo. Nunca tinha pensado nesse mambo, mas ele surge aqui na minha imaginação olhando o Kasimiro mudando a cor, parecendo o arco-íris.

— Kasimiru meu kamba m’ insina a amarelá, à laranjá e azulá!!!!! Vá m’ insina. Keru ser umás mininà multikolor kom’ às kaixa di aguarelas dás minhás mána.

              Ele tenta, acho até que sorri e brincamos por conta das cores numa pedagogia activa e lúdica em pleno entardecer. Ele se esconde entre as folhas das mangueiras e eu o perco, ele volta no tronco principal e eu o encontro e rio transformando-se num bom jogo colorido e divertido de esconde-esconde, para eu aprender — ora amarelo, ora laranja, ora azul. Se camufla, se mimeta, mas eu permaneço sempre vestida com os mesmos calções azuis e camisola às riscas laranja sobre um corpo branquela. Desconsigo aprender.

              Começo a sonhar …

— … ah si a minhá roupa mudasse di kor, ke nem u Kasimiru!!!!. Lhe vou sonhar nus dia e nás noiti!!!

              Lhe explico que sou uma menina mimada mas que gosto muito de brincar. Me confidencia igual e que até é filho kasule como eu. Conta que todos gostam dele e o protegem, pois acreditam que ele traz a sorte consigo. Me fala até que é um animal sagrado e entra com frequência em fábulas como personagem principal que nem actor de cinema. Me intimido e me fico apenas pela menina mimada, não tenho muito mais a contar da minha singela e curta história de vida, para além de que não gosto de peixe, tomo leite condensado às colheres e ando muitas horas de patins incomodando vizinhos kotas, que se chateiam à toa.

              Lhe digo que adoro a forma da sua cauda, lhe falo de uma linha espiral, que me irá inspirar muitos anos mais tarde, que todos irão querer perguntar porquê, e eu nunca irei responder. Lhe informo que tenho um livro que ensina a sua construção geométrica, com um compasso e que essa linha pode ter 2, 3 ou 4 centros. Me obriga a jurar, admirado.

— Juro, mésmo, sangue di Cristu! A tua kauda vem nu manual eskolar dos desenhus geométriku dos álunu mais velhus!

— Komu sabes se ainda usás os kabélus embrulhadus nás trança?

— Eu tenhu manas mais velha, ke me deixam sonhar nus livros dela, dás geometria e imaginar formas ki parecem nem existir, existindu.

              Me diz que para ele é fácil, não lhe sabe desenhar, nem precisa mesmo, nem com passo, nem sem passo, precisa sim que a cauda seja poderosa, enrolada capaz de agarrar e tomar aquela forma sem pensar muito. Lhe ajuda muito a subir e descer rapidamente das árvores sem cair.

              Lhe quero fazer um carinho, me aproximo mais e passo a mão na sua cauda, me arrepio toda, apesar que neste momento a sua cauda é quase rosa da cor igual à cor dos meus laços das tranças. Responde com um muxoxo. Ao toque rugoso e frio, meus olhos fazem o ângulo raso e quase se anulam na estranha impressão reptilária. Disfarço a sensação, ruborizada para não o magoar.

              Lhe convido a ir comigo para o meu cubico chamado apartamento, lhe prometo convencer o pai e a mãe, juntar mosquito fresco para o almoço e para o jantar e lhe transportar as imbambas. Lhe prometo banho diário e perfume com água de colónia bien être, lhe levar a ver as montras da loja Saratoga da Avenida Paiva Couceiro e lhe comprar muitas xuingas Gorila...

              Pergunta-me se tenho árvore para correr e saltar. Entristeço e digo que não, mas tenho varanda pintada sempre com Sol, com vista para a baía mais bela do mundo e a linha do horizonte, lá mesmo no final do olhar, sempre vigilante assegurando que a terra é redonda como bola de futebol e que ninguém vai estragar isso.

              — Váranda num serve!

              ... o meu belo sonho fragmenta-se em caquinhos. Mais um animal sem estimação por mim e pelo sítio onde vivo.

              Lhe prometo desenhar a toda a hora, uma caixa forrada de algodão para lhe adormecer, partilhar guloseimas, torrão, paracuca, jinguba e xuinga para entreter, e mais isto, mais aquilo. Poderemos jogar micado, abafa, toca e foge, elástico, lhe ensino a deslizar nos meus patins e a fazer bolas de sabão... prometo lhe passear dentro do maximbombo para conhecer a cidade de Luanda, lhe levar ao Cinema Miramar ver filmes de cow-boys com as estrelas lá no alto olhando para nós, lhe mostrarei o Morro da Lua, a Barracuda e, com sorte, o Mussúlo. Revela estranheza, me olha e me diz com carinho que prefere o mangal, a fofura das folhas como colchão e os raios de Sol filtrados de várias quenturas do nascer ao pôr-do-sol, com vista para o maior embondeiro do Kikolo, que fica em frente do Sol africano, em laranja, vermelho e carmim.

              — Vá lá Kasimiru, meu kamba t’ensinu a ver um mundu muitu pikininu, ke nunca lhi viste, através dumas mákina chamada mikroskópiu… ti mostru um parakedas, um livro de kuadradinhos, um submarinu e us segredus du mar ki deskonsegues konhecér. Ok, ti mostru a magia du kalendoskópiu.

              Me lê a tristeza nos meus olhinhos puxados de ângulo raso de água e me deita de novo a sua comprida língua de fora, desta vez se colando peganhosamente ao meu braço, tipo carinho e diz que me espera sempre no mangal ou na parede azul da casa vizinha. Diz que me deixará tirar retrato sempre que eu quiser, talvez até me ensine a mudar de cor, quando eu já souber melhor as leis da física. Lhe pergunto se poderemos brincar também dentro da velha carrinha abandonada junto ao embonda, eu metendo mudanças e rodando o volante, fingindo acelerar e ele no meu ombro indicando caminhos de imaginação por entre as frondosas mangueiras orientado pelo seu mapa camaleónico

              Me diz que sim.

              — Ah ki bom!

              Me pergunta o nome e combinamos os sábados seguintes de todas as semanas, que se transformam num romance de amigos inseparáveis, vivendo aventuras, e descobrindo afectos, no meio de sorrisos e gargalhadas. Nos meses seguintes fazemos quilómetros e quilómetros em velocidades vertiginosas através do mangal, dentro da carrinha abandonada e sem pneus, que ora é floresta, ora são kimbos, ora é cidade, ora é mar de piratas, ora é deserto, encontramos Tarzan, Tintim, Zorro, Obelix, Mogli, Capitão Gancho, Tic-Tac e outros heróis… lhe ensino a assobiar, lhe ensino geografia, lhe segredo ao ouvido histórias de encantar na minha voz esganiçada, sobre príncipes e princesas que beijam sapos, sobre gigantes e kambutas e garanto que ele me sorri. Sorri mesmo!          

              Eu continuo sorrindo.

              Beijinho Kasimiru.

O território angolano possui uma fauna muito diversificada, com quase todos os exemplares da fauna selvagem africana. O leão, a pacaça, o elefante e a palanca negra são os mais emblemáticos deste território. As guerras coloniais e civis prejudicaram os seus habitats, reduzindo certas populações, nomeadamente os elefantes. 




 

07 fevereiro, 2021

O SILÊNCIO DO KISANJI - análise parte II

 


O Livro 

Objecto de culto. Como tal tem toque, tem peso, tem imagem e tem cheiro. 

Companhia é outras das suas funções. Não existe solidão quando há um livro por perto.

O Silêncio do Kisanji é um objecto muito bonito, talvez dos mais bonitos que já tenha manuseado. 

Capa e contracapa com uma estética irrepreensível, carregadas de detalhes plenos de informação e conteúdo. Cores africanas num sóbrio pano que embrulhando o livro,  sobre ele são impressas, em lettering de fontes bem escolhidas, as informações habituais, nome do autor e título da obra. Destaco a preocupação do deixar a bainha com a impressão da origem do pano, o que, para além de autenticar a sua origem, nos indica que tudo foi pensado ao mais ínfimo pormenor. 

Discretamente, a autora deixa a marca do seu país de origem, homenageando-o com as cores da sua bandeira, sendo também, mais uma prova inequívoca da latitude do tema.

 Por último a escolha dos materiais que, sendo agradáveis ao toque e de muito boa qualidade, aumentam o prazer de quem gosta de manusear um livro.

 Interior da capa de muito bom gosto. Sobre um fundo negro, a autora espreita-nos com um sorriso de Boas-vindas e, num resumo biográfico, dá-nos de forma implícita, a informação do conteúdo do livro. Temos de o ler para percebermos que a sua escrita está intrinsecamente ligada ao seu percurso de vida. 

Finalizo com a apreciação do interior da contracapa. Discretamente, porque este objecto prima pela discrição, daí a sua elegância estética, o final mostra-nos que os personagens são reais e, estando atentos, também por aqui temos estórias para ver. 

O Silêncio do Kisanji, obriga-nos a uma leitura atenta, desde a capa até à contracapa. 

O Título 

Em terra de ritmos e de múltiplos sons, mas também dos silêncios que a grande dimensão proporciona, fácil seria escolher um qualquer instrumento entre muitos daqueles que todos se lembrariam à primeira. Contrariamente, fugindo à banalidade óbvia de um batuque, a escolha recaiu sobre o kisanj, instrumento de origem angolana. Mais uma mensagem implícita a qual se vai percebendo ao longo do percurso da leitura.


03 fevereiro, 2021

O SILÊNCIO DO KISANJI - análise - parte 1

 


Questiono-me sobre a legitimidade da minha apreciação, sendo eu um dos personagens implícitos, inclusive fazendo parte do rol de anónimos a quem a autora também dedica o livro, hesitei.

 Contudo, a honestidade da narrativa, obriga-me ao distanciamento do meu personagem, colocando-me na posição de leitor anónimo e descomprometido. Acto dificílimo, tratando-se de Luanda, cidade lar e terra onde pertenço.

A apresentação gráfica facilita a leitura não faltando apontamentos, em rodapé. de informação histórica que enquadram a narrativa no tempo e, em simultâneo, ajudam a entender a sequência do texto.

Uma nota especial para os salpicos de poesia com os quais Anabela Quelhas, em nome próprio ou sob pseudónimo, vai entrecortando a prosa.

 Estamos perante uma estória de amor e, profundo. Amor pela terra onde nasceu, de onde saiu e a ela em menina, regressou para de lá ser “tirada” contra vontade, já quase mulher.

 Com o som de um Kisanji como música de fundo, a estória vai sendo contada, sempre na primeira pessoa, recorrendo muitas vezes à linguagem que então se usava, sobretudo entre a juventude, que sendo uma estória de amor, recusa, no entanto, a banalidade dos enredos e detalhes, técnicas pobres de escrita a que alguns recorrem para prender o leitor. Não obstante, é difícil não a lermos de seguida até ao fim.

 Sem complexos nem estigmas, a criança que cresce e desperta para o mundo que a rodeia, questionando-o, conta a vida e as estórias da cidade, através das suas vivências, nunca perdendo a noção que a sua cidade não era igual à de todos e que nas outras cidades ali ao lado da sua janela, os sonhos eram outros e as vidas muito mais difíceis.

 Os personagens sucedem-se ao ritmo do crescimento e com eles vêm os locais e os viveres de uma geração, a última da época colonial, a lá ter nascido.

 A escritora, usa os olhos da menina que se fez jovem, para contar a cidade, recorrendo~se da mulher arquitecta. Aprendemos com ela, ao confrontarmos as memórias que guardámos, com as interpretações e leituras da mulher, arquitecta e escritora.

 Sem parar a narrativa de uma vida, vai-nos lembrando que havia guerra e que jovens portugueses eram forçados a ir para lá combater outros jovens, que apenas queriam o país que lhes pertencia.

 ” Há algo que paira no ar, que todos respiramos, um pulsar de uma terra inebriante, que gera entusiasmos, sonhos, vontade de vencer e nos injecta diariamente uma dose elevada de otimismo e adrenalina.”

 Eis a frase que brilhantemente descreve o sentimento inocente de toda uma sociedade “branca” que fervilhava naquela cidade, no decorrer dos anos 60 e 70. O sonho de um futuro.

 A história dos homens leva ao final da narrativa da estória de vida da menina que cresceu e chegou a adolescente, sempre a questionar.

 Ao terminar a autora não se esquece dos dramas vividos por muitos, tantos, que foram quase todos os que de um dia para o outro tiveram ou decidiram largar uma vida, deixando os sonhos do futuro nas casas fechadas, nas fábricas e fazendas abandonadas, nas viaturas estacionadas à porta de uma lar e de uma vida onde jamais voltariam.

 “A noite está calma, já há pouco movimento na rua. Cada um pega na sua mala, lança um olhar pelo espaço que nos acolheu vários anos, com móveis e os quadros no seu lugar, como se fossemos apenas de férias – tudo arrumado, toalhas limpas nos toalheiros, frigorífico ligado, filtro de água, persianas corridas para evitar o Sol, tapetes no chão a testemunhar a nossa despedida.”

 Por questionar em pequena a mulher adulta entende o passado e respeita presente. Percebe-se ao longo da narrativa que, como tantos outros, Anabela Quelhas nunca de lá saiu.

 3 de Fevereiro de 2021

João Pedro Fonseca


16 dezembro, 2020

O SILÊNCIO DO KISANJI





 2º livro de uma trilogia que aborda a cidade de Luanda na fase final do colonialismo. Uma análise dos musseques, da vida cosmopolita, dos cinemas, da arquitectura e de lugares comuns vividos por uma adolescente com perspectiva crítica. Aqui estão as referências locais e as referências globais dos anos 60 e 70.

Envio à cobrança ou pagamento MBway.

26 novembro, 2019

Sessão de apresentação - pp


No final da apresentação passou um power point com imagens que ilustram o conteúdo da obra.
Pode consultar no E- Book.
https://issuu.com/culturalmente/docs/apresenta__o_silencio_kisanji_ebook

Cheias de Lisboa

 No início da noite, começa a chover.

              A chuva vira mau tempo, temporal, dilúvio.

              Temos dificuldade em arranjar um táxi que nos transporte da Avenida Almirante Reis até o aeroporto. Vamos para o aeroporto debaixo de chuva intensa, o simpático casal acompanha-nos. Vejo através dos vidros, que a chuva cai como num duche descontrolado, impedindo o acesso a algumas ruas que irão aceder mais directamente ao aeroporto. Não me deixam abrir os vidros, nem pôr os braços de fora, como é meu hábito. Temos de fazer um transbordo, porque o taxista quer voltar para trás preocupado com a sua família, que vive em sítio que se vai inundar certamente, e decide, transferir-nos para um segundo táxi e regressar, transportando o casal amigo e depois ir à vida dele, em socorro da família. Chegamos ao aeroporto e encontramo-nos com o Agostinho, que estuda em Lisboa no Instituto Superior Técnico, para se despedir de nós. Informa alguma coisa sobre o temporal que se abate sobre Lisboa e a dificuldade em circular em certas ruas. O Agostinho, meu quase irmão, e pessoa por quem nutro um carinho desmedido, presenteia-me com um espesso livro de BD do Pernalonga, para encurtar a noite que tenho pela frente. Adoro. Fazemos os três, uma refeição ligeira no bar do aeroporto e, finalmente, perto da meia-noite chega a hora de embarcar.

              Já se iniciou o processo de especulação do solo urbano na capital do Portugal imenso, já há patos-bravos a alterar o mapa hidrográfico da textura urbana. Recordo os anúncios na televisão sobre o empresário J. Pimenta “Pois, pois, Jota Pimenta” e as suas torres na Reboleira que marcam esta época do início do desordenamento urbano e respectiva especulação imobiliária de Lisboa e áreas satélites. A alteração dos cursos hidrográficos permanentes e, ou cíclicos evidencia que a natureza não se deixa enganar, nem se ilude com tretas e promessas de progresso. Há, e continuará a haver, vários Jotas Pimenta, este, provavelmente, é mais inofensivo do que todos os outros que se seguirão.

              A chuva cai e não encontra os seus cursos de escoamento naturais, provocando inundações inimagináveis na noite de 25 para 26 de novembro de 1967.

              Chove mais e mais, sem parar. Parece que quem vive lá em cima, se desgovernou, abriu um grande buraco no céu e agora não sabe como o vedar. Tapar com o dedo não dá, mesmo sendo um dedo do Todo O Poderoso.  

              Chove e nada dá vazão a tanta água, provocando imensos estragos e denunciando a miséria em que vive muita gente na capital do reino. A censura portuguesa é incapaz de impedir as reportagens sobre a população pobre, desalojada das suas barracas, devido ao temporal. Em doze horas terão morrido mais de setecentas pessoas e mais de mil, desalojadas – facto dificilmente camuflado por Salazar. Esta última parte passa-me ao lado, pois quero muito chegar a Luanda, e entre Lisboa e Luanda existe um filtro gigante na informação — saberei disso, anos mais tarde.
O Silêncio do Kisanji - AQ





O SILÊNCIO DO KISANJI - apresentação no CCRVR








15 novembro, 2019

CONVITE

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CONVITE
Anabela Correia de Almeida Quelhas, 
tem o prazer de convidar V. Exa para o lançamento do seu livro 
“O SILÊNCIO DO KISANJI”, 
que terá lugar no dia 26 de Novembro de 2019, pelas 21h30m, 
no Centro Cultural Regional de Vila Real, 
Largo de S. Pedro  nº 3 em Vila Real.