07 janeiro, 2026

Promessa não cumprida

 


Promessa não cumprida

Ficaria bonito se o discurso do presidente MRS de Ano Novo pudesse dissertar sobre a promessa de acabar com os sem-abrigo, se efectivamente tivesse sido, ao longo do mandato, interessado, insistente, aplicado e motivador para sarar esta ferida purulenta da nossa sociedade. Não houve vontade política. Prometeu e não cumpriu e o seu discurso pareceu-me senil, parecia a “visita de uma tia velha” como disse Ricardo Araújo Pereira.

A montanha pariu um rato, tanta bazófia e afinal os sem-abrigo em Portugal representam uma parcela significativa da população vulnerável, embora os números exatos variem dependendo das fontes e das metodologias de levantamento. Quantos são? Há apenas estimativas e difíceis de encontrar. Após muita procura recolhi o seguinte: em Dezembro de 2025, o número total de pessoas em situação de sem-abrigo em Portugal Continental atingiu as 14.476. Destas, cerca de 4.789 viviam em soluções de alojamento temporário ou casas partilhadas. Existe uma concentração maior em áreas urbanas, especialmente em Lisboa, Porto e Coimbra.

Não basta destacar a importância de políticas sociais que protejam os mais vulneráveis, é preciso ser operacional e haver vontade, e o presidente MRS falhou. Entre todos os problemas do país este seria aquele com mais fácil resolução, e capaz de unir pessoas em torno de valores humanitários, gerando dinâmicas com soluções acertadas e dignas. Quanto custa fazer uns pavilhões e criar abrigos temporários debaixo de tecto com instalações sanitárias para dar condições de salubridade a todos? Só assim saberíamos quantos são e do que precisam para sair dessa situação. Sei que isso não basta, mas o primeiro passo é tirar as pessoas da rua. Já perdemos o comboio, como se costuma dizer, ainda não estamos a um terço da intervenção. É desolador.

O perfil do sem-abrigo alterou-se, há muitos que trabalham, mas vivem na rua porque não têm casa para viver,

O facto deste ser um problema de gestão descentralizada entre municípios, afasta-nos da realidade e sossega consciências.

Continuamos a ter dinheiro para campanhas eleitorais, para a guerra, para organizar visitas de Papas, campeonatos desportivos e não temos capacidade para resolver isto. Há países que já pensaram e já criaram pavilhões para situações de emergência pública, para funcionar em situações de calamidade, e nós poderíamos aprender com eles. No Japão, mesmo em meio ao caos, a dignidade continua a ser prioridade e apresentam soluções económicas e sustentáveis, recorrendo ao cartão reciclado, que poderia ser adaptado a esta situação.  Assobiamos para o lado seguimos o trilho da manada, entre a desumanização e a indiferença.

Publicado em NVR 07|10|2026

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