07 dezembro, 2013

...existir, não existindo. (1923-1996)



Passei a mão no teu rosto e senti-o frio e marmóreo numa manhã de dezembro. Gelei a mão no teu rosto imóvel, confirmando a falta de esperança há muito congelada, num diagnóstico fatal. Foi numa madrugada gélida, atravessei 2 ou 3 ruas a correr após um telefonema previsível.
Chorei convulsivamente, num desenlace aguardado há muito, cavalgado em progressiva demência incontrolada, em que ninguém entendia nada de nada, onde a medicina mostrou a sua magistral incapacidade para resolver o teu problema. Mais uma vez senti, que nós, seres viventes do seculo XXI estamos muitas vezes na idade da pedra e não descolamos. O teu rosto parecia uma escultura de alabastro, macio e frio… frio de morte.
Despedi-me de ti ao longo de quase 2 anos, ias deixando de ser tu, conforme as horas passavam. Cada dia estavas mais diferente e mais ausente de nós, apesar do nosso esforço para que tudo se tornasse real, fácil e confortável para ti… mas o teu olhar saía da tua zona de conforto e viajava para o vazio, onde não sei o que existe, nem onde se localiza. Foi uma despedida dolorosa e progressiva até não me identificar mais com o corpo de quem tratava, pois ele estava sem alma, inerte e amorfo.
Só fiz o teu luto décadas mais tarde… ainda o faço, cada vez que escrevo sobre ti.
Coisa estranha a alma separar-se do corpo com ele ainda vivo. Para onde ela vai? Que estranho lugar é esse para onde as almas emigram antes do tempo! Assisti a uma decomposição seguida da desconstrução de ti, hora após hora, dia após dia. Percebi os limites da resistência dos humanos, percebi o quanto somos frágeis, tomei consciência da forma como poderemos desejar a morte a quem queremos tão bem – a contradição feita “pecado” que habita sempre em mim. Nunca mais fui a mesma, perdi frescura e entusiasmo, nesta inversão de papéis, de quem trata quem. Nunca mais a nossa família voltou a ser o que era antes, não por tu faltares, mas por a despedida ser tão longa, tão penosa e desumana, tendo afectado cada elemento. Perdemos alegria, perdemos brilho e criamos uma resistência brutal às contrariedades da vida… afinal, ela é tão estranha, com memórias a várias velocidades!  Os papéis de cada uma de nós definidos ao longo dos anos, inverteram-se completamente, deixaste de nos dar “colo” e passaste tu a precisar dele, num retrocesso diário para um espaço indefinido e tenebroso. A certeza que cada dia seria pior que o anterior, nunca nos abandonou e preenchia cada vez mais a esperança que nunca conseguimos possuir. Questionava-me diariamente sobre o que seria ainda pior. Nada mais voltou a ser igual…. deixou de haver aquela cumplicidade serena de silêncios, só possível nas mães.
Como lidar com tudo com dignidade? Como lidar com as situações mais penosas com sentido de humor e entusiasmo para que não te apercebesses que estavas mal e cada vez pior e pior. As fases sucederam-se, a perda de voz, a perda de orientação, a perda de movimentos, a perda da deglutição, a perda da visão, a perda do conhecimento… a fase do colo, a fase da cadeira de rodas, a fase da cadeira dentro da banheira, a fase dos resguardos, a fase das fraldas, a fase da rigidez, a fase das sondas e das seringas, a fase das escaras, a tua pele abrindo e mostrando o interior de uma anatomia moribunda… a fase da vigilância permanente. O pai não resistiu pura e simplesmente e sucumbiu de exaustão e desgosto, ainda o problema se iniciava. Todos ficamos marcados por esta violência que se denomina alzeimer, sentença que te deram quase 6 anos antes, perante a nossa surpresa e desconhecimento total desta sentença mortal. Ficou mágoa, revolta, desapontamento e frustração, de uma batalha perdida de ti, mulher bonita, afável, carinhosa e de gargalhada livre. Ficou uma textura baça e sem brilho nesta recordação dolorosa do não existir, existindo.
Bj      

In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado”, Anabela Quelhas

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