14 janeiro, 2026

Anita, aqui quem manda sou eu – parte um.


 Anita, aqui quem manda sou eu – parte um.

(texto de humor, satírico, elípsíco, parabólico, hiperbólico, eu sei lá o que é!)

Mudei para um bairro novo da cidade, penso que conheço todo o mundo, mas não conheço ninguém. Conheço de vista e conhecem-me de vista devido ao meu cabelo platinado laranja e às alheiras que vendo e me dão fortuna. É uma característica dos nativos de Gémeos com ascendente em Leão, ora sou boazinha, ora me transformo na leoa que há em mim, porém o que interessa é o meu carisma e a minha determinação.

Arranjei uma boa casa, toda branca, estilo neoclássico, não gosto de caixotes, mas ainda lhe vou fazer um anexo, para fazer uns bailes selectos ao fim de semana, com muito champanhe e canapés, daqueles bailes onde pé-rapado não entra. Só entra quem eu quiser e quando eu quiser!

Já dei uma volta pelo bairro, para ver como são as moradias e os vizinhos e deparei-me com um conflito entre vizinhos. Um deles conheço-o há longa data. Esta é uma encrenca muito louca e perigosa, mas vendo bem, andamos nisto desde a Pré-história, a pisar sempre o risco e a pensar que temos sempre razão, jogando argumentos idiotas, quando o que interessa mesmo é o carcanhol. A contenda era simples no início, resultante de uma videira que tem o pé num lado e a fruta do outro lado do muro divisório. Ambos os moradores, Tony e Tozé, ”ambos os dois” Valdemares, querem apanhar as uvas.

Já deu murro, pontapé, olhos vazados, sacholada, já meteu vizinhos ao barulho, forneceram vassouras e fisgas ao vizinho invadido. O invasor, o Tony, apela a acordos antigos que lhe permitiam entrar no quintal do vizinho e colher as uvas. Entretanto, passou o tempo da vindima, e a briga continua, as uvas apodreceram ou foram esmagadas nas lutas entre eles, e apenas restam umas resistentes, lá num cantinho que sobrevivem, mas já viraram passas amassadas, que nem servem para o Natal.

Ao passar naquela rua, cumprimentei os vizinhos e deram-me uma cadeira para me sentar e logo se chegou o vizinho do quintal de onde pendem as uvas, o Tozé, todo convencidão das suas razões. Eu tratei de o por no lugar dele, disse-lhe que me tinha mudado recentemente para o bairro, e queria paz, nem que fosse preciso andar à porrada. Passei-lhe umas chicletes para a mão, para ele mastigar os nervos, e prometi-lhe algum apoio, uns drones para controlar o vizinho, uns hambúrgueres com sabor a alheira para lhe matar a fome, coca-cola e uns foguetes para a passagem de ano, que recebi de Taiwan.

Os vizinhos assistiram à cena, e até gravaram e publicaram nas redes sociais e no canal TV que mais divulga suicídios, tiroteios e cenas de faca e alguidar.

Quando voltei a casa, peguei no telemóvel e telefonei ao dono do pé da videira, o Tony, e em nome de uns copos que bebemos há uns anos disse-lhe:

- Oh Tony acaba lá com essa mer$&, agora moro aqui no bairro, na rua sem saída e quero paz, não me lixes a vida, pra que queres as uvas? Fo&a-se! A porrada diária irá afastar o gajo dos CTT que entrega os produtos da Temu, tás a ver Tony, com este reboliço os meus clientes das alheiras e chouriços irão prás urtigas! Oh Tony, mas tu também ficas a perder! Sim! Sem alheiras, pra que queram a vodka?

Decorridos uns dias o Tozé bate-me à porta, com todos os vizinhos quietos à janela só a ver, para confirmar se me punha do lado dele. Entrou, nem tirou as botas da tropa, e eu tive que o repreender:

- Oh Tozé, a minha casa não é uma pocilga, nem vive de subsídios, a minha casa é uma maison branca com muita classe, com muitas “jenelas”…. Vens todo suado, nem trocaste a camisa suada, nem limpaste as botas! A minha casa é de uma mulher de negócios, de boa reputação no mundo das alheiras e há que ter um mínimo de brio para aqui entrar, pelo menos cheiro de desodorizante. Assim não!

O Tozé coitado ficou um pouco baralhado, com tamanha reprimenda, assim como todos os vizinhos, que espreitavam à janela, quietos só pra ver!

A parti dali a guerra “embaralhou-se” de um tal jeito, já nem se sabe, quem atira beatas para o quintal do Tony, se ele responde atirando dióspiros… nem se a guerra tem hora marcada… um caos. (continua)

Publicado em NVR 14|01|2026 

1 comentário:

Ana André disse...

Mais um texto recheado de humor, ironia e sátira social! Para continuar!