17 fevereiro, 2007

No Entroido o feo e o bonito xuntos!

No Entroido o feo e o bonito xuntos!


A ligação entre o norte de Portugal e Galiza perde-se para lá do mais que muito, na ascentralidade dos tempos, ainda o Afonsinho não era nascido.
Sobre o Carnaval, as raízes da festa popular são as mesmas, que evoluíram durante um milénio, consoante as vontades e o génio de cada comunidade, sem divergir muito do essencial – a despedida do Inverno e o anúncio da Primavera no mundo rural, feito com exuberância, alegria desmedida, raiando a loucura das travessuras saudáveis. Nesta época seria permitido fazer muita coisa, que noutros tempos era proibido fazer no resto do ano. O profano foi-se entrelaçando com o religioso, a despedida da carne, hoje, faz-se com o consumo exagerado de bons salpicões, ossos da assuã, o toucinho, o presunto, os chouriços, as mouras, entremeados e bem regados por vinho, enquanto se chocalham as raparigas solteiras de forma anónima, de rosto tapado - oportunidade para gestualizar de forma insinuante a aproximação ao corpo feminino.
Quem preferir viver um Carnaval genuíno, é só dar um pulinho até Podence (Macedo de Cavaleiros) ou Verin (Orense).
Eu vou!




16 fevereiro, 2007

Génesis

Génesis
De mim não falo mais :não quero nada.
De Deus não falo:não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.
Nem de existir,que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver,que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.
Por mais justiça ...-Ai quantos que eram novos
em vâo a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Ó transfusâo dos povos!
Não há verdade:O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais,todos mentiram.
Jorge de Sena

15 fevereiro, 2007

Sombras de ti

Pintura a guache

14 fevereiro, 2007

13 fevereiro, 2007

12 fevereiro, 2007

De Manhufe à Bimbi (cont)

Mas as mudanças continuam, a velha televisão foi substituída por um grande plasma. Hoje pretende-se mais do que nunca que a cozinha seja um espaço elegantemente laboratorial, minimalista, contemplando as operações de confecção rápida, congelamento e descongelamento, aquecimento rápido sem chama, desintegração de lixos, … mas tudo muito, muito kleen como se vê nos filmes! Que não cheire, que não suje, que não pegue e que não cole.
Passou-se às terminologias, dos aderentes e antis, dos termoestaticos, dos vitrocerâmicos, dos taperweares, antigermes.
Antes, a cozinha era mais estômago, hoje é cérebro, e electrónico. O que está a dar é a cozinha domótica, que envia mensagens de voz pelo telemóvel. “Cozinha domótika comunicando, cozinha domótika comunicando!!!!!!!, existência de fuga de água no equipamento de lavagem de louça.” – afinal, era a penas o respingo da limpeza do chão. “ Cozinha domótika comunicando intrusão” – afinal era só o gato a saltar para a janela…… por falar em gato, primeiro em toda a cozinha havia um prato para o gato, que se deliciava com os restos das comidas, …. nem esse escapou, coitado, perante os trituradores e compactador de lixos, agora só a comida de lata!

Ana Salazar e Fátima Lopes passaram a desenhar azulejos decorativos. Está a valer tudo! Esperem que um dia destes não ficam só no azulejo, se estendem até para o exterior da casa, inventando um modelo arquitectónico qualquer, à costureirinha.


Entramos no sec. XXI, Os feixes de luz, ficaram lá no passado da memória, encerrado no meu gavetão preferido, e demos de caras com a panela Bimbi!
Eu não tenho. Para mim, cozinhar é um vício, uma dependência terrível dessas tarefas laboratoriais, que eu não pretendo ingressar, por isso pretendo comprar apartamento sem cozinha! A bimbi faz tudo… adoro constatar (nunca provei) as receitas: bacalhaus espirituais, doces conventuais, sopas divinais, e outros atecetras e tais,… portanto a minha decisão de apartamento sem cozinha até nem é muito descabida, parece-me mesmo muito acertada! A ver vamos!
O marceneiro passou a ser profissão em extinção, protegida e subsidiada pelos fundos comunitários. Agora o que está a dar são as grandes superfícies com imensas ofertas, onde se escolhe e no dia seguinte, a cozinha está na cozinha. Nem mais, exactamente como se vê nas revistas! Às vezes não cabe, mas isso é outra treta!

Vou esperando por uma Bimbi que inclua, as compras no supermercado, com ligação directa ao mesmo, e que eu daqui do meu PC, me divirta a escolher pura e simplesmente a ementa. Ainda aceito o trabalho de por mesa e servir, actividades, modéstia à parte, faço com esmero e criatividade. Os amantes da cozinha devem estar horrorizados. Caros amigos, alguém tem que por a mesa!!!!

Comecei em Manhufe e terminei nas Bimbis, as palavras se encontram, fazem amizade umas com as outras, se divertem e fica difícil dizer-lhes que tenho que acabar..- também não me pagam para escrever, portantus…. Comecei em tonalidade séria e terminei na nuance divertida. Hoje penso assim, mas vão contando que amanha, talvez já não pense do mesmo modo.






11 fevereiro, 2007

De Manhufe à Bimbi

As décadas passaram… os tugas emigraram, regressaram de férias e começou a nascer a nostalgia do pão de forno, as famílias começaram a aspirar por cozinhas regionais iluminados pelas ideias de la Provence.
Para além dos rés-do-chão amples, a tipologia das habitações dos anos 80, passou a incluir a tal cozinha regional, para reunir amigos na comerzaina. Era esta uma das características que formalmente mencionavam quando encomendavam o desenho das suas maisons. Mas os utentes, ingénuos nestas coisas da arquitectura, esqueceram-se, que o homem moderno, já não suporta fumo, padecendo de ardência nos olhos, que as mademoiselles desgostam de cabelos a cheirar a fritos, que os putos não curtem carregar lenha e recolher pinhas pelos pinhais… quem gosta ir de visita, aos amigos, morfar uma boa sardinhada, não está interessado em regressar com os odores gastronómicos entranhados da cabeça aos pés, empestinhando até o mercedão, na viagem de regresso a casa?!!!!!.


Bom!!!! A cozinha regional, passou a ter forno e grelhador à parte, numa terceira cozinha, onde se pode mesmo fazer o lume no chão como antigamente e dá até para fazer o fumeiro, andar de socos, …. Assim o coração da casa passou a ser continuamente transplantado, desdobrando-se sucessivamente. Nós tugas temos essa capacidade cristã, à semelhança da multiplicação dos pães, de autentica clonagem tipológica. Verdade!!!! Conheço um lá p’ras bandas de Chaves que já vai na 5ª cozinha – isto já não é uma caso de amor com as cozinhas, é mesmo paixão, daquelas bravas!
A cozinha regional, passou a ser exclusivamente para receber - com uma grande mesa maciça (pensam eles), armários de madeira à vista, com desenho pesadão à Paços de Ferreira, prateleiras com tachos e panelas de cobre nunca usados, arranjos de cebolas e alhos pendurados pelos cantos (deve ser para espantar vampiros), coelhinhos e galinhas de loiça distribuídos, segundo o gosto desacertado da dona da casa, tudo enquadrado em azulejo, dizem eles, do século XVII. As felisbelas e as belmiras, rapidamente passaram a marias, a sónias, a neides margaretes, carolines e a katias vanessas. Está certo!
(cont.)

10 fevereiro, 2007

De Manhufe à Bimbi (cont)

Azulejos, só nas casas de brasão à porta, e eram manufacturados, daqueles que hoje preenchem as prateleiras dos antiquários e dali, seguem para uma moldura para colocar na parede da sala.
Junto à lareira, o granito era mesmo preto de fumo depositado da lenha de carvalho, que ardia de Inverno a Inverno, sem parar… acrescentado de gravetos, de giestas, de caruma de pinheiro, de urze e de pinhas.
Com o racionalismo, a cozinha entrou na fase da limpeza.
As ementas empobreceram, mas as superfícies começaram a espelhar.
“O algodão não engana”, surgiu depois, mas foi mais ou menos esta a caminhada: O fogão de lenha, passou a ser esmaltado, o chupão foi anulado, a salgadeira e o escano queimaram-se, a água chegou canalizada, apesar de enferrujada pelos “canos”, o lavatório em ferro forjado viajou para a tulha, os queijos de cabra passaram a ser rejeitados devido à brucelose, o fumeiro passou a provocar cancro do cólon, as castanhas engordam, a mão de vaca entrou na loucura da vaca, assim como os fígados e outras miudezas, a leite passou a ser pasteurizado, …e começaram a aparecer as anedotas do arroz de cabidela.
…. passou a haver, um local de maior visibilidade dedicado à telefonia e mais tarde à televisão de canal único, com naperon por cima. Passou a haver fogões de gazcidla pernas altas, passou a haver frigoríficos, e nos anos sessenta começou o reinado da mesa com camilha à espanhola, influências dos mercados fronteiriços, do tempo do Franco, do tipo, “Feces de Abajo”, “Fontes de Onoro” e “Badajós”.
Os móveis de cozinha que até aí eram pensados e feitos no marceneiro, de lápis na orelha, que se orgulhava de não misturar pregos com madeira, passaram a ser executados em fábricas na linha de montagem em série.
A família deixou de fazer as refeições na cozinha e passou a fazer num espaço dentro da mesma apelidado de copa. O cima dos armários passou a ser habitado pelo artesanato da região, ou pelos ferros de passar a carvão, em desuso e decrepitamente convertidos em suporte de flores de plástico. A cozinha de tão feia que era, passou a ter os naperons de cozinha a enfeitar os granitos e os mármores, não se fosse confundir com o lajedo dos ditos com outros, sob os quais repousam os falecidos, e ainda, os azulejos floridos que concentravam ali a “alegria do lar”. Quanto mais florido melhor!!! Florido, mas sem ser o azulejo com as cores tradicionais portuguesas da viúva de Lamego, florido mesmo ali das fábricas de Aveiro, junto à ria.
Não estou a ser nada mázinha!!!!!!!!!!!!!!!!! Foi isto que nós vivemos!!!! E não esqueçam os bibelots de cozinha, de arrasar qualquer um… as couves das caldas, os galos de Barcelos, as galinhas poedeiras, a Nossa Senhora de Fátima a abençoar o lar… enfim, o country à tuga!
(cont)



09 fevereiro, 2007

De Manhufe à Bimbi (cont)

Na cozinha dos meus avós, lá no início do outro século, na época da cozinha de Manhufe, não era assim, tudo era mais integrado, mais consequente, cada coisa tinha o seu lugar, com a genealogia gastronónima bem definida e desenhada.
A cozinha cheirava a broa, a nabo, a rojões, a feijão, a mão de vaca, a enguias, a castanhas, a gila, a leite creme, a aletria com canela, … amassava-se o pão, deixava-se a levedar, fabricavam-se queijos de cabra e ovelha, a marmelada punha-se à janela e os figos também, benziam-se e responsavam-se os cozinhados mais complicados, e a cozinheira chamava-se Felisbela.
Os odores combinavam com os potes, com o trasfogueiro, com a salgadeira, com as queijeiras que transpiravam soro, com a masseira, com a rapança, com as filas de fumeiro, com o púcaro de alumínio, com a água fresca de sabor inigualável.
Havia feixes de luz, que definiam divisões geométricas imaginárias que pairavam no ar perfumado. O sol era filtrado entre as telhas, iluminando as poeiras suspensas, através de projecções cónicas, criando velaturas de transparências, ora acentuando arestas, ora diluindo formas, que me transportavam para mundos imaginários, sem tempo, sonorizados com giroflés, giroflás, num caldo de emoções infantis impossíveis de repetir… é isto que consigo descodificar na cozinha de Manhufe, e por em paralelo com a minha experiência vivencial.
A geometrização das formas da cozinha, foi construída pelo meu olhar entre os feixes de luz, enquanto brincava de amassar o pão, esticando a massa, desenhando sobre ela, peneirando farinha, cheirando fermento e comendo às escondidas massa crua. Neste cenário, desenvolvi utopias, rompendo propositadamente essa luz coada por telhados cerâmicos, agitando e deformando as partículas, nascendo a vontade de experimentar prismas de luz, efeitos de cor, através de copos facetados, que na minha mão tiveram outras utilidades para além de pura e simplesmente beber. (cont)




08 fevereiro, 2007

De Manhufe à Bimbi (cont)



Na minha cozinha, o frigorífico continua à vista, assim como o microondas, apenas aderi à placa eléctrica encastrada, que serve também para cozinhar.
Tudo bem à vista e nada é de inox.
Como sou desorganizada nas lavagens, instalei um lava loiças de quase dois metros, onde cabe tudo, mas que ia provocando um enfarte ao canalizador, perante aquela vista imensa e desregrada…enfim, nesta cozinha, ora cheira a alheira, ora cheira a caril, ora cheira a canelonis, ora cheira a muamba, ora cheira a crepes, ou a shop soi – efeitos da globalização e consequências da expansão portuguesa/emigração.
Uma miscelânia de odores que, de facto não combinam com a estética da minha cozinha!
Quando há muamba, falta o respectivo pilão e moringue, quando cheira a caril, falta o sari na cozinheira, quando cheira a canelonis, cadê o vero ragazzo?, quando cheira a shop, falta o chapéu chinês (não confundir com o terminal das chaminés, refiro-me a chapéu com forma de acento circunflexo ou de Mandarim, que desconheço o nome) … um contrasenso total!
(cont)

07 fevereiro, 2007

De Manhufe à Bimbi (cont)

A cozinha alterou-se com os tempos modernos.

Deixou de haver uma grande lareira de granito com o respectivo chupão, deixou de haver fogão a lenha, armários de vidrinhos com prateleiras sabiamente decoradas a papel recortado, louceiros com escorredor incorporado pintados de azul, lava loiças em ardósia negra, deixou de se ver a lenha alinhada para queimar, deixou de se ver a masseira e o forno de cozer pão e assar o cabrito, desapareceu o caneco da água e a respectiva bóia de cortiça, sumiu o candeeiro a petróleo, o escano e a respectiva braseira.


A cozinha passou a ser fria e normalizada. Os lava-loiças são todos irmãos- gémeos do tipo monozigotos, com 1,20X0,60, não há que enganar, os grandes electrodomésticos medem 0,60, todo o balcão de apoio tem cerca de 0,60 de profundidade, os armários superiores localizam-se a 1,50 de altura. Tudo antropométricamente calculado e situado, seja a cozinha deste ou daquele, o módulo 0,60, reina no mundo da cozinha, e veio para ficar.

Hoje estamos completamente na era dos inóxes. Passamos pela moda dos balcões em fórmica brancos ou imitando madeira (ainda hoje há quem suspire por um balcãozinho em fórmica!!!), depois armários estilo capela (encheram o ego a muito boa gente, mas alguns empenavam e as gavetas se recusavam a abrir quando adormeciam indispostas), e hoje nos tempos da aspiração centralizada, temos as cozinhas de design italiano, com bué de inox e muito vidro, prateleiras rotativas, células fotoeléctricas, electrodomésticos escondidos, como se fosse vergonha ter um frigorífico à vista. Por vezes nem sabemos de que material são feitos, numa mistura de aglomerados, com resinas, moldados ora a quente ora a frio…sei lá, parece bem, mas não sabemos com o que contamos! Não têm nada a ver connosco, não condiz com o nosso tom de cabelo, nem com o nosso pestanejar lusitano, mas tudo se perdoa, a quem aparece nas revistas ou na telenovela.
Lembrem-se que Jacques Tati, nos anos 50, já se surpreendia e confundia com estas modernices.
(cont)

06 fevereiro, 2007

De Manhufe à Bimbi

Cozinha em Manhufe - Amadeo Souza-Cardoso

Posso dizer que conheço esta cozinha desde sempre.
Se me puser a recordar a época mais ou menos exacta de quando vi esta imagem pela primeira vez, confronto-me com trilhas perdidas no tempo, diluindo-se o real e a ficção, tal como as nossas primeiras lembranças.
Regressando aos tempos de infância, as imagens se confundem, numa multiplicidade de contornos do real e das estórias, que nos presenteavam em cada dia, que ora se sobrepõem, ora se distanciam e se isolam, num jogo calendoscópico.
Não sei.
Sinto uma grande familiaridade com esta imagem, pois ela vive numa das minhas gavetas da memória. Serei capaz de adivinhar o que existe para fora daquela janela, ou por trás daqueles vãos sobrepostos. Conheço cada recanto, adivinho o que não é visível.


Nunca estive em Manhufe.
Decidi que vou tentar visitar em breve, para confirmar estados de alma, para identificar os verdadeiros proprietários de certas memórias, arrumar as sensações
.
A cozinha costuma representar o coração da casa. Aquele lugar que bate mais forte, onde se centra a maior parte da actividade de um espaço habitacional, o local dos odores, da salsa, do louro, dos coentros, da hortelã.
Hoje uma cozinha cheira mais a sonasol, nas variáveis, limpa vidros, lava loiças, limpa fornos, limpa inox e limpa gorduras difíceis.
(cont)

04 fevereiro, 2007

03 fevereiro, 2007

O meu mundo


O meu mundo!!! sofrido..... ufa, ufa... muita pedra, muito calhau, muito plano, muita incerteza... e o menhires e as antas continuam com a sua beleza perpéctua!

02 fevereiro, 2007

01 fevereiro, 2007

Os tugas estão a acordar

Alguns trabalhos de Amadeo já os conhecia, tive oportunidade de os observar há mais de uma década, na Gulbenkian e num museu mais modesto, mas não menos interessante, junto à paisagem bucólica do Tâmega – um espaço de visita obrigatória, de resto, o espaço onde continuará a residir uma grande parte da obra do pintor.


Mas aqui, em Lisboa, na exposição “Diálogo de vanguardas”, o que resultou diferente e bem, para valer uma nota tão positiva?

- 260 obras todas reunidas no mesmo espaço.

- O percurso bem estruturado, permitindo uma leitura fácil, através da analogia directa com os 36 pintores “convidados”, que se tangenciaram na procura experimental pictórica, como Picasso, Brancusi, Malevitch e Modigliani.

- O óptimo estado de conservação das telas. Os óleos brilhavam, sentiam-se frescos, estimados, de restauração recente, com as texturas visíveis sem se confundirem com fissuras de telas envelhecidas. Tudo parecia feito no mês anterior. Bom trabalho - a inconfundível chancela da Gulbenkian!

- A obra há muito procurada e finalmente encontrada nos Estados Unidos “Avant la corrida”ou “The bullfight”, finalmente exposta! Uma obra belíssima em tons de verde, foi sem dúvida o pólo de atracção da curiosidade dos tugas.


- Reunidas obras que já correram o mundo, tanto no tempo presente com há 90 anos atrás - Amadeo expôs no Armory Show (1913), em Nova Iorque, na primeira exposição de arte moderna nos Estados Unidos.


- A explicação cativante e profunda de pelo menos uma das guias que a Fundação disponibilizou, não só conhecedora da obra do pintor português, das suas raízes amarantinas e ligações à vida de Manhufe, mas também do modernismo, do cubismo, do abstraccionismo, do enquadramento histórico e dos percursos paralelos realizados por outros pintores visionários. O homem que pintava para o futuro, foi explicado num discurso claro, esclarecedor, acessível, recheado de pormenores curiosos, que fizeram a diferença, no olhar curioso e interessado dos visitantes.

Efectivamente uma exposição que mereceu a atenção de todos!... e desiludamo-nos, os tugas estão mesmo a acordar! Velhos do Restelo, não apelem à contramão, que os tugas quiseram aparecer na tv, que havia concertos ao lado e aproveitaram, que o jet 7 assim e assado, que alguns puderam visitar gratuitamente ou a preço mínimo, naaaa, naaaa, naaaa…. Os tugas estão a tomar consciência do real valor dos seus artistas, e a sacudir os seus complexos do estado novo; vão despertando e tomando consciência, que Portugal não pode competir com o mundo em economia, em tecnologia, mas tem um lugar de grande destaque na cultura.

Que pena, esta não ser uma exposição permanente, pois deu-me vontade de voltar mais vezes, pois em cada visita, descobriria certamente mais e mais deste artista, a que Fernando Pessoa se referiu deste modo:

"Amadeu é o mais célebre pintor avançado português"

31 janeiro, 2007

Os tugas estão a acordar (cont.)

Os tugas estão a acordar, mas vivem um despertar lento, demorado, de quem não quer sair do túnel do desconhecimento obscuro, necessitando de um recôbro com cuidados assistidos.
Abriram um olho, há uns dois anos atrás, com a exposição de Paula Rego, em Serralves, espreguiçaram-se, e adormeceram de novo, aquele sono, do tipo, oiço, sinto, mas não reajo!
Este ano descobriram Amadeo Souza-Cardoso… foram acordando com a comunicação social a dar visibilidade à genialidade e ao vanguardismo desde pintor do séc. XX, e descobriram que Amadeo, afinal é portuga, nascido em Amarante e que ombreia com Pablo Picasso, pai do cubismo.
Se encantaram, e tiveram a coragem de se olhar ao espelho do conhecimento e do orgulho.
Aperceberam-se da trajectória feita de muito trabalho e de grande criatividade deste pintor, que não se limitou a representar cómodamente a natureza e a realidade amaciada que o rodeava. Constataram a sua permanente insatisfação na procura, na descoberta, na incansável vertente de exploração do seu ponto de vista, do seu olhar, que afinal era partilhado por escassos, artistas plásticos, que comungavam também essa ansiedade, e se tornaram figuras de referência na pintura mundial, localizados no início do século XX.
Amadeo expôs pela primeira vez em Portugal na cidade do Porto em 1916, exactamente há 91 anos, e parece que foi fortemente agredido na rua, por alguém que se sentiu ultrajado com a sua pintura.
Façam um feedback, e recordem tudo o que aconteceu em nove décadas – as transformações sociais, políticas, económicas e a revolução das mentalidades que, finalmente leva os portugueses a atribuír a Amadeu o lugar merecido de vanguardista do séc. XX.
Morreu cedo, foi esquecido durante décadas, não teve oportunidade de construir a sua imagem de artista invulgar e bizarro, como o fizeram Picasso e Dali.
Verdade, é mesmo com Picasso a quem deve ser comparado!
No mundo das suposições, se Amadeo tivesse tido a longevidade de Picasso, também teria pintado a sua Guernica, não lhe teriam faltado motivos (guerra colonial, ditadura salazarista, o Tarrafal) com a vantagem de nem necessitar das fases, rosa ou azul, pois ele era mesmo genial; muito mais bem parecido que o malagano, teria as mulheres que lhe desse vontade, e também teria uma costa vicentina, para se refugiar e curtir o mar, quando se cansásse do Tâmega ou do Sena.
No século XXI os tugas engrossaram as filas de acesso a uma das salas de exposições da fundação Calouste Gulbenkian, ultrapassando os cem mil visitantes, com os espaços abertos até durante a noite, para dar vazão a tanta gente.
Visitei a exposição, ainda calmamente, a 8 de Dezembro.
Não havia filas, mas os visitantes já eram mais do que muitos, para aquilo que é considerado normal.
Os tugas já tinham saído dos cuidados intensivos. A hora já era tardia, 20 horas, tempo de jantar.
Estranhei o grande número de seguranças e bem atentos.
Estranhei não me deixarem entrar com a minha bolsa. Carteiras, sacos e bolsas, obrigatoriamente ficavam no bengaleiro. Nem no museu do Vaticano logo a seguir ao 11 de Setembro! Mas os tugas ainda não lidam de forma racional e coerente com estas coisas da segurança nos museus: as bolsas e carteiras ficaram afastadas, no entanto qualquer visitante poderia entrar com uma navalha ou um x-acto no bolso, dar-lhe a louca e rasgar qualquer tela. Preocupação maior com o roubar, minimizando o estragar.
(cont.)

30 janeiro, 2007

Os tugas estão a acordar

O povo português tem alguma dificuldade em desenvolver e interiorizar sentimentos de orgulho em relação aos seus artistas. Os poetas e os músicos são aqueles que se encontram mais próximos de toda a gente, mas…os arquitectos? os pintores? e os escultores?

Quem não se orgulha de Camões, mesmo que nunca tenha lido os Lusíadas?
Quem fica indiferente a Pessoa?
Quem não idolatriza a Amália, mesmo que só conheça a Casa da Mariquinhas? (eu não, mas...)
Camões e Amália abriram caminhos, cá dentro e lá fora. Até parece mal, dizer-se, que não se gosta de Camões, ou que Amália cantava sempre da mesma forma. (odeio entrar no Panteão de Lisboa e ouvir Amália a cantar fado de manhã à noite, de forma inesgotável, cansa-me os neurónios e o gosto).
Criou-se na memória colectiva um recanto privilegiado para estes dois. E então e os outros?

Quando visito os nuestros hermanos, surpreendo-me com o carinho, que a gente da rua trata os seus artistas e as suas obras. Eu que fotografo à ganância, pelas ruas das cidades, constato o respeito que todos têm pela objectiva fotográfica. São incapazes de passar à frente da câmara, normalmente param e esperam com um sorriso nos lábios, ou então delicadamente me contornam, sem atrapalhar este meu vício, e sorriem sempre.
Experimentem fazê-lo do lado de cá!!! nem reparam em mim e muito menos no que estou a fazer. Atravessam mesmo à frente no preciso momento do clik. Não imaginam sequer, que estou a reter uma imagem de um pormenor interessante das suas cidades, não manifestam sequer a curiosidade de ver o que me leva a fotografar.
Isto não é falta de interesse, é desconhecimento, é iliteracia sobre arte. Nunca, nada, nem ninguém, lhes desenvolveu o sentido de gostar do que é genuinamente português, de ter orgulho das raízes de um povo, do património, da cultura… especialmente do que é belo.

Arquitectos? Conhecem quando muito, Afonso Domingues, aquele que Alexandre Herculano nos contou nos bancos de escola, sobre a sala do Capítulo, Siza Vieira, que não apreciam ou não entendem, e Souto Moura, devido ao estádio do Braga (belo estádio!).
Pintores? Conhecem….dos antigos nem sei,…., dos contemporâneos, a Paula Rego porque pintou Jorge Sampaio, e a comunicação social deu uma certa visibilidade.
Escultores? Conhecem por uns dias e rapidamente esquecem! Alguns retêm Soares dos Reis, eventualmente, Cutileiro, eternamente incompreendido com o seu D. Sebastião.
Na música, como referi, todos conhecem Amália, gostando ou não, Marco Paulo e Quim Barrreiros. Sim, Quim Barreiros! E cadê todos os outros?

Entre os poetas, Camões possui sem dúvida, lugar de destaque na memória de todos os tugas, Fernando Pessoa mais para intelectuais, e os do sul, António Aleixo, poeta popular.
Mas onde ficam António Gedeão, Ruy Belo, Florbela Espanca, Natália Correia, Bocage, António Nobre, Almada Negreiros, António Botto, Ary dos Santos, Manuel Alegre,…? eles são tantos e tão bons!
(cont.)

29 janeiro, 2007

Muamba de galinha à Catála Cassála


A pedido de várias famílias aqui vai a receita de muamba de galinha – receita vinda da fazenda de Catála Cassála, margem esquerda do rio Kuanza.

1 galinha
1 cebola
1/2 lata de muamba
2 courgetes
2 beringelas
15 kiabos
Sal
Gindungo
Óleo de palma
Farinha de fubá

Cortar a galinha aos pedaços, e fritar ligeiramente em óleo de palma, temperando com sal.
Num outro tacho, colocar as beringelas e courgetes sem casca, água e sal, e deixar levantar fervura. Guardar a água da fervura.
Retirar o talo duro dos kiabos, cortá-los longidutinalmente, e colocar a ferver em água e sal, num outro tacho. Guardar a água da fervura.
Retomar a galinha e juntar cebola picada, deixar alourar, juntar os legumes cozidos, a massa para muamba, juntar também aos poucos a água da fervura dos kiabos, esta água tem a propriedade de se converter em "gel". Deixar cozinhar lentamente, temperar com gindungo, e acrescentar água da fervura dos restantes legumes, caso seja necessário.

Acompanhamento:
Num tacho, ferver água com sal, juntar aos poucos a fubá, reduzir ao calor, mexer energicamente com um pau (quem preferir, com uma varinha mágica resistente), até a farinha incorporar uma bola de cor mais escura que se vai separando do fundo do tacho.