07 abril, 2021

ANITA E A PÁSCOA

 


A Anita e a Páscoa

              E então passaram bem a Páscoa?

              Desconfinaram os cabeleireiros e já foi muito bom. A raiz negra do meu cabelo loiro já era tão grande, que até parecia uma pintura californiana.

              Esta Páscoa, tal como a anterior, foi emocionante. Durante a Semana Santa em vez de visitar as igrejas, coloquei em busca no You Tube e fiz várias visitas às igrejas de Roma. Fartei-me de andar e sempre alapada no sofá. Também deve contar alguns pontos para entrar no Reino dos Céus…

              Transferi o repasto pascal da cozinha para a sala, onde costumava receber 14 pessoas e desta vez éramos apenas dois, cada um nas pontas da mesa enorme quase vazia, mas cheia de glamour e a falar um pouco mais alto, para podermos ouvir-nos e dialogar.

              Uma toalha adamascada amarela, pratos brancos, copos vitral roxo, talher dourado cumpriram a estética do Vaticano,  e agora um frasco de álcool junto ao prato, permitiu que cada um desinfectasse os talheres, o telemóvel ou as mãos.

              - Oh mãe desinfectaste a lata da coca-cola?

              - Oh mãe tás a tossir? Tu vê lá, tens temperatura, dói-te o corpo?

              - Oh mãe, viste o correio? Tinha uma encomenda? Veio da China? E tu abriste? Desinfectaste as mãos logo a seguir? Deixa-a de quarentena, sabe-se lá se transporta um viruzinho amarelo

              Em vez do habitual cabrito ou cordeiro, decidimos democraticamente, fazer umas entradas de covilhetes, seguidos de um bife à casa com batata frita e um pudim de sobremesa. Ou seja, uma refeição especial, igualzinha a todas as outras que se vão repetindo ao longo da semana.

              Eu não faço jejuns, mas fiz o sacrifício de degustar amêndoas de chocolate durante a semana toda, o que equivale por cada 10 amêndoas terei que andar na próxima semana, 10km na passadeira. Certamente isto vai valer um bónus celestial.

              - Oh mãe, o que vai ser o jantar?

              - O que quiseres, sugere algo especial. O quê? uma pizza, mas hoje é dia de Páscoa…

              Flores, no domingo de ramos, não recebi, os afilhados telefonaram-me e disseram, olha a florista está fechada e assim e assado, e eu fingi que acreditei, o que me permitiu fazer o mesmo no dia de Páscoa… pegar no telefone, meus afilhados queridos, as lojas estão fechadas e assim e assado... Serei sempre o reflexo dos outros.

              No início da tarde, fomos para a janela ver se alguém passava na rua. Fizemos apostas, eu apostei numa hora 5 pessoas, o meu filho 2 pessoas. Quem ganhar, lava a loiça do jantar. A nossa rua sofreu grandes melhoramentos, tiraram os automóveis e alargaram os passeios. Mas tal como todos os outros dias do mês e do ano, não passou ninguém naqueles passeios, portanto ficámos a olhar o vazio que existe até à casa do outro lado da rua e durante uma hora sem ninguém para contar.

              - Lavas tu a loiça.

              - Mas ninguém acertou…

              - 2 é mais próximo de zero do que o 5, portanto lavas tu - argumentei.

              - Mas o zero não existe, é um não número… sabes que 2  a dividir por zero é igual a infinito e 5 está mais próximo do infinito, portanto és tu mãe, que vais lavar a loiça.

              - Se 2x0=0 e 5x0=0, então 2=5, ou seja, eu lavo o meu prato e tu lavas o teu.

              - Tás a filosofar, isso não é um silogismo, é uma falácia, mãe! Tu ensinaste- me isso na filosofia.

              - Queres ir dar uma volta de carro? Só podemos circular no concelho… vamos até ao Alvão ver o mar de pedras. Para quê? para largarmos os jogos do telemóvel e esta conversa idiota. Vamos refrescar os olhinhos. Se demoramos?  Não, acho que não, é ir e vir.  Bora lá!

              Entrámos no carro, e o carro não pegou. A bateria finou-se. E agora? E agora teremos que esperar até amanhã, para ir comprar uma bateria nova.

              - Não queres comprar pela net? É mais barata, vem da China. Daqui a 20 dias já a tens cá.

              - Poupa-me e, entretanto ando de táxi… vamos ver um filme, daqueles pesados de Semana Santa, com muito sangue e muito drama para fazermos mais uns pontos celestiais.

              - Mãe, não há folar para comer ao lanche?

              - Então, na pastelaria escolheste folhados de salsicha!

              - Mas eu vejo um folar a sorrir para mim no interior deste armário…

              Uff que Páscoa, sentei-me na poltrona, e semicerrei os olhos.

              - Mãe, já dormes?

              - Não, diz.

              - Afinal o Judas, o que denunciou Jesus, é apóstolo ou não?

              - Não, foi demitido, e substituído por S. Paulo muitos anos depois.

              - Mas o Leonardo da Vinci pintou a última ceia com 12 figuras.

              - 11 apóstolos e Sta Maria Madalena ao lado de Jesus, supõe-se, para não estragar a estética da composição da pintura do Leonardo. 

              … coloquei os óculos escuros e sintonizei rapidamente a imaginação: Maldivas, pós-pandemia, por favor. Fingi adormecer, até arrisquei um pequeno ressono, antes que a conversa resvalasse para a Ressurreição de Cristo,  o Moisés a separar as águas do Mar Vermelho na fuga do Egipto ou até ao sacrifício de Isaac. Já tenho pontos até para troca!

Publicado em NVR em 7/04/2021 - Revoltando os dias

31 março, 2021

MÁRIO VIEGAS E JORGE GINJA -----POEMAS DE LEVAR PARA A GUERRA

 


Amanhã faz 25 anos sobre a morte de Mário Viegas, e ontem tornou-se público uma bobine com poemas declamados por Mário Viegas, que Jorge Ginja evou para a guerra e conservou ao longo da vida. Depois da sua morte, a família parilha.

Dr Ginja sempre a supreender, e Mário inesquecível. Bem hajam.

A referência a Fuenteovejuna, por incrível que pareça assisti a essa peça em Luanda em 1973, representada pelo Teatro Experimental de Cascais. penso que a PIDE pensaria, que nas ex- colónias ninguém perceberia o seu conteúdo.

Clique em (passe o rato)

https://sicnoticias.pt/programas/reportagemespecial/2021-03-30-Poemas-de-levar-para-a-guerra-223a3905?fbclid=IwAR0eWfaESZe-MhSzYprFL_l00PKj6E-tVBFH5aG670bsqb5NZwFtXWHJ1EM

PRIORIDADES


 PRIORIDADES

          Na semana passada Manuela Ferreira Leite, mulher que já teve grandes responsabilidades políticas e uma opinion maker da TV, já que lhe dão canal, afirma que não percebe porque se pretende vacinar professores e que estes estejam agora na linha das prioridades.

          Quando ouvi isto, pensei que a mulher já estava demente, mas conclui, que é mesmo mau feitio e aquela animosidade que nunca a abandonou, contra uma classe profissional.

          Será que é preciso fazer um desenho?

          Imagine que lhe entram em casa/apartamento, 25 criancinhas todas sem máscara, a querer beijocá-la, tocá-la, que se agarram a si, passam-lhe as mãos lambidas pelos móveis da casa, e que, ao mesmo tempo, se vão tocando entre si, entre abraços e retirar a ranheta do nariz. E ficam aí consigo de manhã e de tarde, na sua sala com cerca de 25m2 o máximo, e obviamente, a doutora não vai negar os afectos traduzidos em abraços, que muitos não têm em casa. E vá contando, elas pedem para ir ao quarto de banho, têm mesmo de ir, e esquecem-se de lavar as mãos, querem lanchar quando estão com fome e precisam de beber também.

          Agora, imagine que em vez de crianças, entram-lhe em casa, 25 adolescentes, todos com máscaras, aquelas máscaras que o ministério deu, 3 para usar durante um período. Nunca saberemos quando foram usadas pela primeira vez, se foram lavadas e desinfectadas devidamente. No primeiro contacto desifectam as mãos, respeitam a maioria das regras de segurança, mas depois quando ganham confiança, afinal também se abraçam entre si, trocam materiais, desde as borrachas ratadas até às esferográficas em 2ª ou 3ª mão, folhas de papel e tocam-lhe nos móveis, no computador e vão-se sentando na sua mobília Xis Vi… pousando as mochilas em cima da mesa e dos sofás e… finalmente a setora descobriu que a sua sala, não possui dimensões para que se respeite as distâncias de segurança… e depois de 90 minutos, retiram-se com grande alarido e na sua porta, já estão mais 25, prontinhos para entrar, cada vez mais impacientes, porque andar de máscara complica com os nervos e alguns deixam-na cair para o queixo, tal como fazem muitos adultos, e voltam a ocupar a sua sala, espalhando a sua pegada juvenil por toda a casa.

          A doutora nem tempo tem para passar a esfregona com lixívia, nem o desinfectante onde os anteriores tocaram… Mais 90 minutos e outros repetirão a dose até perfazer mais de 5 horas, depois saem todos e deixam-na em sossego durante a hora do almoço.

          Vai respirar de alívio, colocará o lenço sobre o penteado estruturado em ripanço e laca, abrirá as janelas, rapidamente irá à despensa organizar o material de limpeza, passar a esfregona pela casa toda, borrifar o sofá, passar toalhetes nas cadeiras e vai perceber que alguns puseram as mãos nas cortinas e não as pode lavar, outros deixaram a ranheta e a chiclete plasmadas por baixo da sua mesa ou nas costas das cadeiras.

          Tocam à campainha, que chatice recomeça este pesadelo, entra mais um grupo de 25, com a euforia de pós-almoço, querem falar consigo, querem trocar papeis, a doutora não ouve bem, pede para eles falarem mais alto, e eles vão aliviando a máscara do nariz para o som sair…ufff alguns cheiram a transpiração e a chulé, uhhhh não estava a contar, pois não? mas ainda há aquele que disfarçadamente solta uma bufa, outro espirra e tira a máscara em simultâneo, e o outro, tosse. Percebe que afinal dois ou três estão com sintomas gripais, e estão ali, desconfia também que a família de outros estão doentes, porque os viu na fila Covid do centro de saúde, mas mandaram os filhos para a sua casa. A maioria usa transporte escolar, tudo a monte e fé em Deus e lá chegam eles todos felizes à sua casa, onde a setora e os seus colegas, que se encontram também com estes e outros jovens, os recebem e que não precisam de ser vacinados.

          O problema, sabe qual é ? é que a sua casa vai ser “invadida”, na segunda-feira, na terça, na quarta, na quinta e na sexta e na semana seguinte, repete-se.

          Afinal porque é que os professores deverão ter prioridade na vacinação?

          Já percebeu? Não percebeu, então imagine que todos os seus vizinhos, espalhados por cerca de 30 apartamentos, recebem também visitas e em número semelhante, e que eles sobem e descem as escadas a cada 90 minutos, passando as mãos nos corrimãos, encostando-se… Será que assim está a ver o desenho tridimensional do contágio.

          Ainda bem! 

          Os brasileiros costumam dizer a propósito, aguarrás no cú dos outros é refresco para mim.

Publicado em NVR -  31/03/2021

30 março, 2021

JULGAMENTO DO JOÃO PINTO DE ANDRADE

Neste dia 30 de Março de 1971, os três juízes do Tribunal Plenário de Lisboa – Fernando António Morgado Florindo, Bernardino Rodrigues de Sousa e João de Sá Alves Cortês – ditavam a sentença de um processo de dez pessoas acusadas de apoio ao MPLA, Movimento Popular de Libertação de Angola.

A presença entre os arguidos do Presidente de Honra do MPLA, Padre Joaquim Pinto de Andrade – antigo chanceler da arquidiocese de Luanda e à data da prisão a frequentar a Faculdade de Direito de Lisboa – garante a curiosidade internacional e há na sala delegados da Amnistia Internacional, Associação Internacional dos Juristas Democratas, Liga Belga dos Direitos do Homem, Federação Internacional dos Direitos do Homem e Associação Internacional dos Cristãos Solidários.

O padre Pinto de Andrade fora preso pela primeira vez em Luanda, em 25.7.1960, enviado para o Cadeia do Aljube, em Lisboa, poucos dias depois; desterrado seguidamente para a Ilha do Príncipe, regressaria ao Aljube em 1961. Seguiram-se residência fixa e clausura no Mosteiro de Singeverga; nova prisão na PIDE da cidade do Porto e nova transferência para o Aljube, de onde é libertado a 5.1.1963, é libertado apenas para ser sujeito a nova prisão na cadeia de Caxias – «Completava eu 177 dias de prisão preventiva e sem culpa formada. Faltavam três dias para o máximo permitido por lei. Fui posto em liberdade, mas… preso imediatamente a seguir à porta da cadeia do Aljube e transferido para Caxias! No dia 8-1-63, conduzido à sede da P.I.D.E., fui ali informado de que fora posto em liberdade três dias antes e preso de novo à porta da cadeia… porque novas actividades subversivas haviam sido desenvolvidas dentro da cadeia ou à porta da cadeia.» Após 389 dias de prisão ininterrupta sem culpa formada, é colocado em residência fixa no interior do Alentejo. Nova prisão em 24.1.1964, nova colocação em residência fixa num seminário de Vila Nova de Gaia. Preso de novo em Abril de 1970 é finalmente levado, em 1971, a tribunal.

Com Pinto de Andrade, de 44 anos, sentam-se, no banco dos réus, sete outros homens e duas mulheres mais jovens e, com duas excepções, todos naturais de Angola. Todos eram acusados de serem militantes ou simpatizantes do MPLA.

A sentença determina 4 anos e meio de prisão maior e 2 anos de multa para Álvaro Sequeira Santos e Garcia Neto, 3,5 anos de prisão e 2 de multa para Rui Ramos, 3 anos de prisão e 2 de multa para Joaquim Pinto de Andrade, 2,5 anos de prisão e 2 anos de multa para Ferreira Neto, 20 meses de prisão e multa para Diana Andringa, 18 meses de prisão e multa para Raul Feio e Fernando Sabrosa, 16 meses de prisão e multa para José Ilídio Cruz. Maria José é absolvida, após 13 meses na prisão.

Entretanto, vários outros jovens presos em Angola com ligação ao mesmo processo, foram enviados, sem julgamento, para o campo de concentração do Tarrafal, onde lhes foi dado conhecimento de que lhes haviam sido aplicadas administrativamente penas de 6 a 10 anos de prisão.

Artigo de Diana Andringa

Hoje o Museu do Aljube Resistência e Liberdade, através deste encontro, associa-se a esta iniciativa de homenagem a Joaquim Pinto de Andrade, e a todas as mulheres e homens que lutaram pela libertação e independência de Angola.

Intervenientes: Diana Andringa, Ferreira Fernandes, Mário Brochado Coelho, Adolfo Maria e Ondjaki

Conversa transmitida online nas nossas redes sociais, dia 30 de março às 15h.



 VER AQUI

28 março, 2021

PARA ROMA MEU AMOR


 PARA ROMA MEU AMOR

Realizador e actor Woody Allen

2012

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27 março, 2021

DIA MUNDIAL DO TEATRO


Saber mais em

https://outraspalavras.net/descolonizacoes/teatro-do-oprimido-50-anos-de-desalienacao/

SAUDANDO A PRIMAVERA


 Saudando a primavera, quanto mais longe mais perto de ti, nesta inconstância da vida em que um minuto de felicidade pode representar a eternidade. Escutos os teus segredos, acaricio o teu olhar e perco-me no teu abraço.  

24 março, 2021

UTOPIAS

 

UTOPIAS


“A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”– Fernando Birri, citado por Eduardo Galeano in ‘Las palabras andantes?’ de Eduardo Galeano. publicado por Siglo XXI, 1994.

            Somos sonhadores, temos esperança, porque acreditamos nestas palavras sobre a utopia. Imaginamos outro mundo, acreditamos num mundo melhor e vamos esquecendo os maus momentos e reinventamos os bons. Todos nós teremos as nossas utopias. Tudo aquilo que desejamos e temos consciência que nunca atingiremos, fica guardado numa gaveta com esse nome. Não fica esquecido, pelo contrário, é sempre aquela luzinha que brilha para nós diariamente, fazendo-nos avançar, mesmo sabendo que nunca chegaremos lá. É um farol que nos orienta no presente em direcção a um futuro, que pode não ser aquilo que desejamos. Mas ela está lá, teimosamente lembrando-se e lembrando-nos, recusando-se a integrar a memória descrita e justificativa dos nossos projectos, mas sim, desenhando a espiral do sonho que nos faz estar vivos. Se não acarinharmos essa utopia, a realidade converte-se em mais dura e incompreensível, atando-nos os movimentos e tornando-nos cegos, mergulhados no escuro desse caminho sem esperança de nada. Sem utopia caímos na resignação, o nosso sorriso desfaz-se e a tolerância mirra. São muitos os desertos que atravessamos na vida e os desertos não se atravessam sozinhos num contexto de desesperança. Se abandonarmos a nossa utopia, seremos engolidos em plena noite fria do deserto, abandonando o presente e o futuro, cairemos num vazio existencial, incapaz de se suavizar quando escutamos a nossa identidade e ou quando julgamos ver um oásis.

            Existem também as utopias da sociedade, que são tão antigas como a própria humanidade. Perdemos a utopia da República de Platão, perdemos a utopia do Jardim do Éden, apenas os cristãos ainda a possuem, perdemos a utopia de Atlântida, perdemos a utopia de  Thomas More no tempo das descobertas de novos continentes e novos mundos, perdemos a utopia do Contrato Social de Rousseau, perdemos a utopia do comunismo de Karl Marx e diáriamente perdemos a utopia da sociedade neoliberal, que cada vez mais se traduz em contrastes sociais… felizmente perdemos também as distopias do Nazismo e do Fascismo.

            Hoje o “descrédito” das utopias sociais leva-nos para a chamada retrotopia, orientada pelo individualismo e pela busca do passado, como se fosse possível enganar o tempo e repetir modelos, tal como os saudosistas pretendem e andam a suspirar pelos cantos.

            Caros leitores começou a primavera boreal, esta é a única retrotopia em que acredito, a renovação da vida e da natureza, que herdamos anualmente da tradição pagã e nos faz abrir a gaveta das utopias e gerar mudanças em nós mesmos e sempre para melhor.  

Imagem – fotomontagem a partir de: https://segredosdomundo.r7.com/utopia/

Publicado em NVR em 24/03/2021

PORTUS CALE

Olhar o rio, 

um olhar de descanso, 

após atravessar ruas e vielas, 

neste Porto sentido, 

em muitos dias festejado 

esperando-te

esperando-me, 

um toque de mãos. 

todas as vezes renascido 

numa cidade de nós.

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20 março, 2021

BRANCA DE NEVE E O CAÇADOR


 "BRANCA DE NEVE E O CAÇADOR"

  Rupert Sanders

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19 março, 2021

GEOMETRIAS


 Secantes e tangentes asssumem-se com seduções próprias

Ora exaltando-se, ora harmonizando-se

Quem quer ser secante? Quem quer ser tangente?

Quem quer ser carmim? Quem quer ser anil?

 Quem quer ser rubi? quem quer ser água-marinha?

As secantes são movidas por paixões avassaladoras e mistério

As tangentes tocam-se como expressão do mais belo romantismo

O que será mais forte e vibrante do que uma secante?

Haverá algo mais belo que o toque suave e singelo?

Onde se adivinham novas geometrias? 

Num turbilhão de uma espiral  ou num beijo terno, doce e delicado ?

Venha o universo e escolha!

Tudo, menos um ponto perdido num quadrante qualquer.

17 março, 2021

2021 Ano Europeu dos transportes ferroviários

 


2021 Ano Europeu dos transportes ferroviários

 

            A UE definiu 2021 como o Ano Europeu do Transporte Ferroviário para promover o uso dos comboios, como modo de transporte seguro e sustentável.

            A decisão, adoptada pelo Conselho a 16 de Dezembro, está directamente ligada à intenção da União Europeia (UE) em promover modos de transporte respeitadores do ambiente e alcançar a neutralidade climática até 2050, no âmbito do Pacto Ecológico Europeu.

            Aproveito para lembrar mais uma idiossincrasia desta cidade: concluiu-se a requalificação da zona da antiga estação de caminho de ferro, em nome de uma maior humanização das cidades, evidenciando o direito dos peões em detrimento dos automóveis, numa perspectiva muito dignificante de uma urbanidade inclusiva, porém, ainda não se percebeu qual será o destino do edifício da Estação dos Caminhos de Ferro e respectivos anexos.

            Passarão por aqui as Infraestruturas de Portugal ou as Águas do Norte? Ou o já anunciado hotel de charme?

            Já lhes chamam a antiga estação, para nos irmos definitivamente habituando à ideia, que a Linha do Corgo, nunca mais será reactivada, ou seja, o Pacto Ecológico Europeu, ficará na gaveta.

            A mobilidade sustentável e segura, atribuída aos caminhos de ferro, será parâmetro a desconsiderar em Vila Real, mesmo com uma pandemia que nos demonstrou que o transporte ferroviário é a garantia de transporte rápido de bens essenciais, como alimentos, medicamentos e combustível em circunstâncias excepcionais.

            Os vila-realenses, ficarão apenas com memórias induzidas por uma máquina que virou escultura de jardim, um Cais da Bila onde se pode ir beber uns copos, uma ecovia Régua | Chaves para ciclistas (no futuro todos seremos ciclistas) e o grande enigma, o edifício da estação, que tomará uma função irreversível,  bloqueando e inviabilizando qualquer intenção futura de renovação da linha, para aceitar a sua função original e a filosofia europeia. 

14 março, 2021

DIA DE ANIVERSÁRIO COM AMIGOS


 Em dia de aniversário após dezenas de mensagens de amigos, que já partilharam comigo bons momentos em vários locias e em diversas circunstâncias, deixo aqui um carinho, tentando corresponder a momentos inesquecíveis, umas vezes de luta e outras de lazer.

https://drive.google.com/.../1x5HtxXH.../view...

11 março, 2021

LABIRINTO VEGETAL




 LABIRINTO VEGETAL

AUTORA: arq. Anabela Quelhas

Localização: Escola Monsenhor Jerónimo Amaral

Data: 1998

Labirinto vegetal implantado em espaço sobrante entre pavilhões escolares, inscrito em espaço triangular com dois niveis. Um muro de suporte decorativo estabelece a transição entre as duas cotas.

Cria-se o labirinto como oportunidade de resolver espaço exterior agreste e como elemento de aprendizagem e de lazer, através de sucessivos aros de circunferencia concêntricos, ora ligados, ora interrompidos até se aceder ao espaço denominado de recompensa.

O elemento vegetal será formado por sebe  em buxo, planta da família Buxaceae, lenhosa, em geral arbustiva, com folhas inteiras e perenes, que se preve que durante 5 anos atinja a altura devida.

Recompensa - assentamento de 4 paineis de acrilico em forma piramidal, com explicação gráfica e narrada sobre a história dos labirintos e estudo de 3 casos de labirintos portugueses - Labirinto da Prelada (Porto), Jardim de S. Roque da Lameira (Porto), Conimbriga (mosaico).

"A arte reduz a agressividade dos alunos e é bom habitar na escola."



10 março, 2021

DIA DA MULHER



DIA DA MULHER


           Hoje vou escrever sobre uma aldeia que existe no Norte do  Quénia desde 1990, que foi criada só para mulheres.  Rebeca, a líder da aldeia, depois de um casamento onde era brutalmente espancada, decidiu juntar-se a outras mulheres, vítimas de violência e criou uma aldeia sem homens.

            Essa aldeia chama-se UMOJA.

            A cultura de Samburo (Quénia) permite que as mulheres sejam espancadas, estupradas, que casem ainda crianças e sejam submetidas à prática odiosa da mutilação genital. A mulher é propriedade do homem podendo violentá-la, martirizá-la e ate tirar-lhe a vida

            Algumas meninas de 12 anos são obrigadas a casar com homens que tem a idade para serem seus avôs, passando a ser sua propriedade.

            Tudo isto é demasiado mau.

            Apesar dos pedidos de protecção dirigidos às autoridades, nada mudou, porque faz parte da cultura dessas pessoas. As tradições são respeitadas mesmo que sejam desumanas e violentas para as mulheres, consideradas seres menores.

            Então, 14 mulheres sobreviventes de violência, uniram-se e criaram uma aldeia sem homens, para que pudessem viver em paz, de forma digna e podendo proteger outras mulheres e as meninas suas filhas.

            Essa acção não foi bem recebida pelos homens, que inicialmente julgavam que elas eram fracas, não conseguiriam construir as casas das aldeias e criaram vários obstáculos; mas elas conseguiram.

            Escolheram um terreno, chamaram-lhe UMOJA, e construíram tudo sozinhas, casas com estrutura feita de ramos de árvores e com barro e ainda decidiram comercializar as suas joias artesanais, exuberantes, feitas de missangas coloridas, vendendo aos turistas. Com esse dinheiro construiram uma escola, porque entenderam que a educação é muito importante no crescimento das crianças, ensinando-as a respeitar as mulheres.

            UMOJA é uma aldeia matriarcal, onde as mulheres são autónomas, cantam, dançam, criam os filhos em paz, sem a presença dos homens. Nenhum homem pode morar ali, nem mesmo os seus namorados. As mulheres têm os seus namorados e estes só podem permanecer ocasionalmente na aldeia se respeitarem as regras das mulheres líderes. As crianças do sexo masculino crescem e podem ficar na aldeia até aos 18 anos.

            Esta comunidade tem cerca de 100 mulheres, 100 mulheres sofridas que lutam pela sua dignidade e cada uma tem também uma história de sucesso. As mulheres quando têm oportunidade, tal como os homens têm capacidades para liderar, para administrar negócios, infelizmente na maioria das situações as mulheres nem sequer têm oportunidade para provar o seu valor ao mundo.

            UMOJA é considerada um exemplo reconhecido em todo o mundo como matriarcado bem-sucedido

            O Mundo talvez fosse muito melhor, se fosse orientado por mulheres, visto que faz parte da sua natureza, gerar vida, ser resiliente e proteger.

            Enquanto houver UMOJAs assinalarei esta barbárie da discriminação.

            Segundo a ONU, as mulheres continuam a ganhar menos 23% do que os homens. Mais grave ainda, são os números relativos à violência sexual contra as mulheres: 1 em cada 3 mulheres já sofreu algum tipo de violência física ou sexual; e mais de 200 milhões de mulheres e de raparigas foram vítimas da mutilação genital.

              Em Portugal, no primeiro confinamento a APAV recebeu 683 denúncias de violência. Em 2020 foram assassinadas 30 mulheres.

Publicado em NVR 10/03/2021


 

LABIRINTO DO PECADO - Lucca


 

A inscrição ao seu lado direito faz referência ao mito de Teseu e Ariana no labirinto do Minotauro. 

Estranho estar localizado junto à entrada de um templo critão -  catedral de Lucca.  Mitologia e religião cristã, não combinam bem.

2ª interpretação: dizem ser uma ligação com os Cavaleiros Templários devido à semelhança com o desenho do piso da Catedral de Chartres na França. 

3ª interpretação: o labirinto simbolizar a representação do “labirinto do pecado”, onde após entrar, é difícil sair.

Curioso!

(Diário de viagem, Lucca 2012)

08 março, 2021

05 março, 2021

MOREIAS

 

(depois de alguma investigação)

Moreia ou meda [Portugal: Trás-os-Montes] -  Monte de cereais, feno, estrume ou de paus com forma cónica. Em Trás-os-Montes é vulgar utilizar-se para proteger o feno quando chove, visto que o feno bem esticado forma uma camada exterior, impermeável , protegendo as camadas internas.

As moreias ou medas são de fácil construção e de baixo custo, podendo ser feitas no próprio campo de produção do feno ou junto ao estábulo, em local plano, bem drenado.

A sua forma cónica; com altura igual a duas vezes o diâmetro da base, assegura uma maior estabilidade da meda e protecção contra as chuvas.

O tamanho da moreia depende da quantidade de feno, devendo-se limitar a 4 m de altura. Acima disso, o manuseio do feno é dificultado, sendo apropriada a construção de maior número de medas menores, se necessário. A densidade do feno em medas varia de 80 a 100 kg/m3.

A maioria das moreias ou medas possui um mastro de madeira central que garante a estabilidade da mesma. A compactação das camadas de feno, faz-se pisando-as,  até a moreia atingir a altura desejável, observando-se a configuração recomendada.

 “Pentear a moreia”, usa-se o engaço ou o  furcado, para facilitar o escoamento da água da chuva. No final pode-se cobrir o topo com uma lona de plástico, protegendo-a contra as chuvas.

Moreia  é uma palavra de origem latina, porém, é curioso, existe a mesma palavra para designar a acumulações de fragmentos rochosos transportados pelos glaciares.

Os glaciares são enormes massas de gelo que se deslocam sob a acção da gravidade (escorrem das montanhas), arrastando consigo fragmentos que são depositados nas partes mais baixas sob a forma cónica, designadas por MOREIAS.

AQ


24 fevereiro, 2021

OLÁ MUNDO


 Olá Mundo

            O Homem já foi à Lua, alguns não acreditam, mas foi.

            Agora o veículo Perseverance pousou em Marte, o 4º planeta do nosso Sistema Solar, localizado a: 227 900 000 km do Sol e baptizado com o nome do Deus Romano da Guerra.

            O que leva o Homem a explorar o espaço?

            Todas as explorações representam investimentos financeiros muito elevados, porém, existem motivos importantes que o  justificam, para além do enorme orgulho dos países que as suportam.

            Os satélites resultantes deste investimento na área da exploração espacial são absolutamente fundamentais para estudar o meio ambiente, o impacto causado pelas mudanças climáticas, a possibilidade de se utilizar a internet, GPS, telefone, …

            Já pensou que as imagens que surgem no nosso computador do google mapas, quando vamos procurar a localização da torre Eiffel ou a rua da nossa amiga Rosinha, não seriam possíveis se não fossem os satélites que orbitam à volta da Terra.

            Os satélites conferem-nos a capacidade de comunicação, e rápida, a longas distâncias…. falar para o Canadá, para Angola, para Pequim e… mesmo aqui para perto, para Mirandela, para Lordelo, é possível graças às telecomunicações via satélite.

            e os satélites não são acessórios naturais do planeta Terra, inventados pelo Grande Arquitecto, quando da criação do mundo. Não. Foi o Homem que os inventou, testou e os colocou lá.

            Na saúde e no bem-estar temos aparelhos de diagnóstico utlizados pela medicina, resultantes dos progressos tecnológicos impulsionados pelos investimentos nas viagens espaciais; as farmacêuticas recolhem conhecimento desenvolvido no espaço para depois o aplicar na manufatura de medicamentos.

            A avaliação sobre os investimentos nesta área deve ser bem ponderada porque a sua importância é muito maior do que se imagina. O desenvolvimento e aperfeiçoamento de tecnologia acaba por reverter na criação de produtos utilitários destinados aos comuns mortais, que somos nós.

            A Perseverance acaba de pousar em Marte (19/02) e o seu grande objectivo  é procurar vestígios da existência de vida passada, na cratera Jezero onde se pensa ter existido um lago há 3,5 bilhões de anos. Mais um sucesso da NASA. Quando se fala de Espaço, os números têm sempre muitos zeros à direita. Os primeiros sinais de vida terrestre surgiram precisamente nessa era, daí o grande interesse em obter amostras e estudar o nosso planeta vizinho, que com a dinâmica do tempo, a sua atmosfera transformou-se, e de planeta azul, passou a vermelho, formado por um imenso deserto congelado.

            A missão oficial durará cerca de dois anos, com explorações na área onde entrava um antigo rio e outra, na saída dessas águas, onde serão os lugares mais prováveis para existirem vestígios de moléculas orgânicas.

            Olá Mundo.

20 fevereiro, 2021

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


 o ano da morte de Ricardo Reis

o livro

Saramago

Pessoa 

Ricardo Reis

Botelho

o escritor, o poeta, o heterónimo e o cineasta

a união perfeita 

o acto criativo

 - a receptora de tudo numa tarde de um tempo sem tempo, ajustando o tempo - 


Só para bookaholics

17 fevereiro, 2021

A MANIPULAÇÃO PSICOLÓGICA


 A manipulação psicológica

            Segundo o dicionário, manipulação significa:

“Intervir no desenvolvimento de determinado sistema ou processo, com vista à alteração da sua evolução natural.  Condicionar, influenciar, geralmente em proveito próprio. Adulterar, falsificar.”

            Ao longo deste processo pandémico ouvimos, mesmo sem querer,  o “discurso do contra”- é no diálogo com os amigos, é na espera na fila da farmácia, é na rede social… partindo de pessoas, que não o fazem, na maioria das vezes, com um propósito consciente, mas que o fazem, porque o mal dizer, faz parte da nossa cultura.

            Apetece sempre perguntar, então o que farias se fosses Ministro da Saúde? Qual é a solução brilhante que tens para resolver o problema que nos afecta a todos? Como conciliar todos os parâmetros que aqui estão bem visíveis, a saúde, o trabalho, as relações sociais? E afinal como cidadão, o que tens feito?

            “Porque o Costa facilitou no Natal.” Verdade, e se não tivesse facilitado? Qual seria o discurso do contra? Foi o Costa que veio passar o Natal com a minha família?

            A manipulação psicológica é uma corrente de influência dirigida através da sociedade, que visa mudar o comportamento ou a percepção dos outros, através de subterfúgios e discursos enganosos, orientados para a dissimulação. Quando são realizados de forma consciente são considerados desonestos e há muitos truques para nos confundir e os converter num sucesso, criando sempre a ilusão que somos alertados por mentes superiores.

            Esta forma de acção intencional dirigida e focada, para além de gerar, dúvida e questionamentos, nunca tem como intenção a persuasão no sentido da melhoria e da resolução dos problemas, mas sim um movimento de fundo invisível, capaz de destabilizar as pessoas, sugestioná-las nas suas avaliações pessoais, apelando e jogando estratégicamente no tabuleiro das nossas fraquezas e receios emocionais, gerando o medo, a depressão, o descontrole e, neste caso, apelando descaradamente para o não cumprimento de regras profiláticas essenciais e básicas para a nossa protecção.

            Por trás de um discurso afável, amigo, esconde-se o discurso de manipulação psicológica, escolhendo a vulnerabilidade da vitima, e escondendo a perspicácia cruel do manipulador que se alimenta da dor alheia - reduzir a força de vontade do outro, semear a dúvida, apontar defeitos, deturpar a realidade, criar discussão e mal entendidos.

            Nesta caso da pandemia, os manipuladores não apresentam soluções porque não as têm, citam experiências na China que não existem, sublinham teorias e investigadores falsos e alimentam a onda de fundo invisível que só tem um obectivo: destruir politicamente quem está no poder, criar medo, destabilizar, gerar o caos. Apresentam conversas sem sentido, teorias geradas lá do outro lado do mundo, que ninguém testou ou comprovou, generalizam factos sem análise e sem avaliação concreta, procuram abalar a nossa auto-estima induzindo-nos a repensar em tudo o que acreditamos e o que consideramos lógico e justo.

            Parem lá com a teoria dos chineses, eles já cá estão e dominam o comércio. Estamos no século XXI, e ao longo da História, o comércio e a manipulação das mentes são a origem de toda a dinâmica de avanços e recuos civilizacionais.

            Boa semana e não vão em conversas, deixem de ser marionetas e pensem por si.

11 fevereiro, 2021

TATTOO

Tatoo

              Ainda não consegui fazer tatuagens. Decidir por algo tão definitivo, perturba-me, já que tenho consciência, que vivemos num mundo em mudança permanente e rápida e eu, mudo ainda mais rápido do que o mundo.

              A tatuagem parece ser um relato de vida, utilizando como meio de expressão, tinta aplicada num suporte vivo, a pele humana. A sua origem perde-se no Antigo Egipto. Na civilização ocidental  moderna chega-nos através dos marinheiros ingleses, os lobos-do-mar, com as suas aventuras registadas em forma de monstros marinhos, esqueletos, caveiras, testemunhando a sua coragem e bravura, até ao ponto de resistirem a marcas violentas realizadas propositamente sobre a pele. Esta forma de expressão aparece nos sítios que estes marinheiros frequentam, normalmente tabernas, prostíbulos, pensões baratas e passa a conectar-se negativamente, como uma opção marginal.

              Só no final do século XX é que a tatuagem ultrapassa as barreiras do preconceito e passa a ser símbolo de rebeldia, ousadia e de contestação, seguido de registo de vanguarda do mosaico de identidade personificado de uma faixa juvenil e finalmente adoptado como opção de expressão subjectiva de homens e mulheres com mais idade. Começa com a marca da guerra colonial, que muitos gravam antes de partir, “amor de mãe”, “Amo-te Gabriela”. “Comandos na Guiné 1967/1969” e hoje assume contornos artísticos conhecidos como Tattoo.

              O desenho narrativo utilizado é legível pelo próprio, e também pelos outros, atrevendo-me até a afirmar, que a leitura dos outros é mais frequente do que a do próprio, já que se converte em presença constante na comunicação visual. A tatuagem que efectivamente tem uma mensagem, pouco ou nada significa para o receptor, “O outro”. “O outro”, o que lê? Lê uma área da pele, que contém um desenho nem sempre esteticamente criativo, com uma linguagem que nem todos entendem, nem querem entender, devido à matiz pessoal. Comparo uma tatuagem ao código de barras que alguém possa a imprimir na pele, ao tele-texto a passar na nossa testa, ou seja, uma exposição da intimidade de cada um, como se vestíssemos um manto da nossa verdade imutável, numa época em que todos querem preservar a sua intimidade, proteger os seus dados e a sua imagem. É no mínimo contraditório.

              A maturidade permite-me reflectir um pouco sobre as consequências, porque está mais do que provado, que este pormenor atrapalha por vezes as perspectivas de trabalho dos jovens, e que com o andamento da vida, deixamos de gostar das mesmas coisas e aquilo que foi sobrevalorizado numa época, não tem qualquer importância na outra, levando ao arrependimento sobre o acto.

              Começa sempre pela aplicação de um pequeno símbolo escolhido em catálogo, porque a imaginação não dá para mais, em local especial, que fica em destaque e depois torna-se quase viciante cobrir a pele com outras divagações pictóricas, já mais bem pensadas, numa geografia inestética inconsciente e frequentemente em desiquilíbrio entre a figura e o fundo. Seja qual for o suporte, a arte equaciona diversos parâmetros, que poucos sabem equilibrar.

              Alerta: em 2016 existiam 60 milhões de tatuados no mundo, entre os 18 e os 35 anos em que, 7,5 milhões estariam seriamente arrependidos de se ter tatuados. Uns, por motivos de saúde - complicações resultantes de infecções, irritações crónicas e queimaduras, efeitos a longo prazo no seu sistema imunológico, ausência de condições ideais para realizar radioterapias e outras terapêuticas impossíveis de prever – outros, porque já não se identificam com aquelas marcas da pele, que viraram a sua sombra eterna.

              O número de pessoas tatuadas cresce, esta postura virou moda, e os serviços de remoção com laser, nem sempre bem-sucedidos, crescem também, registando o descontentamento de muitos, deste acto altamente agressivo para a nossa pele.

              Este vínculo inapagável, pode também representar não amar o nosso corpo, distraindo a visão com a ilusão gráfica.

              Eu detestaria olhar diariamente para um grafismo ou um símbolo, que passados anos, eu quero esquecer e não lembrar, composições gráficas que adorei antes, e hoje acho obsoletas e ridículas. Andar vestida sempre com a mesma roupa, para mim, já não é bom, e deprime-me, mas ter uma roupa interior que nunca conseguiria despir, seria traumatizante, pouco sensual e pouco poético. Seria transportar grilhetas a prenderem-me continuamente ao passado, não me permitindo evoluir como pessoa e viver a dialéctica do meu mundo interior, sempre em contínuo desconforto, limitando a minha liberdade. O meu corpo será sempre uma tela cheia, naturalmente mutável, sem grafismos redutores.

              Alguns dirão que há situações que valem para eternidade justificando uma boa tatuagem, e eu diria que nada é eternamente válido sob a mesma forma visual.

              Maneiras de pensar.

Publicado em NVR 10/02/2021

07 fevereiro, 2021

O SILÊNCIO DO KISANJI - análise parte II

 


O Livro 

Objecto de culto. Como tal tem toque, tem peso, tem imagem e tem cheiro. 

Companhia é outras das suas funções. Não existe solidão quando há um livro por perto.

O Silêncio do Kisanji é um objecto muito bonito, talvez dos mais bonitos que já tenha manuseado. 

Capa e contracapa com uma estética irrepreensível, carregadas de detalhes plenos de informação e conteúdo. Cores africanas num sóbrio pano que embrulhando o livro,  sobre ele são impressas, em lettering de fontes bem escolhidas, as informações habituais, nome do autor e título da obra. Destaco a preocupação do deixar a bainha com a impressão da origem do pano, o que, para além de autenticar a sua origem, nos indica que tudo foi pensado ao mais ínfimo pormenor. 

Discretamente, a autora deixa a marca do seu país de origem, homenageando-o com as cores da sua bandeira, sendo também, mais uma prova inequívoca da latitude do tema.

 Por último a escolha dos materiais que, sendo agradáveis ao toque e de muito boa qualidade, aumentam o prazer de quem gosta de manusear um livro.

 Interior da capa de muito bom gosto. Sobre um fundo negro, a autora espreita-nos com um sorriso de Boas-vindas e, num resumo biográfico, dá-nos de forma implícita, a informação do conteúdo do livro. Temos de o ler para percebermos que a sua escrita está intrinsecamente ligada ao seu percurso de vida. 

Finalizo com a apreciação do interior da contracapa. Discretamente, porque este objecto prima pela discrição, daí a sua elegância estética, o final mostra-nos que os personagens são reais e, estando atentos, também por aqui temos estórias para ver. 

O Silêncio do Kisanji, obriga-nos a uma leitura atenta, desde a capa até à contracapa. 

O Título 

Em terra de ritmos e de múltiplos sons, mas também dos silêncios que a grande dimensão proporciona, fácil seria escolher um qualquer instrumento entre muitos daqueles que todos se lembrariam à primeira. Contrariamente, fugindo à banalidade óbvia de um batuque, a escolha recaiu sobre o kisanj, instrumento de origem angolana. Mais uma mensagem implícita a qual se vai percebendo ao longo do percurso da leitura.


03 fevereiro, 2021

ENTROPIA PSICOLÓGICA


 

Entropia psicológica

              Quando era jovem, surpreendi-me, quando me pediram para desenhar um triângulo equilátero e eu desenhei-o, com um vértice voltado para cima, completamente estável, apoiando um dos lados, no plano horizontal inferior. A análise desse acto espontâneo serviu para alguém me alertar, que estava despreparada para a mudança e para a instabilidade, e isso seria o que iria enfrentar no resto da minha vida. Talvez tenha sido uma das grandes lições de vida – um acto simples, que revolucionou o meu interior. Sou grata até hoje, a quem despoletou aquele meu desconforto interior, abalando todas as minhas certezas e todo o meu guião de vida, que eu entendia como bem planeado e infalível.

              Naquela época apesar de já ter sofrido algumas reviravoltas na vida, continuava a aspirar pela estabilidade e continuava sem preparo para enfrentar incertezas. A família protege-nos, criamos rotinas, desenvolvemos crenças e valores, mas, na verdade somos uma bolha de ilusão e de falsa estabilidade. O mundo encontra-se em permanente mudança e é necessário e urgente saber transformar a incerteza em equilíbrio mental, para não afundarmos na entropia psicológica, nestes dias feios da pandemia.

              E o que é a entropia psicológica?

              Entropia é um conceito com origem na termodinâmica, segundo o qual, os sistemas tendem a derivar para um estado de caos e desordem. Na psicologia, este conceito relaciona-se com quantidade de incerteza e desordem que existe dentro de um sistema e como somos capazes de encontrar equilíbrio no caos que nos afecta.

              A nossa mente possui algo de fabuloso, que é ser dotada de mecanismos, capazes de reagir contra a entropia. É o nosso instinto de defesa, que conserva a nossa identidade e o que nós somos, porém, o nosso mapa estratégico sobre o mundo e os nossos modelos cognitivos são insuficientes para nos antecipar e nos preparar para o que vai acontecer a seguir. E quanto mais violento e imprevisível é o que vem a seguir, mais facilmente nos aproximamos do caos da entropia, porque ficamos sem referências, sem tecto, e perdemos o sentido crítico para avaliarmos correctamente as situações.

              Só temos dois caminhos, ou cair no poço e afundar, ou tentar ficar à superfície, contrariando o processo, reorganizando o nosso interior e procurar novos pontos de equilíbrio, num contexto de tolerância da incerteza – é o triângulo com o vértice direccionado para a parte inferior, com equilíbrio estudado e tentado em continuidade.

              Toda a aprendizagem se faz nesta tentativa de equilibrar o triângulo invertido. Converter a dor em força, alinhando estruturas colapsadas, flexibilizando conceitos estáticos, transformando angústias e ansiedades em certezas provisórias, abrir a mente a novos paradigmas e apelar constantemente à nossa criatividade e renovação. Esta dialéctica de crescimento confere-nos maior riqueza interior e uma melhor adaptação ao mundo que não para, tornando-nos flexíveis e tolerantes. Chama-se a isto evolução consciente.

              Resistir à mudança é alimentar a nossa entropia psicológica, que está sempre preparada para nos acolher em estado depressivo, fechando-nos para a vida, retendo-nos no maior pântano de nós. Aprenda a compreender a incerteza e a viver bem com ela. O seu bem-estar depende dessa gestão equilibrada entre aquilo que somos e o que o mundo nos oferece.

Publicado em VR, 3/02/2021

O SILÊNCIO DO KISANJI - análise - parte 1

 


Questiono-me sobre a legitimidade da minha apreciação, sendo eu um dos personagens implícitos, inclusive fazendo parte do rol de anónimos a quem a autora também dedica o livro, hesitei.

 Contudo, a honestidade da narrativa, obriga-me ao distanciamento do meu personagem, colocando-me na posição de leitor anónimo e descomprometido. Acto dificílimo, tratando-se de Luanda, cidade lar e terra onde pertenço.

A apresentação gráfica facilita a leitura não faltando apontamentos, em rodapé. de informação histórica que enquadram a narrativa no tempo e, em simultâneo, ajudam a entender a sequência do texto.

Uma nota especial para os salpicos de poesia com os quais Anabela Quelhas, em nome próprio ou sob pseudónimo, vai entrecortando a prosa.

 Estamos perante uma estória de amor e, profundo. Amor pela terra onde nasceu, de onde saiu e a ela em menina, regressou para de lá ser “tirada” contra vontade, já quase mulher.

 Com o som de um Kisanji como música de fundo, a estória vai sendo contada, sempre na primeira pessoa, recorrendo muitas vezes à linguagem que então se usava, sobretudo entre a juventude, que sendo uma estória de amor, recusa, no entanto, a banalidade dos enredos e detalhes, técnicas pobres de escrita a que alguns recorrem para prender o leitor. Não obstante, é difícil não a lermos de seguida até ao fim.

 Sem complexos nem estigmas, a criança que cresce e desperta para o mundo que a rodeia, questionando-o, conta a vida e as estórias da cidade, através das suas vivências, nunca perdendo a noção que a sua cidade não era igual à de todos e que nas outras cidades ali ao lado da sua janela, os sonhos eram outros e as vidas muito mais difíceis.

 Os personagens sucedem-se ao ritmo do crescimento e com eles vêm os locais e os viveres de uma geração, a última da época colonial, a lá ter nascido.

 A escritora, usa os olhos da menina que se fez jovem, para contar a cidade, recorrendo~se da mulher arquitecta. Aprendemos com ela, ao confrontarmos as memórias que guardámos, com as interpretações e leituras da mulher, arquitecta e escritora.

 Sem parar a narrativa de uma vida, vai-nos lembrando que havia guerra e que jovens portugueses eram forçados a ir para lá combater outros jovens, que apenas queriam o país que lhes pertencia.

 ” Há algo que paira no ar, que todos respiramos, um pulsar de uma terra inebriante, que gera entusiasmos, sonhos, vontade de vencer e nos injecta diariamente uma dose elevada de otimismo e adrenalina.”

 Eis a frase que brilhantemente descreve o sentimento inocente de toda uma sociedade “branca” que fervilhava naquela cidade, no decorrer dos anos 60 e 70. O sonho de um futuro.

 A história dos homens leva ao final da narrativa da estória de vida da menina que cresceu e chegou a adolescente, sempre a questionar.

 Ao terminar a autora não se esquece dos dramas vividos por muitos, tantos, que foram quase todos os que de um dia para o outro tiveram ou decidiram largar uma vida, deixando os sonhos do futuro nas casas fechadas, nas fábricas e fazendas abandonadas, nas viaturas estacionadas à porta de uma lar e de uma vida onde jamais voltariam.

 “A noite está calma, já há pouco movimento na rua. Cada um pega na sua mala, lança um olhar pelo espaço que nos acolheu vários anos, com móveis e os quadros no seu lugar, como se fossemos apenas de férias – tudo arrumado, toalhas limpas nos toalheiros, frigorífico ligado, filtro de água, persianas corridas para evitar o Sol, tapetes no chão a testemunhar a nossa despedida.”

 Por questionar em pequena a mulher adulta entende o passado e respeita presente. Percebe-se ao longo da narrativa que, como tantos outros, Anabela Quelhas nunca de lá saiu.

 3 de Fevereiro de 2021

João Pedro Fonseca