No Karranca às quartas - Rádio Portimão.
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GERAÇÃO SANDUÍCHE
A geração, que fecha a
porta para o mundo real, é aquela que viveu a sua infância e a juventude ainda
sem grandes saltos tecnológicos, sem computadores, sem internet… nem
micro-ondas havia, a sopa tinha de ser aquecida numa panela e ir ao fogo.
Usámos fraldas de
tecido quando nascemos, jogámos às escondidas, saltámos à corda, deslizámos de
patins sem joelheiras, andámos de bicicleta sem capacete, por vezes brincávamos
com bonecas de trapos, lançávamos o pião, brincávamos à macaca, ao berlinde, ao
macaquinho do chinês, ao jogo do lencinho e à corrida de sacos… ia-se à casa da
vizinha para telefonar, comíamos pão com manteiga e açúcar, líamos livros aos
quadradinhos, ainda não havia betadine para desinfectar os joelhos sem pele e
havia brinquedos para meninos e brinquedos para meninas.
Se queríamos ouvir
música sem ser na rádio, ou tínhamos gira-discos e discos de vinil, ou cassetes,
o que era raro – e já se considerava um sucesso relativamente à geração
anterior. Colecionámos selos, cromos e carteiras de fósforos.
Utilizámos a máquina de
escrever para dar bom aspecto a alguns trabalhos de casa, mas era um problema
quando não havia corrector.
Às refeições usámos
guardanapo de pano, que era substituído por outro, no fim de semana, se
queríamos ver filmes, tínhamos de ir ao cinema, e televisão só tinham os mais
empoderados e era a preto e branco. Os meninos calçavam sandálias no verão até
aos 15 anos e as meninas, vestiam saiote e calçavam peúgas brancas até serem
adultas e só depois tinham autorização para usar meias de vidro ou de mousse.
Não havia classe média,
havia a classe dos remediados e aquelas famílias que tinham sorte em não passar
fome.
Ter uma esferográfica
preta de esfera fina era um luxo e não havia fotocópias. A maioria das mães eram
domésticas, faziam as tarefas de casa e tratavam dos filhos, que só iam à
escola a partir dos sete anos e a nossa ambição era sermos independentes dos
pais para podermos ter opinião e usufruir de um espaço fora de casa deles.
A comida não tinha
nomes esquisitos, não havia tiramisu, cheesecake, pavlovas e vol-au-vent; havia
pudim boca-doce, arroz-doce, aletria, queijo com marmelada e a mousse era um
luxo. Rapávamos o tacho quando a mãe fazia um bolo ao fim de semana.
Esta geração é
considerada a última a ter vivenciado uma infância e adolescência
predominantemente analógicas, correndo alguns perigos e com imaginação
suficiente para resolver problemas, mesmo sem saber quem seria no futuro Mark
Zuckerberg, Steve Jobs e Bill Gates, o que seria um telemóvel e uns
smartphones. Desenvolvemos várias competências principalmente saber esperar,
saber pensar e ultrapassar uma contrariedade. Por vezes o chinelo da mãe ganhava
asas e voava, acertando o nosso rabo ou as pernas. Na classe dos remediados
urbanos, nas festas, os rapazes usavam Old Spice e as raparigas usavam Madame
Rochas.
O nosso Facebook era a
conversa da treta entre os amigos. Se queríamos fotografias tínhamos duas
despesas, a primeira, comprar o rolo de 24 fotografias, e depois revelar o rolo
em loja própria e com sorte demorava só 4 dias a revelar. Alguns ainda fizeram
serviço militar.
A Era Digital começou
quando já éramos adultos, aprendemos a desenrascar e a assumir a transição para
o mundo digital.
As mulheres emanciparam-se
e adiaram a gravidez, para se dedicar por inteiros às suas carreiras
profissionais.
Agora com 50/60 anos
chamam-nos a "geração sanduíche" porque cuidamos simultaneamente de
filhos jovens e pais idosos. Este fenómeno, impulsionado pelo aumento da
longevidade e maternidade tardia, gera sobrecarga emocional, financeira e
física, aumentando o risco de “burnout” e depressão.
Temos uma esperança de
vida mais longa, mas temos um percurso com excesso de responsabilidades.
Estamos entre duas gerações dependentes – os filhos que dependem financeira dos
pais até muito tarde e que não desejam sair de casa e temos os pais a perder
autonomia e a necessitar de cuidados e atenção – e fora de casa temos a
exigência máxima profissional. Alguns, cujos filhos se descuidaram, já são avós
e têm outra geração para cuidar. Estar na casa dos pais é sempre mais cómodo e
mais barato.
Éramos sonhadores e
divertidos, e agora somos os faz-tudo e os que desenrascam tudo em casa.
Falta-nos tempo e o que temos não é para nós.
Estamos exaustos!
Publicado em NVR 25|02|2026
O livre arbítrio
Palavras que tantas
vezes ouvimos, em diversos contextos, sem ter a verdadeira noção do que isto
significa.
O livre-arbítrio é um
exercício de liberdade, é a capacidade humana de tomar decisões independentes,
segundo a nossa própria vontade, sem influência externa.
Este tema tem sido
amplamente estudado e discutido ao longo da história, tanto na filosofia quanto
na teologia e na ética.
Na perspectiva
religiosa, o livre-arbítrio é visto como um dom concedido por Deus ao ser
humano, permitindo-lhe optar entre o bem e o mal. Essa visão distingue os
humanos dos demais animais, que agem apenas por instinto. Mesmo diante da fé, a
divindade não impõe as suas vontades, pelo contrário, concede ao Homem a
liberdade de escolha e, com ela, a responsabilidade pelas suas acções.
Muitos filósofos
defendem a chamada “Visão Tradicional”, que diferencia os humanos dos animais
pelo fato de possuírem capacidade de abstração e reflexão. Enquanto os animais
reagem a estímulos imediatos e necessidades biológicas, os seres humanos podem
pensar o presente e o futuro, analisar informações, ponderar consequências e
tomar decisões que, por vezes, vão contra os seus impulsos que resultam do seu instinto.
Assim, apenas os humanos seriam moralmente responsáveis pelos seus actos, pois
têm a capacidade de distinguir entre o “certo” e o “errado”.
A “Visão Científica” refere
que até animais simples, como moscas, não são completamente previsíveis nos seus
comportamentos. Eles podem escolher entre diferentes opções numa mesma
situação, não reagindo sempre da mesma forma. Portanto, o livre-arbítrio não
seria uma exclusividade humana, mas uma característica biológica presente em
graus variados.
Nos seres humanos, essa
liberdade de escolha é mais complexa devido ao cérebro mais desenvolvido. O nosso
conhecimento, cultura, raciocínio lógico-abstracto, sensibilidade, educação,
valores e a consciência de tudo isso, influenciam as nossas decisões. A
consciência tem um potencial extraordinário, pois pode travar impulsos e
raciocínios ilógicos.
É importante distinguir
entre decisões simples, quase instintivas—como mover um dedo—e escolhas mais
complexas, que envolvem processos de reflexão, conhecimento e análise de
informações, referidos anteriormente.
Alguns neurocientistas
preferem usar termos como “autonomia” ou “capacidade de deliberação”, para
descrever o funcionamento do cérebro quando opera de forma “livre”, no sentido
de que segue as suas próprias motivações internas e o raciocínio lógico. Ser
livre, assim, implica ter múltiplas respostas diante de um estímulo e a
capacidade de criar novos desejos e objectivos por meio da reflexão.
Para aqueles que
acreditam no destino, na sorte/azar ou em pragas, é importante esclarecer que
essas ideias muitas vezes escondem a recusa em assumir responsabilidades e a
tentativa de evitar culpas, sossegando consciências. Atribuir a culpa a outros
humanos ou a entidades superiores é uma forma de desresponsabilização,
acreditando que essas forças controlam os nossos caminhos e manipulam os nossos
destinos, como se fossemos marionetes.
Essas questões impactam o campo da Justiça, pois abrem espaço para argumentações que defendem ou acusam, culpados e inocentes, dependendo da interpretação sobre liberdade, responsabilidade e destino.
Publicado em NVR 18|02|2026
Ilustração do poema "Uma poltrona de jardim"
Autora: Anabela Quelhas