28 maio, 2021

PROJECTO MOSE

 


Projecto Mose

              Veneza é Veneza e eu pretendo lá voltar, para conhecer com mais detalhe os pequenos canais e observar melhor, um pouco fora dos principais percursos turísticos, a vida dos venezianos.

              Ontem passou um programa na TV sobre o eterno problema de Veneza, denominado, subida das marés provocando inundações e obrigando os turistas a passear de galochas. Percebi que há um projecto de engenharia que tentar salvar Veneza da submersão, já que, desde 1987 afundou 30 cm, ou seja, mais de 1cm por ano.

              Curiosamente o projecto de engenharia denomina-se “Mose”, associando-o a um protagonista religioso do Velho Testamento, chamado Moisés. Dizem que o profeta dividiu a água do Mar Vermelho permitindo a fuga do povo hebreu da perseguição do governo egípcio.

              Anteriormente os projetos para salvar Veneza baseavam-se em soluções aplicadas aos edifícios - solidificar as fundações das construções com betão armado ou tentar elevá-las do subsolo. Actualmente o projecto Mose inverte o problema com outra perspectiva sobre a solução. O projecto já esta feito e a fase da execução está concluída - um sistema de barragens e comportas metálicas, já tão utilizadas em outras situações menos complexas. Uma enorme barragem, formada por várias comportas são o sistema “simplificado” a aplicar permite não mexer na cidade e sim, mexer na água, daí o nome bíblico. A resolução de problemas encontra-se por vezes na desconstrução do mesmo e da sua envolvente, porque nem sempre as melhores soluções são as mais óbvias.

              São dezenas de barreiras móveis com trinta metros de comprimento e trezentas toneladas cada, estrategicamente posicionadas nas três aberturas que ligam a Lagoa de Veneza ao Mar Adriático. Este projecto de engenharia civil é tão fantástico, que o seu conceito e estratégia têm inspirado outras equipas de engenheiros, preocupados em resolver problemas relacionados com a água, tanto em Londres como em Amesterdão.

              Segundo o livro do Êxodo o profeta levantou os braços e conseguiu dividir as águas do Mar Vermelho para o seu povo atravessar. Hoje dizem que não foi o Mar Vermelho e sim o delta do Rio Nilo, explicando o investigador do Centro Nacional para a Pesquisa Atmosférica norte-americano, Carl Drews que, "... a descrição da separação das águas tem por base leis da física", atribuídas à acção do vento. “...um vento de leste a soprar a uma velocidade de um pouco mais de cem quilómetros por hora, durante oito horas, teria permitido afastar as águas (com 1,8 metros de profundidade). Uma faixa de terra lamacenta entre 3,2 e 4 quilómetros de comprimento e 4,8 quilómetros de largura teria ficado a descoberto durante quatro horas, com duas paredes de água de ambos os lados. Assim que o vento parasse, o caminho teria ficado alagado.”

              Em Veneza não existe o tal vento, portanto foi necessário o recurso da engenharia civil, certamente mais eficaz e duradouro.

              Para conter as marés de tempestades, a instalação de 78 comportas metálicas submersas deverá impedir as três entradas da laguna de Veneza. Elas são retrácteis e, quando necessário, sobem até à superfície para evitar que a água do Mar Adriático inunde a cidade. Este é o maior projecto de infraestruturas da Itália, para dividir o mar e salvar Veneza.

              A barreira referida foi testada pela primeira vez em 2020, já com efeitos positivos – Mose impediu as inundações da tempestade Alex.

              Como estamos em Viana do Castelo, Espinho, Figueira da Foz, Lisboa e Vila Franca de Xira? Esperamos tranquilamente até 2050?

Publicado em NVR 26/05/2021

22 maio, 2021

O CASAMENTO WILDE


"O CASAMENTO WILDE"

Realizador: Damian Harris,

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20 maio, 2021

LIVROS

 

LIVROS         

            Ainda não sabia ler e já via a História da Carochinha, num livro de tecido da Majora Editora e como tinha imagens, as letras sempre se posicionavam direitas. Foi assim que os livros começaram a fazer parte da minha vida.

            Entrei para o mundo da leitura através da ilustração, fui devoradora dos livros de banda desenhada, naquela época em que diziam que a banda desenhada escrita em brasileiro não era aconselhada, porque passaríamos a escrever mal o português. Como naquela época eu falava Lusumbundu ou Angolês, não foi um factor determinante na minha formação.  Fui fã do casal Maga Patalógica / Mancha Negra, do Peninha e do Biquinho e obviamente do Super-Homem.

            O livro sempre foi uma companhia e um cúmplice do meu relaxamento.  Tenho a mania de ler em vários lugares e sempre que viajo, preocupo-me com o que quero ler, para colocar de imediato, o livro na mala, evitando esquecimento de última hora. Nunca consegui adormecer sem ser aconchegada entre as palavras escritas, que formam a ante-câmara dos braços de Morfeu. E confesso, sou daquelas que fico a segurar o livro após adormecer até as minhas tendinites reclamarem. Também dobro as folhas no canto superior. Que escândalo! é verdade. Sou uma leitora desorganizada que nem sempre tem um marcador de livro junto de si.

            Tive uma fase de deslumbramento, quando na entrada na idade adulta descobri a escrita de Simone de Beauvoir e do surrealista de Boris Vian, aquilo era outro nível! Éramos 3 amigos, que em qualquer lado, nos sentávamos a ler e depois passávamos horas a trocar opiniões sobre o que liamos, construindo uma leitura mais reflexiva.

            Pertenço àquele grupo um pouco “disléxico” que quando pega pela primeira vez num livro, o abre no fim e começa a folhear do fim para o princípio. Assino com o livro na horizontal e por vezes escrevo a data em que terminei a leitura, na última página.

            Tenho uma amiga que escrevinha tudo o que lê e já me disse, que antes de morrer, quer destruir todos os seus livros devido à escrita paralela e comentada, que certamente revelará muito de si.

            Raramente escrevo nas margens dos livros, recentemente sublinho algumas frases quando as palavras se harmonizam de forma poética e criativa; curiosamente são sempre autores portugueses. A propósito, na poesia, só leio autores lusófonos. Só as palavras portuguesas me emocionam.

            Gosto de cheirar um livro novo, mas confesso que já não o faço, num livro já lido por outra pessoa, imaginando a pegada de outro leitor, entre linhas, alterando o odor original. Detesto quem molha o dedo com saliva para folhear. Não gosto de ler um livro duas vezes, para mim, a leitura deve progredir para um final desconhecido. Também não gosto de badanas... são manias.

            Não gosto de livros de autores orientais, porque tenho imensa dificuldade em memorizar os nomes das personagens.

            Conforme avanço na idade, começo a apreciar um livro com letras maiores!!! Letras gordas, como dizem, não cansam a vista.      

            Tenho livros especiais – o de tecido, os sensoriais, o de braille, o livro objecto, o livro musical, o livro das letras 3D, o livro espelho, o livro xadrez, o livro reflexos, o livro do tempo, os pop up books, os string books, e flipbooks (lamento vão informar-se na web), o livro das horas, o livro quadro, os livros sem bonecos, os livros de ilustração cientifica, os livros de arquitectura, os livros de fotografia, os livros de animais, os de humor, os livros de filosofia... tenho um livro com as dimensões de 4X4X4 sobre o Mar e tenho um, ainda mais minúsculo, um mini dicionário de Francês-Português. Depois tenho todos os livros do Lobo Antunes e do Jorge Amado... porque sim!  e um diário com poucas folhas escritas, que parece um livro secreto com chave e aloquete.

            O aspecto gráfico do livro é muito importante. Tenho um livro que é uma obra de arte das artes gráficas. Não é propriamente um livro... é o catálogo da exposição “Fernando Pessoa - Plural como o Universo", que ocorreu na Fundação Calouste Gulbenkian em 2012. É um prazer apreciar a composição gráfica de cada página.

            Gosto de livros em papel mate. E gosto de livros assinados pelo autor. A mais bonita assinatura que tenho, pertence a Ondjaki, que assinou desenhando uma flor, tão feminina e tão carinhosamente dedicada a mim.

            Quando era criança, tinha os livros para colorir, há alguns anos criaram os moleskines, tão bonitinhos.

            Já escrevi um livro e já ensinei a fazer um livro gigante, onde cada folha era um lençol, permitindo às crianças deitarem-se dentro dele.

            Os livros para além de servirem para ler podem ter outras utilidades. Quando um livro já não nos interessa, ou já está ultrapassado, podemos reutilizá-lo como um volume objecto. Há dias a perna de uma cama partiu, e a enciclopédia britânica deu-me muito jeito para calçar a cama enquanto o carpinteiro não a veio restaurar. As páginas amarelas, dão para fazer cartuxos para as castanhas assadas no S. Martinho e para fazer verdadeiras esculturas com aproveitamento do livro aberto ou para fazer art quilling. Lembro-me de uma peixeira que vendia sardinhas e embrulhava-as nas ditas páginas com números de telefone.

            Há livros amaldiçoados – não descansei enquanto não li o livro de São Cipriano, passando rapidamente da expectativa juvenil à decepção. Antigamente havia livros proibidos, porque poderiam pôr em causa o regime político – convinha manter um povo ignorante e adormecido.

            Maio costumava ser o mês da feira do livro. Quando vivia no Porto aguardava com muita ansiedade esta feira, localizada no Palácio de Cristal, na Boavista ou nos Aliados. Passava por lá várias vezes, o dinheiro não abundava e escolhia criteriosamente o que comprava e lia compulsivamente. Até forrava as capas com plástico. Hoje compro livros ao longo do ano, e vão ficando em fila de espera até surgir a oportunidade da leitura.

            Há dias li “O vício dos livros” de Afonso Cruz, onde refere que Gabriela Cabal, pensa que os livros afastam a morte, ou seja, se estivermos a ler, a morte entretém-se a ver o que estamos a ler e distrai-se. Estou com sorte porque tenho sempre livros a meio, cuja conclusão vai sendo adiada Segundo esta teoria isso irá favorecer a minha longevidade. Lendo, vivemos mais do que uma vez, porque vivemos a vida descrita de cada personagem.

            Como trabalho numa biblioteca já encontrei várias coisas no interior dos livros – lembretes, poemas de amor, amores-perfeitos e papoilas meio secos, uma fita azul bebé, uma folha dobrada da publicidade de um supermercado, o recibo de compra, um cartão de cidadão, um desenho infantil...

            Um livro nunca se empresta, porque normalmente há dificuldades de retorno. Prefiro dar, do que emprestar. Odeio perceber que me falta um livro, e já nem sei a quem emprestei. Gosto que me ofereçam cheques para adquirir livros.

            Aprecio filas duplas de livros em estantes. O reencontro é sempre agradável. Tenho livros organizados por alturas, por épocas, por assuntos, por autores e finalmente livros desorganizados... daqui se conclui que os meus livros habitam o caos. Depois tenho os livros em PDF, uns legais outros clandestinos, recolhidos na ilusão que iria aliviar a minha bagagem nas férias... só teria que levar o tablet... descobrir que enjoo a ler num tablet, e não me consigo aconchegar às palavras digitais – inquieta-me que o tablet possa escorregar das minhas mãos e partir as palavras.

Publicados em NVR 19/05/2021


18 maio, 2021

DRESS A GIRL


Estou neste projecto desde Outubro de 2018. 

Vestir meninas e meninos carenciados por esse mundo fora é o objectivo.

Isto funciona porque é uma cadeia e faço parte dela.

Uns opinam, têm intenção de.... e nós fazemos ou arranjamos condições para se fazer.

Ver aqui

13 maio, 2021

URIAH HEEP

 


Hoje alguém me recordou esta música. Grata. 

12 maio, 2021

O FATO QUE NUNCA VESTIMOS

 




momentos simbólicos e marcantes

há 4 anos numa data com significado, entretanto já saiu o segundo volume e o terceiro está pronto para sair.

11 maio, 2021

ESCRAVIDÃO

 


ESCRAVIDÃO

          A escravidão existe desde há milhares de anos. Constituía uma prática comum e banal, o ser humano assumir propriedade sobre outro ser humano, este último, denominado por escravo. Este, ou era transacionado como um bem material, uma mercadoria em melhor ou pior estado, ou era usufruído por ser um prisioneiro de guerra. O proprietário poderia vender, comprar, agredir, trocar e dispor essencialmente como mão-de-obra completamente gratuita. As transações faziam-se como se de um animal se tratasse, apreciando a idade e a saúde através dos dentes, da musculatura, das mãos e dos pés. Os velhos eram velhos, transportavam doenças, sofriam de artrite e nada valiam – aliás, o período de validade de um escravo africano que trabalhava nas plantações das Américas era de 5 anos, aos 30 anos estavam “gastos”. As mulheres eram duplamente usadas, no trabalho e na reprodução.

          O comércio de escravos, uniu continentes; África era o grande abastecedor do mundo, não só através dos colonizadores, mas também de bolsas de comunidades negras onde era praticada e explorada em continuidade.

          A escravidão era algo aceite pela sociedade, todos pareciam viver bem com isso, excepto os escravos, obviamente. O facto de serem pagãos facilitava o acto de contrição das religiões mais humanistas, tornando a escravidão      mais justa perante Deus. Pensavam eles. No século XV, a Igreja Católica condenou a escravidão – algo apenas teórico, sem efeitos práticos, visto que no Brasil até ao século XIX, a Ordem dos Beneditinos era uma das maiores proprietárias de escravos.

          Em Portugal, no século XV atingiu-se o auge desta prática.

          Portugal foi o primeiro país abolir a escravatura. Quando aprendi isso na escola, fiquei toda orgulhosa, porque no meu espírito infantil, não cabia o conceito de se ser dono de alguém, porém, esqueceram-se de me informar que Portugal foi um dos grandes países do atlântico a fazer comércio global de escravos vindos de África e que entre 1450 e 1900, terá traficado cerca de 11 milhões de pessoas.

          Escravatura...

          A abolição da escravatura foi iniciada de forma muito rudimentar pelo Marquês de Pombal e só se concluiu, de facto, a meio do século XIX.

          Todos os relatos que nos chegaram até aos nossos dias são epopeias de sofrimento, sadismo, horror e desumanização, completamente inconcebíveis na contemporaneidade (será?), muitas vezes associando escravidão com Inquisição.

          Transcrevo para múltiplas refexões:

[O padre encarregue do processo ainda lamenta não ter chegado mais cedo ao local do crime. "Conheço muito bem as manhas dos escravos” – diz ele nos autos – “eles fecham a boca para deixarem de respirar e morrerem. Se tivesse chegado mais cedo, chegava-lhe fogo à boca, ela era obrigada a respirar e não morria.”][1]

          Outras formas de escravatura surgiram e evoluíram. Homens e mulheres, rapazes e raparigas, vivem situações de grande  vulnerabilidade, são vítimas de tráfico humano, servidão, trabalho forçado, trabalho infantil, casamento forçado, exploração sexual, exploração para pagamento de dívida, bem como outras formas de exploração - crimes que indignam e envergonham a nossa condição de seres humanos.

          E o problema não é dos outros... é de cada um de nós! Cada um, quando nasce, conquista a oportunidade de viver uma vida segura e livre. É impensável que um ser humano possa negar a outro humano esses direitos básicos utilizando o medo, a ignorância e a clandestinidade, para explorar, enganar, limitar as suas acções física e psicológica.

          Em Portugal, entre 2014 e 2015, o Observatório do Tráfico de Seres Humanos, do Ministério da Administração Interna, sinalizou 193 presumíveis escravos e deu conta de 40 condenações de traficantes. E o que foi feito?

“POR QUE LUTAMOS CONTRA A ESCRAVIDÃO MODERNA

No Walk Free, lutamos para que os silenciados recuperem as suas vozes. Há quem diga que o problema é muito difícil, que existem questões mais urgentes ou que este é um desafio a ser resolvido pelos governos. Acreditamos que nada é mais importante do que a vida humana. Podemos e devemos fazer tudo ao nosso alcance para acabar com a escravidão moderna.”[2]

          Este mês, fomos desagradavelmente “surpreendidos” por mais um foco que denuncia práticas de escravatura em Odemira. Quantos outros haverá? E nós preocupados, com proteção de dados, liberdades individuais, audiências, futebol.... a Cimeira Social Europeia a realizar no fim de semana no Porto, irá ignorar esta problemática?



[1] https://rr.sapo.pt/2017/03/25/pais/a-ultima-escrava-portuguesa-morreu-em-lisboa-nos-anos-1930/noticia/79112/

[2]https://www.walkfree.org/

levei-te flores




 levei-te flores.

amarelas.

a cor que nos ilumina através dos raios solares oferecendo-nos energia e vida. A cor do ouro, da eterna juventude e do poder divino.

a cor da minha saudade.

levei-te flores singelas para junto do sítio onde repousas.

numa dimensão qualquer do tempo e do espaço, sorris.

07 maio, 2021

ESPLANADA, nome feminino

 


ESPLANADA, nome feminino

1. Terreno descoberto. 2. Planura, planície. 3. Chapada. 4. [Fortificação]  Terreno plano, largo e descoberto, na frente de fortificações ou de um edifício. 5. Lugar ao ar livre com mesas e cadeiras onde se come ou se tomam bebidas, refrigerantes, café, etc.

Consultei o dicionário e seleccionei o 5. 

O que nos diz a História sobre esplanadas? Estar na esplanada parece ser hábito recente, com menos de 100 anos. Antes, os cafés e restaurantes dispunham apenas do seu espaço limitado, definido no seu interior; espaço fechado, pouco arejado por vezes, protegido do sol, da chuva, do vento e do arejamento, onde a iluminação artificial reinava, assim como o frúfrú dos cetins, tafetás e organzas das toilettes das senhoras, cujos odores se misturavam numa orgia sem fim, entre o mofo, o perfume, a nafetalina, a gordura da cozinha, o tabaco, o café, o sabão e a cera.

Só após a 2ª Guerra Mundial e perante os consumidores teimosos e desejosos de sol e de paz, é que os serviços de restauração foram abandonando o conceito conservador e bafiento do espaço fechado, mal arejado, tantas vezes o espelho do país politicamente fechado e sombrio, como era o nosso - um país de grande território, mas fechado à inovação e à autonomia, sombrio, porque triste, desconfiado e ”orgulhosamente só”. Todos temos a memória dos pequenos tascos, que para além de fechados, pequenos, sombrios também tresandavam a vinho, porém, onde era frequente comer-se um escabeche delicioso. Os consumidores foram exigindo novos espaços mais adaptados às estações do ano, beneficiando do clima maravilhoso que tem o nosso país, permitindo mais de seis meses de temperatura agradável para "esplanada" – algo mais assertivo com a cultura mediterrânica, que por muitos anos esteve arrumada na gaveta. Aqui, o sol tisnava a pele dos trabalhadores das encostas do Douro, nas grandes cidades europeias, usufruía-se do sol em qualquer recanto. Pensando bem, o que faltava, na verdade, era tempo de lazer e ultrapassar a barreira do recato. Esta forma de viver a vida, saindo do interior de quatro paredes, foi retratada por vários pintores, em registos famosos. Cadeiras fora do café em fila estreita, em passeio esguio já as havia desde o século anterior, especialmente numa Lisboa envergonhada e amordaçada, mas esplanadas é algo de coração maior, de espaço amplo de rua e múltiplo que cabe, repartindo-se, em muitos sorrisos.

Um dia o país sombrio colapsou, os retornados e refugiados invadiram-no desejando sol e replicar um pouco a qualidade do lazer que traziam das colónias tropicais… e bem mais tarde, surgem os turistas, muitos deles provenientes do norte da Europa, com sol rafado todo o ano e muito disputado entre todos.

 Esta liberdade de se estar, olhar à volta sem barreiras, de namorar os recantos da cidade, de ver e ser visto, de deixar a manhã espreguiçar-se no sabor de uma torrada, deixar a tarde correr sem tempo, mergulhar na luz dourada dos finais do dia e transitar para a noite tépida, até os amigos se lembrarem que têm que ir para casa, é dar mais sentido à vida, e mais significado aos pequenos prazeres.   

A pandemia retirou-nos esse prazer. Nunca tínhamos percebido que sentar numa esplanada e soltar o olhar, enquanto se tomava um café ou se saboreavam umas batatas fritas, que seria um prazer tão grande. Só agora percebemos este pequeno grande prazer que fazia parte das nossas vidas. Teremos esse prazer de volta e deveremos cuidar-nos para que permaneça.

Não me interessa se ainda corre um arzinho fresco, se tenho ou não um guarda-sol a proteger-me, vou sentar-me nas esplanadas que frequentava e todas as outras que irei conhecer, vou semicerrar o olhar e tentarei confessar-lhes o meu amor. 

Oublicado em NVR, 5/05/2021

06 maio, 2021

Escada

 

O gozo da matemática e da geometria. Já desenhei algo parecido. Tudo tem que bater certinho, caso contrário parece obra do arquitecto do Asterix.


A RAPARIGA DINAMARQUESA

 



A rapariga dinamarquesa
Realizador: Tom Hopper
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03 maio, 2021

02 maio, 2021

30 abril, 2021

28 abril, 2021

CHRISTOS SANDALAKIS

 


Christos Sandalakis

 

            Hoje vou falar-vos de uma publicidade que passa na televisão sobre uma operadora de telecomunicações.

            Fiquei absolutamente emocionada ao ver um invisual a descer uma montanha pedalando numa bicicleta. Tive curiosidade e fui investigar sobre aquele atleta. Descobri ser um atleta grego, para-olímpico, Christos Sandalakis. Nasceu com uma doença rara e perdeu 99% da visão e como é um lutador e um entusiasta, converteu-se num atleta de paraciclismo em pista.

            O seu último desafio foi descer uma montanha, sozinho, pedalando uma bicicleta, orientado pelo seu parceiro desportivo e piloto, Sotiris, utilizando a tecnologia 5G, em tempo real.

            Chamo a isto um exercício de segurança e de confiança. Nunca a expressão “confiança cega” fez tanto sentido. Christos Sandalakis, cego, confia completamente no seu companheiro Sotiris que vê… é que se algo falha, é tombo pela certa a alta velocidade, podendo ser mortal. Quem confiaria assim em alguém?

            O companheiro desportivo assume a função de orientador com a maior segurança do mundo, consciente da grande responsabilidade que isso implica; tem a vida do companheiro nas mãos, outra expressão que faz aqui todo o sentido.

            Com uma câmara de vídeo do telemóvel aplicada no seu capacete, com ligação áudio e vídeo através da tecnologia 5G ao seu parceiro, que consegue ver a estrada no centro de controlo instalado numa carrinha e emite instruções claras e rigorosas, como se pensasse alto e estivesse a pedalar.

            vai,vai, vai, trava, trava, trava, curva para a esquerda, vai, vai

            Christos sendo o receptor, converte as instruções na sua condução, em equilíbrio e em velocidade. Parece fácil, mas não é, a tecnologia torna possível o quase impossível, mesmo assim envolve um grande risco. A falha de um segundo pode correr mal para o atleta. Inicialmente pensei que se tratava de um evento virtual, mas estava enganada. O percurso tem pendente acentuada, onde a força de gravidade acelera a bicicleta, e possui curvas todas diferentes umas das outras, onde o ciclista tem que contar com a sua postura para contrariar a força centrífuga. Apesar de ser uma leiga no assunto, foi isto que li nas imagens que já correram o mundo.

            A deficiência visual é algo que me sensibiliza imenso e foi muito bom ver o rosto do jovem a cruzar a chegada, o sorriso de felicidade vitoriosa que testemunha muitos anos de treino e a confiança plena nos olhos, no raciocícnio, nos reflexos e nas palavras do seu companheiro. A principal dificuldade de um invisual é exactamente a locomoção em autonomia.

            Às vezes, experimento aqui em casa, caminhar às escuras ou de olhos fechados e consigo perceber como é difícil o equilíbrio, a orientação, a noção das distâncias entre aquilo que nos rodeia, o conhecimento do piso onde caminhamos, e o efeito do som que passa a ter outro timbre. Quem nunca o fez experimente durante trinta minutos. O tacto passa a ter outro valor e dimensão no meio da escuridão da nossa visão, permitindo detectar obstáculos e evitá-los. Gerir toda esta informação sem o auxílio da visão é um cocktail emocional e racional, que neste caso é bem-sucedido graças ao empenho e a muitas horas de treino desta dupla de atletas, que merece a nossa atenção e interesse, porque novos desafios se seguirão.  

            “A sensação era indescritível quando cheguei sozinho à linha de chegada! Percebi que o que passei não foi só a finalização, mas o início de um amanhã cheio de novas possibilidades ”, disse animado o atleta Christos Sandalakis, após a conclusão do percurso (Janeiro de 2021).

Publicado em NVR 28/04/2021

24 abril, 2021

23 abril, 2021

PEGADA DIGITAL E ÉTICA

Pegada digital e ética

            Pegada digital é a impressão inscrita na web, que vamos deixando quando navegamos pelo ciber espaço. Parece que nos movimentamos com um papel químico nos nossos pés virtuais. Tudo fica registado, para o bem e para o mal, lá fica entre os hiper, mega terabites de utilizações, e sempre aparece aos mais competentes investigadores da web.

            Nunca me preocupei muito com isso, quem não deve não teme,  sempre utilizei a net como local de recolha e partilha de informação, orientadas pelo bom-senso, racionalidade, oportunidade e responsabilidade.

            O que se escreve lá, lá fica e os esquemas para preservar a nossa privacidade virtual, são uma utopia porque tudo lá fica. Todos nós temos uma pegada digital, maior ou menor, mas temos. Tanto faz ser um navegador activo, como passivo, tudo deixa pegada. Os seus dados são gravados, que visitas faz, quanto tempo durou cada visita, para se poder construir um quadro com as suas preferências que irão antecipar a sua navegação sob a forma de sugestões ou de publicidade.

            Se escrever alarvidades que o envergonhe, é melhor pensar melhor antes de escrever, porque irão ficar registadas para sempre. Se está no trabalho e anda a navegar nas redes sociais, qualquer um detecta o horário em que o faz, se insulta alguém covardemente disfarçado pelo manto invisível digital e do distanciamento, o seu computador deixa rasto em todo o sitio e pode ser investigado, mediante uma denúncia policial.

            Há jovens que escrevem nas redes sociais, de palavrão para cima e depois, admiram-se que nas entrevistas para o emprego, não sejam seleccionados. Ninguém quer contratar um animal mal-educado. De facto as empresas já investigam a pegada digital dos seus futuros funcionários, antecipando problemas ou estudando o perfil que mais lhes convêm.

            Há outros que receiam tudo e mais alguma coisa, rodeiam-se de todos os cuidados, evitando escrever seja o que for, colocar uma foto na net, nem pensar, e navegam como mirones e no fim apagam o histórico, como se andasse a polícia atrás deles. Pode acontecer isto ou aquilo, conheço uma fulana…, o individuo parece que…, roubo de identidades, raptos, roubos, nudes… trancam-se no seu canto, só com os olhos de mirones a funcionar, antevendo o pior. Há manigâncias na internet tal como existem na vida real, repletas de imaginação – os negócios maravilhosos da Cristina Ferreira X Berardo, os nudes retocados e alterados, as escravas sexuais que precisam de ajuda, o viúvo da marinha mercante que nos ama loucamente e nos virá visitar ou o outro que é podre de rico, que vive num país qualquer, cujo regime político o persegue e precisa da nossa conta bancária para depositar parte da sua fortuna. E existe o lado mais obscuro da internet, denominado por darknet, mercado negro constituído pelos negócios da pornografia, drogas, pedofilia e terrorismo. Tal como na vida real há que escolher com critério, qual é o seu caminho.

            A web veio para ficar, não adianta fugir. Convêm investir na ética digital, siga estes princípios:

1 – evite espalhar notícias falsas; 2 – respeite opiniões diferentes e o trabalho dos outros; 3 - faça um uso responsável das ferramentas que a net lhe proporciona; 4 – respeite quem está do outro lado; 5 – não acredite em negócios com lucros fabulosos; 6 -  filtre tudo no seu sentido crítico mais apurado; 7 – não apoie comentários agressivos. 

Publicado em NVR em 21/04/2021

18 abril, 2021

A desconstrução


 Quando desconstróis o mundo e encontras novos e maiores encantos, interesses e saberes. Por vezes é necessário romper com a realidade e as maçadoras rotinas, para reoganizar o nosso mundo interior e ser mais feliz. 
Verás que para além das 3 cores primárias tão redutoras, o mundo é rico em muitas mais cores e infinitas tonalidades. Descobres que para além do muro do teu quintal, existe mais mundo e que está à tua espera, pronto para te renovar e para te fazer renascer. Então percebes, a relatividade daquilo que te afecta. Quem não te atribuiu valor, afinal nem te interessa nada e que o teu caminho está traçado e bem estruturado. 
A empatia com cada hora de vida é absolutamente urgente, e as minha entropias apenas a mim pertencem. Sigo quem me consegue surpreender pela positiva, todos os dias.
O resto é mesmo o resto, a ganga e os resíduos. 

15 abril, 2021

14 abril, 2021

ESCOLA DA BANDIDAGEM

ESCOLA DA BANDIDAGEM 

 “Falta de coerência”, “especulação” e “fantasia” foi assim que tudo terminou numa sexta-feira, perante uma justiça quântica (1), yeah.
    Às vezes dá vontade de enveredar pela brilhante carreira de bandido. 
    Penso imensas vezes nisso, em vez de andar a ensinar aos meus alunos como ser um cidadão activo, honesto, interveniente e sempre com uma postura de respeito pelo outro, deveria ensinar como viver à custa dos outros, como desenvolver a retórica e como passar entre os imensos e estranhos fios condutores que existem no mundo da justiça, para gamar e não ser condenado. 
     Fazer-lhes ver que podemos sempre contar com um amigo rico que nos pode sustentar e bem, e que se estudarmos muito, podemos ainda melhorar o nosso conhecimento sobre bandidagem. 
    Ensinar-lhes a verdadeira História que interessa, queimando as pestanas a partir do Barrabás símbolo do mal, adoptado no cristianismo, Al Capone, D. Corleone, Bonnie and Clyde, Ma Barker, Carlos o Chacal, Alves dos Reis e todos os mais famosos que se seguem… não faltam exemplos de sucesso. 
     Ensinar-lhe a diferença entre furto, roubo, assalto, desvio de capitais, corrupção, para que eles percebam de uma vez por todas, que é demasiado arriscado furtar um chocolate no Lidl; quando se “retira”, deve ser à grande, após estudar bem os caminhos da justiça. 
    Os alunos devem perceber muito bem o que é o crime de colarinho branco, se possível fazer trabalhos de pesquisa, usando aquelas metodologias pedagógicas que reforçam a aprendizagem e o conhecimento, para a “coisa” entrar na cabeça e permanecer ao longo da vida – ou seja, o método cientifico ao serviço da vilanagem.  
    Os futuros vilões devem perceber que se podem especializar, a um nível superior… nem sempre pegar no revólver e sacar guito no comboio, roubar o telemóvel dos incautos ou pegar de esticão a bolsa da velhinha, são as melhores opções, isso é como roubar o pirolito do colega, no tempo em que ainda usava calções! Pegar numa pá e abrir um túnel até à Caixa Forte do Tio Patinhas, só mesmo os Irmãos Metralhas nas histórias de quadradinhos, porque a malta fica a suar, cheia de pó, chateia-se, respira mal, fica com falta de ar, lesiona a coluna vertebral e no final tem que se ir para a fisioterapia… Por isso há aquela palavra, “ESTUDASSES”, quando é evidente a ingenuidade transformada em má opção. É preciso estudar muito e pôr os neurónios a trabalhar – para escrever sobre isto, também tive que fazer a minha pesquisa rudimentar, porque nem sabia quem eram os maiores, os mais famosos, e quem foi preso mais vezes, já que não aprendi nada disso, na escola tradicional.
     Agora não se veste fato de macaco para abrir túneis, agora veste-se Armani, Valentino, Gucci, Dior, Versage, Prada… marcas que não se vendem na feira de Lordelo, e sim na loja mais cara do mundo, na Bijan que fica em Rodeo Drive, Beverly Hills e onde se poderá cruzar com algumas figuras mediáticas. 
     Sejam ambiciosos, meus alunos!
     Há todo um aprendizado bem estruturado e holístico a realizar na escola, urgentemente, capaz de dar luz às gerações do futuro. Desenganem-se é preciso estudar línguas, matemática, física, filosofia, TIC, desenho… para de facto entender, ingressar e estabelecer-se com sucesso no mundo da vilania. Quem não o fizer, fica pelos chocolates do Lidl, ou outros pequenos furtos que podem dar pena grave e pesada. Sem estudo nunca poderá ser um bom traficante, e nunca retirará a fisga do bolso das calças. 
     Não vale a pena arriscar acto pequeno e ridiculo de subtrair aos outros. 
     Aquela ilusão romântica de roubar aos ricos para dar aos pobres, está absolutamente ultrapassada! Roubar aos pobres, de forma camuflada, para viver à rica, isto sim, isto deve ser o foco das aprendizagens, do desenvolvimento de competèncias, na verdadeira Escola da Bandidagem do século XXI. Seguir modelos do Robin dos Bosques ou do Zé do Telhado isso é leiturinha infantil, joguinho para os que estão ainda a iniciar a sua alfabetização, ou seja, as criancinhas do pré-escolar. 
     É urgente substituir os cenários de aprendizagem bonzinhos por cenários da canalhice real, que existem na sociedade, e são muitos, para que os futuros bandidos não se queixem que lhes foi imposto na Escola um saber demasiado académico. É preciso pensar, criar estratégias de burla para depois, aprender a sacar, desviar, lavar, branquear, abusar da confiança, falsificar e dominar os media – estas são as literacias do gamanço sofisticado, que todos os meliantes devem ter e desenvolver. 
     Atenção aos prazos, para quem se desagrada pelos números. Fazer pisca e conseguir ultrapassar os prazos pela direita, é uma manobra fantástica. 
     Preparem-se, porque também é preciso dominar alguns truques de magia – como transformar crimes em erros judiciais, corruptos em mártires, fraude fiscal em contabilidade organizada, empréstimo em saldo positivo, e uma prova em não prova – mas isso a justiça portuguesa dá uma ajudinha.

 “Eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada” (Zeca Afonso) 
                    ou 
“É sexta-feira | Suei a semana inteira | No bolso não trago um tostão | Alguém me arranje emprego | Bom Bom Bom Bom!”(Boss AC)

Publicado em NVR em 14/04/2021
(1) Ricardo Araújo Pereira.

13 abril, 2021

09 abril, 2021

Como vais Jacinto?

Como vais Jacinto?

 

              Numa sala de jantar organizada segundo a tradição, onde tudo deveria estar no sítio certo, reinava o silêncio modorrento de uma tarde soalheira, matizada pelos tons quentes da decoração, mistura cromática queirosiana, feita de cortinas e tapetes carmim, com os raios de luz projectados através das janelas que davam para o jardim da entrada.

              De franja, com duas trancinhas e de soquetes brancos, eu e o meu pai, de mão na mão, aguardávamos o senhor doutor.

              Aguardávamos em silêncio, estávamos numa casa de saúde, onde o barulho não era permitido e todos caminhavam com pés de veludo. O silêncio era enriquecido pela localização dessa grande casa, mistura de casa de quinta e clínica, na periferia da cidade de Vila Real. O barulho urbano mais persistente, que eventualmente chegava até lá, seria resultante do motor de algum carro de aluguer, conhecido como carro de praça, que transportando alguém necessitado de cuidados médicos, na falta de um hospital decente e público, percorria o estreito caminho de acesso e finalmente estacionava no jardim, dando seguimento à sinfonia do silêncio reinante, que se estendia até ao rio Corgo.

              Ouvia-se o nosso respirar recortado de forma regular pelo pêndulo obediente do relógio de sala. O tic, tac, tic, tac, tic...,

                                          ia embalando a minha consciência, desconfigurando o tempo, deformando a noção dos minutos que passavam, mas oferecendo-me um grande aconchego hipnótico, que perdurou até hoje na minha memória.

              Antes de conhecer o Dr. Otílio, foi-me apresentado o seu auto-retrato, localizado numa das paredes dessa sala, entre aparadores e vitrines. Com três anos de idade, achei o seu retrato, quase à escala natural, uma pintura gigante. A figura do médico, de bata branca, acompanhada pelos inseparáveis bigodes e cabeleira, indomáveis, era maior do que todas as representações pictóricas que eu tinha conhecido durante a minha curta existência. Aproximei-me, pus a minha mão de petiza, admirei cada pormenor. Achei o doutor simpático, mas escondi a minha chupeta cor-de-rosa, como medida de precaução — diziam-me que os senhores de bigode não gostavam de chupetas, na esperança de eu ir largando esse vício infantil.

              Continuei a observar a tela, as pinceladas, as texturas,…  mas eu tinha que olhar para cima e não chegava com a mão ao seu rosto.

              O meu pai pegou-me ao colo. Dei-lhe a chupeta para guardar no bolso, pois achava que seria mais seguro ser o meu pai a guardar o objecto de tão preciosa dependência, já que ao colo estaria ao nível dos bigodes do doutor — não fosse acontecer alguma surpresa com esse pedaço de parede que tinha bigodes e que era tão semelhante à realidade.

              Tic, tac,... tic, tac,... tic,...

              — Não mexas no retrato! O senhor doutor foi quem pintou o seu próprio retrato — disse o meu pai. — Ele pinta muito bem, podes olhar, mas não deves mexer.

              — Mas ele é médico, trata os “dói-dóis”!? — surpreendi-me, não conseguindo conciliar, no meu raciocínio infantil, estetoscópios, pincéis e tintas. A bata branca deveria ter alguma utilidade: eu veria as minhas irmãs a usar bata no colégio, mas isso seria uns meses mais tarde.

              Usava a bata branca porquê? Como é que ele pintava e olhava para ele mesmo? Ignorava os truques dos adultos na reflexão das imagens através de um espelho. O meu pensamento tinha dificuldade em gerir toda esta informação com a preguiça e sonolência inconscientemente resultantes da combinação infalível do calor, ao compasso do tempo emitido pelo relógio de sala e do aconchego do colo confortável do meu pai.

              Talvez tenha adormecido, ou a memória engoliu o tempo e as imagens da restante espera, misturando-os com outras esperas na mesma sala, ocorridas noutros dias e com outros propósitos. Não sei...

              — O Otílio já vem aí! Então pequenita, queres um rebuçado? — perguntava-me uma simpática senhora de cabelo armado e bem penteado, que sorria para mim e que tinha ido avisá-lo da nossa presença.

              — Não obrigado, ela não quer — agradeceu o meu pai.

              — Quero, quero pois! — opus eu, manifestando uma total ausência de cerimónia perante a família que acabava de conhecer, deixando o meu pai desarmado, perante essa desobediência descarada.

              Passaram-me os rebuçados.

              — Agradece. Diz: obrigada prima Estela — ensinou-me o meu pai.

 

              Entretanto uma figura quase silenciosa assomou à ombreira da porta de mãos cruzadas atrás das costas. Os meus olhos curiosos fixaram-se imediatamente nos seus bigodes. Sob estes, emergia um sorriso afável, franco e quase do tamanho do mundo. Os seus cabelos eram revoltos, mas belos.

 

              — Como vais Jacinto?

 

              Abraçaram-se os dois, num abraço de reencontro de dois continentes, feito de algumas cumplicidades, que se repetiu muitas outras vezes, encerrando histórias antigas, vivências comuns, ideais de liberdade partilhados e outros assuntos, nessa época, vedados ao mundo das crianças.

              Dois homens com dois destinos, cujos caminhos se cruzaram diversas vezes. Ambos sérios, íntegros, inteligentes, bonitos e amantes da liberdade. Um licenciou-se em medicina e estudou no conservatório de música, o outro apenas frequentou a 4ª classe e tocava, de ouvido, uma gaita-de-beiços e um violão. Um teve infância e adolescência, o outro passou directamente da infância para a idade adulta, porque ficou cedo sem o pai — as diferenças do dinheiro, no tempo em que, quanto mais ignorante, melhor. Apenas a resiliência era qualidade que fazia vencer.

              Anos mais tarde descobri que se tratava de uma pintura de autoria de Heitor Cramez, e não um auto-retrato, mas as emoções não se alteraram.

In ”Ensaios de escrita: um projecto sempre adiado”, Anabela Quelhas (homenagem ao escritor, médico, músico, caricaturista e pintor Dr. Otílo Figueiredo) 19/09/2009

In "O fato que nunca vestimos" Anabela Quelhas 2017

08 abril, 2021

Um aparador que vive comigo


 Este aparador tem cerca de 100 anos. Viveu na casa dos meus pais e agora vive comigo.

Sempre foi presença constante no meu imaginário e já há muito que lhe dei entrada na minha casa para me fazer companhia, ser-me útil e para alimentar o imaginário do meu relembramento.

Chegou o momento de lhe fazer uma operação plástica, para que ele reassuma com algum orgulho a sua imagem.

A transparência dos seus vidros foram recriadas e inspiradas em Piet Mondrian. 

Sento-me sempre de frente para ele e agora deleito o meu olhar com um sorriso nos lábios... parece-me que ficou bem.

07 abril, 2021

ANITA E A PÁSCOA

 


A Anita e a Páscoa

              E então passaram bem a Páscoa?

              Desconfinaram os cabeleireiros e já foi muito bom. A raiz negra do meu cabelo loiro já era tão grande, que até parecia uma pintura californiana.

              Esta Páscoa, tal como a anterior, foi emocionante. Durante a Semana Santa em vez de visitar as igrejas, coloquei em busca no You Tube e fiz várias visitas às igrejas de Roma. Fartei-me de andar e sempre alapada no sofá. Também deve contar alguns pontos para entrar no Reino dos Céus…

              Transferi o repasto pascal da cozinha para a sala, onde costumava receber 14 pessoas e desta vez éramos apenas dois, cada um nas pontas da mesa enorme quase vazia, mas cheia de glamour e a falar um pouco mais alto, para podermos ouvir-nos e dialogar.

              Uma toalha adamascada amarela, pratos brancos, copos vitral roxo, talher dourado cumpriram a estética do Vaticano,  e agora um frasco de álcool junto ao prato, permitiu que cada um desinfectasse os talheres, o telemóvel ou as mãos.

              - Oh mãe desinfectaste a lata da coca-cola?

              - Oh mãe tás a tossir? Tu vê lá, tens temperatura, dói-te o corpo?

              - Oh mãe, viste o correio? Tinha uma encomenda? Veio da China? E tu abriste? Desinfectaste as mãos logo a seguir? Deixa-a de quarentena, sabe-se lá se transporta um viruzinho amarelo

              Em vez do habitual cabrito ou cordeiro, decidimos democraticamente, fazer umas entradas de covilhetes, seguidos de um bife à casa com batata frita e um pudim de sobremesa. Ou seja, uma refeição especial, igualzinha a todas as outras que se vão repetindo ao longo da semana.

              Eu não faço jejuns, mas fiz o sacrifício de degustar amêndoas de chocolate durante a semana toda, o que equivale por cada 10 amêndoas terei que andar na próxima semana, 10km na passadeira. Certamente isto vai valer um bónus celestial.

              - Oh mãe, o que vai ser o jantar?

              - O que quiseres, sugere algo especial. O quê? uma pizza, mas hoje é dia de Páscoa…

              Flores, no domingo de ramos, não recebi, os afilhados telefonaram-me e disseram, olha a florista está fechada e assim e assado, e eu fingi que acreditei, o que me permitiu fazer o mesmo no dia de Páscoa… pegar no telefone, meus afilhados queridos, as lojas estão fechadas e assim e assado... Serei sempre o reflexo dos outros.

              No início da tarde, fomos para a janela ver se alguém passava na rua. Fizemos apostas, eu apostei numa hora 5 pessoas, o meu filho 2 pessoas. Quem ganhar, lava a loiça do jantar. A nossa rua sofreu grandes melhoramentos, tiraram os automóveis e alargaram os passeios. Mas tal como todos os outros dias do mês e do ano, não passou ninguém naqueles passeios, portanto ficámos a olhar o vazio que existe até à casa do outro lado da rua e durante uma hora sem ninguém para contar.

              - Lavas tu a loiça.

              - Mas ninguém acertou…

              - 2 é mais próximo de zero do que o 5, portanto lavas tu - argumentei.

              - Mas o zero não existe, é um não número… sabes que 2  a dividir por zero é igual a infinito e 5 está mais próximo do infinito, portanto és tu mãe, que vais lavar a loiça.

              - Se 2x0=0 e 5x0=0, então 2=5, ou seja, eu lavo o meu prato e tu lavas o teu.

              - Tás a filosofar, isso não é um silogismo, é uma falácia, mãe! Tu ensinaste- me isso na filosofia.

              - Queres ir dar uma volta de carro? Só podemos circular no concelho… vamos até ao Alvão ver o mar de pedras. Para quê? para largarmos os jogos do telemóvel e esta conversa idiota. Vamos refrescar os olhinhos. Se demoramos?  Não, acho que não, é ir e vir.  Bora lá!

              Entrámos no carro, e o carro não pegou. A bateria finou-se. E agora? E agora teremos que esperar até amanhã, para ir comprar uma bateria nova.

              - Não queres comprar pela net? É mais barata, vem da China. Daqui a 20 dias já a tens cá.

              - Poupa-me e, entretanto ando de táxi… vamos ver um filme, daqueles pesados de Semana Santa, com muito sangue e muito drama para fazermos mais uns pontos celestiais.

              - Mãe, não há folar para comer ao lanche?

              - Então, na pastelaria escolheste folhados de salsicha!

              - Mas eu vejo um folar a sorrir para mim no interior deste armário…

              Uff que Páscoa, sentei-me na poltrona, e semicerrei os olhos.

              - Mãe, já dormes?

              - Não, diz.

              - Afinal o Judas, o que denunciou Jesus, é apóstolo ou não?

              - Não, foi demitido, e substituído por S. Paulo muitos anos depois.

              - Mas o Leonardo da Vinci pintou a última ceia com 12 figuras.

              - 11 apóstolos e Sta Maria Madalena ao lado de Jesus, supõe-se, para não estragar a estética da composição da pintura do Leonardo. 

              … coloquei os óculos escuros e sintonizei rapidamente a imaginação: Maldivas, pós-pandemia, por favor. Fingi adormecer, até arrisquei um pequeno ressono, antes que a conversa resvalasse para a Ressurreição de Cristo,  o Moisés a separar as águas do Mar Vermelho na fuga do Egipto ou até ao sacrifício de Isaac. Já tenho pontos até para troca!

Publicado em NVR em 7/04/2021 - Revoltando os dias