Voz: Anabela Quelhas.
file:///E:/radio/audio/215%20-%20N%C3%A3o%20sei%20amor-%20Pedro%20Tamen.mp3
“Eu sou eu e a minha circunstância”
“Guerra e Paz”, programa de Germano
de Almeida, teve como convidado o cantor e compositor Pedro Abrunhosa, para
realizar análise internacional. Abrunhosa, vai muito além da interpretação “à
letra” de “Talvez f%der”. Homem inteligente, culto, informado, sensível e
interventivo, não opinou sobre “lugares comuns” e citou por duas vezes Ortega.
Este filósofo espanhol do século XX é uma figura central na reflexão sobre a
condição humana e a sociedade moderna e por isso é tão referenciado por
pensadores do século XXI.
Afinal quem foi Ortega?
José Ortega y Gasset (1883–1955) foi
um dos mais influentes filósofos, ensaístas e intelectuais espanhóis do século
XX e é amplamente reconhecido pela sua expressão célebre: "Eu sou eu e a minha circunstância", que
assume a sua abordagem vitalista e perspectivista. Essa frase reflecte a
compreensão de que o indivíduo não existe isoladamente, mas em constante
diálogo e interacção com o seu contexto social, cultural e histórico, que
moldam a sua identidade e as suas acções. A realidade não é algo estático ou meramente
lógico, mas um fluxo de forças e afectos. O pensamento deve servir à vida, e
não o contrário. Isso significa avaliar ideias pela sua capacidade de expandir
a nossa potencialidade de agir e de criar. Não existe um "olhar
neutro" [adoro quando alguém assume a possibilidade de não se ser
político e não ter opinião] ou um sujeito desvinculado do seu corpo e
circunstância. Cada interpretação é uma perspectiva necessária para o
crescimento da vida. Quanto mais perspectivas somos capazes de integrar, mais
rica e "objectiva" (no sentido de plural) se torna a nossa
compreensão do mundo. Entre o binário SIM e NÃO existe um complexo mundo de análises
e de percepções, umas mais humanistas do que outras, acrescento eu.
Ortega destacou-se pela sua filosofia
que valoriza a experiência concreta e a condição humana, rejeitando visões
essencialistas e buscando compreender a realidade por meio de uma perspectiva
dinâmica e relacional. A sua obra é marcada por uma análise profunda das forças
que influenciam o indivíduo e a sociedade, realçando a importância da
liberdade, da responsabilidade e do entendimento do homem como um ser real e
condicionado pelas suas circunstâncias.
A sua análise revela uma preocupação
com o papel do indivíduo na sociedade e com o risco de uma homogeneização
cultural que pode levar à mediocridade colectiva. Para Ortega, a compreensão
das circunstâncias é fundamental para a actuação consciente e responsável do
indivíduo, que deve buscar uma vida autêntica e uma cultura que valorize a
excelência e a criatividade.
Uma das principais contribuições de
Ortega é a ideia de que o indivíduo deve assumir a responsabilidade pela sua
própria existência e pelo seu destino, num mundo cada vez mais complexo e
acelerado. Ele destacou a importância da "vida concreta" e do
"homem-massa", alertando para os perigos da conformidade e da perda
da individualidade diante das forças sociais e tecnológicas.
Ortega alerta para os perigos da
massificação e destaca a importância de uma postura consciente frente às
circunstâncias que moldam a existência humana. Também é pioneiro ao discutir a
crise dos valores tradicionais e a necessidade de uma cultura que seja capaz de
responder às exigências dos novos tempos. A sua ênfase na razão prática, na
liberdade pessoal e na criatividade como elementos essenciais para o
desenvolvimento humano ressoa na sociedade contemporânea, marcada por rápidas
mudanças culturais e tecnológicas, que podem ser nocivas.
Além disso, a sua visão de que o
homem moderno deve buscar um projecto de vida que seja autêntico e que tenha
sentido, diante do caos e da fragmentação do mundo, inspira muitas correntes
filosóficas e existenciais actuais. Assim, Ortega influencia o pensamento do Homem
do século XXI ao oferecer uma reflexão sobre autonomia, responsabilidade e a
busca por significado num mundo em constante transformação.
Publicado em NVR 08|04|2026
Voz: Anabela Quelhas
file:///E:/radio/audio/214.%20A%20cidade%20.%20Ary%20dos%20Zantos.%20Jos%C3%A9%20Afonso.mp3
Voz: João Carlos Carranca
file:///E:/radio/audio/212%20.%20Fala%20-%20Alexandre%20O'Neill%20-%20Jc%20(1).mp3
Quando o mundo vira uma trágico-comédia.
Donald Trump conseguiu
transformar o mundo numa comédia perigosa, onde não se encontra lógica, nem
coerência, entre muitas vidas perdidas.
Quem diria que, numa
era de comunicação e de informação, a estratégia de política externa de um país
poderia transformar-se numa novela de episódios desconexos?
Contra a Venezuela e o
Irão — é um verdadeiro espectáculo de lógica confusa e objectivos tão claros
quanto um espelho embaciado.
Primeiro, temos o amuo
do Nobel da Paz.
Segue-se a Venezuela,
aquele país que, aparentemente, se tornou num objecto de obsessão de Trump,
como se fosse um episódio de um reality show político. Entre sanções que mais
parecem tentativas de jogar um jogo de Jenga com a economia de um país já
fragilizado, e declarações que mais parecem tweets de um fã de futebol que tenta
jogar futebol, a Venezuela virou o palco de uma guerra de narrativa: de um
lado, a luta pelo "democracia verdadeira", do outro, a tentativa de
derrubar um governo que, segundo Trump, é uma ameaça à estabilidade mundial. Entretanto,
capturam o Presidente Maduro e inundam as televisões com ele algemado a segurar
uma garrafa de água, vestindo moleton, olhos vendados… convenhamos, se a
intenção era ajudar o povo venezuelano, as sanções parecem mais uma forma de
mandar um presente de Natal com um pacote de rebuçados de hortelã, deixando os venezuelanos a
perguntarem se estão a jogar um jogo de xadrez ou uma partidinha do 1º de
Abril.
E o Irão? Aquele país
de cultura milenar virou o inimigo favorito do Twitter e do discurso político do
Sr. Trump, quase como uma novela de televisão que nunca termina e tem na
produção o guru sanguinário, da estrelinha de 6 pontas, que eu não atino a
escrever o nome. Entre acordos nucleares que mais parecem promessas de um
namoro que nunca começa, e sanções que parecem mais uma tentativa de fechar o
restaurante do amigo do bairro do que uma estratégia de paz, a relação com o
Irão é um verdadeiro espectáculo de incoerência. Afinal, se o objectivo era
evitar a proliferação nuclear, por que então apostar na pressão máxima que só
faz o país mais resistente, como um gato que não gosta de ser agarrado?
E isto agora é assim? Legitima-se
o poder invadir países, e querer decidir por quem lá vive?
Depois ai, ai, quero
ajuda!
Afinal era para ver a
vossa reacção!
Isto parece uma check
list de erros: promessas, sanções, vaidade, falsidade, provocação, ironia e declarações
de guerra que mais parecem frases soltas de um poeta confuso. Uma verdadeira
obra de arte da confusão internacional, onde a lógica foi deixada de lado e o
espetáculo continua, com uma plateia que tenta entender, mas só consegue
assistir, boquiaberta, à peça mais imprevisível do século. Às vezes o mais
incoerente é justamente o que faz mais sentido… para quem gosta de um bom caos.
O número dos
trapezistas e palhaços já foi, o que se seguirá? O que se seguirá para que o
Sr. Trump continue a ter as parangonas da informação?
Ah, claro, em nome da estabilidade
global imagino o Sr. Trump a cruzar os mares, vestindo a revolução empresarial,
onde apenas existe o sistema binário, o Deve e o Haver, para ocupar Cuba e, com
jeito, o Brasil. A táctica é sempre a mesma, primeiro promove-se a carência, a
instabilidade e o pânico, e depois toma-se conta com anuência da população no
desespero - “Make Cuba Great Again” .
Desta salgalhada toda
só se extrai uma coisa positiva: O Sr. Trump conseguiu uma indignação global,
quer se seja de esquerda ou de direita, vermelho, amarelo ou azul. A Gronelândia
ficará mais para o Verão devido às condições climatéricas. Ouvi dizer que a
famosa estátua da liberdade, oferecida pelos franceses, já fechou os olhos e
com as mãos tapou aos ouvidos. Sinto orgulho dos nuestros hermanos.
Na próxima semana
quando o leitor me ler, certamente, com a velocidade que o mundo vai, já teremos
novas realidades.
Publicado em NVR 01|04|2026