DICIONÁRIO
Apresento-vos um livro
que passou de moda, jaz frágil e moribundo no extremo de uma prateleira pouco
acessível das nossas estantes, apenas a apanhar pó. Guarda palavras gordas e
magras, negras e brancas, loucas e criteriosas, doces e agressivas, beneméritas,
malvadas e odiosas, palavras gastas e outras quase virgens, e agora palavras
adormecidas, ou até em coma induzido pelas novas tecnologias.
O conceito de
dicionário é uma ferramenta fundamental na organização e compreensão da língua,
desempenhando um papel crucial na comunicação, no estudo e na preservação do
património linguístico.
As primeiras formas de
dicionários podem levar-nos até à Antiguidade, como os glossários e listas de
palavras utilizados por escribas na Mesopotâmia e no Egito, que buscavam
esclarecer significados e traduções de termos especializados. Durante a Idade
Média, surgiram compêndios mais sistematizados, muitas vezes ligados ao ensino
e à tradução de textos religiosos e académicos.
Sobre o primeiro
dicionário português a informação recolhida não é unânime. Diz-se que foi o
"Dictionarium Lusitanum" de João de Barros, publicado em 1555 (?).
Como primeiro grande dicionário bilingue em Portugal intitula-se Dictionarium
Latino-Lusitanicum (1569) e foi escrito por Jerónimo Cardoso. Será? Não sei. O
dicionário moderno, como o conhecemos hoje, começou a tomar forma no século
XVII, o "Dictionnaire de l’Académie Française", publicado em 1694 em
França.
A utilidade do
dicionário é vasta e multifacetada. Ele serve como uma referência confiável
para esclarecer dúvidas sobre o significado, a ortografia, a pronúncia, a
origem e o uso de palavras. Para estudantes, escritores, tradutores e
profissionais de diversas áreas, o dicionário é uma ferramenta indispensável
para aprimorar a precisão e a riqueza do vocabulário. Além disso, desempenha um
papel importante na preservação da língua, documentando mudanças linguísticas e
introduzindo novos termos ao longo do tempo.
Actualmente, o
interesse pelos dicionários permanece elevado, porém, em suporte digital.
Muitas pessoas preferem consultar dicionários online ou aplicativos de
linguagem, que oferecem acesso instantâneo a uma vasta quantidade de
informações, além de actualizações constantes e funcionalidades adicionais.
Essa substituição gradual faz com que os dicionários impressos sejam
considerados quase obsoletos ou de uso mais restrito, muitas vezes reservados a
colecções, estudos académicos ou àqueles que valorizam o método tradicional de
pesquisa.
Assim, a secundarização
do dicionário-livro reflecte uma mudança cultural e tecnológica na forma como
acedemos e utilizamos o conhecimento linguístico nos dias de hoje. Quem não
conhece o dicionário Priberam da Língua Portuguesa e o Google Tradutor?
Quando era jovem, ai de
quem aparecesse na aula de Português sem o famoso dicionário, mais conhecido
por calhamaço, que funcionava como lastro da minha pasta e a transformava com
sucesso em arma de arremesso e desenvolvia-me os bíceps.
Mesmo na era digital, o
seu valor académico permanece inalterado, continuando a ser um aliado
indispensável na jornada da aprendizagem.
Além do dicionário
tradicional, existem outros tipos de dicionários, cada um com funções
específicas: Dicionário de Línguas, de Sinónimos e Antónimos, Dicionário
Etimológico, Dicionário de Rimas, Dicionário Visual, Dicionário Técnico ou
Especializado e outros mais, alguns muito apelativos contendo imagens,
facilitando a consulta e a memorização.
Eu ainda tenho o velho
dicionário de Eduardo Pinheiro publicado pela Livraria Figueirinhas, que
cumpriu a função, comigo e com as minhas irmãs, em dois continentes, os dois
volumes da Lello Universal e vários de línguas. Também tenho um dicionário
minúsculo de Francês-Português, que me livrou de algumas faltas de material com
a Madame Lamy. Preciso deles? Não! Quero vendê-los? Também não! Eles são a
prova de que a aprendizagem não se processa por osmose, pois há muitas palavras
que nunca utilizei, nem pretendo. UFA! UFA! Sobrevivi.
Publicado em NVR 27|05|2026

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