25 março, 2026

Velharias/antiguidades

 

Velharias/antiguidades

Nas grandes cidades gosto de visitar mercados e espaços de venda de velharias. O meu gosto pelas velharias é uma forma de me confrontar com o passado por meio de objectos em desuso, mas que resistiram ao tempo. Alguém os dispensou para estarem ali simultaneamente visíveis e incógnitos.

Procurar antiguidades é uma aventura que mistura o espírito de Indiana Jones com a ansiedade de um coleccionador em busca do objecto perfeito — aquele que faz o coração acelerar mais do que um electrão em movimento. Essa procura rapidamente passa de um gosto para um vício.

Nunca se sabe o que se vai encontrar, portanto é como uma navegação sem destino e sem GPS. Caricaturando parece que levamos uma lupa na mão, desvendando os mistérios do passado, enquanto o nosso cérebro, equipado com a sabedoria de séculos de história, tenta distinguir uma verdadeira relíquia entre várias réplicas de plástico.

O charme do caçador de relíquias é que acredita que aquele objecto banal pode esconder uma história fascinante. Como um mini Sherlock Holmes, o coleccionador treina o olhar, evoca conhecimento rápido e um pouco de intuição para poder realizar uma avaliação rápida, com o objectivo de comprar bom, único e barato; segundo estudos, é uma combinação de experiências acumuladas e uma pitada de sorte, ou como dizem na ciência, uma variável aleatória que dá aquele tempero especial à pesquisa.

Às vezes observo as pessoas que compram com critérios diferentes dos meus, e interrogo-me sobre o que motivou determinada compra. Uns preferem os “cacos”, outros, mobiliário, joias, moedas, automóveis, livros, cassetes, discos, rádios, relógios e por aí fora.

Há sempre peças únicas misturadas com corriqueiras. A sorte sorri quando se encontra uma peça invulgar, única, valiosa por uma pechincha.

Há também o lado divertido dessa busca: as histórias fantasiosas que surgem, as negociações quase dramáticas, e a esperança de encontrar um tesouro escondido no sótão da avó de alguém ou na loja de antiguidades mais suspeita. Afinal, quem nunca sonhou em encontrar uma peça única, que possa valer uma fortuna ou, pelo menos, proporcionar uma boa história para contar aos amigos?

Normalmente lamento-me por várias peças que perdi, por falta de dinheiro, por receio de arriscar ou porque alguém se antecipou a mim.

O segredo para comprar uma boa velharia reside no equilíbrio entre o conhecimento técnico e a capacidade de "garimpar" em locais menos óbvios. Para encontrar peças com valor real, deve focar-se na autenticidade, no estado de conservação e no potencial de valorização.

Na próxima vez que o leitor se aventurar na procura por antiguidades, lembre-se: além de uma pesquisa científica, é uma jornada divertida, cheia de descobertas, surpresas e, claro, uma boa dose de humor. Porque, no fundo, o segredo da busca por relíquias é exatamente isso: uma mistura de ciência, sorte e uma pitada de loucura.

            Quando procurar móveis procure por encaixes manuais assimétricos (em vez de cortes industriais perfeitos) e acabamentos originais em verniz boneca ou cera.

Se o seu foco for prataria e porcelana, verifique as marcas do fabricante - nomes famosos elevam significativamente o valor. Se forem materiais avulsos, as antiguidades genuínas (geralmente com mais de 100 anos) utilizam materiais sólidos e técnicas de construção artesanais que as distinguem das réplicas modernas.

O conhecimento do design e da história é um parâmetro necessário em todas as procuras, para evitar comprar gato por lebre.

Avalie se a peça precisa de restauro profissional. Móveis que exigem logística complexa (desmontagem e transporte) devem ser comprados a preços mais baixos. Evite o Valor Sentimental, o preço de mercado não considera o apego emocional do vendedor.

Em mercados de usados, o preço inicial é raramente o final; esteja preparado para negociar com base nos defeitos ou na necessidade de restauro. E não esqueça, quando se interessar por uma peça, não mergulhe de imediato no negócio. Primeiro manifeste interesse por outras peças, e quando sentir o cansaço do vendedor, é o momento para mencionar aquilo que, na verdade, lhe interessa. Se pretende um bom negócio procure um ferro-velho em vez de um antiquário.

Publicado em NVR|25|03|2026


um dia especial


 PINTURA SOBRE VIDRO

AQ

19 março, 2026

18 março, 2026

"SÁTIRA DOS PENTEADOS" Nicolau Tolentino


https://voca.ro/19LPkbKyEsc4

Voz: Madalena Palheiros





 

POESIA


 POESIA

A poesia é uma forma de expressão artística que ultrapassa as palavras, utilizando as próprias palavras, permitindo transmitir emoções, pensamentos e experiências de maneira profunda e muitas vezes universal.

Desde os tempos antigos, a poesia desempenha um papel fundamental na cultura e na história das sociedades, sendo uma ferramenta poderosa de comunicação, resistência e reflexão. Ela tem a capacidade de tocar o coração e emocionar a alma das pessoas, despertando sentimentos e promovendo a conexão entre indivíduos e a sociedade, além de preservar tradições e identidades culturais.

No contexto da poesia lusófona, essa importância amplia-se ainda mais, pois ela reflecte a diversidade e a riqueza cultural dos países de expressão portuguesa, afirmada em diversos territórios. A poesia lusófona abrange uma vasta gama de estilos, temas e expressões, temas clássicos de amor e saudade, reflexões contemporâneas sobre identidade e sociedade que abordam questões sociais, políticas e ambientais. Poetas como Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Mia Couto, Alda Lara e Cesário Verde, entre outros, representam essa diversidade, cada um contribuindo com uma visão única do mundo, marcada por influências de diferentes histórias, idiomas e tradições.

O que dizer de Camões, reconhecido como o maior poeta da língua portuguesa e uma figura cimeira da literatura universal? A sua obra, funde o génio erudito do Renascimento com uma sensibilidade popular, explora a fundo a condição humana, o amor contraditório, as mudanças do tempo e a epopeia dos Descobrimentos Portugueses, elevando a língua a um patamar de excelência.

A poesia lusófona é especialmente importante pelo seu papel na formação da identidade e na resistência cultural, sobretudo em contextos de colonização e pós-colonização. Ela serve como meio de manter viva a história, as memórias e os valores das comunidades, promovendo o orgulho pela herança cultural e incentivando a reflexão sobre o presente e o futuro. Além disso, a poesia lusófona enriquece o panorama literário mundial, trazendo vozes únicas que contribuem para um diálogo intercultural mais amplo e rico.

A poesia, é uma ferramenta essencial para fortalecer a cultura, promover o entendimento mútuo e celebrar a diversidade do mundo. Ela continua a inspirar gerações, demonstrando que, por meio da palavra, é possível construir pontes de esperança, resistência, criatividade e liberdade. É uma ferramenta rigorosa, meticulosa e ousada exigindo uma introspecção do leitor. A poesia não é um consumo passivo; é um impacto dialético. Ela exige que o leitor abandone a superfície e mergulhe no próprio silêncio para encontrar sentido nos versos que lê. É um exercício de paciência e coragem. Se a poesia é ousada, o leitor precisa de ser, no mínimo, um cúmplice disposto a ser transformado.

O processo poético que obriga o leitor a olhar para dentro não é apenas estético, mas sim uma arquitetura do pensamento simbólico. Para que a poesia deixe de ser apenas palavras e se torne um espelho policromático, ela utiliza mecanismos de desestabilização do sentido comum.

Destabilize-se!

[21 de Março, Dia Mundial da Poesia]

Publicado em NVR 18|03|2026

BOLERO DE RAVEL - outras sonoridades

 https://www.youtube.com/watch?v=8eWJtZlrSGI&list=RDJbS5H083kXM&index=3

15 março, 2026

O PINTOR DEBAIXO DO LAVA-LOIÇAS

 


AMOR de PERDIÇÃO ópera

 

Excelente homenagem a Camilo Castelo Branco.

***** 

11 março, 2026

ANTÓNIO LOBO ANTUNES


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Soou o alarme sobre o paracetamol na Era Digital.

 


Soou o alarme sobre o paracetamol na Era Digital.

Recentemente, fomos surpreendidos por um alerta contundente: “o paracetamol, um medicamento amplamente acessível, considerado seguro e utilizado por milhões de pessoas para aliviar dores e febres, apresenta riscos sérios à saúde quando consumido de maneira inadequada.” Este aviso deve despertar uma reflexão profunda sobre a cultura de risco que se dissemina entre os jovens, especialmente nas redes sociais, onde desafios perigosos se tornam virais e atraentes, mesmo diante de evidências dos perigos envolvidos.

Alguns dos desafios:

          O desafio da canela consiste em ingerir, on line, filmado com câmara de vídeo, uma colher de sopa cheia de canela em pó seca, sem água ou qualquer outro líquido, em menos de 60 segundos. A consequência imediata invariavelmente resulta em tosse intensa, engasgos e uma nuvem de canela saindo pela boca e nariz e depois a aspiração involuntária da canela para os pulmões.

          Tide Pod Challenge – o desafio consiste em ingerir cápsulas de detergente concentrado da máquina de lavar a loiça, mordendo-as até que o revestimento solúvel rebente, libertando o detergente líquido e espumoso. O objetivo é filmar a reacção de aversão, o vómito ou a espuma que sai da boca de quem aceita o desafio, partilhando o vídeo para ganhar popularidade e likes.

          O paracetamol – o desafio consiste em tomar comprimidos de paracetamol até ir para o hospital. Entretanto, os participantes filmam-se e quem ganha é aquele que fica mais tempo hospitalizado.

Isto tem alguma piada ou interesse? Não tem e é muito perigoso.

Porém, isto não é recente, há uns anos um dos programas da televisão mais visto pelos jovens, constava de filmagens com desafios completamente loucos, que colocavam em risco os protagonistas e os outros que tentavam imitar. 

Então, por que os jovens se sentem atraídos por tais desafios, mesmo sabendo do perigo de morte ou sequelas graves? A resposta está na combinação de factores biológicos, psicológicos e sociais.

Nas redes sociais, especialmente em plataformas como TikTok, surgem desafios que envolvem acções extremas e perigosas, voltados principalmente para os jovens, que buscam reconhecimento, validação e sentimento de pertença.

Essas acções, além de serem perigosas, não têm qualquer valor de entretenimento ou benefício real. Pelo contrário, representam uma busca por adrenalina e validação social que pode custar vidas.

Durante a adolescência, o cérebro ainda está em desenvolvimento, especialmente as áreas responsáveis pelo controle de impulsos e pela avaliação de riscos. Essa fase aumenta a sensibilidade ao desejo de novidade, recompensa instantânea e aprovação social. As redes sociais potencializam esse comportamento ao oferecer uma validação rápida e acessível mediante “likes”, comentários e partilhas, criando uma ilusão de reconhecimento e pertença dentro de grupos virtuais. Para muitos jovens, participar de desafios perigosos torna-se uma forma de se sentirem únicos, importantes e valorizados, mesmo que temporariamente.

Quando algo se torna repetitivo e viral, o cérebro tende a interpretar essa acção como algo valioso ou aceitável. Assim, o comportamento de colocar a saúde em risco passa a parecer normal, e a capacidade de recusa diminui.

O paracetamol é um comprimido "extremamente acessível" na casa de qualquer pessoa, porém, torna-se "nocivo" quando consumido em quantidades elevadas.

Segundo as Ordens dos profissionais ligados à saúde, a dose máxima diária para um adulto saudável é de quatro gramas. Os comprimidos (de 500 miligramas ou 1 grama) devem ser ingeridos em intervalos de 4 a 6 horas. A ingestão excessiva de paracetamol constitui um sério risco para a saúde: insuficiência hepática aguda, alterações graves da coagulação, hipoglicemia, encefalopatia, lesão renal aguda e morte.

Somente através de uma conscientização colectiva e de uma comunicação clara podemos evitar que esses desafios, que parecem apenas uma brincadeira, causem tragédias. Afinal, a saúde e a vida não podem ser objecto de experiências nocivas ou de busca por popularidade a qualquer custo.

Publicado NVR 11|03|2026

"AMAR" - Florbela Espanca


https://voca.ro/1kOVjhdX2JzC

Voz: Leonor Alves Pereira

file:///E:/radio/audio/203%20-%20amar%20-%20florbela%20espanca%20sob%20Lina%20Morgado.mp3

ANTECIPANDO

 


Acqua Veritas - Évora










04 março, 2026

2026: Ano Internacional da Mulher Agricultora e Rural


 2026: Ano Internacional da Mulher Agricultora e Rural 

O ano de 2026 foi declarado como o Ano Internacional da Mulher Agricultora e Rural, uma iniciativa proposta originalmente pelos Estados Unidos e apoiada por mais de 120 países, e oficialmente adoptada pela Assembleia Geral da ONU em Maio de 2024. Este reconhecimento pretende celebrar e valorizar o papel fundamental das mulheres na segurança alimentar global, além de promover a eliminação das desigualdades de género no sector agrícola.

Este é um momento de comemoração e de reforçar, diariamente, o reconhecimento às acções das mulheres agricultoras e rurais, destacando a sua contribuição indispensável para o desenvolvimento sustentável das comunidades e das sociedades em todo o mundo.

O processo histórico destas mulheres no meio rural é marcado por uma longa luta contra a invisibilidade, jornadas duplas e subordinação, onde o seu trabalho foi muitas vezes considerado apenas como “ajuda” doméstica, e não uma actividade profissional de valor.

Embora as mulheres representem aproximadamente 43% da força de trabalho agrícola mundial, menos de 20% possuem terras próprias, enfrentando obstáculos no acesso a financiamentos, tecnologias e formação especializada. A tecnologia surge como uma aliada importante na redução de barreiras físicas e na ampliação do acesso a tarefas mais complexas e exigentes, contribuindo para a sua autonomia. No entanto, as desigualdades salariais ainda persistem, chegando a disparidades de até 40% em relação aos homens, no caso de Portugal.

As mulheres rurais acumulam longas horas de trabalho, dividindo-se entre a produção agrícola, as tarefas domésticas e os cuidados com a família. Muitas dessas mulheres não são reconhecidas oficialmente como agricultoras ou trabalhadoras, o que as exclui dos direitos de protecção social. Além disso, factores culturais e tradicionais continuam a limitar a sua participação nos espaços de decisão governamentais, mantendo a posse da terra predominantemente nas mãos dos homens.

Apesar dessas dificuldades, as mulheres rurais permanecem como agentes essenciais na conservação da biodiversidade e na garantia da segurança alimentar. Elas lutam por autonomia, por maior acesso a recursos e por condições de trabalho dignas. Para promover mudanças efectivas, é fundamental implementar políticas públicas que garantam acesso ao crédito, à terra, à assistência técnica e a regimes de protecção social.

A MARP – Associação das Mulheres Agricultoras e Rurais Portuguesas – reafirma o seu compromisso de dar visibilidade à realidade dessas mulheres em Portugal e de actuar na construção de políticas que valorizem o seu trabalho no campo. Para a Associação, a celebração de 2026 Ano Internacional representa uma oportunidade de reconhecimento e mobilização, reforçando o papel das mulheres rurais na produção de alimentos, na sustentabilidade e na coesão territorial.

Pretende-se que 2026 seja um marco na afirmação das mulheres rurais portuguesas — um ano em que o país reconheça que, sem elas, não há soberania alimentar, nem futuro para o meio rural. Para isso, diversas acções e eventos serão realizados ao longo do ano, a saber:

 

·      Lançamento oficial do Ano Internacional 2026 pela CCDR Centro;

·      Exposição “Raízes de Mulher: Sementes de Futuro”, em Coimbra;

·      Apoio às candidaturas do Programa TalentA;

·      Criação e divulgação da Caderneta da Mulher Agricultora e Rural (CNA/MARP);

·      Programas de capacitação e formação promovidos pela Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural;

Estas acções visam ampliar a visibilidade, fortalecer a participação e promover a valorização das mulheres rurais, reconhecendo o seu papel vital na construção de um campo mais justo, sustentável e igualitário.

Após uma rápida pesquisa, parecem-se serem acções sobretudo palavrosas, que conduzirão a poucas mudanças, certamente secundarizadas pelo cenário de catástrofe que Portugal enfrenta actualmente, devido à sucessão de tempestades severas que atingiram o país.

[8 de Março – Dia Internacional da Mulher]

Publicado em NVR 04|03|2026

"ATRÁS DOS DIAS" - Rosa Alice Branco

 


"ATRÁS DOS DIAS" - Rosa Alice Branco

https://voca.ro/13QRgiHHoOf9

Voz: Anabela Quelhas.

 file:///E:/radio/audio/200-%20atr%C3%A1s%20dos%20dias.mp3

01 março, 2026

26 fevereiro, 2026

25 fevereiro, 2026

"Pés de Barro" de Nuno Duarte

 


No Karranca às quartas - Rádio Portimão.

Ouvir AQUI

GERAÇÃO SANDUÍCHE

 

GERAÇÃO SANDUÍCHE

A geração, que fecha a porta para o mundo real, é aquela que viveu a sua infância e a juventude ainda sem grandes saltos tecnológicos, sem computadores, sem internet… nem micro-ondas havia, a sopa tinha de ser aquecida numa panela e ir ao fogo.

Usámos fraldas de tecido quando nascemos, jogámos às escondidas, saltámos à corda, deslizámos de patins sem joelheiras, andámos de bicicleta sem capacete, por vezes brincávamos com bonecas de trapos, lançávamos o pião, brincávamos à macaca, ao berlinde, ao macaquinho do chinês, ao jogo do lencinho e à corrida de sacos… ia-se à casa da vizinha para telefonar, comíamos pão com manteiga e açúcar, líamos livros aos quadradinhos, ainda não havia betadine para desinfectar os joelhos sem pele e havia brinquedos para meninos e brinquedos para meninas.

Se queríamos ouvir música sem ser na rádio, ou tínhamos gira-discos e discos de vinil, ou cassetes, o que era raro – e já se considerava um sucesso relativamente à geração anterior. Colecionámos selos, cromos e carteiras de fósforos.

Utilizámos a máquina de escrever para dar bom aspecto a alguns trabalhos de casa, mas era um problema quando não havia corrector.

Às refeições usámos guardanapo de pano, que era substituído por outro, no fim de semana, se queríamos ver filmes, tínhamos de ir ao cinema, e televisão só tinham os mais empoderados e era a preto e branco. Os meninos calçavam sandálias no verão até aos 15 anos e as meninas, vestiam saiote e calçavam peúgas brancas até serem adultas e só depois tinham autorização para usar meias de vidro ou de mousse.

Não havia classe média, havia a classe dos remediados e aquelas famílias que tinham sorte em não passar fome.

Ter uma esferográfica preta de esfera fina era um luxo e não havia fotocópias. A maioria das mães eram domésticas, faziam as tarefas de casa e tratavam dos filhos, que só iam à escola a partir dos sete anos e a nossa ambição era sermos independentes dos pais para podermos ter opinião e usufruir de um espaço fora de casa deles.

A comida não tinha nomes esquisitos, não havia tiramisu, cheesecake, pavlovas e vol-au-vent; havia pudim boca-doce, arroz-doce, aletria, queijo com marmelada e a mousse era um luxo. Rapávamos o tacho quando a mãe fazia um bolo ao fim de semana.

Esta geração é considerada a última a ter vivenciado uma infância e adolescência predominantemente analógicas, correndo alguns perigos e com imaginação suficiente para resolver problemas, mesmo sem saber quem seria no futuro Mark Zuckerberg, Steve Jobs e Bill Gates, o que seria um telemóvel e uns smartphones. Desenvolvemos várias competências principalmente saber esperar, saber pensar e ultrapassar uma contrariedade. Por vezes o chinelo da mãe ganhava asas e voava, acertando o nosso rabo ou as pernas. Na classe dos remediados urbanos, nas festas, os rapazes usavam Old Spice e as raparigas usavam Madame Rochas.

O nosso Facebook era a conversa da treta entre os amigos. Se queríamos fotografias tínhamos duas despesas, a primeira, comprar o rolo de 24 fotografias, e depois revelar o rolo em loja própria e com sorte demorava só 4 dias a revelar. Alguns ainda fizeram serviço militar.

A Era Digital começou quando já éramos adultos, aprendemos a desenrascar e a assumir a transição para o mundo digital.

As mulheres emanciparam-se e adiaram a gravidez, para se dedicar por inteiros às suas carreiras profissionais.

Agora com 50/60 anos chamam-nos a "geração sanduíche" porque cuidamos simultaneamente de filhos jovens e pais idosos. Este fenómeno, impulsionado pelo aumento da longevidade e maternidade tardia, gera sobrecarga emocional, financeira e física, aumentando o risco de “burnout” e depressão.

Temos uma esperança de vida mais longa, mas temos um percurso com excesso de responsabilidades. Estamos entre duas gerações dependentes – os filhos que dependem financeira dos pais até muito tarde e que não desejam sair de casa e temos os pais a perder autonomia e a necessitar de cuidados e atenção – e fora de casa temos a exigência máxima profissional. Alguns, cujos filhos se descuidaram, já são avós e têm outra geração para cuidar. Estar na casa dos pais é sempre mais cómodo e mais barato.

Éramos sonhadores e divertidos, e agora somos os faz-tudo e os que desenrascam tudo em casa. Falta-nos tempo e o que temos não é para nós.

Estamos exaustos!

Publicado em NVR 25|02|2026

"E PORQUE" - Graça Vilela


https://voca.ro/16JxU7gMvD38

Voz: Graça Vilela

file:///E:/radio/audio/197%20-%20e%20porque%20-%20GV.mp3