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12 fevereiro, 2007

De Manhufe à Bimbi (cont)

Mas as mudanças continuam, a velha televisão foi substituída por um grande plasma. Hoje pretende-se mais do que nunca que a cozinha seja um espaço elegantemente laboratorial, minimalista, contemplando as operações de confecção rápida, congelamento e descongelamento, aquecimento rápido sem chama, desintegração de lixos, … mas tudo muito, muito kleen como se vê nos filmes! Que não cheire, que não suje, que não pegue e que não cole.
Passou-se às terminologias, dos aderentes e antis, dos termoestaticos, dos vitrocerâmicos, dos taperweares, antigermes.
Antes, a cozinha era mais estômago, hoje é cérebro, e electrónico. O que está a dar é a cozinha domótica, que envia mensagens de voz pelo telemóvel. “Cozinha domótika comunicando, cozinha domótika comunicando!!!!!!!, existência de fuga de água no equipamento de lavagem de louça.” – afinal, era a penas o respingo da limpeza do chão. “ Cozinha domótika comunicando intrusão” – afinal era só o gato a saltar para a janela…… por falar em gato, primeiro em toda a cozinha havia um prato para o gato, que se deliciava com os restos das comidas, …. nem esse escapou, coitado, perante os trituradores e compactador de lixos, agora só a comida de lata!

Ana Salazar e Fátima Lopes passaram a desenhar azulejos decorativos. Está a valer tudo! Esperem que um dia destes não ficam só no azulejo, se estendem até para o exterior da casa, inventando um modelo arquitectónico qualquer, à costureirinha.


Entramos no sec. XXI, Os feixes de luz, ficaram lá no passado da memória, encerrado no meu gavetão preferido, e demos de caras com a panela Bimbi!
Eu não tenho. Para mim, cozinhar é um vício, uma dependência terrível dessas tarefas laboratoriais, que eu não pretendo ingressar, por isso pretendo comprar apartamento sem cozinha! A bimbi faz tudo… adoro constatar (nunca provei) as receitas: bacalhaus espirituais, doces conventuais, sopas divinais, e outros atecetras e tais,… portanto a minha decisão de apartamento sem cozinha até nem é muito descabida, parece-me mesmo muito acertada! A ver vamos!
O marceneiro passou a ser profissão em extinção, protegida e subsidiada pelos fundos comunitários. Agora o que está a dar são as grandes superfícies com imensas ofertas, onde se escolhe e no dia seguinte, a cozinha está na cozinha. Nem mais, exactamente como se vê nas revistas! Às vezes não cabe, mas isso é outra treta!

Vou esperando por uma Bimbi que inclua, as compras no supermercado, com ligação directa ao mesmo, e que eu daqui do meu PC, me divirta a escolher pura e simplesmente a ementa. Ainda aceito o trabalho de por mesa e servir, actividades, modéstia à parte, faço com esmero e criatividade. Os amantes da cozinha devem estar horrorizados. Caros amigos, alguém tem que por a mesa!!!!

Comecei em Manhufe e terminei nas Bimbis, as palavras se encontram, fazem amizade umas com as outras, se divertem e fica difícil dizer-lhes que tenho que acabar..- também não me pagam para escrever, portantus…. Comecei em tonalidade séria e terminei na nuance divertida. Hoje penso assim, mas vão contando que amanha, talvez já não pense do mesmo modo.






11 fevereiro, 2007

De Manhufe à Bimbi

As décadas passaram… os tugas emigraram, regressaram de férias e começou a nascer a nostalgia do pão de forno, as famílias começaram a aspirar por cozinhas regionais iluminados pelas ideias de la Provence.
Para além dos rés-do-chão amples, a tipologia das habitações dos anos 80, passou a incluir a tal cozinha regional, para reunir amigos na comerzaina. Era esta uma das características que formalmente mencionavam quando encomendavam o desenho das suas maisons. Mas os utentes, ingénuos nestas coisas da arquitectura, esqueceram-se, que o homem moderno, já não suporta fumo, padecendo de ardência nos olhos, que as mademoiselles desgostam de cabelos a cheirar a fritos, que os putos não curtem carregar lenha e recolher pinhas pelos pinhais… quem gosta ir de visita, aos amigos, morfar uma boa sardinhada, não está interessado em regressar com os odores gastronómicos entranhados da cabeça aos pés, empestinhando até o mercedão, na viagem de regresso a casa?!!!!!.


Bom!!!! A cozinha regional, passou a ter forno e grelhador à parte, numa terceira cozinha, onde se pode mesmo fazer o lume no chão como antigamente e dá até para fazer o fumeiro, andar de socos, …. Assim o coração da casa passou a ser continuamente transplantado, desdobrando-se sucessivamente. Nós tugas temos essa capacidade cristã, à semelhança da multiplicação dos pães, de autentica clonagem tipológica. Verdade!!!! Conheço um lá p’ras bandas de Chaves que já vai na 5ª cozinha – isto já não é uma caso de amor com as cozinhas, é mesmo paixão, daquelas bravas!
A cozinha regional, passou a ser exclusivamente para receber - com uma grande mesa maciça (pensam eles), armários de madeira à vista, com desenho pesadão à Paços de Ferreira, prateleiras com tachos e panelas de cobre nunca usados, arranjos de cebolas e alhos pendurados pelos cantos (deve ser para espantar vampiros), coelhinhos e galinhas de loiça distribuídos, segundo o gosto desacertado da dona da casa, tudo enquadrado em azulejo, dizem eles, do século XVII. As felisbelas e as belmiras, rapidamente passaram a marias, a sónias, a neides margaretes, carolines e a katias vanessas. Está certo!
(cont.)

10 fevereiro, 2007

De Manhufe à Bimbi (cont)

Azulejos, só nas casas de brasão à porta, e eram manufacturados, daqueles que hoje preenchem as prateleiras dos antiquários e dali, seguem para uma moldura para colocar na parede da sala.
Junto à lareira, o granito era mesmo preto de fumo depositado da lenha de carvalho, que ardia de Inverno a Inverno, sem parar… acrescentado de gravetos, de giestas, de caruma de pinheiro, de urze e de pinhas.
Com o racionalismo, a cozinha entrou na fase da limpeza.
As ementas empobreceram, mas as superfícies começaram a espelhar.
O algodão não engana”, surgiu depois, mas foi mais ou menos esta a caminhada: O fogão de lenha, passou a ser esmaltado, o chupão foi anulado, a salgadeira e o escano queimaram-se, a água chegou canalizada, apesar de enferrujada pelos “canos”, o lavatório em ferro forjado viajou para a tulha, os queijos de cabra passaram a ser rejeitados devido à brucelose, o fumeiro passou a provocar cancro do cólon, as castanhas engordam, a mão de vaca entrou na loucura da vaca, assim como os fígados e outras miudezas, a leite passou a ser pasteurizado, …e começaram a aparecer as anedotas do arroz de cabidela.
…. passou a haver, um local de maior visibilidade dedicado à telefonia e mais tarde à televisão de canal único, com naperon por cima. Passou a haver fogões de gazcidla pernas altas, passou a haver frigoríficos, e nos anos sessenta começou o reinado da mesa com camilha à espanhola, influências dos mercados fronteiriços, do tempo do Franco, do tipo, “Feces de Abajo”, “Fontes de Onoro” e “Badajós”.
Os móveis de cozinha que até aí eram pensados e feitos no marceneiro, de lápis na orelha, que se orgulhava de não misturar pregos com madeira, passaram a ser executados em fábricas na linha de montagem em série.
A família deixou de fazer as refeições na cozinha e passou a fazer num espaço dentro da mesma apelidado de copa. O cima dos armários passou a ser habitado pelo artesanato da região, ou pelos ferros de passar a carvão, em desuso e decrepitamente convertidos em suporte de flores de plástico. A cozinha de tão feia que era, passou a ter os naperons de cozinha a enfeitar os granitos e os mármores, não se fosse confundir com o lajedo dos ditos com outros, sob os quais repousam os falecidos, e ainda, os azulejos floridos que concentravam ali a “alegria do lar”. Quanto mais florido melhor!!! Florido, mas sem ser o azulejo com as cores tradicionais portuguesas da viúva de Lamego, florido mesmo ali das fábricas de Aveiro, junto à ria.
Não estou a ser nada mázinha!!!!!!!!!!!!!!!!! Foi isto que nós vivemos!!!! E não esqueçam os bibelots de cozinha, de arrasar qualquer um… as couves das caldas, os galos de Barcelos, as galinhas poedeiras, a Nossa Senhora de Fátima a abençoar o lar… enfim, o country à tuga!
(cont)



09 fevereiro, 2007

De Manhufe à Bimbi (cont)

Na cozinha dos meus avós, lá no início do outro século, na época da cozinha de Manhufe, não era assim, tudo era mais integrado, mais consequente, cada coisa tinha o seu lugar, com a genealogia gastronónima bem definida e desenhada.
A cozinha cheirava a broa, a nabo, a rojões, a feijão, a mão de vaca, a enguias, a castanhas, a gila, a leite creme, a aletria com canela, … amassava-se o pão, deixava-se a levedar, fabricavam-se queijos de cabra e ovelha, a marmelada punha-se à janela e os figos também, benziam-se e responsavam-se os cozinhados mais complicados, e a cozinheira chamava-se Felisbela.
Os odores combinavam com os potes, com o trasfogueiro, com a salgadeira, com as queijeiras que transpiravam soro, com a masseira, com a rapança, com as filas de fumeiro, com o púcaro de alumínio, com a água fresca de sabor inigualável.
Havia feixes de luz, que definiam divisões geométricas imaginárias que pairavam no ar perfumado. O sol era filtrado entre as telhas, iluminando as poeiras suspensas, através de projecções cónicas, criando velaturas de transparências, ora acentuando arestas, ora diluindo formas, que me transportavam para mundos imaginários, sem tempo, sonorizados com giroflés, giroflás, num caldo de emoções infantis impossíveis de repetir… é isto que consigo descodificar na cozinha de Manhufe, e por em paralelo com a minha experiência vivencial.
A geometrização das formas da cozinha, foi construída pelo meu olhar entre os feixes de luz, enquanto brincava de amassar o pão, esticando a massa, desenhando sobre ela, peneirando farinha, cheirando fermento e comendo às escondidas massa crua. Neste cenário, desenvolvi utopias, rompendo propositadamente essa luz coada por telhados cerâmicos, agitando e deformando as partículas, nascendo a vontade de experimentar prismas de luz, efeitos de cor, através de copos facetados, que na minha mão tiveram outras utilidades para além de pura e simplesmente beber. (cont)




08 fevereiro, 2007

De Manhufe à Bimbi (cont)



Na minha cozinha, o frigorífico continua à vista, assim como o microondas, apenas aderi à placa eléctrica encastrada, que serve também para cozinhar.
Tudo bem à vista e nada é de inox.
Como sou desorganizada nas lavagens, instalei um lava loiças de quase dois metros, onde cabe tudo, mas que ia provocando um enfarte ao canalizador, perante aquela vista imensa e desregrada…enfim, nesta cozinha, ora cheira a alheira, ora cheira a caril, ora cheira a canelonis, ora cheira a muamba, ora cheira a crepes, ou a shop soi – efeitos da globalização e consequências da expansão portuguesa/emigração.
Uma miscelânia de odores que, de facto não combinam com a estética da minha cozinha!
Quando há muamba, falta o respectivo pilão e moringue, quando cheira a caril, falta o sari na cozinheira, quando cheira a canelonis, cadê o vero ragazzo?, quando cheira a shop, falta o chapéu chinês (não confundir com o terminal das chaminés, refiro-me a chapéu com forma de acento circunflexo ou de Mandarim, que desconheço o nome) … um contrasenso total!
(cont)

07 fevereiro, 2007

De Manhufe à Bimbi (cont)

A cozinha alterou-se com os tempos modernos.

Deixou de haver uma grande lareira de granito com o respectivo chupão, deixou de haver fogão a lenha, armários de vidrinhos com prateleiras sabiamente decoradas a papel recortado, louceiros com escorredor incorporado pintados de azul, lava loiças em ardósia negra, deixou de se ver a lenha alinhada para queimar, deixou de se ver a masseira e o forno de cozer pão e assar o cabrito, desapareceu o caneco da água e a respectiva bóia de cortiça, sumiu o candeeiro a petróleo, o escano e a respectiva braseira.


A cozinha passou a ser fria e normalizada. Os lava-loiças são todos irmãos- gémeos do tipo monozigotos, com 1,20X0,60, não há que enganar, os grandes electrodomésticos medem 0,60, todo o balcão de apoio tem cerca de 0,60 de profundidade, os armários superiores localizam-se a 1,50 de altura. Tudo antropométricamente calculado e situado, seja a cozinha deste ou daquele, o módulo 0,60, reina no mundo da cozinha, e veio para ficar.

Hoje estamos completamente na era dos inóxes. Passamos pela moda dos balcões em fórmica brancos ou imitando madeira (ainda hoje há quem suspire por um balcãozinho em fórmica!!!), depois armários estilo capela (encheram o ego a muito boa gente, mas alguns empenavam e as gavetas se recusavam a abrir quando adormeciam indispostas), e hoje nos tempos da aspiração centralizada, temos as cozinhas de design italiano, com bué de inox e muito vidro, prateleiras rotativas, células fotoeléctricas, electrodomésticos escondidos, como se fosse vergonha ter um frigorífico à vista. Por vezes nem sabemos de que material são feitos, numa mistura de aglomerados, com resinas, moldados ora a quente ora a frio…sei lá, parece bem, mas não sabemos com o que contamos! Não têm nada a ver connosco, não condiz com o nosso tom de cabelo, nem com o nosso pestanejar lusitano, mas tudo se perdoa, a quem aparece nas revistas ou na telenovela.
Lembrem-se que Jacques Tati, nos anos 50, já se surpreendia e confundia com estas modernices.
(cont)

06 fevereiro, 2007

De Manhufe à Bimbi

Cozinha em Manhufe - Amadeo Souza-Cardoso

Posso dizer que conheço esta cozinha desde sempre.
Se me puser a recordar a época mais ou menos exacta de quando vi esta imagem pela primeira vez, confronto-me com trilhas perdidas no tempo, diluindo-se o real e a ficção, tal como as nossas primeiras lembranças.
Regressando aos tempos de infância, as imagens se confundem, numa multiplicidade de contornos do real e das estórias, que nos presenteavam em cada dia, que ora se sobrepõem, ora se distanciam e se isolam, num jogo calendoscópico.
Não sei.
Sinto uma grande familiaridade com esta imagem, pois ela vive numa das minhas gavetas da memória. Serei capaz de adivinhar o que existe para fora daquela janela, ou por trás daqueles vãos sobrepostos. Conheço cada recanto, adivinho o que não é visível.


Nunca estive em Manhufe.
Decidi que vou tentar visitar em breve, para confirmar estados de alma, para identificar os verdadeiros proprietários de certas memórias, arrumar as sensações
.
A cozinha costuma representar o coração da casa. Aquele lugar que bate mais forte, onde se centra a maior parte da actividade de um espaço habitacional, o local dos odores, da salsa, do louro, dos coentros, da hortelã.
Hoje uma cozinha cheira mais a sonasol, nas variáveis, limpa vidros, lava loiças, limpa fornos, limpa inox e limpa gorduras difíceis.
(cont)