09 setembro, 2020

CIDADANIA E A ESCOLA

A Cidadania e a Escola   


            A Escola actual é um sítio de Ensino e Educação.

            Confesso que entendo que a Educação deve ser um processo desenvolvido em família, desde que as crianças nascem, e que a nobre missão da escola é ensinar. O mundo do conhecimento é inesgotável e de facto poderia ocupar toda a carga lectiva e não chegaria.

            Poderemos separar Ensino de Educação?

            Os pais depositam os seus filhos na escola e a maioria demite-se da sua função educadora, por falta de tempo, paciência e conhecimento. Em casa é para jantar e dormir, o resto do tempo, as crianças e jovens estão na escola, e esta vê-se obrigada a educar. Atendendo a este enquadramento, considero que talvez seja a área académica mais importante, tendo como objectivo criar uma sociedade melhor, com cidadãos activos, intervenientes, criativos, críticos e com respeito pelo outro, que pode existir como “disciplina” autónoma ou sendo explorada transversalmente por todos os professores.

            Deve-se esclarecer previamente:

            -- A Religião Moral é uma disciplina facultativa (vivemos num estado laico).

            — Antes havia uma área disciplinar, Formação Cívica, que passou no tempo do Ministro Crato a ter um programa mais focado e estruturado e denomina-se Educação para a Cidadania e Desenvolvimento, e é obrigatória, já que cidadania é algo que todos devemos desenvolver se queremos viver numa sociedade.

            — Quem determina os programas das disciplinas é o ministério da educação e não os professores.

             O caso dos alunos que reprovaram por não terem frequentado Educação para a Cidadania e Desenvolvimento, trouxe a público esta polémica de se ser “objector de consciência” sobre conteúdos leccionados na Escola e cresce uma onda de indignação incompreensível, que tem um odor retrógrado e mal enquadrado. Nas redes sociais passam também um velho questionário, que supostamente teria sido aplicado numa escola e que nunca se provou ser verdadeiro, para arrebatar indignação das massas.

            “A educação para a cidadania visa contribuir para a formação de pessoas responsáveis, autónomas, solidárias, que conhecem e exercem os seus direitos e deveres em diálogo e no respeito pelos outros, com espírito democrático, pluralista, crítico e criativo, tendo como referência os valores dos direitos humanos.”(Direcção Geral da Educação)

            Isto choca alguém?

            As suas áreas temáticas são: Dimensão europeia da educação –Educação ambiental – Educação do consumidor –Educação financeira – Educação intercultural – Educação para a segurança e defesa da paz – Educação para o risco –Educação para o desenvolvimento – Educação para o empreendedorismo – Educação para o voluntariado –Educação para os direitos humanos – Educação para os media – Educação rodoviária – Educação para a saúde para a sexualidade – Educação para a igualdade do género.

            Das quinze áreas temáticas que cada escola poderá seleccionar e desenvolver, o que, na verdade, incomoda o tal grupo de cidadãos que fizeram um abaixo-assinado é Educação para a saúde para a sexualidade e Educação para a igualdade do género. São estas duas áreas que estão na base de toda esta polémica, como se fosse possível separar a Escola da Sociedade, como se as crianças fossem assexuadas, como se elas vivessem numa bolha asséptica. Lembro que os tais cidadãos são mais ou menos os mesmos que defendiam a educação sexual nas escolas, no grande debate sobre a interrupção voluntária da gravidez.

            Cada pai gostaria de ter uma escola à medida das suas ambições e se possível interferindo em continuidade segundo as suas conveniências. Isto não é possível, nem saudável, a Escola não pode andar ao sabor das opiniões e preconceitos dos pais:

            — A geografia não poderia ensinar que a terra é redonda;

            — A história não poderia ensinar sobre escravatura, fascismo e o holocausto.

            — A filosofia e as artes, não poderiam abordar o multiculturalismo e observar o Homem Vitruviano.

            — As ciências não poderiam apresentar Darwin.

            Há uns anos, alguém reclamou por uma escola fazer uma exposição sobre o 25 de Abril, onde figuravam duas fotos sobre a guerra colonial. O que, na verdade, incomodava os pais, não eram as fotos de corpos decepados, que os filhos vêm na televisão depois da meia-noite e nos jogos virtuais, o que incomodava era a escola lembrar o 25 de Abril.

Publicado NVR em 8/09/2020

 

12 agosto, 2020

A um negrilho

 

A um negrilho

 

Na terra onde nasci há um só poeta
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.

 Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!


Miguel Torga

 

            Em 1940, Miguel Torga desloca-se a S. Martinho de Anta para apresentar a esposa aos seus pais e regista essa visita desta forma:

            — «S. Martinho de Anta, 21 de Setembro de 1940 - Aqui estou. Vim mostrar a mulher aos velhos, à Senhora da Azinheira e ao negrilho. Gostaram todos.» 

            É esta a importância deste negrilho sobre o qual estou a escrever, 80 anos depois e no dia do aniversário de Miguel Torga.

            Na mesma visita, os pais e o negrilho,

                        na mesma frase a Sra da Azinheira e o negrilho,

                                   …. a Sra da Azinheira talvez para abençoar a união,

                                               e o negrilho, como se fosse um elemento importante da sua da família, a quem foi apresentar a esposa, como se faz, com os tios, os avós e os primos. Para Torga o negrilho foi um familiar conversador, além de poeta, que lhe apresentava as novidades da terra, quando regressava a S. Martinho, com visita obrigatória e aguardada. 

            Este mestre de inquietação serena que pertence aos gigantes do mundo vegetal, representa simbolicamente a obra de Torga e acaba por ser também da nossa família, porque nos habituamos a ele pela escrita e pela presença no largo do Eirô. A sua ligação à natureza faz-se de forma poderosa através das enormes raízes de um negrilho que se agarram fortemente ao telúrico da terra, equilibrando-se com ela.

            Tudo isto corresponde a um imaginário campestre torgueano. Talvez nem todos entendam o seu significado. O negrilho de Torga, não é uma árvore qualquer, é uma entidade presente quase humanizada, em que as suas folhas são versos e a seiva a inspiração.

            Este negrilho (ou ulmeiro) secou e morreu, talvez porque envelheceu e deixou de ver o amigo e familiar Miguel, porque as visitas terminaram e a saudade fê-lo definhar. Um dia vi a sua raiz junto ao Espaço Torga. Pensei que não estaria ali por acaso. Para mim seria o sítio ideal para admirarmos uma obra da natureza que vale por si mesma, uma escultura divina, sem ter a intervenção do homem, perfeitamente em harmonia com a personalidade de Torga.

            Enganei-me. Desconhecia que apenas estava em trânsito, aguardando piores dias, para criar uma justificação para a intervenção. Estava a apodrecer, estava a degradar-se…

            A raiz do negrilho obedeceu a um destino cruel, traçado não sei por quem. Soube pelas redes sociais, que lhe deram destino, talhando-lhe o rosto de Torga com motosserra, agredindo mortalmente esta beleza natural e em simultâneo o imaginário de Torga. Desconheço o autor da ideia, certamente nunca entendeu o simbolismo desta árvore, nem a personalidade do escritor. Atitudes destas, mesmo que bem intencionadas, são demolidoras e, pior, irreversíveis. Não ponho em causa o escultor, este apenas deu resposta a uma encomenda. Indigna-me que as entidades com responsabilidades culturais, não entendam a célebre frase de Mies Van der Rohe, que se aplica em tantas situações:

            — “Less is more”.

            Por vezes, o menos é mais, aqui é o caso. Estavam “quetinhos”, tratavam apenas o envelhecimento da raiz, que seria bem melhor e o Adolfo agradeceria.

(12/08/2020)

08 julho, 2020

As palavras estão cada vez mais chiques


As palavras estão cada vez mais chiques
            Quando escrevi o meu último livro, não sabia como referir-me aos mais escurinhos, se devia chamar-lhes, negros ou pretos, para não ferir ninguém e para não ser conotada como racista, colonialista, exploradora e sei lá o que mais.
            Os conceitos vestem-se de palavras, distraindo o observador do seu verdadeiro conteúdo. Finge-se com o palavreado, para se alinhar no politicamente correcto. Tudo fica com mais brilho, mais digno, mais clean, muito mais chique… mas tudo é mesma coisa. A pompa das palavras, bem espremidinha, como se costuma dizer, o que dá? Mais do mesmo, mas pronto!
            Mudam-se as palavras, o conceito permanece.
            A palavra forte, aborto, substitui-se por Interrupção voluntária da gravidez – 3 palavras para substituir uma só e que não dá jeito nenhum para insultar.
            —Tu és um aborto!
            Tem impacto!
            — Tu és uma interrupção involuntária da gravidez!
            … já não é a mesma coisa.
            Eutanásia, seria algo criminoso, morte assistida é mais tolerável.
            Na escola, os mal-educados e irrequietos passam a ter comportamentos disfuncionais hiperactivos. Na escola não se pode dizer que um aluno é pouco inteligente, deve dizer-se que possui dificuldades de aprendizagem… assim como, ele é um baldas ou um calão, deve dizer-se que tem interesses divergentes da escola. Os desatentos, têm deficit de atenção.
            Bicho do mato — pouco sociável.
            Cego — invisual
            Alguém que tem uma opinião política diferente da maioria, diz-se que investe numa política fracturante. Se tomou uma bezana, ficou embriagado ou até ébrio, dando um ziguezagueado muito mais delicado.
            As mães solteiras passaram a ser autoras de produções independentes e, mais actualmente, geram famílias monoparentais.
            Os amancebados já não são criticados pela sociedade, passando a ter uma união de facto.
            Os patrões e chefes passam a líderes, e os operários, a colaboradores.
            Contínuos — assistentes operacionais;
            Caixeiros viajantes — técnicos de vendas;
            Deixei de ter criada, passei a ter empregada doméstica, depois funcionária de limpezas e hoje tenho uma auxiliar de apoio doméstico.
            O salva-vidas é hoje o nadador-salvador.
            O careca passou a ser um paciente de alopecia.
            Drogado é toxicodependente.
            As fábricas convertem-se em unidades de produção.
            O analfabetismo passou a iliteracia, e a teimosia, passou a resiliência.
            O cócó passou a ser resíduo sanitário sólido. A escolha dos cócós, gestão de resíduos sólidos.
            Esterquice — poluição;
            Lixeira — aterro sanitário.
            As cadelas já não estão com o cio, estão em fase de acasalamento e reprodução.
            O aleijado assume-se como deficiente motor, o gajo irritante, instável e neurótico, que tanto ri como chora, passou a bipolar.
            Asilo — casa de repouso ou lar da 3ª idade. A mitra — casa de acolhimento.
            A cadeia, já não é cadeia, porque pode traumatizar, é estabelecimento prisional e quem lá vive, é alguém provisoriamente privado de liberdade.
            As palavras estão cada vez mais chiques e mágicas, calçam sapatos de verniz, vaporizador contra o mau hálito e muita laca no cabelo. Palavras que tornam a realidade mais leve e mais motivadora.
….
            Escolhi negro em vez de preto, mas não sei se fiz bem, afinal chocolate preto é bom, lista negra, é mau. Feijão preto é bom, mercado negro é mau.
            Palavras chiques em salto alto.
Publicado em NVR 8/07/2020

01 julho, 2020

3 dias e 3 meses


3 dias e 3 meses
         De 13 a 16 de março, a Escola Portuguesa, conseguiu mudar completamente de registo, passando da Escola que muitos ainda classificavam como tradicional, para a Escola do século XXI.
         Deu-se uma revolução em 3 dias à custa, por incrível que pareça, daqueles que andam há anos a reclamar o tempo de serviço a que têm direito, os professores, e que maioritariamente possui mais de 50 anos, a quem não foi fornecida formação adequada.
         Em 3 dias, os professores com o seu espírito resiliente e capacidade de se adaptar a novos contextos, pensaram apenas nos seus alunos, disponibilizando equipamentos, a internet pessoal e o conhecimento, adquirido muitas vezes nas horas que não têm, para se dedicar à investigação, para se manterem atualizados e se auto-formarem, movidos apenas pela sua missão, muito digna, de ensinar. Em 3 dias os professores criaram uma rede de interajuda entre todos, que lhes permitiram estar sempre presentes, junto dos seus alunos, atenuando inseguranças, isolamento, medos e os desvios consequentes. E o Ministério da Educação fez um brilharete, mais uma vez à custa do esforço e da bolsa dos professores mal remunerados, com imagem “encardida” por sucessivas lutas que os têm trazido a terreiro. Os professores são a classe profissional que melhor entende o proverbio, “quem não tem cão, caça com o gato”. No seu exercício profissional, sempre tem um plano B, para quando algo falha na sala de aula (o projector, a internet, falta de material, os dramas de cada aluno, …) porque têm à sua frente 30 alunos que confiam em si e esperam o melhor dele. É importante que se sublinhe quem suportou a revolução digital e a mudança de paradigma tão apregoada por Tiago Rodrigues, foram os professores.
         Decorreram 3 meses e a opinião pública assume-se com imensas contradições, sobre este assunto.
         A sociedade surpreendeu-se com o desempenho dos professores no ensino à distância, capazes de dar continuidade à aprendizagem, sem paragens. Então, começou a crítica do excesso – os professores martirizavam os alunos com excesso de tarefas, diziam os pais. Os pais e o resto da sociedade não perceberam que, de facto, os alunos, passam muito tempo na escola, e o tempo ocupado em casa com tarefas escolares, terá sido apenas 50% do tempo da carga horária normal. Este, sim, deveria ser tema para reflexão e para mudança no Ministério da Educação.
         Houve pais que acompanharam a aprendizagem dos filhos, outros estabeleceram regras para que tudo funcionasse bem, outros realizaram tarefas pelos filhos, como se o professor fosse muito burro, e houve aqueles que desvalorizaram a acção da Escola, expondo críticas constantes, na presença dos seus filhos, desmotivando a sua participação e aprendizagem, através das novas tecnologias.          Não perceberam que a maioria dos professores deu todo o tempo que tinha e o que não tinha, para estar sempre conectada e disponível para apoiar os seus alunos. Não perceberam também, que na mudança de suportes na aprendizagem, o que muda são os suportes e não as pessoas envolvidas, mas podem acentuar a fragilização dos mais vulneráveis.           Percebeu-se que afinal a Escola que temos, não é a Escola do século XIX. As mudanças de 3 dias significam que as novas tecnologias são já prática rotineira na escola e passarão a ser efectivas na ligação entre a Escola e a família, goste-se ou não.
         O professor é insubstituível. O professor tem o papel de facilitador da aprendizagem, e a sua interacção presencial com os seus alunos, é essencial, especialmente para os alunos mais novos. Sabendo-se que o Ensino à Distância pode tornar-se numa opção muito mais económica, irá potenciar uma solução mista para os próximos anos, com ou sem COVID.  
         O mau professor, continuará a ser mau, professor, o mau aluno ficará pior, e os pais não cúmplices com a aprendizagem, continuarão não cúmplices e bloqueadores. E os bons, continuarão a ser bons, os preocupados e empenhados, também.  As fragilidades surgirão, não por culpa da Escola, mas pelas assimetrias sociais que aqui se desnudam e distanciam, ainda mais, a Escola, daqueles que integram as famílias socialmente desfavorecidas, em particular as famílias numerosos e sem rendimento para investir em equipamentos e internet.
         Aquela ideia optimista, “Não podemos deixar ninguém para trás”, aqui não se aplica. Apesar de todo o empenho da Escola e dos professores, o acesso à tecnologia, na sociedade portuguesa não é homogénea e, por vezes, até ultrapassa a situação financeira das famílias. Refira-se a questão territorial, o rural e o urbano em confronto através da rede de telecomunicações, em desfavor obviamente, do primeiro.
         Lamentavelmente, em tempo de guerra, há sempre quem fique para trás. Pensemos que é melhor ficar para trás do que perder a vida. Amanhã será um novo dia.
Publicado em NVR, 1/07/2020