11 fevereiro, 2026
Plano estratégico, precisa-se.
Plano estratégico, precisa-se.
É impossível ficar
indiferente a esta tragédia nacional, que muitos portugueses viveram nos
últimos dias.
Neste momento já não
basta proibir a construção e a impermeabilização do solo em zonas de leito de
cheia dos rios. Daqui para frente, perante o cenário que estamos a viver, acrescido
com a previsão das alterações climáticas e por consequência a subida do nível
da água do mar, os municípios devem providenciar a desocupação de muitos edifícios
já construídos e que ficarão submersos.
É urgente repensar e
ordenar o território de outra forma. É fundamental realizar um levantamento
criterioso do limite a que as águas chegaram e repensar o território com um
risco acrescido, atendendo às bacias hidrográficas. O meio rural não se pode
desligar do meio urbano, nem do país vizinho, porque tudo isto está interligado.
Rios e ribeiras atravessam o nosso território e alguns dos nossos rios nascem
em Espanha.
A forma de pensar
cidades ou outros aglomerados, tem que ser pensada de forma realista e
futurista. Não podem ser os políticos a decidir estas situações, nem a
solidariedade será a solução. São os geógrafos, engenheiros e arquitectos que
devem tomar decisões sobre os ecossistemas funcionais, com a ligação entre
solo, vegetação, clima e espaço construído. Temos que repensar o presente para
estarmos preparados no futuro, que se antevê dramático.
Até 2050, a elevação do
nível da água do mar fará com que as inundações costeiras médias anuais
ultrapassem o nível das terras que hoje abrigam cerca 300 milhões de pessoas no
mundo, de acordo com um estudo da Climate Central. A Ásia será o
continente mais afectado.
Já na década de 70, os
ambientalistas alertavam para esse cenário, que parecia longínquo e improvável.
Faltam só 24 anos e a natureza envia-nos sinais cada vez mais evidentes e
catastróficos.
Existem mapas de
Portugal, com esta situação calculada e representada. Estudos apontam como
zonas mais críticas o estuário do Tejo e do Sado, a Ria Formosa, Aveiro e a
Figueira da Foz. Estima-se que cerca de 150 mil portugueses, que residem na
faixa costeira, possam ser afectados directamente. Junta-se a isto, a questão
dos leitos de cheia dos rios, a existência de pequenas linhas de água
invisíveis durante o verão, mas que se preenchem durante o inverno, acrescido
pela impermeabilização do solo resultante dos incêndios e da ocupação
desgovernada e insensata do solo.
Os incêndios florestais
aumentam a impermeabilização do solo ao criarem uma camada hidrofóbica
(repelente à água) e eliminam a vegetação, favorecendo a erosão e a escorrência
superficial.
O que se pode fazer?
Injecção de areia para
criar "amortecedores" naturais contra tempestades, recuperação de
paredões e muros de proteção que sofrem danos com a agitação marítima, planos
de drenagem (com túneis gigantes), investimento em comportas e sistemas de
bombagem para controlar a entrada em alguns espaços, abandonar o betão em favor
de soluções "verdes" e permeáveis, instalação de paliçadas e
passadiços elevados para proteger a vegetação que segura a areia, não passam de
soluções temporárias, vulneráveis e frágeis.
É impensável conseguir
contrariar a Natureza; criar um plano de desocupação progressiva dessas áreas
inundáveis, talvez seja a solução mais eficaz.
Não será fácil. Alguém
está disponível para abandonar os seus bens? Por quanto tempo poderemos
proteger a população?
Habitar o interior não
se evita o problema. Vimos várias cidades do interior afectadas pelas cheias,
porque a rede hidrográfica é algo complexo e abrange todo o território.,
É necessário um plano
estratégico nacional assumido por todos os políticos, rigoroso, sem cedências,
que contemple também o parâmetro educativo dirigido à população, que desconhece
o cenário futuro, e que terá de deixar de ser problema e contribuir para a
solução. Não podemos ignorar ou camuflar este futuro de calamidade.
Já só temos 24 anos!
Claro que tudo que
provoca alterações climáticas é um perfeito acelerador e antecipador da
previsão referida.
Publicado em NVR 11|02|2026
09 fevereiro, 2026
06 fevereiro, 2026
"A MULHER" - Florbela Espanca
04 fevereiro, 2026
DESUMANIZAÇÃO
DESUMANIZAÇÃO
Na procura de uma
sociedade perfeita, na cabeça de alguns, o parâmetro fundamental é a selecção e
a rejeição.
Ora vejamos…
Se eu retirar: velhos,
negros, mestiços, emigrantes, brasileiros, indianos, chineses, deficientes,
doentes, mulheres, pobres, mendigos, sem abrigo, ciganos, desempregados,
pessoas feias, aleijados, comunistas, pensionistas, crianças, ecologistas,
socialistas, notívagos, gagos, cegos, moucos, ignorantes, analfabetos, burros,
bissexuais, oportunistas, chico-espertos, avarentos, bêbados, drogados, bruxas,
feiticeiros, criminosos, palhaços, pedófilos, condutores em transgressão,
vegetarianos, adolescentes rebeldes, gordos, canhotos, carecas, metrosexuais, barrigudos,
escravos, gays, nudistas, rurais, muçulmanos, judeus, lésbicas, pimbas,
transexuais, os que usam piercings, artistas, poetas, os que não sabem
nadar…
O que sobra?
O homem, branco,
musculado, bonito, inteligente, heterossexual, magro, cristão, rico, português,
saudável, activo, cosmopolita, bom profissional… mas, roerá certamente as
unhas, ou tira as catotas do nariz.
Mesmo assim, terá uma
alimentação equilibrada? Evacua todos os dias? Só terá pensamentos
dignificantes? Tem pelos no nariz? Espirra? Tem hálito fresco? Tem fome e sede?
Sabe rir? Sabe chorar? Terá emoções e sonhos? Saberá perdoar? Terá sentido de
justiça?
Estamos a caminhar para
um cenário de desumanização, talvez o mais delicado e desafiador da civilização
contemporânea em que os seres humanos são tratados como objectos, que podem ser
mais ou menos úteis.
Numa sociedade
desumanizada perde-se a empatia, a solidariedade, os valores éticos e a nobreza
das relações interpessoais.
A indiferença pela dor
alheia, visualizando apenas o seu próprio umbigo, seleccionar e rejeitar quem
não obedece ao padrão, usar termos pejorativos, discurso agressivo, generalizar
e ver o "outro" como um inimigo, desprovido de humanidade,
facilitando a crueldade, são as características que se apresentam.
A sua estrutura assenta
no interesse máximo pelo “eu”, e o desprezo pelo outro, a anulação da
complexidade social, perda da solidariedade e sensibilidade moral, sendo uma
técnica comum o incitamento à exclusão, ao genocídio e está sempre presente em
contextos sociais de indiferença, violência e conflito.
A sociedade
neoliberal/capitalista moderna, com foco em interesses mesquinhos e
desregulação, favorece este retrocesso humanitário. As pessoas passam a ser
algarismos e coisas, indiferentes ao sofrimento da família, dos amigos e do
vizinho.
É isto que queremos
para nós?
Processos de
desumanização foram observados na perseguição e tentativa de extermínio dos
judeus, durante a Segunda Guerra Mundial, e actualmente, manifestam-se na
generalização de que todos os palestinianos apoiam o Hamas, todos os
venezuelanos são drogados, todos os ciganos são oportunistas, todos os negros
são burros, todos os emigrantes são criminosos, todos os humanistas são
comunistas, todos ambientalistas são alarmistas e todos os políticos são
corruptos.
Publicado 4|02|2026
02 fevereiro, 2026
"QUANDO UM HOMEM QUISER" - José Carlos Ary dos Santos
Voz: João Carlos Carranca
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Chafariz metálico da Avenida
Fotografia partilhada por José Pinto.
30 janeiro, 2026
"VIDA NOVA" - Ana T. Freitas
28 janeiro, 2026
O combustível silencioso do cérebro
O combustível silencioso do cérebro
Num
mundo onde o digital reina, a leitura, aquela actividade que envolve páginas de
papel e letras impressas, fica para trás. As crianças e os jovens, cada vez
mais habituados a mensagens rápidas, títulos apelativos, muita imagem e texto
curto, nos seus telemóveis, parecem querer trocar o prazer da leitura profunda
por uma satisfação instantânea, efémera e transitória. Essa mudança é boa ou
má? Na verdade, há mais pessoas a ler, e menos hábitos de leitura.
A
ciência revela que a leitura é sempre um exercício vital para o cérebro, um
combustível silencioso que alimenta e enriquece a função cerebral. E o que é
mais interessante: ela não precisa de ser feita somente com livros físicos para
trazer benefícios. Ou seja, ler, mesmo que seja uma mensagem curta ou uma
notícia no telemóvel, estimula funções cerebrais. Contudo, há diferenças
substanciais na qualidade e na profundidade dessa estimulação. Quando folheamos
um livro de papel, activamos uma série de sentidos e memórias cinestésicas — a
posição do corpo, a sensação do papel, o cheiro das páginas — que favorecem uma
compreensão mais profunda, uma retenção maior da informação e um foco mais
intenso.
A
leitura digital, embora permita uma navegação rápida por textos curtos, muitas
vezes estimula uma leitura superficial e impede que a leitura mais aprofundada
se efectue. O nosso cérebro, potencialmente seduzido pelo dinamismo dos
dispositivos, tende a processar as informações de forma mais rápida e menos
profundada. Isso pode ser útil para tarefas rápidas, mas, no que diz respeito à
compreensão de conteúdos complexos ou ao desenvolvimento de pensamento crítico,
deixa muito a desejar. Pais e educadores estejam em alerta.
Assim
como o exercício físico fortalece os músculos, a leitura exercita o cérebro, activa
memórias visuais, linguísticas, motoras, e promove uma espécie de treino
cognitivo constante que pode ser transformado em saber e conhecimento. Porém,
nem todos os que praticam exercício físico são atletas. É necessário algo mais.
A
ausência de leitura regular, em circunstâncias favoráveis à reflexão, tem
consequências palpáveis. Ela limita o desenvolvimento cognitivo, empobrece o
vocabulário, enfraquece o pensamento crítico e diminui a capacidade de
concentração e de decisão. Sem esse estímulo, o cérebro pode atrofiar, acelerar
o envelhecimento cerebral precoce e dificultar a análise de informações
complexas. Uma leitura superficial, típica do ambiente digital, impede o
processamento profundo necessário para compreender argumentos e desenvolver uma
visão crítica do mundo, torna os leitores mais frágeis e susceptíveis de não saberem
descodificar a demagogia escondida na informação que lê, distinguir o
verdadeiro do falso, tornando-se alvos fáceis para serem enganados.
Pais,
educadores e a sociedade têm um papel fundamental em criar ambientes que
estimulem esse hábito, pois o que está em jogo não é apenas o prazer de ler,
mas a formação de cérebros mais resistentes, criativos e críticos, perante o que
acontece na sua vida pessoal, social e política. Saber seleccionar informação,
saber interpretar e saber fazer as suas escolhas, está a ser cada vez mais
urgente.
Sem
leitura e entendimento profundo não há evolução civilizacional, e sim um
retrocesso. O impacto do declínio do hábito de ler na formação do pensamento
crítico, manifesta-se na saúde da democracia e na capacidade de interpretação
da realidade.
Publicado em NVR 28|01|2026










