Voz: Anabela Quelhas
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O livre arbítrio
Palavras que tantas
vezes ouvimos, em diversos contextos, sem ter a verdadeira noção do que isto
significa.
O livre-arbítrio é um
exercício de liberdade, é a capacidade humana de tomar decisões independentes,
segundo a nossa própria vontade, sem influência externa.
Este tema tem sido
amplamente estudado e discutido ao longo da história, tanto na filosofia quanto
na teologia e na ética.
Na perspectiva
religiosa, o livre-arbítrio é visto como um dom concedido por Deus ao ser
humano, permitindo-lhe optar entre o bem e o mal. Essa visão distingue os
humanos dos demais animais, que agem apenas por instinto. Mesmo diante da fé, a
divindade não impõe as suas vontades, pelo contrário, concede ao Homem a
liberdade de escolha e, com ela, a responsabilidade pelas suas acções.
Muitos filósofos
defendem a chamada “Visão Tradicional”, que diferencia os humanos dos animais
pelo fato de possuírem capacidade de abstração e reflexão. Enquanto os animais
reagem a estímulos imediatos e necessidades biológicas, os seres humanos podem
pensar o presente e o futuro, analisar informações, ponderar consequências e
tomar decisões que, por vezes, vão contra os seus impulsos que resultam do seu instinto.
Assim, apenas os humanos seriam moralmente responsáveis pelos seus actos, pois
têm a capacidade de distinguir entre o “certo” e o “errado”.
A “Visão Científica” refere
que até animais simples, como moscas, não são completamente previsíveis nos seus
comportamentos. Eles podem escolher entre diferentes opções numa mesma
situação, não reagindo sempre da mesma forma. Portanto, o livre-arbítrio não
seria uma exclusividade humana, mas uma característica biológica presente em
graus variados.
Nos seres humanos, essa
liberdade de escolha é mais complexa devido ao cérebro mais desenvolvido. O nosso
conhecimento, cultura, raciocínio lógico-abstracto, sensibilidade, educação,
valores e a consciência de tudo isso, influenciam as nossas decisões. A
consciência tem um potencial extraordinário, pois pode travar impulsos e
raciocínios ilógicos.
É importante distinguir
entre decisões simples, quase instintivas—como mover um dedo—e escolhas mais
complexas, que envolvem processos de reflexão, conhecimento e análise de
informações, referidos anteriormente.
Alguns neurocientistas
preferem usar termos como “autonomia” ou “capacidade de deliberação”, para
descrever o funcionamento do cérebro quando opera de forma “livre”, no sentido
de que segue as suas próprias motivações internas e o raciocínio lógico. Ser
livre, assim, implica ter múltiplas respostas diante de um estímulo e a
capacidade de criar novos desejos e objectivos por meio da reflexão.
Para aqueles que
acreditam no destino, na sorte/azar ou em pragas, é importante esclarecer que
essas ideias muitas vezes escondem a recusa em assumir responsabilidades e a
tentativa de evitar culpas, sossegando consciências. Atribuir a culpa a outros
humanos ou a entidades superiores é uma forma de desresponsabilização,
acreditando que essas forças controlam os nossos caminhos e manipulam os nossos
destinos, como se fossemos marionetes.
Essas questões impactam o campo da Justiça, pois abrem espaço para argumentações que defendem ou acusam, culpados e inocentes, dependendo da interpretação sobre liberdade, responsabilidade e destino.
Publicado em NVR 18|02|2026
Ilustração do poema "Uma poltrona de jardim"
Autora: Anabela Quelhas
É impossível ficar
indiferente a esta tragédia nacional, que muitos portugueses viveram nos
últimos dias.
Neste momento já não
basta proibir a construção e a impermeabilização do solo em zonas de leito de
cheia dos rios. Daqui para frente, perante o cenário que estamos a viver, acrescido
com a previsão das alterações climáticas e por consequência a subida do nível
da água do mar, os municípios devem providenciar a desocupação de muitos edifícios
já construídos e que ficarão submersos.
É urgente repensar e
ordenar o território de outra forma. É fundamental realizar um levantamento
criterioso do limite a que as águas chegaram e repensar o território com um
risco acrescido, atendendo às bacias hidrográficas. O meio rural não se pode
desligar do meio urbano, nem do país vizinho, porque tudo isto está interligado.
Rios e ribeiras atravessam o nosso território e alguns dos nossos rios nascem
em Espanha.
A forma de pensar
cidades ou outros aglomerados, tem que ser pensada de forma realista e
futurista. Não podem ser os políticos a decidir estas situações, nem a
solidariedade será a solução. São os geógrafos, engenheiros e arquitectos que
devem tomar decisões sobre os ecossistemas funcionais, com a ligação entre
solo, vegetação, clima e espaço construído. Temos que repensar o presente para
estarmos preparados no futuro, que se antevê dramático.
Até 2050, a elevação do
nível da água do mar fará com que as inundações costeiras médias anuais
ultrapassem o nível das terras que hoje abrigam cerca 300 milhões de pessoas no
mundo, de acordo com um estudo da Climate Central. A Ásia será o
continente mais afectado.
Já na década de 70, os
ambientalistas alertavam para esse cenário, que parecia longínquo e improvável.
Faltam só 24 anos e a natureza envia-nos sinais cada vez mais evidentes e
catastróficos.
Existem mapas de
Portugal, com esta situação calculada e representada. Estudos apontam como
zonas mais críticas o estuário do Tejo e do Sado, a Ria Formosa, Aveiro e a
Figueira da Foz. Estima-se que cerca de 150 mil portugueses, que residem na
faixa costeira, possam ser afectados directamente. Junta-se a isto, a questão
dos leitos de cheia dos rios, a existência de pequenas linhas de água
invisíveis durante o verão, mas que se preenchem durante o inverno, acrescido
pela impermeabilização do solo resultante dos incêndios e da ocupação
desgovernada e insensata do solo.
Os incêndios florestais
aumentam a impermeabilização do solo ao criarem uma camada hidrofóbica
(repelente à água) e eliminam a vegetação, favorecendo a erosão e a escorrência
superficial.
O que se pode fazer?
Injecção de areia para
criar "amortecedores" naturais contra tempestades, recuperação de
paredões e muros de proteção que sofrem danos com a agitação marítima, planos
de drenagem (com túneis gigantes), investimento em comportas e sistemas de
bombagem para controlar a entrada em alguns espaços, abandonar o betão em favor
de soluções "verdes" e permeáveis, instalação de paliçadas e
passadiços elevados para proteger a vegetação que segura a areia, não passam de
soluções temporárias, vulneráveis e frágeis.
É impensável conseguir
contrariar a Natureza; criar um plano de desocupação progressiva dessas áreas
inundáveis, talvez seja a solução mais eficaz.
Não será fácil. Alguém
está disponível para abandonar os seus bens? Por quanto tempo poderemos
proteger a população?
Habitar o interior não
se evita o problema. Vimos várias cidades do interior afectadas pelas cheias,
porque a rede hidrográfica é algo complexo e abrange todo o território.,
É necessário um plano
estratégico nacional assumido por todos os políticos, rigoroso, sem cedências,
que contemple também o parâmetro educativo dirigido à população, que desconhece
o cenário futuro, e que terá de deixar de ser problema e contribuir para a
solução. Não podemos ignorar ou camuflar este futuro de calamidade.
Já só temos 24 anos!
Claro que tudo que
provoca alterações climáticas é um perfeito acelerador e antecipador da
previsão referida.
Publicado em NVR 11|02|2026