LEÇA DA PALMEIRA
Arquitecto Siza Vieira
1966
21º Festival Internacional Douro Jazz
Já tinha escrito o meu
texto semanal e guardei-o na gaveta.
Não podia omitir o
FESTIVAL DOURO JAZZ deste ano. O DOURO JAZZ é sempre um momento cultural de
destaque, aqui no burgo, que proporciona sempre bons espectáculos, mas para
mim, o último é sempre o melhor. Esta semana foi uma verdadeira overdose
musical.
Nem sempre me apetece
sair de casa, ora está frio, ora está calor, ou porque os pincéis chamam por
mim, ou porque a companhia é boa, posso estar envolvida numa leitura…, ou as
mãos puxam-me para o desenho, enfim, faço-me esquecida e não saio. Quando contrario
essa tendência, entusiasmo-me com algo que me acrescente, que me torne uma
pessoa um pouquinho diferente do dia anterior.
Ao sair, passo pelo
espelho da entrada, misturando idade, rugas e cansaço, com expectativa e impulso
e quando regresso sinto sinto-me eufórica, inspirada, excêntrica, exótica,
intensa, reencontrando-me mais rica e exuberante. Foi assim ao longo da semana.
Há quem não aprecie
jazz, não entendo como, já que é o estilo musical mais fora da caixa, com porta
aberta para a expressão pessoal e de grupo, improvisação e criação A interacção
entre os músicos realiza-se em tempo real, ali à nossa frente, no palco, fazendo
com que nenhuma música seja tocada exactamente da mesma forma duas vezes.
Destaque para 3 espectáculos:
· Orquestra Jazz Douro, faz 20 anos e
que vi nascer, nas palavras entusiastas e no sonho do meu amigo Vitor Pinto, o
seu fundador, que criou oportunidade para formação de muitos músicos; é um projecto
musical ousado, corajoso e transdisciplinar, ora apresenta matizes do Reino
Maravilhoso, ora metropolitanos, sediado aqui em Vila Real, transformando em
sons e melodia a nossa identidade, cultura e tradições. Este ano trouxe a palco
a conceituada compositora e maestrina britânica Nikki Iles.
· Anunciava-se a seguir, como um dos
projectos mais originais e influentes no tango na cena internacional, o
quarteto polaco Bandonegro. Comecei logo a sonhar com Piazzola e os Gotan
Project. Aqui em casa, perguntavam-me: Achas? Ambicionas demais!… polacos a
tocar tango?!. Tsss!!! Fui e adorei, porque a minha expectativa bateu certo.
Uau!!!! Fabuloso! A abordagem presente no programa Tango Meets Jazz e no mais
recente álbum, TANUEVO, gravado em Buenos Aires e lançado em 2025 contou com
músicos argentinos como Pipi Piazzolla, neto de Astor Piazzolla, e Lucio
Balduini. A improvisação do jazz deu espaço à sonoridade empolgada do tango, à
contemporaneidade, criando contraste entre momentos exuberantes e delicados com
quatro excelentes instrumentistas - Michal Glówka, Jakub Czechowicz, Marek
Dolecki e Marcin Antkowiak.
· Para encerrar, Mário Delgado, Eduardo
Cardinho e Paulo Perfeito com a Orquestra de Jazz de Espinho recriaram temas
icónicos da carreira do grupo Radiohead, que eu ouvia nos anos 80/90 RADIOHEAD
RECOMPOSED. Cereja no topo do bolo. Foi emotivo, forte e arrasador, marcará a
minha memória para sempre.
Perdeu quem ficou em
casa, ninguém duvide.
Parabéns músicos,
parabéns organização do Festival Douro Jazz - 5 estrelas.
Jazz sempre! Para o ano
certamente haverá mais e eu tentarei renovar-me novamente.
Publicado em NVR 14|10|2026
O outro somos nós
Tinha uma consulta
agendada há dois meses no meu Centro de Saúde, para Outubro, entretanto,
resolvi o meu problema. Telefonei para cancelar a consulta e quem estava do
outro lado, agradeceu o meu telefonema e comentou que era raro, os utentes
avisarem que não iriam à consulta. Faltavam e pronto.
Na última vez que fiz
fisioterapia pelo SNS, também notei que existia falta de cuidado por parte dos
utentes, em cumprir as marcações combinadas de comum acordo.
Fico indignada. Como é
possível tamanha falta de civismo, de cuidado/empatia pelo outro e por uma
instituição que atende todos gratuitamente?
Dá argumento aos que acham que os utentes só
respeitam quando pagam e, portanto, defendem a privatização de tudo e são
contra o SNS.
Esta tendência de que
os serviços de saúde em Portugal tendem a ser mais valorizados ou apreciados
quando há pagamento envolvido, pode reflectir uma ideia de que o valor
atribuído aos cuidados de saúde está directamente ligado ao custo que o
paciente suporta, podendo indicar uma perceção de que serviços gratuitos ou de
acesso universal são menos valorizados ou considerados de menor qualidade.
Essa tendência reforça-se
na falta de civismo de certas pessoas e dificuldade em entender o que é O BEM
COMUM.
O princípio do bem
comum tem uma dimensão ética. Assim, em vez de pensar no ser humano individual
e concreto, trata-se de pensar no interesse da sociedade no seu conjunto. Por outras
palavras, algo pode ser benéfico e válido para mim, mas prejudicial para uma
comunidade. Consequentemente, o fim ético desta ideia é estabelecer aquilo que
é bom para a maioria e não para poucos.
Em Portugal temos a
sorte de haver um serviço nacional de saúde, que desenvolve esforços para
oferecer cuidados de saúde acessíveis a todos, independentemente do seu
rendimento ou conta bancária. É um serviço com diversos problemas, nem todos
têm médico de família, e a lista de espera por vezes é de meses, complicando a
vida daqueles que tem problemas urgentes a resolver, mesmo assim é melhor ter,
do que não ter.
Eu tenho a sorte de ter médico de
família, ser bem atendida, enviam-me receitas pelo digital e na pandemia até me
telefonavam para o telemóvel para saber de mim. Chega ao Outono tenho duas
vacinas gratuitas à minha espera, é só ir lá ou a uma farmácia, e tomar. Sinto-me
muito reconhecida por tudo isto a custo zero, considero que todos merecem o meu
respeito, mesmo quando a coisa funciona menos bem, e eu tenho de resolver a
minha saúde de outra forma; mesmo assim liberto a minha vaga para outra pessoa
que precise.
Será necessário
explicar melhor?
Com conhecimento prévio
de uma ausência, a equipa de saúde pode reorganizar os seus horários, utilizar
o tempo de forma mais eficiente e obviamente beneficiar o atendimento urgente
de outros utentes que não têm vaga.
A importância e o
respeito pelo Bem Público Comum é fundamental para o desenvolvimento de uma
sociedade justa, equilibrada e sustentável. Os bens públicos comuns referem-se
a recursos ou benefícios que são acessíveis a todos os membros de uma
comunidade, como o ar limpo, o sol, a água, a segurança, a saúde pública, a
educação e a infraestrutura básica.
Os bens públicos comuns
asseguram que todos tenham acesso a recursos essenciais, promovendo a qualidade
de vida e o bem-estar geral da população.
Ao serem acessíveis a
todos, esses bens ajudam a reduzir desigualdades, oferecendo oportunidades
iguais para diferentes grupos sociais.
A administração
eficiente e justa desses bens ajuda a evitar conflitos pelo uso de recursos
escassos, promovendo a paz social.
Em suma, o bem público
comum é essencial para garantir uma sociedade mais justa, equilibrada e
sustentável, beneficiando toda a colectividade e promovendo o desenvolvimento
integral do país. Já reparou que também depende muito da sua acção construtiva
e cívica? O outro somos nós.
Publicado em 7|10|2026
Voz: Anabela Quelhas