O combustível silencioso do cérebro
Num
mundo onde o digital reina, a leitura, aquela actividade que envolve páginas de
papel e letras impressas, fica para trás. As crianças e os jovens, cada vez
mais habituados a mensagens rápidas, títulos apelativos, muita imagem e texto
curto, nos seus telemóveis, parecem querer trocar o prazer da leitura profunda
por uma satisfação instantânea, efémera e transitória. Essa mudança é boa ou
má? Na verdade, há mais pessoas a ler, e menos hábitos de leitura.
A
ciência revela que a leitura é sempre um exercício vital para o cérebro, um
combustível silencioso que alimenta e enriquece a função cerebral. E o que é
mais interessante: ela não precisa de ser feita somente com livros físicos para
trazer benefícios. Ou seja, ler, mesmo que seja uma mensagem curta ou uma
notícia no telemóvel, estimula funções cerebrais. Contudo, há diferenças
substanciais na qualidade e na profundidade dessa estimulação. Quando folheamos
um livro de papel, activamos uma série de sentidos e memórias cinestésicas — a
posição do corpo, a sensação do papel, o cheiro das páginas — que favorecem uma
compreensão mais profunda, uma retenção maior da informação e um foco mais
intenso.
A
leitura digital, embora permita uma navegação rápida por textos curtos, muitas
vezes estimula uma leitura superficial e impede que a leitura mais aprofundada
se efectue. O nosso cérebro, potencialmente seduzido pelo dinamismo dos
dispositivos, tende a processar as informações de forma mais rápida e menos
profundada. Isso pode ser útil para tarefas rápidas, mas, no que diz respeito à
compreensão de conteúdos complexos ou ao desenvolvimento de pensamento crítico,
deixa muito a desejar. Pais e educadores estejam em alerta.
Assim
como o exercício físico fortalece os músculos, a leitura exercita o cérebro, activa
memórias visuais, linguísticas, motoras, e promove uma espécie de treino
cognitivo constante que pode ser transformado em saber e conhecimento. Porém,
nem todos os que praticam exercício físico são atletas. É necessário algo mais.
A
ausência de leitura regular, em circunstâncias favoráveis à reflexão, tem
consequências palpáveis. Ela limita o desenvolvimento cognitivo, empobrece o
vocabulário, enfraquece o pensamento crítico e diminui a capacidade de
concentração e de decisão. Sem esse estímulo, o cérebro pode atrofiar, acelerar
o envelhecimento cerebral precoce e dificultar a análise de informações
complexas. Uma leitura superficial, típica do ambiente digital, impede o
processamento profundo necessário para compreender argumentos e desenvolver uma
visão crítica do mundo, torna os leitores mais frágeis e susceptíveis de não saberem
descodificar a demagogia escondida na informação que lê, distinguir o
verdadeiro do falso, tornando-se alvos fáceis para serem enganados.
Pais,
educadores e a sociedade têm um papel fundamental em criar ambientes que
estimulem esse hábito, pois o que está em jogo não é apenas o prazer de ler,
mas a formação de cérebros mais resistentes, criativos e críticos, perante o que
acontece na sua vida pessoal, social e política. Saber seleccionar informação,
saber interpretar e saber fazer as suas escolhas, está a ser cada vez mais
urgente.
Sem
leitura e entendimento profundo não há evolução civilizacional, e sim um
retrocesso. O impacto do declínio do hábito de ler na formação do pensamento
crítico, manifesta-se na saúde da democracia e na capacidade de interpretação
da realidade.
Publicado em NVR 28|01|2026

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