19 agosto, 2026

FICAR EM PÂNICO

 

FICAR EM PÂNICO

A expressão “ficar em pânico” possui uma origem profundamente enraizada na mitologia grega, reflectindo uma antiga associação entre O medo súbito e as forças sobrenaturais. O termo “pânico” deriva do grego “Panikós”, relacionado com o deus Pã, uma divindade que personificava o medo repentino e avassalador, especialmente na natureza selvagem das florestas e das montanhas. Para compreender essa conexão, é fundamental explorar a mitologia de Pã e a evolução do conceito ao longo do tempo até a sua incorporação na linguagem moderna e na psiquiatria.

Na mitologia grega, Pã era considerado o deus dos pastores, dos rebanhos, das florestas e das áreas selvagens. A sua filiação é controversa. Supostamente, era filho de Hermes, o deus mensageiro, e de uma filha de Dríope. Quando nasceu a sua mãe ficou assustada ao ver o aspecto do seu filho recém-nascido (grotesco, semi-animalesco, com patas, cascos e chifres de bode, rosto disforme com a pele enrugada e o cabelo desgrenhado).

Hermes embrulhou então o pequeno monstro numa pele de lebre e levou-o para a montanha sagrada, o Olimpo, morada dos deuses. Ali o pôs ao lado de Zeus, mostrando-o aos outros deuses. Estes ficaram felizes ao ver a estranha criança divina, principalmente Dionísio, que mais tarde o integrou no seu ruidoso e caótico cortejo, pois era muito parecido com Sileno ou com os Sátiros.

O seu nome, Pã, foi-lhe dado pelos deuses olímpicos. Pan significa "tudo" (embora este termo nada tenha a ver com o deus).

A sua aparência semi-animalesca, com patas, chifres, rosto disforme e cabelos desgrenhados, reflectia a sua ligação com o mundo natural e o instinto primário e selvagem. Segundo as lendas, Pã possuía uma habilidade especial: o seu grito ou sopro podia provocar um medo súbito e irracional a quem o ouvisse, causando uma sensação de terror intenso e inesperado – o que, na antiguidade, foi interpretado como um “pânico” provocado por uma força divina ou sobrenatural.

A narrativa conta que Pã habitava regiões isoladas, como as florestas do Peloponeso, e que o seu grito podia assustar viajantes, caminhantes e até tropas em batalha. Essa capacidade de induzir medo repentino levou os gregos a associar o seu nome à experiência de terror súbito e inexplicável. Também é frequentemente associado à fertilidade, à Primavera e, fundamentalmente, a um insaciável apetite sexual. Representado como um sátiro (metade homem, metade bode), Pã simboliza o impulso sexual selvagem e descontrolado, assediando ninfas e rapazes, sendo também associado a práticas de bestialidade, como retratado em esculturas romanas.

Assim, a palavra “Panikós” passou a referir-se tanto ao deus quanto ao medo avassalador que ele simbolizava. Com o tempo, “pânico” passou a designar qualquer estado de medo intenso e descontrolado, seja na mitologia ou na linguagem quotidiana.

Ao longo dos séculos, o conceito de pânico evoluiu de uma força mítica para uma condição psicológica reconhecida na medicina e na psiquiatria. No século XIX, Sigmund Freud classificou o transtorno do pânico inicialmente como uma “neurose ansiosa”, caracterizada por ataques inesperados de ansiedade intensa. Esses ataques, que hoje chamamos de crises de pânico, aparecem de forma súbita, sem aviso prévio, dominando a vida do indivíduo que os sofre.

Os sintomas do transtorno do pânico incluem taquicardia, sudorese, tremores, sensação de falta de ar ou sufocamento, dor ou desconforto torácico, náusea, tontura, alucinação, despersonalização, formigamento, calafrios ou ondas de calor, além de medo de perder o controle, enlouquecer ou morrer. Esses sintomas aparecem de forma recorrente e inesperada, gerando um ciclo de ansiedade antecipatória — o “medo do medo” — que leva o indivíduo a evitar ambientes onde já experimentou esse medo, prejudicando a sua rotina social, profissional e emocional.

A associação com a mitologia é relevante não só pela origem etimológica, mas também pelo simbolismo do medo como uma força que surge de forma imprevisível, dominando a pessoa e afectando a sua qualidade de vida. O transtorno do pânico, portanto, não representa apenas uma resposta emocional, mas uma condição clínica que requer atenção e tratamento adequado.

A compreensão da origem do termo “pânico” ajuda a humanizar o fenómeno, reconhecendo-o como uma experiência antiga, mas ainda muito presente na vida moderna.

Que os deuses te sorriam. Alegra-te! Kairé!

[Emissão “Zeus não dorme”, descubra a mitologia grega na sua vida – Rádio Universidade FM – 10|11|12 de Julho de 2026]

Publicado em NVR 19|08|2026

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