16 setembro, 2026

"HOMENS QUE SÃO COMO LUGARES MAL SITUADOS" - Daniel Faria


https://voca.ro/13m7qdxXhaMR

Voz: Anabela Quelhas

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O EMBURRECIMENTO DA SOCIEDADE (1)

 

O EMBURRECIMENTO DA SOCIEDADE (1)

No século da informação, estamos imersos num mundo onde dados, notícias e conteúdos circulam incessantemente, muitas vezes fora do alcance da reflexão profunda. Vivemos na era em que o acesso à informação é quase instantâneo, a internet e as redes sociais a geram um fluxo constante de novidades. No entanto, essa abundância de dados muitas vezes distancia-nos do verdadeiro entendimento, transformando o conhecimento numa colecção de factos dispersos e superficiais. Nem sei se chame a isso de conhecimento.

O que é realmente o conhecimento? O conhecimento vai além de simplesmente acumular informações. O conhecimento é a compreensão crítica e contextualizada dessas informações, a capacidade de relacionar conceitos, questionar e reflectir sobre o que aprendemos. É uma construção mental que envolve interpretação, análise e aplicação prática, permitindo-nos usar a informação de forma consciente e significativa em diversos contextos. Assim, enquanto o século da informação nos oferece recursos incríveis, o conhecimento verdadeiro reduz-se— aquele que nos faz pensar, questionar e transformar a nossa visão do mundo. Ou seja, a sociedade está a emburrecer e o mais caricato não se dá conta disso. A informação “vive” fora da nossa cabeça, enquanto o conhecimento “vive” dentro.

Muitos argumentam que, devido ao crescimento do consumo dos meios digitais, redes sociais e entretenimento de baixo nível, as pessoas têm perdido a capacidade de pensar criticamente, reflectir profundamente e valorizar conhecimentos mais complexos. Esse suposto "emburrecimento" pode ser percebido na diminuição do interesse pela leitura, na superficialidade das discussões públicas, na aceitação de informações sem questionamento e na redução de capacidade em resolver problemas e tomar decisões.

O acesso facilitado à informação, mesmo que às vezes superficial, também pode ser visto como uma ferramenta de democratização da mesma, mas “não há bela sem senão”. O papel da educação será capaz de enfrentar os desafios do mundo contemporâneo e travar o emburrecimento? Aqui fica o desafio para a reflexão e deixo um exemplo, mas há muitos.

A tabuada é informação que já não se decora. A escola ensina a encontrar o caminho para essa informação – a máquina de calcular, o computador e a internet; e tudo após de ter havido compreensão dos conceitos matemáticos.

Porém, a importância de decorar e saber a tabuada é fundamental para o desenvolvimento das habilidades matemáticas das crianças e estudantes em diferentes contextos. Quando a tabuada é memorizada, as operações básicas de multiplicação e divisão tornam-se mais rápidas e automáticas, facilitando o entendimento de conceitos mais complexos. Além disso, a memorização da tabuada ajuda a aumentar a confiança e a autonomia na resolução de problemas matemáticos, além de promover o raciocínio lógico e a agilidade mental. Essa habilidade também serve como base para aprender operações com números maiores e para avançar em áreas como álgebra, geometria e outras disciplinas relacionadas. Portanto, decorar e saber a tabuada é uma etapa importante no processo de aprendizagem matemática, contribuindo para o desenvolvimento cognitivo e para o sucesso escolar dos estudantes.

Hoje, num supermercado, um jovem tinha comprado 6 unidades de um refrigerante e não entendia o registo da caixa. O verdadeiro problema é que não sabia a tabuada e estava sem telemóvel. Que emburrecimento!

Publicado em NVR 16|09|2026

12 setembro, 2026

09 setembro, 2026

ACESSO AO ENSINO SUPERIOR

 


ACESSO AO ENSINO SUPERIOR

Os alunos de contextos socioeconómicos mais desfavorecidos enfrentam múltiplos obstáculos interligados, que dificultam o seu acesso e permanência no ensino superior – 3% na 1ª fase.

São menos inteligentes? Não, provavelmente até poderão ter capacidades superiores e competências para resolver problemas, já que a sua experiência de vida lida com carências, o motor que desperta o interesse, a vontade e a determinação.

Existem dois problemas para análise desta realidade, recheados de diversos factores estruturais e socioeconómicos.

De onde vêm e para onde vão estes alunos?

No ensino básico e secundário, as escolas são próximas ao local de origem destes alunos, o que facilita económicamente a sua frequência. Quando concluem o 3º ciclo e transitam para o ensino secundário, o nível de exigência aumenta e a competição entre alunos é desenfreada. O processo de selecção para entrada na universidade é um muro inultrapassável para os alunos carenciados.

No ensino secundário não se luta por uma classificação de 14, que poderá identificar um bom aluno, a luta é pelo 20. Apesar de as escolas proporcionarem apoios, é necessário muito mais. O apoio da família sensível a este processo é fundamental. É necessário ter condições de estudo em casa, não perder tempo em transportes escolares e usufruir de boas explicações extra-escola, com o foco de um bom treino para os exames. São três anos intensos e decisivos.

Alunos da classe média alta têm maior acesso a explicações particulares (apoio escolar privado e individual), materiais escolares complementares e actividades extracurriculares que enriquecem o currículo e a preparação para os exames nacionais e de ingresso, favorecendo a participação desses estudantes nos processos selectivos

Considere-se também o fenómeno de auto-exclusão - os jovens de meios desfavorecidos auto-excluem-se por considerarem que a universidade "não é para eles", optando mais cedo pelas vias profissionais. Antigamente a universidade funcionava como elevador de desenvolvimento social, agora, é considerado por muitos, uma perda de tempo – “para ter um emprego, o que interessa é ter uma boa cunha ou estar num partido político”. O conhecimento, só por si, não é valorizado, nem entendido. Não é dado como certo, que mais conhecimento pode abrir outras portas na empregabilidade.  Os modelos de sucesso divulgados na comunicação social induzem os jovens a descredibilizar a formação superior. Histórias de bilionários sem diploma ganham destaque – Cristiano Ronaldo, Bill Gates, Mark Zuckerberg, Amancio Ortega, Rui Nabeiro, Américo Amorim, Salvador Caetano, Jorge Mendes, Paulo Futre, Lionel Messi… - esquecem-se de alertar os mais ingénuos, que são uma minoria. 

Na universidade surge a segunda parte do problema – propinas, alojamento e deslocações.

Para alunos que precisam de mudar de cidade, o preço dos quartos ou residências universitárias constitui a maior barreira financeira. A escassez de alojamento público acessível agrava este cenário. Muitas famílias dependem da entrada rápida dos jovens no mercado de trabalho para complementar o rendimento familiar. Escolher estudar significa abdicar de um salário imediato. Embora, existam bolsas de estudo e contingentes de acesso para beneficiários da Ação Social Escolar, os critérios de atribuição baseados nos rendimentos declarados nem sempre reflectem a pobreza real ou o custo de vida actual das grandes cidades. Os transportes são mais um obstáculo: metro, autocarro, barco, trotinetes, tudo se transforma em euros… Ter um carrinho à porta e ir para a faculdade é outro andamento!!!!

Depois há que contar com os atrasos. O tempo que decorre entre a candidatura a uma bolsa de estudo e o primeiro pagamento financeiro obriga a um investimento inicial que muitas famílias simplesmente não conseguem suportar.

Essa disparidade evidencia a necessidade de acções mais incisivas para promover a equidade no acesso ao ensino superior, garantindo que estudantes de todas as classes sociais tenham oportunidades reais de ingresso e permanência na universidade. Não está a acontecer!

Publicado em NVR 09|09|2026

"DEZ RÉIS DE ESPERANÇA" - António Gedeão


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Voz: Anabela Quelhas 

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