Plano estratégico, precisa-se.
É impossível ficar
indiferente a esta tragédia nacional, que muitos portugueses viveram nos
últimos dias.
Neste momento já não
basta proibir a construção e a impermeabilização do solo em zonas de leito de
cheia dos rios. Daqui para frente, perante o cenário que estamos a viver, acrescido
com a previsão das alterações climáticas e por consequência a subida do nível
da água do mar, os municípios devem providenciar a desocupação de muitos edifícios
já construídos e que ficarão submersos.
É urgente repensar e
ordenar o território de outra forma. É fundamental realizar um levantamento
criterioso do limite a que as águas chegaram e repensar o território com um
risco acrescido, atendendo às bacias hidrográficas. O meio rural não se pode
desligar do meio urbano, nem do país vizinho, porque tudo isto está interligado.
Rios e ribeiras atravessam o nosso território e alguns dos nossos rios nascem
em Espanha.
A forma de pensar
cidades ou outros aglomerados, tem que ser pensada de forma realista e
futurista. Não podem ser os políticos a decidir estas situações, nem a
solidariedade será a solução. São os geógrafos, engenheiros e arquitectos que
devem tomar decisões sobre os ecossistemas funcionais, com a ligação entre
solo, vegetação, clima e espaço construído. Temos que repensar o presente para
estarmos preparados no futuro, que se antevê dramático.
Até 2050, a elevação do
nível da água do mar fará com que as inundações costeiras médias anuais
ultrapassem o nível das terras que hoje abrigam cerca 300 milhões de pessoas no
mundo, de acordo com um estudo da Climate Central. A Ásia será o
continente mais afectado.
Já na década de 70, os
ambientalistas alertavam para esse cenário, que parecia longínquo e improvável.
Faltam só 24 anos e a natureza envia-nos sinais cada vez mais evidentes e
catastróficos.
Existem mapas de
Portugal, com esta situação calculada e representada. Estudos apontam como
zonas mais críticas o estuário do Tejo e do Sado, a Ria Formosa, Aveiro e a
Figueira da Foz. Estima-se que cerca de 150 mil portugueses, que residem na
faixa costeira, possam ser afectados directamente. Junta-se a isto, a questão
dos leitos de cheia dos rios, a existência de pequenas linhas de água
invisíveis durante o verão, mas que se preenchem durante o inverno, acrescido
pela impermeabilização do solo resultante dos incêndios e da ocupação
desgovernada e insensata do solo.
Os incêndios florestais
aumentam a impermeabilização do solo ao criarem uma camada hidrofóbica
(repelente à água) e eliminam a vegetação, favorecendo a erosão e a escorrência
superficial.
O que se pode fazer?
Injecção de areia para
criar "amortecedores" naturais contra tempestades, recuperação de
paredões e muros de proteção que sofrem danos com a agitação marítima, planos
de drenagem (com túneis gigantes), investimento em comportas e sistemas de
bombagem para controlar a entrada em alguns espaços, abandonar o betão em favor
de soluções "verdes" e permeáveis, instalação de paliçadas e
passadiços elevados para proteger a vegetação que segura a areia, não passam de
soluções temporárias, vulneráveis e frágeis.
É impensável conseguir
contrariar a Natureza; criar um plano de desocupação progressiva dessas áreas
inundáveis, talvez seja a solução mais eficaz.
Não será fácil. Alguém
está disponível para abandonar os seus bens? Por quanto tempo poderemos
proteger a população?
Habitar o interior não
se evita o problema. Vimos várias cidades do interior afectadas pelas cheias,
porque a rede hidrográfica é algo complexo e abrange todo o território.,
É necessário um plano
estratégico nacional assumido por todos os políticos, rigoroso, sem cedências,
que contemple também o parâmetro educativo dirigido à população, que desconhece
o cenário futuro, e que terá de deixar de ser problema e contribuir para a
solução. Não podemos ignorar ou camuflar este futuro de calamidade.
Já só temos 24 anos!
Claro que tudo que
provoca alterações climáticas é um perfeito acelerador e antecipador da
previsão referida.
Publicado em NVR 11|02|2026

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