27 março, 2021
SAUDANDO A PRIMAVERA
Saudando a primavera, quanto mais longe mais perto de ti, nesta inconstância da vida em que um minuto de felicidade pode representar a eternidade. Escutos os teus segredos, acaricio o teu olhar e perco-me no teu abraço.
24 março, 2021
UTOPIAS
UTOPIAS
“A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me
dois passos, ela afasta-se dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre
dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a
utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”– Fernando Birri, citado por Eduardo
Galeano in ‘Las palabras andantes?’ de Eduardo Galeano. publicado por Siglo
XXI, 1994.
Somos
sonhadores, temos esperança, porque acreditamos nestas palavras sobre a utopia.
Imaginamos outro mundo, acreditamos num mundo melhor e vamos esquecendo os maus
momentos e reinventamos os bons. Todos nós teremos as nossas utopias. Tudo
aquilo que desejamos e temos consciência que nunca atingiremos, fica guardado numa
gaveta com esse nome. Não fica esquecido, pelo contrário, é sempre aquela
luzinha que brilha para nós diariamente, fazendo-nos avançar, mesmo sabendo que
nunca chegaremos lá. É um farol que nos orienta no presente em direcção a um
futuro, que pode não ser aquilo que desejamos. Mas ela está lá, teimosamente
lembrando-se e lembrando-nos, recusando-se a integrar a memória descrita e justificativa
dos nossos projectos, mas sim, desenhando a espiral do sonho que nos faz estar
vivos. Se não acarinharmos essa utopia, a realidade converte-se em mais dura e
incompreensível, atando-nos os movimentos e tornando-nos cegos, mergulhados no
escuro desse caminho sem esperança de nada. Sem utopia caímos na resignação, o
nosso sorriso desfaz-se e a tolerância mirra. São muitos os desertos que
atravessamos na vida e os desertos não se atravessam sozinhos num contexto de
desesperança. Se abandonarmos a nossa utopia, seremos engolidos em plena noite
fria do deserto, abandonando o presente e o futuro, cairemos num vazio
existencial, incapaz de se suavizar quando escutamos a nossa identidade e ou
quando julgamos ver um oásis.
Existem
também as utopias da sociedade, que são tão antigas como a própria humanidade.
Perdemos a utopia da República de Platão, perdemos a utopia do Jardim do Éden,
apenas os cristãos ainda a possuem, perdemos a utopia de Atlântida, perdemos a utopia
de Thomas More no tempo das descobertas
de novos continentes e novos mundos, perdemos a utopia do Contrato Social de
Rousseau, perdemos a utopia do comunismo de Karl Marx e diáriamente perdemos a
utopia da sociedade neoliberal, que cada vez mais se traduz em contrastes
sociais… felizmente perdemos também as distopias do Nazismo e do Fascismo.
Hoje
o “descrédito” das utopias sociais leva-nos para a chamada retrotopia,
orientada pelo individualismo e pela busca do passado, como se fosse possível
enganar o tempo e repetir modelos, tal como os saudosistas pretendem e andam a
suspirar pelos cantos.
Caros
leitores começou a primavera boreal, esta é a única retrotopia em que acredito,
a renovação da vida e da natureza, que herdamos anualmente da tradição pagã e
nos faz abrir a gaveta das utopias e gerar mudanças em nós mesmos e sempre para
melhor.
Imagem –
fotomontagem a partir de: https://segredosdomundo.r7.com/utopia/
Publicado em NVR em 24/03/2021
PORTUS CALE
Olhar o rio,
um olhar de descanso,
após atravessar ruas e vielas,
neste Porto sentido,
em muitos dias festejado
esperando-te
esperando-me,
um toque de mãos.
todas as vezes renascido
numa cidade de nós.
.
21 março, 2021
20 março, 2021
19 março, 2021
GEOMETRIAS
Secantes e tangentes asssumem-se com seduções próprias
Ora exaltando-se, ora harmonizando-se
Quem quer ser secante? Quem quer ser tangente?
Quem quer ser carmim? Quem quer ser anil?
Quem quer ser rubi?
quem quer ser água-marinha?
As secantes são movidas por paixões avassaladoras e mistério
As tangentes tocam-se como expressão do mais belo romantismo
O que será mais forte e vibrante do que uma secante?
Haverá algo mais belo que o toque suave e singelo?
Onde se adivinham novas geometrias?
Num turbilhão de uma espiral
ou num beijo terno, doce e delicado ?
Venha o universo e escolha!
Tudo, menos um ponto perdido num quadrante qualquer.
17 março, 2021
2021 Ano Europeu dos transportes ferroviários
2021 Ano
Europeu dos transportes ferroviários
A
UE definiu 2021 como o Ano Europeu do Transporte Ferroviário para promover o
uso dos comboios, como modo de transporte seguro e sustentável.
A
decisão, adoptada pelo Conselho a 16 de Dezembro, está directamente ligada à
intenção da União Europeia (UE) em promover modos de transporte respeitadores
do ambiente e alcançar a neutralidade climática até 2050, no âmbito do Pacto
Ecológico Europeu.
Aproveito
para lembrar mais uma idiossincrasia desta cidade: concluiu-se a requalificação
da zona da antiga estação de caminho de ferro, em nome de uma maior humanização
das cidades, evidenciando o direito dos peões em detrimento dos automóveis,
numa perspectiva muito dignificante de uma urbanidade inclusiva, porém, ainda
não se percebeu qual será o destino do edifício da Estação dos Caminhos de Ferro
e respectivos anexos.
Passarão
por aqui as Infraestruturas de Portugal ou as Águas do Norte? Ou o já anunciado
hotel de charme?
Já
lhes chamam a antiga estação, para nos irmos definitivamente habituando à
ideia, que a Linha do Corgo, nunca mais será reactivada, ou seja, o Pacto
Ecológico Europeu, ficará na gaveta.
A
mobilidade sustentável e segura, atribuída aos caminhos de ferro, será parâmetro
a desconsiderar em Vila Real, mesmo com uma pandemia que nos demonstrou que o transporte
ferroviário é a garantia de transporte rápido de bens essenciais, como
alimentos, medicamentos e combustível em circunstâncias excepcionais.
Os
vila-realenses, ficarão apenas com memórias induzidas por uma máquina que virou
escultura de jardim, um Cais da Bila onde se pode ir beber uns copos, uma
ecovia Régua | Chaves para ciclistas (no futuro todos seremos ciclistas) e o
grande enigma, o edifício da estação, que tomará uma função irreversível, bloqueando e inviabilizando qualquer intenção
futura de renovação da linha, para aceitar a sua função original e a filosofia
europeia.
14 março, 2021
DIA DE ANIVERSÁRIO COM AMIGOS
Em dia de aniversário após dezenas de mensagens de amigos, que já partilharam comigo bons momentos em vários locias e em diversas circunstâncias, deixo aqui um carinho, tentando corresponder a momentos inesquecíveis, umas vezes de luta e outras de lazer.
11 março, 2021
LABIRINTO VEGETAL
LABIRINTO VEGETAL
AUTORA: arq. Anabela Quelhas
Localização: Escola Monsenhor Jerónimo Amaral
Data: 1998
Labirinto vegetal implantado em espaço sobrante entre pavilhões escolares, inscrito em espaço triangular com dois niveis. Um muro de suporte decorativo estabelece a transição entre as duas cotas.
Cria-se o labirinto como oportunidade de resolver espaço exterior agreste e como elemento de aprendizagem e de lazer, através de sucessivos aros de circunferencia concêntricos, ora ligados, ora interrompidos até se aceder ao espaço denominado de recompensa.
O elemento vegetal será formado por sebe em buxo, planta da família Buxaceae, lenhosa, em geral arbustiva, com folhas inteiras e perenes, que se preve que durante 5 anos atinja a altura devida.
Recompensa - assentamento de 4 paineis de acrilico em forma piramidal, com explicação gráfica e narrada sobre a história dos labirintos e estudo de 3 casos de labirintos portugueses - Labirinto da Prelada (Porto), Jardim de S. Roque da Lameira (Porto), Conimbriga (mosaico).
"A arte reduz a agressividade dos alunos e é bom habitar na escola."
10 março, 2021
DIA DA MULHER
Hoje vou
escrever sobre uma aldeia que existe no Norte do Quénia desde 1990, que foi criada só para
mulheres. Rebeca, a líder da aldeia, depois
de um casamento onde era brutalmente espancada, decidiu juntar-se a outras
mulheres, vítimas de violência e criou uma aldeia sem homens.
Essa aldeia
chama-se UMOJA.
A cultura de
Samburo (Quénia) permite que as mulheres sejam espancadas, estupradas, que
casem ainda crianças e sejam submetidas à prática odiosa da mutilação genital. A
mulher é propriedade do homem podendo violentá-la, martirizá-la e ate tirar-lhe
a vida
Algumas
meninas de 12 anos são obrigadas a casar com homens que tem a idade para serem
seus avôs, passando a ser sua propriedade.
Tudo isto é
demasiado mau.
Apesar dos
pedidos de protecção dirigidos às autoridades, nada mudou, porque faz parte da
cultura dessas pessoas. As tradições são respeitadas mesmo que sejam desumanas
e violentas para as mulheres, consideradas seres menores.
Então, 14
mulheres sobreviventes de violência, uniram-se e criaram uma aldeia sem homens,
para que pudessem viver em paz, de forma digna e podendo proteger outras
mulheres e as meninas suas filhas.
Essa acção
não foi bem recebida pelos homens, que inicialmente julgavam que elas eram
fracas, não conseguiriam construir as casas das aldeias e criaram vários obstáculos;
mas elas conseguiram.
Escolheram
um terreno, chamaram-lhe UMOJA, e construíram tudo sozinhas, casas com
estrutura feita de ramos de árvores e com barro e ainda decidiram comercializar
as suas joias artesanais, exuberantes, feitas de missangas coloridas, vendendo aos
turistas. Com esse dinheiro construiram uma escola, porque entenderam que a
educação é muito importante no crescimento das crianças, ensinando-as a
respeitar as mulheres.
UMOJA é uma
aldeia matriarcal, onde as mulheres são autónomas, cantam, dançam, criam os
filhos em paz, sem a presença dos homens. Nenhum homem pode morar ali, nem mesmo
os seus namorados. As mulheres têm os seus namorados e estes só podem
permanecer ocasionalmente na aldeia se respeitarem as regras das mulheres
líderes. As crianças do sexo masculino crescem e podem ficar na aldeia até aos
18 anos.
Esta comunidade
tem cerca de 100 mulheres, 100 mulheres sofridas que lutam pela sua dignidade e
cada uma tem também uma história de sucesso. As mulheres quando têm
oportunidade, tal como os homens têm capacidades para liderar, para administrar
negócios, infelizmente na maioria das situações as mulheres nem sequer têm
oportunidade para provar o seu valor ao mundo.
UMOJA é
considerada um exemplo reconhecido em todo o mundo como matriarcado bem-sucedido
O Mundo talvez
fosse muito melhor, se fosse orientado por mulheres, visto que faz parte da sua
natureza, gerar vida, ser resiliente e proteger.
Enquanto
houver UMOJAs assinalarei esta barbárie da discriminação.
Segundo
a ONU, as mulheres continuam a ganhar menos 23% do que os homens. Mais grave
ainda, são os números relativos à violência sexual contra as mulheres: 1 em
cada 3 mulheres já sofreu algum tipo de violência física ou sexual; e mais de
200 milhões de mulheres e de raparigas foram vítimas da mutilação genital.
Em
Portugal, no primeiro confinamento a APAV recebeu 683 denúncias de violência. Em
2020 foram assassinadas 30 mulheres.
Publicado em NVR 10/03/2021
LABIRINTO DO PECADO - Lucca
A inscrição ao seu lado direito faz referência ao mito de Teseu e Ariana no labirinto do Minotauro.
Estranho estar localizado junto à entrada de um templo critão - catedral de Lucca. Mitologia e religião cristã, não combinam bem.
2ª interpretação: dizem ser uma ligação com os Cavaleiros Templários devido à semelhança com o desenho do piso da Catedral de Chartres na França.
3ª interpretação: o labirinto simbolizar a representação do “labirinto do pecado”, onde após entrar, é difícil sair.
Curioso!
(Diário de viagem, Lucca 2012)
08 março, 2021
05 março, 2021
MOREIAS
(depois de alguma investigação)
Moreia ou meda [Portugal: Trás-os-Montes] - Monte de cereais, feno, estrume ou de paus
com forma cónica. Em Trás-os-Montes é vulgar utilizar-se para proteger o feno
quando chove, visto que o feno bem esticado forma uma camada exterior,
impermeável , protegendo as camadas internas.
As moreias ou medas são de fácil construção e de baixo
custo, podendo ser feitas no próprio campo de produção do feno ou junto ao
estábulo, em local plano, bem drenado.
A sua forma cónica; com altura igual a duas vezes o diâmetro
da base, assegura uma maior estabilidade da meda e protecção contra as chuvas.
O tamanho da moreia depende da quantidade de feno,
devendo-se limitar a 4 m de altura. Acima disso, o manuseio do feno é
dificultado, sendo apropriada a construção de maior número de medas menores, se
necessário. A densidade do feno em medas varia de 80 a 100 kg/m3.
A maioria das moreias ou medas possui um mastro de madeira
central que garante a estabilidade da mesma. A compactação das camadas de feno,
faz-se pisando-as, até a moreia atingir
a altura desejável, observando-se a configuração recomendada.
“Pentear a moreia”,
usa-se o engaço ou o furcado, para
facilitar o escoamento da água da chuva. No final pode-se cobrir o topo com uma
lona de plástico, protegendo-a contra as chuvas.
Moreia é uma palavra
de origem latina, porém, é curioso, existe a mesma palavra para designar a
acumulações de fragmentos rochosos transportados pelos glaciares.
Os glaciares são enormes massas de gelo que se deslocam sob
a acção da gravidade (escorrem das montanhas), arrastando consigo fragmentos
que são depositados nas partes mais baixas sob a forma cónica, designadas por
MOREIAS.
AQ
24 fevereiro, 2021
OLÁ MUNDO
Olá Mundo
O
Homem já foi à Lua, alguns não acreditam, mas foi.
Agora
o veículo Perseverance pousou em Marte, o 4º planeta do nosso Sistema
Solar, localizado a: 227 900 000 km do Sol e baptizado com o nome do Deus
Romano da Guerra.
O
que leva o Homem a explorar o espaço?
Todas
as explorações representam investimentos financeiros muito elevados, porém,
existem motivos importantes que o
justificam, para além do enorme orgulho dos países que as suportam.
Os
satélites resultantes deste investimento na área da exploração espacial são
absolutamente fundamentais para estudar o meio ambiente, o impacto causado
pelas mudanças climáticas, a possibilidade de se utilizar a internet, GPS, telefone,
…
Já
pensou que as imagens que surgem no nosso computador do google mapas, quando
vamos procurar a localização da torre Eiffel ou a rua da nossa amiga Rosinha, não
seriam possíveis se não fossem os satélites que orbitam à volta da Terra.
Os
satélites conferem-nos a capacidade de comunicação, e rápida, a longas
distâncias…. falar para o Canadá, para Angola, para Pequim e… mesmo aqui para
perto, para Mirandela, para Lordelo, é possível graças às telecomunicações via
satélite.
e
os satélites não são acessórios naturais do planeta Terra, inventados pelo Grande
Arquitecto, quando da criação do mundo. Não. Foi o Homem que os inventou,
testou e os colocou lá.
Na
saúde e no bem-estar temos aparelhos de diagnóstico utlizados pela medicina, resultantes
dos progressos tecnológicos impulsionados pelos investimentos nas viagens
espaciais; as farmacêuticas recolhem conhecimento desenvolvido no espaço para
depois o aplicar na manufatura de medicamentos.
A
avaliação sobre os investimentos nesta área deve ser bem ponderada porque a sua
importância é muito maior do que se imagina. O desenvolvimento e aperfeiçoamento
de tecnologia acaba por reverter na criação de produtos utilitários destinados
aos comuns mortais, que somos nós.
A
Perseverance acaba de pousar em Marte
(19/02) e o seu grande objectivo é
procurar vestígios da existência de vida passada, na cratera Jezero onde se
pensa ter existido um lago há 3,5 bilhões de anos. Mais um sucesso da NASA.
Quando se fala de Espaço, os números têm sempre muitos zeros à direita. Os
primeiros sinais de vida terrestre surgiram precisamente nessa era, daí o
grande interesse em obter amostras e estudar o nosso planeta vizinho, que com a
dinâmica do tempo, a sua atmosfera transformou-se, e de planeta azul, passou a
vermelho, formado por um imenso deserto congelado.
A
missão oficial durará cerca de dois anos, com explorações na área onde entrava
um antigo rio e outra, na saída dessas águas, onde serão os lugares mais prováveis
para existirem vestígios de moléculas orgânicas.
20 fevereiro, 2021
O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS
o livro
Saramago
Pessoa
Ricardo Reis
Botelho
o escritor, o poeta, o heterónimo e o cineasta
a união perfeita
o acto criativo
- a receptora de tudo numa tarde de um tempo sem tempo, ajustando o tempo -
Só para bookaholics
17 fevereiro, 2021
A MANIPULAÇÃO PSICOLÓGICA
A manipulação psicológica
Segundo o
dicionário, manipulação significa:
“Intervir no desenvolvimento de determinado sistema ou
processo, com vista à alteração da sua evolução natural. Condicionar, influenciar, geralmente em
proveito próprio. Adulterar, falsificar.”
Ao longo
deste processo pandémico ouvimos, mesmo sem querer, o “discurso do contra”- é no diálogo
com os amigos, é na espera na fila da farmácia, é na rede social… partindo de
pessoas, que não o fazem, na maioria das vezes, com um propósito consciente,
mas que o fazem, porque o mal dizer, faz parte da nossa cultura.
Apetece
sempre perguntar, então o que farias se fosses Ministro da Saúde? Qual é a
solução brilhante que tens para resolver o problema que nos afecta a todos? Como
conciliar todos os parâmetros que aqui estão bem visíveis, a saúde, o trabalho,
as relações sociais? E afinal como cidadão, o que tens feito?
“Porque o
Costa facilitou no Natal.” Verdade, e se não tivesse facilitado? Qual seria
o discurso do contra? Foi o Costa que veio passar o Natal com a minha família?
A
manipulação psicológica é uma corrente de influência dirigida através da
sociedade, que visa mudar o comportamento ou a percepção dos outros, através de
subterfúgios e discursos enganosos, orientados para a dissimulação. Quando são
realizados de forma consciente são considerados desonestos e há muitos truques para
nos confundir e os converter num sucesso, criando sempre a ilusão que somos
alertados por mentes superiores.
Esta forma
de acção intencional dirigida e focada, para além de gerar, dúvida e
questionamentos, nunca tem como intenção a persuasão no sentido da melhoria e da
resolução dos problemas, mas sim um movimento de fundo invisível, capaz de
destabilizar as pessoas, sugestioná-las nas suas avaliações pessoais, apelando
e jogando estratégicamente no tabuleiro das nossas fraquezas e receios
emocionais, gerando o medo, a depressão, o descontrole e, neste caso, apelando
descaradamente para o não cumprimento de regras profiláticas essenciais e
básicas para a nossa protecção.
Por trás de
um discurso afável, amigo, esconde-se o discurso de manipulação psicológica,
escolhendo a vulnerabilidade da vitima, e escondendo a perspicácia cruel do
manipulador que se alimenta da dor alheia - reduzir a força de vontade do
outro, semear a dúvida, apontar defeitos, deturpar a realidade, criar discussão
e mal entendidos.
Nesta caso
da pandemia, os manipuladores não apresentam soluções porque não as têm, citam
experiências na China que não existem, sublinham teorias e investigadores
falsos e alimentam a onda de fundo invisível que só tem um obectivo: destruir
politicamente quem está no poder, criar medo, destabilizar, gerar o caos. Apresentam
conversas sem sentido, teorias geradas lá do outro lado do mundo, que ninguém
testou ou comprovou, generalizam factos sem análise e sem avaliação concreta,
procuram abalar a nossa auto-estima induzindo-nos a repensar em tudo o que
acreditamos e o que consideramos lógico e justo.
Parem lá com
a teoria dos chineses, eles já cá estão e dominam o comércio. Estamos no século
XXI, e ao longo da História, o comércio e a manipulação das mentes são a origem
de toda a dinâmica de avanços e recuos civilizacionais.
Boa semana e
não vão em conversas, deixem de ser marionetas e pensem por si.
11 fevereiro, 2021
TATTOO
Tatoo
Ainda
não consegui fazer tatuagens. Decidir por algo tão definitivo, perturba-me, já
que tenho consciência, que vivemos num mundo em mudança permanente e rápida e
eu, mudo ainda mais rápido do que o mundo.
A
tatuagem parece ser um relato de vida, utilizando como meio de expressão, tinta
aplicada num suporte vivo, a pele humana. A sua origem perde-se no Antigo Egipto.
Na civilização ocidental moderna
chega-nos através dos marinheiros ingleses, os lobos-do-mar, com as suas
aventuras registadas em forma de monstros marinhos, esqueletos, caveiras,
testemunhando a sua coragem e bravura, até ao ponto de resistirem a marcas
violentas realizadas propositamente sobre a pele. Esta forma de expressão
aparece nos sítios que estes marinheiros frequentam, normalmente tabernas,
prostíbulos, pensões baratas e passa a conectar-se negativamente, como uma
opção marginal.
Só
no final do século XX é que a tatuagem ultrapassa as barreiras do preconceito e
passa a ser símbolo de rebeldia, ousadia e de contestação, seguido de registo
de vanguarda do mosaico de identidade personificado de uma faixa juvenil e
finalmente adoptado como opção de expressão subjectiva de homens e mulheres com
mais idade. Começa com a marca da guerra colonial, que muitos gravam antes de
partir, “amor de mãe”, “Amo-te Gabriela”. “Comandos na Guiné 1967/1969” e
hoje assume contornos artísticos conhecidos como Tattoo.
O
desenho narrativo utilizado é legível pelo próprio, e também pelos outros, atrevendo-me
até a afirmar, que a leitura dos outros é mais frequente do que a do próprio,
já que se converte em presença constante na comunicação visual. A tatuagem que
efectivamente tem uma mensagem, pouco ou nada significa para o receptor, “O
outro”. “O outro”, o que lê? Lê uma área da pele, que contém um desenho nem
sempre esteticamente criativo, com uma linguagem que nem todos entendem, nem
querem entender, devido à matiz pessoal. Comparo uma tatuagem ao código de
barras que alguém possa a imprimir na pele, ao tele-texto a passar na nossa testa,
ou seja, uma exposição da intimidade de cada um, como se vestíssemos um manto
da nossa verdade imutável, numa época em que todos querem preservar a sua
intimidade, proteger os seus dados e a sua imagem. É no mínimo contraditório.
A
maturidade permite-me reflectir um pouco sobre as consequências, porque está mais
do que provado, que este pormenor atrapalha por vezes as perspectivas de
trabalho dos jovens, e que com o andamento da vida, deixamos de gostar das
mesmas coisas e aquilo que foi sobrevalorizado numa época, não tem qualquer importância
na outra, levando ao arrependimento sobre o acto.
Começa
sempre pela aplicação de um pequeno símbolo escolhido em catálogo, porque a
imaginação não dá para mais, em local especial, que fica em destaque e depois
torna-se quase viciante cobrir a pele com outras divagações pictóricas, já mais
bem pensadas, numa geografia inestética inconsciente e frequentemente em
desiquilíbrio entre a figura e o fundo. Seja qual for o suporte, a arte
equaciona diversos parâmetros, que poucos sabem equilibrar.
Alerta:
em 2016 existiam 60 milhões de tatuados no mundo, entre os 18 e os 35 anos em
que, 7,5 milhões estariam seriamente arrependidos de se ter tatuados. Uns, por
motivos de saúde - complicações resultantes de infecções, irritações crónicas e
queimaduras, efeitos a longo prazo no seu sistema imunológico, ausência de
condições ideais para realizar radioterapias e outras terapêuticas impossíveis
de prever – outros, porque já não se identificam com aquelas marcas da pele,
que viraram a sua sombra eterna.
O
número de pessoas tatuadas cresce, esta postura virou moda, e os serviços de
remoção com laser, nem sempre bem-sucedidos, crescem também, registando o
descontentamento de muitos, deste acto altamente agressivo para a nossa pele.
Este
vínculo inapagável, pode também representar não amar o nosso corpo, distraindo
a visão com a ilusão gráfica.
Eu
detestaria olhar diariamente para um grafismo ou um símbolo, que passados anos,
eu quero esquecer e não lembrar, composições gráficas que adorei antes, e hoje
acho obsoletas e ridículas. Andar vestida sempre com a mesma roupa, para mim, já
não é bom, e deprime-me, mas ter uma roupa interior que nunca conseguiria
despir, seria traumatizante, pouco sensual e pouco poético. Seria transportar
grilhetas a prenderem-me continuamente ao passado, não me permitindo evoluir
como pessoa e viver a dialéctica do meu mundo interior, sempre em contínuo
desconforto, limitando a minha liberdade. O meu corpo será sempre uma tela
cheia, naturalmente mutável, sem grafismos redutores.
Alguns
dirão que há situações que valem para eternidade justificando uma boa tatuagem,
e eu diria que nada é eternamente válido sob a mesma forma visual.
Maneiras
de pensar.
Publicado em NVR 10/02/2021
07 fevereiro, 2021
O SILÊNCIO DO KISANJI - análise parte II
O Livro
Objecto de culto. Como tal tem toque, tem peso, tem imagem e tem cheiro.
Companhia é outras das suas funções. Não existe solidão quando há um livro por perto.
O Silêncio do Kisanji é um objecto muito bonito, talvez dos mais bonitos que já tenha manuseado.
Capa e contracapa com uma estética irrepreensível, carregadas de detalhes plenos de informação e conteúdo. Cores africanas num sóbrio pano que embrulhando o livro, sobre ele são impressas, em lettering de fontes bem escolhidas, as informações habituais, nome do autor e título da obra. Destaco a preocupação do deixar a bainha com a impressão da origem do pano, o que, para além de autenticar a sua origem, nos indica que tudo foi pensado ao mais ínfimo pormenor.
Discretamente, a autora deixa a marca do seu país de origem,
homenageando-o com as cores da sua bandeira, sendo também, mais uma prova inequívoca
da latitude do tema.
Finalizo com a apreciação do interior da contracapa. Discretamente, porque este objecto prima pela discrição, daí a sua elegância estética, o final mostra-nos que os personagens são reais e, estando atentos, também por aqui temos estórias para ver.
O Silêncio do Kisanji, obriga-nos a uma leitura atenta, desde a capa até à contracapa.
O Título
Em terra de ritmos e de múltiplos sons, mas também dos
silêncios que a grande dimensão proporciona, fácil seria escolher um qualquer
instrumento entre muitos daqueles que todos se lembrariam à primeira.
Contrariamente, fugindo à banalidade óbvia de um batuque, a escolha recaiu
sobre o kisanj, instrumento de origem angolana. Mais uma mensagem implícita a
qual se vai percebendo ao longo do percurso da leitura.
03 fevereiro, 2021
ENTROPIA PSICOLÓGICA
Entropia psicológica
Quando
era jovem, surpreendi-me, quando me pediram para desenhar um triângulo
equilátero e eu desenhei-o, com um vértice voltado para cima, completamente
estável, apoiando um dos lados, no plano horizontal inferior. A análise desse
acto espontâneo serviu para alguém me alertar, que estava despreparada para a
mudança e para a instabilidade, e isso seria o que iria enfrentar no resto da
minha vida. Talvez tenha sido uma das grandes lições de vida – um acto simples,
que revolucionou o meu interior. Sou grata até hoje, a quem despoletou aquele
meu desconforto interior, abalando todas as minhas certezas e todo o meu guião
de vida, que eu entendia como bem planeado e infalível.
Naquela
época apesar de já ter sofrido algumas reviravoltas na vida, continuava a
aspirar pela estabilidade e continuava sem preparo para enfrentar incertezas. A
família protege-nos, criamos rotinas, desenvolvemos crenças e valores, mas, na
verdade somos uma bolha de ilusão e de falsa estabilidade. O mundo encontra-se
em permanente mudança e é necessário e urgente saber transformar a incerteza em
equilíbrio mental, para não afundarmos na entropia psicológica, nestes dias
feios da pandemia.
E
o que é a entropia psicológica?
Entropia
é um conceito com origem na termodinâmica, segundo o qual, os sistemas tendem a
derivar para um estado de caos e desordem. Na psicologia, este conceito
relaciona-se com quantidade de incerteza e desordem que existe dentro de um
sistema e como somos capazes de encontrar equilíbrio no caos que nos afecta.
A
nossa mente possui algo de fabuloso, que é ser dotada de mecanismos, capazes de
reagir contra a entropia. É o nosso instinto de defesa, que conserva a nossa
identidade e o que nós somos, porém, o nosso mapa estratégico sobre o mundo e
os nossos modelos cognitivos são insuficientes para nos antecipar e nos
preparar para o que vai acontecer a seguir. E quanto mais violento e imprevisível
é o que vem a seguir, mais facilmente nos aproximamos do caos da entropia,
porque ficamos sem referências, sem tecto, e perdemos o sentido crítico para
avaliarmos correctamente as situações.
Só
temos dois caminhos, ou cair no poço e afundar, ou tentar ficar à superfície,
contrariando o processo, reorganizando o nosso interior e procurar novos pontos
de equilíbrio, num contexto de tolerância da incerteza – é o triângulo com o vértice
direccionado para a parte inferior, com equilíbrio estudado e tentado em
continuidade.
Toda
a aprendizagem se faz nesta tentativa de equilibrar o triângulo invertido.
Converter a dor em força, alinhando estruturas colapsadas, flexibilizando
conceitos estáticos, transformando angústias e ansiedades em certezas
provisórias, abrir a mente a novos paradigmas e apelar constantemente à nossa
criatividade e renovação. Esta dialéctica de crescimento confere-nos maior
riqueza interior e uma melhor adaptação ao mundo que não para, tornando-nos
flexíveis e tolerantes. Chama-se a isto evolução consciente.
Resistir
à mudança é alimentar a nossa entropia psicológica, que está sempre preparada
para nos acolher em estado depressivo, fechando-nos para a vida, retendo-nos no
maior pântano de nós. Aprenda a compreender a incerteza e a viver bem com ela.
O seu bem-estar depende dessa gestão equilibrada entre aquilo que somos e o que
o mundo nos oferece.
Publicado em VR, 3/02/2021
O SILÊNCIO DO KISANJI - análise - parte 1
Questiono-me sobre a legitimidade da minha apreciação, sendo eu um dos personagens implícitos, inclusive fazendo parte do rol de anónimos a quem a autora também dedica o livro, hesitei.
A apresentação gráfica facilita a leitura não faltando apontamentos, em rodapé. de informação histórica que enquadram a narrativa no tempo e, em simultâneo, ajudam a entender a sequência do texto.
Uma nota especial para os salpicos de poesia com os quais
Anabela Quelhas, em nome próprio ou sob pseudónimo, vai entrecortando a prosa.
João Pedro
Fonseca






















