CAIR NOS BRAÇOS DE MORFEU
Apesar
dos milénios que nos separam da Grécia Antiga, é evidente que o legado dessa
civilização ainda exerce uma influência profunda em diversos aspectos da nossa
vida quotidiana.
As propriedades revigorantes do sono são amplamente
conhecidas, e a ausência dele pode gerar uma série de problemas de saúde.
Muitos estudiosos continuam a investigar de que maneira essa actividade, que
ocupa praticamente um terço das nossas vidas, interfere no funcionamento do
organismo. É comum ouvirmos pessoas celebrarem uma noite de sono reparador
dizendo que “caíram nos braços de Morfeu”.
Mas, afinal, de onde vem essa expressão?
A expressão "cair nos braços de Morfeu" é uma
metáfora que descreve o acto de adormecer de forma profunda, tranquila e
reconfortante, quase como um sono hipnótico. Essa locução remete à mitologia
grega, na qual Morfeu é o deus dos sonhos. Representado com asas poderosas,
Morfeu tem a capacidade de se mover silenciosamente durante a noite, viajando
rapidamente pelo mundo para visitar os seres humanos enquanto dormem, moldando
e influenciando os seus sonhos. Ele é um dos mil filhos de Hipnos, o deus do
sono e de Pasiteia (deusa do relaxamento, do descanso ou das alucinações), e
neto da deusa primordial da noite, Nix.
Segundo a mitologia grega, Morfeu adormecia os mortais
tocando-os com uma folha de papoila, mergulhando-os num sono propício à
experiência dos sonhos. Os gregos acreditavam que uma noite bem dormida e os seus
efeitos positivos só poderiam ser explicados pela presença dessa divindade nos
sonhos.
A imagem de corpos entrelaçados ao dormir, ou de estar nos
braços de Morfeu, é uma metáfora clássica tanto na literatura quanto na nossa
vida real. Quando alguém diz que “caiu nos braços de Morfeu”, refere-se ao
momento em que a pessoa abandona a consciência para mergulhar num repouso
reparador, como se estivesse a ser acolhida pelo próprio deus. Estar sob os seus
braços significa, portanto, estar sob a protecção da divindade que governa o
mundo dos sonhos.
Voltando à mitologia, quando Hipnos, pai de Morfeu, precisa
de enviar uma mensagem a um mortal através do sonho, envia um de seus filhos.
Os filhos, Fobetor e Fantaso, imitam animais ou objetos inanimados, como
árvores ou utensílios, nos sonhos dos mortais. Contudo, Morfeu tem uma função
especial: pode assumir a forma de qualquer ser humano. Nenhum outro filho imita
tão bem, reproduzindo o andar, o rosto, a voz, as palavras e até as roupas de
cada pessoa.
Assim, Morfeu pode assumir diversas formas de cada um de nós
e de outros personagens que surgem nos nossos sonhos. Essa capacidade de
caracterizar e representar o sonho inspirou Freud ao desenvolver as suas
teorias sobre a ligação entre os personagens do inconsciente e as nossas
experiências oníricas.
Foi justamente por meio dessa expressão e da história de
Morfeu que um dos mais potentes analgésicos existentes, a morfina, recebeu esse
nome.
A associação deve-se ao facto de que a morfina é extraída da
papoila, a mesma planta que, na mitologia, Morfeu utilizava para adormecer os
mortais. Além da sua origem, a morfina possui propriedades sedativas potentes,
induzindo o sono e aliviando a dor.
Em conclusão, embora a mitologia não tenha bases científicas,
é inegável que uma noite de bom descanso é, de certa forma, divinal. Afinal, o
sono reparador é um presente que nos conecta com uma cultura que explica a
origem do mundo, fenómenos naturais e comportamentos humanos por meio de
deuses, heróis e seres sobrenaturais.
Que os deuses te sorriam. Alegra-te! Kairé!
[Emissão “Zeus não dorme”, descubra a mitologia grega na sua vida – Rádio
Universidade FM – 24|25|26 de Abril de 2026.]