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11 setembro, 2019

Cidade e identidade


Cidade e identidade
            A cidade é o repositório de histórias por excelência.
            Todos temos uma identidade global e uma identidade nacional fundamentada num repertório do grande colectivo, que nos converte em cidadãos de uma determinada época.
            Depois, o grande grupo de cidadãos do mundo, divide-se consoante o território onde habita e constrói identidades mais personalizadas, com vertentes fortes de pertença, de ligação aos lugares onde permanece e onde vive de forma mais ou menos sedentária. Cada cidadão cria ligações aos lugares de memória antiga, de memória intermédia e de memória presente. Os primeiros são espaços arqueológicos que provocam grande orgulho sobre o passado longínquo, os segundos geram dinâmicas das histórias do próprio individuo (onde nasceu, onde se baptizou, onde namorou, onde fazia maroteiras com os amigos, onde se casou, onde trabalhou, onde participou em eventos, onde se localizaram histórias contadas pelos avós… ) e os terceiros, espaços urbanos mais recentes, vão-se interiorizando e cristalizando em cada um.
            Os elementos de memória urbana são constituídos por edifícios civis, edifícios religiosos, as ruas, as avenidas, os jardins, os coretos, os rios, as pontes, os equipamentos colectivos e as árvores, testemunhas silenciosas, vivas, que nos presenteiam com sombra, cor e odores. Tudo isto é como o fundo da tela de uma pintura que interage com a figura principal representada na mesma, que neste caso é cada um de nós. Quando o fundo se altera, a figura permanece, mas já não é a mesma, porque lhe foi retirado algo familiar que interage com a sua identidade. A inscrição das histórias urbanas realiza-se de forma diferente em cada um, mas sobre o cenário comum a todos. Isto vale o que vale, uns valorizam outros não, nunca pensaram nisto, porém, os lugares de memória são factores de estabilidade social. A nossa identidade é aquilo que nos distingue dos outros, que reforça a nossa auto-estima e que nos faz amar os sítios e convém manter-se harmoniosa. 
            A cidade é o suporte espacial das identidades. Os cidadãos transformam espaço, em lugares, apropriam-se deles, os seus lugares, porque lhes atribuem conteúdo, simbolismo e geram comportamentos personalizados. Misturam a sua trajectória com os processos espaciais e as histórias aproximam-se e unem-se.
            É perigoso mexer com a identidade urbana. É necessário preservar os lugares para que a identidade urbana e de cada um, sejam preservadas também. Sem memória, não há diferença, não há singularidade.
            A cidade como organismo vivo em permanente e saudável crescimento, necessita também de novos cenários urbanos a localizar nos novos espaços, para poder haver novas leituras urbanas em contextos contemporâneos, enquadrados em narrativas arquitectónicas actuais e até de vanguarda, não pondo em causa a identidade referida, ou seja, novas intervenções em novos espaços.
            O perigo em mexer nos lugares é que são agressões irreversíveis. Não dá para voltar para trás e repor situações anteriores.

Publicado em NVR - 11/09/2019


21 agosto, 2019

Traição e derrota


Traição e derrota

            Estou em Riga vivendo o ambiente romântico que a Arte Nova sempre me proporciona, apreciando edifícios projectados especialmente pelo arquitecto russo Eisenstein, conferindo a esta cidade o registo adequado para fotografar e recordar mais tarde.
            Escolhi o livro de lombada mais fina para me acompanhar e ler antes de adormecer, alimentando vicio antigo. É com surpresa que leio uma história com o enquadramento das encostas do Douro, onde se faz uma abordagem da traição e da derrota, num romance sobre um casal no final de uma relação. É apenas uma história igual a tantas outras, sem conteúdo científico, porém, parece-me bem verdadeira e acutilante.
            A maioria dos casais, quando se separam, por decisão unilateral, a parte que nada decidiu, acaba por partir à descoberta do(a) rival, o(a) causador(a) do insucesso da parceria conjugal. Nada mais lhe passa pela cabeça a não ser, alguém que lhe roubou o(a) parceiro(a). Apenas foca o pensamento nisso não admitindo que pode não haver traição, nem rival. Movem montanhas, espreitam a vida do(a) outro(a), para ver com quem se encontra, para aonde vai, com quem janta, a que horas regressa a casa, como está vestido(a), quanto tempo permanece em casa, se possível passam a pente fino o computador e o telemóvel, na desesperada procura e confirmação da suposta traição.
            Esquecem a ética, a dignidade e chafurdam em áreas que não lhes compete, invadindo o espaço do outro, devassando a privacidade a que cada um tem direito. Se tiverem dinheiro até contractam um detective, para que a informação lhes chegue bem documentada, anestesiando a irritação do seu ego, dando-lhe carradas de razão em discussões perfeitamente idiotas e irracionais, desenhando memórias inexistentes e que lhe alimentarão a depressão futura. 
            Moem e remoem essa ideia martirizando-se com ciúme, dor, sede de vingança e por vezes reagem violentamente, agredindo o(a) parceiro(a) verbalmente e ou fisicamente, não admitindo a rejeição. Ameaçam matar-se, como reduto final, apelando à misericórdia, como se a felicidade estivesse assegurada com a piedade pelo outro e ignorando todas as advertências e mal-estar demonstrados ao longo do tempo. Constroem “filmes” na sua insegurança bem escondida, sofrem, choram, atribuem significados especiais e duvidosos a situações vulgares, mas raramente pensam que pode não haver traição. Isso é inconcebível porque equivale ao seu fracasso, à sua derrota e à sua incompetência. É muito mais fácil atirar a culpa para os outros.
            É difícil e doloroso assumir culpas porque isso é pôr em causa a sua acção que ao longo dos anos se entendeu ser muito acertada, nunca questionando se seria acertada para o outro(a). A competição ao longo do tempo não foi com um terceiro elemento, mas sim consigo próprio. É difícil reavaliar os seus próprios conceitos e separar os erros que se repetiram constantemente e massacraram o outro, para além do tédio permanente que se foi instalando na re(a)lação. Todos os dias o objectivo deveria ser melhorar, superar-se e saber surpreender pela positiva o(a) outro(a), cuidando da felicidade dos dois — todos os dias, como se cada dia fosse o último dia das suas vidas. Mas não foi assim! Reconhecer isso é mais doloroso do que ser traído. O(a) “outro(a)” é o próprio e não saber lidar com isso é o desconserto de tudo, que nenhuma garrafa de uísque consegue afogar e que atormentará cada minuto de reflexão futura. Tudo isto requer uma aprendizagem que nem todos estão predispostos para investir, porque exige esforço, inteligência, altruísmo, cedência e preocupação na desconstrução da realidade.
            Apesar de doloroso, é mais fácil culpar os outros do que mergulhar na escuridão que vive dentro de cada um e acender a luz.
            Estou em Riga, apreciando o naturalismo esculpido na arquitectura urbana. Curiosamente, sempre acontece em viagem, cruzar-me com noivos que se fazem fotografar em ruas interessantes, com os seus egos elevados e de cara bonita. Oiço alguém dizer:
            — Logo estarás a lavar a loiça e ele de pantufas a ver futebol. 
            Nunca é demais escrever sobre este tema.
Publicado em NVR

07 agosto, 2019

woodstock 50


Woodstock 50

                Woodstock foi uma referência para as gerações que viveram o final da década de 60, a década das grandes revoluções, apregoando “peace and love” e “é proibido proibir”.
                Os saudosistas, aqueles que se iludem que podem parar o tempo e restaurar as emoções, pretenderam assinalar a efeméride com a repetição do festival após 50 anos, no mesmo local e reunindo alguns músicos que ainda se encontram operacionais e activos (são poucos).
                A organização revelou-se problemática e tudo resvalou para um grande fracasso. Ainda bem!
                O que me impressiona em tudo isto é o desejo do repetir, o revivalismo de uma situação que hoje já não teria significado algum, porque o mundo em 50 anos deu muita volta.
                Hoje, o que é a contra-cultura?
                Qual é o interesse do Woodstock sem Jimi Hendrix, Janis Jopplin, Joe Cocker, Ten Years After ou sem os Crosby, Stills, Nash & Young? Só serviria para deprimir os que ainda andam por cá.
                Qual é o interesse de um festival de música, quando todos os anos existem milhares de festivais por esse mundo fora? Aquele foi único, mágico e irrepetível.
                Faz-me lembrar os encontros de amigos que já não se veem há mais de 40 anos, antigos colegas de escola, em que à euforia que antecede o evento, sucede a decepção, porque nada mais é igual. O tempo não se engana, apenas o Homem quer e insiste em enganar-se.
                Aquela fulana boazuda que atraia os olhares do sector masculino, é agora uma velhinha cheia de varizes que anda com uma muleta e sofre de azia permanente, aquele jovem alto, loiro, de olhos azuis, que encantava a ala feminina, é agora um ancião calvo, barrigudo e com uma dentadura desarticulada que se mexe como se tivesse vida própria. As raparigas de cabelos escuros passaram a senhoras loiras, os rapazes bons de conversa, não passam de velhos canastrões. E tudo cai com a força da gravidade, não se iludam, tudo cai, são as mamas, são as papadas, são os glúteos, é a barriga avental, são as peles oculares… e tudo o resto que vocês imaginam. A pele cresceu e os super, híper balzaquianos mirraram.
                É impossível disfarçar as artroses, os joanetes, as manchas na pele, os esquecimentos, o aparelho auditivo e os tremeliques parkinsianos. É impossível não lembrar aqueles que já partiram. E é impossível resgatar o passado.
                Depois do impacto desolador inicial, porque a maioria não se reconhece, cada um desenrola a família, evidenciando os maiores sucessos, os casamentos (normalmente 2 ou 3) e depois, tudo se resume às dores daqui e dacolá. Um queixa-se, o outro queixa-se também, porque tem um problema semelhante… as emoções da juventude e da defesa de grandes causas dão lugar às sensações de dor e às decepções da geriatria. É a politica, é o futebol, é a saúde, é a reforma… nada está bem. Sugerem-se mezinhas e publicidades enganosas da internet, para curar certos males. Poucos tem novos projectos, cada um é mais conformado do que o outro. As mulheres convertem-se à igreja e os homens vão de arrasto.
                Alguns apresentam-se descompostos, outros têm mau hálito, cheiram a tabaco e a álcool. Poucos arriscaram uma plástica, e mesmo assim ao sorrir levantam ligeiramente uma das pernas e as sobrancelhas quase chegam até às orelhas. Claro que não chegam com as mãos aos pés, devido às cruzes enferrujadas, mas as sobrancelhas quase tocam as orelhas.
                Quase todos usam óculos e felizmente todos têm orelhas para os pendurar, caso contrário… (faz-me lembrar uma anedota).
                Se há almoço, antes da refeição cada um saca dos comprimidos e alinham-nos paralelos ao talher. Trocam-se números de telemóvel e finge-se uma alegria idiota e irreal, quando o coração se apertou para sempre. É difícil digerir o tempo.
                Poupem-me! não quero saber de Woodstock nenhum, quero conservar apenas o que me ficou em memória, para ainda alimentar os meus sonhos.
                Todos nós fomos felizes naquela época, não porque a época foi especial, mas tão sómente porque eramos jovens.
                Será sempre assim.

05 dezembro, 2018

AI OS HUMANOS





Ai os humanos

1. A propósito da pedreira de Borba nós humanos revelamos espanto e indignação perante aquelas crateras gigantescas de ausência de matérias geradas na natureza há mais de 280 milhões de anos. É em Borba e em muitos locais deste país por onde passamos por acaso e deparamos por esta paisagem revolvida e esventrada, em milhares de metros cúbicos de mármore, calcário, granito, xisto e outras pedras, alterando a morfologia das regiões.

2. A mesma indignação aflora com os eucaliptais devido à desertificação do clima e dos solos. Também somos contra os herbicidas e outros agro-toxicos.

3. Surpreende-nos o desmatamento da Amazónia, que aumentou 40% nos últimos 12 meses, e que uma grande parte deve-se à extração selectiva da madeira.

4. Criamos movimentos anti–barragens se por acaso, as escavações deparam com vestígios arqueológicos ou gravuras rupestres, ou se o impacto ambiental excede o “razoável” (uma barragem sempre tem, devido à sua dimensão), chegando ao ponto de anularmos a sua construção.

5. Somos todos a favor da proteção de certas espécies animais que estão em vias de extinção — coitadinhos, do lobo ibérico, do lince, da águia, do abutre-preto e do saramugo.

6. É proibido pescar petinga, pois claro!

7. Somos contra a poluição proveniente dos automóveis, das fábricas e dos lixos.

8. Somos contra a estanquicidade dos solos, para que a água siga os seus cursos naturais.

9. Somos contra a poluição dos rios e dos mares.

10. Interrogamo-nos sobre os incêndios e apregoamos até à exaustão a limpeza regular das matas.

11. Somos contra a poluição visual.

12. Não suportamos a poluição sonora.

13. Coitadinhos dos peixinhos que morrem enclausurados dentro dos sacos de plástico!

14. Somos contra as centrais nucleares.

15. Até somos contra as touradas…

Mas nós humanos, não trocamos o nosso conforto por nada…
1. Ambicionamos ter um quarto de banho revestido a mármore e esquecemos as pedreiras;
2. Orgulhamo-nos por preferir ler em suporte de papel, gostamos do cheiro, do tacto… adoro ler um livro e saborear uma bela maçã sem manchas e sem bichos. Esqueço-me dos eucaliptos e dos pesticidas.
3. Queremos móveis em madeira exótica e um bom soalho por toda a casa e lá vai a Amazónia!
4. Todos os anos tememos a seca e então reconhecemos a necessidade de armazenar água. Já somos a favor das barragens.
5. Mas nós gostamos de caçar e de aumentar pastagens para as vaquinhas… e o lobo ibérico?
6. É proibido pescar petinga, mas o dono do restaurante se já nos conhece, lá vem a petinga muito em segredo com nome de carapau.
7. Queremos andar de automóvel, queremos consumir produtos baratos resultantes do fabrico em série, e adoramos tudo embalado. Que se lixe a poluição e o excesso de plástico.
8. Estanquicidade do solo convém não saber o que é. É preciso muitos parques de estacionamento subterrâneos, e jardins pavimentados para tudo estar clean e com o pópó sempre por perto!
9. Sempre que possível lançamos toda a porcaria aos rios e aos mares, porque depois o mar leva tudo.
10. Os opinadores anti isto e aquilo, por acaso vão à mata recolher caruma para fazer estrume?
11. Este ano, nas férias bora lá curtir Las Vegas ou Hong Kong! Quanto mais reclames melhor!
12. Não gostamos de barulho, mas na queima das fitas os jovens precisam de se divertir e os nossos filhos já não sabem viver sem discotecas e bares abertos até as 6 da manhã – movida nocturna é isso!
13. E o plástico continua: sacos, saquinhos e saquetas. Sacos das compras, sacos para congelar, sacos para o pão, sacos para lanches, sacos para a fruta, sacos para os cereais… dá tanto jeito no transporte e na arrumação!
14. Queremos a energia cada vez mais barata e queremos estar sempre à mesma temperatura, quer seja Inverno, quer seja Verão. Viva o ar condicionado, os radiadores, as caldeiras a gasóleo e as lareiras, com grandes chaminés a fumegar!
15. Até somos contra as touradas, mas como é um acto cultural ver o touro furioso a esvair-se em sangue, tudo muda de figura.
Ai os humanos!
Publicado em NVR a 5/12/2018

07 novembro, 2018

I'm your mirror

I'm your mirror
            Visitar a exposição de Joana Vasconcelos "I'm your mirror", no museu Guggenhein em Bilbau, requer fazer cerca de 590 km por estrada, apenas com uma portagem em território castelhano e várias no Norte de Portugal. E eu fiz.
            Joana de Vasconcelos gera urticária em alguns artistas plásticos e críticos de arte portugueses, virando uma artista “maldita”, combatida com Fenistil verbal. Dizem que as suas esculturas são feitas de sucata e que não têm valor artístico. Talvez seja a arte pimba.
            Não percebo esta antipatia, este cerrar de fileiras em relação a uma mulher que faz esculturas inesquecíveis, consideradas em todo o mundo, usando uma escala grandiosa. Torna-se impossível negar o impacto que gera nos observadores.
            Não quero acreditar que esta negação tenha a ver com o aspecto físico da artista. Ser gorda não é fácil. Quando uma gorda ganha destaque é mesmo por mérito. Prefiro não perceber do que acreditar neste bullying idiota.
            Já vi esculturas gigantescas de objetos utilitários realizadas em fibra de vidro e betão, em que os mesmos críticos teceram grandes elogios. Qual é a diferença? A diferença é que a obra de Joana tem significados e empatias muito mais interessantes, provocando a tal urticária inexplicável do contragosto ou do desgosto, acompanhada de sorrisinho IIC (irritante, irónico e condescendente). Será que irrita o terço de Fátima? O Siza Vieira também andou por lá. Parece ser proibido unir, o kitsch, o trabalho artesanal, os objectos utilitários e a criatividade numa postura irreverente e com algum conteúdo reflexivo.
            Ainda por cima uma mulher grandona, gorda e exuberante, que não encontra a forma certa e cinzenta de vestir!
            Pobre do Duchamp se tivesse nascido português, encarnando uma mulher gorda ao lado de um mictório. E Picasso com a cabeça do touro feito com o selim e o guiador de uma bicicleta? E a mulher de Miró?
            A primeira vez que vi uma obra de Joana foi no museu Berardo e outras se seguiram. Sorri com o candelabro, tão delicado e feminino, feito de tampões, tão contestado nesta sociedade falsamente puritana, ou então a escultura com cães que esteve numa exposição do riso em Lisboa.
            O que dizer do cadeirão Aspirina, o sofá Valium, os sapatos Dorothy, o solitário, a mascarilha espelho, o helicóptero pluma, as esculturas de Bordalo Pinheiro, o cacilheiro, o bule, o coração independente, o piano, o cão malmequer, os mictórios geminados, a pistola Call Center e as Valquírias? Eu aprecio.
            Felizmente a artista revela-se um pouco indiferente às críticas empedernidas e avança. Joana Vasconcelos, desde 1994, reúne uma equipa, que a ajuda a concretizar as peças imaginadas, formada por senhoras idosas, que fazem crochet, de costureiros, serralheiros, trolhas, engenheiros e divulga aspectos culturais portugueses – o azulejo, Bordalo Pinheiro, a filigrana e a arte popular, que de ouro modo estariam confinados ao nosso pequeno rectângulo. Acham pouco?
            O reconhecimento internacional chegou com a exposição realizada no Palácio de Versalhes (primeira portuguesa que ali expôs individualmente), com a Bienal de Veneza e agora com o Guggenheim de Bilbau (também a primeira portuguesa).
            Tenho o hábito de observar quem observa e sorrir perante as reacções de agrado e surpresa, completamente seduzida por uma obra de arte. No Guggen, vive-se uma escultura, por dentro de uma Valquíria gigante, utilizando diversos espaços que o museu oferece no seu átrio central. Todos os visitantes parecem jovens irrequietos usufruindo da cor, do tacto quando possível, das texturas dos materiais e da escala. Conversam, trocam comentários e reforçam verbalmente certos detalhes. O átrio enche-se e não há vontade para sair dali.
            Alguns consideram que ela é, ou era, a artista do regime. Resta-me apenas dizer que os governos mudam e a obra dela permanece, transportada de um lado para o outro, conquistando o mundo. Permanece também no meu arquivo memorizado, envolta em algum carinho que dedico a todas aquelas mulheres que contribuem para mostrar a arte no feminino.
            Não percam!

Publicado em NVR - 7/11/2018

06 abril, 2018

a coisa aqui está preta



a coisa aqui está preta

               
Um caso, o Brasil.
                Quando era jovem achava que o Brasil seria o sítio ideal para eu viver, já que não poderia viver na terra onde nasci. O Brasil parecia-me bem, pelo calor, pela língua, pela gastronomia, por Jorge Amado, por Chico Buarque de Holanda, por Augusto Boal, por Óscar Niemeyer, pelo movimento Tropicalismo, pela praia, pela fruta tropical, pelo Carnaval, pela Amazónia, por Manaus, por Pélé, por Brasília, pelo Rei, pelo samba, pelo forró, pelo chorinho, pelo artesanato, pelas telenovelas, pela água de côco, pelas redes para dormir, por Juscelino Kubitschek, pelas sandálias prateadas de salto alto, pelos batuques, pelas baianas, pelos terreiros, pelo Zé Carioca, pelo sotaque doce, por Salvador da Baía, pela simpatia de alguns malandros, pela garota de Ipanema, pelos candomblés, pelos bolos de fubá, pela Gabriela, pelo Mundinho e pelo Tuísca, pela capoeira, pelo Sr. do Bonfim, pelos discursos dirigidos ao povo de Sucupira… achava que o “design” daquele país encaixava como um puzzle em Angola, o que reforçava a meu favor a divisão da Pangeia.

…. E o meu pai, afirmava: Brasil nem pensar!
                                               … dizia: O Carnaval do Rio é o espectáculo mais perigoso do mundo, são assassinadas (não sei quantas)??? pessoas por dia!

                Mesmo assim, achava que o meu pai tinha prazer em me contrariar.
                Ao Brasil só lhe encontrava um defeito: o mar ter nascer do sol e não ter pôr-do-sol, pois um pôr-de-sol sobre o oceano é o melhor e maior espectáculo do mundo. Dura poucos minutos, mas mesmo assim, é o top.
                Percebi quem era o tal Militar João Figueiredo, a ditadura, o tempo dos coronéis, os jagunços, a violência gratuita, as clivagens e as desigualdades sociais, a corrupção, os cartéis da droga, os índices de analfabetos, as favelas, a desvalorização da vida, o desconforto das denúncias do PT, o desmatamento da Amazónia, o Collor de Mello, o Michel Temer, os milhões de pobres…
                … encantei-me com a Rosa de Hiroshima de Ney  e dos seus Secos e Molhados, gargalhei com o Caco Antibes e Ribamar, trauteei os Mamonas Assassinas, Gabriel o Pensador, admirei Lula e Dilma, surpreendi-me com Millor Fernandes, descobri Augusto Cury e a “Saga de um pensador”.
                Percebo todos os dias a manipulação da opinião pública através dos media, vivo sempre na dúvida e preocupada em separar a mentira da verdade, ou a quase verdade da inverdade incompleta. Não é tarefa fácil.
                Um caso, o Brasil, com o melhor e com o pior – uma situação explosiva num país, onde se jogam inúmeros interesses. Aparecem na TV comentários lúcidos, esclarecedores e coerentes, outros que denunciam pouca cautela para com a situação

“Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate o sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando que também sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão (…)
(Meu caro amigo – Chico Buarque)

Escrito às 21h de 6/04/2018, preocupada, aguardando os acontecimentos.

05 julho, 2017

Aguardo pelo Messias

Aguardo pelo Messias
         Copiei esta imagem da internet numa rede social. Não sei quem é o autor, alguém copiou de alguém e eu copei descaradamente a seguir, mas sei com certeza que a sua profissão é ser professor. Só um professor entende esta imagem que é um verdadeiro pedido por socorro. 
         Um professor para além ensinar e tentar educar (escrevo “tentar”, porque a educação adquire-se em casa), lida com uma rede de problemas de grande complexidade que é o reflexo da nossa sociedade, o bom e o mau, dispondo de poucos recursos e reinventando estratégias para ser bem-sucedido, através de práticas resultantes de um trabalho intrínseco à arte de ensinar e em paralelo, que consta em planear, articular, partilhar, avaliar, acompanhar, reflectir. Até aqui, tudo bem… mas exige-se algo verdadeiramente esgotante, sem grande visibilidade e utilidade, o registo, a prova, a evidência em como fez e em como desempenhou bem o seu papel, com se ensinar se convertesse num processo jurídico onde é necessário reunir provas consistentes para exibir no tribunal. Ao professor não basta esgotar-se, falando alto para se fazer ouvir, não basta interromper o seu raciocínio de cinco em cinco minutos, para mandar calar, para evitar confusão na sala, para captar a atenção dos distraídos, para dar autorização para ir ao WC, para… para…, não basta fingir que não ouve comentários desagradáveis e rudes proferidos a baixa voz, não basta estimular aqueles que de facto querem aprender, não basta proteger os tímidos e os mais sensíveis, não basta refrear os mais rebeldes, não basta servir de mãe, de pai, de psicólogo, de sociólogo, de pedagogo, de enfermeiro, de mediador de conflitos, de amigo e de cúmplice, não basta cuidar da socialização e das interações em grupo, não basta! o professor ainda deve ser uma máquina de produção de documentos supérfluos, teoricamente correctos e necessários, mas que na prática adormecem e apodrecem nos dossiers, reais ou digitais.
         Os documentos são imensos e agora felizmente já é tudo informatizado, reduzindo substancialmente a quantidade de papel - as árvores agradecem. A grande papelada que a imagem refere, já é uma papelada digital, mas que não deixa de ser uma catrafiada de documentos distribuídos por pastas, subpastas e mini pastas que carregamos no computador pessoal e que de pouco serve.
         As salas dos professores, onde se respirava alguma tranquilidade entre uma aula e outra, onde todos carregavam energias para ir à luta, foram transformadas em algo parecido com um call center, onde os professores se sentam aproveitando o tempo para teclar desesperadamente documentos para entregar aos coordenadores, aos diretores, ou aos encarregados de educação, olhando apenas para os monitores, alucinados com as evidências da sua competência. Documentos que ninguém mais lerá. Eventualmente se houver uma queixa ou uma reclamação, todos terão informação escrita para exibir, ninguém lerá, mas importa ter. Quem tem, é competente, quem não tem é um calaceiro incompetente. Não interessa se o professor tem raciocínio, criatividade, memória, experiência, se reflete sobre os desafios do dia-a-dia e tem a arte de gerar empatias com os alunos, tentando dar a melhor resposta e o melhor de si. O que interessa é ter muitos documentos para exibir e em ordem. Quem lê os documentos? Quem cruza a informação? Poucos ou ninguém.
         É necessário ter papelada para mostrar e manter os professores ocupados. Porque os professores são duma raça, que gosta de praia e de piqueniques em todas as estações do ano e são os campeões das pontes e das esplanadas. Ai do professor que dá uma negativa, se não tiver tudo bem documentado e justificado! Ao aluno não basta não estudar, perturbar as aulas, ter testes negativos e estar a marimbar-se para escola e para o cota do prof. São necessárias análises, reflexões, estratégias, objectivos, articulações, partilhas, reforços positivos, diálogos assertivos, motivações personalizadas, trabalho colaborativo, comunicações aos DTs e aos encarregados de educação… e não basta praticar-se é necessário escrever-se e repetir-se em diversos documentos. E cada caso é um caso, feito de domínios sócio-afectivo, cognitivo e psico-motor… agora multipliquem por 170 casos/professor, cada um com pai e mãe, ambos a achar que o professor tem boa vida, é um baldas, é um verdadeiro vilão cheio de preguiça e incompetência, lerdo das ideias, não faz nada, passa a vida em férias e faz greves durante o ano sempre em momentos errados, e ainda por cima faz queixa dos seus queridos e adorados filhinhos que são sempre uns anjinhos e as más companhias é que lixam tudo (esta é a imagem que a sociedade infelizmente resolveu construir nos últimos anos sobre os professores). Como pais brilhantes, não lhes ensinam que se diz com licença, faz favor, obrigado, bom dia e até amanhã, que não se dizem palavrões e que é obrigatório respeitar o outro.    
         Mas voltando à papelada… no meu tempo (não gosto da expressão, mas por vezes é imperiosa), quando na pauta estava escrito 10 valores queria dizer que passei à rasquinha, e ia ter os meus pais de trombas por umas semanas, quando tinha 8 valores queria dizer que tinha andado a vadiar o 1º período e que os meus pais iriam suspender tudo o que me desse prazer até eu recuperar, e quando tinha 14 valores, eu respirava de alívio, mas os meus pais ainda iriam perguntar porque não tirei melhor nota e quando tinha 17 valores, finalmente os meus pais sorriam. Numa escala de zero a vinte, com os números alinhados numa pauta, eu sabia exactamente onde tinha acertado, onde tinha errado, e os meus pais não precisavam de mais nenhuma explicação ou esclarecimento.

         Ai, ai papelada… aguardo com certa urgência pelo Messias do ensino, que entenda quão nobre é a profissão que prepara a sociedade do futuro. Devolvam-nos o tempo que é necessário para nos despirmos dos problemas da escola, o tempo para reciclar informação, o tempo para regenerar a mente e a paciência, o tempo para actualizar conhecimento. Devolvam-nos a dignidade, pois os nossos alunos são os vossos filhos!
Anabela Quelhas
Publicado em NVR a 5/07/2017

21 março, 2017

Sendo dia de poesia


Sendo dia de poesia
            Sendo dia da poesia, escrevo em prosa e não em verso, para que a distinção se sinta nesta minha atitude ousada de insistir em juntar as palavras sem regra. Escrevo sem rima, sem métrica, sem estrofes, sem versos, ao meu ritmo e ao meu estilo, aventurando-me em território desconhecido e que não domino. Escrevo como vivo, um pouco em desalinho, um pouco em contramão, abrindo os canais das vivências interiores e dando-lhes forma, sem filtros, sem regras, ensaiando a liberdade plena que só os ignorantes praticam. Nem sempre distingo o verso da prosa. Para mim tudo o que dou um sentido mais estético e mais profundo, mais temperado com toda a ansiedade e carência afectiva que habitam em mim, é poesia.
            Gosto de poemar.
           Gosto de me expressar em linguagem intrigante, inquieta e misteriosa, que tenha impactos diversos para quem a lê ou quando se lê. Descubro-me só, nestes momentos mágicos da escrita, não conseguindo prever quando escrevo, o que escrevo e para quem escrevo. É uma aventura dialéctica que flui na primeira pessoa, como se fosse um auto-retrato primaveril, que me tranquiliza desenhá-lo e vive-lo, descobrindo sensações diversas no meu íntimo sentimental.
          Poemar é viver sempre na linha que divide o real do onírico, realçando o sublime e o simbólico, é ser capaz de dar brilho a encantamentos obscuros que desconheço em mim. É um grito imprevisto, é um gozo profundo, traduzidos numa linguagem feita de corpo e de alma, que pode ser doce, elegante, com fragância a jasmim, mas também pode ser agressiva e violenta, capaz de rasgar preconceitos, mover precipícios, derrubar muros e libertar lágrimas salgadas de mim. É melodia sem pauta, é dança com fogo, é geometria sem teoremas, é mar solto sem horizonte, é tempo intemporal e sem dimensão com perspectivas diversas.
            É ouro… é prata recortada de luar.

            Escrevo para quem?
                                   Mas tem de haver alguém no destino?
                                                           Escrevo para a terra vermelha, escrevo para um homem que não existe, escrevo para a paixão infinitamente trancada no meu coração, escrevo para quem se irmana comigo neste desespero desassossegado e profano de estar e não estar, escrevo para aqueles que acreditam no arco-iris, escrevo para o universo que me inclui e me respeita, vestida na minha reduzida dimensão.
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” – Anabela Quelhas

19 março, 2017

13 março, 2017

13 de março

O dia 13 é o teu dia. Um algarismo sem azares e cheio de afectos de mãe, manifestados desde onde o meu conhecimento não alcança.  
Gostava das tuas mãos que me acariciavam, dos teus olhos que me protegiam, do teu colo que me acolhia, da tua gargalhada que me entusiasmava, da tua determinação que me iluminava caminhos, da tua resistência que eu tentava copiar, da tua força que nunca tive.
Aos 6 anos usei os teus vestidos, davam-me até aos pés, arrastavam pelo chão, calçava os teus sapatos e pavoneava-me ao espelho, querendo imitar-te e tu sempre me ensinaste a construir a minha própria identidade.
Tinhas a sabedoria de converter o árido em confortável, o insalubre em gostoso, o desinteressante em útil e o impossível em realizável.
Quase nunca te vi doente antes da hecatombe final, nunca te ouvi uma queixa, nunca percebi um desaire, um desânimo…
 Por onde andarás?

AQ  

11 março, 2017

Três Estudos de Lucian Freud

O tríptico «Três Estudos de Lucian Freud», de 1969 - 106 milhões de euros foi o seu valor pago em leilão. Uma das obras mais valiosas do mundo (2013).
Um tríptico cuja repetição sugere a 4ª dimensão, o tempo, e associa efeitos visuais que perturbam pelo isolamento deduzido na observação. Francis Bacon faz um enquadramento geometrizado, com linhas de projecção, constituindo cenário variável, referenciando o vazio e definindo o limite entre interior e exterior.
As faces distorcidas do próprio rosto causam inquietação – teremos em nós, um mostro adormecido? – tornando visível o invisível. A multiplicidade de interpretações e sensações provocadas é evidente. Obra de grande valor para a psicanálise. Este tríptico continua a ser motivo de estudo, de análise e de reflexão filosófica, situada entre os conceitos de sensação e emoção. 

AQ

08 março, 2017

Uma competência desmedida

Uma competência desmedida de diversos desempenhos – ser mulher.

         Faz todo o sentido, dar destaque a um dia sobre a mulher. E não é porque é mais um dia para comemorar, para jantar com as amigas, com o namorado ou com o marido, como tantos outros… apenas porque há quem continue a remeter a condição de mulher para a indignidade, tornando-se necessário criar alertas.
         Enquanto houver mulheres que são discriminadas, porque são mulheres, vale a pena falar, dizer, escrever e até gritar, neste dia e em todos os outros… mas neste dia pode ser que nos oiçam melhor. 
         Há coisas inacreditáveis:
“Rússia vota lei que permite bater na mulher e nos filhos uma vez por ano.” então senhor Putin?!
“Eurodeputado diz que mulheres são menos inteligentes que os homens.” este Janusz Korwin-Mike mede as mulheres pelo xadrez?!
“Mais de seis mil mulheres em Portugal submetidas a mutilação genital feminina” sublinho em Portugal… sabiam? São guineenses, mas vivem em Portugal.
“Em 2016, em Portugal foram registados 15.724 crimes de violência doméstica contra as mulheres” acham pouco?
Os salários das mulheres representam entre 70 e 90% dos salários de seus colegas masculinos.” a estatística da ONU, incidiu só sobre calceteiros, pedreiros, guarda-costas, estivadores e outras profissões onde se exige força muscular?
“A maternidade continua a ser uma fonte de discriminação no trabalho.” os que discriminam nasceram de chocadeira?
         Esta luta diária que envolve a maioria das mulheres, merece reflexão e destaque. É preciso DIA DA MULHER, sim!
         Claro que há mulheres entediantes, chatas, histéricas e fúteis, assim como há homens canastrões, primários, com mau hálito, com pêlos a transbordar das orelhas e com a unha do dedo mínimo sempre a crescer, mas conhecem acto mais altruísta, do que ser mãe?
         Aos doze anos, enquanto os rapazes jogam à bola, nadam na praia e estão sempre prontos para todo o tipo de tropelias, as jovenzinhas adolescentes, doí-lhes a barriga e é aquilo todos os meses.
         Quando os homens não assumem a paternidade, imaginem para quem sobra aquele acto de amor tresloucado sem protecção?
         Ser mulher é quase uma missão com lutas diárias na afirmação pela igualdade em relação ao homem, é ter uma competência desmedida de diversos desempenhos, para avaliar constantemente fragilidades, e propor assertividade e equilíbrio, anulando desigualdades.
         Ser mulher é ser sensível, mas determinada nos seus objectivos e tem algo intrínseco à sua condição de género, que a leva a gerir contrariedades e ser pacificadora. A mulher tem pouca força muscular, mas tem força mental para dar e vender. Há um encantamento que lhe vem dos genes e da alma, que a torna delicada e feminina. Tenho orgulho em ser mulher.

         Mas se for apenas um pretexto para ir jantar fora com o marido, quebrando a rotina duma relação, ou para alguém lhe oferecer uma flor, qual é o problema?

15 fevereiro, 2017

Sei sentir a desolação

Sei sentir a desolação
                Dois dias de vendaval e duas noites de arrepiar, com o vento a assobiar transformando qualquer casa, em casa assombrada, permitem que tudo voe fustigado pela chuva. As telhas resolvem sair do lugar, as árvores vergam-se parecendo feitas de plasticina, os rios transbordam e o S. Pedro lá em cima, esquecido de nós, navegando na net ou jogando numa playstation celestial. Depois de tudo isto e das peripécias que se adivinham, há que acordar cedo para abraçar a montanha. O frio gelado e seco penetra pelas malhas das camisolas de lã, pelas solas do calçado, entre os dedos das luvas, doptando o meu nariz da sensibilidade de num marco geodésico.
                Hoje foi assim: as rochas graníticas, a montanha, os regatos, o mato rasteiro, os líquens, a floresta, a visão ampla com 360 graus de amplitude, as pessoas habituadas a lidar com o frio agreste das montanhas beirãs, e eu….
                Os bombos, tocados por habitantes de aldeias vizinhas, exibem sonoramente a consideração por S. Brás, no dia cinco de fevereiro, competindo na percussão ritmada, dando voltas à pequena capela onde cabe pouca gente.           
                Não interessa o frio, não interessa o vento cortante vindo de norte, não interessam as nuvens negras, que correm no céu sem cerimónia, anunciando que o vendaval ainda não passou e certamente a chuva desabará de novo sobre nós. Afinal todos os anos é assim. Estamos em pleno Inverno – tempo de meias de lã, ceroulas, gorros, camisolas interiores, cachecóis, samarras, comidas e bebidas fortes e tudo que possa aquecer o frio.  
                Interessa o encontro entre várias gerações em S. Brás dos Montes, junto à capelinha, onde se rezará a missa de festa por volta do meio-dia. Desfilam os homens com os bombos conforme vão chegando ao cimo do monte. As crianças socorrem-se dos gorros de orelhas, cobertos de casacos quentes com carapuço, para fintar as otites e os resfriados. Os homens cobrem a cabeça com um chapéu…
                PUM, PUM; PUM; PUM
                … e cada grupo encaminha-se para o espaço reservado à sua comunidade, onde irá merendar os petiscos saborosos desta região, trazidos de casa. Apeiam-se os bombos e ensarilham-se as mocas e varapaus do povo, que os acompanham, para que não haja a possibilidade de haver agressões mal pensadas, depois de um copo de vinho, para acertar contas antigas ou contas mal feitas. Parece que antigamente houve uma lei que determinou este comportamento, fazer descansar as mocas durante a permanência naquele recinto – vale mais prevenir do que remediar.
                Ouvi lamentos:
                - Este ano está menos gente! Antes, as pessoas cobriam os montes.
                - Não vieram nem metade dos bombos, porque não há quem os toque.
                - O povo não afluiu, talvez receando o mau tempo.
                - Não, não, saíu muita gente! Há gente que foi para fora, lutar pela vida.
                Eu como forasteira não consigo avaliar, mas já li este desânimo, lamentado e escrito noutros lugares com paisagens semelhantes, onde reina o granito, o céu e o frio, e onde as pessoas escasseiam cada vez mais. O desânimo por ver desaparecer tradições, que se foram repetindo durante séculos, criando identidades e unindo pessoas, conferindo orgulho a quem vive nestas regiões inóspitas e lembrando periodicamente a parte simbólica da sua cultura, espelha-se na perda do brilho no olhar, dos que restam e que teimam em permanecer, comendo uma lasca de presunto a um canto, observando os espaços vazios da sua gente.

                Sei sentir a desolação da morte agonizante deste Portugal, perdido entre auto-estradas e caminhos de terra enlameados, descoordenado com a vida contemporânea feita de políticas pouco assertivas e desumanizadas, onde as pessoas têm de desistir dos locais que as viram nascer… abandonando, família, amigos, afectos e território.
AQ
Publicado a 15/02/2017
em NVR 

03 janeiro, 2017

O PARAÍSO

Como será o paraíso?
A maioria dos pintores imaginam-no e representam-no à semelhança da natureza do planeta Terra... o mundos animal, vegetal e mineral em consonância equilibrada. 
Para observar, reflectir e partilhar.

 Rubens
 Anónimo
 David Miller
 Chagall
 Firebolide
 El Bosco
 Peter Wenze
Gauguin
 Miguel Ângelo
Fátima Jorge
Tintoretto
Juan Sanchez

15 dezembro, 2016

NO LARÓ


No Laró do Natal!
            Se há coisa que eu gosto de fazer é andar no “laró”- todos os motivos são bons, todas as oportunidades são únicas e irrepetíveis, invento razões mais ou menos bem elaboradas - portanto identifiquei-me de imediato com este livro do meu amigo António Caseiro Marques.
            Não sou dos lugares onde permaneço quase uma vida, apenas porque quem nasceu na savana africana, se orientou através do Cruzeiro do Sul e sentiu “a linha recta que é curva, lá para os lados da intersecção do Zulmarinho com o rio Kuanza” (inspiração J.C. Carranca), nunca mais será de sítio algum, entrando para o grande rol dos órfãos de terra, dos desterrados, dos angustiados ansiosos, dos cidadãos do mundo eternamente solitários e fora de órbita.  
(escrevi solitários, não escrevi sozinhos)
            Não sou uma caminheira de montanha, sou uma andarilha urbana, mas percebo o apelo à montanha que nos oferece esta obra. Essa massa gigantesca e telúrica, que existe desde sempre e permanece silenciosa, geologicamente supostamente estática (nada é estático! J), concebida sabe-se lá por quem, estratificada em camadas, algumas ainda desconhecidas,  veste-se superficialmente de formas policromadas diversificadas, belas, sempre renovadas, em constante mutação, estabelecendo um diálogo profundo, intimista e misterioso, com o António, mexendo com ele, tornando-o mais humano, mais sábio e mais divertido. O maciço, estrada irregular de gigantes, sem oceano à vista, que se converte no mar do nosso olhar, que nos espera sempre e não pára de nos surpreender, toca-o de sobremaneira como beirão de Carapito, de coração enorme, generoso, onde cabem muitos e outros lugares.
            Este livro, não o entendo como livro dos caminheiros de montanha, mas sim, um registo de sentires de quem gosta e investe no “laró” e na sua filosofia. Sim, porque o “laró” tem toda uma filosofia e uma ciência intrínsecas. O dicionário diz-nos que “laró” é sinónimo de não fazer nada, descanso, vida ociosa, sem trabalho…
            … quem acredita nisto?
            Quem anda no “laró” não descansa! Abandona o sofá e os chinelos, mete-se por caminhos íngremes, cultiva calos nos pés, vive tudo menos o ócio… Andar no “laró” exige preparação física, agilidade mental, racionalidade, capacidade de decisão e sensibilidade para realizar narrativas afectuosas para com o sítio e sobre os sítios - perfil exclusivo dos desassossegados que procuram saber sempre mais sobre este planeta azul. Deprimidos, acomodados, ociosos, conformados com a desgraça e de mal com a vida, nunca entenderão o matiz destes seres humanos.         
            E sobre o sítio….
“Começa-se sempre pelo sítio, quando se pretende contar algo contextualizado num lugar - aquela cruzinha que se faz no mapa para marcar um espaço, duas pequenas linhas concorrentes, que focam a nossa atenção, dividindo o sitio do resto do universo.
       O sítio será,
•     o espaço de permanência dos que habitam, a plataforma geológica, que sedentarizou aqueles seres humanos.
•     o território feito de vários lugares que permanece de geração em geração, fazendo a simbiose ente o passado e presente e onde os seus habitantes deixam a marca das suas existências.
•     o testemunho sempre renovável da história, das vivências  e dos sonhos dos Homens.”
In “O fato que nunca vestimos” de Anabela Quelhas

                        … este induz-nos a evocar os nossos próprios sentires de cada sitio que já olhámos, interpretámos e reservámos na nossa memória.
            Faltou um mapa desenhado pelo punho do autor – o mapa do “laró” renovado e aumentado.
            Para surpresa minha, verifiquei que entrei numa das suas descrições, o que me enche de orgulho, já que como verdadeira andarilha, gosto da partilha daquilo que conheço e sei, ajudando os amigos a sonhar comigo, replicando e multiplicando aquilo a que sou sensível.
            Para finalizar recordo e configuro o verdeiro amor que este senhor tem por Lisboa:
(em véspera de Natal, eu cheirando a aromas de pinhões, passas e canela, com a colher de pau numa mão e telemóvel na outra, confeccionando algo saboroso, que todos comem e choram por mais, no sítio mais perigoso do mundo: a minha cozinha…, de atenção recortada entre uma mesa geometricamente decorada, que acolheria duas dezenas de pessoas para consoar, a porta de entrada para a abrir, a campainha não parando de tocar, as gargalhadas dos mais pequenos já no quintal perguntando pelo Pai Natal, o polvo a fumegar, diversos pratos já repletos de manjares natalícios espalhados entre a sala e a cozinha … )
- Estouuu? como vai minha amiga?!!!! (voz inconfundível de alguém não ocioso e bem disposto, que sabe bem ouvir) Estou aqui junto ao Tejo, a olhar o Cais das Colunas, vendo as iluminações de Natal e lembrei-me de lhe ligar… sabe eu gosto muito de Lisboa, estudei aqui, volto sempre que posso… o rio, o Mar da Palha, a baixa pombalina, Alfama… réu catrapéu, patati, patatá, blá, blá, blá…
… no Laró do Natal! (que inveja! Inveja mesmo! no bom e no mau sentido)
(há poucos minutos chega uma mensagem…)
- Vamos buscar o Francisco. Só regressamos no domingo. Mande fotos de ontem. Ob bjs CM
(oh mais “laró”, ele não pára!)

Anabela Quelhas
Publicado em NVR