28 janeiro, 2026

O combustível silencioso do cérebro


 O combustível silencioso do cérebro 

Num mundo onde o digital reina, a leitura, aquela actividade que envolve páginas de papel e letras impressas, fica para trás. As crianças e os jovens, cada vez mais habituados a mensagens rápidas, títulos apelativos, muita imagem e texto curto, nos seus telemóveis, parecem querer trocar o prazer da leitura profunda por uma satisfação instantânea, efémera e transitória. Essa mudança é boa ou má? Na verdade, há mais pessoas a ler, e menos hábitos de leitura.

A ciência revela que a leitura é sempre um exercício vital para o cérebro, um combustível silencioso que alimenta e enriquece a função cerebral. E o que é mais interessante: ela não precisa de ser feita somente com livros físicos para trazer benefícios. Ou seja, ler, mesmo que seja uma mensagem curta ou uma notícia no telemóvel, estimula funções cerebrais. Contudo, há diferenças substanciais na qualidade e na profundidade dessa estimulação. Quando folheamos um livro de papel, activamos uma série de sentidos e memórias cinestésicas — a posição do corpo, a sensação do papel, o cheiro das páginas — que favorecem uma compreensão mais profunda, uma retenção maior da informação e um foco mais intenso.

A leitura digital, embora permita uma navegação rápida por textos curtos, muitas vezes estimula uma leitura superficial e impede que a leitura mais aprofundada se efectue. O nosso cérebro, potencialmente seduzido pelo dinamismo dos dispositivos, tende a processar as informações de forma mais rápida e menos profundada. Isso pode ser útil para tarefas rápidas, mas, no que diz respeito à compreensão de conteúdos complexos ou ao desenvolvimento de pensamento crítico, deixa muito a desejar. Pais e educadores estejam em alerta.

Assim como o exercício físico fortalece os músculos, a leitura exercita o cérebro, activa memórias visuais, linguísticas, motoras, e promove uma espécie de treino cognitivo constante que pode ser transformado em saber e conhecimento. Porém, nem todos os que praticam exercício físico são atletas. É necessário algo mais.

A ausência de leitura regular, em circunstâncias favoráveis à reflexão, tem consequências palpáveis. Ela limita o desenvolvimento cognitivo, empobrece o vocabulário, enfraquece o pensamento crítico e diminui a capacidade de concentração e de decisão. Sem esse estímulo, o cérebro pode atrofiar, acelerar o envelhecimento cerebral precoce e dificultar a análise de informações complexas. Uma leitura superficial, típica do ambiente digital, impede o processamento profundo necessário para compreender argumentos e desenvolver uma visão crítica do mundo, torna os leitores mais frágeis e susceptíveis de não saberem descodificar a demagogia escondida na informação que lê, distinguir o verdadeiro do falso, tornando-se alvos fáceis para serem enganados.

Pais, educadores e a sociedade têm um papel fundamental em criar ambientes que estimulem esse hábito, pois o que está em jogo não é apenas o prazer de ler, mas a formação de cérebros mais resistentes, criativos e críticos, perante o que acontece na sua vida pessoal, social e política. Saber seleccionar informação, saber interpretar e saber fazer as suas escolhas, está a ser cada vez mais urgente.

Sem leitura e entendimento profundo não há evolução civilizacional, e sim um retrocesso. O impacto do declínio do hábito de ler na formação do pensamento crítico, manifesta-se na saúde da democracia e na capacidade de interpretação da realidade.  

Publicado em NVR 28|01|2026

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