Voz: Graça Vilela
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O
EMBURRECIMENTO DA SOCIEDADE (2)
Falta saber se o
emburrecimento é uma consequência, ou se é planeamento.
O emburrecimento das
pessoas é um excelente instrumento para derrubar democracias. A sociedade
moderna parece condicionar as pessoas a pensar de forma superficial e distraída
com fofoca de situações menores. Como a
atenção se fragmenta, a curiosidade se perde e a profundidade do pensamento se
torna cada vez mais rara? A Cultura do Emburrecimento revela os mecanismos por
trás dessa transformação.
A questão é: se o
emburrecimento das pessoas é uma consequência natural de processos sociais ou se
é um resultado deliberado de estratégias de manipulação complexas e
multifacetadas. De um lado, podemos argumentar que a sociedade moderna, com a
sua constante exposição a informações fragmentadas, tecnologias de distração e
uma cultura de superficialidade, contribui para um empobrecimento do pensamento
crítico e profundo. Nesse sentido, o emburrecimento seria uma consequência das
próprias dinâmicas sociais, económicas e tecnológicas que favorecem a rápida
troca de informações superficiais, dificultando a reflexão aprofundada.
Eu diria que pensar
dói!
Por outro lado, há quem
defenda a ideia de que esse processo de emburrecimento é, em parte, planeado ou
incentivado por interesses específicos. Alguns teóricos sugerem que certos
grupos ou instituições podem beneficiar-se de uma população menos crítica, mais
facilmente manipulável e menos inclinada a questionar a sociedade e as
múltiplas questões que a envolvem. O emburrecimento das massas torna-se uma
ferramenta para facilitar a manutenção do poder e a derrubada de democracias,
que dependem de cidadãos informados, activos, interventivos e capazes de pensar
de forma autónoma.
A cultura do
emburrecimento, portanto, revela-se como um mecanismo consciente ou
inconsciente que actua na formação de uma sociedade cada vez mais superficial,
onde a atenção se fragmenta, a curiosidade se perde e a profundidade do
pensamento se torna uma exceção. A proliferação de conteúdos rápidos, o
estímulo ao consumo imediato de informações e a banalização do conhecimento
contribuem para esse cenário, tornando a sociedade moderna cada vez mais
distraída e menos capaz de refletir criticamente sobre os eventos e as ideias
que moldam o mundo.
Reconhecer esses
mecanismos é fundamental para compreender os desafios actuais e buscar
estratégias que promovam uma cultura de reflexão, aprofundamento e pensamento
crítico, essenciais para a preservação das democracias e do desenvolvimento
humano.
Mais dois exemplos do
emburrecimento (1- consequência. 2 – planeado para manter o poder):
“1 - Há alguns anos
todos se orientavam pelas vias de comunicação através da sinalização das
estradas e com um mapa. Hoje se não tiverem o GPS perdem-se. Um dia destes fui
abordada por um automobilista que procurava a saída para a A4, e eu perguntei:
- Dirige-se para
nascente ou para poente?
Pois, desconheciam!…”
“2 - O Ministro da
Educação disse que, evidência científica diz que até aos 30 alunos a qualidade
do ensino não sai prejudicada.
Basta fazer contas, a
atenção do professor dividida por 30 alunos é inferior quando dividida por 20.
Algumas pessoas
acreditam.”
QUE EMBURRECIMENTO!
Publicado em NVR 23|09|2026
sem título - José Luís Peixoto
Voz: Graça Vilela
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Voz: Anabela Quelhas
O EMBURRECIMENTO DA SOCIEDADE (1)
No século da
informação, estamos imersos num mundo onde dados, notícias e conteúdos circulam
incessantemente, muitas vezes fora do alcance da reflexão profunda. Vivemos na
era em que o acesso à informação é quase instantâneo, a internet e as redes
sociais a geram um fluxo constante de novidades. No entanto, essa abundância de
dados muitas vezes distancia-nos do verdadeiro entendimento, transformando o
conhecimento numa colecção de factos dispersos e superficiais. Nem sei se chame
a isso de conhecimento.
O que é realmente o
conhecimento? O conhecimento vai além de simplesmente acumular informações. O conhecimento
é a compreensão crítica e contextualizada dessas informações, a capacidade de
relacionar conceitos, questionar e reflectir sobre o que aprendemos. É uma
construção mental que envolve interpretação, análise e aplicação prática,
permitindo-nos usar a informação de forma consciente e significativa em
diversos contextos. Assim, enquanto o século da informação nos oferece recursos
incríveis, o conhecimento verdadeiro reduz-se— aquele que nos faz pensar,
questionar e transformar a nossa visão do mundo. Ou seja, a sociedade está a
emburrecer e o mais caricato não se dá conta disso. A informação “vive” fora da
nossa cabeça, enquanto o conhecimento “vive” dentro.
Muitos argumentam que,
devido ao crescimento do consumo dos meios digitais, redes sociais e
entretenimento de baixo nível, as pessoas têm perdido a capacidade de pensar
criticamente, reflectir profundamente e valorizar conhecimentos mais complexos.
Esse suposto "emburrecimento" pode ser percebido na diminuição do
interesse pela leitura, na superficialidade das discussões públicas, na
aceitação de informações sem questionamento e na redução de capacidade em
resolver problemas e tomar decisões.
O acesso facilitado à
informação, mesmo que às vezes superficial, também pode ser visto como uma
ferramenta de democratização da mesma, mas “não há bela sem senão”. O papel da
educação será capaz de enfrentar os desafios do mundo contemporâneo e travar o
emburrecimento? Aqui fica o desafio para a reflexão e deixo um exemplo, mas há
muitos.
A tabuada é informação
que já não se decora. A escola ensina a encontrar o caminho para essa
informação – a máquina de calcular, o computador e a internet; e tudo após de
ter havido compreensão dos conceitos matemáticos.
Porém, a importância de
decorar e saber a tabuada é fundamental para o desenvolvimento das habilidades
matemáticas das crianças e estudantes em diferentes contextos. Quando a tabuada
é memorizada, as operações básicas de multiplicação e divisão tornam-se mais
rápidas e automáticas, facilitando o entendimento de conceitos mais complexos.
Além disso, a memorização da tabuada ajuda a aumentar a confiança e a autonomia
na resolução de problemas matemáticos, além de promover o raciocínio lógico e a
agilidade mental. Essa habilidade também serve como base para aprender
operações com números maiores e para avançar em áreas como álgebra, geometria e
outras disciplinas relacionadas. Portanto, decorar e saber a tabuada é uma
etapa importante no processo de aprendizagem matemática, contribuindo para o
desenvolvimento cognitivo e para o sucesso escolar dos estudantes.
Hoje, num supermercado, um jovem tinha comprado 6 unidades de um refrigerante e não entendia o registo da caixa. O verdadeiro problema é que não sabia a tabuada e estava sem telemóvel. Que emburrecimento!
Publicado em NVR 16|09|2026