Voz: Anabela Quelhas
file:///E:/radio/audio/189A%20-%20A%20mulher%20-%20Florbela%20Espanca.mp3
Na procura de uma
sociedade perfeita, na cabeça de alguns, o parâmetro fundamental é a selecção e
a rejeição.
Ora vejamos…
Se eu retirar: velhos,
negros, mestiços, emigrantes, brasileiros, indianos, chineses, deficientes,
doentes, mulheres, pobres, mendigos, sem abrigo, ciganos, desempregados,
pessoas feias, aleijados, comunistas, pensionistas, crianças, ecologistas,
socialistas, notívagos, gagos, cegos, moucos, ignorantes, analfabetos, burros,
bissexuais, oportunistas, chico-espertos, avarentos, bêbados, drogados, bruxas,
feiticeiros, criminosos, palhaços, pedófilos, condutores em transgressão,
vegetarianos, adolescentes rebeldes, gordos, canhotos, carecas, metrosexuais, barrigudos,
escravos, gays, nudistas, rurais, muçulmanos, judeus, lésbicas, pimbas,
transexuais, os que usam piercings, artistas, poetas, os que não sabem
nadar…
O que sobra?
O homem, branco,
musculado, bonito, inteligente, heterossexual, magro, cristão, rico, português,
saudável, activo, cosmopolita, bom profissional… mas, roerá certamente as
unhas, ou tira as catotas do nariz.
Mesmo assim, terá uma
alimentação equilibrada? Evacua todos os dias? Só terá pensamentos
dignificantes? Tem pelos no nariz? Espirra? Tem hálito fresco? Tem fome e sede?
Sabe rir? Sabe chorar? Terá emoções e sonhos? Saberá perdoar? Terá sentido de
justiça?
Estamos a caminhar para
um cenário de desumanização, talvez o mais delicado e desafiador da civilização
contemporânea em que os seres humanos são tratados como objectos, que podem ser
mais ou menos úteis.
Numa sociedade
desumanizada perde-se a empatia, a solidariedade, os valores éticos e a nobreza
das relações interpessoais.
A indiferença pela dor
alheia, visualizando apenas o seu próprio umbigo, seleccionar e rejeitar quem
não obedece ao padrão, usar termos pejorativos, discurso agressivo, generalizar
e ver o "outro" como um inimigo, desprovido de humanidade,
facilitando a crueldade, são as características que se apresentam.
A sua estrutura assenta
no interesse máximo pelo “eu”, e o desprezo pelo outro, a anulação da
complexidade social, perda da solidariedade e sensibilidade moral, sendo uma
técnica comum o incitamento à exclusão, ao genocídio e está sempre presente em
contextos sociais de indiferença, violência e conflito.
A sociedade
neoliberal/capitalista moderna, com foco em interesses mesquinhos e
desregulação, favorece este retrocesso humanitário. As pessoas passam a ser
algarismos e coisas, indiferentes ao sofrimento da família, dos amigos e do
vizinho.
É isto que queremos
para nós?
Processos de
desumanização foram observados na perseguição e tentativa de extermínio dos
judeus, durante a Segunda Guerra Mundial, e actualmente, manifestam-se na
generalização de que todos os palestinianos apoiam o Hamas, todos os
venezuelanos são drogados, todos os ciganos são oportunistas, todos os negros
são burros, todos os emigrantes são criminosos, todos os humanistas são
comunistas, todos ambientalistas são alarmistas e todos os políticos são
corruptos.
Publicado 4|02|2026
Voz: João Carlos Carranca
file:///E:/radio/audio/187A%20-%20Quando%20o%20Homem%20quiser%20-%20Ary%20dos%20Santos%20JC.mp3
Num
mundo onde o digital reina, a leitura, aquela actividade que envolve páginas de
papel e letras impressas, fica para trás. As crianças e os jovens, cada vez
mais habituados a mensagens rápidas, títulos apelativos, muita imagem e texto
curto, nos seus telemóveis, parecem querer trocar o prazer da leitura profunda
por uma satisfação instantânea, efémera e transitória. Essa mudança é boa ou
má? Na verdade, há mais pessoas a ler, e menos hábitos de leitura.
A
ciência revela que a leitura é sempre um exercício vital para o cérebro, um
combustível silencioso que alimenta e enriquece a função cerebral. E o que é
mais interessante: ela não precisa de ser feita somente com livros físicos para
trazer benefícios. Ou seja, ler, mesmo que seja uma mensagem curta ou uma
notícia no telemóvel, estimula funções cerebrais. Contudo, há diferenças
substanciais na qualidade e na profundidade dessa estimulação. Quando folheamos
um livro de papel, activamos uma série de sentidos e memórias cinestésicas — a
posição do corpo, a sensação do papel, o cheiro das páginas — que favorecem uma
compreensão mais profunda, uma retenção maior da informação e um foco mais
intenso.
A
leitura digital, embora permita uma navegação rápida por textos curtos, muitas
vezes estimula uma leitura superficial e impede que a leitura mais aprofundada
se efectue. O nosso cérebro, potencialmente seduzido pelo dinamismo dos
dispositivos, tende a processar as informações de forma mais rápida e menos
profundada. Isso pode ser útil para tarefas rápidas, mas, no que diz respeito à
compreensão de conteúdos complexos ou ao desenvolvimento de pensamento crítico,
deixa muito a desejar. Pais e educadores estejam em alerta.
Assim
como o exercício físico fortalece os músculos, a leitura exercita o cérebro, activa
memórias visuais, linguísticas, motoras, e promove uma espécie de treino
cognitivo constante que pode ser transformado em saber e conhecimento. Porém,
nem todos os que praticam exercício físico são atletas. É necessário algo mais.
A
ausência de leitura regular, em circunstâncias favoráveis à reflexão, tem
consequências palpáveis. Ela limita o desenvolvimento cognitivo, empobrece o
vocabulário, enfraquece o pensamento crítico e diminui a capacidade de
concentração e de decisão. Sem esse estímulo, o cérebro pode atrofiar, acelerar
o envelhecimento cerebral precoce e dificultar a análise de informações
complexas. Uma leitura superficial, típica do ambiente digital, impede o
processamento profundo necessário para compreender argumentos e desenvolver uma
visão crítica do mundo, torna os leitores mais frágeis e susceptíveis de não saberem
descodificar a demagogia escondida na informação que lê, distinguir o
verdadeiro do falso, tornando-se alvos fáceis para serem enganados.
Pais,
educadores e a sociedade têm um papel fundamental em criar ambientes que
estimulem esse hábito, pois o que está em jogo não é apenas o prazer de ler,
mas a formação de cérebros mais resistentes, criativos e críticos, perante o que
acontece na sua vida pessoal, social e política. Saber seleccionar informação,
saber interpretar e saber fazer as suas escolhas, está a ser cada vez mais
urgente.
Sem
leitura e entendimento profundo não há evolução civilizacional, e sim um
retrocesso. O impacto do declínio do hábito de ler na formação do pensamento
crítico, manifesta-se na saúde da democracia e na capacidade de interpretação
da realidade.
Publicado em NVR 28|01|2026