04 novembro, 2026

A MONTANHA DA ÁGUA LILÁS


 Hoje na Rádio Portimão com Pepetela como escritor.

Ouvir aqui

https://www.youtube.com/watch?v=U4jzWL-tq4s

A CALIGRAFIA DO OUTONO

 

A CALIGRAFIA DO OUTONO

O Outono carrega em si uma beleza melancólica que convida ao recolhimento e à reflexão profunda. Sinto-me despreparada para isto. Tenho saudades do Verão e sinto a Primavera longínqua.

O chão da cidade veste-se de tons dourados e acobreados. As folhas não caem por pressa, mas porque compreenderam a hora exata do desapego. Cada folha que se desprende de uma haste desenha no ar a curva exata de uma renúncia, um adeus em câmara lenta que tinge o chão com o amarelado gasto dos dias vividos. Há uma nostalgia mansa que chega com o vento frio, aquele sopro que limpa os excessos do Verão e obriga os dias a encolherem, com um aroma a terra húmida e o crepúsculo que invade as frestas do pensamento, lembrando que a beleza mais pura reside naquilo que se despede. Odeio despedidas!

Muda a hora, outro suplício! Começa-se o trabalho de noite e sai-se do trabalho de noite, libertando o desejo do horário de Verão, que o Homem fez questão de inventar e criando repulsa a esta melancolia gigantesca que nos é servida sem qualquer pedido ou exigência.

O Outono é o tempo em que a própria Terra parece envelhecer, afastando-se do que já cumpriu, e tendo o propósito de abraçar o silêncio e a tristeza. Nós humanos envelhecemos também e sem reagir à Natureza, conformados com o cair da folha e a paleta outonal.

À medida que as copas das árvores se tornam mais transparentes e calvas, as calçadas também mudam de ritmo. As pessoas que antes habitavam esplanadas, bancos de jardins, sombras de protecção ao sol e ao calor, escolhiam a sonoridade da água em fontes e cascatas e preenchiam os finais de tarde com conversas demoradas e alegres, começam a recolher-se. Há um declínio que se manifesta não apenas no corpo, mas no próprio pulsar das ruas. As pessoas recolhem ao conforto do lar, separadas do espaço urbano público pelos vidros das janelas, onde o tempo não se mede por relógios, mas pela luz que desbota nas paredes numa caligrafia outonal única.

 Quando o lado de fora arrefece e a luz se torna mais rara, o pensamento é empurrado para o interior, para aquele espaço onde guardamos os rostos que já não vemos e os passos que já não escutamos na calçada.

A paisagem urbana altera-se, empobrece e esvazia-se. Recordações e memórias constroem um passado que somos obrigados a despir anualmente. Ver as ruas mais vazias não é necessariamente um sinal de abandono, mas sim o reflexo de um ciclo inevitável – dizem os optimistas e os românticos empedernidos.  As pessoas que deixam as ruas vazias tornam-se, elas mesmas, como o Outono, uma presença feita de ecos, uma caligrafia invisível que paira sobre a névoa, ensinando-nos que recolher é a única forma de permanecer e resistir.

A luz do Outono não compete com as sombras, ela parece nascer delas. É uma claridade oblíqua, dourada e cansada, que não procura revelar as formas do mundo, mas sim a sua fragilidade. Entra pelas frestas das janelas com uma lentidão quase sagrada, pousando sobre os móveis antigos e os cantos vazios da casa como quem procura aconchego. Esta luz tem uma qualidade única, quase palpável, parece iluminar não as coisas em si, mas a distância entre elas.

Publicado em NVR 04|11|2026


"INTIMIDAR, O POEMA A SER RAÍZ" - Ondjaki


"INTIMIDAR, O POEMA A SER RAÍZ" - Ondjaki

 https://voca.ro/1dOU07HxxDuB

Voz: João Carlos Carranca

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31 outubro, 2026

HALLOWEEN

 


Estima-se que, entre os séculos XV e XVIII (com maior intensidade entre 1450 e 1750), cerca de 40.000 a 60.000 pessoas foram executadas (queimadas na fogueira ou enforcadas) por bruxaria na Europa e nas suas colónias. E era tão fácil, bastava correr o boato que eram bruxas.

28 outubro, 2026

"DOURO UTOPIA" - António Fortuna


https://voca.ro/1lLkW8g6VlDp

Voz: Anabela Quelhas

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O PROBLEMA DA HABITAÇÃO

 


O PROBLEMA DA HABITAÇÃO

 

Em Portugal, o direito à habitação está consagrado na Constituição Portuguesa (Artigo 65.º).

Portugal é um país pobre armado em rico. Temos a sorte de pertencer à Europa que nos ajuda “a tapar buracos”, mas não temos conseguido gerir bem as oportunidades, apoios e até os nossos recursos.

É um exercício difícil. Tem-se dado prioridade à guerra, aos submarinos, à privatização de serviços, ao turismo e a habitação tem ficado para trás. Os pobres estão cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos, esvaziando-se a classe média.

Em Portugal ganha-se mal e o valor das rendas ultrapassa em muito os 30% do ordenado. Quem ganha o ordenado mínimo não tem alternativa, obriga-se a juntar-se a outros, para ter tecto, dividindo despesas. 

A culpa não é dos senhorios e também não é do turismo – mal de nós se os eliminássemos. Os senhorios não podem assumir as responsabilidades que pertencem ao Estado, e a estes nada os abriga ao arrendamento, é a isto que se chama propriedade privada. Condicionar o turismo? O turismo põe comida na mesa a muita gente! Esta situação é difícil de digerir perante o problema que muitos sentem na pele, mas é mesmo assim. Vou adiantar um exemplo: Pelo facto de existir fome, não podemos culpar os supermercados! Pelo facto de haver doentes não vamos culpar as clínicas privadas. Habitação para todos é uma condição estrutural de uma sociedade, portanto é o Estado que se deve responsabilizar quando esta se se torna problemática.

O Estado é a organização política, administrativa e jurídica de uma sociedade que detém o poder soberano sobre um determinado território e a sua população. É ao Estado que compete adoptar estratégias para resolver os problemas da sociedade

Neste caso, o problema é a falta de investimento em habitação pública (social e a habitação a custos acessíveis para a classe média).

Vejamos como estão os países europeus em relação à habitação social (valores aproximados):

• Países Baixos: 34%

• Áustria: 24%

• Dinamarca: 21%

• Reino Unido: 18%

• França: 17%

• Irlanda: 8,7%

• Bélgica: 7%

• Itália: 5,3%

• Alemanha: 4%

• Portugal: 2% (um dos valores mais baixos da Europa) 

Basta analisar e reflectir, e percebemos que existe “um desinvestimento crónico” por parte de sucessivos governos na promoção de habitação. Chega a ser caricato: o país mais pobre tem menos habitação social.

Por outro lado, as Câmaras Municipais não podem avançar se não forem revistas as leis dos solos, para que haja libertação de solo para construção, caso contrário fica tudo na mesma e o preço da construção subirá eternamente.

“Ao mesmo tempo, o parque habitacional existente encontra-se envelhecido e degradado, contribuindo para situações de pobreza energética e condições indignas de habitação, que se revelam crescentes”, lê-se num documento elaborado pelo ISCTE.

O Estado português possui cerca de 60.000 imóveis no seu património, sendo que, uma parte significativa, encontra-se devoluta. O interior de Portugal encontra-se desertificado e pouco industrializado, onde há muita casa para renovar. A habitação é um assunto com muitas vertentes.

É fácil atribuir culpas aos senhorios, estes apenas se movimentam pelo que a lei permite e pelos seus direitos sobre a propriedade privada, pagando impostos brutais e evitando recorrer à justiça para resolver problemas de dívida e de vandalismo, porque a Justiça é lenta.

Apetecia-me escrever, que este problema deve-se às escolhas dos portugueses na hora de votar, mas não posso. Governos de esquerda e de direita varreram o problema para debaixo do tapete.

Assembleias populares, não muito obrigada! Manifestações organizadas são uma coisa, aglomerações de protesto onde ninguém se responsabiliza por nada, é outra. Olhem para Paris, é isso que queremos? O Maio de 68 já foi!

Publicado em NVR 28|10|2026