28 abril, 2021

CHRISTOS SANDALAKIS

 


Christos Sandalakis

 

            Hoje vou falar-vos de uma publicidade que passa na televisão sobre uma operadora de telecomunicações.

            Fiquei absolutamente emocionada ao ver um invisual a descer uma montanha pedalando numa bicicleta. Tive curiosidade e fui investigar sobre aquele atleta. Descobri ser um atleta grego, para-olímpico, Christos Sandalakis. Nasceu com uma doença rara e perdeu 99% da visão e como é um lutador e um entusiasta, converteu-se num atleta de paraciclismo em pista.

            O seu último desafio foi descer uma montanha, sozinho, pedalando uma bicicleta, orientado pelo seu parceiro desportivo e piloto, Sotiris, utilizando a tecnologia 5G, em tempo real.

            Chamo a isto um exercício de segurança e de confiança. Nunca a expressão “confiança cega” fez tanto sentido. Christos Sandalakis, cego, confia completamente no seu companheiro Sotiris que vê… é que se algo falha, é tombo pela certa a alta velocidade, podendo ser mortal. Quem confiaria assim em alguém?

            O companheiro desportivo assume a função de orientador com a maior segurança do mundo, consciente da grande responsabilidade que isso implica; tem a vida do companheiro nas mãos, outra expressão que faz aqui todo o sentido.

            Com uma câmara de vídeo do telemóvel aplicada no seu capacete, com ligação áudio e vídeo através da tecnologia 5G ao seu parceiro, que consegue ver a estrada no centro de controlo instalado numa carrinha e emite instruções claras e rigorosas, como se pensasse alto e estivesse a pedalar.

            vai,vai, vai, trava, trava, trava, curva para a esquerda, vai, vai

            Christos sendo o receptor, converte as instruções na sua condução, em equilíbrio e em velocidade. Parece fácil, mas não é, a tecnologia torna possível o quase impossível, mesmo assim envolve um grande risco. A falha de um segundo pode correr mal para o atleta. Inicialmente pensei que se tratava de um evento virtual, mas estava enganada. O percurso tem pendente acentuada, onde a força de gravidade acelera a bicicleta, e possui curvas todas diferentes umas das outras, onde o ciclista tem que contar com a sua postura para contrariar a força centrífuga. Apesar de ser uma leiga no assunto, foi isto que li nas imagens que já correram o mundo.

            A deficiência visual é algo que me sensibiliza imenso e foi muito bom ver o rosto do jovem a cruzar a chegada, o sorriso de felicidade vitoriosa que testemunha muitos anos de treino e a confiança plena nos olhos, no raciocícnio, nos reflexos e nas palavras do seu companheiro. A principal dificuldade de um invisual é exactamente a locomoção em autonomia.

            Às vezes, experimento aqui em casa, caminhar às escuras ou de olhos fechados e consigo perceber como é difícil o equilíbrio, a orientação, a noção das distâncias entre aquilo que nos rodeia, o conhecimento do piso onde caminhamos, e o efeito do som que passa a ter outro timbre. Quem nunca o fez experimente durante trinta minutos. O tacto passa a ter outro valor e dimensão no meio da escuridão da nossa visão, permitindo detectar obstáculos e evitá-los. Gerir toda esta informação sem o auxílio da visão é um cocktail emocional e racional, que neste caso é bem-sucedido graças ao empenho e a muitas horas de treino desta dupla de atletas, que merece a nossa atenção e interesse, porque novos desafios se seguirão.  

            “A sensação era indescritível quando cheguei sozinho à linha de chegada! Percebi que o que passei não foi só a finalização, mas o início de um amanhã cheio de novas possibilidades ”, disse animado o atleta Christos Sandalakis, após a conclusão do percurso (Janeiro de 2021).

Publicado em NVR 28/04/2021

24 abril, 2021

23 abril, 2021

PEGADA DIGITAL E ÉTICA

Pegada digital e ética

            Pegada digital é a impressão inscrita na web, que vamos deixando quando navegamos pelo ciber espaço. Parece que nos movimentamos com um papel químico nos nossos pés virtuais. Tudo fica registado, para o bem e para o mal, lá fica entre os hiper, mega terabites de utilizações, e sempre aparece aos mais competentes investigadores da web.

            Nunca me preocupei muito com isso, quem não deve não teme,  sempre utilizei a net como local de recolha e partilha de informação, orientadas pelo bom-senso, racionalidade, oportunidade e responsabilidade.

            O que se escreve lá, lá fica e os esquemas para preservar a nossa privacidade virtual, são uma utopia porque tudo lá fica. Todos nós temos uma pegada digital, maior ou menor, mas temos. Tanto faz ser um navegador activo, como passivo, tudo deixa pegada. Os seus dados são gravados, que visitas faz, quanto tempo durou cada visita, para se poder construir um quadro com as suas preferências que irão antecipar a sua navegação sob a forma de sugestões ou de publicidade.

            Se escrever alarvidades que o envergonhe, é melhor pensar melhor antes de escrever, porque irão ficar registadas para sempre. Se está no trabalho e anda a navegar nas redes sociais, qualquer um detecta o horário em que o faz, se insulta alguém covardemente disfarçado pelo manto invisível digital e do distanciamento, o seu computador deixa rasto em todo o sitio e pode ser investigado, mediante uma denúncia policial.

            Há jovens que escrevem nas redes sociais, de palavrão para cima e depois, admiram-se que nas entrevistas para o emprego, não sejam seleccionados. Ninguém quer contratar um animal mal-educado. De facto as empresas já investigam a pegada digital dos seus futuros funcionários, antecipando problemas ou estudando o perfil que mais lhes convêm.

            Há outros que receiam tudo e mais alguma coisa, rodeiam-se de todos os cuidados, evitando escrever seja o que for, colocar uma foto na net, nem pensar, e navegam como mirones e no fim apagam o histórico, como se andasse a polícia atrás deles. Pode acontecer isto ou aquilo, conheço uma fulana…, o individuo parece que…, roubo de identidades, raptos, roubos, nudes… trancam-se no seu canto, só com os olhos de mirones a funcionar, antevendo o pior. Há manigâncias na internet tal como existem na vida real, repletas de imaginação – os negócios maravilhosos da Cristina Ferreira X Berardo, os nudes retocados e alterados, as escravas sexuais que precisam de ajuda, o viúvo da marinha mercante que nos ama loucamente e nos virá visitar ou o outro que é podre de rico, que vive num país qualquer, cujo regime político o persegue e precisa da nossa conta bancária para depositar parte da sua fortuna. E existe o lado mais obscuro da internet, denominado por darknet, mercado negro constituído pelos negócios da pornografia, drogas, pedofilia e terrorismo. Tal como na vida real há que escolher com critério, qual é o seu caminho.

            A web veio para ficar, não adianta fugir. Convêm investir na ética digital, siga estes princípios:

1 – evite espalhar notícias falsas; 2 – respeite opiniões diferentes e o trabalho dos outros; 3 - faça um uso responsável das ferramentas que a net lhe proporciona; 4 – respeite quem está do outro lado; 5 – não acredite em negócios com lucros fabulosos; 6 -  filtre tudo no seu sentido crítico mais apurado; 7 – não apoie comentários agressivos. 

Publicado em NVR em 21/04/2021

18 abril, 2021

A desconstrução


 Quando desconstróis o mundo e encontras novos e maiores encantos, interesses e saberes. Por vezes é necessário romper com a realidade e as maçadoras rotinas, para reoganizar o nosso mundo interior e ser mais feliz. 
Verás que para além das 3 cores primárias tão redutoras, o mundo é rico em muitas mais cores e infinitas tonalidades. Descobres que para além do muro do teu quintal, existe mais mundo e que está à tua espera, pronto para te renovar e para te fazer renascer. Então percebes, a relatividade daquilo que te afecta. Quem não te atribuiu valor, afinal nem te interessa nada e que o teu caminho está traçado e bem estruturado. 
A empatia com cada hora de vida é absolutamente urgente, e as minha entropias apenas a mim pertencem. Sigo quem me consegue surpreender pela positiva, todos os dias.
O resto é mesmo o resto, a ganga e os resíduos. 

15 abril, 2021

14 abril, 2021

ESCOLA DA BANDIDAGEM

ESCOLA DA BANDIDAGEM 

 “Falta de coerência”, “especulação” e “fantasia” foi assim que tudo terminou numa sexta-feira, perante uma justiça quântica (1), yeah.
    Às vezes dá vontade de enveredar pela brilhante carreira de bandido. 
    Penso imensas vezes nisso, em vez de andar a ensinar aos meus alunos como ser um cidadão activo, honesto, interveniente e sempre com uma postura de respeito pelo outro, deveria ensinar como viver à custa dos outros, como desenvolver a retórica e como passar entre os imensos e estranhos fios condutores que existem no mundo da justiça, para gamar e não ser condenado. 
     Fazer-lhes ver que podemos sempre contar com um amigo rico que nos pode sustentar e bem, e que se estudarmos muito, podemos ainda melhorar o nosso conhecimento sobre bandidagem. 
    Ensinar-lhes a verdadeira História que interessa, queimando as pestanas a partir do Barrabás símbolo do mal, adoptado no cristianismo, Al Capone, D. Corleone, Bonnie and Clyde, Ma Barker, Carlos o Chacal, Alves dos Reis e todos os mais famosos que se seguem… não faltam exemplos de sucesso. 
     Ensinar-lhe a diferença entre furto, roubo, assalto, desvio de capitais, corrupção, para que eles percebam de uma vez por todas, que é demasiado arriscado furtar um chocolate no Lidl; quando se “retira”, deve ser à grande, após estudar bem os caminhos da justiça. 
    Os alunos devem perceber muito bem o que é o crime de colarinho branco, se possível fazer trabalhos de pesquisa, usando aquelas metodologias pedagógicas que reforçam a aprendizagem e o conhecimento, para a “coisa” entrar na cabeça e permanecer ao longo da vida – ou seja, o método cientifico ao serviço da vilanagem.  
    Os futuros vilões devem perceber que se podem especializar, a um nível superior… nem sempre pegar no revólver e sacar guito no comboio, roubar o telemóvel dos incautos ou pegar de esticão a bolsa da velhinha, são as melhores opções, isso é como roubar o pirolito do colega, no tempo em que ainda usava calções! Pegar numa pá e abrir um túnel até à Caixa Forte do Tio Patinhas, só mesmo os Irmãos Metralhas nas histórias de quadradinhos, porque a malta fica a suar, cheia de pó, chateia-se, respira mal, fica com falta de ar, lesiona a coluna vertebral e no final tem que se ir para a fisioterapia… Por isso há aquela palavra, “ESTUDASSES”, quando é evidente a ingenuidade transformada em má opção. É preciso estudar muito e pôr os neurónios a trabalhar – para escrever sobre isto, também tive que fazer a minha pesquisa rudimentar, porque nem sabia quem eram os maiores, os mais famosos, e quem foi preso mais vezes, já que não aprendi nada disso, na escola tradicional.
     Agora não se veste fato de macaco para abrir túneis, agora veste-se Armani, Valentino, Gucci, Dior, Versage, Prada… marcas que não se vendem na feira de Lordelo, e sim na loja mais cara do mundo, na Bijan que fica em Rodeo Drive, Beverly Hills e onde se poderá cruzar com algumas figuras mediáticas. 
     Sejam ambiciosos, meus alunos!
     Há todo um aprendizado bem estruturado e holístico a realizar na escola, urgentemente, capaz de dar luz às gerações do futuro. Desenganem-se é preciso estudar línguas, matemática, física, filosofia, TIC, desenho… para de facto entender, ingressar e estabelecer-se com sucesso no mundo da vilania. Quem não o fizer, fica pelos chocolates do Lidl, ou outros pequenos furtos que podem dar pena grave e pesada. Sem estudo nunca poderá ser um bom traficante, e nunca retirará a fisga do bolso das calças. 
     Não vale a pena arriscar acto pequeno e ridiculo de subtrair aos outros. 
     Aquela ilusão romântica de roubar aos ricos para dar aos pobres, está absolutamente ultrapassada! Roubar aos pobres, de forma camuflada, para viver à rica, isto sim, isto deve ser o foco das aprendizagens, do desenvolvimento de competèncias, na verdadeira Escola da Bandidagem do século XXI. Seguir modelos do Robin dos Bosques ou do Zé do Telhado isso é leiturinha infantil, joguinho para os que estão ainda a iniciar a sua alfabetização, ou seja, as criancinhas do pré-escolar. 
     É urgente substituir os cenários de aprendizagem bonzinhos por cenários da canalhice real, que existem na sociedade, e são muitos, para que os futuros bandidos não se queixem que lhes foi imposto na Escola um saber demasiado académico. É preciso pensar, criar estratégias de burla para depois, aprender a sacar, desviar, lavar, branquear, abusar da confiança, falsificar e dominar os media – estas são as literacias do gamanço sofisticado, que todos os meliantes devem ter e desenvolver. 
     Atenção aos prazos, para quem se desagrada pelos números. Fazer pisca e conseguir ultrapassar os prazos pela direita, é uma manobra fantástica. 
     Preparem-se, porque também é preciso dominar alguns truques de magia – como transformar crimes em erros judiciais, corruptos em mártires, fraude fiscal em contabilidade organizada, empréstimo em saldo positivo, e uma prova em não prova – mas isso a justiça portuguesa dá uma ajudinha.

 “Eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada” (Zeca Afonso) 
                    ou 
É sexta-feira | Suei a semana inteira | No bolso não trago um tostão | Alguém me arranje emprego | Bom Bom Bom Bom!”(Boss AC)

Publicado em NVR em 14/04/2021
(1) Ricardo Araújo Pereira.

13 abril, 2021

09 abril, 2021

Como vais Jacinto?

Como vais Jacinto?

 

              Numa sala de jantar organizada segundo a tradição, onde tudo deveria estar no sítio certo, reinava o silêncio modorrento de uma tarde soalheira, matizada pelos tons quentes da decoração, mistura cromática queirosiana, feita de cortinas e tapetes carmim, com os raios de luz projectados através das janelas que davam para o jardim da entrada.

              De franja, com duas trancinhas e de soquetes brancos, eu e o meu pai, de mão na mão, aguardávamos o senhor doutor.

              Aguardávamos em silêncio, estávamos numa casa de saúde, onde o barulho não era permitido e todos caminhavam com pés de veludo. O silêncio era enriquecido pela localização dessa grande casa, mistura de casa de quinta e clínica, na periferia da cidade de Vila Real. O barulho urbano mais persistente, que eventualmente chegava até lá, seria resultante do motor de algum carro de aluguer, conhecido como carro de praça, que transportando alguém necessitado de cuidados médicos, na falta de um hospital decente e público, percorria o estreito caminho de acesso e finalmente estacionava no jardim, dando seguimento à sinfonia do silêncio reinante, que se estendia até ao rio Corgo.

              Ouvia-se o nosso respirar recortado de forma regular pelo pêndulo obediente do relógio de sala. O tic, tac, tic, tac, tic...,

                                          ia embalando a minha consciência, desconfigurando o tempo, deformando a noção dos minutos que passavam, mas oferecendo-me um grande aconchego hipnótico, que perdurou até hoje na minha memória.

              Antes de conhecer o Dr. Otílio, foi-me apresentado o seu auto-retrato, localizado numa das paredes dessa sala, entre aparadores e vitrines. Com três anos de idade, achei o seu retrato, quase à escala natural, uma pintura gigante. A figura do médico, de bata branca, acompanhada pelos inseparáveis bigodes e cabeleira, indomáveis, era maior do que todas as representações pictóricas que eu tinha conhecido durante a minha curta existência. Aproximei-me, pus a minha mão de petiza, admirei cada pormenor. Achei o doutor simpático, mas escondi a minha chupeta cor-de-rosa, como medida de precaução — diziam-me que os senhores de bigode não gostavam de chupetas, na esperança de eu ir largando esse vício infantil.

              Continuei a observar a tela, as pinceladas, as texturas,…  mas eu tinha que olhar para cima e não chegava com a mão ao seu rosto.

              O meu pai pegou-me ao colo. Dei-lhe a chupeta para guardar no bolso, pois achava que seria mais seguro ser o meu pai a guardar o objecto de tão preciosa dependência, já que ao colo estaria ao nível dos bigodes do doutor — não fosse acontecer alguma surpresa com esse pedaço de parede que tinha bigodes e que era tão semelhante à realidade.

              Tic, tac,... tic, tac,... tic,...

              — Não mexas no retrato! O senhor doutor foi quem pintou o seu próprio retrato — disse o meu pai. — Ele pinta muito bem, podes olhar, mas não deves mexer.

              — Mas ele é médico, trata os “dói-dóis”!? — surpreendi-me, não conseguindo conciliar, no meu raciocínio infantil, estetoscópios, pincéis e tintas. A bata branca deveria ter alguma utilidade: eu veria as minhas irmãs a usar bata no colégio, mas isso seria uns meses mais tarde.

              Usava a bata branca porquê? Como é que ele pintava e olhava para ele mesmo? Ignorava os truques dos adultos na reflexão das imagens através de um espelho. O meu pensamento tinha dificuldade em gerir toda esta informação com a preguiça e sonolência inconscientemente resultantes da combinação infalível do calor, ao compasso do tempo emitido pelo relógio de sala e do aconchego do colo confortável do meu pai.

              Talvez tenha adormecido, ou a memória engoliu o tempo e as imagens da restante espera, misturando-os com outras esperas na mesma sala, ocorridas noutros dias e com outros propósitos. Não sei...

              — O Otílio já vem aí! Então pequenita, queres um rebuçado? — perguntava-me uma simpática senhora de cabelo armado e bem penteado, que sorria para mim e que tinha ido avisá-lo da nossa presença.

              — Não obrigado, ela não quer — agradeceu o meu pai.

              — Quero, quero pois! — opus eu, manifestando uma total ausência de cerimónia perante a família que acabava de conhecer, deixando o meu pai desarmado, perante essa desobediência descarada.

              Passaram-me os rebuçados.

              — Agradece. Diz: obrigada prima Estela — ensinou-me o meu pai.

 

              Entretanto uma figura quase silenciosa assomou à ombreira da porta de mãos cruzadas atrás das costas. Os meus olhos curiosos fixaram-se imediatamente nos seus bigodes. Sob estes, emergia um sorriso afável, franco e quase do tamanho do mundo. Os seus cabelos eram revoltos, mas belos.

 

              — Como vais Jacinto?

 

              Abraçaram-se os dois, num abraço de reencontro de dois continentes, feito de algumas cumplicidades, que se repetiu muitas outras vezes, encerrando histórias antigas, vivências comuns, ideais de liberdade partilhados e outros assuntos, nessa época, vedados ao mundo das crianças.

              Dois homens com dois destinos, cujos caminhos se cruzaram diversas vezes. Ambos sérios, íntegros, inteligentes, bonitos e amantes da liberdade. Um licenciou-se em medicina e estudou no conservatório de música, o outro apenas frequentou a 4ª classe e tocava, de ouvido, uma gaita-de-beiços e um violão. Um teve infância e adolescência, o outro passou directamente da infância para a idade adulta, porque ficou cedo sem o pai — as diferenças do dinheiro, no tempo em que, quanto mais ignorante, melhor. Apenas a resiliência era qualidade que fazia vencer.

              Anos mais tarde descobri que se tratava de uma pintura de autoria de Heitor Cramez, e não um auto-retrato, mas as emoções não se alteraram.

In ”Ensaios de escrita: um projecto sempre adiado”, Anabela Quelhas (homenagem ao escritor, médico, músico, caricaturista e pintor Dr. Otílo Figueiredo) 19/09/2009

In "O fato que nunca vestimos" Anabela Quelhas 2017

08 abril, 2021

Um aparador que vive comigo


 Este aparador tem cerca de 100 anos. Viveu na casa dos meus pais e agora vive comigo.

Sempre foi presença constante no meu imaginário e já há muito que lhe dei entrada na minha casa para me fazer companhia, ser-me útil e para alimentar o imaginário do meu relembramento.

Chegou o momento de lhe fazer uma operação plástica, para que ele reassuma com algum orgulho a sua imagem.

A transparência dos seus vidros foram recriadas e inspiradas em Piet Mondrian. 

Sento-me sempre de frente para ele e agora deleito o meu olhar com um sorriso nos lábios... parece-me que ficou bem.

07 abril, 2021

ANITA E A PÁSCOA

 


A Anita e a Páscoa

              E então passaram bem a Páscoa?

              Desconfinaram os cabeleireiros e já foi muito bom. A raiz negra do meu cabelo loiro já era tão grande, que até parecia uma pintura californiana.

              Esta Páscoa, tal como a anterior, foi emocionante. Durante a Semana Santa em vez de visitar as igrejas, coloquei em busca no You Tube e fiz várias visitas às igrejas de Roma. Fartei-me de andar e sempre alapada no sofá. Também deve contar alguns pontos para entrar no Reino dos Céus…

              Transferi o repasto pascal da cozinha para a sala, onde costumava receber 14 pessoas e desta vez éramos apenas dois, cada um nas pontas da mesa enorme quase vazia, mas cheia de glamour e a falar um pouco mais alto, para podermos ouvir-nos e dialogar.

              Uma toalha adamascada amarela, pratos brancos, copos vitral roxo, talher dourado cumpriram a estética do Vaticano,  e agora um frasco de álcool junto ao prato, permitiu que cada um desinfectasse os talheres, o telemóvel ou as mãos.

              - Oh mãe desinfectaste a lata da coca-cola?

              - Oh mãe tás a tossir? Tu vê lá, tens temperatura, dói-te o corpo?

              - Oh mãe, viste o correio? Tinha uma encomenda? Veio da China? E tu abriste? Desinfectaste as mãos logo a seguir? Deixa-a de quarentena, sabe-se lá se transporta um viruzinho amarelo

              Em vez do habitual cabrito ou cordeiro, decidimos democraticamente, fazer umas entradas de covilhetes, seguidos de um bife à casa com batata frita e um pudim de sobremesa. Ou seja, uma refeição especial, igualzinha a todas as outras que se vão repetindo ao longo da semana.

              Eu não faço jejuns, mas fiz o sacrifício de degustar amêndoas de chocolate durante a semana toda, o que equivale por cada 10 amêndoas terei que andar na próxima semana, 10km na passadeira. Certamente isto vai valer um bónus celestial.

              - Oh mãe, o que vai ser o jantar?

              - O que quiseres, sugere algo especial. O quê? uma pizza, mas hoje é dia de Páscoa…

              Flores, no domingo de ramos, não recebi, os afilhados telefonaram-me e disseram, olha a florista está fechada e assim e assado, e eu fingi que acreditei, o que me permitiu fazer o mesmo no dia de Páscoa… pegar no telefone, meus afilhados queridos, as lojas estão fechadas e assim e assado... Serei sempre o reflexo dos outros.

              No início da tarde, fomos para a janela ver se alguém passava na rua. Fizemos apostas, eu apostei numa hora 5 pessoas, o meu filho 2 pessoas. Quem ganhar, lava a loiça do jantar. A nossa rua sofreu grandes melhoramentos, tiraram os automóveis e alargaram os passeios. Mas tal como todos os outros dias do mês e do ano, não passou ninguém naqueles passeios, portanto ficámos a olhar o vazio que existe até à casa do outro lado da rua e durante uma hora sem ninguém para contar.

              - Lavas tu a loiça.

              - Mas ninguém acertou…

              - 2 é mais próximo de zero do que o 5, portanto lavas tu - argumentei.

              - Mas o zero não existe, é um não número… sabes que 2  a dividir por zero é igual a infinito e 5 está mais próximo do infinito, portanto és tu mãe, que vais lavar a loiça.

              - Se 2x0=0 e 5x0=0, então 2=5, ou seja, eu lavo o meu prato e tu lavas o teu.

              - Tás a filosofar, isso não é um silogismo, é uma falácia, mãe! Tu ensinaste- me isso na filosofia.

              - Queres ir dar uma volta de carro? Só podemos circular no concelho… vamos até ao Alvão ver o mar de pedras. Para quê? para largarmos os jogos do telemóvel e esta conversa idiota. Vamos refrescar os olhinhos. Se demoramos?  Não, acho que não, é ir e vir.  Bora lá!

              Entrámos no carro, e o carro não pegou. A bateria finou-se. E agora? E agora teremos que esperar até amanhã, para ir comprar uma bateria nova.

              - Não queres comprar pela net? É mais barata, vem da China. Daqui a 20 dias já a tens cá.

              - Poupa-me e, entretanto ando de táxi… vamos ver um filme, daqueles pesados de Semana Santa, com muito sangue e muito drama para fazermos mais uns pontos celestiais.

              - Mãe, não há folar para comer ao lanche?

              - Então, na pastelaria escolheste folhados de salsicha!

              - Mas eu vejo um folar a sorrir para mim no interior deste armário…

              Uff que Páscoa, sentei-me na poltrona, e semicerrei os olhos.

              - Mãe, já dormes?

              - Não, diz.

              - Afinal o Judas, o que denunciou Jesus, é apóstolo ou não?

              - Não, foi demitido, e substituído por S. Paulo muitos anos depois.

              - Mas o Leonardo da Vinci pintou a última ceia com 12 figuras.

              - 11 apóstolos e Sta Maria Madalena ao lado de Jesus, supõe-se, para não estragar a estética da composição da pintura do Leonardo. 

              … coloquei os óculos escuros e sintonizei rapidamente a imaginação: Maldivas, pós-pandemia, por favor. Fingi adormecer, até arrisquei um pequeno ressono, antes que a conversa resvalasse para a Ressurreição de Cristo,  o Moisés a separar as águas do Mar Vermelho na fuga do Egipto ou até ao sacrifício de Isaac. Já tenho pontos até para troca!

Publicado em NVR em 7/04/2021 - Revoltando os dias

31 março, 2021

MÁRIO VIEGAS E JORGE GINJA -----POEMAS DE LEVAR PARA A GUERRA

 


Amanhã faz 25 anos sobre a morte de Mário Viegas, e ontem tornou-se público uma bobine com poemas declamados por Mário Viegas, que Jorge Ginja evou para a guerra e conservou ao longo da vida. Depois da sua morte, a família parilha.

Dr Ginja sempre a supreender, e Mário inesquecível. Bem hajam.

A referência a Fuenteovejuna, por incrível que pareça assisti a essa peça em Luanda em 1973, representada pelo Teatro Experimental de Cascais. penso que a PIDE pensaria, que nas ex- colónias ninguém perceberia o seu conteúdo.

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https://sicnoticias.pt/programas/reportagemespecial/2021-03-30-Poemas-de-levar-para-a-guerra-223a3905?fbclid=IwAR0eWfaESZe-MhSzYprFL_l00PKj6E-tVBFH5aG670bsqb5NZwFtXWHJ1EM

PRIORIDADES


 PRIORIDADES

          Na semana passada Manuela Ferreira Leite, mulher que já teve grandes responsabilidades políticas e uma opinion maker da TV, já que lhe dão canal, afirma que não percebe porque se pretende vacinar professores e que estes estejam agora na linha das prioridades.

          Quando ouvi isto, pensei que a mulher já estava demente, mas conclui, que é mesmo mau feitio e aquela animosidade que nunca a abandonou, contra uma classe profissional.

          Será que é preciso fazer um desenho?

          Imagine que lhe entram em casa/apartamento, 25 criancinhas todas sem máscara, a querer beijocá-la, tocá-la, que se agarram a si, passam-lhe as mãos lambidas pelos móveis da casa, e que, ao mesmo tempo, se vão tocando entre si, entre abraços e retirar a ranheta do nariz. E ficam aí consigo de manhã e de tarde, na sua sala com cerca de 25m2 o máximo, e obviamente, a doutora não vai negar os afectos traduzidos em abraços, que muitos não têm em casa. E vá contando, elas pedem para ir ao quarto de banho, têm mesmo de ir, e esquecem-se de lavar as mãos, querem lanchar quando estão com fome e precisam de beber também.

          Agora, imagine que em vez de crianças, entram-lhe em casa, 25 adolescentes, todos com máscaras, aquelas máscaras que o ministério deu, 3 para usar durante um período. Nunca saberemos quando foram usadas pela primeira vez, se foram lavadas e desinfectadas devidamente. No primeiro contacto desifectam as mãos, respeitam a maioria das regras de segurança, mas depois quando ganham confiança, afinal também se abraçam entre si, trocam materiais, desde as borrachas ratadas até às esferográficas em 2ª ou 3ª mão, folhas de papel e tocam-lhe nos móveis, no computador e vão-se sentando na sua mobília Xis Vi… pousando as mochilas em cima da mesa e dos sofás e… finalmente a setora descobriu que a sua sala, não possui dimensões para que se respeite as distâncias de segurança… e depois de 90 minutos, retiram-se com grande alarido e na sua porta, já estão mais 25, prontinhos para entrar, cada vez mais impacientes, porque andar de máscara complica com os nervos e alguns deixam-na cair para o queixo, tal como fazem muitos adultos, e voltam a ocupar a sua sala, espalhando a sua pegada juvenil por toda a casa.

          A doutora nem tempo tem para passar a esfregona com lixívia, nem o desinfectante onde os anteriores tocaram… Mais 90 minutos e outros repetirão a dose até perfazer mais de 5 horas, depois saem todos e deixam-na em sossego durante a hora do almoço.

          Vai respirar de alívio, colocará o lenço sobre o penteado estruturado em ripanço e laca, abrirá as janelas, rapidamente irá à despensa organizar o material de limpeza, passar a esfregona pela casa toda, borrifar o sofá, passar toalhetes nas cadeiras e vai perceber que alguns puseram as mãos nas cortinas e não as pode lavar, outros deixaram a ranheta e a chiclete plasmadas por baixo da sua mesa ou nas costas das cadeiras.

          Tocam à campainha, que chatice recomeça este pesadelo, entra mais um grupo de 25, com a euforia de pós-almoço, querem falar consigo, querem trocar papeis, a doutora não ouve bem, pede para eles falarem mais alto, e eles vão aliviando a máscara do nariz para o som sair…ufff alguns cheiram a transpiração e a chulé, uhhhh não estava a contar, pois não? mas ainda há aquele que disfarçadamente solta uma bufa, outro espirra e tira a máscara em simultâneo, e o outro, tosse. Percebe que afinal dois ou três estão com sintomas gripais, e estão ali, desconfia também que a família de outros estão doentes, porque os viu na fila Covid do centro de saúde, mas mandaram os filhos para a sua casa. A maioria usa transporte escolar, tudo a monte e fé em Deus e lá chegam eles todos felizes à sua casa, onde a setora e os seus colegas, que se encontram também com estes e outros jovens, os recebem e que não precisam de ser vacinados.

          O problema, sabe qual é ? é que a sua casa vai ser “invadida”, na segunda-feira, na terça, na quarta, na quinta e na sexta e na semana seguinte, repete-se.

          Afinal porque é que os professores deverão ter prioridade na vacinação?

          Já percebeu? Não percebeu, então imagine que todos os seus vizinhos, espalhados por cerca de 30 apartamentos, recebem também visitas e em número semelhante, e que eles sobem e descem as escadas a cada 90 minutos, passando as mãos nos corrimãos, encostando-se… Será que assim está a ver o desenho tridimensional do contágio.

          Ainda bem! 

          Os brasileiros costumam dizer a propósito, aguarrás no cú dos outros é refresco para mim.

Publicado em NVR -  31/03/2021

30 março, 2021

JULGAMENTO DO JOÃO PINTO DE ANDRADE

Neste dia 30 de Março de 1971, os três juízes do Tribunal Plenário de Lisboa – Fernando António Morgado Florindo, Bernardino Rodrigues de Sousa e João de Sá Alves Cortês – ditavam a sentença de um processo de dez pessoas acusadas de apoio ao MPLA, Movimento Popular de Libertação de Angola.

A presença entre os arguidos do Presidente de Honra do MPLA, Padre Joaquim Pinto de Andrade – antigo chanceler da arquidiocese de Luanda e à data da prisão a frequentar a Faculdade de Direito de Lisboa – garante a curiosidade internacional e há na sala delegados da Amnistia Internacional, Associação Internacional dos Juristas Democratas, Liga Belga dos Direitos do Homem, Federação Internacional dos Direitos do Homem e Associação Internacional dos Cristãos Solidários.

O padre Pinto de Andrade fora preso pela primeira vez em Luanda, em 25.7.1960, enviado para o Cadeia do Aljube, em Lisboa, poucos dias depois; desterrado seguidamente para a Ilha do Príncipe, regressaria ao Aljube em 1961. Seguiram-se residência fixa e clausura no Mosteiro de Singeverga; nova prisão na PIDE da cidade do Porto e nova transferência para o Aljube, de onde é libertado a 5.1.1963, é libertado apenas para ser sujeito a nova prisão na cadeia de Caxias – «Completava eu 177 dias de prisão preventiva e sem culpa formada. Faltavam três dias para o máximo permitido por lei. Fui posto em liberdade, mas… preso imediatamente a seguir à porta da cadeia do Aljube e transferido para Caxias! No dia 8-1-63, conduzido à sede da P.I.D.E., fui ali informado de que fora posto em liberdade três dias antes e preso de novo à porta da cadeia… porque novas actividades subversivas haviam sido desenvolvidas dentro da cadeia ou à porta da cadeia.» Após 389 dias de prisão ininterrupta sem culpa formada, é colocado em residência fixa no interior do Alentejo. Nova prisão em 24.1.1964, nova colocação em residência fixa num seminário de Vila Nova de Gaia. Preso de novo em Abril de 1970 é finalmente levado, em 1971, a tribunal.

Com Pinto de Andrade, de 44 anos, sentam-se, no banco dos réus, sete outros homens e duas mulheres mais jovens e, com duas excepções, todos naturais de Angola. Todos eram acusados de serem militantes ou simpatizantes do MPLA.

A sentença determina 4 anos e meio de prisão maior e 2 anos de multa para Álvaro Sequeira Santos e Garcia Neto, 3,5 anos de prisão e 2 de multa para Rui Ramos, 3 anos de prisão e 2 de multa para Joaquim Pinto de Andrade, 2,5 anos de prisão e 2 anos de multa para Ferreira Neto, 20 meses de prisão e multa para Diana Andringa, 18 meses de prisão e multa para Raul Feio e Fernando Sabrosa, 16 meses de prisão e multa para José Ilídio Cruz. Maria José é absolvida, após 13 meses na prisão.

Entretanto, vários outros jovens presos em Angola com ligação ao mesmo processo, foram enviados, sem julgamento, para o campo de concentração do Tarrafal, onde lhes foi dado conhecimento de que lhes haviam sido aplicadas administrativamente penas de 6 a 10 anos de prisão.

Artigo de Diana Andringa

Hoje o Museu do Aljube Resistência e Liberdade, através deste encontro, associa-se a esta iniciativa de homenagem a Joaquim Pinto de Andrade, e a todas as mulheres e homens que lutaram pela libertação e independência de Angola.

Intervenientes: Diana Andringa, Ferreira Fernandes, Mário Brochado Coelho, Adolfo Maria e Ondjaki

Conversa transmitida online nas nossas redes sociais, dia 30 de março às 15h.



 VER AQUI

28 março, 2021

PARA ROMA MEU AMOR


 PARA ROMA MEU AMOR

Realizador e actor Woody Allen

2012

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27 março, 2021

DIA MUNDIAL DO TEATRO


Saber mais em

https://outraspalavras.net/descolonizacoes/teatro-do-oprimido-50-anos-de-desalienacao/

SAUDANDO A PRIMAVERA


 Saudando a primavera, quanto mais longe mais perto de ti, nesta inconstância da vida em que um minuto de felicidade pode representar a eternidade. Escutos os teus segredos, acaricio o teu olhar e perco-me no teu abraço.  

24 março, 2021

UTOPIAS

 

UTOPIAS


A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”– Fernando Birri, citado por Eduardo Galeano in ‘Las palabras andantes?’ de Eduardo Galeano. publicado por Siglo XXI, 1994.

            Somos sonhadores, temos esperança, porque acreditamos nestas palavras sobre a utopia. Imaginamos outro mundo, acreditamos num mundo melhor e vamos esquecendo os maus momentos e reinventamos os bons. Todos nós teremos as nossas utopias. Tudo aquilo que desejamos e temos consciência que nunca atingiremos, fica guardado numa gaveta com esse nome. Não fica esquecido, pelo contrário, é sempre aquela luzinha que brilha para nós diariamente, fazendo-nos avançar, mesmo sabendo que nunca chegaremos lá. É um farol que nos orienta no presente em direcção a um futuro, que pode não ser aquilo que desejamos. Mas ela está lá, teimosamente lembrando-se e lembrando-nos, recusando-se a integrar a memória descrita e justificativa dos nossos projectos, mas sim, desenhando a espiral do sonho que nos faz estar vivos. Se não acarinharmos essa utopia, a realidade converte-se em mais dura e incompreensível, atando-nos os movimentos e tornando-nos cegos, mergulhados no escuro desse caminho sem esperança de nada. Sem utopia caímos na resignação, o nosso sorriso desfaz-se e a tolerância mirra. São muitos os desertos que atravessamos na vida e os desertos não se atravessam sozinhos num contexto de desesperança. Se abandonarmos a nossa utopia, seremos engolidos em plena noite fria do deserto, abandonando o presente e o futuro, cairemos num vazio existencial, incapaz de se suavizar quando escutamos a nossa identidade e ou quando julgamos ver um oásis.

            Existem também as utopias da sociedade, que são tão antigas como a própria humanidade. Perdemos a utopia da República de Platão, perdemos a utopia do Jardim do Éden, apenas os cristãos ainda a possuem, perdemos a utopia de Atlântida, perdemos a utopia de  Thomas More no tempo das descobertas de novos continentes e novos mundos, perdemos a utopia do Contrato Social de Rousseau, perdemos a utopia do comunismo de Karl Marx e diáriamente perdemos a utopia da sociedade neoliberal, que cada vez mais se traduz em contrastes sociais… felizmente perdemos também as distopias do Nazismo e do Fascismo.

            Hoje o “descrédito” das utopias sociais leva-nos para a chamada retrotopia, orientada pelo individualismo e pela busca do passado, como se fosse possível enganar o tempo e repetir modelos, tal como os saudosistas pretendem e andam a suspirar pelos cantos.

            Caros leitores começou a primavera boreal, esta é a única retrotopia em que acredito, a renovação da vida e da natureza, que herdamos anualmente da tradição pagã e nos faz abrir a gaveta das utopias e gerar mudanças em nós mesmos e sempre para melhor.  

Imagem – fotomontagem a partir de: https://segredosdomundo.r7.com/utopia/

Publicado em NVR em 24/03/2021

PORTUS CALE

Olhar o rio, 

um olhar de descanso, 

após atravessar ruas e vielas, 

neste Porto sentido, 

em muitos dias festejado 

esperando-te

esperando-me, 

um toque de mãos. 

todas as vezes renascido 

numa cidade de nós.

20 março, 2021

BRANCA DE NEVE E O CAÇADOR


 "BRANCA DE NEVE E O CAÇADOR"

  Rupert Sanders

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19 março, 2021

GEOMETRIAS


 Secantes e tangentes asssumem-se com seduções próprias

Ora exaltando-se, ora harmonizando-se

Quem quer ser secante? Quem quer ser tangente?

Quem quer ser carmim? Quem quer ser anil?

 Quem quer ser rubi? quem quer ser água-marinha?

As secantes são movidas por paixões avassaladoras e mistério

As tangentes tocam-se como expressão do mais belo romantismo

O que será mais forte e vibrante do que uma secante?

Haverá algo mais belo que o toque suave e singelo?

Onde se adivinham novas geometrias? 

Num turbilhão de uma espiral  ou num beijo terno, doce e delicado ?

Venha o universo e escolha!

Tudo, menos um ponto perdido num quadrante qualquer.

17 março, 2021

2021 Ano Europeu dos transportes ferroviários

 


2021 Ano Europeu dos transportes ferroviários

 

            A UE definiu 2021 como o Ano Europeu do Transporte Ferroviário para promover o uso dos comboios, como modo de transporte seguro e sustentável.

            A decisão, adoptada pelo Conselho a 16 de Dezembro, está directamente ligada à intenção da União Europeia (UE) em promover modos de transporte respeitadores do ambiente e alcançar a neutralidade climática até 2050, no âmbito do Pacto Ecológico Europeu.

            Aproveito para lembrar mais uma idiossincrasia desta cidade: concluiu-se a requalificação da zona da antiga estação de caminho de ferro, em nome de uma maior humanização das cidades, evidenciando o direito dos peões em detrimento dos automóveis, numa perspectiva muito dignificante de uma urbanidade inclusiva, porém, ainda não se percebeu qual será o destino do edifício da Estação dos Caminhos de Ferro e respectivos anexos.

            Passarão por aqui as Infraestruturas de Portugal ou as Águas do Norte? Ou o já anunciado hotel de charme?

            Já lhes chamam a antiga estação, para nos irmos definitivamente habituando à ideia, que a Linha do Corgo, nunca mais será reactivada, ou seja, o Pacto Ecológico Europeu, ficará na gaveta.

            A mobilidade sustentável e segura, atribuída aos caminhos de ferro, será parâmetro a desconsiderar em Vila Real, mesmo com uma pandemia que nos demonstrou que o transporte ferroviário é a garantia de transporte rápido de bens essenciais, como alimentos, medicamentos e combustível em circunstâncias excepcionais.

            Os vila-realenses, ficarão apenas com memórias induzidas por uma máquina que virou escultura de jardim, um Cais da Bila onde se pode ir beber uns copos, uma ecovia Régua | Chaves para ciclistas (no futuro todos seremos ciclistas) e o grande enigma, o edifício da estação, que tomará uma função irreversível,  bloqueando e inviabilizando qualquer intenção futura de renovação da linha, para aceitar a sua função original e a filosofia europeia. 

14 março, 2021

DIA DE ANIVERSÁRIO COM AMIGOS


 Em dia de aniversário após dezenas de mensagens de amigos, que já partilharam comigo bons momentos em vários locias e em diversas circunstâncias, deixo aqui um carinho, tentando corresponder a momentos inesquecíveis, umas vezes de luta e outras de lazer.

https://drive.google.com/.../1x5HtxXH.../view...

11 março, 2021

LABIRINTO VEGETAL




 LABIRINTO VEGETAL

AUTORA: arq. Anabela Quelhas

Localização: Escola Monsenhor Jerónimo Amaral

Data: 1998

Labirinto vegetal implantado em espaço sobrante entre pavilhões escolares, inscrito em espaço triangular com dois niveis. Um muro de suporte decorativo estabelece a transição entre as duas cotas.

Cria-se o labirinto como oportunidade de resolver espaço exterior agreste e como elemento de aprendizagem e de lazer, através de sucessivos aros de circunferencia concêntricos, ora ligados, ora interrompidos até se aceder ao espaço denominado de recompensa.

O elemento vegetal será formado por sebe  em buxo, planta da família Buxaceae, lenhosa, em geral arbustiva, com folhas inteiras e perenes, que se preve que durante 5 anos atinja a altura devida.

Recompensa - assentamento de 4 paineis de acrilico em forma piramidal, com explicação gráfica e narrada sobre a história dos labirintos e estudo de 3 casos de labirintos portugueses - Labirinto da Prelada (Porto), Jardim de S. Roque da Lameira (Porto), Conimbriga (mosaico).

"A arte reduz a agressividade dos alunos e é bom habitar na escola."



10 março, 2021

DIA DA MULHER



DIA DA MULHER


           Hoje vou escrever sobre uma aldeia que existe no Norte do  Quénia desde 1990, que foi criada só para mulheres.  Rebeca, a líder da aldeia, depois de um casamento onde era brutalmente espancada, decidiu juntar-se a outras mulheres, vítimas de violência e criou uma aldeia sem homens.

            Essa aldeia chama-se UMOJA.

            A cultura de Samburo (Quénia) permite que as mulheres sejam espancadas, estupradas, que casem ainda crianças e sejam submetidas à prática odiosa da mutilação genital. A mulher é propriedade do homem podendo violentá-la, martirizá-la e ate tirar-lhe a vida

            Algumas meninas de 12 anos são obrigadas a casar com homens que tem a idade para serem seus avôs, passando a ser sua propriedade.

            Tudo isto é demasiado mau.

            Apesar dos pedidos de protecção dirigidos às autoridades, nada mudou, porque faz parte da cultura dessas pessoas. As tradições são respeitadas mesmo que sejam desumanas e violentas para as mulheres, consideradas seres menores.

            Então, 14 mulheres sobreviventes de violência, uniram-se e criaram uma aldeia sem homens, para que pudessem viver em paz, de forma digna e podendo proteger outras mulheres e as meninas suas filhas.

            Essa acção não foi bem recebida pelos homens, que inicialmente julgavam que elas eram fracas, não conseguiriam construir as casas das aldeias e criaram vários obstáculos; mas elas conseguiram.

            Escolheram um terreno, chamaram-lhe UMOJA, e construíram tudo sozinhas, casas com estrutura feita de ramos de árvores e com barro e ainda decidiram comercializar as suas joias artesanais, exuberantes, feitas de missangas coloridas, vendendo aos turistas. Com esse dinheiro construiram uma escola, porque entenderam que a educação é muito importante no crescimento das crianças, ensinando-as a respeitar as mulheres.

            UMOJA é uma aldeia matriarcal, onde as mulheres são autónomas, cantam, dançam, criam os filhos em paz, sem a presença dos homens. Nenhum homem pode morar ali, nem mesmo os seus namorados. As mulheres têm os seus namorados e estes só podem permanecer ocasionalmente na aldeia se respeitarem as regras das mulheres líderes. As crianças do sexo masculino crescem e podem ficar na aldeia até aos 18 anos.

            Esta comunidade tem cerca de 100 mulheres, 100 mulheres sofridas que lutam pela sua dignidade e cada uma tem também uma história de sucesso. As mulheres quando têm oportunidade, tal como os homens têm capacidades para liderar, para administrar negócios, infelizmente na maioria das situações as mulheres nem sequer têm oportunidade para provar o seu valor ao mundo.

            UMOJA é considerada um exemplo reconhecido em todo o mundo como matriarcado bem-sucedido

            O Mundo talvez fosse muito melhor, se fosse orientado por mulheres, visto que faz parte da sua natureza, gerar vida, ser resiliente e proteger.

            Enquanto houver UMOJAs assinalarei esta barbárie da discriminação.

            Segundo a ONU, as mulheres continuam a ganhar menos 23% do que os homens. Mais grave ainda, são os números relativos à violência sexual contra as mulheres: 1 em cada 3 mulheres já sofreu algum tipo de violência física ou sexual; e mais de 200 milhões de mulheres e de raparigas foram vítimas da mutilação genital.

              Em Portugal, no primeiro confinamento a APAV recebeu 683 denúncias de violência. Em 2020 foram assassinadas 30 mulheres.

Publicado em NVR 10/03/2021


 

LABIRINTO DO PECADO - Lucca


 

A inscrição ao seu lado direito faz referência ao mito de Teseu e Ariana no labirinto do Minotauro. 

Estranho estar localizado junto à entrada de um templo critão -  catedral de Lucca.  Mitologia e religião cristã, não combinam bem.

2ª interpretação: dizem ser uma ligação com os Cavaleiros Templários devido à semelhança com o desenho do piso da Catedral de Chartres na França. 

3ª interpretação: o labirinto simbolizar a representação do “labirinto do pecado”, onde após entrar, é difícil sair.

Curioso!

(Diário de viagem, Lucca 2012)

08 março, 2021

05 março, 2021

MOREIAS

 

(depois de alguma investigação)

Moreia ou meda [Portugal: Trás-os-Montes] -  Monte de cereais, feno, estrume ou de paus com forma cónica. Em Trás-os-Montes é vulgar utilizar-se para proteger o feno quando chove, visto que o feno bem esticado forma uma camada exterior, impermeável , protegendo as camadas internas.

As moreias ou medas são de fácil construção e de baixo custo, podendo ser feitas no próprio campo de produção do feno ou junto ao estábulo, em local plano, bem drenado.

A sua forma cónica; com altura igual a duas vezes o diâmetro da base, assegura uma maior estabilidade da meda e protecção contra as chuvas.

O tamanho da moreia depende da quantidade de feno, devendo-se limitar a 4 m de altura. Acima disso, o manuseio do feno é dificultado, sendo apropriada a construção de maior número de medas menores, se necessário. A densidade do feno em medas varia de 80 a 100 kg/m3.

A maioria das moreias ou medas possui um mastro de madeira central que garante a estabilidade da mesma. A compactação das camadas de feno, faz-se pisando-as,  até a moreia atingir a altura desejável, observando-se a configuração recomendada.

 “Pentear a moreia”, usa-se o engaço ou o  furcado, para facilitar o escoamento da água da chuva. No final pode-se cobrir o topo com uma lona de plástico, protegendo-a contra as chuvas.

Moreia  é uma palavra de origem latina, porém, é curioso, existe a mesma palavra para designar a acumulações de fragmentos rochosos transportados pelos glaciares.

Os glaciares são enormes massas de gelo que se deslocam sob a acção da gravidade (escorrem das montanhas), arrastando consigo fragmentos que são depositados nas partes mais baixas sob a forma cónica, designadas por MOREIAS.

AQ