Promessa não cumprida
Ficaria
bonito se o discurso do presidente MRS de Ano Novo pudesse dissertar sobre a
promessa de acabar com os sem-abrigo, se efectivamente tivesse sido, ao longo
do mandato, interessado, insistente, aplicado e motivador para sarar esta
ferida purulenta da nossa sociedade. Não houve vontade política. Prometeu e não
cumpriu e o seu discurso pareceu-me senil, parecia a “visita de uma tia velha”
como disse Ricardo Araújo Pereira.
A
montanha pariu um rato, tanta bazófia e afinal os sem-abrigo em Portugal
representam uma parcela significativa da população vulnerável, embora os
números exatos variem dependendo das fontes e das metodologias de levantamento.
Quantos são? Há apenas estimativas e difíceis de encontrar. Após muita procura
recolhi o seguinte: em Dezembro de 2025, o número total de pessoas em situação
de sem-abrigo em Portugal Continental atingiu as 14.476. Destas, cerca de 4.789
viviam em soluções de alojamento temporário ou casas partilhadas. Existe uma
concentração maior em áreas urbanas, especialmente em Lisboa, Porto e Coimbra.
Não
basta destacar a importância de políticas sociais que protejam os mais
vulneráveis, é preciso ser operacional e haver vontade, e o presidente MRS
falhou. Entre todos os problemas do país este seria aquele com mais fácil
resolução, e capaz de unir pessoas em torno de valores humanitários, gerando
dinâmicas com soluções acertadas e dignas. Quanto custa fazer uns pavilhões e
criar abrigos temporários debaixo de tecto com instalações sanitárias para dar
condições de salubridade a todos? Só assim saberíamos quantos são e do que
precisam para sair dessa situação. Sei que isso não basta, mas o primeiro passo
é tirar as pessoas da rua. Já perdemos o comboio, como se costuma dizer, ainda
não estamos a um terço da intervenção. É desolador.
O
perfil do sem-abrigo alterou-se, há muitos que trabalham, mas vivem na rua
porque não têm casa para viver,
O
facto deste ser um problema de gestão descentralizada entre municípios, afasta-nos
da realidade e sossega consciências.
Continuamos
a ter dinheiro para campanhas eleitorais, para a guerra, para organizar visitas
de Papas, campeonatos desportivos e não temos capacidade para resolver isto. Há
países que já pensaram e já criaram pavilhões para situações de emergência
pública, para funcionar em situações de calamidade, e nós poderíamos aprender
com eles. No Japão,
mesmo em meio ao caos, a dignidade continua a ser prioridade e apresentam
soluções económicas e sustentáveis, recorrendo ao cartão reciclado, que poderia
ser adaptado a esta situação. Assobiamos
para o lado seguimos o trilho da manada, entre a desumanização e a indiferença.
Publicado em NVR 07|10|2026

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