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06 novembro, 2011

Um professor que um dia roubou o céu

O LIVRO DO MEU AMIGO PENA. FRESQUINHO, FRESQUINHO!

05 junho, 2011

AMIGOS - Fão 2011



Reencontramo-nos na praia de Fão, perto de Esposende, um grupo de amigos que se conheceu na 2ª parte da década de 70.

Foi um dia feliz, de emoções muito fortes e doloroso também.


Fui com o Mário e com a Gabi. O Mário apanhou-me em frente do Rivoli. Tudo combinado previamente via telemóvel. Ele o mentor do nosso reencontro, recolheu ao longo dos últimos meses os nossos contactos.


-Conheci-te logo! - disse-me ele.


Eu beijei-o alegremente depois de entrar no automóvel.


-Estás igual!


- Tu também, conheci-te logo, quando entrei na rua! Vamos buscar a Gabi e seguiremos para Fão.


- Porque Fão?


-O Aristides mora perto e decidiu irmos almoçar num restaurante de praia.


Encontramos a Gabi, está tão bem, beijei-a emocionada. Falei-lhe duma manif do 1º de Maio em que desfilamos na Portucel, eu, ela e Gorete; já não se recordava.



Éramos um grande grupo heterogéneo, formado aleatoriamente num café da rua do Breiner, no Porto. O grupo foi crescendo naturalmente, o amigo do amigo, que também era amigo ia avolumando o grupo de tertúlia. Juntavamo-nos ao fim do dia em certos dias da semana, ao sábado à tarde e especialmente, sexta e sábado à noite. Uns residiam próximo do café outros não.


O grupo era heterógeneo, cada um frequentava sua faculdade, ou até já trabalhava, numa faixa de idades que oscilava entre os 18 anos e os 30 anos sensivelmente. Tínhamos dois propósitos: amizade e diversão.


Despíamos os problemas de cada curso ou do trabalho e afastávamos ou intervalávamos um pouco as nossas ideologias políticas, para evitar os atritos de maior e conseguirmos um convívio saudável e duradouro. Os exames, as frequências, os projectos ficavam a repousar na casa de cada um. Isto era um grupo de escape à rotina, aos problemas, aos compromissos, às responsabilidades.... O café servia de ponto de encontro, saboreando cimbalinos, meias de leite e outras coisas, fumando muito, partilhávamos a nossa juventude, as nossas fragilidades, os nossos desejos e a vontade de viver a vida. Era um grupo que já vivia os tempos da liberdade pós 25 de Abril e que se encontrava em crescimento /amadurecimento tal com a liberdade.


Jantávamos frequentemente juntos e saíamos para a noite do Porto, uns de boleia dos outros, poucos tinham carro, a maioria vivia de mesada bem esticada durante o mês.


Não importava quem não estava, o que importava era "estar".


Hoje 30 anos depois, sensivelmente, cada um fez um percurso profissional. Clara (educadora aposentada) Anabela (arquitecta e prof), Mário (engenheiro de minas) Gabi (designer gráfica) Gorete III (bancária) Aristides (médico) Alzira (serviço de catering’) Cajó (bancário) ….Foi um dia de afectos, traduzido nos abraços que demos, nas nossas carícias de olhar, sim os vossos olhares, senti-os como carícias. Os nossos cérebros certamente fizeram uma ginástica tremenda entre o passado e o presente... o presente... o passado...


Faltou ainda muita gente que tentaremos encontrar e virão certamente nas próximas vezes.


Este foi o 3º encontro, a mim só me encontraram agora.


De repente eu estava nos braços da Gabi


De repente eu estava nos braços da Clarinha,


De repente eu estava nos braços do Aristides… que abraço grande que nos demos, tentanto estreitar e engolir os 30 anos passados, grande, grande, vigoroso, apertado, gostoso… pelo caminho já tinha falado com ele pelo telemóvel alta voz do Mário.


– Aristideeeeeees, ainda tens um dente amovível? – faltam-lhe, o bigode enorme e os caracóis louros.


A cada um, eu pedia o “curriculum” – qtos casamentos, qtos filhos e o que se passou em 30 anos. O balanço dos afectos é “desastroso”, excepto a Clarinha (união feliz com Fernando) e a Gabi (eternamente consciente – solteiríssima sempre). Tudo o resto oscila entre casamentos e divórcios, pelo menos uma vez.


A Gorete I , a nossa Gorete suicidou-se. Neste grupo existem 3 Goretes, parece que o “destino” reforçou esse nome prevendo grandes danos com uma delas. Recordamo-la...contaram-me sobre ela, os últimos que a viram ou que falaram ao telefone. Decidiu não viver mais em sofrimento, num acto de grande coragem, devido a um problema de saúde grave. Contei também como a procurei e como soube.


Eu precisava visceralmente desta reunião de amigos, para me ajudar a fazer o luto da nossa Gorete. Acho que precisamos todos. Lembrei-me por diversas vezes do filme “Amigos de Alex”. Também nós estávamos aqui a recordar a Gorete, para nos mimarmos sobre a sua falta, para nos confortarmos, para conseguirmos algum equilíbrio perdido, para não nos perdermos mais uns dos outros. Por vezes eu colocava os óculos escuros e permanecia em silêncio, de resto notado por alguns que tentaram despertar-me.


- Como é que tu não tendo vícios (café, alcool e tabaco), és uma mulher tão interessante? Bajulou-me o Aristides, talvez para me despertar dum desses momentos. Rimos todos. Aristides tu és único, nunca mudes!


- Ouviram, ouviram…. Ele acha-me interessante – risada geral.


Mal acabamos os nossos cursos instalou-se a vontade de cada um investir nas suas profissões, de se realizar nas mesmas, de constituir família, afastando-nos geograficamente e perdendo-nos.


Andamos perdidos décadas… eu, 30 anos.


Não havia telemóveis, e todos se conheciam apenas por um único nome… apelidos era coisa que nem nos passava pela cabeça que poderiam vir a ter alguma utilidade.


Recordamos a Gorete, recordamos-nos a nós, numa sintonia bonita de ver e de sentir. Parece que os nossos afectos permaneceram intocáveis, como se nos tivéssemos visto no dia anterior. Senti-me feliz, apesar de tudo.


Observamos fotos antigas - todos mais novos, mais bonitos, com grandes bigodes, os rapazes, delicadas e frescas, as raparigas.


Vi uma foto tirada em Lagos (nós três tão bonitas num final de tarde, preciso dessa foto – eu Clara e a outra Ana- eu moreninha com uns óculos à Janis Joplin). Falamos do nosso campismo em Lagos, da viagem de ida (Porto-Lisboa viagem nocturna dos Clérigos, Castelo Branco, Pastelaria Suiça em Lisboa, Porto Côvo e finalmente Lagos, dentro de uma Diane), daquela tenda colectiva em que não havia lugares marcados, o lugar para dormir era segundo a ordem de recolha de cada noite – Gorete e Claudino (namorados), Clara, Anabela, Aristides e Lúís, estes dois normalmente só chegavam já de dia. Falamos da praia, da diversão diária e nocturna na discoteca ELÉCTRICO, gozávamos como se fosse o ultimo dia das nossas vidas.. Rimos por a Gorete se chatear connosco, devido às desvantagens de se fazer férias com o namorado, eheheh, rimos da contínua ocupação do Luís e Aristides em orientar as alemãs…. Recordei na minha cabeça, a praia de naturismo, o Jorge, o Carlos e a sua caldeirada de peixe, única, feita pelos pescadores de Lagos, o meu reencontro com alguém de Angola, as danças frenéticas, o encontro com o luar de Agosto à beira mar..


Do Porto, a nossa cidade do coração, recordamos alguns jantares e o apartamento da Clara, que servia de abrigo no final das nossas incursões nocturnas. Os mais dorminhocos e claro a dona do apartamento iam para os quartos, os resistentes que ainda queriam conversar e ouvir musica na companhia dos outros, dormiam no chão da sala - eu habituada a directas a trabalhar, pertencia sempre aos resistentes. Fazíamos lutas de almofadas, parecendo garotos. O Luís tinha uma pedalada de conversa até todos adormecerem.


Revivemos as festas na garagem do Cajó… as fotografias de um Carnaval, onde o Álvaro (desaparecido ainda, espero que só temporariamente desaparecido ), se pintou todo de dourado, e eu com umas pestanas enormes colocadas pela Clara. Falando no Álvaro direccionamos o canal memória para o teatro TUP, onde alguns de nós experimentou as artes de Talma e onde conhecemos o Óscar Branco e a irmã, e o ensaiador João – eu com uma permanência muito curta… os projectos ocupavam-me o tempo todo. A Gabi recordou o edifício SICAP.


Falei do Rui Nogueira e do Zeca, meus colegas da ESBAP, que pontualmente saiam também connosco, e do café campismo de Montes Burgos – outra plataforma de alguns de nós. O meu almoço com ele na semana passada, vindo de Tavira, que foi uma loucura.


Referimos o uso e abuso que fizemos do pub do Hotel Infante D. Henrique no 16º andar.


- Foi aí que conheci o meu ex-marido!- dizia a GoreteIII.


Uma pista de dança com uma vista soberba para toda a cidade do Porto que todos tinham o privilégio de usufruir. Éramos uns privilegiados por podermos viver aquele espaço, projectado pelo arquitecto Rica.Tanta vez subimos e descemos aquele elevador! Tanta vez que dançamos naquela pista!


Falamos do Arnaldo, foi ai que o conhecemos.


_ Quem é o Arnaldo? questionaram alguns.


Avivaram-se memórias. Últimamente encontro o Arnaldo regularmente.


Falamos da Milú, do Joãozinho, da Carmo, da Claudina, da Ana, do Jorge, do Luís e do outro Luís, do Manel Neto, do Augusto, e de outros que faltaram, mas estão localizáveis. Este continuará a ser um grupo com as mesmas características, dificilmente estaremos todos, todos reunidos, porque o grupo é enorme… o que interessa é estarmos os que estiverem.


Falamos com a Milú no telemóvel. Trocamos informações.


Lembrei o apartamento da Ana na rua do Breiner, onde o Cajó se vestia com as roupas dela, bandolete, molas da roupa nas orelhas e depois se passeava divertidamente, pela rua do Breiner e rua Miguel Bombarda. Ele era sempre o mais animado e louco de todos. A Ana casou com o Jorge. Lembrei também as experiências exotéricas dos dois Luíses e Manel Neto, deitados na cama da Ana, a tentar levitar e viajar fora do corpo….loucos varridos!!!


Perguntei pelos colegas do Aristides, e um especial que para mim tinha uns olhos irresistíveis! Eheheh, médico algures.


Olhamos as fotos uma e outra vez , e outra vez, e o nosso olhar entristecia ao ver o rosto alegre da nossa Gorete. Brindamos aos presentes duas vezes, mas foram dois brindes cansados e emociados por 30 anos de experiencias diversas, não partilhadas e muito amadurecimento.


Foi uma óptima ementa, escolhida pelo Aristides. Escolheu um restaurante junto à praia , muito agradável, para que alguém que levasse os filhos pudesse usufruir do sítio. Aristides não tem filhos e esqueceu-se que os filhos dos outros têm mais de 18 anos, já não brincam na praia nem saem com os pais. Acho adorável esta desordem do raciocínio do Aristides !!!!!!!!!!


Eu e o Mário despedimo-nos e regressamos ao Porto, os outros ainda ficaram. Ficou marcado próximo almoço e entretanto pretendemos continuar a divertirmo-nos, desta vez no Porto, sempre que estiver por lá, para que os nossos encontros ultrapassem a fase da recordação e continuem a ser momentos vividos em pleno com novos episódios.


A sós com o Mário, foi possível partilharmos situações mais pessoais das nossas relações afectivas que por sinal e estranhamente coincidem em tantos aspectos.


Regressei a VR e pelo caminho foi inevitável reflectir sobre este dia especial. Somos uma geração de grande riqueza interior, temos em comum tanta coisa boa! Temos a nossa vida afectiva um pouco perturbada, mas isso dá-me a certeza que não somos pessoas conformadas e lutamos para estar bem connosco e com a vida.


Todos me pareceram chocados com o suicídio da nossa amiga e todos carentes desta grande amizade que nos une e ficou adormecida tantos anos.


Todos parecemos pessoas crescidas, amadurecidas, profissionalmente realizadas, autónomas, mas todas evoluíram no meio de frustrações, desejos, contradições… e é isso que somos hoje.


Gostamos da companhia uns dos outros, pois todos nos aceitamos como na verdade somos, seres imperfeitos, como semelhanças e muitas diferenças, defeitos e qualidades. Já não temos tanto sangue na guelra, mas continuamos heterogéneos, queremos estar juntos, resistimos a tanta coisa, respeitamo-nos. Cada um carrega consigo a sua história, que o distingue dos outros, mas com intersecções, com zonas de coincidência que todos entendemos como comuns.


Precisamos do ombro de cada um, para chorarmos e para sorrirmos.


Deixem-me acreditar que precisamos.


Até breve.


Anabela Quelhas





29 abril, 2011

trios

CONFESSO, EU AMO ESTES TRIOS!
olhó genaral lá na parede!!!!!!!!!!

02 abril, 2011

Refresh póstumo


Recordo o teu sorriso e o olhar apurado sobre as coisas, emoldurado com os teus óculos em forma de octógono, que tudo observava numa perspectiva filosófica. Foi contigo que partilhei Camus, Simone de Beauvoir e Boris Vian, em noites de inverno, quando não apetecia sair, e o ler entre os cobertores sabia bem melhor. Eu rabiscava, mergulhada em dezenas de esquissos que iam invadindo o meu caderno de desenho preto, e como som de fundo, ouvia-te a estudar filosofia… por vezes em vez de estudar, era marrar… porque não dizer? por isso se ouvia!
Foi através desse som de fundo que conheci Durkheim, Sartre, Leibniz, Pascal, Descartes, … o eterno Platão e outros. O livro do Edgar Morin, o "Paradigma perdido", saltitava entre os teus móveis e por vezes vinha também visitar a minha papelada, cumprimentar o Aldo Rossi, Corbusier, Kenzo e o Leonardo Benevolo.
Tanta vez o Edgar Morin foi citado por ti! e até eu já tratava o Egas por tu.
Eu fumava e fumava, SG, e Gitanes nos momentos de desespero, e escrevia memórias descritivas e justificativas, que tu corrigias sem entender patavina do conteúdo. Reclamavas sempre: os arquitectos dizem cada coisa que ninguém entende! e tu ainda por cima não usas virgulas! sabes para que servem as vírgulas?.
Os diálogos oscilavam entre a Faculdade de Letras e a Escola Superior de Belas Artes, entre o Campo Alegre e S. Lázaro, entre o D. Januário Torgal e o Siza Vieira, entre textos filosóficos gigantes e projectos arquitectónicos. Os copianços também se faziam, eu por vezes dava e arquitectava ideias!!!!!!!! Para alguma coisa realmente útil servia a minha imaginação!... diziam....
Vivemos algumas cenas hilariantes pelas casas onde passamos. Certo dia uma dentadura amanheceu dentro das nossas canecas do pequeno almoço, a sorrir para nós. Partilhávamos refeições no “Vasquinho” e confeccionavas umas admiráveis almôndegas que batiam aos pontos as tristonhas omoletes substitutas das cantinas.
Convivia a organização com a ausência dela.
Convivia o estudo e o trabalho, com a diversão até altas horas da noite, dançando e pulando de alegria numa discoteca qualquer. Havia poucas discotecas na altura, mas isso não impedia diversão até fartar, nas festas de garagem. Até dançávamos o "Saturday nigth fever", o merengue e a marrabenta. Viamos todos os filmes do Bergman, e comentávamos até altas horas da noite, estabelendo comparações cinéfilas com outros registos. Amavas os registos indianos, eu entusiasmava-me com o cinema francês com o Jean Louis Trintignant. Suspendiamos tudo para ver ”A Gabriela, cravo e canela” … eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim, gabrieeeelaaaaa na voz inconfundível de Gal Costa do genérico da telenovela.
Ainda fizemos umas incursões no teatro TUP, no edifico do SICAP. No café tínhamos muito amigos comuns que nos acompanhavam nas horas de lazer. Usavas grande cabeleira de caracóis que contrastava com a minha grande cabeleira quase índia. Quase nos contrataram um dia para um evento de beleza capilar, porque não aceitamos?!
Estávamos convencidas que o futuro ficava a anos luz de distância e a terceira idade começava na véspera dos 30 anos.
Nos momentos de grande stress e de tristeza, o meu sentido de humor branqueava tudo. Como tu rias das histórias mirabolantes que eu te contava do Portugal profundo e de uma Angola que teimava em reinar no meu coração!
Acertávamos alegrias e tristezas, amores, paixões. Ambas de afectos violentamente interrompidos por Abril, mas que nunca puseram em causa as nossas convicções acerca da Liberdade. Falávamos de Moçambique e de Angola, apresentando-nos a Machava e o Kikolo, partilhando machimbombos, gingubas, picolés e shuingas, alimentando a saudade saboreando chávenas de chá no inverno e apreciando cubas livres bem geladas no verão.
Sentiamo-nos sempre incompletas, devido a alguém esquecido lá atrás do tempo. Eramos felizes, sem sermos plenamente felizes.
Decidiste partir! Será?
Até sempre amiga.
anabela

01 abril, 2008

14 março, 2008

AMIGOS

AOS MEUS AMIGOS
GUARDO-OS


Nota final: Logo hoje que não consigo inserir gifts animados, mas já estou habituada a caçar com um gato! Anda cá bichano! bxbxbxbxbx!

20 abril, 2007

Solidão



Solidão

Tenho no oco
das minhas mãos,
o vazio do mundo
em que respiro.
Nadas
e ainda menos
cores;
linhas de vida
sonhadas
mais que
verdadeiros amores.
Imagino
que no vazio cabe tudo.
Até Venus
a estrela da madrugada
e outros doces pensares.
Sera caso para abraçar
as palmas das mãos
para que o milagre
se concretize ?
Acendo uma vela
e deixo no vazio
a vela arder.
Quem sabe!
Tudo pode acontecer.
A cera corre
e no queimar da pele
das mãos que a recebem
com carinho,
lembra que o vazio
também doi.

Carlos Tronco
Mondeville
25/08/06

20 dezembro, 2006

Noite de Natal


Atravessei a rua, naquele passo que não tem pressa de chegar, mas num ritmo acelerado de fuga ao frio, e de engano ao nevoeiro, que teimava atravessar-nos de uma ponta à outra.
A respiração se transformava rapidamente em nuvem de vapor, que eu aproveitava para fazer efeitos visuais, que saíam por entre o cachecol e me distraiam o olhar, das vitrines cheias de agasalhos, e das ruas decoradas e brilhantemente em festa.
Atravessei mais uma rua e entrei pelo mercado da praça de Lisboa… olhei o início da noite a desertificar o espaço urbano sob aquela nuvem amarela que paira sobre a baixa, e ia-me perdendo num jogo de andar e colocar as passadas, exactamente em sítios determinados, numa geometria de pauta musical, que me habituei a construir no espaço multidimensional, que é a mente.
Os eléctricos já passavam quase vazios, com o trinca a consultar o relógio e ansiando pela ceia melhorada.
E eu caminhava… ia partindo o frio, com essa caminhada lúdica e embalada por esta cidade de cor de prata, contornando a faculdade de ciências, com intenção de me dirigir para Carlos Alberto… escutando a noite de Inverno a valer, voltando-me, para admirar mais uma vez, a lua cheia por trás dos Clérigos, alegremente imaginando o calor da lareira e os odores que já estariam a ser fabricados com a canela, e que certamente, já me esperavam àquela hora, sob a forma de ceia de Natal.


No vão de uma porta, encostado ao granito da ombreira, permanecia imóvel um corpo em volume, com jornais como tapetes, que eu olhei, inesperadamente, em diagonal, naquele meu jogo pedestre.

Parei, fiquei imóvel também!

Senti a aorta a latejar, conseguindo facilmente calcular as pulsações sem qualquer aritmética ou máquina de calcular.

Identifiquei aquele velho casaco, gasto e mesclado a cinza.

Não sei rezar, mas naquele momento rezei com convicção.

Rezei para que, por baixo do chapéu, eu não conseguisse avistar uma barba, com longos fios de cabelo alvos, alvos como a neve.
O meu coração de repente se recusou a bater com as imagens que lhe chegavam do olhar.
Os fios alvos como a neve, despontavam por entre o casaco sujo, nos intervalos dos botões e por debaixo do chapéu. Não havia dúvidas, pois eles eram únicos.

Os cabelos, que eu tanta vez contornei e penteei sobre os meus papéis, desenhando-os a várias cores, por serem alvos. Os cabelos, que tanta beleza davam a um corpo alquebrado de ancião... estavam ali, permaneciam ali, abandonados num corpo enfrentando uma noite sem fim à vista.
Quantos lápis se perderam naquele cabelo? Quantos esfumados se diluíram entre as suas mãos angulosas, com unhas bem desenhadas? Quantas aguarelas se misturaram no olhar doce daquele rosto? Quanto carvão contou as suas rugas, que se iam adicionando com a idade, até se tornarem septuagenárias… octogenárias talvez?
Ele foi Zeus, ele foi Júpiter, ele foi Neptuno, ele foi Moisés, ele foi João de Deus, ele foi Marx, ele foi Engels, ele foi Eiffel, ele foi Antero de Quental, ele foi Guerra Junqueiro… ele foi José, ele foi tudo, o que nós queríamos que ele fosse.
Posicionava-se como cada um queria: nu, vestido, de verão ou de inverno, sentado, de pé, contorcendo-se… ora facilitando o esquisso, ora valorizando a torção do tronco, ora distinguindo a luz sobre um músculo, ora disfarçando a imperfeição dos nossos traços através do melhor ângulo da anatomia de seu corpo...
Conheceu mestres e aprendizes, e estes, quando se tornaram mestres, também, num rodopiar de anos e décadas, alternando com diversas gerações numa escola de artistas.
Ele era o modelo anatómico perfeito.
Era o nosso homem vitruviano, inscrito simultaneamente, num circulo e num quadrado! Com o seu crâneo estampado antropométricamente no nosso lápis, aprendíamos a proporcionar os traços, repetindo-o mais sete vezes, tal como um módulo, até chegar aos pés… um esquemazinho de linhas paralelas, essencial para orientar e estruturar toda a construção de um corpo ainda sem alma, com centro no umbigo, harmonizando e redescobrindo as razões de ouro.
Foi esboço, ele foi esquisso, foi retrato, foi escultura, foi tela, foi cenário, foi emoldurado, foi inaugurado, sempre com alma de alguém importante… ao sabor do naturalismo ou deformado e decompostamente cubista.
Ele foi Apolo, foi Adónis… e foi mudando de identidade conforma os anos se lhe iam entranhando na pele e embaciando a vivacidade do olhar.
Horas e horas á nossa frente, destilando dias, sem horário, em troca da refeição e de um mísero salário, que minguava, conforme envelhecia, inversamente proporcional às muitas horas que já não conseguia posar em pé.

Silencioso.

Discreto.

Como se exige a uma estátua!

Por vezes esquecido.

Frequentemente substituído, curiosamente por ele mesmo, ou do que ele sobrava numa folha de papel, abandonada anos e anos, numa pasta amarrada por uma fita azul.

Nessa noite, soube que era sozinho e que tinha doado o seu corpo à Ciência.

Chamei por ele!

_ Senhor António???!!!...

19 dezembro, 2006

feliz natal



ESTOU QUASE QUASE A PARTIR PARA A LAPÓNIA!!!!!!!!!
Um feliz natal para todos.

14 dezembro, 2006

A Foto da Sra Professora


A foto da senhora professora
(depois de duas dezenas de tentativas para publicar, e teve que ser separada do texto.... oh este mundo digital!!!!! quando dá para se negar ao trabalho!!!!::::)

13 dezembro, 2006

Senhora Professora

Já lá vai uma vida!
Conheci-a numa altura algo controversa e indefinida da minha existência.
Confesso que tive sorte. Uma imensa sorte!
Ensinou-me o valor da mais pura e simples amizade.
Inequívoca!
Sentida!
Verdadeira!
Ela sabe apaixonar-se facilmente pela vida e, entregar-se totalmente a ela. Com amor e dedicação. Sabe apreciar as coisas, as pessoas e os actos quando são belos, assumidamente perfeitos, onde tudo, infelizmente soa a falso e a imperfeito.
Tem um sentido de oportunidade preciso e intenso, bem guardado em si.
Revela um companheirismo e uma presença constantes nos instantes difíceis, penosos e dolorosos.
É inqualificável na ternura solidária, pois, abraça os momentos com o que pode dar e não dar! É um portento de alegria e satisfação na ajuda solidária a tudo o que a envolve e a tudo o que a rodeia. Preocupa-se e reage sempre como sente e vê as coisas, fiel ao seu pensamento que nunca atraiçoa e nunca o violenta.
-Cala-te! Estás a exagerar!
- Só consigo dizer: -Nunca estive a ser o mais sincero em toda a minha Vida! E,faço questão que se congele esta afirmação no livro da vida para que nunca se perca! Tomem nota: bem congelada porque é visível. É real. Não! Não é uma professora qualquer. É uma Professora Especial que se aprende a gostar, sem a qual a Educação, a autêntica Educação e, falo de Seres Humanos que são os alunos, ficariam mais pobres, mais desamparados.
Quem disser que é uma professora como qualquer outra, não sabe, ignora, o que de mais puro e belo é uma entrega incondicional aos alunos, ao futuro destes, num mundo tão competitivo e exigente que lhes vai surgir pela frente. A conquistarem o direito pleno a serem felizes e a viverem a sua própria felicidade!
Esqueceram-se que a felicidade existe?
A felicidade existe na escola e fora dela! Perguntem-lhe porque ela é assim. Porque age assim? É um convite! Façam-no!
Aprendi com ela a preservar um carácter. Aprendi a guardar e a lutar pelos valores e os ideais que transporto em mim. Por tudo isto a que sempre me habitou e faz parte do que sou. Do que penso! Do que sinto!O valor da pedagogia! O valor da magia de ensinar e educar! O valor de me transcender quando é preciso e quando não é preciso! O imenso valor da entrega à Arte de Ser! O valor de viver num abraço a todos os que se agitam e movem num estabelecimento escolar, minimamente organizado, cuidado, respeitado.
A estimar tudo o que mexe ali!
O valor de inovar!
O valor de criar!
O valor de imaginar!
Até o valor de sonhar!
E, eu tenho de fazer uma pausa. Prolongada. Reflexiva.
Comecei a olhar. Comecei a apurar o olhar para tudo à minha volta. Matutei e matutei! Comecei a ver tudo feito de crianças, a compreender e a conquistar o seu encanto! A ajudá-las no seu sofrimento, porque às vezes sofrem, na angústia, nos momentos menos bons.
Ali tudo respira. Tudo tem sentimentos. Ali tudo ama.
Como tudo ali poderia ser BELO! Ela ensinou-me a ser eu próprio. Sim! A ser livre de pensar! A acabar com o alheamento e a minha forma de vivenciar uma personalidade amargamente silenciosa e remetida ao meu interior, como a minha personalidade era feita.
Ela descobriu-me algo.
Sempre vivi de livros.
Sempre me escrevi e escrevi os outros.
Ela descobriu que havia algo. Algo na minha conduta que valia a pena apurar. Perscrutar. Esclarecer. E, eu descobri-me! Descobri-me a olhar os corações das crianças repletos de bondade, ansiosos por serem amados, aconchegados, estimados e escutados. Descobri-me a ensinar, a ouvir atentamente porque contam uma vida? Porque contam imensas vidas?
Fizemos ambos isto tudo.
Tiramos o adesivo da boca em que estávamos amordaçados num eterno silêncio de há muito e inspirámos-lhes o amor de viver! A realizarem sonhos. A realizarem os seus mais belos sonhos escondidos e por concretizar. Inacabados!Sofridos!Sonhos de heróis incompreendidos, por serem como são. Verdadeiros lutadores inconsequentes e de fibra! Pequenos Heróis que lambem e limpam o suor com a manga da camisa que não têm, com o desejo de serem compreendidos e amados. Afagados num abraço desmedido e sem fronteiras de qualquer espécie.
Só compreendidos e amados!
Sim!
Ficariam satisfeitos e eternamente agradecidos.
Sentir-se-iam bem, creio.
Ela tudo isto me ensinou. Sim! Ensinou. Sorrindo!
Com um sorriso inesquecível!
Se fosse quem de direito: PREMIAVA-A! Dava-lhe um louvor! Dava-lhe um certificado de compreensão de vida! Não que ela o desejasse ou quisesse, mas sim porque merece. Merece, PLENAMENTE! Ela sabe fazer as pessoas estarem de bem consigo próprio! Ela sabe o que é a amizade! Ela sabe amar as crianças como ninguém. Não rindo, mas sorrindo! Entregue a uma capa oculta por ser bela. E, acima de tudo sabe dar tudo o que tem e o que não tem!Enche-me de orgulho conhecê-la!
-Quem é? - Perguntam, apenas com curiosidade. E, eu respondo, convicto de que nem todas a merecem:-Ela sabe!- E, isso é o que importa! Isso é que me importa! Considero-a como da minha família. Com a ternura de uma irmã. Lado a lado.
OBRIGADO, Senhora Professora por ser assim!
OBRIGADO por me ensinar a eu ser como sou! Penso que fui um bom aluno e posso dizer o que disse. Repetir, se for imperioso, tudo outra vez ou mais vezes, as vezes que forem necessárias, para que não a tomem como uma Professora qualquer, que não é! Um bem-haja, Senhora Professora! E, perdoe-me a franqueza! A franqueza de uma imensa amizade que não confunde as coisas, não as mistura, mas respeita-as!
De forma inconfundivelmente sincera!
Pode crer!
By Poliedro Dezembro de 2006

25 novembro, 2006

Fumando um cigarro e depois outro...


Fumando um cigarro e depois outro...
Assim te encontrei em Setembro, numa pequena sala de trabalho.
Olhamo-nos e medimo-nos desconfiados, temendo que um invadisse o território do outro.
Não te consegui ler os pensamentos e achei-te estranho, confesso. Provavelmente raciocinaste de forma idêntica, o meu visual meio freak, delineado com um corte de cabelo estranho, não se apresentava de fácil digestão.
E tu fumavas mais um cigarro.
Com um projecto profissional comum, ultrapassamos barreiras e convergimos numa cumplicidade para a ventura e para a desgraça… para o bem e para o mal… e fomos inteligentes nessa atitude; rapidamente nos descobrimos e evitamos o confronto da enorme teimosia de ambos, contornamos diplomaticamente divergências, rejeitamos a competição entre nós e fomo-nos conquistando numa camaradagem construída no empenho, na perseverança, numa característica que nos une – dar o nosso melhor.
Passei a ter orgulho em partilhar contigo a história, a filosofia e a sociologia. Os nossos apontamentos e notas tomadas em escrita corrida, circulavam em circuito, mas fechado. Construímos uma estratégia comum com sucesso, completamente imbatível por parte daqueles que tentavam competir connosco. Nunca me senti defraudada, ou desapontada nas expectativas que fui processando, antes pelo contrário, descobri alguém, inteligente, muito humano, honesto, verdadeiro, com aquela ingenuidade que apenas aquelas pessoas autênticas são capazes de possuir.
Entramos pela porta da frente numa escalada de estudo e trabalho, pontilhado às vezes por alguma ansiedade da minha parte.
E tu e a tua amada tinham uma pachorra para me aturar!!!
Mas continuavas a fumar!!!
Persistias em me caracterizar com tendência de líder, confundindo liderança, com a minha suprema falta de paciência em perder tempo. Lembras-te?
Essa falta de paciência que se clonava amargamente, sempre que batia de frente com a incompetência, o oportunismo ou a irresponsabilidade de alguns. Defeito meu que por vezes me corrói de arrependimento posterior, pois torna-me um pouco insensível perante as fragilidades humanas. Defeito que soubeste sempre contornar e amenizar, devolvendo-me uma certa tranquilidade, imprescindível para concretizar o sucesso pretendido.
As reviravoltas da existência, trouxe-nos uma separação, felizmente temporária. Nesse intervalo matemático, expressava a minha interrogação sobre a tua imobilidade, na tua inércia de permanecer no sítio errado. Errado para mim, ainda hoje odeio aquelas curvas que percorria todas as manhãs, completamente ensonada e nauseada.
Finalmente prevaleceu a racionalidade em ti, e trilhamos novamente o mesmo caminho, ou se não é o mesmo, caminhamos em paralelo. Definitivamente paralelo, ou … já nem sei! Ás tantas teremos que novamente construir novo pacto de sucesso, quem sabe? É para aí que tudo aponta.
Neste novo trilho, foi passando o tempo, com os nossos companheiros, estranhando o discurso de empatia que exercitamos no dia a dia, mesmo quando discordamos de forma aguerrida, desconhecendo, até há bem pouco tempo, os antecedentes que solidificam a nossa camaradagem, que caminha de mãos dadas quase há duas décadas.
Ideias contrárias, conceitos polémicos, não resistem ao nosso olhar crítico e mordaz, diluindo-se naturalmente num sorriso mútuo, doce, bem- humorado, espelhando aquilo que há de belo numa verdadeira amizade.
Hoje ainda fumas!
A. Quelhas

26 outubro, 2006

Uma espera feita de amor (II)

Quando entrei, de novo, no estranho Hospital acompanhado da minha amada, olhei demoradamente à minha volta. Perscrutei tudo o que me rodeava, auscultando introspectivamente se tudo estava normal e, se nenhuma situação insólita ou esquisita não reinavam naquele dia, resplandecente aos meus olhos.
Era decisivo para mim e para ela!
Suspirei de alívio!
Não vi anzóis, arpões ou limpa pára - brisas à vista ou em conversas.
Sosseguei, um pouco mais, eu que me enervo facilmente.
Já era razoável ao meu exigente pensamento.
Não!
Não pensem que me esqueci do nosso chefe e Sr. Professor e,
muito estimado e respeitado, José. Imaginei logo o nosso valoroso Sr.Professor, entretido a compor e a medir rigorosamente o segmento de recta do bloco operatório, protestando por não o chamarem logo nesse arranjo, perito em segmentos de recta.
Pensei, que ele tinha razão!
Um chefe tem sempre razão, mesmo que ninguém concorde!
Pensei também, que os seus protestos e a sua indignação tinham todo o meu aplauso. Nem todos têm rigor no traço! Se ele era perito, deveriam tê-lo chamado de imediato! As pessoas têm todo o valor em alguma coisa e, por isso, o seu talento deveria ser mostrado e elogiado de imediato e prontamente. Mais uma vez, o nosso chefe tivera toda a razão. Ainda, não sei se preencheu o livro de reclamações do estranho Hospital ou não. Por certo, não deve existir, senão deveria usá-lo, que é para estes casos que ele serve.
Pelo menos terá sempre o meu apoio.
Penso que deve bastar o meu apoio porque ele também me apoiaria, se eu fosse bom em segmentos de recta como ele. Infelizmente, não sou!
Mas, deixemos o prezado Sr. Professor e Chefe e os segmentos de recta em que é perito em PAZ.
Não o vi e, isso, é que interessa para o meu bem-estar, eu que sou muito complicado.
Olhei de novo. Senti um arrepio pensando que vira a diligente senhora da cadeira de rodas e que me ameaçara com umas chineladas, em sua casa, se eu fosse marido dela, por eu não querer largar a sopa e ter chegado ligeiramente atrasado.
Tremi e arregalei bem os olhos.
Não! Não era ela.
Esqueço-me sempre dos óculos, eles que me fazem tanta falta e, torna-se necessário forçar um pouco a vista, para descortinar alguém que conheço. Não temi as chineladas, mas fiquei muito mais aliviado por não ser ela, podem crer!
Não que lhe quisesse mal, pois era a sua profissão, mas era melhor assim, para evitar complicações de novo. Até podia estar mal disposta e sabe-se lá no que lhe daria para fazer? Ponto Final, estava mais descansado! E, é tudo! Entretido nestas divagações, apurei o meu turvo olhar e constatei um facto: todos os doentes tinham um envelope junto deles!
A minha amada também tinha um, mas nunca espreitei lá para dentro, confesso. Era dela! E só dela! O deles era só deles! Respeitei-os, apesar desta constatação não merecer que alguém ma explicasse. Achei curioso. Só isso! Este envelope merecerá sempre a minha consideração. Estou a falar-vos sinceramente! Quero... Exijo que compreendam, porque estou a falar mesmo de verdade! É apenas curioso! Só isso! Nada mais!
Após, conversar com a jovem e esbelta menina do balcão, sentamo-nos.
Parecera-me ser uma adolescente sem problemas de qualquer índole e não carecer de falta de identidade, próprias da idade. Por certo, o complexo de Édipo, já teria sido ultrapassado com sucesso. Parecera-me normal, em suma. Simpática e atenciosa! Não lhe perguntei se estava informada sobre as protecções de carácter sexual que devia ter, pois, ela estava a atravessar esta fase algo complicada da vida, porque não quis incomodar, mas pressagio que sim.
Devia estar informada e bem informada!
O porquê?
Não sei! Sempre me interessei pelos problemas da adolescência e tudo era de esperar ali, mas esforcei-me e não disse nada.Poderia ser inconveniente, mas algo me soprava, para que conversasse com ela. Eu ficaria mais descansado! Não nos podemos esquecer que era jovem.
Resolvi-me calar, seguindo os conselhos simpáticos da minha amada. Ela havia-me dito, que se fosse possível não abrisse ali a boca, apesar de poder encontrar alguma coisa fora do normal. E eu, custosamente anuíe permaneci calado, mas entregue aos meus pensamentos, porque sinto necessidadede pensar.
Sinto necessidade de pensar, por mais esquisitos e absurdos que estes pensamentos sejam! Ela sabe e foi por isso que me mandou não abrir a boca. Disse-me pacientemente que, quando saíssemos, teria uma surpresa e aí já poderia dizer tudo o que me viesse à cabeça, habituada que já estava. Eu compreendi, mas tive pena de não esclarecer e informar a jovem sobre os problemas que poderia ter.
Afinal, eu sou um Educador!
E, os Educadores educam.
Que dissessem alguma coisa deste género ao Sr. Professor José. Aí deles! Nem vale a pena explicar o que aconteceria! Ele, é um Educador e dos bons! Ele, de boca fechada? Nem pensar! Competência e a atitude de educar são com ele.
Ou pensam que percebe só de segmentos de recta? Nem pensar. Isto é com ele, bom como é. Outro dia até me confessou que iria escrever um romance de amor!
Fiquei estarrecido, porque ele também tem bom coração. Só que ninguém vê?
Ele explicaria tudo à jovem. E com desenvoltura! Tenho a plena certeza. É pena não aproveitarem este talentoso rapaz !
Como já dissera ou se não o disse, digo agora, a tentação da sopa poderia esperar por agora. É certo que me acalmaria, mas resolvi esperar, para acompanhar a minha amada na evolução dos acontecimentos, naquele estranho Hospital.
E, já sentia um vazio manifesto no meu estômago. Mas, prometi-lhe e era para cumprir. Não que ela não compreendesse ou se importasse. Mas, resolvi esperar, só um pouco mais! Também não tinha nada que fazer!
Olhei, tudo de novo. Estava imensa gente. Sentados nas suas cadeiras sussurrando uns com os outros de forma bem audível os seus pensamentos. Apurei que a sala estava cheia.
Nunca compreendi a razão porque aquele Hospital estava sempre cheio, esquisito como era.
Ouviam atentamente os altifalantes mal colocados, que os chamariam não sei para quê.
Lá estava eu, ao pé da minha amada, também ouvindo o momento de escutar o seu nome.
Explicou-me, pausadamente, que não havia necessidade de ir com ela lá dentro. Ela exploraria, sozinha, aquele local. Só teria de guardar a sua gabardina.
Compreendi que tinha imenso gosto naquela gabardina! Tinha uma espécie de amor pela gabardina, incompreensível, porque eu estava ali e tinha - a conhecido primeiro.
Lá teria as suas razões!
Eu assenti e disse-lhe, que a defenderia até à morte, aquela gabardina e a sua espécie de amor por ela!
Que tivesse um envelope, se calhar com a planificação das aulas para os alunos na sua escola, era compreensível, mas deixar-me entregue a uma gabardina, não entendi lá muito bem.
Se calhar, era a expressão da sua total confiança depositada em mim.
Estava a matutar um pouco sobre aquilo, quando ouvi o seu nome no altifalante, mal posicionado. Deu-me um beijo, que retribui. Levantou-se e dirigiu-se à porta malfadada, donde eu a vira sair da outra vez, arpoada.
Resolvi ir fumar um cigarro, mas agarrado à gabardina. Eu deveria defender a gabardina até à morte! Para lá disso era agradável ao olhar e até poderia vesti-la na sua ausência. Não! Penso que não, era dela! Só dela!
Quando regressei, via-se sair com um sorriso plantado na boca, emanando satisfação. Tudo havia decorrido muito bem e estava boa de saúde. Nada nela fora detectado de anormal. Estava de perfeita saúde! Entreguei-lhe a gabardina e beijei-a várias vezes, com ternura e carinho. Sorri para toda a gente que ali estava, solidario com todos eles e esperançado na cura rápida de todos eles.
Sorri virtualmente e, como se estivessem perto de mim, para todos os que me incentivaram a descrever um pouco a minha angústia vivida quase há um ano, com a minha esposa.
Agradeci a todos os que me apoiaram.
Agradeci aEle.
Agradeci ao amor que nutro pela minha esposa e ela por mim. Enfim, a todas as pessoas do Mundo que conseguiram ultrapassar as suas doenças, com força de vontade e querer. Acima de tudo, agradeço a todos os profissionais de saúde, pela dedicação e amor que nutrem pelos seus doentes e tudo fazem para combater os seus males.
No fim de tudo, resta dizer que fui comer a sopa, que mais uma vez me acalmou.
A minha amada acompanhou-me e, ambos sorrimos, pelo amor mútuo que sentimos umpelo outro.
Indissolúvel e inequívoco!
Pena, 2006

20 outubro, 2006

Abra-se o silêncio


Abra-se o silêncio com silêncio
feche-se a torneira da inteligência
façamos um soneto sem letras
mantidas na coerência
da palavra
do pensamento
da ideia
Tudo o resto leva o vento
Blue Ghost

13 outubro, 2006

A minha doce irmã e o preço do crescimento

A minha irmã era de uma ternura e pureza de deslumbrantes. Chamava-se Ana Cristina, mas todos nós lhe chamávamos a nossa Menina. A sua idade distanciava muito da nossa, de mim e do meu irmão, daí este tratamento carinhoso e emocionalmente elucidativo e bem sugestivo do que sentíamos por ela.
Parece que ainda a vejo no berço, aquela encomendinha intocável, frágil como era nesta sua primeira aparição ao mundo, mas com uns olhos muito belos e cintilantes faiscando de curiosidade e percepcionando tudo à sua volta, com uma lucidez e uma presença surpreendentes.
Vivos, intensamente vivos e reluzentes eram aqueles olhos.
Era assim que nós a víamos e era assim que eu a via.
A nossa Menina!
O seu nascimento mudara totalmente a nossa existência.
Fôra a surpresa. Fôramos preparados, mas mesmo assim fôra tudo inesperado, demasiado inesperado! Fôra um acontecimento único, verdadeiro, intransmissível! Só nosso.
Mais tarde a minha irmã tornou-se para mim, mais que uma irmã, mas uma companheira e uma dedicada amiga sempre ao meu lado e que se preocupava comigo e com o meu bem estar. Este solidário sentimento também o sentia inequivocamente por ela, independentemente dos seus gestos, das suas atitudes e das suas convicções. Compreendia-a e ela parecia compreender-me. Para mim nunca passou dos quinze anos e hoje uma adulta, sinto que tem os mesmos quinze anos.
Nunca a vi cavalgar no tempo, envelhecer, pois, tem a candura e a presença de quinze anos, nem mais nem menos. Apesar de ter crescido e ter-se tornado uma mulher, entre a amargura e a felicidade da vida, ela é a nossa Menina, a minha Menina, a Menina de todos nós!
Relembro a sua infância e a minha infância incontornáveis no tempo, repletas de amor fraternal à luz das transparentes brincadeiras a que nos entregávamos e assumíamos com um porte e uma seriedade infantis.
Recordo um boneco que era dela.
Um boneco que ela amava, idolatrava e se tornara imprescindível junto de
si e para onde quer que fosse.
Recordo o nome que ela lhe pusera. Chamava-seJoni.
Ele fazia parte dos seus sonhos, dos seus projectos, dos seus sentimentos e dos seus constantes pensamentos. O Joni entrara na sua vida, mas entrara com um amor intenso, inseparável. O Joni tornara-se um filho, um anjo que nascera para viver sempre com ela, em todos os seus momentos.
Amava-o.
Embalava-o quando tinha sono.
Alimentava-o quando tinha fome.
Importava-se com ele quando era preciso!
Era tudo para ela!
Nunca me intrigou a presença deste boneco na vida dela. Simplesmente pensei que deveria merecer toda a sua atenção e que deveria ser bom pela dedicação que ela lhe prestava.
Passava horas e horas a fio adorando e mimando o seu protegido, direi mais, o seu filho, o filho a quem todas as mães dedicam atenção e carinho, procurando salvaguardá-lo de todos os perigos. Ainda hoje me parece vê-la ostentando o seu valor precioso, a sua dádiva celestial, o seu imenso tesouro.
E eu compreendia-a e encarava-o com consideração e respeito.
Penso que só ela o sentia verdadeiramente como seu, só o sentia para si, sem admitir interferências de ninguém. Aproximava-se das pessoas, mas encostava-o ternamente contra o seu franzino peito numa atitude de posse total. Afinal ele era dela, só dela e nada mais interessava. Afinal, a magia do amor estava neles os dois, intrinsecamente envolvente, de forma seriamente comprometedora e como só eles sabiam, secretamente, sussurrando segredos entre si, confidências importantes que eram só suas.
Não me surpreendia que o Joni fosse careca, fosse zarolho, fosse maneta ou fosse perneta. Surpreendia-me isso sim, o facto de todos se preocuparem. O Joni, o amor da minha irmã, era tudo isto e ela amava-o, amava-o com toda a ternura e os outros, a opinião dos outros não lhe interessava. Ele era dela! Só dela! Só isso interessava, fosse ele como fosse! Se calhar amava-o por ser assim. Isso nunca ninguém o soube, mas penso que ela também não o diria a ninguém! Entrara na sua vida e era parte integrante dela. Isso chegava! Chegava para a tornar feliz! Imensamente feliz!
Aconteceu um dia. Falaram-lhe de uma pequena cirurgia num hospital famoso de bonecas em Lisboa.
Minha irmã não disse que sim, nem que não.
O Joni melhoraria, ele que não estava doente, mas se era para o bem dele havia que fazer tudo e isso era o mais importante.
Levou-se o Joni para Lisboa para fazer uma espécie de triagem, ver as possibilidades de sucesso da operação. Marcou-se a data e os médicos combinaram o que se iria efectuar no bloco operatório. Minha doce irmã concordou com tudo. Não fez objecções a nada. Ela queria o melhor para ele. Combinaram-se detalhes e marcou-se a hora.
O Joni foi operado.
A intervenção correu mal, ele não resistiu e acabou por sucumbir.Nada havia a fazer!
Minha irmã não chorou uma lágrima, mas sentiu um aperto interior que era só dela, do seu íntimo mais profundo.
Tudo tem o seu fim, mas aquele marcou um capítulo importante na sua vida infantil. A partir daí recusou todos os bonecos. Lindos! Esplendorosos! Bonitos! Normais!
Cresci e ainda agora relembro o seu amado Joni num misto de ternura, carinho, mas também de mistério. Um mistério que permanece e me faz sorrir. Afinal, algo perdurou em mim: a magia do seu encanto, o encanto da minha irmã e dos seus belos pensamentos e sentimentos em relação a tudo isto. Em relação à vida e à morte. Em relação aos afectos e ao encanto da existência, não só nos momentos bons, mas principalmente nos maus momentos.
A amizade e a mais envolvente persistência, que permanece nela e em mim, na sofrida disputa perante a vida, com Joni ou sem Joni. Mas, no fundo com um valor e importância afectiva desmedida!
Pena, 2006

06 outubro, 2006

Uma espera feita de amor

O que te vou contar é uma verdadeira peripécia, digna do meu registo e que procurarei recordar sempre por me parecer cómica.
Desculpa, mas não estou a brincar com coisas sérias.
A perplexidade e o espanto deste episódio é para rir.
Eu e a minha formosa Dani chegamos ao Hospital muito cedo.
Esperamos e esperamos.


Nisto ouviu-se o nome dela através de um altifalante, quase imperceptível, dissimulado numa parede branca muito escondida, por entre o sussurro dos inúmeros utentes doentes.
Iam-lhe espetar o que eles chamam de anzol!
Acompanhei-a até ao local e, sinceramente, não vi ninguém com uma cana de pesca. Pensei, depois de dizer que a amava, que talvez fosse um arpão e que lá dentro existiria água para explorar o seu fundo, repleto de espécies aquáticas! Esperei a minha amada cerca de dez minutos bem contados, sem contar com cinco em que sai para fumar um cigarro, que teimosamente não me larga.
De repente, vislumbrei-a a sair com o mesmo vestuário com que entrara.
Pensei com os meus botões e sossegado, que não fora atacada por nenhum peixe, mas que lhe haviam espetado um arpão na mama.
Afinal ela fora pescada!
Confesso que fiquei um pouco atrapalhado, mas pensei que talvez fosse necessário e não lhe demonstrei a minha inquietação. Íamos agora para o bloco operatório.
Sosseguei-a ternamente, e dirigimo-nos para lá.
Quase entrei com ela para o bloco, se não fosse uma médica mais determinada me informar que não podia passar um risco que marcaram no chão.
Não! Não estou a brincar! Estava lá um risco, se quiseres um segmento de recta com princípio e fim como diz o nosso colega, José!
Ai de quem passasse o segmento de recta!
Se calhar seria logo operado a qualquer coisa!
Depois de lhe dizer que a amava, outra vez, fui para a sala de espera.
Todas as doentes choravam ali, menos a minha amada, corajosa como é.
Lá dentro só diziam piadas. Esqueci-me de um pára-brisas, era o comentário de uma médica!
Disse cá para mim, que aquilo era correcto. Havia que acabar com o choro. Além disso, um pára-brisas para os olhos era bem pensado. Ao mesmo tempo, moí os meus pensamentos e conclui que algo de estranho estava ali a acontecer.
Primeiro um anzol, depois um arpão e, agora, um limpa pára-brisas! Decidi que aquilo não era conversa para mim e, por isso, chegara a hora de fumar outro cigarro.
Saí.
Ainda escutei um silêncio súbito, o que reforçou a minha vontade de fumar. Quando cheguei lá fora, aspirei uma longa fumaça para me recompôr da insólita e algo estranha sensação.
Apetecia-a uma sopa.
A sério, uma sopa e não podia esperar!
Estava a ficar maluco e uma sopa era capaz de me acalmar.
Ganhei coragem e desci ao bloco operatório. Sem pisar o segmento de recta marcado no chão, digno dum traço rigoroso, do nosso competente e amigo José. Deixei o número de telefone e a minha simpatia a um diligente e atencioso enfermeiro que me avisaria logo que ela saísse. E, lá fui comer a sopa!
Quando estava com a sopa à minha frente, mais tarde, o meu telefone tocou e o enfermeiro comunicou-me que podia ir buscar a minha amada.
Haviam passado 45 minutos.
45 minutos!
Não pude acreditar! Apesar de triste por ficar com a sopa a meio, fiquei contente por tudo ter corrido bem e sem problemas com a minha querida amada, naquele estranho hospital.
Quando cheguei, depois de uma corrida como nunca tinha efectuado, digna de um valoroso estafeta de pizas sem moto, olhei-a com a mais profunda ternura e beijei-a.
Senti que naquele instante era capaz de beijar todo o mundo!
Como não podia também beijar o enfermeiro, pedi à Dani que o fizesse e ela fê-lo!
Sem pisar o segmento de recta, digno do nosso prezado José, a minha amada ia sair, mas de cadeira de rodas.
Não gostou e queria ir a pé.
Surgiu uma situação confusa porque a encarregada da cadeira disse que se não o fizesse, ela perderia o emprego. Só sabia fazer aquilo e era o seu ganha pão.
A Dani fez-lhe o favor, porque se tratava de um favor.
Ela sorriu e lá fomos. Implicou comigo por chegar atrasado ao pé da minha amada e disse-me que se fosse o marido dela e lhe fizesse isso, tinha que se haver com ela e levava umas chineladas em casa. Calei-me, não por medo,mas porque me esquecera do carro para levar a minha amada e ela dizia que nunca mais poderia fazer aquilo, porque sem carro seria despedida.
Tremi, sem soluções para a situação dela e para a minha.
A Dani salvou-nos aos dois!
Inventou um carro abandonado e a diligente senhora deixou-nos ir.
Poderia, enfim, regressar à minha sopa, sem segmentos de rectas ou arpões ou anzóis!
A minha amada comeu um queque, um café e, até, fumou um cigarro.
Tudo correra maravilhosamente bem!
A minha apreensão, talvez, não fizesse sentido!

03 outubro, 2006

O que é a vida afinal


O que é a Vida Afinal?...
... uma folha em branco,
que timidamente começamos a rabiscar,
e depois escrevemos com toda a convicção....
... ou não!!!!
Com pausas, com reflexão ou com irreverência,
seguimos sempre o caminho do tempo.
Cabe a nós colori-la,
retirar-lhe a monocromia,
e organizar os grafismos... num poema!
Ana d'Or
editado em www.sanzalangola.com em 11/05/2006

25 setembro, 2006