Da fartura à sardinha (1)
Chegaram os Santos Populares,
largamente anunciados pelos odores da fartura e da sardinha, que pairam no ar.
- Ups, estou com saudades desses
sabores, vou até à Avenida!
A fartura é um doce tradicional feito
com massa de farinha, fermento em pó, bicarbonato de sódio, água e sal, moldada
através de uma seringa grossa ou funil, com ponta estrelada, que vai a óleo
fervente, em forma de rolo, tomando, por vezes, a forma geométrica da espiral (Não
perceberam? Assistam à preparação numa das barracas.) e finalmente polvilhada
com açúcar e canela; devem ser consumidas ainda quentes, o momento ideal para a
superfície crocante não ficar dura e o interior apresentar-se fofo e suave.
Fácil de confeccionar o ano todo, mas
aparece sobretudo nas ruas, durante as festas populares, romarias e feiras, em
caravanas coloridas e apelativas, onde se pode ver a sua preparação. É doçaria
que se come em andamento pelas ruas da cidade, ou num banco de jardim, lambuzando
lábios e mãos, em situação da véspera ou do dia de cada Santo.
Os mais afoitos enchem-se delas ainda
antes do Sto António, matando a gulodice acumulada ao longo do ano e depois
moderam-se, porque o que é demais, enjoa.
O estudo sobre as suas origens divide-se:
1 - Os portugueses, quando
comercializavam no Oriente, teriam trazido com eles novas técnicas culinárias,
incluindo modificar a massa de Youtiao, também conhecido como Youzagwei, no sul
da China. No entanto, teriam modificado o aspecto para a forma de estrela,
porque não aprenderam a habilidade chinesa de "puxar" a massa - o
imperador chinês tornou crime com pena de morte a quem partilhasse o
conhecimento com os estrangeiros (a confirmar). Como resultado, as farturas não
são "puxadas", mas extrudidas dum molde em forma de estrela, como já
foi referido.
2 - Outra teoria é que as farturas
teriam sido uma adaptação dos churros espanhóis, criados por pastores como
substituto de comidas feitas com massas frescas. A massa dos churros era fácil
de ser produzida e frita em fogo aberto, nas montanhas, onde os pastores viviam
a maioria do tempo.
E… talvez sejam primas das filhoses que
fazem parte da mesa de Natal, cujos produtos variam de região para região. Segundo
Maria de Lourdes Modesto, esta escreveu simplesmente que a fartura é uma espécie
de filhós. E quem sou eu para a contrariar, quando já o cheiro me entontece e
se me agarra aos cabelos?
Para quem não aprecia a simplicidade,
temos as farturas recheadas, mais elaboradas, com doce de ovos, chocolate oreo,
kinder bueno, rafaello, nutella e até chocolate do Dubai, imaginem, mas isso já
são outros quinhentos…, talvez um dia virem doces ditos conventuais, ou
servidas em restaurante gourmet, quiçá património da humanidade….
Aqui na Bila, as melhoras são as da
Cristina. Dizem! Será? Pelo menos é a barraca que primeiro se instala na
Avenida ou nas proximidades.
Sobre o seu significado, este oscila
entre a abundância e a saturação, ou seja, a sensação de ter o suficiente ou até mesmo mais do
que o necessário, e também quando o excesso satura.
Entre uma fartura e outra já estou
enjoada e arrependida por ceder ao desejo guloso de provar só uma, que viraram
duas ou três Agora vou procurar um sítio para comer as sardinhas.
“Nas ruas de festa e alegria,
A canela perfuma o ar,
As farturas trazem magia,
Vamos todos celebrar.”
Vivam as farturas, e em especial nas
festas populares!
Publicado em NVR 17|06|2026














