Hoje na Rádio Portimão com Pepetela como escritor.
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A CALIGRAFIA DO OUTONO
O
Outono carrega em si uma beleza melancólica que convida ao recolhimento e à
reflexão profunda. Sinto-me despreparada para isto. Tenho saudades do Verão e
sinto a Primavera longínqua.
O
chão da cidade veste-se de tons dourados e acobreados. As folhas não caem por
pressa, mas porque compreenderam a hora exata do desapego. Cada folha que se
desprende de uma haste desenha no ar a curva exata de uma renúncia, um adeus em
câmara lenta que tinge o chão com o amarelado gasto dos dias vividos. Há uma
nostalgia mansa que chega com o vento frio, aquele sopro que limpa os excessos
do Verão e obriga os dias a encolherem, com um aroma a terra húmida e o
crepúsculo que invade as frestas do pensamento, lembrando que a beleza mais
pura reside naquilo que se despede. Odeio despedidas!
Muda
a hora, outro suplício! Começa-se o trabalho de noite e sai-se do trabalho de
noite, libertando o desejo do horário de Verão, que o Homem fez questão de
inventar e criando repulsa a esta melancolia gigantesca que nos é servida sem
qualquer pedido ou exigência.
O
Outono é o tempo em que a própria Terra parece envelhecer, afastando-se do que
já cumpriu, e tendo o propósito de abraçar o silêncio e a tristeza. Nós humanos
envelhecemos também e sem reagir à Natureza, conformados com o cair da folha e
a paleta outonal.
À
medida que as copas das árvores se tornam mais transparentes e calvas, as
calçadas também mudam de ritmo. As pessoas que antes habitavam esplanadas,
bancos de jardins, sombras de protecção ao sol e ao calor, escolhiam a
sonoridade da água em fontes e cascatas e preenchiam os finais de tarde com
conversas demoradas e alegres, começam a recolher-se. Há um declínio que se
manifesta não apenas no corpo, mas no próprio pulsar das ruas. As pessoas
recolhem ao conforto do lar, separadas do espaço urbano público pelos vidros
das janelas, onde o tempo não se mede por relógios, mas pela luz que desbota
nas paredes numa caligrafia outonal única.
Quando o lado de fora arrefece e a luz se
torna mais rara, o pensamento é empurrado para o interior, para aquele espaço
onde guardamos os rostos que já não vemos e os passos que já não escutamos na
calçada.
A
paisagem urbana altera-se, empobrece e esvazia-se. Recordações e memórias
constroem um passado que somos obrigados a despir anualmente. Ver as ruas mais
vazias não é necessariamente um sinal de abandono, mas sim o reflexo de um
ciclo inevitável – dizem os optimistas e os românticos empedernidos. As pessoas que deixam as ruas vazias
tornam-se, elas mesmas, como o Outono, uma presença feita de ecos, uma
caligrafia invisível que paira sobre a névoa, ensinando-nos que recolher é a
única forma de permanecer e resistir.
A
luz do Outono não compete com as sombras, ela parece nascer delas. É uma
claridade oblíqua, dourada e cansada, que não procura revelar as formas do
mundo, mas sim a sua fragilidade. Entra pelas frestas das janelas com uma
lentidão quase sagrada, pousando sobre os móveis antigos e os cantos vazios da
casa como quem procura aconchego. Esta luz tem uma qualidade única, quase
palpável, parece iluminar não as coisas em si, mas a distância entre elas.
Publicado em NVR 04|11|2026
Estima-se que, entre os séculos XV e XVIII (com maior intensidade entre 1450 e 1750), cerca de 40.000 a 60.000 pessoas foram executadas (queimadas na fogueira ou enforcadas) por bruxaria na Europa e nas suas colónias. E era tão fácil, bastava correr o boato que eram bruxas.
O
PROBLEMA DA HABITAÇÃO
Em
Portugal, o direito à habitação está consagrado na Constituição Portuguesa
(Artigo 65.º).
Portugal
é um país pobre armado em rico. Temos a sorte de pertencer à Europa que nos
ajuda “a tapar buracos”, mas não temos conseguido gerir bem as oportunidades,
apoios e até os nossos recursos.
É
um exercício difícil. Tem-se dado prioridade à guerra, aos submarinos, à
privatização de serviços, ao turismo e a habitação tem ficado para trás. Os
pobres estão cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos, esvaziando-se
a classe média.
Em
Portugal ganha-se mal e o valor das rendas ultrapassa em muito os 30% do
ordenado. Quem ganha o ordenado mínimo não tem alternativa, obriga-se a
juntar-se a outros, para ter tecto, dividindo despesas.
A
culpa não é dos senhorios e também não é do turismo – mal de nós se os
eliminássemos. Os senhorios não podem assumir as responsabilidades que
pertencem ao Estado, e a estes nada os abriga ao arrendamento, é a isto que se
chama propriedade privada. Condicionar o turismo? O turismo põe comida na mesa
a muita gente! Esta situação é difícil de digerir perante o problema que muitos
sentem na pele, mas é mesmo assim. Vou adiantar um exemplo: Pelo facto de
existir fome, não podemos culpar os supermercados! Pelo facto de haver doentes
não vamos culpar as clínicas privadas. Habitação para todos é uma condição
estrutural de uma sociedade, portanto é o Estado que se deve responsabilizar
quando esta se se torna problemática.
O
Estado é a organização política, administrativa e jurídica de uma sociedade que
detém o poder soberano sobre um determinado território e a sua população. É ao
Estado que compete adoptar estratégias para resolver os problemas da sociedade
Neste
caso, o problema é a falta de investimento em habitação pública (social e a
habitação a custos acessíveis para a classe média).
Vejamos
como estão os países europeus em relação à habitação social (valores
aproximados):
•
Países Baixos: 34%
•
Áustria: 24%
•
Dinamarca: 21%
•
Reino Unido: 18%
•
França: 17%
•
Irlanda: 8,7%
•
Bélgica: 7%
•
Itália: 5,3%
•
Alemanha: 4%
• Portugal: 2% (um dos valores mais baixos da Europa)
Basta
analisar e reflectir, e percebemos que existe “um desinvestimento crónico” por
parte de sucessivos governos na promoção de habitação. Chega a ser caricato: o
país mais pobre tem menos habitação social.
Por
outro lado, as Câmaras Municipais não podem avançar se não forem revistas as leis
dos solos, para que haja libertação de solo para construção, caso contrário
fica tudo na mesma e o preço da construção subirá eternamente.
“Ao
mesmo tempo, o parque habitacional existente encontra-se envelhecido e
degradado, contribuindo para situações de pobreza energética e condições
indignas de habitação, que se revelam crescentes”, lê-se num documento
elaborado pelo ISCTE.
O
Estado português possui cerca de 60.000 imóveis no seu património, sendo que,
uma parte significativa, encontra-se devoluta. O interior de Portugal
encontra-se desertificado e pouco industrializado, onde há muita casa para
renovar. A habitação é um assunto com muitas vertentes.
É
fácil atribuir culpas aos senhorios, estes apenas se movimentam pelo que a lei
permite e pelos seus direitos sobre a propriedade privada, pagando impostos
brutais e evitando recorrer à justiça para resolver problemas de dívida e de
vandalismo, porque a Justiça é lenta.
Apetecia-me
escrever, que este problema deve-se às escolhas dos portugueses na hora de
votar, mas não posso. Governos de esquerda e de direita varreram o problema
para debaixo do tapete.
Assembleias
populares, não muito obrigada! Manifestações organizadas são uma coisa,
aglomerações de protesto onde ninguém se responsabiliza por nada, é outra. Olhem
para Paris, é isso que queremos?
O
Maio de 68 já foi!
Publicado em NVR 28|10|2026