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11 setembro, 2019

Cidade e identidade


Cidade e identidade
            A cidade é o repositório de histórias por excelência.
            Todos temos uma identidade global e uma identidade nacional fundamentada num repertório do grande colectivo, que nos converte em cidadãos de uma determinada época.
            Depois, o grande grupo de cidadãos do mundo, divide-se consoante o território onde habita e constrói identidades mais personalizadas, com vertentes fortes de pertença, de ligação aos lugares onde permanece e onde vive de forma mais ou menos sedentária. Cada cidadão cria ligações aos lugares de memória antiga, de memória intermédia e de memória presente. Os primeiros são espaços arqueológicos que provocam grande orgulho sobre o passado longínquo, os segundos geram dinâmicas das histórias do próprio individuo (onde nasceu, onde se baptizou, onde namorou, onde fazia maroteiras com os amigos, onde se casou, onde trabalhou, onde participou em eventos, onde se localizaram histórias contadas pelos avós… ) e os terceiros, espaços urbanos mais recentes, vão-se interiorizando e cristalizando em cada um.
            Os elementos de memória urbana são constituídos por edifícios civis, edifícios religiosos, as ruas, as avenidas, os jardins, os coretos, os rios, as pontes, os equipamentos colectivos e as árvores, testemunhas silenciosas, vivas, que nos presenteiam com sombra, cor e odores. Tudo isto é como o fundo da tela de uma pintura que interage com a figura principal representada na mesma, que neste caso é cada um de nós. Quando o fundo se altera, a figura permanece, mas já não é a mesma, porque lhe foi retirado algo familiar que interage com a sua identidade. A inscrição das histórias urbanas realiza-se de forma diferente em cada um, mas sobre o cenário comum a todos. Isto vale o que vale, uns valorizam outros não, nunca pensaram nisto, porém, os lugares de memória são factores de estabilidade social. A nossa identidade é aquilo que nos distingue dos outros, que reforça a nossa auto-estima e que nos faz amar os sítios e convém manter-se harmoniosa. 
            A cidade é o suporte espacial das identidades. Os cidadãos transformam espaço, em lugares, apropriam-se deles, os seus lugares, porque lhes atribuem conteúdo, simbolismo e geram comportamentos personalizados. Misturam a sua trajectória com os processos espaciais e as histórias aproximam-se e unem-se.
            É perigoso mexer com a identidade urbana. É necessário preservar os lugares para que a identidade urbana e de cada um, sejam preservadas também. Sem memória, não há diferença, não há singularidade.
            A cidade como organismo vivo em permanente e saudável crescimento, necessita também de novos cenários urbanos a localizar nos novos espaços, para poder haver novas leituras urbanas em contextos contemporâneos, enquadrados em narrativas arquitectónicas actuais e até de vanguarda, não pondo em causa a identidade referida, ou seja, novas intervenções em novos espaços.
            O perigo em mexer nos lugares é que são agressões irreversíveis. Não dá para voltar para trás e repor situações anteriores.

Publicado em NVR - 11/09/2019


04 agosto, 2019

Temppeliaukio kirkko, Helsínquia, Finlândia.




Temppeliaukio kirkko,  Helsínquia, Finlândia.
Arquitectos: irmãos Timo e Tuomo Suomalainen.
Data de construção: 1969

Igreja luterana construída por forma a parecer que surge no interior de uma pedreira. A cobertura é de cobre e possibilita através de uma “coroa circular” a entrada de luz zenital, pouco visível do exterior e com grande efeito na espacialidade interior.
No interior, a igreja é circular, com acesso a um coro. As paredes apresentam-se com a rocha natural à vista e a iluminação é superior, como já foi referido.
É um exemplar da arquitectura moderna, com grande efeito plástico, estético e acústico, acentuado pela conjugação de materiais. Um olhar especial para a pia baptismal.

AQ, 2019 [diário de viagem]















 PIA BAPTISMAL

















10 junho, 2019

ÓPERA DE GARNIER - Paris


            Ópera de Garnier
            Há sítios inesquecíveis, e que mesmo antes de os visitar, me sinto próxima, já tenho um desejo enorme de os descobrir, ver e sentir. Ópera de Garnier é um desses sítios. Vi-a algumas vezes passando no exterior, estudei-a quando era jovem, como exemplo arquitectónico de um espaço para espectáculos, projectado no séc. XIX (1862) por Charles Garnier,  em estilo neo-barroco.
            Este edifício não faz parte dos edifícios que todos desejam visitar na primeira visita a Paris, por mero desconhecimento, porque todos pensamos que uma casa de ópera será um edifício vulgar, com alguma imponência no exterior. 
            Ao meu desejo de visita, juntava-se a memória de um sketch publicitário dos anos setenta sobre um sabonete, creio que ao sabonete Cadum, com uma diva descendo aquela escada interior glamourosa, com a pele supostamente hidratada e sedosa.
            Hoje foi o dia, às 11h da manhã entrei para o visitar. Superou as minhas expectativas. Tive uma visita guiada para que me permitisse visitar todo o interior. Fiquei deslumbrada. Superou as minhas expectativas e já começa a ser difícil eu sentir esta emoção. Pouca atenção prestei à guia, que desfiava a história, as peças, os artistas. Dou sempre prioridade à arquitectura, observar cada detalhe, interligar a planta com os alçados e sentir a tridimensionalidade do edifício objecto, a criatividade do autor e a dificuldade de execução… e claro fotografar. Fotografar muito para registar aquilo que a memória não consegue. Para além da referida escada glamourosa, enriquecida agora com as novas tecnologias da luz, descobri um foyer deslumbrante, imitação do palácio de Versailles. Apeteceu-me sentar-me por ali e ficar. Percebi que amava aquele edifício desde sempre, agora revivendo um amor de adolescente, amando-o novamente e com maturidade, com a certeza e a sensibilidade ao rubro. Um edifício majestoso
            Não gostei do tecto da sala principal pintada por Chagall. Percebi que foi uma atitude politicamente correcta. Apesar de gostar de Chagall acho que ali está desenquadrado. Opinão minha. O resto…. Chagall era russo, judeu, francês... foi-lhe entregue nos anos 60 um novo tecto para substituir o original, que tal como o edificio atravessou a 2º guerra e foi martirizado. 

            Estou tão mais rica! Muito mais rica. Obrigada Garnier.

in Diário de Viagem