30 maio, 2017

O FATO QUE NUNCA VESTIMOS

Anabela Quelhas—nasceu em Luanda, arquitecta, licenciada pela Escola Superior de Belas Artes do Porto, discípula do arquitecto José Maria Pulido Valente.
 Desenvolve regularmente actividade relacionada com arquitectura, pintura, vitral, fotografia e artes gráficas, nomeadamente ilustração.
Professora profissionalizada do ensino básico e secundário. Autora de, diversos projectos pedagógicos /artísticos – seis premiados a nível nacional – exposições pedagógicas e registos digitais
Pratica o exercício da escrita criativa e da poesia.

Livro publicado:
"O FATO QUE NUNCA VESTIMOS"
ISBN: 978-972-8546-65-6
Depósito Legal: 424472/17
Capa: Anabela Quelhas
Impressão e Acabamento: Minerva Transmontana, Tip., Lda




Antigamente é que era bom?
            São retratos dum país rural, esquecido do mundo, localizados no tempo da “outra senhora” e por quem muita gente ainda suspira, passados mais de cinquenta anos, revelando memória curta e coração pouco ginasticado.
             O registo de episódios enquadrados num regime político asfixiante é descrito na primeira pessoa, inspirado nos olhares interrogativos de uma garota curiosa e atenta a uma década entre 63 e 73. O privilégio de ter crescido dividida entre duas províncias desse Portugal imenso, uma do Portugal Continental e outra do Portugal Ultramarino, Trás-os-Montes e Angola, deu-lhe uma visão aberta multifacetada, sem preconceitos, sem amarras, sem pretensões de qualquer espécie e permanentemente questionadora da vida e do mundo que a rodeava. É um testemunho aligeirado de “como era” aqui no Portugal Continental, possibilitando uma leitura dinâmica e descomprometida.
            A ordem apresentada é próxima à ordem cronológica da memória, mas sem um fio condutor real, permitindo assim e também, uma leitura desorganizada e desconstruída.
            Leia e compare este país com o resto do mundo, e a sua dimensão temporal completamente desajustada e fracturante. As contínuas referências presentes em rodapé, são janelas que se vão abrindo, para contextualizar de forma ainda mais visível este olhar juvenil.
            Alguns leitores talvez activem a memória e se revejam em algumas destas histórias.
            Esta obra é a primeira de uma possível trilogia, que constitui uma narrativa triplicada, localizada em tempos e espaços diferentes, possibilitando ao leitor presenciar o amadurecimento crítico do seu olhar, sobre o que a rodeava, onde a realidade se sobrepõe ao imaginário ou ao contrário, consoante os casos e a inspiração.

24 maio, 2017

… que estratégia foi essa?

… que estratégia foi essa?
- O que vai ser esta semana? (ACM)
- Talvez a onda dos produtos naturais e o sarampo sarampelo… (AQ)
- Oh isso já passou! (ACM)
- Pois!!! e esta semana há muito assunto para abordar… (AQ)
                Sobre Fátima, com todo o respeito, nem liguei a televisão, porém alguém levou a fotografia da família para benzer, não vá o diabo tece-las, apesar que adorei os cartoons de João Vaz de Carvalho.
                Sobre a victória do Benfica… os festejos à volta de uma escultura que foi imaginada por um sportinguista… prefiro o azul.
                Resta-me o Salvador Sobral. Lembro-me dele num dos programas “Ìdolos”, ainda um menino de 19 anos, mas já com muita pedalada, mas muito imaturo. Agora isto! Admiro-o porque persegue os seus sonhos e vai à luta, e ele foi à luta apesar que agora tem um sabor segundo ele é agridoce. Passou por Madrid, Maiorca, Barcelona, …
                Poderia ter tirado o seu cursinho de psicologia, ser tradutor, fechado em casa com o dicionário do lado esquerdo, a gramática do lado direito e computador ao centro, contabilizando palavras, mas foi á luta, para fazer aquilo que gosta, que é cantar…. E quando se gosta é mais provável haver sucesso.
                Um músico amigo, que tal como eu navega em contra-corrente,  classificou o poema como delico-azeiteirote, e eu concordei, pois é fraquinho, fraquinho, comparado com os poemas de  Guinot 
“Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal aquilo que sou
Sou um grito
Ou sou uma pedra
De um lugar onde não estou”
                                                                                                              ou de Ary dos Santos,
“Olhos de amêndoa
cisterna escura
onde se alpendra
a desventura.”
                                                                                                                             que foram à Eurovisão e perderam. E essa de amar pelos dois, tem muito que se lhe diga, tirando pais e irmãos, normalmente não resulta, mais ano, menos ano, a relação claudica e sucumbe estrondosamente, gerando chorudos honorários aos psiquiatras. Não aconselho mesmo! No amor tem que ser como as contas à moda do Porto, tu pagas o teu e eu pago o meu e pronto, ficamos amigos para sempre
                A figura de Sobral contrariou o estereótipo festivaleiro – casaco engelhado e de defunto falecido de 3 números acima, onde os ombros não encaixam, sobrando forma e tecido, cabelo em tótó, barba em desalinho, voz meiga, doce e expressão de olhar de ursinho de peluche – assim como a melodia, na onda cibernauta… convenceu e venceu. Mas oh Salvador tens de explicar melhor essa história, pois o puzzle ainda não está completo! O que é que aconteceu mesmo? Tops, sondagens, versões noutras línguas… que estratégia foi essa tão bem sucedida?
                É uma canção bonita, mas não é maravilhosa – uma la la land da música que derreteu os corações empedernidos, que sempre valorizam o lado dramático da vida do cantor, e este infelizmente parece que tem um melodrama na sua vida. Temos uma canção simples, genuína, intimista. Cantas bem, tens voz de anjo, com sentimento e com expressão, transmites emoção, nós sabemos, mas normalmente não chega…. Tu dás tudo, mas recebes nada. 
                Penso que a máquina “FESTIVAL da EUROVISÂO” quis dar uma arejada, não ficando atrás da máquina do prémio nobel da literatura, sorte a do Salvador, porque para o Dylan, tanto fez como faz. E o nosso primeiro já lhe deu os parabéns com sorriso de orelha a orelha. Oh Costa isto não é só tomar conta dos miúdos do outro, num sábado de manhã, agora é preciso organizar o festival do próximo ano, muito brilho, muita luz, muito glamour, muito botox, muito plástico, muitas horas extraordinárias, muitos efeitos especiais, muito IRS a rolar…. Depois queixem-se.

- PARABÈNS SALVADOR ao menos tu estás na maior, é assim mesmo!!! (MEC).

Publicado em NVR - 24/05/2017

20 maio, 2017

CONVITE


CASA DE ANGOLA
LISBOA, 20 DE MAIO DE 2017
19H

CONVITE


Anabela Quelhas tem o prazer de convidar V. Exa para o lançamento do seu livro "O fato que nunca vestimos".
Anabela Quelhas, arquitecta e professora, aventura-se nos caminhos da escrita e brevemente apresentará o seu primeiro livro como escritora. Será um caminho novo entre vários que gosta de percorrer em simultâneo, arriscando criticas e comentários em contramão. O seu território são as artes plásticas, porém a sedução pelas palavras levam-na a ser ousada e criar uma trilogia autobiográfica de ensaios de escrita, da qual a primeira parte “O FATO QUE NUNCA VESTIMOS” será brevemente partilhada com a comunidade vila-realense, a 11 de Maio de 2017, pelas 21h15m no Centro Cultural Regional de Vila Real e com a comunidade angolana, no dia 20 de Maio de 2017, pelas 19h na Casa de Angola em Lisboa

11 maio, 2017

COLCHAS NAS VARANDAS

 Colchas nas varandas 

            Sempre me impressionaram as multidões. Porque se juntam as multidões em torno de certas pessoas com objectivos pouco consensuais? Interrogo-me sempre sobre isso. O que as leva a estar e a entrar em euforia colectiva.

            De repente, não sei em que ano, talvez em 1965, vi-me numa janela do largo do Pelourinho número dez, em Vila Real, assistindo ao passeio de Sua Excelência o Contra Almirante Américo Tomás, com a esposa e a filha (feias de fugir), pela cidade de Vila Real, dentro de uma viatura de cerimónias dos bombeiros, vermelha, com muitos prateados e dourados, acenando para todos, especialmente para a fina flor vila-realense. Puseram-se colchas nas varandas e foi recebido em apoteose — aplausos, vivas, capas dos estudantes no chão para Sua Excelência pisar e caminhar... (22|05|1965)

                                   … colocam-se colchas nas varandas para receber alguém, porquê? Para ver passar as procissões religiosas e neste caso um presidente da república não eleito pelo povo?

            Nunca tinha visto nada igual, nem tanta gente junta. Foi um desfile triunfante, com chuva de papelinhos, polícia e grande reboliço entre os que gritavam “Vivas”. Provavelmente haveria uma comitiva, mas a minha focagem era aquele automóvel descapotável, antigo, vermelho, que eu nunca tinha visto, com um senhor vestido de branco, cheio de medalhas a acenar, a acenar…

            O meu pai não estava e tinha deixado a recomendação à minha tia, umas horas antes:

            — Aqui ninguém vai para a rua. Se quiserem ver, usem a janela. Passo por cá mais tarde.

            Fiquei aborrecida, pois eu adorava festas e ali que se adivinhava uma grande festa, eu tinha que ficar confinada a uma janela do 2º andar! As ordens do meu pai, nesta minha fase infantil, eram para cumprir, sem ousar qualquer reclamação.

            Claro que esta era mais uma manifestação de propaganda política do Regime do Estado Novo, a enfrentar problemas na opinião pública sobre as consequências da guerra colonial. Era preciso unir, era preciso reforçar a identidade dos portugueses em torno do império colonial, que começava a fraquejar.

 

            Porque se juntam as multidões?

            Na Alemanha, os alemães aplaudiram Hitler. Hitler falava às massas com os seus discursos inflamados e as massas estavam lá, para ver, ouvir, aplaudir e para o seguir. E também havia colchas nas varandas. Eu ainda não sabia onde ficava a Alemanha, mas já tinha visto na televisão as multidões e as colchas.

            As colchas penduradas nas varandas e nas janelas associam-se aos actos religiosos, mas a sociedade civil tem esta estranha tendência de usar este adorno para receber as autoridades, ou seja, favorecendo pelo aparato, e lamentavelmente contribuir para um certo endeusamento dos políticos. 

….

            Nessa noite ou noutra noite qualquer semelhante, pois as crianças nem sempre têm uma memória cronológica, feita de colchas coloridas, mas sim de retalhos…. retalhos, simples e ingénuos, regressámos à casa da aldeia, no Taunus 12 M azul dos meus pais. O automóvel era velho, a cair aos pedaços e estava habituado a carregar cimento e tijolos para as obras. Quando nevava, deixava entrar a neve pelo chão, junto aos pés de quem viajava atrás, normalmente eu, quando não queria viajar entre o meu pai e a minha mãe, no banco corrido da frente, pois essa localização fazia-me lembrar a minha condição de criança — carro velho, mas ainda capaz de realizar pequenas distâncias.

                        .… eu ia atrás, mais um casal de jovens, que nunca tinha visto. Sabia que um deles era meu primo. Uns tempos antes tinha ouvido falar duma peripécia qualquer com o meu pai, envolvido num pequeno sarilho, transportando este primo para Lisboa, com uma mala de conteúdo duvidoso, possivelmente subversivo. Uma história que poderia ter terminado mal, pois o meu primo decidiu sair do carro antes do final da viagem e o meu pai ficou com a referida mala, esquecida durante dois dias, no carro estacionado à frente do hotel onde se hospedara, sem saber o que fazer com ela, nem ao seu conteúdo desconhecido, até ao momento que decidiu abri-la. Livros, papeis, fios eléctricos, arames, alicates, chaves de fendas e outras ferramentas úteis para certas “intervenções urbanas revolucionárias”, eram o conteúdo da mala, que foi abandonada às escondidas, algures no Ribatejo.

            Era noite escura, eles entraram no carro num sítio qualquer, já fora da cidade de Vila Real, parecia que tudo estava a ser feito na clandestinidade, mas bem combinado. Eu, nessa noite, estava cheia de perguntas para fazer, que não chegaram a ser proferidas. O casal parecia alegre e simpático, mas havia ali um clima de muita reserva e contenção, o nervosismo acompanhou toda a viagem, penso que devido à minha presença, para eu não ouvir o que não devia, receando que pudesse contar a alguém, fazendo perigar a segurança e a paz de todos.

            Anos depois, descobri que se tratava de uma fuga à PIDE — o casal exilou-se na Suíça, regressando a Portugal apenas após a revolução de Abril. 

Publicado em "O fato que nunca vestimos" - Anabela Quelhas (2017)

ISBN: 978-972-8546-65-6




10 maio, 2017

Mas que aventura é esta, Madame?



Mas que aventura é esta, Madame?

(Publicado em NVR)
            Deveria escrever sobre as eleições francesas, mas vou ser um pouquinho egoísta, egocêntrica, narcisista e escreverei sobre mim. Não é todos os dias que se publica um livro…
            A mala do meu carro está cheia de livros e agora tenho que lhes dar rumo, soltá-los no mundo. Publiquei o meu primeiro livro como escritora. Esta designação não me assenta bem, pois sou uma humilde aprendente da arte de escrever, que me tem encantado ao longo dos anos, sem estilo, fragmentada e em contramão. Costumo estar no lado dos desenhos, mas agora… Ser escritora sugere algo de profissional, que não sou. Não resisto a um desafio, tenho a mania de meter o nariz onde não sou chamada e não me intimido o suficiente, em percorrer caminhos que não domino.
            Enfim, sou mesmo assim!
            Poderia estar quietinha a viver a maturidade, sentada num sofá, olhando a televisão, fazendo tricot para olear as artroses das mãos, chupar rebuçados para a tosse, cortando os dias no calendário um após outro e queixando-me todos os dias, desta vida madrasta. Levaria uma vida mansa cheirando a mofo, mas santa, sem trambolhões, respirando todos os dias da mesma forma, conservando o batimento cardíaco na mediana, rezando a Deus para me manter a tensão arterial estável e substituindo as gargalhadas por um mero esgar dorido da mandíbula.
            Pois, mas essa não sou eu.
            Tenho uma mala cheia de livros de cor azul-cueca, com um título polissémico e uma fotografia minha, com rosto que oscila entre o desconfiado e o aborrecido, como se estivesse no tal sofá da vida mansa - fotografia de adolescente incompreendida em idade do armário, sempre a descobrir uma forma de questionar, de protestar contra tudo e contra todos-
            Tenho um filho maravilhoso, nunca plantei uma árvore, pois a botânica dá-se mal comigo e o livro não passa da primeira parte de uma aventura, que nem sei como irá terminar. O que dirão os verdadeiros escritores que muito respeito, deste “projecto de livro”?
            Nestes dias, permaneço meia obtusa, quando percebo que criei grandes expectativas naqueles que me estão próximos…. E agora? A responsabilidade cresce e desgasta. Sou assaltada pela insegurança. Onde arrumei os Kompensan? E se eles não gostarem? ou forem indiferentes, o que é muito pior? A obra deixará de ser minha e passará a ser pública. Cada um lerá e interpretará do seu jeito, que poderá não coincidir com o meu.
            Porque não criei mais um pseudónimo, que me assegurasse o anonimato, livrando-me deste desconforto que me acelera o ritmo cardíaco? Lá está o meu nome, a fotografia, a biografia e o conteúdo, multiplicados por muitos exemplares – todos seguidinhos azuis; á espera de destino. Não bastava um!!!…
            Socorro quero sair em andamento!!!!! Tirem-me deste filme!!!! Grito para mim mesma, nesta postura de conversar de mim para mim, olhando os livros agrupados em pacotes plastificados, aguardando decisões e apelando para o bom senso que emigrou da minha vida há muito tempo.
            Mas que aventura é esta, Madame? Meto-me em trabalhos e agora? Ando sem filtro, sem airbag, sem rede, sem cinto de segurança e estiquei-me demais…  
            E agora o que fazer com a adrenalina em excesso?
            - Coloco chapéu e óculos escuros e vou fingir que não me conheço. E os espelhos cá de casa?
            - Aproveito e vou de fim-de-semana para a Islândia durante 30 dias? Todos sabem que nunca fugirei para norte.
            - Invento doença contagiosa, daquelas de pintar a pele com bolhas gigantes? Certamente me irão esperar na saída do hospital
            - Salto da ponte? Colocar-me-ão um elástico à cinta e gritarão: SALTA! SALTA! S-A-L-T-A!
            Fazer o quê?
            - Transformar os livros numa bela escultura azul cueca?

“O fato que nunca vestimos”
No Centro Cultural e Regional de Vila Real, dia 11 de maio pelas 21h15m.

Vestirei coragem e lá estarei. J

09 abril, 2017

AGORA É TARDE!














Estava a 1000km de Vila Real e recebo três sms com a notícia da demolição da panificadora, e mensagens respectivas:
1 – Sem comentários
2 – Olha para isto!!! Quelhas, não fazes nada?
3 – Professora, perdemos a luta, rebentaram com a panificadora, não serviu de nada o trabalho que fizemos na escola.
Nem sei o que devo dizer/escrever e não ouso partilhar o que já me passou pelo pensamento.
Sinto-me triste.
Vila Real acaba de perder um edifício com algum valor arquitectónico e a culpa não é de ninguém, dizem. Nunca ninguém tem culpa de nada. Dizem que a culpa morre sempre solteira.
Se alguém pensa que um edifício de apartamentos será um ponto de atração para forasteiros virem visitar à cidade….
Se alguém pensa que um caixote qualquer pode gerar orgulho nos habitantes desta cidade…
Se alguém pensa que uma máquina a derrubar paredes dará brilho à nossa identidade…
….tstststst desenganem-se.
Não culpo o proprietário do edifício, seja um tal senhor da Régua ou seja a cadeia dos supermercados LIDL, ou seja quem for…. Até admiro a sua paciência e tolerância pela indefinição que certamente rodeia este investimento.
Sinto-me triste pela inercia das instituições, pelo “deixa andar” ao longo de 20 anos, dos que gerem a nossa cultura e o nosso património,  … mesmo sem dinheiro é possível fazer tanta coisa, entre as quais classificar, proteger, legislar e informar.
Não deveriam ser os cidadãos a propor a integração de determinado edifício como património, o IPPAR, a Secretaria de Estado da Cultura, as Câmaras Municipais e Juntas de freguesia, deveriam ter os seus territórios inventariados, evitando a revolta e a indignação dos cidadãos. As instituições estão cheias de arquitectos, engenheiros, economistas e a fina flor do conhecimento, e o q fazem?
Sabem, fico triste porque o Pioledo já não existe, os SLAT também não, a casinha dos azulejos da rua Visconde de Carnaxide cedeu espaço para a rotunda, a tasca do alemão fechou, o Excelssior eclipsou-se, o jardim da avenida foi decepado, os brasões estão esquecidos nas bordas de um jardim…  Sabem, fico triste, porque a seguir, serão as adufas que irão apodrecer, será a varanda renascentista que se irá desmontar, serão os brasões que irão perecendo em nome do progresso. Um dia cairá o coreto do jardim da carreira, o jardim será transformado em parque de estacionamento, o telhado da igreja de S. Dinis ruirá completamente, já ninguém saberá do Espadeiro e a casa de Diogo Cão passará a ter um chinês na máquina registadora. Nesse dia o Carvalho Araújo fará um manguito a esta cidade. Somos pobres, cada vez mais pobres, com a mania que somos os maiores.
Isto representa trinta anos de sucessivas asneiras e perdas.
Ah mas temos um LiDL, um Continente, um Shoping, um MacDonald, um teatro, um museu, rotundas e edifícios gigantescos que parecem caixotes fatiados, que tanto poderiam estar aqui como em qualquer ponto do planeta.


“Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) abriu agora o processo de forma “a impedir danos continuados no imóvel em vias de classificação”, informou este organismo, que considerou que o edifício está em risco.

AGORA É TARDE!!!!!

Sinto-me triste… uma tristeza que engloba dezenas de alunos, respectivas famílias, e alguns Vila-Realenses que acompanharam toda a tentativa de preservar o edifício.

- Bruno, confirmo, perdemos a luta, não serviu de nada o nosso trabalho.
- … e não faço nada, já fiz a minha parte e há um registo na net para quem quiser consultar.


Copio a parte final da minha acção (9/06/2014)
Avaliação
Este foi um tema muito oportuno para levar os alunos a pensar na sua cidade, despertando as suas consciências como cidadãos críticos e intervenientes e ampliando os seus conhecimentos culturais e estéticos.
Lancei este tema sem antecipar que seria desenvolvido em simultâneo com o desaparecimento do grande artista plástico. Tive o privilégio de provocar ainda os últimos sorrisos de Nadir ao comunicar-lhe o entusiasmo que rodeava este projeto de trabalho.
A minha tarefa termina aqui.
Relembrei à população de Vila Real, como é necessário estar atenta para conservar o seu património, divulguei a obra de Nadir Afonso e solicitei à Câmara Municipal a classificação da panificadora de Vila Real.
Fica aqui o registo de toda a dinâmica realizada.
Bem hajam a todos

Anabela Quelhas

21 março, 2017

Sendo dia de poesia


Sendo dia de poesia
            Sendo dia da poesia, escrevo em prosa e não em verso, para que a distinção se sinta nesta minha atitude ousada de insistir em juntar as palavras sem regra. Escrevo sem rima, sem métrica, sem estrofes, sem versos, ao meu ritmo e ao meu estilo, aventurando-me em território desconhecido e que não domino. Escrevo como vivo, um pouco em desalinho, um pouco em contramão, abrindo os canais das vivências interiores e dando-lhes forma, sem filtros, sem regras, ensaiando a liberdade plena que só os ignorantes praticam. Nem sempre distingo o verso da prosa. Para mim tudo o que dou um sentido mais estético e mais profundo, mais temperado com toda a ansiedade e carência afectiva que habitam em mim, é poesia.
            Gosto de poemar.
           Gosto de me expressar em linguagem intrigante, inquieta e misteriosa, que tenha impactos diversos para quem a lê ou quando se lê. Descubro-me só, nestes momentos mágicos da escrita, não conseguindo prever quando escrevo, o que escrevo e para quem escrevo. É uma aventura dialéctica que flui na primeira pessoa, como se fosse um auto-retrato primaveril, que me tranquiliza desenhá-lo e vive-lo, descobrindo sensações diversas no meu íntimo sentimental.
          Poemar é viver sempre na linha que divide o real do onírico, realçando o sublime e o simbólico, é ser capaz de dar brilho a encantamentos obscuros que desconheço em mim. É um grito imprevisto, é um gozo profundo, traduzidos numa linguagem feita de corpo e de alma, que pode ser doce, elegante, com fragância a jasmim, mas também pode ser agressiva e violenta, capaz de rasgar preconceitos, mover precipícios, derrubar muros e libertar lágrimas salgadas de mim. É melodia sem pauta, é dança com fogo, é geometria sem teoremas, é mar solto sem horizonte, é tempo intemporal e sem dimensão com perspectivas diversas.
            É ouro… é prata recortada de luar.

            Escrevo para quem?
                                   Mas tem de haver alguém no destino?
                                                           Escrevo para a terra vermelha, escrevo para um homem que não existe, escrevo para a paixão infinitamente trancada no meu coração, escrevo para quem se irmana comigo neste desespero desassossegado e profano de estar e não estar, escrevo para aqueles que acreditam no arco-iris, escrevo para o universo que me inclui e me respeita, vestida na minha reduzida dimensão.
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” – Anabela Quelhas

18 março, 2017

Tulipeira da Virgínia

Ontem tive a honra de conhecer uma Tulipeira da Virgínia, com mais de 250 anos, a mais antiga de Portugal. Apresentaram-ma no Jardim do Museu dos Biscaínhos. É daquelas arvores em que são necessárias várias pessoas para a abraçar.
Sempre me sensibilizam árvores idosas. Permanecem silenciosas centenas de anos, testemunhando a história dos dias e das noites, conferindo cada pessoa que passa, cada afago, cada gesto ternurento dos casais apaixonados, absorvendo o riso das crinaças e constituindo abrigo e poiso da passarada.
Muito prazer em conhecer, Liriodendron Tulipifera.

AQ

13 março, 2017

13 de março

O dia 13 é o teu dia. Um algarismo sem azares e cheio de afectos de mãe, manifestados desde onde o meu conhecimento não alcança.  
Gostava das tuas mãos que me acariciavam, dos teus olhos que me protegiam, do teu colo que me acolhia, da tua gargalhada que me entusiasmava, da tua determinação que me iluminava caminhos, da tua resistência que eu tentava copiar, da tua força que nunca tive.
Aos 6 anos usei os teus vestidos, davam-me até aos pés, arrastavam pelo chão, calçava os teus sapatos e pavoneava-me ao espelho, querendo imitar-te e tu sempre me ensinaste a construir a minha própria identidade.
Tinhas a sabedoria de converter o árido em confortável, o insalubre em gostoso, o desinteressante em útil e o impossível em realizável.
Quase nunca te vi doente antes da hecatombe final, nunca te ouvi uma queixa, nunca percebi um desaire, um desânimo…
 Por onde andarás?

AQ  

11 março, 2017

Três Estudos de Lucian Freud

O tríptico «Três Estudos de Lucian Freud», de 1969 - 106 milhões de euros foi o seu valor pago em leilão. Uma das obras mais valiosas do mundo (2013).
Um tríptico cuja repetição sugere a 4ª dimensão, o tempo, e associa efeitos visuais que perturbam pelo isolamento deduzido na observação. Francis Bacon faz um enquadramento geometrizado, com linhas de projecção, constituindo cenário variável, referenciando o vazio e definindo o limite entre interior e exterior.
As faces distorcidas do próprio rosto causam inquietação – teremos em nós, um mostro adormecido? – tornando visível o invisível. A multiplicidade de interpretações e sensações provocadas é evidente. Obra de grande valor para a psicanálise. Este tríptico continua a ser motivo de estudo, de análise e de reflexão filosófica, situada entre os conceitos de sensação e emoção. 

AQ

08 março, 2017

Uma competência desmedida

Uma competência desmedida de diversos desempenhos – ser mulher.

         Faz todo o sentido, dar destaque a um dia sobre a mulher. E não é porque é mais um dia para comemorar, para jantar com as amigas, com o namorado ou com o marido, como tantos outros… apenas porque há quem continue a remeter a condição de mulher para a indignidade, tornando-se necessário criar alertas.
         Enquanto houver mulheres que são discriminadas, porque são mulheres, vale a pena falar, dizer, escrever e até gritar, neste dia e em todos os outros… mas neste dia pode ser que nos oiçam melhor. 
         Há coisas inacreditáveis:
“Rússia vota lei que permite bater na mulher e nos filhos uma vez por ano.” então senhor Putin?!
“Eurodeputado diz que mulheres são menos inteligentes que os homens.” este Janusz Korwin-Mike mede as mulheres pelo xadrez?!
“Mais de seis mil mulheres em Portugal submetidas a mutilação genital feminina” sublinho em Portugal… sabiam? São guineenses, mas vivem em Portugal.
“Em 2016, em Portugal foram registados 15.724 crimes de violência doméstica contra as mulheres” acham pouco?
Os salários das mulheres representam entre 70 e 90% dos salários de seus colegas masculinos.” a estatística da ONU, incidiu só sobre calceteiros, pedreiros, guarda-costas, estivadores e outras profissões onde se exige força muscular?
“A maternidade continua a ser uma fonte de discriminação no trabalho.” os que discriminam nasceram de chocadeira?
         Esta luta diária que envolve a maioria das mulheres, merece reflexão e destaque. É preciso DIA DA MULHER, sim!
         Claro que há mulheres entediantes, chatas, histéricas e fúteis, assim como há homens canastrões, primários, com mau hálito, com pêlos a transbordar das orelhas e com a unha do dedo mínimo sempre a crescer, mas conhecem acto mais altruísta, do que ser mãe?
         Aos doze anos, enquanto os rapazes jogam à bola, nadam na praia e estão sempre prontos para todo o tipo de tropelias, as jovenzinhas adolescentes, doí-lhes a barriga e é aquilo todos os meses.
         Quando os homens não assumem a paternidade, imaginem para quem sobra aquele acto de amor tresloucado sem protecção?
         Ser mulher é quase uma missão com lutas diárias na afirmação pela igualdade em relação ao homem, é ter uma competência desmedida de diversos desempenhos, para avaliar constantemente fragilidades, e propor assertividade e equilíbrio, anulando desigualdades.
         Ser mulher é ser sensível, mas determinada nos seus objectivos e tem algo intrínseco à sua condição de género, que a leva a gerir contrariedades e ser pacificadora. A mulher tem pouca força muscular, mas tem força mental para dar e vender. Há um encantamento que lhe vem dos genes e da alma, que a torna delicada e feminina. Tenho orgulho em ser mulher.

         Mas se for apenas um pretexto para ir jantar fora com o marido, quebrando a rotina duma relação, ou para alguém lhe oferecer uma flor, qual é o problema?

05 março, 2017

04 março, 2017

Há brancos que invadem as noites



Há brancos que invadem as noites
Parecendo um mar que invade a montanha,
Mar sereno e tranquilo,
Que se escuta pelo silêncio do nosso olhar.
Cobrem penedos e os ângulos mais agudos,
Gelando o calor e a melancolia,
Tornando as horas sem tempo
Mais longas e fechadas sobre si.
A lua vira prata, a escuridão vira luar,
O hoje escorrega para o amanhã,
E eu permaneço aqui, imóvel,
Recordando para onde voltarei,…
Cassiopeia!

AQ

02 março, 2017

VIENA, BUDAPESTE, BRATISLAVA E PRAGA

 1o DIA • PORTO OU LISBOA (AVIÃO) – VIENA Em horário a combinar, comparência no aeroporto escolhido para embarque em voo regular com destino a Viena, via Lisboa. Chegada e assistência nas formalidades de desembarque.

Panorâmica de apresentação da cidade pela principal avenida – a Ringstrasse, onde se encontram grande parte dos edifícios emblemáticos tais como a Ópera; Hofburg, Palácio Imperial de Inverno; o Parlamento; a Câmara Municipal; os Museus de História Natural e Belas Artes, entre outros. Jantar. Alojamento no Hotel Flemings Deluxe 4*.

Josefstädter Straße 10-12, 08. Josefstadt, 1080 Viena, Áustria





2o DIA • VIENA Visita ao interior do Palácio de Schönbrunn e seus jardins, antiga residência de verão da família imperial. Visita exterior ao Palácio Belvedere e seus jardins. Passeio pedonal pelo centro histórico, com especial destaque para a Catedral de S. Estêvão. Almoço. Tarde livre para atividades de caráter particular no centro da cidade ou efetuar qualquer visita a gosto pessoal. À noite, concerto de música clássica com valsas e polkas (opcional). Jantar. Alojamento.

3o DIA • VIENA – BUDAPESTE Saída para Budapeste, cidade fundada em 1873 em consequência da unificação de três cidades, Buda, Óbuda e Peste, e famosa pela sua arquitetura, termas, museus, galerias de arte e palácios. Dia dedicado à visita à capital húngara, com orientação de guia local. Começamos pela Colina de Buda, miradouros, praças, exterior do Palácio Real, Bastião dos Pescadores e interior da Igreja de Matias Corvino. Seguidamente, visitaremos a Praça da Catedral de Sto. Estevão, percorreremos a Avenida Andrassy com os elegantes palácios e o edifício da Ópera até chegarmos à Praça dos Heróis ou Millenium. Almoço durante as visitas. Visita à imponente praça construída para comemorar os 1000 anos da fundação da Hungria, com as estátuas dos líderes das sete tribos magiares e ainda visita ao Parque da Cidade e Castelo Vajdahunyad. Ao final da tarde ou noite, possibilidade de efetuar um programa facultativo com cruzeiro no Danúbio e jantar típico com música e danças húngaras (opcional). Alojamento no Hotel Mercure Budapest City Centre 4* .

1052 Budapeste, Váci utca 20., Hungria










4o DIA • BUDAPESTE – BRATISLAVA Manhã livre para atividades de caráter particular. Sugerimos a visita ao Parlamento, Galeria ou Museu Nacional, compras na rua Vaci e mercados tradicionais. Almoço. Saída para Bratislava. Jantar. Alojamento no Hotel Crowne Plaza Bratislava 4* .

 Hodzovo Namestie 2, 81625 Bratislava, Eslováquia




5o DIA • BRATISLAVA – PRAGA Visita à capital Eslovaca, a maior cidade do país situada nas margens do Danúbio. Destaque para o centro histórico, com visita interior à Catedral de S. Martin, passagem pelo edifício da Câmara Municipal, Palácio dos Arcebispos, Palácio do Presidente, Praça Central e pelo Teatro Nacional. Almoço. Partida para Praga, a cidade mágica, dos palácios, das praças, dos cantos e recantos e das pontes. Como dizia Kafka, “Praga não deixa a gente ir embora, tem garras”. É a música, o Teatro Negro, o fascínio de uma cidade única, a cidade das 100 torres, um verdadeiro museu ao ar livre. Jantar. Alojamento no Hotel Vienna House Diplomat 4*.

Evropská 15, Praga, 16041, República Checa




6o DIA • PRAGA Início das visitas à zona alta de Praga: Hradcany ou zona do Castelo. Começamos pela Biblioteca e Mosteiro Strahov. Continuação pela Praça de Na Sra de Loreto, com visita exterior a vários Palácios de famílias nobres que aqui residiram, até chegarmos à Praça do Castelo, centro político e espiritual da Boémia. Visitas à Catedral de S. Vito, ao antigo Palácio Real, à Basílica de S. Jorge e à célebre Rua do Ouro. Almoço. Prosseguimento através da Cidade Pequena,Malá Strana, uma das zonas mais charmosas de Praga, com as suas magníficas igrejas, palácios e jardins barrocos. Visita à Igreja do Menino Jesus de Praga, passagem pela jurisdição dos cavaleiros de Malta, ilha de Kampa e travessia do rio Vltava pela Ponte Carlos. À noite, cruzeiro com jantar a bordo pelo rio Vltava. Alojamento.

7o DIA • PRAGA (AVIÃO) – PORTO OU LISBOA Visita com destaque para a CidadeVelha – a Praça da República, a Câmara Municipal, a Torre do Relógio, a Igreja de Santiago, a Rua Celetná, a Universidade Carlos e a Praça Venceslau. Em horário a combinar, transfer ao aeroporto para embarque em voo regular com destino ao Porto, via Lisboa. Fim da viagem