sem título - José Luís Peixoto
Voz: Graça Vilela
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sem título - José Luís Peixoto
Voz: Graça Vilela
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Voz: Anabela Quelhas
O EMBURRECIMENTO DA SOCIEDADE (1)
No século da
informação, estamos imersos num mundo onde dados, notícias e conteúdos circulam
incessantemente, muitas vezes fora do alcance da reflexão profunda. Vivemos na
era em que o acesso à informação é quase instantâneo, a internet e as redes
sociais a geram um fluxo constante de novidades. No entanto, essa abundância de
dados muitas vezes distancia-nos do verdadeiro entendimento, transformando o
conhecimento numa colecção de factos dispersos e superficiais. Nem sei se chame
a isso de conhecimento.
O que é realmente o
conhecimento? O conhecimento vai além de simplesmente acumular informações. O conhecimento
é a compreensão crítica e contextualizada dessas informações, a capacidade de
relacionar conceitos, questionar e reflectir sobre o que aprendemos. É uma
construção mental que envolve interpretação, análise e aplicação prática,
permitindo-nos usar a informação de forma consciente e significativa em
diversos contextos. Assim, enquanto o século da informação nos oferece recursos
incríveis, o conhecimento verdadeiro reduz-se— aquele que nos faz pensar,
questionar e transformar a nossa visão do mundo. Ou seja, a sociedade está a
emburrecer e o mais caricato não se dá conta disso. A informação “vive” fora da
nossa cabeça, enquanto o conhecimento “vive” dentro.
Muitos argumentam que,
devido ao crescimento do consumo dos meios digitais, redes sociais e
entretenimento de baixo nível, as pessoas têm perdido a capacidade de pensar
criticamente, reflectir profundamente e valorizar conhecimentos mais complexos.
Esse suposto "emburrecimento" pode ser percebido na diminuição do
interesse pela leitura, na superficialidade das discussões públicas, na
aceitação de informações sem questionamento e na redução de capacidade em
resolver problemas e tomar decisões.
O acesso facilitado à
informação, mesmo que às vezes superficial, também pode ser visto como uma
ferramenta de democratização da mesma, mas “não há bela sem senão”. O papel da
educação será capaz de enfrentar os desafios do mundo contemporâneo e travar o
emburrecimento? Aqui fica o desafio para a reflexão e deixo um exemplo, mas há
muitos.
A tabuada é informação
que já não se decora. A escola ensina a encontrar o caminho para essa
informação – a máquina de calcular, o computador e a internet; e tudo após de
ter havido compreensão dos conceitos matemáticos.
Porém, a importância de
decorar e saber a tabuada é fundamental para o desenvolvimento das habilidades
matemáticas das crianças e estudantes em diferentes contextos. Quando a tabuada
é memorizada, as operações básicas de multiplicação e divisão tornam-se mais
rápidas e automáticas, facilitando o entendimento de conceitos mais complexos.
Além disso, a memorização da tabuada ajuda a aumentar a confiança e a autonomia
na resolução de problemas matemáticos, além de promover o raciocínio lógico e a
agilidade mental. Essa habilidade também serve como base para aprender
operações com números maiores e para avançar em áreas como álgebra, geometria e
outras disciplinas relacionadas. Portanto, decorar e saber a tabuada é uma
etapa importante no processo de aprendizagem matemática, contribuindo para o
desenvolvimento cognitivo e para o sucesso escolar dos estudantes.
Hoje, num supermercado, um jovem tinha comprado 6 unidades de um refrigerante e não entendia o registo da caixa. O verdadeiro problema é que não sabia a tabuada e estava sem telemóvel. Que emburrecimento!
Publicado em NVR 16|09|2026
ACESSO AO ENSINO SUPERIOR
Os alunos de contextos socioeconómicos mais desfavorecidos enfrentam
múltiplos obstáculos interligados, que dificultam o seu acesso e permanência no
ensino superior – 3% na 1ª fase.
São menos inteligentes? Não, provavelmente até poderão ter capacidades
superiores e competências para resolver problemas, já que a sua experiência de
vida lida com carências, o motor que desperta o interesse, a vontade e a
determinação.
Existem dois problemas para análise desta realidade, recheados de
diversos factores estruturais e socioeconómicos.
De onde vêm e para onde vão estes alunos?
No ensino básico e secundário, as escolas são próximas ao local de
origem destes alunos, o que facilita económicamente a sua frequência. Quando
concluem o 3º ciclo e transitam para o ensino secundário, o nível de exigência
aumenta e a competição entre alunos é desenfreada. O processo de selecção para
entrada na universidade é um muro inultrapassável para os alunos carenciados.
No ensino secundário não se luta por uma classificação de 14, que poderá
identificar um bom aluno, a luta é pelo 20. Apesar de as escolas proporcionarem
apoios, é necessário muito mais. O apoio da família sensível a este processo é
fundamental. É necessário ter condições de estudo em casa, não perder tempo em
transportes escolares e usufruir de boas explicações extra-escola, com o foco
de um bom treino para os exames. São três anos intensos e decisivos.
Alunos da classe média alta têm maior acesso a explicações particulares
(apoio escolar privado e individual), materiais escolares complementares e actividades
extracurriculares que enriquecem o currículo e a preparação para os exames
nacionais e de ingresso, favorecendo a participação desses estudantes nos
processos selectivos
Considere-se também o fenómeno de auto-exclusão - os jovens de meios
desfavorecidos auto-excluem-se por considerarem que a universidade "não é
para eles", optando mais cedo pelas vias profissionais. Antigamente a
universidade funcionava como elevador de desenvolvimento social, agora, é
considerado por muitos, uma perda de tempo – “para ter um emprego, o que
interessa é ter uma boa cunha ou estar num partido político”. O conhecimento,
só por si, não é valorizado, nem entendido. Não é dado como certo, que mais
conhecimento pode abrir outras portas na empregabilidade. Os modelos de sucesso divulgados na
comunicação social induzem os jovens a descredibilizar a formação superior.
Histórias de bilionários sem diploma ganham destaque – Cristiano Ronaldo, Bill
Gates, Mark Zuckerberg, Amancio Ortega, Rui Nabeiro, Américo Amorim, Salvador
Caetano, Jorge Mendes, Paulo Futre, Lionel Messi… - esquecem-se de alertar os
mais ingénuos, que são uma minoria.
Na universidade surge a segunda parte do problema – propinas, alojamento
e deslocações.
Para alunos que precisam de mudar de cidade, o preço dos quartos ou
residências universitárias constitui a maior barreira financeira. A escassez de
alojamento público acessível agrava este cenário. Muitas famílias dependem da
entrada rápida dos jovens no mercado de trabalho para complementar o rendimento
familiar. Escolher estudar significa abdicar de um salário imediato. Embora,
existam bolsas de estudo e contingentes de acesso para beneficiários da Ação
Social Escolar, os critérios de atribuição baseados nos rendimentos declarados
nem sempre reflectem a pobreza real ou o custo de vida actual das grandes
cidades. Os transportes são mais um obstáculo: metro, autocarro, barco,
trotinetes, tudo se transforma em euros… Ter um carrinho à porta e ir para a
faculdade é outro andamento!!!!
Depois há que contar com os atrasos. O tempo que decorre entre a candidatura
a uma bolsa de estudo e o primeiro pagamento financeiro obriga a um
investimento inicial que muitas famílias simplesmente não conseguem suportar.
Essa disparidade evidencia a necessidade de acções mais incisivas para
promover a equidade no acesso ao ensino superior, garantindo que estudantes de
todas as classes sociais tenham oportunidades reais de ingresso e permanência
na universidade. Não está a acontecer!
Publicado em NVR 09|09|2026
Voz: Anabela Quelhas