"NOITE DAS BRUXAS" - Luísa Ducla Soares, Daniele Cristina Completo
Voz: Anabela Quelhas
O
PROBLEMA DA HABITAÇÃO
Em
Portugal, o direito à habitação está consagrado na Constituição Portuguesa
(Artigo 65.º).
Portugal
é um país pobre armado em rico. Temos a sorte de pertencer à Europa que nos
ajuda “a tapar buracos”, mas não temos conseguido gerir bem as oportunidades,
apoios e até os nossos recursos.
É
um exercício difícil. Tem-se dado prioridade à guerra, aos submarinos, à
privatização de serviços, ao turismo e a habitação tem ficado para trás. Os
pobres estão cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos, esvaziando-se
a classe média.
Em
Portugal ganha-se mal e o valor das rendas ultrapassa em muito os 30% do
ordenado. Quem ganha o ordenado mínimo não tem alternativa, obriga-se a
juntar-se a outros, para ter tecto, dividindo despesas.
A
culpa não é dos senhorios e também não é do turismo – mal de nós se os
eliminássemos. Os senhorios não podem assumir as responsabilidades que
pertencem ao Estado, e a estes nada os abriga ao arrendamento, é a isto que se
chama propriedade privada. Condicionar o turismo? O turismo põe comida na mesa
a muita gente! Esta situação é difícil de digerir perante o problema que muitos
sentem na pele, mas é mesmo assim. Vou adiantar um exemplo: Pelo facto de
existir fome, não podemos culpar os supermercados! Pelo facto de haver doentes
não vamos culpar as clínicas privadas. Habitação para todos é uma condição
estrutural de uma sociedade, portanto é o Estado que se deve responsabilizar
quando esta se se torna problemática.
O
Estado é a organização política, administrativa e jurídica de uma sociedade que
detém o poder soberano sobre um determinado território e a sua população. É ao
Estado que compete adoptar estratégias para resolver os problemas da sociedade
Neste
caso, o problema é a falta de investimento em habitação pública (social e a
habitação a custos acessíveis para a classe média).
Vejamos
como estão os países europeus em relação à habitação social (valores
aproximados):
•
Países Baixos: 34%
•
Áustria: 24%
•
Dinamarca: 21%
•
Reino Unido: 18%
•
França: 17%
•
Irlanda: 8,7%
•
Bélgica: 7%
•
Itália: 5,3%
•
Alemanha: 4%
• Portugal: 2% (um dos valores mais baixos da Europa)
Basta
analisar e reflectir, e percebemos que existe “um desinvestimento crónico” por
parte de sucessivos governos na promoção de habitação. Chega a ser caricato: o
país mais pobre tem menos habitação social.
Por
outro lado, as Câmaras Municipais não podem avançar se não forem revistas as leis
dos solos, para que haja libertação de solo para construção, caso contrário
fica tudo na mesma e o preço da construção subirá eternamente.
“Ao
mesmo tempo, o parque habitacional existente encontra-se envelhecido e
degradado, contribuindo para situações de pobreza energética e condições
indignas de habitação, que se revelam crescentes”, lê-se num documento
elaborado pelo ISCTE.
O
Estado português possui cerca de 60.000 imóveis no seu património, sendo que,
uma parte significativa, encontra-se devoluta. O interior de Portugal
encontra-se desertificado e pouco industrializado, onde há muita casa para
renovar. A habitação é um assunto com muitas vertentes.
É
fácil atribuir culpas aos senhorios, estes apenas se movimentam pelo que a lei
permite e pelos seus direitos sobre a propriedade privada, pagando impostos
brutais e evitando recorrer à justiça para resolver problemas de dívida e de
vandalismo, porque a Justiça é lenta.
Apetecia-me
escrever, que este problema deve-se às escolhas dos portugueses na hora de
votar, mas não posso. Governos de esquerda e de direita varreram o problema
para debaixo do tapete.
Assembleias
populares, não muito obrigada! Manifestações organizadas são uma coisa,
aglomerações de protesto onde ninguém se responsabiliza por nada, é outra. Olhem
para Paris, é isso que queremos?
O
Maio de 68 já foi!
Publicado em NVR 28|10|2026
ROUBAR O FOGO AOS DEUSES
Quando alguém desafia
uma autoridade suprema para fornecer conhecimento, tecnologia ou poder a quem
não os possui, revolucionando a sociedade, diz-se que ROUBOU O FOGO AOS DEUSES
A expressão
"roubar o fogo aos deuses" refere-se ao famoso mito grego do Titã
Prometeu e ocorre em contextos mitológicos, filosóficos e metafóricos.
O que é um Titã e quem
é Prometeu?
Os Titãs eram entidades
antigas com aspecto de gigantes, poderosos, de cor roxa, azul ou verde, e
antecederam os deuses do Olimpo. Nasceram da união entre Urano, que
representava o Céu, e Gaia, que seria a Terra. Os Titãs foram enviados à Terra
para protegê-la trazendo paz e união para todo o universo.
Na história original, a
humanidade foi criada frágil e sem defesas. Os Titãs desempenharam um papel fundamental na
criação do mundo e na relação entre deuses e humanos. Segundo Hesíodo foi dada
a Prometeu e ao seu irmão Epimeteu, a tarefa de criar os homens e todos os
animais.
Prometeu, em
particular, destacou-se pela sua inteligência, astúcia e preocupação com a
humanidade. Prometeu -
cujo nome significa “aquele que vê antes”, ou seja, que tem a clarividência -
ficou com a missão de supervisionar as criações do irmão Epimeteu - que tem
como significado em seu nome, “aquele que vê depois”, isto é, aquele que tem
“ideias tardias”.
Na mitologia,
acredita-se que Prometeu moldou os homens a partir do barro e lhes deu a vida,
além de ensinar-lhes várias habilidades essenciais para a sua sobrevivência. Ensinou
aos homens todos os segredos da agricultura, da pesca, do comércio, da
profecia, da astronomia e de tudo o que era necessário ao desenvolvimento da
humanidade. Mas ainda lhes faltava o dom do fogo, que Zeus tinha negado aos
homens, pois temia que os mortais ficassem tão poderosos quanto os próprios
deuses.
Confusos? A criação do
mundo é explicada de maneiras diferentes mediante perspetivas religiosas,
científicas e culturais da sociedade e é normalmente confusa e sem rigor.
Voltando a Prometeu, uma
das suas acções mais emblemáticas foi o acto de roubar o fogo dos deuses,
especificamente de Zeus, para entregá-lo aos humanos. Essa acção simboliza a partilha
do conhecimento, da inovação e do progresso, mas também de desafio à autoridade
divina.
A atitude de Prometeu
enfureceu Zeus, o rei dos deuses, que viu o seu poder e autoridade ameaçados e
puniu o Titã desobediente, por este crime de rebeldia; ordenou que Prometeu
fosse acorrentado a uma rocha num penhasco do monte Cáucaso, onde diariamente
uma águia vinha devorar o seu fígado, que se regenerava à noite, já que
Prometeu era imortal, prolongando assim o seu sofrimento e tortura. Esse
castigo simboliza a punição dos que ousam desafiar os deuses ou transgredir os seus
limites. Prometeu foi
liberto do seu sofrimento por Hércules, que matou a águia, num dos seus
célebres doze trabalhos.
O fogo que Prometeu
roubou aos deuses e pelo qual foi condenado, representa o conhecimento humano e
talvez o mais importante, a liberdade. Segundo Jean Jacques Rousseau: “Os
animais escolhem ou rejeitam por instinto, e o Homem por um acto de liberdade
[…]. Não é tanto o entendimento que faz a distinção específica entre os animais
e os homens, mas a qualidade humana de agente livre”.
A figura de Prometeu
representa o início da civilização, a liberdade humana, que leva o homem a
enfrentar com orgulho o seu destino, assumir o poder da inteligência, superador
das limitações humanas, multiplicador de compreensão e entendimento do mundo
que, tantas vezes, nos surge como trágico e caótico.
Actualmente a expressão
“roubar o fogo aos deuses” é usada de forma figurada para se referir a alguém
que busca adquirir conhecimento, poder ou inovação de forma audaz, desafiando
as regras estabelecidas ou as autoridades. Geralmente, essa expressão remete à
ideia de coragem e ousadia ao desafiar o que está formatado na sociedade, em
busca do progresso.
Que os deuses te sorriam. Alegra-te!
Kairé!
[Emissão
“Zeus não dorme”, descubra a mitologia grega na sua vida – Rádio Universidade
FM – 11|12|13 de Setembro de 2026]
Publicado em NVR 21|10|2926