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11 setembro, 2019

Cidade e identidade


Cidade e identidade
            A cidade é o repositório de histórias por excelência.
            Todos temos uma identidade global e uma identidade nacional fundamentada num repertório do grande colectivo, que nos converte em cidadãos de uma determinada época.
            Depois, o grande grupo de cidadãos do mundo, divide-se consoante o território onde habita e constrói identidades mais personalizadas, com vertentes fortes de pertença, de ligação aos lugares onde permanece e onde vive de forma mais ou menos sedentária. Cada cidadão cria ligações aos lugares de memória antiga, de memória intermédia e de memória presente. Os primeiros são espaços arqueológicos que provocam grande orgulho sobre o passado longínquo, os segundos geram dinâmicas das histórias do próprio individuo (onde nasceu, onde se baptizou, onde namorou, onde fazia maroteiras com os amigos, onde se casou, onde trabalhou, onde participou em eventos, onde se localizaram histórias contadas pelos avós… ) e os terceiros, espaços urbanos mais recentes, vão-se interiorizando e cristalizando em cada um.
            Os elementos de memória urbana são constituídos por edifícios civis, edifícios religiosos, as ruas, as avenidas, os jardins, os coretos, os rios, as pontes, os equipamentos colectivos e as árvores, testemunhas silenciosas, vivas, que nos presenteiam com sombra, cor e odores. Tudo isto é como o fundo da tela de uma pintura que interage com a figura principal representada na mesma, que neste caso é cada um de nós. Quando o fundo se altera, a figura permanece, mas já não é a mesma, porque lhe foi retirado algo familiar que interage com a sua identidade. A inscrição das histórias urbanas realiza-se de forma diferente em cada um, mas sobre o cenário comum a todos. Isto vale o que vale, uns valorizam outros não, nunca pensaram nisto, porém, os lugares de memória são factores de estabilidade social. A nossa identidade é aquilo que nos distingue dos outros, que reforça a nossa auto-estima e que nos faz amar os sítios e convém manter-se harmoniosa. 
            A cidade é o suporte espacial das identidades. Os cidadãos transformam espaço, em lugares, apropriam-se deles, os seus lugares, porque lhes atribuem conteúdo, simbolismo e geram comportamentos personalizados. Misturam a sua trajectória com os processos espaciais e as histórias aproximam-se e unem-se.
            É perigoso mexer com a identidade urbana. É necessário preservar os lugares para que a identidade urbana e de cada um, sejam preservadas também. Sem memória, não há diferença, não há singularidade.
            A cidade como organismo vivo em permanente e saudável crescimento, necessita também de novos cenários urbanos a localizar nos novos espaços, para poder haver novas leituras urbanas em contextos contemporâneos, enquadrados em narrativas arquitectónicas actuais e até de vanguarda, não pondo em causa a identidade referida, ou seja, novas intervenções em novos espaços.
            O perigo em mexer nos lugares é que são agressões irreversíveis. Não dá para voltar para trás e repor situações anteriores.

Publicado em NVR - 11/09/2019


21 agosto, 2019

Traição e derrota


Traição e derrota

            Estou em Riga vivendo o ambiente romântico que a Arte Nova sempre me proporciona, apreciando edifícios projectados especialmente pelo arquitecto russo Eisenstein, conferindo a esta cidade o registo adequado para fotografar e recordar mais tarde.
            Escolhi o livro de lombada mais fina para me acompanhar e ler antes de adormecer, alimentando vicio antigo. É com surpresa que leio uma história com o enquadramento das encostas do Douro, onde se faz uma abordagem da traição e da derrota, num romance sobre um casal no final de uma relação. É apenas uma história igual a tantas outras, sem conteúdo científico, porém, parece-me bem verdadeira e acutilante.
            A maioria dos casais, quando se separam, por decisão unilateral, a parte que nada decidiu, acaba por partir à descoberta do(a) rival, o(a) causador(a) do insucesso da parceria conjugal. Nada mais lhe passa pela cabeça a não ser, alguém que lhe roubou o(a) parceiro(a). Apenas foca o pensamento nisso não admitindo que pode não haver traição, nem rival. Movem montanhas, espreitam a vida do(a) outro(a), para ver com quem se encontra, para aonde vai, com quem janta, a que horas regressa a casa, como está vestido(a), quanto tempo permanece em casa, se possível passam a pente fino o computador e o telemóvel, na desesperada procura e confirmação da suposta traição.
            Esquecem a ética, a dignidade e chafurdam em áreas que não lhes compete, invadindo o espaço do outro, devassando a privacidade a que cada um tem direito. Se tiverem dinheiro até contractam um detective, para que a informação lhes chegue bem documentada, anestesiando a irritação do seu ego, dando-lhe carradas de razão em discussões perfeitamente idiotas e irracionais, desenhando memórias inexistentes e que lhe alimentarão a depressão futura. 
            Moem e remoem essa ideia martirizando-se com ciúme, dor, sede de vingança e por vezes reagem violentamente, agredindo o(a) parceiro(a) verbalmente e ou fisicamente, não admitindo a rejeição. Ameaçam matar-se, como reduto final, apelando à misericórdia, como se a felicidade estivesse assegurada com a piedade pelo outro e ignorando todas as advertências e mal-estar demonstrados ao longo do tempo. Constroem “filmes” na sua insegurança bem escondida, sofrem, choram, atribuem significados especiais e duvidosos a situações vulgares, mas raramente pensam que pode não haver traição. Isso é inconcebível porque equivale ao seu fracasso, à sua derrota e à sua incompetência. É muito mais fácil atirar a culpa para os outros.
            É difícil e doloroso assumir culpas porque isso é pôr em causa a sua acção que ao longo dos anos se entendeu ser muito acertada, nunca questionando se seria acertada para o outro(a). A competição ao longo do tempo não foi com um terceiro elemento, mas sim consigo próprio. É difícil reavaliar os seus próprios conceitos e separar os erros que se repetiram constantemente e massacraram o outro, para além do tédio permanente que se foi instalando na re(a)lação. Todos os dias o objectivo deveria ser melhorar, superar-se e saber surpreender pela positiva o(a) outro(a), cuidando da felicidade dos dois — todos os dias, como se cada dia fosse o último dia das suas vidas. Mas não foi assim! Reconhecer isso é mais doloroso do que ser traído. O(a) “outro(a)” é o próprio e não saber lidar com isso é o desconserto de tudo, que nenhuma garrafa de uísque consegue afogar e que atormentará cada minuto de reflexão futura. Tudo isto requer uma aprendizagem que nem todos estão predispostos para investir, porque exige esforço, inteligência, altruísmo, cedência e preocupação na desconstrução da realidade.
            Apesar de doloroso, é mais fácil culpar os outros do que mergulhar na escuridão que vive dentro de cada um e acender a luz.
            Estou em Riga, apreciando o naturalismo esculpido na arquitectura urbana. Curiosamente, sempre acontece em viagem, cruzar-me com noivos que se fazem fotografar em ruas interessantes, com os seus egos elevados e de cara bonita. Oiço alguém dizer:
            — Logo estarás a lavar a loiça e ele de pantufas a ver futebol. 
            Nunca é demais escrever sobre este tema.
Publicado em NVR

07 agosto, 2019

woodstock 50


Woodstock 50

                Woodstock foi uma referência para as gerações que viveram o final da década de 60, a década das grandes revoluções, apregoando “peace and love” e “é proibido proibir”.
                Os saudosistas, aqueles que se iludem que podem parar o tempo e restaurar as emoções, pretenderam assinalar a efeméride com a repetição do festival após 50 anos, no mesmo local e reunindo alguns músicos que ainda se encontram operacionais e activos (são poucos).
                A organização revelou-se problemática e tudo resvalou para um grande fracasso. Ainda bem!
                O que me impressiona em tudo isto é o desejo do repetir, o revivalismo de uma situação que hoje já não teria significado algum, porque o mundo em 50 anos deu muita volta.
                Hoje, o que é a contra-cultura?
                Qual é o interesse do Woodstock sem Jimi Hendrix, Janis Jopplin, Joe Cocker, Ten Years After ou sem os Crosby, Stills, Nash & Young? Só serviria para deprimir os que ainda andam por cá.
                Qual é o interesse de um festival de música, quando todos os anos existem milhares de festivais por esse mundo fora? Aquele foi único, mágico e irrepetível.
                Faz-me lembrar os encontros de amigos que já não se veem há mais de 40 anos, antigos colegas de escola, em que à euforia que antecede o evento, sucede a decepção, porque nada mais é igual. O tempo não se engana, apenas o Homem quer e insiste em enganar-se.
                Aquela fulana boazuda que atraia os olhares do sector masculino, é agora uma velhinha cheia de varizes que anda com uma muleta e sofre de azia permanente, aquele jovem alto, loiro, de olhos azuis, que encantava a ala feminina, é agora um ancião calvo, barrigudo e com uma dentadura desarticulada que se mexe como se tivesse vida própria. As raparigas de cabelos escuros passaram a senhoras loiras, os rapazes bons de conversa, não passam de velhos canastrões. E tudo cai com a força da gravidade, não se iludam, tudo cai, são as mamas, são as papadas, são os glúteos, é a barriga avental, são as peles oculares… e tudo o resto que vocês imaginam. A pele cresceu e os super, híper balzaquianos mirraram.
                É impossível disfarçar as artroses, os joanetes, as manchas na pele, os esquecimentos, o aparelho auditivo e os tremeliques parkinsianos. É impossível não lembrar aqueles que já partiram. E é impossível resgatar o passado.
                Depois do impacto desolador inicial, porque a maioria não se reconhece, cada um desenrola a família, evidenciando os maiores sucessos, os casamentos (normalmente 2 ou 3) e depois, tudo se resume às dores daqui e dacolá. Um queixa-se, o outro queixa-se também, porque tem um problema semelhante… as emoções da juventude e da defesa de grandes causas dão lugar às sensações de dor e às decepções da geriatria. É a politica, é o futebol, é a saúde, é a reforma… nada está bem. Sugerem-se mezinhas e publicidades enganosas da internet, para curar certos males. Poucos tem novos projectos, cada um é mais conformado do que o outro. As mulheres convertem-se à igreja e os homens vão de arrasto.
                Alguns apresentam-se descompostos, outros têm mau hálito, cheiram a tabaco e a álcool. Poucos arriscaram uma plástica, e mesmo assim ao sorrir levantam ligeiramente uma das pernas e as sobrancelhas quase chegam até às orelhas. Claro que não chegam com as mãos aos pés, devido às cruzes enferrujadas, mas as sobrancelhas quase tocam as orelhas.
                Quase todos usam óculos e felizmente todos têm orelhas para os pendurar, caso contrário… (faz-me lembrar uma anedota).
                Se há almoço, antes da refeição cada um saca dos comprimidos e alinham-nos paralelos ao talher. Trocam-se números de telemóvel e finge-se uma alegria idiota e irreal, quando o coração se apertou para sempre. É difícil digerir o tempo.
                Poupem-me! não quero saber de Woodstock nenhum, quero conservar apenas o que me ficou em memória, para ainda alimentar os meus sonhos.
                Todos nós fomos felizes naquela época, não porque a época foi especial, mas tão sómente porque eramos jovens.
                Será sempre assim.

19 junho, 2019

FESTAS JUNINAS


Festas Juninas
“Parece que o tempo voa;
Balões, o baile, a folia;
A fogueira ainda está boa:
Mais um pulo e já é dia.               (anónimo)



                Sto. António, S. João e S. Pedro são santos com sorte, pois, estão sempre associados a festança, alegria e folia. Colaram-se aos festejos pagãos do solstício de verão e tornaram-se populares, libertando-se dos martírios, sacrifícios e dor, do cristianismo e assumiram o lado festivo de celebração da vida. Já os Romanos, utilizavam estes dias próximos do maior dia do ano, para realizar um grande festival em honra ao seu deus Summanus.
                Nós que vivemos num país agnóstico, dá-nos um jeitaço estas sagradas festas juninas, com os seus feriados municipais, permitindo-nos uma pausa laboral, para apanhar sol, picnicar, abraçar as farturas e os carrosséis, deitar tarde e sobretudo conviver com os amigos. As ruas animam-se com bandeirinhas coloridas que as atravessam no céu, em várias direções.             A maioria sabe que o S. Pedro é o meteorologista lá no céu, o S. João está ligado ao baptismo de alguém, aos martelos e ao alho-porro, e o Sto. António é calvo e carrega sempre um menino ao colo, e que todos levam a malta à rua para comer umas sardinholas, uns pimentos assados, umas bifanas, comprar um manjerico com uma quadra bem brejeira, saltar uma pequena fogueira, soltar um balão iluminado de ar quente e dançar uma música pimba quase à meia- noite, com o orvalho a cair. Os mais habilidosos na dança e na paciência, ainda arriscam a marcha popular, os tolerantes oferecem a cabeça à martelada, e os mais organizados na economia doméstica investem na feira da cueca. Provar a ginjinha, a broa com a sardinha, e esperar pelo foguetório que se inicia por volta da meia-noite, ao som da banda de música ou dos bombos animam os foliões cada vez mais alcoolizados e transpirados.
                Os significados da fogueira e do rosmaninho, poucos conhecem. Solstício? Ah? Porra, até para escrever é difícil! São festas juninas ou sanjoaninas? Dahh! Agradecimento em relação às colheitas… colheitas? Camponeses? Então os produtos que consumimos não nascem nos armazéns dos supermercados? Fertilidade?  
                Bora lá prás sardinhas, que é tempo delas! Assadas na brasa e a escorrer gordura. Shlep! 
“Às pedras da nossa rua
Ouvi dizer, já de dia,
Que a melhor brasa era a tua:
Queimou toda a freguesia!..” (anónimo) 
AQ
Publicado em NVR  

05 junho, 2019

Um abraço da lusofonia


Um abraço da lusofonia        

     
                Já um pouco atrasada, mas não posso deixar de referir o Prémio Camões 2019 atribuído a Chico Buarque de Hollanda. A escolha gerou unanimidade deste lado do Atlântico, apesar de uns murmúrios que a escolha tinha o objectivo de atingir Bolsonaro.
                Se foi ou não, não faço ideia, o nosso poeta é admirado muito antes de Bolsonáro e este prémio faz todo o sentido. Digo “nosso” porque este senhor faz a síntese de várias gerações de lusófonos de diversas longitudes/latitudes. Sinto-o próximo apesar de nunca ter estado com ele. No crescimento de um grande grupo de pessoas onde me incluo, Chico Buarque sempre foi uma referência em muitos momentos, sobretudo na poesia, na música e nos afectos. Quando revejo a minha vida há sons tropicais de terras zucas, que ficaram plasmados em mim e para sempre,
                “Ver a banda passar”, assinala a minha infância…
                A minha rebeldia tem tudo a ver com:
                “Oiça um bom conselho que eu lhe dou de graça, inútil dormir que a dor não passa, espere sentado ou você se cansa, quem espera nunca alcança…”
                Nunca o topei ao virar da esquina, tenho pena, ficaria sem jeito e cheia de vontade para lhe pedir, faz uma música só para mim.
                Um dia Clarice Lispector disse, que Chico era “altamente gostável” e eu concordo. Doce, terno, tímido, honesto, lúcido, melancólico, com sentido de humor, pacífico, bonito fez a revolução das mentalidades de várias gerações com as palavras tão peculiares e tão acertadas quando associadas à música, relatando de forma inteligente e poética o seu amado Brasil tão multifacetado. É sobretudo um potencial e genuíno criativo, daqueles que sofre de “vazio”, angustia-se na procura da inspiração, recebe as ideias num flash que há muito procurava e no final sente-se perdido quando um projecto se conclui. A fama vem depois, como consequência, mas não influenciando em nada a sua postura.
                Por vezes ouvi junto ao meu ouvido, palavras que tentavam conter a minha nostalgia,  “morena de olhos de agua, tire os seus olhos do mar, vem ver que a vida ainda vale, um sorriso que eu tenho para lhe dar.”
                Invejo-o por ter criado tão a bem a sua construção, desenhando o operário sem esperança:
“…Subiu a construção como se fosse máquina, ergueu no patamar quatro paredes sólidas, tijolo com tijolo num desenho mágico, seus olhos embotados de cimento e lágrima…”
                Cada um terá um contexto pessoal ligado a uma música sua. O Chico é a prova de como é possível dizer as coisas proibidas e desconfortáveis, sem falar claramente nelas, mas com mensagem inteligente, discreta e humanista que atinge em cheio, o receptor.
                O que dizer de “tanto mar, tanto mar” a separar dois países irmãos, em que só um está “na primavera, pá”?
E contrariando a bigamia… "Quando teu coração suplicar, ou quando teu capricho exigir, largo mulher e filhos e de joelhos vou te seguir"
                Li o romance Budapeste, escrito na sua maturidade, focando-me na análise da duplicidade do amor e ganhei vontade para visitar esta cidade, para tentar perceber como se escreve enquadrando um local, sem o conhecer, como fez Chico. Li o meu irmão alemão e descobri alguns mistérios da sua família e relembrei alguns da minha.
                Meu caro amigo:
“a coisa por aí está preta,
saudações para Marieta”,
esperamos por si um dia,
um abraço da lusofonia.

AQ
Publicado em NVR

22 maio, 2019

Hey Joe


Hey Joe
Hey Joe,
Huh, and that ain't too cool[1]
            Sempre achei estranho o homem vestido de preto, elegante, de sotaque complicado de ilhéu, que nasceu pobre, mas, enriqueceu de tal forma, permitindo-se coleccionar obras de arte e ter o espírito magnânimo de as partilhar com os outros. Uma imagem trabalhada, um estilo criado para homem bem-sucedido, amigo das artes e para celebrar a vigarice e o oportunismo, conclui-se.
            Berardo foi condecorado e agora poderá juntar-se à prateleira do Armando Vara, Carlos Cruz e José Sócrates.
            Gostaria de saber como, em meia dúzia de anos, se tem dinheiro para comprar minas de ouro? Tenho-me esforçado e não consigo, nem entender, nem juntar dinheiro para comprar um filãozinho…
            Há uma teoria simples que raramente falha. Só há 3 formas de enriquecer rápido:
1 — por herança
2 — na “horizontal”
3 — roubando ou atropelando a ética e o direito.  
            Vi-o na TV há dias e percebi que tudo é uma rede de negócios bem montada por ele, por quem lhe dá suporte jurídico e por quem permite que esta rede funcione.
Hey Joe,
Huh, and that ain't too cool
            BCP, OPA do Benfica, os truques da comunicação social, a PT, a SOGRAPE, o museu no CCB, são os cruzamentos da teia, urdida sabiamente através de fundações e associações, que lhe retiram responsabilidades directas acerca de dívidas. Não há crime perfeito, mas Berardo explorou bem as frestas, os meandros e os contornos das leis, em seu benefício e nem sei se isso poderá ser considerado crime. Não é ético, mas crime, não sei. O novelo de situações que a Assembleia da Republica tentou desmontar, sem sucesso, serviu apenas para tornar mais visível quem é este homem de vida full, como ele se classificava, cujos negócios são complexos, sempre traduzidos em milhões e que aos comuns mortais, resta apenas a desconfiança de que vai sobrar para todos nós.
Hey Joe,
Huh, and that ain't too cool
            Teoricamente rolarão outras cabeças, porque neste caso há alguém que prevarica e alguém que deixa prevaricar, porém,…
            Quando pedi empréstimo à banca para fazer a minha casa, a garantia do meu salário não foi suficiente, tive que hipotecar o terreno aonde iria construir.
            Não entendo!



[1] Jimi Hendrix [tema diferente, com a semelhança de um “Joe” a asneirar]


In Revoltando os dias. NVR 22/05/2019

06 março, 2019

A GRANDE ESTRADA DO MAR


A grande estrada do mar

                Tive oportunidade de assistir à apresentação pública das iniciativas da educação no âmbito das Comemorações do V Centenário da Primeira Viagem de Circum-navegação que decorreu no Teatro Municipal de Vila Real no dia 1 de Março de 2019.
                Começarei por saudar o evento, a organização, o plano de acção, a matriz programática das comemorações, os participantes músicos que abrilhantaram a sessão, mas sobretudo a intervenção do cientista Fernando Carvalho Rodrigues, conhecido pelo “pai” do satélite português. PoSAT 1. Tenho uma profunda admiração por este senhor, pelo seu valor no mundo da ciência — membro de diversas academias científicas internacionais, galardoado com vários prémios, entre os quais o Prémio Pfizer, o Prémio Gulbenkian de Ciência e Tecnologia e o Prémio Albert J. Myer — e pela sua capacidade de comunicar, rigorosa, simples e irónica, que prende a atenção de qualquer ouvinte.
                Conheci-o através da televisão há muitos anos, explicando alguns dos mistérios da física, evidenciando e homenageando a personalidade de outra figura ligada também à ciência, Rómulo de Carvalho ou António Gedeão para os poetas. Ele transforma o mundo da ciência, por vezes complexo, em interpretações fáceis, atractivas e cheias de humor. Com ele tudo parece simples e acessível ao nosso entendimento. Quem o ouve fica seduzido pelo seu mundo – em poucos minutos ele ganha um auditório a escutá-lo com atenção. Ficaria horas a ouvi-lo, sem me maçar, pois, facilmente entro no seu discurso e deixo-me levar nas suas palavras e conceitos. Todas as suas teorias têm o poder de pendurar um sorriso nos meus lábios e congratular-me pela oportunidade que me dou de o escutar. É sempre surpreendente. Desta vez o foco foi Fernão de Magalhães e a sua viagem considerando-a como a primeira grande “estrada por mar”, a descoberta que será replicada daqui a muitas gerações.
                Segundo ele, quando a nossa civilização terminar, as gerações do futuro irão ter como referências passadas, as cinco grandes estradas: a Via Appia dos romanos, a grande estrada por mar de Magalhães, a estrada do ar de Gago Coutinho, a estrada interplanetária dos Russos e a estradas do tempo (digitais). Considero interessante esta teoria que sintetiza em 5 vias a evolução da humanidade.
                A sua intervenção correu solta, livre como o seu entusiasmo contagiante. Registei algumas referências e conceitos que partilho aqui:
- a diferença entre globalização e mundialização, a esfericidade da terra, Saramago, Darwin, a via Appia que unia Roma a Cápua, a teoria das cinco estradas, o desejo dos portugueses em ter opinião, os professores escravos, as estradas por mar, descobertas pelos portugueses, o biombos de Nambam, que considera a 1º retrato da humanidade, os seres de silício, as estradas do tempo,… 
                Bem-haja professor, sem si a ciência não seria a mesma coisa. Foi uma boa aposta trazê-lo às terras de Magalhães para partilhar connosco a sua visão do mundo.

Publicado em NVR - 6/03/2019

20 fevereiro, 2019

Amor é para amar, cuidar e proteger




Amor é para amar, cuidar e proteger
            Nunca é demais falar, repetir uma vez, dezenas de vezes sobre as mulheres que são vítimas de violência doméstica. Está tudo dito, mas continuamos a envergonhar o ser humano.
             A minha geração tinha a ilusão que a emancipação da mulher, mais década menos década, a violência entre casais se extinguiria, que os nossos parceiros masculinos da geração make love not war teriam dado um passo em frente na evolução da espécie e seriam nossos aliados  contra esta faceta deplorável da sociedade e das relações humanas. Imaginámos que na geração dos nossos filhos já todo o mundo teria esquecido os olhos roxos, os dentes partidos e as nódoas negras no leito conjugal.
            Nada disto bateu certo.
            Estamos em 2019 e tudo continua semelhante, a única diferença é que tudo já começa no namoro e estando ou não casado, a violência persiste, os hematomas afloram no corpo feminino e em qualquer classe social.
            A nossa sociedade ainda não arranjou uma estratégia para proteger mulheres e filhos, mas o lado masculino já aprendeu até a bater sem deixar marcas para não haver evidências perante a polícia.
            Imagino o terror que a mulher sente ao denunciar e ainda o gozo a que é sujeita nas esquadras de polícia, submersa em questionários intermináveis, tendo que expor o que quer, e o que não quer, numa situação de grande fragilidade, para depois voltar para casa correndo o risco do companheiro estar à sua espera na saída da esquadra com dois bofetões dentro das mãos e vários outros de reserva. 
            Considero que tudo isto deveria funcionar ao contrário, em vez da vítima disfarçar, se controlar, se proteger e até se esconder, deveria ser o  agressor, o alvo da alteração da sua rotina: ser detido ou vigiado!
            Na dúvida prefiro apostar no antes preventivo do que a certeza de um depois dramático e fatalmente irreversível.
            Há mentalidades obtusas que teimam em não mudar — de homens e de mulheres. Há uma culpa em duplicado. As mulheres toleram e os homens abusam recorrendo à sua superioridade em tamanho e força física e à sua brutalidade boçal. Há mulheres idiotas que associam a violência e o ciúme, ao amor que os companheiros sentem por elas, como se houvesse qualquer possibilidade de haver uma ligação saudável entre estas palavras.
            — Meninas acordem, por amor não se faz tudo. Por amor nunca se faz aquilo que vos magoa. Quem vos trata a berrar, quem controla muito, quem proíbe, quem vos tira aos poucos os vossos direitos e a vossa liberdade, quem vos agride e pede desculpa a seguir, será o vosso futuro carrasco. Ninguém é dono de ninguém. Nada justifica a violência.
            Amor é para amar, cuidar e proteger.

Publicado em NVR 20/02/2019

02 janeiro, 2019

OS TRISTINHOS DO NATAL


Os tristinhos do Natal
            Há quem abomine o Natal e assuma uma postura crítica apelando ao consumismo exagerado, à hipocrisia das famílias reunidas à volta da mesa, à obrigação de dar presentes, aos presépios, às árvores de Natal sem sentido, às iluminações de rua, à música que enche as ruas das cidades e à troca de votos de felicidade entre os amigos, às questões religiosas...
            Normalmente os verdadeiros motivos não são esses. Porque se fossem, seria fácil… cada um organiza o Natal como quer. Se quer comprar presentes, compra, se não quer, não compra. Se quer fazer árvore de Natal, faz, se não quer, não faz, se quer enviar felicitações envia, se não quer, não envia. Só passa o Natal em família quem quer. Se há problemas, se considera hipocrisia não compareça à reunião familiar. Quem recebe a família tem uma atitude altruísta e sobretudo dispendiosa, portanto, quem não está bem, não deve comparecer — serão menos lugares na mesa, menos rabanadas para fazer e menos um presente para comprar. Na festa da família deve reinar a paz e a harmonia, se assim não for, não faz sentido e o melhor é não comparecer. Não se junte à família apenas pelos bolos de bacalhau.
            Quando o argumentário é desconstruído, sob o diálogo paciente com um amigo, tornam-se visíveis as mágoas, a perda de alguém e os desencontros familiares. Não é fácil essa desconstrução, porque a reação primeira é sempre a teimosia e a negação. Só mediante muita pressão é que as lágrimas saltam e as palavras se libertam. Os argumentos dilatam para o Reveillon, para o Carnaval e todos os momentos em que a alegria e os afectos  se conjugam, se exteriorizam e se convertem na verborreia do “contra”, com “olhar de cão”, atestando toda a infelicidade do mundo.
            Não compram presentes, desligam o telemóvel dia 24, às 15 h da tarde e só voltam a liga-lo no dia 26, para que ninguém comunique com eles. Metem-se em casa, de preferência na cama e cultivam a infelicidade, entre refeições de chá e torradas. Nem sequer lhes resta a imaginação de irem passear. Metem-se na caverna, isolados do mundo.   
            A morte de um familiar, uma separação, a ausência dos filhos, são motivos válidos para a tristeza de todos os dias e não só no Natal. Quando perdemos alguém de quem gostamos esquecemos que há outras pessoas que gostam de nós e da nossa presença. Todos nós perdemos alguém! Os tristinhos do Natal poderiam pensar na felicidade que as suas presenças podem despertar nos outros, investir na companhia dos amigos e tentar convertê-los na sua família. Os tristinhos do Natal não fazem isso e evitam construir outras redes de afectos; assumem que são casos únicos no mundo para despertar a compaixão dos outros.
            Todos nós já perdemos alguém muito querido e a vida é isto. A vida tem esta faceta cruel e não precisa de ajuda para a tornarmos ainda mais cinzenta.
            Vem aí o Reveillon, um dia igual aos outros, como todos dizem. Vamos chorar toda a tristeza, guardá-la no meio de um papel de seda e olhar à volta… aceitar o convite que nos enviaram para esperar o Ano Novo, olhando as estrelas e o fogo de artifício, e de seguida descer até o mar oferecendo flores a Iemanjá.
            E não esqueça de presentear os amigos, em qualquer momento do ano (tudo menos peúgas, pijamas e cuecas). Eles gostam. Quem não gosta? O carinho é sempre reconfortante. E não precisa de comer orelhas-de-abade, nem assistir pela trigésima vez ao filme “Sozinho em casa” e nem de suportar o mau hálito da tia Elsie.
            Os tristinhos do Natal só têm uma vantagem, a roupa não encolhe.
            Boas entradas.

18 dezembro, 2018

Pode ou não pode


Pode ou não pode?
            A organização PETA, Pessoas pela Ética no Tratamento de Animais divulgou a pretensão para alterar os provérbios com animais, e alterar expressões que reforcem comportamentos negativos contra os animais. Isto desencadeou na sociedade portuguesa indignação e muita gargalhada, porque esta situação pode considerar-se menor e um pouco ridícula perante a urgência de proteger os animais de maus tratos, abusos e contrariar o abandono dos animais. É urgente o reforço de valores e de medidas concretas de respeito pelo mundo animal, mas nada disto tem a ver com provérbios e expressões que fazem parte da cultura portuguesa e que não passam de palavras, sem consequência.
            Os portugueses invadiram as redes sociais com comentários irónicos sobre a proposta da PETA. Fico surpreendida com o nosso sentido de humor, oportuno rápido e firmando o exagero, como deve ser a estrutura do mesmo. Ri às gargalhadas com algumas perguntas pertinentes que muitos colocaram, para se inteirarem se seria ofensivo para os animais, se pode, ou não pode, que comportamentos já geraram e como alterar expressões, a saber: O burro e vaca sairão do presépio? Continuará a haver missa do galo? Retiram-se as renas dos postais de Natal? Como iremos recontar as histórias da arca do Noé e do Capuchinho Vermelho? Os polos Lacoste deixarão de ser fabricados? Será melhor deixar de comprar os queijinhos, “La vache que rit”?
            Devemos anular expressões, como: “Tenho uma vida de cão”, “Vou pegar o touro pelos cornos”, “ Cantas como um rouxinol”, “Olhar de lince”, “Andar de pantera”, “Riso de hiena”, “Cada macaco no seu galho”, “Os ratos são os primeiros a abandonar o navio”, “Estou pior que urso”?
            Letras de música que poderão ser altamente violentas:
“A pulga salta e a pulga grita, vai-te embora ó pulga maldita”
“Atirei o pau ao gato-to”
            Histórias de La Fontaine, pode?
            Insultos? Cavalona, filho de uma cabra, cabrão, cáfila, asno, galinha, estás uma baleia, trombas de elefante…
            Elogios? És uma gata, meu leãozinho.
            Diogo Cão, ficara sem cão? E como ficam os nomes dos meus amigos -- Pedro Cordeiro, José Canário, Luís Leitão, Luísa Cigarra, Ana Coelho, Joaquim Peixinho,…
            Nunca mais comeremos Punheta de Bacalhau?
            “A curiosidade matou o gato” – será caso de polícia?
            “A cavalo dado não se olha o dente” – olha?
            “Grão a grão enche a galinha o papo” – será possível que ela fique enfartada?
            “Burro velho não aprende línguas” – aprende?
            “Cão que ladra não morde”- e se morder?
 Publicado em NVR, 18/12/2018

21 novembro, 2018

O marketing hipócrita


O marketing hipócrita


            Sinto-me ridícula quando saio do supermercado. As compras não são muitas, mas a tira de papel imprimido na caixa registadora, que resulta do meu pagamento, mede quase 50 cm, dividida em 3 ou 4 partes, de talões e talõezinhos de descontos disto e daquilo. Deveria sentir-me orgulhosa ou quiçá agradecida?
            Há o desconto da gasolina, o desconto da cafetaria, o desconto da tenda exterior, o desconto da lixívia e de todos os produtos de limpeza excepto os de promoção. Há descontos do dia e os descontos com prazo de validade para renovar outros descontos…
            Há uma máquina na entrada do supermercado que só imprime as senhas dos descontos a que cada um tem direito, caso me tenha esquecido dos talões em casa, e ainda há os descontos registados no telemóvel, caso me tenha dado um ataque de fúria e tenha atirado as senhas amassadas a cabeça da senhora da charcutaria. Aqui nada falha, as desmemórias não existem, que a entidade comercial está sempre atenta.  
            Essa máquina imprime senhas todas seguidinhas, coladas umas às outras, parecendo umas bandeirolas de enfeitar as árvores de Natal e eu entro no supermercado já a meio atrapalhada a ter que puxar dos óculos para selecionar 1 desconto entre as 20 senhas que saíram da máquina e que irei utilizar. Sofro do azar em que a maioria dos produtos que compro, nunca está em promoção. Como não as irei utilizar poderia oferecê-las a outro consumidor praticando a boa acção do dia, tal como faço aos tickets do estacionamento, mas não dá, elas são intransmissíveis. Dá-me a sensação que é como no euro milhões, se acerto só eu posso levantar a massa. Aí está uma sensação de segurança dada ao consumidor. Pena que nunca tenha ganho o euro milhões, aqui também nunca gastei os 20 descontos das senhas.
            O que é ridículo é nós consumidores, acreditarmos que nos estão a dar alguma coisa por simpatia, gentileza ou por sermos bons clientes. Puro engano, nós pagamos todos os descontos e todas as promoções, mas mesmo tendo consciência disso, o grande estratega comercial/marketing inventou e urdiu uma teia em volta do consumidor, muito eficaz, convertendo-o no seu cúmplice - as compras do supermercado proporcionam desconto na bomba da gasolina e o abastecimento da gasolina proporciona desconto nas compras do supermercado, para além das 20 senhas de desconto imprimidas na máquina da entrada: uma verdadeira pescadinha de rabo na boca, num círculo sem princípio e sem fim. O estratega acabou por inventar as dependências de consumo e de fidelidade, muito eficazes.
            No meu caso, não entrar no círculo das compras e da gasolina, significa que perco cerca de 7 euros por semana, 28 euros por mês, 346 euros por ano e é esta engenharia de marketing hipócrita que me agarrou. Sinto-me vulnerável, mas com vontade de rasgar todas as senhas aos pedacinhos e atirá-los ao ar na entrada do supermercado e subir para o tapete das caixas e gritar bem alto: Marketing hipócrita! Fazer o quê? Complica-me com os nervos esta bipolaridade, esta correria entre a bomba da gasolina e o supermercado. Que cansaço!
            Já juntei senhas para peluches, tabuleiros pirex, copos, tupperware e outros produtos que não preciso. Quando haverá senhas para fruta, carne, arroz, massa?...
AQ
Publicado em NVR

17 outubro, 2018

LESLIE


LESLIE
            Anunciava-se um Leslie.
            Já o nome é daqueles que se enrola na língua, que só mesmo os germânicos acham belos. “I love you, Leslei…” credo‼! a língua enrola-se 3 vezes!
            Voltando ao furacão, as imagens cartográficas apresentavam uma mancha que avermelhava nas zonas de perigo.
            Nas redes sociais, durante o dia, opinavam que havia falta de informação.
            As pessoas gostam de drama, de sangue, de conto e reconto da tragédia e precisam de tempo para se preparar para ela. Não basta publicitar a imagem digital a avançar para a costa portuguesa. É preciso mais. São necessários debates de quem não percebe nada de furacões para equilibrar ou fazer pendant com os senhores da meteorologia.
            Os mirones circulavam pelas zonas marítimas à espera do mar revolto, para viver experiências únicas com muita adrenalina.
            Enviei uma mensagem a um amigo que vive em Cascais: “Vê se te seguras, para não levantares voo tipo papagaio de papel. O Dumbo tinha as orelhas grandes, mas tu…”
            Na TV não havia drama suficiente. Alguns canais até dividiam o ecrã para multiplicar a desgraça, mas os repórteres, aqueles do salário mínimo que aguardam a pequena catástrofe, aguentavam-se em pé e apenas o cabelo esvoaçava, anunciando unicamente pequenas brisas e não a aragem ciclónica Leslie vinda do Atlântico.
            Leslie anuncia um mulherão genioso que pode armar “barracos” imprevisíveis. Começa a ser difícil competir com as trombas de água tão frequentes ao longo deste verão, que arrasam a agricultura com bolas de gelo, amolgam viaturas, inundam as ruas arrastando tudo e que ficam sem baptismo, quase anónimas para sempre.
            Outro amigo reclamava sobre a falta de pessoas na rua no final do dia. Caraterizando o furacão como mediático. Eu apelidei-o de furacão fofinho.
            Mais tarde percebi que o dito cujo direccionava-se para Trás-os-Montes, depois de fazer uns "estragozitos" no litoral, especialmente na Figueira da Foz e em Aveiro.
            Resolvi ficar em casa, agradecida pelo meu minimalismo existencial. Vivo dentro de um caixote de betão, sem grandes vidraças, sem toldes, sem guarda-sóis, sem árvores, sem arbustos, sem floreiras, sem acrílicos nas varandas e outros penduricalhos que na primeira oportunidade, ganham asas e voam. Preocupo-me apenas em arrumar o Smart dentro da garagem, colocar uma mini lanterna no bolso e fechar as janelas – precauções que se concretizam em poucos minutos.
            Passadas umas horas, o furacão fofinho resolveu deitar as unhas de fora - as aparências sempre iludem. A minha casa parecia a casa assombrada do monte dos vendavais. Vários assobios se formavam a partir das portas de entrada, garagem e ainda as condutas de ventilação. Parecia que estava dentro de um instrumento de sopro a ser tocado por um elefante. Uns barulhos chegavam da chaminé, começando eu a pensar que tinha virado ser vivo.
            Avisei na net: “Se virem um apetrecho, para não chamar geringonça, a voar, não é a passarola de Gusmão, nem um skylab qualquer, já sabem é a minha chaminé. Por favor avisem-me para eu proceder à recolha.”
            Resposta: “Passou aqui há pouquinho, julguei que era a Maga Patalójika montada numa vassoura.”
            Balanço do dia seguinte: quase 2.000 ocorrências, 27 feridos ligeiros, 61 desalojados, 324 400 pessoas sem electricidade e 200 linhas de alta/média tensão fora de serviço. Leslie dum raio!
AQ
Publicado em NVR

31 agosto, 2018

Ir ou não ir

Ir ou não ir

         Ir, ou não Ir de férias. Eis a questão que se coloca a muitos casais neste verão infernal. Todo o ano, cheios de rotinas, de horários sobrecarregados, sempre a correr, enfrentando filas de trânsito, tratar das crianças, exige umas férias, que serão o oásis desejado na vida das pessoas.
         - Môôor, vamos de férias para uma praia com os garotos, descansar, fugir desta vida citadina frenética, andamos tão cansados, ainda temos dois meses para arranjar alojamento…
         - Ok Krida, vou preparar tudo com tempo, alinhar a direcção e trocar dois pneus do carro… achas que faça depilação aos ombros?
         - Claro, caso contrário mostrarás o Carpélio que há em ti. Eu vou fazer laser e jet bronze para levar já uma corzinha e a partir de hoje, só como saladas.
         Tudo bem planeado pelos casais na expectativa de que irão viver uns dias românticos no Éden, pelo menos é com isso que sonham todas as noites - reservas pela net, unhas de gel, dieta, fato de banho novo, corte no barbeiro, madeixas no cabeleireiro…
         Chega o dia terão de atravessar Portugal para chegar a uma praia localizada bem a sul, para assegurar a água menos fria. O automóvel fica acanhado, com as malas, as tralhas da praia e a prancha gigante. A porta da mala consegue fechar-se e as crianças têm que levar o colchão de ar debaixo dos rabiotes apesar dos protestos.
         Os primeiros 20 km correm bem, depois o banco de trás revela-se insuficiente para as duas crianças que disputam o espaço ao milímetro, beliscando-se dando calduços, mordendo-se e proferindo constantemente, “chega pra lá”, transformando o habitáculo numa verdadeira batalha campal. Só se interessam pelo que vão comer e quanto tempo falta para chegar à área de serviço.
         Viva as férias!
         Relaxar, carregar baterias, viver uns dias fixes à beira-mar, sem stress, dormir muito, usufruir da família…
         Chegam finalmente. Saem de um edifício de apartamentos e entram num edifício de apartamentos, o que mudou foram apenas os vizinhos, que aqui são bem mais barulhentos e o espaço que é menor. Ou saem de uma moradia e entram num apartamento, o que de facto não se entende. Normalmente as férias têm menos conforto do que usufruem o resto do ano, o que é bizarro e faz pensar.
         Mas férias são férias!
         O que interessa é relaxar.
         -Oh diabo, primeiro dia de praia, chegámos tarde e com uma dor de cabeça do camandro por falta de cafeína logo às 7 horas da manhã. A praia está cheia, quase não sobra um sítio para estender a toalha! Teremos que vir mais cedo, toca a levantar de manhã, minha gente!
         -Hummm a barriga cresceu, afinal os abdominais não resistiram a tanta cerveja! - pensa o chefe de família.
         O passeio à beira-mar para admirar as garinas é feito com o sacrifício de um encolhimento de barriga permanente até faltar o ar.
         … e os putos continuam a chatear, atiram areia para todo o lado, sempre a guerrear e a querer bolas de berlim, gelados e línguas da sogra – estomagos sem fundo!
         Keep cool! Não stresses, pá! Vamos tirar umas fotos com o telemóvel, para mais tarde recordar. Um, dois, três, banana, um, dois, três, cheese,… o mesmo de sempre, um momento de fingimento de alegria e felicidade, agora também agrupada numa selfie.
         Este ano, vamos sempre jantar fora, para evitar a canseira da cozinha, compras, o cheiro de cebola frita…. Filas intermináveis e as ementas em inglês, tiram-nos do sério. Então a caldeirada, as iscas de fígado, a sardinha e a feijoada? Querem ver que o empregado de mesa insiste em falar connosco em inglês? Comer hambúrgueres e combinados, tudo bem, mas ter o azar de encontrar montes de pessoas que se cruzam connosco o resto do ano e ter que cumprimentar e falar do tempo, pendurar um sorriso de orelha a orelha, falar do alojamento e fingir que estamos no paraíso, as melhores férias de sempre. Fantásticas. É demais! Todos decidiram vir para este lugar, como se não houvesse outra praia no mundo. Que azar!
         -Môôôôr vamos pedir ao pintor para fazer o retrato das crianças? Que giro, oh são caricaturas, ai que engraçado!
         Lá vão as crianças fazer pose, uma delas insiste em por cornos à outra. O resultado é sempre o mesmo: uns primos afastados das crianças numa caricatura manhosa, que todos aplaudem e acham admirável.
         Para fortalecer as férias vamos comprar ricuerdos Ti Maria nas lojas ou nas barracas, enchemos um saco de pedras contra o mau-olhado, ímanes para o frigorífico, bangla dans, ray bans de 3 euros, grãos de arroz pintados que só os míopes veem e outros pechisbeques horrorosos, que não prestam para nada e que se compram por falta de alternativa e porque o sol nos põe a pensar devagar.
         E as férias terminam numa viagem de regresso ainda mais esgotante, com o sol a bater continuamente no braço esquerdo do condutor, uma odisseia com as áreas de serviço cheias, com fila para os WC e nós mais cansados e desiludidos com estas maravilhosas férias que desejámos e imaginámos ao longo do ano. O bronze nunca falha, valha-nos ao menos isso, porque as fotos,…  socorro, o cenário tinha sempre uma mama fora do soutien, um rabo com celulite, uma garrafa de plástico abandonada, umas pernas com varizes, uma pirisca ou uns pés com joanetes, dos nossos companheiros de infortúnio de praia lotada.   

Publicado em NVR em 29/08/2018    

07 junho, 2018

EUTANÁSIA


Eutanásia

          O dicionário esclarece
Eutanásia - Direito a uma morte sem dor nem sofrimento para doentes incuráveis, praticada com o seu consentimento, de forma digna e medicamente assistida.      

Os legisladores acrescentam: a pedido do paciente, repetidas vezes e num enquadramento médico/legal bem estudado, respeitando a liberdade do paciente em decidir sobre a sua própria vida.
         A eutanásia é um tema polémico tal como o aborto, mas que precisa de legislação.
         Considero que cada caso é uma caso, não me voluntario para mudar a opinião de ninguém, nem quero, e acrescento que as opiniões e conceitos se vão alterando conforme as situações que vivemos, e consoante os tempos. Respeito as opiniões distintas da minha e respeito que cada um tem um tempo diferente para perceber e se integrar na mudança.
         Não passou na assembleia mas irá passar no futuro.
         Recuso-me a confrontos verbais, pois normalmente a discussão incendeia-se e parece que dum lado estão os bonzinhos e do outro os assassinos, que atentam contra a vida dos outros, especialmente a dos velhinhos. Entendo que há 3 grupos de opinião, que devemos analisar:
1 – O grupo que se considera sempre a favor da vida, seja em que situação for, por motivos religiosos, filosóficos ou por pura teimosia e que nada os demove. Acreditam que quanto mais sofrerem na terra, mas felizes serão no céu, e portanto qualquer esclarecimento e ou informação é mal sucedida.
2 – O grupo que considera o sofrimento humano, as diversas situações se sofrimento (porque há várias), a liberdade de cada um em por termo à vida, e essencialmente a grande vontade em aliviar o sofrimento dessas pessoas. O sofrimento pode ser resultado de saturação psicológica — alguém que está imobilizado numa cama sem autonomia— ou físico — vivendo um estado terminal de uma doença, em que já não há cuidados paliativos ou condições que possam tornar a situação tolerável. É disto que se trata. Os cuidados paliativos não resolvem todas as situações, nem sempre são eficazes e há pessoas que abandonam a vida num sofrimento atroz. Para defender a vida é urgente perceber como se morre. Cada caso é um caso, cada doença tem as suas características, cada pessoa tem mais ou menos resistência à dor, e cada final é uma morte diferente. A maior parte das pessoas nunca assistiram à morte de ninguém e provavelmente nunca viveram a escalada de desespero e sofrimento das últimas horas ou dos últimos dias e iludem-se com possibilidades que nem sempre têm sucesso. A abordagem teórica do sofrimento está muito distante de viver cada segundo em desespero. O grupo que considera a eutanásia um último recurso e não um propósito, não é formado por assassinos, mas por pessoas com muita decência que após esgotadas todas as alternativas paliativas, concorda em poupar o sofrimento dos outros, por compaixão, por humanismo, recorrendo à eutanásia legalmente e medicamente estabelecida e assistida. 

Sou a favor da vida, não sou assassina e é neste grupo que me situo. O problema existe e não vale a pena contrapor que os cuidados paliativos e a família resolvem, porque não é verdade. Muitos de nós temos a ideia que a medicina associada à farmacologia, pode tudo, resolve tudo. Grande erro! Quando viverem uma situação de doença grave verão que as nossas expectativas caem por terra rapidamente. E se temos esse problema é melhor legislar, saber quando e como, do que enterrar a cabeça na areia e pronto. Há que estudar diversos casos, estabelecer limites e saber classificar cada caso. Há químicos que aliviam dores mas provocam complicações que levam à morte – paragem respiratória por exemplo - neste caso é eutanásia ou é estratégia paliativa. 

3 – O grupo que considera também, os casos em que, os doentes nem sequer estão em condições de decidir nada, porém, estão em grande sofrimento, também em estado terminal. E este é ainda o grupo mais dramático, pois estar impossibilitado de comunicar não impede que gemam com dores e que as sintam.
Também acho que se deve atender a estes casos.

Considerações finais: Não sou médica, já vivi de perto algumas situações familiares muito dramáticas que se for eu a vivê-las, agradeço que me ajudem a resolvê-las, mesmo que isso signifique viver menos 1 dia, 1 semana ou 1 mês.
Enquanto há vida há esperança, é algo que conforta, mas nem sempre se verifica, e a espera pode ser insuportável.
Há doenças e momentos que nós, leigos e ignorantes, achamos indignas e de sofrimento e pensamos que não poderá haver pior, mas iludimo-nos que com ajuda serão suportáveis. Mas há sempre pior e pior, até que os nossos órgãos abrem falência progressiva, incontornável e irreversivelmente num mar de dor e sofrimento, que se torna misericordioso que se ponha um ponto final, se essa for a vontade repetida do doente.
Legalizar não significa que ninguém vai obrigar ninguém, mas que tudo pode estar bem claro a nosso favor. 
A eutanásia já é uma prática, mas age-se de forma camuflada, clandestina e isso sim é que se torna perigoso.
Quando se desliga a máquina que nos sustenta a vida? Quem decide? Por quanto tempo? Quem avalia se suspende ou não um tratamento? Quando o alivio da dor poderá comprometer a vida do doente de forma indirecta, o que se deve fazer?
         Não passou, mas passará!