08 abril, 2026

"NÃO SEI AMOR" - Pedro Tamen


https://voca.ro/11y1ogMuiFy4

Voz: Anabela Quelhas.

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PARIS

 









“Eu sou eu e a minha circunstância”


 

“Eu sou eu e a minha circunstância”

“Guerra e Paz”, programa de Germano de Almeida, teve como convidado o cantor e compositor Pedro Abrunhosa, para realizar análise internacional. Abrunhosa, vai muito além da interpretação “à letra” de “Talvez f%der”. Homem inteligente, culto, informado, sensível e interventivo, não opinou sobre “lugares comuns” e citou por duas vezes Ortega. Este filósofo espanhol do século XX é uma figura central na reflexão sobre a condição humana e a sociedade moderna e por isso é tão referenciado por pensadores do século XXI.

Afinal quem foi Ortega?

José Ortega y Gasset (1883–1955) foi um dos mais influentes filósofos, ensaístas e intelectuais espanhóis do século XX e é amplamente reconhecido pela sua expressão célebre: "Eu sou eu e a minha circunstância", que assume a sua abordagem vitalista e perspectivista. Essa frase reflecte a compreensão de que o indivíduo não existe isoladamente, mas em constante diálogo e interacção com o seu contexto social, cultural e histórico, que moldam a sua identidade e as suas acções. A realidade não é algo estático ou meramente lógico, mas um fluxo de forças e afectos. O pensamento deve servir à vida, e não o contrário. Isso significa avaliar ideias pela sua capacidade de expandir a nossa potencialidade de agir e de criar. Não existe um "olhar neutro" [adoro quando alguém assume a possibilidade de não se ser político e não ter opinião] ou um sujeito desvinculado do seu corpo e circunstância. Cada interpretação é uma perspectiva necessária para o crescimento da vida. Quanto mais perspectivas somos capazes de integrar, mais rica e "objectiva" (no sentido de plural) se torna a nossa compreensão do mundo. Entre o binário SIM e NÃO existe um complexo mundo de análises e de percepções, umas mais humanistas do que outras, acrescento eu.

Ortega destacou-se pela sua filosofia que valoriza a experiência concreta e a condição humana, rejeitando visões essencialistas e buscando compreender a realidade por meio de uma perspectiva dinâmica e relacional. A sua obra é marcada por uma análise profunda das forças que influenciam o indivíduo e a sociedade, realçando a importância da liberdade, da responsabilidade e do entendimento do homem como um ser real e condicionado pelas suas circunstâncias.

A sua análise revela uma preocupação com o papel do indivíduo na sociedade e com o risco de uma homogeneização cultural que pode levar à mediocridade colectiva. Para Ortega, a compreensão das circunstâncias é fundamental para a actuação consciente e responsável do indivíduo, que deve buscar uma vida autêntica e uma cultura que valorize a excelência e a criatividade.

Uma das principais contribuições de Ortega é a ideia de que o indivíduo deve assumir a responsabilidade pela sua própria existência e pelo seu destino, num mundo cada vez mais complexo e acelerado. Ele destacou a importância da "vida concreta" e do "homem-massa", alertando para os perigos da conformidade e da perda da individualidade diante das forças sociais e tecnológicas.

Ortega alerta para os perigos da massificação e destaca a importância de uma postura consciente frente às circunstâncias que moldam a existência humana. Também é pioneiro ao discutir a crise dos valores tradicionais e a necessidade de uma cultura que seja capaz de responder às exigências dos novos tempos. A sua ênfase na razão prática, na liberdade pessoal e na criatividade como elementos essenciais para o desenvolvimento humano ressoa na sociedade contemporânea, marcada por rápidas mudanças culturais e tecnológicas, que podem ser nocivas.

Além disso, a sua visão de que o homem moderno deve buscar um projecto de vida que seja autêntico e que tenha sentido, diante do caos e da fragmentação do mundo, inspira muitas correntes filosóficas e existenciais actuais. Assim, Ortega influencia o pensamento do Homem do século XXI ao oferecer uma reflexão sobre autonomia, responsabilidade e a busca por significado num mundo em constante transformação.

Publicado em NVR 08|04|2026

05 abril, 2026

01 abril, 2026

luz sagrada


 

"FALA" - Alexandre O'Neil


https://voca.ro/10dTwYAjIu5v

Voz: João Carlos Carranca

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Quando o mundo vira uma trágico-comédia.

 


Quando o mundo vira uma trágico-comédia. 

Donald Trump conseguiu transformar o mundo numa comédia perigosa, onde não se encontra lógica, nem coerência, entre muitas vidas perdidas.

Quem diria que, numa era de comunicação e de informação, a estratégia de política externa de um país poderia transformar-se numa novela de episódios desconexos?

Contra a Venezuela e o Irão — é um verdadeiro espectáculo de lógica confusa e objectivos tão claros quanto um espelho embaciado. 

Primeiro, temos o amuo do Nobel da Paz.

Segue-se a Venezuela, aquele país que, aparentemente, se tornou num objecto de obsessão de Trump, como se fosse um episódio de um reality show político. Entre sanções que mais parecem tentativas de jogar um jogo de Jenga com a economia de um país já fragilizado, e declarações que mais parecem tweets de um fã de futebol que tenta jogar futebol, a Venezuela virou o palco de uma guerra de narrativa: de um lado, a luta pelo "democracia verdadeira", do outro, a tentativa de derrubar um governo que, segundo Trump, é uma ameaça à estabilidade mundial. Entretanto, capturam o Presidente Maduro e inundam as televisões com ele algemado a segurar uma garrafa de água, vestindo moleton, olhos vendados… convenhamos, se a intenção era ajudar o povo venezuelano, as sanções parecem mais uma forma de mandar um presente de Natal com um pacote de rebuçados  de hortelã, deixando os venezuelanos a perguntarem se estão a jogar um jogo de xadrez ou uma partidinha do 1º de Abril.

E o Irão? Aquele país de cultura milenar virou o inimigo favorito do Twitter e do discurso político do Sr. Trump, quase como uma novela de televisão que nunca termina e tem na produção o guru sanguinário, da estrelinha de 6 pontas, que eu não atino a escrever o nome. Entre acordos nucleares que mais parecem promessas de um namoro que nunca começa, e sanções que parecem mais uma tentativa de fechar o restaurante do amigo do bairro do que uma estratégia de paz, a relação com o Irão é um verdadeiro espectáculo de incoerência. Afinal, se o objectivo era evitar a proliferação nuclear, por que então apostar na pressão máxima que só faz o país mais resistente, como um gato que não gosta de ser agarrado?

E isto agora é assim? Legitima-se o poder invadir países, e querer decidir por quem lá vive?

Depois ai, ai, quero ajuda!

Afinal era para ver a vossa reacção!

Isto parece uma check list de erros: promessas, sanções, vaidade, falsidade, provocação, ironia e declarações de guerra que mais parecem frases soltas de um poeta confuso. Uma verdadeira obra de arte da confusão internacional, onde a lógica foi deixada de lado e o espetáculo continua, com uma plateia que tenta entender, mas só consegue assistir, boquiaberta, à peça mais imprevisível do século. Às vezes o mais incoerente é justamente o que faz mais sentido… para quem gosta de um bom caos.

O número dos trapezistas e palhaços já foi, o que se seguirá? O que se seguirá para que o Sr. Trump continue a ter as parangonas da informação?

Ah, claro, em nome da estabilidade global imagino o Sr. Trump a cruzar os mares, vestindo a revolução empresarial, onde apenas existe o sistema binário, o Deve e o Haver, para ocupar Cuba e, com jeito, o Brasil. A táctica é sempre a mesma, primeiro promove-se a carência, a instabilidade e o pânico, e depois toma-se conta com anuência da população no desespero - “Make Cuba Great Again” .

Desta salgalhada toda só se extrai uma coisa positiva: O Sr. Trump conseguiu uma indignação global, quer se seja de esquerda ou de direita, vermelho, amarelo ou azul. A Gronelândia ficará mais para o Verão devido às condições climatéricas. Ouvi dizer que a famosa estátua da liberdade, oferecida pelos franceses, já fechou os olhos e com as mãos tapou aos ouvidos. Sinto orgulho dos nuestros hermanos.

Na próxima semana quando o leitor me ler, certamente, com a velocidade que o mundo vai, já teremos novas realidades.

Publicado em NVR 01|04|2026


29 março, 2026