Voz: Manuela Vaz de Carvalho
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Voz: Manuela Vaz de Carvalho
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A MAIS BELA MALDIÇÃO - livro
Autor Rui Couceiro, 2026
Foi com gula que comprei este livro,
sem ler a sinopse, opiniões… nada. Apenas gesto de gula construída por gostar
das obras “Baiona sem data para morrer” e Morro da Pena Ventosa”, do autor.
Pensei ser outro romance fabuloso e enganei-me. Em casa, abri o livro e
verifiquei que são 10 histórias que têm em comum os livros e o gosto de ler.
Estive para desistir, decepcionada,
pensando que Rui Couceiro, o autor, teria dificuldade em manter o nível literário
demonstrado em “Morro de Pena Ventosa”. Afinal nem todos os escritores
conseguem assegurar a sua genialidade em todas as obras.
Mesmo assim dei o benefício da
dúvida. Dou sempre aos livros 50 páginas para me seduzirem. Na página 50 já ia na 2.ª história sobre o
Castelo de Livros envolvendo a problemática da união das duas Alemanhas, antes
separadas pelo Muro de Berlim e já tinha decidido ler até ao fim.
O autor define que são histórias de
gente apaixonada por livros.
Cada história é uma surpresa e
torna-se viciante saltar de uma para a outra; Rabat, Berlim, S. Miguel nos
Açores, Toscana, S. Tomé e Príncipe, Pernambuco, Lucignana, Caxinas na Póvoa de
Varzim, Bogotá e Nova Iorque são os sítios onde se localiza cada história, nada
têm a ver umas com as outras, excepto uma verdadeira declaração de amor aos
livros e à leitura realizada por parte dos protagonistas e de Rui Couceiro, que
emerge de cada página. Rui Couceiro leva-nos numa viagem pelo mundo para
conhecer pessoas reais, que sofrem de uma singularidade no seu amor pelos
livros, revelando afectividades, reflexões sobre a vida e descrição ilustrativa
de lugares de geografias diversas, exteriores e interiores.
Escrever sobre livros e os seus
amantes pode parecer monótono, mas não, todas as histórias são interessantes,
contendo relatos biográficos daqueles que assumem a sua relação profunda com os
livros.
Foi um desassossego enquanto não li o
livro todo, aconcheguei-me a cada história literária narrada de forma delicada,
subtil e expressiva e dei comigo a imaginar que o autor teria material para um
segundo volume.
Esperava encontrar a Libreria Aqua
Alta que me encantou em Veneza, ou a Livraria Lello do Porto, a mais bonita do
mundo, ou até a história dos livros que foram angariados para os hospitais de
Angola, sob o nome "Um Livro, Uma Criança, Muitos Hospitais" coordenada
pelo jornalista Rui Ramos. Estas 3 histórias não ficariam nada mal neste livro…
ou ainda a Bibliothèque Nacional de France, as bibliotecas itinerantes da
Gulbenkian, o Real Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro, a Cabine
telefónica de Somerset, a Biblioteca de Fernando Savater, ou a Word on the
Water de Londres. E a história daquele grupo que jogava póquer sem dinheiro,
mas com livros? Rui Couceiro tem material para escrever um segundo volume.
Um pormenor curioso, quando lia sobre
José Paulo Cavalcanti Filho, um apaixonado pela obra de Fernando Pessoa, acabei
por interceptar uma grande exposição realizada sob a sua curadoria, “Fernando
Pessoa: Plural como o Universo” que esteve patente na Fundação Calouste
Gulbenkian, em Lisboa em 2015, e que para mim foi um momento de referências
culturais gigantesco. A leitura também tem isto, inesperadamente faz cruzar
universos e de repente oferece-nos luz sobre vertentes que procurávamos ou que
desconhecíamos.
Gosto desta maldição de gostar.
Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, este
é um livro para todos os apaixonados por livros e para aqueles que não são, mas
deviam ser.
Publicado em NVR 03|06|2026
Os tripeiros não atinam com touradas-
Já há mais de 150 anos que, no Porto, se tem a consciência
de que tourada não é espetáculo nem, muito menos, cultura, mas sim barbárie e
selvajaria!
Nesta imagem temos o Real Coliseu Portuense, localizado na
actual Rotunda da Boavista construído em 1889 e demolido em 1894. Foi sol de
pouca dura. O local quase que nunca serviu para fazer touradas, porque por aqui
esta tradição e "cultura" atrofia e não dá frutos. Nesse período foi
utilizado para espectáculos circenses e desportivos.
Quem quer ver touradas que vá à Póvoa.
Voz: Graça Vilela.
Morreu Edgar Morin.
Recuei à última parte da década
70 e ao seu livro “O PARADIGMA PERDIDO”, que me abriu algumas janelinhas para o
mundo, na verdade um livro que me ensinou a pensar.
Não é fácil falar com serenidade
daquilo que admiramos e daquilo que odiamos, por isso é sempre bom ler Edgar
Morin. Foi um pensador inquieto cruzando as ciências da natureza e as sociais e
da cultura, sempre na busca de uma compreensão mais funda do Homem.
“A humanidade vive uma época de
perigos incríveis e, ao mesmo tempo, de possibilidades de ultrapassar as
coisas. É por isso que não podemos ser cegos, não devemos ser otimistas de
maneira estúpida, mas é preciso estar presente porque esta é a nossa vida”.
Edgar Morin tem origem sefardita.
A sua relação com o judaísmo e com o Estado de Israel foi marcada por um
distanciamento crítico em relação ao sionismo, pela denúncia veemente da
opressão do povo palestiniano e por uma profunda defesa do universalismo. Até
ao fim da sua vida, manteve-se perplexo e indignado com a violência em Gaza,
denunciando o que apelidava de "silêncio do mundo" face ao sofrimento
e à humilhação da população palestiniana.
DICIONÁRIO
Apresento-vos um livro
que passou de moda, jaz frágil e moribundo no extremo de uma prateleira pouco
acessível das nossas estantes, apenas a apanhar pó. Guarda palavras gordas e
magras, negras e brancas, loucas e criteriosas, doces e agressivas, beneméritas,
malvadas e odiosas, palavras gastas e outras quase virgens, e agora palavras
adormecidas, ou até em coma induzido pelas novas tecnologias.
O conceito de
dicionário é uma ferramenta fundamental na organização e compreensão da língua,
desempenhando um papel crucial na comunicação, no estudo e na preservação do
património linguístico.
As primeiras formas de
dicionários podem levar-nos até à Antiguidade, como os glossários e listas de
palavras utilizados por escribas na Mesopotâmia e no Egito, que buscavam
esclarecer significados e traduções de termos especializados. Durante a Idade
Média, surgiram compêndios mais sistematizados, muitas vezes ligados ao ensino
e à tradução de textos religiosos e académicos.
Sobre o primeiro
dicionário português a informação recolhida não é unânime. Diz-se que foi o
"Dictionarium Lusitanum" de João de Barros, publicado em 1555 (?).
Como primeiro grande dicionário bilingue em Portugal intitula-se Dictionarium
Latino-Lusitanicum (1569) e foi escrito por Jerónimo Cardoso. Será? Não sei. O
dicionário moderno, como o conhecemos hoje, começou a tomar forma no século
XVII, o "Dictionnaire de l’Académie Française", publicado em 1694 em
França.
A utilidade do
dicionário é vasta e multifacetada. Ele serve como uma referência confiável
para esclarecer dúvidas sobre o significado, a ortografia, a pronúncia, a
origem e o uso de palavras. Para estudantes, escritores, tradutores e
profissionais de diversas áreas, o dicionário é uma ferramenta indispensável
para aprimorar a precisão e a riqueza do vocabulário. Além disso, desempenha um
papel importante na preservação da língua, documentando mudanças linguísticas e
introduzindo novos termos ao longo do tempo.
Actualmente, o
interesse pelos dicionários permanece elevado, porém, em suporte digital.
Muitas pessoas preferem consultar dicionários online ou aplicativos de
linguagem, que oferecem acesso instantâneo a uma vasta quantidade de
informações, além de actualizações constantes e funcionalidades adicionais.
Essa substituição gradual faz com que os dicionários impressos sejam
considerados quase obsoletos ou de uso mais restrito, muitas vezes reservados a
colecções, estudos académicos ou àqueles que valorizam o método tradicional de
pesquisa.
Assim, a secundarização
do dicionário-livro reflecte uma mudança cultural e tecnológica na forma como
acedemos e utilizamos o conhecimento linguístico nos dias de hoje. Quem não
conhece o dicionário Priberam da Língua Portuguesa e o Google Tradutor?
Quando era jovem, ai de
quem aparecesse na aula de Português sem o famoso dicionário, mais conhecido
por calhamaço, que funcionava como lastro da minha pasta e a transformava com
sucesso em arma de arremesso e desenvolvia-me os bíceps.
Mesmo na era digital, o
seu valor académico permanece inalterado, continuando a ser um aliado
indispensável na jornada da aprendizagem.
Além do dicionário
tradicional, existem outros tipos de dicionários, cada um com funções
específicas: Dicionário de Línguas, de Sinónimos e Antónimos, Dicionário
Etimológico, Dicionário de Rimas, Dicionário Visual, Dicionário Técnico ou
Especializado e outros mais, alguns muito apelativos contendo imagens,
facilitando a consulta e a memorização.
Eu ainda tenho o velho
dicionário de Eduardo Pinheiro publicado pela Livraria Figueirinhas, que
cumpriu a função, comigo e com as minhas irmãs, em dois continentes, os dois
volumes da Lello Universal e vários de línguas. Também tenho um dicionário
minúsculo de Francês-Português, que me livrou de algumas faltas de material com
a Madame Lamy. Preciso deles? Não! Quero vendê-los? Também não! Eles são a
prova de que a aprendizagem não se processa por osmose, pois há muitas palavras
que nunca utilizei, nem pretendo. UFA! UFA! Sobrevivi.
Publicado em NVR 27|05|2026