04 março, 2026

2026: Ano Internacional da Mulher Agricultora e Rural


 2026: Ano Internacional da Mulher Agricultora e Rural 

O ano de 2026 foi declarado como o Ano Internacional da Mulher Agricultora e Rural, uma iniciativa proposta originalmente pelos Estados Unidos e apoiada por mais de 120 países, e oficialmente adoptada pela Assembleia Geral da ONU em Maio de 2024. Este reconhecimento pretende celebrar e valorizar o papel fundamental das mulheres na segurança alimentar global, além de promover a eliminação das desigualdades de género no sector agrícola.

Este é um momento de comemoração e de reforçar, diariamente, o reconhecimento às acções das mulheres agricultoras e rurais, destacando a sua contribuição indispensável para o desenvolvimento sustentável das comunidades e das sociedades em todo o mundo.

O processo histórico destas mulheres no meio rural é marcado por uma longa luta contra a invisibilidade, jornadas duplas e subordinação, onde o seu trabalho foi muitas vezes considerado apenas como “ajuda” doméstica, e não uma actividade profissional de valor.

Embora as mulheres representem aproximadamente 43% da força de trabalho agrícola mundial, menos de 20% possuem terras próprias, enfrentando obstáculos no acesso a financiamentos, tecnologias e formação especializada. A tecnologia surge como uma aliada importante na redução de barreiras físicas e na ampliação do acesso a tarefas mais complexas e exigentes, contribuindo para a sua autonomia. No entanto, as desigualdades salariais ainda persistem, chegando a disparidades de até 40% em relação aos homens, no caso de Portugal.

As mulheres rurais acumulam longas horas de trabalho, dividindo-se entre a produção agrícola, as tarefas domésticas e os cuidados com a família. Muitas dessas mulheres não são reconhecidas oficialmente como agricultoras ou trabalhadoras, o que as exclui dos direitos de protecção social. Além disso, factores culturais e tradicionais continuam a limitar a sua participação nos espaços de decisão governamentais, mantendo a posse da terra predominantemente nas mãos dos homens.

Apesar dessas dificuldades, as mulheres rurais permanecem como agentes essenciais na conservação da biodiversidade e na garantia da segurança alimentar. Elas lutam por autonomia, por maior acesso a recursos e por condições de trabalho dignas. Para promover mudanças efectivas, é fundamental implementar políticas públicas que garantam acesso ao crédito, à terra, à assistência técnica e a regimes de protecção social.

A MARP – Associação das Mulheres Agricultoras e Rurais Portuguesas – reafirma o seu compromisso de dar visibilidade à realidade dessas mulheres em Portugal e de actuar na construção de políticas que valorizem o seu trabalho no campo. Para a Associação, a celebração de 2026 Ano Internacional representa uma oportunidade de reconhecimento e mobilização, reforçando o papel das mulheres rurais na produção de alimentos, na sustentabilidade e na coesão territorial.

Pretende-se que 2026 seja um marco na afirmação das mulheres rurais portuguesas — um ano em que o país reconheça que, sem elas, não há soberania alimentar, nem futuro para o meio rural. Para isso, diversas acções e eventos serão realizados ao longo do ano, a saber:

 

·      Lançamento oficial do Ano Internacional 2026 pela CCDR Centro;

·      Exposição “Raízes de Mulher: Sementes de Futuro”, em Coimbra;

·      Apoio às candidaturas do Programa TalentA;

·      Criação e divulgação da Caderneta da Mulher Agricultora e Rural (CNA/MARP);

·      Programas de capacitação e formação promovidos pela Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural;

Estas acções visam ampliar a visibilidade, fortalecer a participação e promover a valorização das mulheres rurais, reconhecendo o seu papel vital na construção de um campo mais justo, sustentável e igualitário.

Após uma rápida pesquisa, parecem-se serem acções sobretudo palavrosas, que conduzirão a poucas mudanças, certamente secundarizadas pelo cenário de catástrofe que Portugal enfrenta actualmente, devido à sucessão de tempestades severas que atingiram o país.

[8 de Março – Dia Internacional da Mulher]

Publicado em NVR 04|03|2026

"ATRÁS DOS DIAS" - Rosa Alice Branco

 


"ATRÁS DOS DIAS" - Rosa Alice Branco

https://voca.ro/13QRgiHHoOf9

Voz: Anabela Quelhas.

 file:///E:/radio/audio/200-%20atr%C3%A1s%20dos%20dias.mp3

01 março, 2026

26 fevereiro, 2026

25 fevereiro, 2026

"Pés de Barro" de Nuno Duarte

 


No Karranca às quartas - Rádio Portimão.

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GERAÇÃO SANDUÍCHE

 

GERAÇÃO SANDUÍCHE

A geração, que fecha a porta para o mundo real, é aquela que viveu a sua infância e a juventude ainda sem grandes saltos tecnológicos, sem computadores, sem internet… nem micro-ondas havia, a sopa tinha de ser aquecida numa panela e ir ao fogo.

Usámos fraldas de tecido quando nascemos, jogámos às escondidas, saltámos à corda, deslizámos de patins sem joelheiras, andámos de bicicleta sem capacete, por vezes brincávamos com bonecas de trapos, lançávamos o pião, brincávamos à macaca, ao berlinde, ao macaquinho do chinês, ao jogo do lencinho e à corrida de sacos… ia-se à casa da vizinha para telefonar, comíamos pão com manteiga e açúcar, líamos livros aos quadradinhos, ainda não havia betadine para desinfectar os joelhos sem pele e havia brinquedos para meninos e brinquedos para meninas.

Se queríamos ouvir música sem ser na rádio, ou tínhamos gira-discos e discos de vinil, ou cassetes, o que era raro – e já se considerava um sucesso relativamente à geração anterior. Colecionámos selos, cromos e carteiras de fósforos.

Utilizámos a máquina de escrever para dar bom aspecto a alguns trabalhos de casa, mas era um problema quando não havia corrector.

Às refeições usámos guardanapo de pano, que era substituído por outro, no fim de semana, se queríamos ver filmes, tínhamos de ir ao cinema, e televisão só tinham os mais empoderados e era a preto e branco. Os meninos calçavam sandálias no verão até aos 15 anos e as meninas, vestiam saiote e calçavam peúgas brancas até serem adultas e só depois tinham autorização para usar meias de vidro ou de mousse.

Não havia classe média, havia a classe dos remediados e aquelas famílias que tinham sorte em não passar fome.

Ter uma esferográfica preta de esfera fina era um luxo e não havia fotocópias. A maioria das mães eram domésticas, faziam as tarefas de casa e tratavam dos filhos, que só iam à escola a partir dos sete anos e a nossa ambição era sermos independentes dos pais para podermos ter opinião e usufruir de um espaço fora de casa deles.

A comida não tinha nomes esquisitos, não havia tiramisu, cheesecake, pavlovas e vol-au-vent; havia pudim boca-doce, arroz-doce, aletria, queijo com marmelada e a mousse era um luxo. Rapávamos o tacho quando a mãe fazia um bolo ao fim de semana.

Esta geração é considerada a última a ter vivenciado uma infância e adolescência predominantemente analógicas, correndo alguns perigos e com imaginação suficiente para resolver problemas, mesmo sem saber quem seria no futuro Mark Zuckerberg, Steve Jobs e Bill Gates, o que seria um telemóvel e uns smartphones. Desenvolvemos várias competências principalmente saber esperar, saber pensar e ultrapassar uma contrariedade. Por vezes o chinelo da mãe ganhava asas e voava, acertando o nosso rabo ou as pernas. Na classe dos remediados urbanos, nas festas, os rapazes usavam Old Spice e as raparigas usavam Madame Rochas.

O nosso Facebook era a conversa da treta entre os amigos. Se queríamos fotografias tínhamos duas despesas, a primeira, comprar o rolo de 24 fotografias, e depois revelar o rolo em loja própria e com sorte demorava só 4 dias a revelar. Alguns ainda fizeram serviço militar.

A Era Digital começou quando já éramos adultos, aprendemos a desenrascar e a assumir a transição para o mundo digital.

As mulheres emanciparam-se e adiaram a gravidez, para se dedicar por inteiros às suas carreiras profissionais.

Agora com 50/60 anos chamam-nos a "geração sanduíche" porque cuidamos simultaneamente de filhos jovens e pais idosos. Este fenómeno, impulsionado pelo aumento da longevidade e maternidade tardia, gera sobrecarga emocional, financeira e física, aumentando o risco de “burnout” e depressão.

Temos uma esperança de vida mais longa, mas temos um percurso com excesso de responsabilidades. Estamos entre duas gerações dependentes – os filhos que dependem financeira dos pais até muito tarde e que não desejam sair de casa e temos os pais a perder autonomia e a necessitar de cuidados e atenção – e fora de casa temos a exigência máxima profissional. Alguns, cujos filhos se descuidaram, já são avós e têm outra geração para cuidar. Estar na casa dos pais é sempre mais cómodo e mais barato.

Éramos sonhadores e divertidos, e agora somos os faz-tudo e os que desenrascam tudo em casa. Falta-nos tempo e o que temos não é para nós.

Estamos exaustos!

Publicado em NVR 25|02|2026

"E PORQUE" - Graça Vilela


https://voca.ro/16JxU7gMvD38

Voz: Graça Vilela

file:///E:/radio/audio/197%20-%20e%20porque%20-%20GV.mp3


19 fevereiro, 2026

O livre arbítrio

 

O livre arbítrio

Palavras que tantas vezes ouvimos, em diversos contextos, sem ter a verdadeira noção do que isto significa.

O livre-arbítrio é um exercício de liberdade, é a capacidade humana de tomar decisões independentes, segundo a nossa própria vontade, sem influência externa.

Este tema tem sido amplamente estudado e discutido ao longo da história, tanto na filosofia quanto na teologia e na ética.

Na perspectiva religiosa, o livre-arbítrio é visto como um dom concedido por Deus ao ser humano, permitindo-lhe optar entre o bem e o mal. Essa visão distingue os humanos dos demais animais, que agem apenas por instinto. Mesmo diante da fé, a divindade não impõe as suas vontades, pelo contrário, concede ao Homem a liberdade de escolha e, com ela, a responsabilidade pelas suas acções.

Muitos filósofos defendem a chamada “Visão Tradicional”, que diferencia os humanos dos animais pelo fato de possuírem capacidade de abstração e reflexão. Enquanto os animais reagem a estímulos imediatos e necessidades biológicas, os seres humanos podem pensar o presente e o futuro, analisar informações, ponderar consequências e tomar decisões que, por vezes, vão contra os seus impulsos que resultam do seu instinto. Assim, apenas os humanos seriam moralmente responsáveis pelos seus actos, pois têm a capacidade de distinguir entre o “certo” e o “errado”.

A “Visão Científica” refere que até animais simples, como moscas, não são completamente previsíveis nos seus comportamentos. Eles podem escolher entre diferentes opções numa mesma situação, não reagindo sempre da mesma forma. Portanto, o livre-arbítrio não seria uma exclusividade humana, mas uma característica biológica presente em graus variados.

Nos seres humanos, essa liberdade de escolha é mais complexa devido ao cérebro mais desenvolvido. O nosso conhecimento, cultura, raciocínio lógico-abstracto, sensibilidade, educação, valores e a consciência de tudo isso, influenciam as nossas decisões. A consciência tem um potencial extraordinário, pois pode travar impulsos e raciocínios ilógicos.

É importante distinguir entre decisões simples, quase instintivas—como mover um dedo—e escolhas mais complexas, que envolvem processos de reflexão, conhecimento e análise de informações, referidos anteriormente.

Alguns neurocientistas preferem usar termos como “autonomia” ou “capacidade de deliberação”, para descrever o funcionamento do cérebro quando opera de forma “livre”, no sentido de que segue as suas próprias motivações internas e o raciocínio lógico. Ser livre, assim, implica ter múltiplas respostas diante de um estímulo e a capacidade de criar novos desejos e objectivos por meio da reflexão.

Para aqueles que acreditam no destino, na sorte/azar ou em pragas, é importante esclarecer que essas ideias muitas vezes escondem a recusa em assumir responsabilidades e a tentativa de evitar culpas, sossegando consciências. Atribuir a culpa a outros humanos ou a entidades superiores é uma forma de desresponsabilização, acreditando que essas forças controlam os nossos caminhos e manipulam os nossos destinos, como se fossemos marionetes.

Essas questões impactam o campo da Justiça, pois abrem espaço para argumentações que defendem ou acusam, culpados e inocentes, dependendo da interpretação sobre liberdade, responsabilidade e destino.

Publicado em NVR 18|02|2026


17 fevereiro, 2026

25 poemas ilustrados VILA REAL


 

Ilustração do poema "Uma poltrona de jardim"

Autora: Anabela Quelhas 

AXIS VIANA







 ANTECIPANDO

Av. Capitão Gaspar de Castro - Viana do Castelo.


11 fevereiro, 2026

"Desumanização" parceria com Rádio Portimão


 OUVIR AQUI

MOVIES

 





Plano estratégico, precisa-se.


 Plano estratégico, precisa-se. 

É impossível ficar indiferente a esta tragédia nacional, que muitos portugueses viveram nos últimos dias.

Neste momento já não basta proibir a construção e a impermeabilização do solo em zonas de leito de cheia dos rios. Daqui para frente, perante o cenário que estamos a viver, acrescido com a previsão das alterações climáticas e por consequência a subida do nível da água do mar, os municípios devem providenciar a desocupação de muitos edifícios já construídos e que ficarão submersos.

É urgente repensar e ordenar o território de outra forma. É fundamental realizar um levantamento criterioso do limite a que as águas chegaram e repensar o território com um risco acrescido, atendendo às bacias hidrográficas. O meio rural não se pode desligar do meio urbano, nem do país vizinho, porque tudo isto está interligado. Rios e ribeiras atravessam o nosso território e alguns dos nossos rios nascem em Espanha.

A forma de pensar cidades ou outros aglomerados, tem que ser pensada de forma realista e futurista. Não podem ser os políticos a decidir estas situações, nem a solidariedade será a solução. São os geógrafos, engenheiros e arquitectos que devem tomar decisões sobre os ecossistemas funcionais, com a ligação entre solo, vegetação, clima e espaço construído. Temos que repensar o presente para estarmos preparados no futuro, que se antevê dramático.

Até 2050, a elevação do nível da água do mar fará com que as inundações costeiras médias anuais ultrapassem o nível das terras que hoje abrigam cerca 300 milhões de pessoas no mundo, de acordo com um estudo da Climate Central. A Ásia será o continente mais afectado.

Já na década de 70, os ambientalistas alertavam para esse cenário, que parecia longínquo e improvável. Faltam só 24 anos e a natureza envia-nos sinais cada vez mais evidentes e catastróficos.

Existem mapas de Portugal, com esta situação calculada e representada. Estudos apontam como zonas mais críticas o estuário do Tejo e do Sado, a Ria Formosa, Aveiro e a Figueira da Foz. Estima-se que cerca de 150 mil portugueses, que residem na faixa costeira, possam ser afectados directamente. Junta-se a isto, a questão dos leitos de cheia dos rios, a existência de pequenas linhas de água invisíveis durante o verão, mas que se preenchem durante o inverno, acrescido pela impermeabilização do solo resultante dos incêndios e da ocupação desgovernada e insensata do solo.

Os incêndios florestais aumentam a impermeabilização do solo ao criarem uma camada hidrofóbica (repelente à água) e eliminam a vegetação, favorecendo a erosão e a escorrência superficial.

O que se pode fazer?

Injecção de areia para criar "amortecedores" naturais contra tempestades, recuperação de paredões e muros de proteção que sofrem danos com a agitação marítima, planos de drenagem (com túneis gigantes), investimento em comportas e sistemas de bombagem para controlar a entrada em alguns espaços, abandonar o betão em favor de soluções "verdes" e permeáveis, instalação de paliçadas e passadiços elevados para proteger a vegetação que segura a areia, não passam de soluções temporárias, vulneráveis e frágeis.

É impensável conseguir contrariar a Natureza; criar um plano de desocupação progressiva dessas áreas inundáveis, talvez seja a solução mais eficaz.

Não será fácil. Alguém está disponível para abandonar os seus bens? Por quanto tempo poderemos proteger a população?

Habitar o interior não se evita o problema. Vimos várias cidades do interior afectadas pelas cheias, porque a rede hidrográfica é algo complexo e abrange todo o território.,  

É necessário um plano estratégico nacional assumido por todos os políticos, rigoroso, sem cedências, que contemple também o parâmetro educativo dirigido à população, que desconhece o cenário futuro, e que terá de deixar de ser problema e contribuir para a solução. Não podemos ignorar ou camuflar este futuro de calamidade.

Já só temos 24 anos!

Claro que tudo que provoca alterações climáticas é um perfeito acelerador e antecipador da previsão referida.

Publicado em NVR 11|02|2026

"DE UM AMOR MORTO" - Sophia de Mello Breyner Andresen


 "DE UM AMOR MORTO" - Sophia de Mello Breyner Andresen

https://voca.ro/1arRPx9lVzde

Voz: João Carlos Carranca

file:///E:/radio/audio/191%20-%20Um%20amor%20morto%20-%20Sofia%20melo%20Brayner.mp3

04 fevereiro, 2026

DESUMANIZAÇÃO


 DESUMANIZAÇÃO

 

Na procura de uma sociedade perfeita, na cabeça de alguns, o parâmetro fundamental é a selecção e a rejeição.

Ora vejamos…

Se eu retirar: velhos, negros, mestiços, emigrantes, brasileiros, indianos, chineses, deficientes, doentes, mulheres, pobres, mendigos, sem abrigo, ciganos, desempregados, pessoas feias, aleijados, comunistas, pensionistas, crianças, ecologistas, socialistas, notívagos, gagos, cegos, moucos, ignorantes, analfabetos, burros, bissexuais, oportunistas, chico-espertos, avarentos, bêbados, drogados, bruxas, feiticeiros, criminosos, palhaços, pedófilos, condutores em transgressão, vegetarianos, adolescentes rebeldes, gordos, canhotos, carecas, metrosexuais, barrigudos, escravos, gays, nudistas, rurais, muçulmanos, judeus, lésbicas, pimbas, transexuais, os que usam piercings, artistas, poetas, os que não sabem nadar…

O que sobra?

O homem, branco, musculado, bonito, inteligente, heterossexual, magro, cristão, rico, português, saudável, activo, cosmopolita, bom profissional… mas, roerá certamente as unhas, ou tira as catotas do nariz.

Mesmo assim, terá uma alimentação equilibrada? Evacua todos os dias? Só terá pensamentos dignificantes? Tem pelos no nariz? Espirra? Tem hálito fresco? Tem fome e sede? Sabe rir? Sabe chorar? Terá emoções e sonhos? Saberá perdoar? Terá sentido de justiça?

Estamos a caminhar para um cenário de desumanização, talvez o mais delicado e desafiador da civilização contemporânea em que os seres humanos são tratados como objectos, que podem ser mais ou menos úteis.

Numa sociedade desumanizada perde-se a empatia, a solidariedade, os valores éticos e a nobreza das relações interpessoais.

A indiferença pela dor alheia, visualizando apenas o seu próprio umbigo, seleccionar e rejeitar quem não obedece ao padrão, usar termos pejorativos, discurso agressivo, generalizar e ver o "outro" como um inimigo, desprovido de humanidade, facilitando a crueldade, são as características que se apresentam.

A sua estrutura assenta no interesse máximo pelo “eu”, e o desprezo pelo outro, a anulação da complexidade social, perda da solidariedade e sensibilidade moral, sendo uma técnica comum o incitamento à exclusão, ao genocídio e está sempre presente em contextos sociais de indiferença, violência e conflito.

A sociedade neoliberal/capitalista moderna, com foco em interesses mesquinhos e desregulação, favorece este retrocesso humanitário. As pessoas passam a ser algarismos e coisas, indiferentes ao sofrimento da família, dos amigos e do vizinho.

É isto que queremos para nós?

Processos de desumanização foram observados na perseguição e tentativa de extermínio dos judeus, durante a Segunda Guerra Mundial, e actualmente, manifestam-se na generalização de que todos os palestinianos apoiam o Hamas, todos os venezuelanos são drogados, todos os ciganos são oportunistas, todos os negros são burros, todos os emigrantes são criminosos, todos os humanistas são comunistas, todos ambientalistas são alarmistas e todos os políticos são corruptos.

Publicado 4|02|2026

"RESISTÊNCIA DOS MATERIAIS" - Daniel Jonas


https://voca.ro/17p9QYpS3zYN

Voz: Anabela Quelhas

file:///E:/radio/audio/188A%20-%20Resistencia%20dos%20materiais%20Daniel%20Jonas.mp3




02 fevereiro, 2026

"QUANDO UM HOMEM QUISER" - José Carlos Ary dos Santos


 https://voca.ro/1frv8dAKQWCz

Voz: João Carlos Carranca

file:///E:/radio/audio/187A%20-%20Quando%20o%20Homem%20quiser%20-%20Ary%20dos%20Santos%20JC.mp3

Chafariz metálico da Avenida


 Fotografia partilhada por José Pinto.

Chafariz metálico da Avenida.
Animação AI por Anabela Quelhas.

28 janeiro, 2026

"SONETO DE INVERNO" - Afonso de Castro

 

"SONETO DE INVERNO" - Afonso de Castro 

https://voca.ro/1jLIr9cBEwkP

Voz: Anabela Quelhas

file:///E:/radio/audio/185A%20.%20Soneto%20de%20Invero-%20.mp3


O combustível silencioso do cérebro


 O combustível silencioso do cérebro 

Num mundo onde o digital reina, a leitura, aquela actividade que envolve páginas de papel e letras impressas, fica para trás. As crianças e os jovens, cada vez mais habituados a mensagens rápidas, títulos apelativos, muita imagem e texto curto, nos seus telemóveis, parecem querer trocar o prazer da leitura profunda por uma satisfação instantânea, efémera e transitória. Essa mudança é boa ou má? Na verdade, há mais pessoas a ler, e menos hábitos de leitura.

A ciência revela que a leitura é sempre um exercício vital para o cérebro, um combustível silencioso que alimenta e enriquece a função cerebral. E o que é mais interessante: ela não precisa de ser feita somente com livros físicos para trazer benefícios. Ou seja, ler, mesmo que seja uma mensagem curta ou uma notícia no telemóvel, estimula funções cerebrais. Contudo, há diferenças substanciais na qualidade e na profundidade dessa estimulação. Quando folheamos um livro de papel, activamos uma série de sentidos e memórias cinestésicas — a posição do corpo, a sensação do papel, o cheiro das páginas — que favorecem uma compreensão mais profunda, uma retenção maior da informação e um foco mais intenso.

A leitura digital, embora permita uma navegação rápida por textos curtos, muitas vezes estimula uma leitura superficial e impede que a leitura mais aprofundada se efectue. O nosso cérebro, potencialmente seduzido pelo dinamismo dos dispositivos, tende a processar as informações de forma mais rápida e menos profundada. Isso pode ser útil para tarefas rápidas, mas, no que diz respeito à compreensão de conteúdos complexos ou ao desenvolvimento de pensamento crítico, deixa muito a desejar. Pais e educadores estejam em alerta.

Assim como o exercício físico fortalece os músculos, a leitura exercita o cérebro, activa memórias visuais, linguísticas, motoras, e promove uma espécie de treino cognitivo constante que pode ser transformado em saber e conhecimento. Porém, nem todos os que praticam exercício físico são atletas. É necessário algo mais.

A ausência de leitura regular, em circunstâncias favoráveis à reflexão, tem consequências palpáveis. Ela limita o desenvolvimento cognitivo, empobrece o vocabulário, enfraquece o pensamento crítico e diminui a capacidade de concentração e de decisão. Sem esse estímulo, o cérebro pode atrofiar, acelerar o envelhecimento cerebral precoce e dificultar a análise de informações complexas. Uma leitura superficial, típica do ambiente digital, impede o processamento profundo necessário para compreender argumentos e desenvolver uma visão crítica do mundo, torna os leitores mais frágeis e susceptíveis de não saberem descodificar a demagogia escondida na informação que lê, distinguir o verdadeiro do falso, tornando-se alvos fáceis para serem enganados.

Pais, educadores e a sociedade têm um papel fundamental em criar ambientes que estimulem esse hábito, pois o que está em jogo não é apenas o prazer de ler, mas a formação de cérebros mais resistentes, criativos e críticos, perante o que acontece na sua vida pessoal, social e política. Saber seleccionar informação, saber interpretar e saber fazer as suas escolhas, está a ser cada vez mais urgente.

Sem leitura e entendimento profundo não há evolução civilizacional, e sim um retrocesso. O impacto do declínio do hábito de ler na formação do pensamento crítico, manifesta-se na saúde da democracia e na capacidade de interpretação da realidade.  

Publicado em NVR 28|01|2026

25 janeiro, 2026

ANTECIPANDO

 






OCA GRANDE HOTEL DO PEZO

Av. do Peso. Melgaço.

Movies












 

21 janeiro, 2026

Anita, aqui quem manda sou eu – parte dois.


 Anita, aqui quem manda sou eu – parte dois.

(texto de humor, satírico, elipsíco, parábolico, hipérbolico, eu sei lá o que é!)

Todo o bairro fica quieto só pra ver! Os vizinhos fingem que dormem ou vão fumar para a marquise, mandam uns bitaites na net e dão uns quilos de arroz, já fora da validade, e uns enlatados, para a casa do Tozé, que anda desvairado, às aranhas e tem a despensa a zero - nem papel higiénico! Na verdade, até podiam contribuir com mais uns repolhos e uns nabos para a guerra dos vizinhos, mas receiam, que isto se alastre e os filhos se envolvam na zaragata, porque sabem muito bem, por experiência própria e adquirida no meio dos balázios e das minas de uma guerra qualquer, quando a cabeça não tem juízo, o corpinho é que paga, ou quem se lixa é sempre o mexilhão.

Depois do meu telefonema a guerra entre o Tony e o Tozé, anda assim, meia morna, tipo cerveja choca, ocasionalmente operacionalizam, ora se atira com a marmelada, ora se recebe o marmelo atirado sem cavilha, com ruido um pouco menor e com horas certas para não me perturbar o sono e aguardam que eu dite ordens, mas eu quero é tratar das minhas alheiras. Que se lixem, desde que me comprem os enchidos.

Bom, eu comecei a fazer contas à vida, o vício das compras na net é terrível, nem é preciso sair de casa! Pior seria jogar no casino! Já papo Temu, AliExpress, Shein, Shopee, Worten, OLX… e é preciso ter aquilo com que se compra os melões, o money, os aurélios para os pagamentos na hora por mbway ou por transferência bancária.

Preocupado, no fim de semana, naveguei ao calhas pela net, fui dar ao google earth e toca a ver o meu bairro e a cidade, de cima, através do satélite. Descobri que o Madureira tem um piscinão, um spa, uma adega, uma vinha de Alvarinho, uma horta ecológica cheínha de alfaces, tomates e pimentos, um campo de ténis e vários turpiais[1] em ouro maciço junto à churrasqueira.

Nem pensei duas vezes, mandei lá o meu mordomo e a governanta para extrair o casal Madureira. Vieram a contragosto para minha casa, o jardineiro e a cozinheira deles, reclamaram, mas de facto eu penso que eles preferem futuramente trabalhar para mim. O casal, meti-os na despensa, e agora posso voltar à casa deles, extrair aquilo que me apetecer sem pedir autorização, é muito prático e rápido; em primeiro lugar virão os pimentos pádron. Não sei quem tratará da horta, nem quem tratará do pH da água da piscina. Mas isso logo se vê, aguentem eles na despensa, que eu rapidamente transformo a casa do Madureira em alojamento local de luxo, com 5 medronhos no booking.

Projectos para o futuro?

O meu negócio é mesmo vender alheiras, porém…

Para além de Paz e Amor, ai que lindo, ai que lindo, pretendo já no próximo Natal não ter que ir pra fila do hipermercado para comprar bacalhau. Ele virá directamente da Gronelândia para o forno aqui de casa e para a massa dos pastéis, já demolhado; dentro em breve a terra e o mar do bacalhau serão meus, com registo predial e toda a papelada que a lei manda. Não sei se o Tony também se vai meter nisso – fica com os icebergues para batizar a vodka, com cubinhos de gelo do Ártico.

Também quero o peixe-espada dos Açores, a picanha do Brasil, os charutos e rum de Cuba e o pata-negra do Alentejo – talvez para o próximo Outono, porque agora tenho a arca cheia de alheiras.

Quanto aos empreiteiros para os resorts de Gaza estão a ser seleccionados, entre os mais-em-conta, talvez escolha os chineses. Os urbanistas andam com o projecto às voltas, são uns lingrinhas, não se entendem, uff aquilo é gente complicada da cabeça!

Os Romanos chegavam e faziam uma quadrícula e já estava, uma nova cidade!

Estes querem sociólogos, engenheiros, arquitetos, geógrafos, informáticos, economistas, gestores, tradutores e representantes da comunidade. Depois acumulam actas e criam processos que nunca mais acaba… se um simples projecteco que entra na Câmara, tem que acompanhar com N processos de especialidades, imaginem Gaza, em hebraico! As normas, os decretos-lei, as revogações, as alterações, os PDMs, os aditamentos, as memórias descritivas, as análises territoriais, os cadernos de encargos, o 3D…

Uns complicados! Brevemente estarei a comprar os materiais de construção e o projecto ainda não estará pronto, aposto, nem em pen.



[1] Turpial, ide ao dicionário ou ao google que eu não estou pra vos aturar.

Publicado em NVR 21|01|2026

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