FICAR EM PÂNICO
A expressão “ficar em
pânico” possui uma origem profundamente enraizada na mitologia grega,
reflectindo uma antiga associação entre O medo súbito e as forças
sobrenaturais. O termo “pânico” deriva do grego “Panikós”, relacionado com o
deus Pã, uma divindade que personificava o medo repentino e avassalador,
especialmente na natureza selvagem das florestas e das montanhas. Para
compreender essa conexão, é fundamental explorar a mitologia de Pã e a evolução
do conceito ao longo do tempo até a sua incorporação na linguagem moderna e na
psiquiatria.
Na mitologia grega, Pã
era considerado o deus dos pastores, dos rebanhos, das florestas e das áreas
selvagens. A sua filiação é controversa. Supostamente, era filho de Hermes, o
deus mensageiro, e de uma filha de Dríope. Quando nasceu a sua mãe ficou
assustada ao ver o aspecto do seu filho recém-nascido (grotesco,
semi-animalesco, com patas, cascos e chifres de bode, rosto disforme com a pele
enrugada e o cabelo desgrenhado).
Hermes embrulhou então
o pequeno monstro numa pele de lebre e levou-o para a montanha sagrada, o
Olimpo, morada dos deuses. Ali o pôs ao lado de Zeus, mostrando-o aos outros
deuses. Estes ficaram felizes ao ver a estranha criança divina, principalmente
Dionísio, que mais tarde o integrou no seu ruidoso e caótico cortejo, pois era
muito parecido com Sileno ou com os Sátiros.
O seu nome, Pã, foi-lhe
dado pelos deuses olímpicos. Pan significa "tudo" (embora este termo
nada tenha a ver com o deus).
A sua aparência
semi-animalesca, com patas, chifres, rosto disforme e cabelos desgrenhados,
reflectia a sua ligação com o mundo natural e o instinto primário e selvagem.
Segundo as lendas, Pã possuía uma habilidade especial: o seu grito ou sopro
podia provocar um medo súbito e irracional a quem o ouvisse, causando uma
sensação de terror intenso e inesperado – o que, na antiguidade, foi
interpretado como um “pânico” provocado por uma força divina ou sobrenatural.
A narrativa conta que
Pã habitava regiões isoladas, como as florestas do Peloponeso, e que o seu
grito podia assustar viajantes, caminhantes e até tropas em batalha. Essa
capacidade de induzir medo repentino levou os gregos a associar o seu nome à
experiência de terror súbito e inexplicável. Também é frequentemente associado
à fertilidade, à Primavera e, fundamentalmente, a um insaciável apetite sexual.
Representado como um sátiro (metade homem, metade bode), Pã simboliza o impulso
sexual selvagem e descontrolado, assediando ninfas e rapazes, sendo também
associado a práticas de bestialidade, como retratado em esculturas romanas.
Assim, a palavra
“Panikós” passou a referir-se tanto ao deus quanto ao medo avassalador que ele
simbolizava. Com o tempo, “pânico” passou a designar qualquer estado de medo
intenso e descontrolado, seja na mitologia ou na linguagem quotidiana.
Ao longo dos séculos, o
conceito de pânico evoluiu de uma força mítica para uma condição psicológica
reconhecida na medicina e na psiquiatria. No século XIX, Sigmund Freud
classificou o transtorno do pânico inicialmente como uma “neurose ansiosa”,
caracterizada por ataques inesperados de ansiedade intensa. Esses ataques, que
hoje chamamos de crises de pânico, aparecem de forma súbita, sem aviso prévio,
dominando a vida do indivíduo que os sofre.
Os sintomas do
transtorno do pânico incluem taquicardia, sudorese, tremores, sensação de falta
de ar ou sufocamento, dor ou desconforto torácico, náusea, tontura, alucinação,
despersonalização, formigamento, calafrios ou ondas de calor, além de medo de
perder o controle, enlouquecer ou morrer. Esses sintomas aparecem de forma
recorrente e inesperada, gerando um ciclo de ansiedade antecipatória — o “medo
do medo” — que leva o indivíduo a evitar ambientes onde já experimentou esse
medo, prejudicando a sua rotina social, profissional e emocional.
A associação com a
mitologia é relevante não só pela origem etimológica, mas também pelo
simbolismo do medo como uma força que surge de forma imprevisível, dominando a
pessoa e afectando a sua qualidade de vida. O transtorno do pânico, portanto,
não representa apenas uma resposta emocional, mas uma condição clínica que
requer atenção e tratamento adequado.
A compreensão da origem
do termo “pânico” ajuda a humanizar o fenómeno, reconhecendo-o como uma
experiência antiga, mas ainda muito presente na vida moderna.
Que os deuses te
sorriam. Alegra-te! Kairé!
[Emissão
“Zeus não dorme”, descubra a mitologia grega na sua vida – Rádio Universidade
FM – 10|11|12 de Julho de 2026]

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