"PEQUENA CANTIGA À MULHER" - Maria Teresa Horta
Voz: Anabela Quelhas
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O ano de 2026 foi declarado como o Ano Internacional da Mulher Agricultora e Rural, uma iniciativa proposta originalmente pelos Estados Unidos e apoiada por mais de 120 países, e oficialmente adoptada pela Assembleia Geral da ONU em Maio de 2024. Este reconhecimento pretende celebrar e valorizar o papel fundamental das mulheres na segurança alimentar global, além de promover a eliminação das desigualdades de género no sector agrícola.
Este é um momento de comemoração e de reforçar, diariamente, o reconhecimento às acções das mulheres agricultoras e rurais, destacando a sua contribuição indispensável para o desenvolvimento sustentável das comunidades e das sociedades em todo o mundo.
O processo histórico destas
mulheres no meio rural é marcado por uma longa luta contra a invisibilidade,
jornadas duplas e subordinação, onde o seu trabalho foi muitas vezes
considerado apenas como “ajuda” doméstica, e não uma actividade profissional de
valor.
Embora as mulheres
representem aproximadamente 43% da força de trabalho agrícola mundial, menos de
20% possuem terras próprias, enfrentando obstáculos no acesso a financiamentos,
tecnologias e formação especializada. A tecnologia surge como uma aliada importante
na redução de barreiras físicas e na ampliação do acesso a tarefas mais
complexas e exigentes, contribuindo para a sua autonomia. No entanto, as desigualdades
salariais ainda persistem, chegando a disparidades de até 40% em relação aos
homens, no caso de Portugal.
As mulheres rurais
acumulam longas horas de trabalho, dividindo-se entre a produção agrícola, as
tarefas domésticas e os cuidados com a família. Muitas dessas mulheres não são
reconhecidas oficialmente como agricultoras ou trabalhadoras, o que as exclui dos
direitos de protecção social. Além disso, factores culturais e tradicionais
continuam a limitar a sua participação nos espaços de decisão governamentais,
mantendo a posse da terra predominantemente nas mãos dos homens.
Apesar dessas
dificuldades, as mulheres rurais permanecem como agentes essenciais na
conservação da biodiversidade e na garantia da segurança alimentar. Elas lutam
por autonomia, por maior acesso a recursos e por condições de trabalho dignas.
Para promover mudanças efectivas, é fundamental implementar políticas públicas
que garantam acesso ao crédito, à terra, à assistência técnica e a regimes de
protecção social.
A MARP – Associação das
Mulheres Agricultoras e Rurais Portuguesas – reafirma o seu compromisso de dar
visibilidade à realidade dessas mulheres em Portugal e de actuar na construção
de políticas que valorizem o seu trabalho no campo. Para a Associação, a
celebração de 2026 Ano Internacional representa uma oportunidade de
reconhecimento e mobilização, reforçando o papel das mulheres rurais na
produção de alimentos, na sustentabilidade e na coesão territorial.
Pretende-se que 2026
seja um marco na afirmação das mulheres rurais portuguesas — um ano em que o
país reconheça que, sem elas, não há soberania alimentar, nem futuro para o
meio rural. Para isso, diversas acções e eventos serão realizados ao longo do
ano, a saber:
· Lançamento oficial do Ano
Internacional 2026 pela CCDR Centro;
· Exposição “Raízes de Mulher: Sementes
de Futuro”, em Coimbra;
· Apoio às candidaturas do Programa
TalentA;
· Criação e divulgação da Caderneta da
Mulher Agricultora e Rural (CNA/MARP);
· Programas de capacitação e formação
promovidos pela Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural;
Estas acções visam
ampliar a visibilidade, fortalecer a participação e promover a valorização das
mulheres rurais, reconhecendo o seu papel vital na construção de um campo mais
justo, sustentável e igualitário.
Após uma rápida
pesquisa, parecem-se serem acções sobretudo palavrosas, que conduzirão a poucas
mudanças, certamente secundarizadas pelo cenário de catástrofe que Portugal enfrenta
actualmente, devido à sucessão de tempestades severas que atingiram o país.
[8 de Março – Dia
Internacional da Mulher]
Publicado em NVR 04|03|2026
GERAÇÃO SANDUÍCHE
A geração, que fecha a
porta para o mundo real, é aquela que viveu a sua infância e a juventude ainda
sem grandes saltos tecnológicos, sem computadores, sem internet… nem
micro-ondas havia, a sopa tinha de ser aquecida numa panela e ir ao fogo.
Usámos fraldas de
tecido quando nascemos, jogámos às escondidas, saltámos à corda, deslizámos de
patins sem joelheiras, andámos de bicicleta sem capacete, por vezes brincávamos
com bonecas de trapos, lançávamos o pião, brincávamos à macaca, ao berlinde, ao
macaquinho do chinês, ao jogo do lencinho e à corrida de sacos… ia-se à casa da
vizinha para telefonar, comíamos pão com manteiga e açúcar, líamos livros aos
quadradinhos, ainda não havia betadine para desinfectar os joelhos sem pele e
havia brinquedos para meninos e brinquedos para meninas.
Se queríamos ouvir
música sem ser na rádio, ou tínhamos gira-discos e discos de vinil, ou cassetes,
o que era raro – e já se considerava um sucesso relativamente à geração
anterior. Colecionámos selos, cromos e carteiras de fósforos.
Utilizámos a máquina de
escrever para dar bom aspecto a alguns trabalhos de casa, mas era um problema
quando não havia corrector.
Às refeições usámos
guardanapo de pano, que era substituído por outro, no fim de semana, se
queríamos ver filmes, tínhamos de ir ao cinema, e televisão só tinham os mais
empoderados e era a preto e branco. Os meninos calçavam sandálias no verão até
aos 15 anos e as meninas, vestiam saiote e calçavam peúgas brancas até serem
adultas e só depois tinham autorização para usar meias de vidro ou de mousse.
Não havia classe média,
havia a classe dos remediados e aquelas famílias que tinham sorte em não passar
fome.
Ter uma esferográfica
preta de esfera fina era um luxo e não havia fotocópias. A maioria das mães eram
domésticas, faziam as tarefas de casa e tratavam dos filhos, que só iam à
escola a partir dos sete anos e a nossa ambição era sermos independentes dos
pais para podermos ter opinião e usufruir de um espaço fora de casa deles.
A comida não tinha
nomes esquisitos, não havia tiramisu, cheesecake, pavlovas e vol-au-vent; havia
pudim boca-doce, arroz-doce, aletria, queijo com marmelada e a mousse era um
luxo. Rapávamos o tacho quando a mãe fazia um bolo ao fim de semana.
Esta geração é
considerada a última a ter vivenciado uma infância e adolescência
predominantemente analógicas, correndo alguns perigos e com imaginação
suficiente para resolver problemas, mesmo sem saber quem seria no futuro Mark
Zuckerberg, Steve Jobs e Bill Gates, o que seria um telemóvel e uns
smartphones. Desenvolvemos várias competências principalmente saber esperar,
saber pensar e ultrapassar uma contrariedade. Por vezes o chinelo da mãe ganhava
asas e voava, acertando o nosso rabo ou as pernas. Na classe dos remediados
urbanos, nas festas, os rapazes usavam Old Spice e as raparigas usavam Madame
Rochas.
O nosso Facebook era a
conversa da treta entre os amigos. Se queríamos fotografias tínhamos duas
despesas, a primeira, comprar o rolo de 24 fotografias, e depois revelar o rolo
em loja própria e com sorte demorava só 4 dias a revelar. Alguns ainda fizeram
serviço militar.
A Era Digital começou
quando já éramos adultos, aprendemos a desenrascar e a assumir a transição para
o mundo digital.
As mulheres emanciparam-se
e adiaram a gravidez, para se dedicar por inteiros às suas carreiras
profissionais.
Agora com 50/60 anos
chamam-nos a "geração sanduíche" porque cuidamos simultaneamente de
filhos jovens e pais idosos. Este fenómeno, impulsionado pelo aumento da
longevidade e maternidade tardia, gera sobrecarga emocional, financeira e
física, aumentando o risco de “burnout” e depressão.
Temos uma esperança de
vida mais longa, mas temos um percurso com excesso de responsabilidades.
Estamos entre duas gerações dependentes – os filhos que dependem financeira dos
pais até muito tarde e que não desejam sair de casa e temos os pais a perder
autonomia e a necessitar de cuidados e atenção – e fora de casa temos a
exigência máxima profissional. Alguns, cujos filhos se descuidaram, já são avós
e têm outra geração para cuidar. Estar na casa dos pais é sempre mais cómodo e
mais barato.
Éramos sonhadores e
divertidos, e agora somos os faz-tudo e os que desenrascam tudo em casa.
Falta-nos tempo e o que temos não é para nós.
Estamos exaustos!
Publicado em NVR 25|02|2026
O livre arbítrio
Palavras que tantas
vezes ouvimos, em diversos contextos, sem ter a verdadeira noção do que isto
significa.
O livre-arbítrio é um
exercício de liberdade, é a capacidade humana de tomar decisões independentes,
segundo a nossa própria vontade, sem influência externa.
Este tema tem sido
amplamente estudado e discutido ao longo da história, tanto na filosofia quanto
na teologia e na ética.
Na perspectiva
religiosa, o livre-arbítrio é visto como um dom concedido por Deus ao ser
humano, permitindo-lhe optar entre o bem e o mal. Essa visão distingue os
humanos dos demais animais, que agem apenas por instinto. Mesmo diante da fé, a
divindade não impõe as suas vontades, pelo contrário, concede ao Homem a
liberdade de escolha e, com ela, a responsabilidade pelas suas acções.
Muitos filósofos
defendem a chamada “Visão Tradicional”, que diferencia os humanos dos animais
pelo fato de possuírem capacidade de abstração e reflexão. Enquanto os animais
reagem a estímulos imediatos e necessidades biológicas, os seres humanos podem
pensar o presente e o futuro, analisar informações, ponderar consequências e
tomar decisões que, por vezes, vão contra os seus impulsos que resultam do seu instinto.
Assim, apenas os humanos seriam moralmente responsáveis pelos seus actos, pois
têm a capacidade de distinguir entre o “certo” e o “errado”.
A “Visão Científica” refere
que até animais simples, como moscas, não são completamente previsíveis nos seus
comportamentos. Eles podem escolher entre diferentes opções numa mesma
situação, não reagindo sempre da mesma forma. Portanto, o livre-arbítrio não
seria uma exclusividade humana, mas uma característica biológica presente em
graus variados.
Nos seres humanos, essa
liberdade de escolha é mais complexa devido ao cérebro mais desenvolvido. O nosso
conhecimento, cultura, raciocínio lógico-abstracto, sensibilidade, educação,
valores e a consciência de tudo isso, influenciam as nossas decisões. A
consciência tem um potencial extraordinário, pois pode travar impulsos e
raciocínios ilógicos.
É importante distinguir
entre decisões simples, quase instintivas—como mover um dedo—e escolhas mais
complexas, que envolvem processos de reflexão, conhecimento e análise de
informações, referidos anteriormente.
Alguns neurocientistas
preferem usar termos como “autonomia” ou “capacidade de deliberação”, para
descrever o funcionamento do cérebro quando opera de forma “livre”, no sentido
de que segue as suas próprias motivações internas e o raciocínio lógico. Ser
livre, assim, implica ter múltiplas respostas diante de um estímulo e a
capacidade de criar novos desejos e objectivos por meio da reflexão.
Para aqueles que
acreditam no destino, na sorte/azar ou em pragas, é importante esclarecer que
essas ideias muitas vezes escondem a recusa em assumir responsabilidades e a
tentativa de evitar culpas, sossegando consciências. Atribuir a culpa a outros
humanos ou a entidades superiores é uma forma de desresponsabilização,
acreditando que essas forças controlam os nossos caminhos e manipulam os nossos
destinos, como se fossemos marionetes.
Essas questões impactam o campo da Justiça, pois abrem espaço para argumentações que defendem ou acusam, culpados e inocentes, dependendo da interpretação sobre liberdade, responsabilidade e destino.
Publicado em NVR 18|02|2026
Ilustração do poema "Uma poltrona de jardim"
Autora: Anabela Quelhas
É impossível ficar
indiferente a esta tragédia nacional, que muitos portugueses viveram nos
últimos dias.
Neste momento já não
basta proibir a construção e a impermeabilização do solo em zonas de leito de
cheia dos rios. Daqui para frente, perante o cenário que estamos a viver, acrescido
com a previsão das alterações climáticas e por consequência a subida do nível
da água do mar, os municípios devem providenciar a desocupação de muitos edifícios
já construídos e que ficarão submersos.
É urgente repensar e
ordenar o território de outra forma. É fundamental realizar um levantamento
criterioso do limite a que as águas chegaram e repensar o território com um
risco acrescido, atendendo às bacias hidrográficas. O meio rural não se pode
desligar do meio urbano, nem do país vizinho, porque tudo isto está interligado.
Rios e ribeiras atravessam o nosso território e alguns dos nossos rios nascem
em Espanha.
A forma de pensar
cidades ou outros aglomerados, tem que ser pensada de forma realista e
futurista. Não podem ser os políticos a decidir estas situações, nem a
solidariedade será a solução. São os geógrafos, engenheiros e arquitectos que
devem tomar decisões sobre os ecossistemas funcionais, com a ligação entre
solo, vegetação, clima e espaço construído. Temos que repensar o presente para
estarmos preparados no futuro, que se antevê dramático.
Até 2050, a elevação do
nível da água do mar fará com que as inundações costeiras médias anuais
ultrapassem o nível das terras que hoje abrigam cerca 300 milhões de pessoas no
mundo, de acordo com um estudo da Climate Central. A Ásia será o
continente mais afectado.
Já na década de 70, os
ambientalistas alertavam para esse cenário, que parecia longínquo e improvável.
Faltam só 24 anos e a natureza envia-nos sinais cada vez mais evidentes e
catastróficos.
Existem mapas de
Portugal, com esta situação calculada e representada. Estudos apontam como
zonas mais críticas o estuário do Tejo e do Sado, a Ria Formosa, Aveiro e a
Figueira da Foz. Estima-se que cerca de 150 mil portugueses, que residem na
faixa costeira, possam ser afectados directamente. Junta-se a isto, a questão
dos leitos de cheia dos rios, a existência de pequenas linhas de água
invisíveis durante o verão, mas que se preenchem durante o inverno, acrescido
pela impermeabilização do solo resultante dos incêndios e da ocupação
desgovernada e insensata do solo.
Os incêndios florestais
aumentam a impermeabilização do solo ao criarem uma camada hidrofóbica
(repelente à água) e eliminam a vegetação, favorecendo a erosão e a escorrência
superficial.
O que se pode fazer?
Injecção de areia para
criar "amortecedores" naturais contra tempestades, recuperação de
paredões e muros de proteção que sofrem danos com a agitação marítima, planos
de drenagem (com túneis gigantes), investimento em comportas e sistemas de
bombagem para controlar a entrada em alguns espaços, abandonar o betão em favor
de soluções "verdes" e permeáveis, instalação de paliçadas e
passadiços elevados para proteger a vegetação que segura a areia, não passam de
soluções temporárias, vulneráveis e frágeis.
É impensável conseguir
contrariar a Natureza; criar um plano de desocupação progressiva dessas áreas
inundáveis, talvez seja a solução mais eficaz.
Não será fácil. Alguém
está disponível para abandonar os seus bens? Por quanto tempo poderemos
proteger a população?
Habitar o interior não
se evita o problema. Vimos várias cidades do interior afectadas pelas cheias,
porque a rede hidrográfica é algo complexo e abrange todo o território.,
É necessário um plano
estratégico nacional assumido por todos os políticos, rigoroso, sem cedências,
que contemple também o parâmetro educativo dirigido à população, que desconhece
o cenário futuro, e que terá de deixar de ser problema e contribuir para a
solução. Não podemos ignorar ou camuflar este futuro de calamidade.
Já só temos 24 anos!
Claro que tudo que
provoca alterações climáticas é um perfeito acelerador e antecipador da
previsão referida.
Publicado em NVR 11|02|2026
Na procura de uma
sociedade perfeita, na cabeça de alguns, o parâmetro fundamental é a selecção e
a rejeição.
Ora vejamos…
Se eu retirar: velhos,
negros, mestiços, emigrantes, brasileiros, indianos, chineses, deficientes,
doentes, mulheres, pobres, mendigos, sem abrigo, ciganos, desempregados,
pessoas feias, aleijados, comunistas, pensionistas, crianças, ecologistas,
socialistas, notívagos, gagos, cegos, moucos, ignorantes, analfabetos, burros,
bissexuais, oportunistas, chico-espertos, avarentos, bêbados, drogados, bruxas,
feiticeiros, criminosos, palhaços, pedófilos, condutores em transgressão,
vegetarianos, adolescentes rebeldes, gordos, canhotos, carecas, metrosexuais, barrigudos,
escravos, gays, nudistas, rurais, muçulmanos, judeus, lésbicas, pimbas,
transexuais, os que usam piercings, artistas, poetas, os que não sabem
nadar…
O que sobra?
O homem, branco,
musculado, bonito, inteligente, heterossexual, magro, cristão, rico, português,
saudável, activo, cosmopolita, bom profissional… mas, roerá certamente as
unhas, ou tira as catotas do nariz.
Mesmo assim, terá uma
alimentação equilibrada? Evacua todos os dias? Só terá pensamentos
dignificantes? Tem pelos no nariz? Espirra? Tem hálito fresco? Tem fome e sede?
Sabe rir? Sabe chorar? Terá emoções e sonhos? Saberá perdoar? Terá sentido de
justiça?
Estamos a caminhar para
um cenário de desumanização, talvez o mais delicado e desafiador da civilização
contemporânea em que os seres humanos são tratados como objectos, que podem ser
mais ou menos úteis.
Numa sociedade
desumanizada perde-se a empatia, a solidariedade, os valores éticos e a nobreza
das relações interpessoais.
A indiferença pela dor
alheia, visualizando apenas o seu próprio umbigo, seleccionar e rejeitar quem
não obedece ao padrão, usar termos pejorativos, discurso agressivo, generalizar
e ver o "outro" como um inimigo, desprovido de humanidade,
facilitando a crueldade, são as características que se apresentam.
A sua estrutura assenta
no interesse máximo pelo “eu”, e o desprezo pelo outro, a anulação da
complexidade social, perda da solidariedade e sensibilidade moral, sendo uma
técnica comum o incitamento à exclusão, ao genocídio e está sempre presente em
contextos sociais de indiferença, violência e conflito.
A sociedade
neoliberal/capitalista moderna, com foco em interesses mesquinhos e
desregulação, favorece este retrocesso humanitário. As pessoas passam a ser
algarismos e coisas, indiferentes ao sofrimento da família, dos amigos e do
vizinho.
É isto que queremos
para nós?
Processos de
desumanização foram observados na perseguição e tentativa de extermínio dos
judeus, durante a Segunda Guerra Mundial, e actualmente, manifestam-se na
generalização de que todos os palestinianos apoiam o Hamas, todos os
venezuelanos são drogados, todos os ciganos são oportunistas, todos os negros
são burros, todos os emigrantes são criminosos, todos os humanistas são
comunistas, todos ambientalistas são alarmistas e todos os políticos são
corruptos.
Publicado 4|02|2026
Voz: João Carlos Carranca
file:///E:/radio/audio/187A%20-%20Quando%20o%20Homem%20quiser%20-%20Ary%20dos%20Santos%20JC.mp3
Num
mundo onde o digital reina, a leitura, aquela actividade que envolve páginas de
papel e letras impressas, fica para trás. As crianças e os jovens, cada vez
mais habituados a mensagens rápidas, títulos apelativos, muita imagem e texto
curto, nos seus telemóveis, parecem querer trocar o prazer da leitura profunda
por uma satisfação instantânea, efémera e transitória. Essa mudança é boa ou
má? Na verdade, há mais pessoas a ler, e menos hábitos de leitura.
A
ciência revela que a leitura é sempre um exercício vital para o cérebro, um
combustível silencioso que alimenta e enriquece a função cerebral. E o que é
mais interessante: ela não precisa de ser feita somente com livros físicos para
trazer benefícios. Ou seja, ler, mesmo que seja uma mensagem curta ou uma
notícia no telemóvel, estimula funções cerebrais. Contudo, há diferenças
substanciais na qualidade e na profundidade dessa estimulação. Quando folheamos
um livro de papel, activamos uma série de sentidos e memórias cinestésicas — a
posição do corpo, a sensação do papel, o cheiro das páginas — que favorecem uma
compreensão mais profunda, uma retenção maior da informação e um foco mais
intenso.
A
leitura digital, embora permita uma navegação rápida por textos curtos, muitas
vezes estimula uma leitura superficial e impede que a leitura mais aprofundada
se efectue. O nosso cérebro, potencialmente seduzido pelo dinamismo dos
dispositivos, tende a processar as informações de forma mais rápida e menos
profundada. Isso pode ser útil para tarefas rápidas, mas, no que diz respeito à
compreensão de conteúdos complexos ou ao desenvolvimento de pensamento crítico,
deixa muito a desejar. Pais e educadores estejam em alerta.
Assim
como o exercício físico fortalece os músculos, a leitura exercita o cérebro, activa
memórias visuais, linguísticas, motoras, e promove uma espécie de treino
cognitivo constante que pode ser transformado em saber e conhecimento. Porém,
nem todos os que praticam exercício físico são atletas. É necessário algo mais.
A
ausência de leitura regular, em circunstâncias favoráveis à reflexão, tem
consequências palpáveis. Ela limita o desenvolvimento cognitivo, empobrece o
vocabulário, enfraquece o pensamento crítico e diminui a capacidade de
concentração e de decisão. Sem esse estímulo, o cérebro pode atrofiar, acelerar
o envelhecimento cerebral precoce e dificultar a análise de informações
complexas. Uma leitura superficial, típica do ambiente digital, impede o
processamento profundo necessário para compreender argumentos e desenvolver uma
visão crítica do mundo, torna os leitores mais frágeis e susceptíveis de não saberem
descodificar a demagogia escondida na informação que lê, distinguir o
verdadeiro do falso, tornando-se alvos fáceis para serem enganados.
Pais,
educadores e a sociedade têm um papel fundamental em criar ambientes que
estimulem esse hábito, pois o que está em jogo não é apenas o prazer de ler,
mas a formação de cérebros mais resistentes, criativos e críticos, perante o que
acontece na sua vida pessoal, social e política. Saber seleccionar informação,
saber interpretar e saber fazer as suas escolhas, está a ser cada vez mais
urgente.
Sem
leitura e entendimento profundo não há evolução civilizacional, e sim um
retrocesso. O impacto do declínio do hábito de ler na formação do pensamento
crítico, manifesta-se na saúde da democracia e na capacidade de interpretação
da realidade.
Publicado em NVR 28|01|2026
(texto de humor, satírico, elipsíco, parábolico, hipérbolico,
eu sei lá o que é!)
Todo o bairro fica
quieto só pra ver! Os vizinhos fingem que dormem ou vão fumar para a marquise,
mandam uns bitaites na net e dão uns quilos de arroz, já fora da validade, e
uns enlatados, para a casa do Tozé, que anda desvairado, às aranhas e tem a despensa
a zero - nem papel higiénico! Na verdade, até podiam contribuir com mais uns
repolhos e uns nabos para a guerra dos vizinhos, mas receiam, que isto se
alastre e os filhos se envolvam na zaragata, porque sabem muito bem, por
experiência própria e adquirida no meio dos balázios e das minas de uma guerra
qualquer, quando a cabeça não tem juízo, o corpinho é que paga, ou quem se lixa
é sempre o mexilhão.
Depois do meu
telefonema a guerra entre o Tony e o Tozé, anda assim, meia morna, tipo cerveja
choca, ocasionalmente operacionalizam, ora se atira com a marmelada, ora se
recebe o marmelo atirado sem cavilha, com ruido um pouco menor e com horas
certas para não me perturbar o sono e aguardam que eu dite ordens, mas eu quero
é tratar das minhas alheiras. Que se lixem, desde que me comprem os enchidos.
Bom, eu comecei a
fazer contas à vida, o vício das compras na net é terrível, nem é preciso sair
de casa! Pior seria jogar no casino! Já papo Temu, AliExpress, Shein, Shopee,
Worten, OLX… e é preciso ter aquilo com que se compra os melões, o money, os aurélios
para os pagamentos na hora por mbway ou por transferência bancária.
Preocupado, no fim de
semana, naveguei ao calhas pela net, fui dar ao google earth e toca a ver o meu
bairro e a cidade, de cima, através do satélite. Descobri que o Madureira tem
um piscinão, um spa, uma adega, uma vinha de Alvarinho, uma horta ecológica
cheínha de alfaces, tomates e pimentos, um campo de ténis e vários turpiais[1]
em ouro maciço junto à churrasqueira.
Nem pensei duas vezes,
mandei lá o meu mordomo e a governanta para extrair o casal Madureira. Vieram a
contragosto para minha casa, o jardineiro e a cozinheira deles, reclamaram, mas
de facto eu penso que eles preferem futuramente trabalhar para mim. O casal,
meti-os na despensa, e agora posso voltar à casa deles, extrair aquilo que me
apetecer sem pedir autorização, é muito prático e rápido; em primeiro lugar
virão os pimentos pádron. Não sei quem tratará da horta, nem quem tratará do pH
da água da piscina. Mas isso logo se vê, aguentem eles na despensa, que eu
rapidamente transformo a casa do Madureira em alojamento local de luxo, com 5
medronhos no booking.
Projectos para o
futuro?
O meu negócio é mesmo
vender alheiras, porém…
Para além de Paz e
Amor, ai que lindo, ai que lindo, pretendo já no próximo Natal não ter que ir
pra fila do hipermercado para comprar bacalhau. Ele virá directamente da
Gronelândia para o forno aqui de casa e para a massa dos pastéis, já demolhado;
dentro em breve a terra e o mar do bacalhau serão meus, com registo predial e
toda a papelada que a lei manda. Não sei se o Tony também se vai meter nisso –
fica com os icebergues para batizar a vodka, com cubinhos de gelo do Ártico.
Também quero o
peixe-espada dos Açores, a picanha do Brasil, os charutos e rum de Cuba e o
pata-negra do Alentejo – talvez para o próximo Outono, porque agora tenho a
arca cheia de alheiras.
Quanto aos
empreiteiros para os resorts de Gaza estão a ser seleccionados, entre os
mais-em-conta, talvez escolha os chineses. Os urbanistas andam com o projecto
às voltas, são uns lingrinhas, não se entendem, uff aquilo é gente complicada
da cabeça!
Os Romanos chegavam e
faziam uma quadrícula e já estava, uma nova cidade!
Estes querem
sociólogos, engenheiros, arquitetos, geógrafos, informáticos, economistas,
gestores, tradutores e representantes da comunidade. Depois acumulam actas e
criam processos que nunca mais acaba… se um simples projecteco que entra na
Câmara, tem que acompanhar com N processos de especialidades, imaginem Gaza, em
hebraico! As normas, os decretos-lei, as revogações, as alterações, os PDMs, os
aditamentos, as memórias descritivas, as análises territoriais, os cadernos de
encargos, o 3D…
Uns complicados!
Brevemente estarei a comprar os materiais de construção e o projecto ainda não
estará pronto, aposto, nem em pen.