O livre arbítrio
Palavras que tantas
vezes ouvimos, em diversos contextos, sem ter a verdadeira noção do que isto
significa.
O livre-arbítrio é um
exercício de liberdade, é a capacidade humana de tomar decisões independentes,
segundo a nossa própria vontade, sem influência externa.
Este tema tem sido
amplamente estudado e discutido ao longo da história, tanto na filosofia quanto
na teologia e na ética.
Na perspectiva
religiosa, o livre-arbítrio é visto como um dom concedido por Deus ao ser
humano, permitindo-lhe optar entre o bem e o mal. Essa visão distingue os
humanos dos demais animais, que agem apenas por instinto. Mesmo diante da fé, a
divindade não impõe as suas vontades, pelo contrário, concede ao Homem a
liberdade de escolha e, com ela, a responsabilidade pelas suas acções.
Muitos filósofos
defendem a chamada “Visão Tradicional”, que diferencia os humanos dos animais
pelo fato de possuírem capacidade de abstração e reflexão. Enquanto os animais
reagem a estímulos imediatos e necessidades biológicas, os seres humanos podem
pensar o presente e o futuro, analisar informações, ponderar consequências e
tomar decisões que, por vezes, vão contra os seus impulsos que resultam do seu instinto.
Assim, apenas os humanos seriam moralmente responsáveis pelos seus actos, pois
têm a capacidade de distinguir entre o “certo” e o “errado”.
A “Visão Científica” refere
que até animais simples, como moscas, não são completamente previsíveis nos seus
comportamentos. Eles podem escolher entre diferentes opções numa mesma
situação, não reagindo sempre da mesma forma. Portanto, o livre-arbítrio não
seria uma exclusividade humana, mas uma característica biológica presente em
graus variados.
Nos seres humanos, essa
liberdade de escolha é mais complexa devido ao cérebro mais desenvolvido. O nosso
conhecimento, cultura, raciocínio lógico-abstracto, sensibilidade, educação,
valores e a consciência de tudo isso, influenciam as nossas decisões. A
consciência tem um potencial extraordinário, pois pode travar impulsos e
raciocínios ilógicos.
É importante distinguir
entre decisões simples, quase instintivas—como mover um dedo—e escolhas mais
complexas, que envolvem processos de reflexão, conhecimento e análise de
informações, referidos anteriormente.
Alguns neurocientistas
preferem usar termos como “autonomia” ou “capacidade de deliberação”, para
descrever o funcionamento do cérebro quando opera de forma “livre”, no sentido
de que segue as suas próprias motivações internas e o raciocínio lógico. Ser
livre, assim, implica ter múltiplas respostas diante de um estímulo e a
capacidade de criar novos desejos e objectivos por meio da reflexão.
Para aqueles que
acreditam no destino, na sorte/azar ou em pragas, é importante esclarecer que
essas ideias muitas vezes escondem a recusa em assumir responsabilidades e a
tentativa de evitar culpas, sossegando consciências. Atribuir a culpa a outros
humanos ou a entidades superiores é uma forma de desresponsabilização,
acreditando que essas forças controlam os nossos caminhos e manipulam os nossos
destinos, como se fossemos marionetes.
Essas questões impactam o campo da Justiça, pois abrem espaço para argumentações que defendem ou acusam, culpados e inocentes, dependendo da interpretação sobre liberdade, responsabilidade e destino.
Publicado em NVR 18|02|2026













