22 setembro, 2024
20 setembro, 2024
ANA MARGARIDA DE CARVALHO
Hoje finalmente conheci Ana Margarida de Carvalho, uma das minhas referências na literatura contemporânea. Autografou este meu livro; foi o primeiro que li e que me impressionou muito, pela capa, pelo título, pelo tema (naufrágio de uma embarcação que faz trafego de escravos no século XIX, na costa do Brasil), pela narrativa, a descrição detalhada e as emoções que me causaram.
Recordei a História Trágico-Marítima, o Hugo conseguiu arranjar uma edição no alfarrabista e desta leitura nasceram várias conversas sobre o tema.
A Ana Margarida foi entrevistada por Ana Vanessa e depois respondeu às perguntas do público e aí explicou-me como surge a ideia de escrever sobre um naufrágio.
18 setembro, 2024
Transportes públicos
Transportes públicos
Como tenho manifestado
críticas à organização e utilização do centro urbano, pode parecer que pertenço
àquele grupo, que entregariam o centro da cidade à poluição e aos veículos
privados, mas não corresponde à verdade, e hoje vou escrever sobre os
transportes públicos desta cidade.
Parece-me que a cidade
tem sido favorecida com uma rede de transporte pública razoável, 25 linhas que
ligam não só vários pontos da cidade, assim como vários pontos do concelho.
Antes de 2002 isto não
existia. Desde 1975, que a cidade cresce, mas o poder político esteve 25 anos
inactivo nessa matéria.
Havia 2 ou 3 empresas
privadas que faziam o seu negócio transportando pessoas da cidade para as
aldeias, sem um plano estratégico a pensar nos cidadãos e nas suas necessidades
de deslocação urbana. Cada um tinha que andar a pé, de carro de praça ou
comprar um veículo automóvel pessoal, para poder deslocar-se. Cheguei a esta
cidade em 1988, habituada a utilizar transporte público no Porto e em Coimbra,
e aqui, fui trabalhar para Mateus e tive que utilizar viatura própria, para ir
trabalhar porque não existia alternativa.
Estamos melhor, uma boa
rede de transporte publico alivia a pressão nos centros urbanos e alivia a
bolsa dos cidadãos. Estamos muito melhor! Temos cerca de 25 linhas estruturais
em que algumas ainda se desdobram e cobrem grande parte do território.
Pelos dados que recolhi
(desconheço se são fiáveis) teríamos em 2022 uma frota de 20 veículos –
parece-me pouco para 25 linhas.
A minha experiência é
positiva, como vivo relativamente perto do centro, tenho transporte quase à
porta, utilizo-o fora das horas de ponta e constitui um recurso satisfatório
para me ajudar na minha mobilidade urbana. Na verdade, se tiver que estacionar
no centro, o dinheiro do estacionamento ultrapassa o custo de duas viagens em
transporte publico. Devo elogiar também os profissionais que os conduzem, que
manifestam simpatia e ajudam os utilizadores.
Tudo parece bem, mas
não está.
Refiro o interior dos
autocarros onde falta a visibilidade de um esquema da linha e um pequeno
esquema de toda a rede, atendendo a que há utentes que têm de usar mais do que
uma linha; falta também um monitor de informação com aviso antecipado da
identificação das paragens. O desenho do interior dos autocarros está feito
apenas para jovens; pretendendo-se rentabilizar o espaço do habitáculo, resultam
bancos elevados com degraus ou plataformas tornando perigosa a sua utilização
aos menos ágeis e menos novos.
Sobre as paragens de
autocarro, têm desenho contemporâneo, formadas por painéis transparentes, com
painel lateral direito com configuração de outdoor ou mupi[1]
(tive dificuldade em seleccionar o termo correcto) e respectivo postalete.
Usufruindo da sua forma de abrigo localiza-se um banco para os utentes se
poderem sentar, protegidos das intempéries.
Tudo parece bem, mas
não está.
O referido “postalete”
possui informação reduzida e esquemática das linhas, que é insuficiente. Os horários,
o esquema de toda a rede diurna e nocturna são inexistentes. O mupi está
ocupado com publicidade, certamente paga, e não se dá prioridade às informações
em falta. Como forma de ultrapassar este constrangimento veem-se folhas A4
coladas com fita-cola, sobre os painéis transparentes onde não deveria ter nada
para facilitar a sua limpeza e transparência. Fica o contraste entre a
modernidade e o desenrasque, com várias folhas A4, umas bem coladas e outras
com parte da folha pendurada.
Isto merece reflexão, o
mundo da publicidade é voraz. A publicidade exterior é o melhor investimento
para marcas que procuram notoriedade e impacto. As paragens de autocarro são
bons lugares para promover produtos ou serviços e influenciar decisões de
compra. São locais de permanência obrigatória, de um público flutuante,
diversificado com predominância de jovens. Assim, a colocação de publicidade
não é uma atitude ingénua da autarquia, mas sim uma atitude que produz
rendimento.
Aqui fica o reparo, a autarquia não
pode ser ambiciosa e querer tudo, ou pretende ter munícipes bem servidos ou
pretende rendimento publicitário fácil.
Um último apontamento:
às onze horas no interior dos autocarros já não se reconhece qualquer aroma
associado à higiene diária; as paragens requerem uma maior higienização,
qualquer utente percebe nos elementos transparentes, restos de fita cola, e
surro. Sim, escrevi surro e outras sujidades resultando da limpeza pouco
cuidada.
Tudo
parece bem, mas não está.
17 setembro, 2024
16 setembro, 2024
15 setembro, 2024
13 setembro, 2024
sexta treze
Entre as névoas do tempo,
em noite de sexta feira 13 solto coriscos e maldições
segredos antigos sussurram ao vento.
Que este peçonha te pegue aos trambolhões
De cruzes, marreca e hálito fedorento.
11 setembro, 2024
Eu docente me confesso
Eu docente me confesso
Não caí no mundo da docência por
acaso, decidi ter uma vida profissional ligada à arquitectura e esta só se
completava com algo mais. O mundo do projecto, a intervenção urbana activa, o
pensamento e análise crítica do território, a construção, os materiais de
construção e a interacção com os clientes, precisava de algo que articulasse
outras áreas artísticas, que sempre fizeram parte mim e no mundo da
arquitectura eram muito secundarizadas ou até esquecidas.
O ensino surgiu como a oportunidade para preencher esse espaço e dar-lhe brilho, que não sendo sobrante, era paralelo
a outros. Nunca quis ensinar geometria descritiva, porque rigor e raciocínio
abstracto era o que eu tinha que chegasse e sobrasse, como arquitecta. Eu
precisava de tudo que compunha a área das artes visuais para alimentar
experiências relacionadas com o desenvolvimento artístico dos jovens,
estivessem eles na fase das operações concretas ou na fase das operações
abstractas. Tinha ainda muito presente a minha experiência liceal, reconhecendo
a importância do balão de oxigénio do Desenho, para a formação da minha
personalidade observadora e criativa. Eu queria proporcionar experiências
semelhantes a outros jovens, que estão naquela idade, que não sabem o que
querem, rebeldes, inconvenientes e sobretudo de mente aberta para o mundo,
potencialmente criativos dentro de armários que nem sempre se abrem. Precisava
disso para não estagnar, para me sentir rejuvenescida, colorida diariamente e,
por outro lado, sentia que poderia exercer uma boa influência nas mentes em
formação, levá-las a realizar experiências marcantes, enriquecer o seu interior
e facilitar a exteriorização do mesmo, reduzindo-lhes a agressividade - fazê-las
gostar de arte.
E foi assim, a minha formação
académica deu-me parte do suporte do conhecimento científico, e foi necessário
adicionar pedagogia e formação contínua, para depois poder navegar no mundo do
ensino das artes visuais com felicidade e criatividade. Detesto repetição; o início
de cada ano lectivo, foi sempre um recomeço e exigia de mim, tudo, como se
fosse a primeira vez. Nunca propus os mesmos temas de trabalho, e assim, até
para mim, cada ano era único e novo, o que me rejuvenescia e motivava. Recorri
com frequência a auto-formação, dei por mim a investigar na área da psicologia
e da neurociência e devo ser dos poucos professores, que incluem assumidamente na
sua formação contínua, visitas a museus e exposições – saber o que os outros
fazem, enriquece o meu caminho e reflecte-se nos meus alunos.
Tive alunos mais ou menos criativos e
todos sempre obtiveram um estímulo positivo para avançar e nunca rejeitar
trabalhos. Sempre souberam que com uma pequena ajuda se consegue converter um
trabalho, em melhor trabalho, não sendo necessário deitá-lo ao lixo.
Também andei de mala às costas, e
sofri todos os problemas que esta carreira vem absorvendo ao longo dos anos,
tenho o meu registo biográfico cheio de greves, animei-me com conquistas,
decepcionei-me com derrotas e tentei sempre ser a almofada dos meus alunos.
Infelizmente, atravessei uma zona
turbulenta e verdadeiramente cinzenta – quando os ministros entenderam
transformar a Escola numa fábrica, como se 1 kg de carne tivesse de dar
obrigatóriamente 20 croquetes. Fui obrigada a seguir o meu caminho, adoptando
práticas nem sempre aquelas que me exigiam, para proteger a aprendizagem dos
meus alunos, arriscando a ter a direcção, colegas e até pais contra mim. Há
momentos que é preciso dizer NÃO. O sistema obrigou-me a aplicar fichas
diagnósticas, que eu recusava e esquecia logo a seguir, porque nunca quis criar
expectativas sobre os meus alunos no primeiro dia de aulas. Sempre assumi que a
avaliação em arte é subjectiva e sempre escrevi mais, do que apliquei as fichas
excell tão endeusadas por alguns. Defendo que um aluno nunca desaprende
e por isso a avaliação deve ser contínua, verdadeiramente contínua, aquela que
vai corrigindo a anterior. Acreditei sempre que as principais estratégias de
sucesso são o envolvimento do aluno na aprendizagem, a ampliação ou reforço da
sua auto-estima e o sentido de humor do professor, para converter a aula num
espaço em que o tempo passa rápido.
Com muitos e muitos anos de prática
profissional e já no limite do exercício, penso nos meus alunos de várias
gerações. Sinto-me realizada por ter sido referência para muitos deles. Gosto
de os reencontrar já inseridos no mundo do trabalho e perceber que pertenço à
vida deles. Sinto-me sobretudo grata, porque sem eles, não teria criado engenho
para gerar equilíbrio e motivação para ter sucesso em outras tarefas da vida.
Publicado em NVR 11/09/2024
apaixonei-me
Apaixonei-me por este edifício, casa,
moradia, habitação, o que lhe queiram chamar.
Olhava-a quando me levantava através
da janela do hotel, e o meu primeiro pensamento tinha esse destino.
Olhava-a quando estava na praia.
Olhava-a a passar para o restaurante
e despedia-me dela no regresso ao hotel no final da noite.
Observei-a na sua presença com alçado
principal e também exactamente do ponto de vista oposto, imaginando o resto.
Apaixonei-me.
Paixão de corações e suspiros.
Com a minha maturidade já não foi o
objecto em si, que me atraiu, os planos geométricos, a forma/função, a estética,
a inovação arquitectónica. Apaixonei-me pela simplicidade, escala, robustez combinada
com a fragilidade visível. Ao apaixonar-me por ela foi mais forte a sua essência
relacionada com o exterior, do que haveria no seu interior. O interior
desconhecia-o e adivinhava-o, como o mínimo essencial para habitar.
Apaixonei-me por aquilo que poderia ver daquele espaço para o exterior – o pôr
do sol diário, o maior espectáculo do mundo, o marulhar sereno do mar, o areal
como base morfológica e o céu imenso. Imaginei-me a espreguiçar-me logo de
manhã com a sensação do sítio do espaço marítimo. Imaginei-me à janela a olhar
para fora, para o espaço por onde andei a deambular. Imaginei-me a ouvir música
apreciando o vento do exterior ou a falta dele. Imaginei-me a ler um livro e levantar os olhos
até aos últimos raios de sol. Imaginei-me no degrau vinte dos afectos,
aconchegando o brilho e a geografia do lugar, através de uma lareira no
Inverno, como garantia infinita de felicidade.
Seria ali o meu porto seguro contigo,
provavelmente igualável a Cassiopeia.
Seria o espaço de meditação/reflexão
de mulher formada, autónoma, emancipada, que nunca dependeu de ninguém, com as
suas lutas pela liberdade.
Seria um espaço de relaxamento e
lazer, apreciando as boas sensações da vida.
Seria também o espaço para
desenvolver sentido critico sobre mim e o mundo acompanhada de granito e
fenestrações brancas, associadas a melodias que branqueiam velhos dissabores.
Trouxe estas emoções comigo, memórias
embrulhadas em alegria e coração cheio.
Voltarei.
in "Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado" Anabela Quelhas
08 setembro, 2024
BAIONA
Baiona, deve-se a Diomedes de Etolia, filho do fundador de Tui. Quando os romanos invadiram a Península Ibérica no séc XII A.C., tentaram igualmente conquistar Baiona, mas tal foi impossível devido à oposição de Viriato (o nosso?). Um século depois organizou um exército aqui para expulsar aos hermínios das Ilhas Cíes.
Em 1201, quando Alfonso IX de León concedeu à antiga
«Erizana» o actual nome, Baiona e deu-lhe privilégios para o comércio marítimo.
Baiona abandonou o vínculo ao Mosteiro de Oia e tornou-se uma das vilas
costeira mais importantes da Galiza.
Pelo seu valor estratégico, foi atacada no séc. XIV por
portugueses e ingleses, levando à quebra até 1425, ano que Juan II deu um novo
impulso a Baiona, declarando que juntamente com a Corunha, seriam os 2 únicos
portos marítimos com capacidade de importar e exportar mercadorias.
Foi em 1493 que chega ao seu porto, a Caravela Pinta, dando
em primeira mão a notícia do descobrimento da América.
Em 1497 os Reyes Católicos concederem vários benefícios a
Baiona, ordenando a população a viver dentro das muralhas da fortaleza de Monte
Boi.
No séc XVI, volta a ser atacada por frotas estrangeiras, entre elas a do pirata inglês Drake, que foi expulso pelo conde de Gondomar.
O centro histórico de Baiona é considerado um dos mais bens
cuidados e preservados da Galiza, tendo sido declarado pela Junta da Galiza, em
1993, como Conjunto de Interesse Histórico-Artístico. Pequeno, granítico, mas
charmoso, o casco antigo tem tudo o que se pode esperar deste tipo de espaços:
casas antigas de granito, igrejas e cruzeiros seculares, fontes, ruas e ruelas
estreitas de pedra, ou pequenas praças escondidas, com cafés e restaurantes
típicos. É de realçar o Cruzeiro da Santíssima Trindade, a Capela de Santa
Liberata ou o Convento das Dominicanas. Os espaços exteriores são cuidados e
limpos e aproveitados para zonas de lazer ligados à restauração. A escala
humanizada, converte esta urbanidade atractiva.
No Paseo Ribeira encontra-se o Azulejo de la Arribada. Este impressionante conjunto
de arcos decorados com elementos comemorativos remete-nos para a data da
Descoberta da América. Na fachada virada para a praia, podemos admirar um
mosaico de azulejos que representa um mapa detalhado das rotas seguidas pelas
caravelas La Niña e La Pinta, que chegaram a Baiona, na sua histórica viagem de
regresso a Espanha. Este magnífico azulejo foi generosamente doado pelo talentoso
artista Moisés Álvarez à Câmara Municipal de Baiona em setembro de 1962.
O Azulejo da Arribada é composto por cento e oitenta azulejos cuidadosamente colocados, que representam as rotas seguidas por Martín Alonso Pinzón e Cristóvão Colombo a bordo das caravelas Pinta e Niña em seu retorno do descobrimento. Essas rotas levaram essas históricas embarcações a Bayona e Lisboa, respectivamente. Este fascinante conjunto faz parte da Rota Pinzoniana, um itinerário repleto de descobertas e aventuras.
Destaque:
- Santos de roca localizados na igreja da Misericórdia, que desconhecendo-se a sua função e a sua circunstância, surgem como pavorosos.
- Escultura contemporânea dedicada à viagem de Magalhães
- Arroz de lavagante.
Diário de viagem AQ
06 setembro, 2024
ANTECIPANDO
é já amanhã!
Quantos? acho que perdi a conta.😊
Ter um autógrafo de 1996 encaixilhado, não é para qualquer um e tem as suas vantagens.
Obrigada Pedro.
05 setembro, 2024
COMBOIO NOTURNO PARA LISBOA
*****
A vida pode mudar num instante. Filme do cineasta
dinamarquês Bille August, protagonizado por Jeremy Irons, baseado no romance de
Pascal Mercier.
A vida de Raimund Gregorius é muito organizada, mas monótona
e previsível. O professor de Latim, de 57 anos de idade, vive num minúsculo
apartamento em Berna, vai a pé para a escola onde ensina uma disciplina que
interessa pouco à maioria dos alunos, e, à noite, incapaz de adormecer, joga
xadrez consigo próprio.
O dia que vai mudar a sua vida começa como qualquer outro.
Quando atravessa a ponte, a caminho da escola, vê uma jovem mulher, com um
casaco vermelho, prestes a atirar-se ao rio. Raimund salva a vida dessa mulher
e, sem querer, ela acaba por salvar a dele. A mulher acompanha-o até à escola.
No caminho, Raimund pergunta-lhe se tem noção de que pode mudar a vida num
instante. Quando a enigmática mulher se esquece do casaco vermelho na sala de
aula, Raimund, para surpresa dos alunos, corre atrás dela. Não a consegue
encontrar mas, no bolso do casaco encontra um livro e dois bilhetes de comboio
para Lisboa. Raimund chega à Estação no momento em que o comboio está prestes a
partir. Não encontra a mulher em lado nenhum. No último minuto,
inexplicavelmente, embarca no comboio. Durante a viagem, começa a ler o livro,
um profundo trabalho de Amadeu Prado, médico português, revolucionário e
filósofo. Quando chega a Lisboa está ansioso por conhecer o homem cujas
palavras o tocaram profundamente.
04 setembro, 2024
Partilhar mesa
Partilhar mesa
Quando nos juntamos à
volta de uma mesa, para partilhar uma refeição, entramos inconscientemente numa
aventura que convém analisar.
Os nossos pais
ensinaram-nos a estar à mesa de refeições definindo algumas regras básicas
sobre o que se pode ou não fazer, relacionadas com regras de comportamento,
higiene e etiqueta.
Mexer nos pés, no nariz
e nas orelhas não pode; mastigar de boca aberta e colocar os cotovelos em cima
da mesa, idem; saber utilizar pratos, talheres e copos, e identificar a função
de cada um, é obrigatório. Mexer no cabelo e expôr as pilosidades de outros
locais é condenado; passar objectos por cima da mesa, também; descalçar os
sapatos ao longo da refeição é pouco elegante… Evitar arrotos e outros ruídos
do aparelho digestivo, estes podem enojar os outros. Ter criancinhas a gritar,
incomoda e sugere má educação dos papás, assoar o nariz, quando é inevitável,
deverá fazer-se discretamente, rodando a cabeça lateralmente e se possível,
retirar-se, se o caso for sonoro e prolongado - traga sempre lenços-da-mão consigo.
Com a pandemia, a exigência aumentou, todos devemos estar ainda mais atentos à higiene.
Usar unhas gigantescas que dificultam a higiene, não parece bem. Báton em
excesso que deixa resíduos no guardanapo e nas chávenas, parece uma sangria
desagradável. Punhos de camisa mal-cuidados e caspa nos colarinhos também não
parecem bem. Falar e rir durante a deglutição são situações, que se podem
revelar desastrosas. Nada mais constrangedor que sorrir com um pedaço de
azeitona ou couve, coladas aos dentes. Nada mais nojento do que gafanhotar a
mesa e o parceiro da frente, porque se saliva, conversa e come em simultâneo –
tenha calma e serenidade. Falar alto, discutir, gesticular, fazer barulhos a
comer, sorver a sopa com ruído, e colocar as espinhas fora do prato, são
atitudes impensáveis. Fazer certos comentários sobre a refeição servida, também
pode revelar-se ofensivo e estranho. Adianto algumas pérolas:
- O consommé servido,
parece água coada nas minhas meias.
- A empanada com
estes pedaços de batata parece um vómito.
- O bife está duro
comós cornos. -
mesmo que esteja, não deverá dizer-se.
- O bacalhau exala
um odor que até parece outra coisa.
- Estas tripas sabem
ao que são.
Perguntar “o que é o
comer”, arrepia qualquer um e destrói a possibilidade de encantamento e sedução
para com os outros.
Apresentar-se de olhos esbugalhados e encher o prato, tipo pirâmide, como se não houvesse amanhã, revela-o esfomeado e que vai consumir acima do razoável, até encher bem
a pança.
Deixar o guardanapo
rigorosamente dobrado tal como o encontrou, é pouco elegante, lançar o
guardanapo à volta do pescoço só é permitido às crianças e pessoas idosas,
acabar uma refeição de talheres abertos deixa em dúvida quem serve, deixar os
talheres paralelos do lado esquerdo significa elogiar a qualidade do repasto.
Respeite sobretudo quem
o serve e em locais formais não peça para levar os restos para casa, prática
que se começa a vulgarizar, porque anda tudo sem dinheiro.
Para além de tudo isto,
um verdadeiro universo de boas maneiras, foque a atenção na personalidade dos
outros, para que tudo corra bem.
Se estiver com alguém introvertido,
é normal que este prefira ouvir, a falar, porém, seja inteligente e deixe
espaço para que ele se sinta confortável para participar.
Os extrovertidos
podem animar a mesa, porque gostam de conversar e conhecer pessoas, mas é
necessário evitar o exagero, caso contrário eles converter-se-ão nos “reis da
festa”. É necessário saber moderar o seu entusiasmo.
Depois temos aqueles
que passam a refeição a reflectir, meditar e parecem apreciar apenas conversas
profundas e inteligentes, falam sempre com ponderação e superioridade, gerando
admiração (nem sempre verdadeira) silenciosa dos outros. Quanto a mim, nada
pior do que ter um contemplativo ao meu lado, que parece saído de um
retiro budista.
O aventureiro,
aquele que tem sempre histórias para contar é um excelente quebra-gelo
O líder natural
consegue unir o grupo com a sua confiança e habilidade em navegar na conversa
dos outros, sem ser deselegante, sem desgastar, sem invadir, sem intimidar e
garantindo a oportunidade para que todos participem, mesmo os introvertidos. Um
líder também pode ter um talento adicional e ser um conector, gerando
ligações entre os presentes, mediando assuntos e conversas. Terá de ser capaz
de perceber rapidamente os interesses comuns, para criar pontes entre os
presentes.
Teremos também os mais
passivos e quietos, os observadores, atentos a tudo, críticos e que se
podem esgotar apenas num sorriso, um sorriso cativante, charmoso, que poderá
conter o universo.
Eventualmente será bom
ter um companheiro humorista, que dá a nota da boa disposição e de humor
controlado, que faz rir, sem ser palhaço.
O provocador,
gosta de desafiar as opiniões dos outros, mas que deverá ser moderado e
controlado, para não converter o jantar, ceia ou almoço, numa batalha campal. A
sensatez aqui é essencial, para respeitar os pontos de vista dos outros.
Finalmente o pessimista,
aquele que traz sempre a nota negativa e dramática à conversa, destruindo o
entusiasmo e a dinâmica de todos, assumindo-se como elemento desagradável.
Apela sempre para o que correu mal na sua experiência e na dos outros, é
repetitivo, saturante e todos os tópicos terão uma perspectiva negativa; o
melhor é ignorá-lo.
Já tinha pensado em
tudo isto? De repente estamos à mesa com uma amostra completa da sociedade e há
que a converter numa oportunidade para aprender, para se divertir, crescer em
conjunto, onde se salienta como primordial, a flexibilidade, para que esta
reunião resulte gratificante.
E não se levante antes
dos outros terminarem!
Guarde as críticas para
depois, não existe nada mais desagradável do que se levantar já de “nariz
torcido”.
Nota final, não se
atire às comidas picantes para evitar a fuga de boca aberta, para a instalação
sanitária, como se alguém tivesse que chamar os bombeiros e também não se aproveite
do facto de não pagar a conta, ou esta ser dividida por todos, para tirar a
barriga de misérias – esse será o perfil do oportunista.
Publicado em NVR 4/09/2024










