21 janeiro, 2026

Anita, aqui quem manda sou eu – parte dois.


 Anita, aqui quem manda sou eu – parte dois.

(texto de humor, satírico, elipsíco, parábolico, hipérbolico, eu sei lá o que é!)

Todo o bairro fica quieto só pra ver! Os vizinhos fingem que dormem ou vão fumar para a marquise, mandam uns bitaites na net e dão uns quilos de arroz, já fora da validade, e uns enlatados, para a casa do Tozé, que anda desvairado, às aranhas e tem a despensa a zero - nem papel higiénico! Na verdade, até podiam contribuir com mais uns repolhos e uns nabos para a guerra dos vizinhos, mas receiam, que isto se alastre e os filhos se envolvam na zaragata, porque sabem muito bem, por experiência própria e adquirida no meio dos balázios e das minas de uma guerra qualquer, quando a cabeça não tem juízo, o corpinho é que paga, ou quem se lixa é sempre o mexilhão.

Depois do meu telefonema a guerra entre o Tony e o Tozé, anda assim, meia morna, tipo cerveja choca, ocasionalmente operacionalizam, ora se atira com a marmelada, ora se recebe o marmelo atirado sem cavilha, com ruido um pouco menor e com horas certas para não me perturbar o sono e aguardam que eu dite ordens, mas eu quero é tratar das minhas alheiras. Que se lixem, desde que me comprem os enchidos.

Bom, eu comecei a fazer contas à vida, o vício das compras na net é terrível, nem é preciso sair de casa! Pior seria jogar no casino! Já papo Temu, AliExpress, Shein, Shopee, Worten, OLX… e é preciso ter aquilo com que se compra os melões, o money, os aurélios para os pagamentos na hora por mbway ou por transferência bancária.

Preocupado, no fim de semana, naveguei ao calhas pela net, fui dar ao google earth e toca a ver o meu bairro e a cidade, de cima, através do satélite. Descobri que o Madureira tem um piscinão, um spa, uma adega, uma vinha de Alvarinho, uma horta ecológica cheínha de alfaces, tomates e pimentos, um campo de ténis e vários turpiais[1] em ouro maciço junto à churrasqueira.

Nem pensei duas vezes, mandei lá o meu mordomo e a governanta para extrair o casal Madureira. Vieram a contragosto para minha casa, o jardineiro e a cozinheira deles, reclamaram, mas de facto eu penso que eles preferem futuramente trabalhar para mim. O casal, meti-os na despensa, e agora posso voltar à casa deles, extrair aquilo que me apetecer sem pedir autorização, é muito prático e rápido; em primeiro lugar virão os pimentos pádron. Não sei quem tratará da horta, nem quem tratará do pH da água da piscina. Mas isso logo se vê, aguentem eles na despensa, que eu rapidamente transformo a casa do Madureira em alojamento local de luxo, com 5 medronhos no booking.

Projectos para o futuro?

O meu negócio é mesmo vender alheiras, porém…

Para além de Paz e Amor, ai que lindo, ai que lindo, pretendo já no próximo Natal não ter que ir pra fila do hipermercado para comprar bacalhau. Ele virá directamente da Gronelândia para o forno aqui de casa e para a massa dos pastéis, já demolhado; dentro em breve a terra e o mar do bacalhau serão meus, com registo predial e toda a papelada que a lei manda. Não sei se o Tony também se vai meter nisso – fica com os icebergues para batizar a vodka, com cubinhos de gelo do Ártico.

Também quero o peixe-espada dos Açores, a picanha do Brasil, os charutos e rum de Cuba e o pata-negra do Alentejo – talvez para o próximo Outono, porque agora tenho a arca cheia de alheiras.

Quanto aos empreiteiros para os resorts de Gaza estão a ser seleccionados, entre os mais-em-conta, talvez escolha os chineses. Os urbanistas andam com o projecto às voltas, são uns lingrinhas, não se entendem, uff aquilo é gente complicada da cabeça!

Os Romanos chegavam e faziam uma quadrícula e já estava, uma nova cidade!

Estes querem sociólogos, engenheiros, arquitetos, geógrafos, informáticos, economistas, gestores, tradutores e representantes da comunidade. Depois acumulam actas e criam processos que nunca mais acaba… se um simples projecteco que entra na Câmara, tem que acompanhar com N processos de especialidades, imaginem Gaza, em hebraico! As normas, os decretos-lei, as revogações, as alterações, os PDMs, os aditamentos, as memórias descritivas, as análises territoriais, os cadernos de encargos, o 3D…

Uns complicados! Brevemente estarei a comprar os materiais de construção e o projecto ainda não estará pronto, aposto, nem em pen.



[1] Turpial, ide ao dicionário ou ao google que eu não estou pra vos aturar.

Publicado em NVR 21|01|2026

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