14 novembro, 2020

O DECLÍNIO DO IMPÉRIO AMERICANO

Realizador: Denys Arcand

1986

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13 novembro, 2020

SABER PERDER, DIGNIFICA

 

Saber perder, dignifica


         Nas imagens que correram o mundo com Donald Trump a fazer a conferência de imprensa, é visível a sua postural corporal, encurvado e braços pendurados (you know there, stupid people D.T.), não engana, significa derrota, porém a sua derrota assume acusações verbais tão graves que alguns canais de televisão americana, foram obrigados a cortar a emissão – algo inimaginável.

         Aqui está um péssimo exemplo para a humanidade, oferecido por Trump.

         Ninguém gosta de perder, podemos ficar indispostas, aborrecidos para o resto da vida, traumatizados, mas virar tudo ao contrário acusando os outros, revela má formação, e neste caso, põe em causa as instituições que organizam o processo eleitoral, sob a sua responsabilidade.

         Este caso não merece da minha parte, mais nenhuma referência, mas pretendo reflectir sobre, “saber perder dignifica”.

         Quem luta, quem vai a jogo, quem tem coragem em se expor, arrisca a ganhar ou a perder. Mais importante do que essa coragem, é saber aceitar uma derrota, transformando-a em aprendizagem. Quem aceita derrotas, quem reflecte sobre elas, analisando o que falhou, está a preparar-se para uma próxima vitória.

         O sentimento de frustração que acompanha a derrota, o reconhecimento que, as nossas expectativas falharam, o tempo gasto num certo enquadramento, desapareceu, não são fáceis de digerir, e especialmente se foi utilizado esforço, empenho, resiliência, porém, são esses os eixos do desenvolvimento da aprendizagem que é necessária concretizar. A auto-avaliação, realista e pacífica, dão-nos a perspectiva do caminho a seguir no futuro. Sei que há caminhos já feitos, a fazer, regulares e labirínticos, mas são caminhos, abrem informação e permitem planeamento e acção.

         A derrota é a melhor lição que poderemos ter sobre nós e sobre o que queremos. Reagir agressivamente, sem lógica e teimosamente atirando as culpas para os outros e o desejo de vingança, não dignifica ninguém. É assim na política, no futebol, na vida profissional, na educação dos filhos, na relação com a família e amigos.

         Aceitar uma derrota, faz parte do nosso processo de crescimento interior. Foi assim desde que nascemos. O processo é genético. Quando um bebé cai, chora e tenta levantar-se para continuar a sua aprendizagem da marcha.

         A nossa mente bloqueia com mentiras, desculpas, medos não permitindo sair do patamar da derrota e engordando a vitimização, que não chega nunca a algo vitorioso e digno.

         A derrota é um sinal de fraqueza, mas aceitar a fraqueza é um sinal de inteligência, racionalidade, que levará a futuras vitórias e a um novo grau de civilidade.

         Há um provérbio japonês que diz:

         Pouco se aprende com a vitória, mas muito com a derrota.”

Publicado em NVR - 10/11/2020

á Há um proveHá

08 novembro, 2020

EM CARNE VIVA

 

EM CARNE VIVA

Realizador: Pedro Almodover

1997

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07 novembro, 2020

A inteligência artificial e os humanos

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         Ainda parece um assunto distante de nós, mas, não é, e há várias actividades da nossa vida que envolvem o desempenho da Inteligência Artificial — a utilização dos telemóveis, o robot de cozinha, o corretor ortográfico, as plataformas streaming,  o gps, os tradutores automáticos, a banca digital, os transportes, as luzes automaticas, os alarmes, e muito mais; os jovens utilizam-na diariamente, nos milhares de jogos electrónicos.

            A ciência e a tecnologia unem-se para dar continuidade a algo iniciado há 80 anos, que vai invadindo a nossa vida e alterando a estrutura da vida atual, na saúde, educação, desporto, robótica, economia, trabalho, agricultura e diversão. 

            Se a Inteligência Artificial está cada vez mais presente na nossa vida, deveremos reflectir sobre ela, tentando encontrar, os benefícios e os constrangimentos, daí resultantes.

            A ideia de que as máquinas seriam utilizadas para poupar o esforço humano, idealizando a sociedade perfeita para todos os seres humanos, mais justa, menos violenta, com o andar dos tempos, sabemos que nada disto acontece. Acontece e não acontece. De facto a máquina alterou completamente o mundo laboral, mas para benefício só de alguns. A ilusão de que os trabalhadores iriam trabalhar menos e ganhar mais, não passa de uma verdadeira utopia.

            Actualmente as grandes preocupações com a Inteligência Artificial, ligam-se com a instabilidade laboral, com a diminuição dos pontos de trabalho, a diminuição do poder de compra das famílias e o aumento da pobreza a nível mundial. Certamente irão surgir novas profissões e novas oportunidades de trabalho para quem estiver preparado para este tipo de desafios, o que cria logo à partida uma desigualdade de oportunidades, porque uns estão preparados e outros não. Lembro que vivemos na charneira entre o mundo analógico e o digital e nem todos estarão enquadrados para estes novos desafios. 

            O desenvolvimento tecnológico e o progresso socio- económico estão cada vez mais interligados e ditam os caminhos do futuro, quer agrade ou não. E como vai ser o futuro?

            Sabemos que no futuro e até já no presente, a formação será constante e ao longo da vida… Ninguém pense que em algum momento da vida, não necessita aprender mais. Os pessimistas pensam que a Inteligência Artificial acabará com várias profissões, gerando desemprego e pobreza, os optimistas pensam que a sociedade terá capacidade em reagir, renovando-se com outras profissões. O grande problema é como se gere esta “revolução” e quem a gere. Será uma entidade ou várias entidades inatingíveis, incontroláveis, distantes e impessoais? Uma coisa é certa, a ignorância sempre afectará as pessoas, pela negativa e as deixará para trás. Preparem-se para os novos paradigmas!

            Resta o temor de alguns humanos:

            — O que acontecerá quando um dia uma máquina replicar ou ultrapassar a inteligência humana?

            Faz-me lembrar os criadores do Pinóquio, do Frankenstein e ainda a lenda de Golém…

            Talvez eu seja limitada, mas parece-me esta situação impossível, por considerar o pensamento humano insuperável, já que este é bem mais do que uma sucessão de algoritmos. A nossa mente não é um computador, mas considerando essa hipótese, teremos que repensar a nossa posição no universo ou reduzir-nos à nossa insignificância.

            Os teóricos da Inteligência Artificial continuam a pesquisar sobre a possibilidade de o pensamento humano poder ser integralmente mecanizado, unindo diversas áreas do conhecimento: filosofia, matemática, antropologia, linguística, psicologia, informática. Prepara-se o duelo entre titãs, os filósofos e os cientistas.

Publicado em NVR 3/11/2020

Link da imagem: https://thatto.com.br        

 

31 outubro, 2020

LISTEN


Género: Drama

Realizador: Ana Rocha

Actores: Lúcia Moniz, Sophia Myles, Ruben Garcia

Ano: 2020

Sinopse:

Nos subúrbios de Londres, Bela e Jota enfrentam sérias dificuldades quando os Serviços Sociais levantam suspeitas sobre a segurança dos seus três filhos. A surdez da filha de 7 anos desencadeia um processo no sistema que parece não ter fim. Tudo se complica com o passar do tempo. "Listen" retrata a desgastante luta pela união da família após um erro irreversível.

 

28 outubro, 2020

Três indivíduos mascarados

 

                Três indivíduos mascarados conversam, “conspiram”, cochicham? À porta da loja Cardoso da Saudade, só lhes vejo os olhos, parecem-se com todos os outros mascarados que se passeiam pela Bila num sábado de manhã a aproveitar as manhãs ensolaradas do Outono, comprando os covilhetes da Gomes, os S. Marcos da Nova Pompeia e a bola de carne de outra pastelaria qualquer, para enriquecer e mimar o lanche familiar. Se estivessem dentro de um bote, adivinharia que seriam personagens de Shakespeare, assim… em pé junto ao estabelecimento comercial… estariam à espera das companheiras? Poderiam ter saído do romance  “A queda de um anjo” de Camilo Castelo Branco, como Calisto, Libório e Brás Lobato. Poderiam ser o imaginário de Fernando Pessoa, Álvaro, Ricardo e Alberto. Três homens que poderiam ser os reis magos se já estivéssemos no Natal. Há trios inesquecíveis — Cócó, Ranheta e Facada — Tintim, Capitão e Milú — Capitão Gancho, Barrica e TicTac,… até a Santíssima Trindade, são três, Pai, Filho e Espírito Santo… o número mágico da humanidade. 

                No tempo da outra senhora, três indivíduos parados a conversar na rua, já seria classificado como um pequeno ajuntamento, a conspirar contra o Estado Fascista, merecedor de investigação cuidada por parte da polícia política. Ainda bem que isso passou.

                Chamam-me,

                passo sem cumprimentar, não os reconhecendo…

                se fosse o justiceiro Zorro!… a máscara não oculta os  olhos, mas sim as bocas e os narizes. Nem os bigodes lhes vejo e o Tornado não anda por aqui!

                As pessoas passam, naquele caminhar despreocupado de fim-de-semana, em cidade calma e tranquila, ainda com as lojas abertas, por volta do meio-dia. Penso no meu almoço, cabrito no formo, uma iguaria da cozinha transmontana, reservada num restaurante, que tenho o prazer de me oferecer, após duas horas de trabalho no meu atelier de pintura. Tento repor a imaginação, equilibrando a minha paleta cromática digestiva, converto o meu desassossego em algo mais suportável.

                As vozes dos sorrisos mascarados, invisíveis e deduzidos a partir do olhar, iniciam o rasgar da seda da amizade no encontro a meio da rua, onde raramente passam automóveis. Conheço-os há tantos anos!… é melhor nem contar.

                Poderia ser Carnaval, mas não é, ainda há guarda-sóis abertos nas esplanadas, despedindo-se do Verão e as folhas de Outono começam a cair envergonhadas, resultando de uma alopecia vegetal obrigatória e anual. Para lá da cidade, a onda do Marão, prepara-se para os dias frios e gélidos que se avizinham e as pessoas tentam fingir a animação possível de tempos sombrios e certamente dolorosos, que virão. Alguns ficarão doentes, outros ficarão gravemente doentes, perderemos alguém da nossa família ou um amigo… outros ficarão incrédulos por serem assintomáticos. A maioria voltará a casa obrigatoriamente, para cumprir o isolamento sanitário. O entusiamo das pessoas não é genuíno, é um entusiasmo em alerta, que os impede de apreciar a beleza das encostas do Douro, que nesta época, se vestem no seu esplendor multicromático, resultando da simbiose outonal oferecida pela natureza.

                Os mascarados são mascarados, não porque lhes apetece ou por uma bizarria qualquer, mas sim, para protecção daquilo que se abateu sobre o mundo, e o virou do avesso, o inimigo que não se vê e que não respeita nem primaveras, nem outonos, muito menos, invernos.

                De que falam? do vírus, certamente,  dos contágios, das vacinas que não chegam, das obras na Avenida, do Benfica e do Sporting. Estarão a imaginar o Marcelo a tomar a vacina, dias depois? a app de rastreio obrigatória, peregrinações a Fátima? Estarão a falar sobre o progressivo esvaziamento do centro histórico, dos pontos negros desta cidade, da feira das Antiguidades, das boxes do cinema quase vazias, da ponte metálica mais uma vez bloqueada, da fila de automóveis em vários pontos da cidade, da Tasca do Alemão, que continua encerrada? Estarão a falar das cidades que tentam viver uma vida normal, disfarçando toda esta ansiedade colectiva, receosa da pandemia. Falarão dos telefones do Centro de Saúde que nunca ninguém os atende? Os homens quando se juntam!…

                Ui, estarão a falar das teorias da conspiração?

                eu nada ouço, atendendo a que, de máscara, os meus sentidos atrofiam, intimidam-se, não falo, não oiço, não vejo. Pareço uma verdadeira zombie a vaguear pela rua, confiando apenas no meu GPS, que felizmente funciona, mesmo com três sentidos afectados. Circulo de óculos escuros, falta-me apenas a burka. Coloco a pergunta que se impõe, quem usa burka, terá de usar máscara? Na verdade não me interessa a resposta.

                O que estarão eles a fazer?

                Três homens parados no meio da rua, a conversar, às 12h de sábado, parecem não ter nada que fazer. Arrisco que apenas fazem horas, aguardando a sua vez, para entregar a cabeça ao barbeiro.

                — Leio tudo o que escreves, olha que este trio daria uma boa notícia para o jornal.— desafiou um, provocando-me.

                Não resisto a uma provocação.

Publicado em NVR 27/10/2020

20 outubro, 2020

Não tenho opinião

 

Prémio Nobel da Literatura - não tenho opinião

                Quando chega a Outubro, os leitores aferem as suas escolhas, com o conhecimento do galardoado com o Prémio Nobel da Literatura. Há muitos anos alguns começaram a ver Saramago com outros olhos, de repente todos conhecem Pamuck, abriram a boca de espanto com Bob Dylan, silenciaram-se com Olga TorkarczuK, nome difícil de escrever e ler…

            Este ano o prémio Nobel da Literatura foi para Louise Gluck, uma poetisa norte- americana de 77 anos. Louise já ganhou muitos prémios literários importantes nos Estados Unidos, incluindo a Medalha Nacional de Humanidades, o Prémio Pulitzer, o Prémio Nacional do Livro, o Prémio National Book Critics Circle Award e o Prémio Bollingen, entre outros. Mesmo assim, a própria não estava a contar com este reconhecimento por parte da Academia Sueca, segundo ela, porque os Estado Unidos não se encontram atualmente em boas graças a nível mundial.

            Os intelectuais cá do sítio, correram ansiosos e em pânico, para as livrarias para comprarem um livro da autora, já que nunca tinham ouvido falar e muito menos conheciam a sua obra. Não pretendendo assumir a sua ignorância, tentariam ler rapidamente alguma obra para que rapidamente pudessem assumir a sua serena e actualizada postura intelectual. A Fnack publicitou rapidamente 4 ou 5 obras em edição epub. A autora não tem nenhuma obra traduzida para português. E agora?

            Assumo a minha ignorância, tive que ir ao Mister Google para me informar acerca de Louise e do grande vazio de informação sobre esta senhora. A maioria das publicações dos cibernautas são copiadas e repetidas. Ninguém avança com nada para além de uma biografia minimalista.

            Percebi que os seus temas de escrita são, a infância, a família, a solidão, a morte... que se inspira com frequência na mitologia grega e que é considerada “uma das mais talentosas poetas da contemporaneidade”.

            Na investigação que faço, ora lhe chamam poetisa, ora lhe chamam poeta, abrindo novamente o questionamento sociológico sobre feminino da palavra poeta, mas isso é outra história.

            Encontrei vários poemas traduzidos para português do Brasil, que decido não partilhar devido à fraca qualidade da tradução. Encontrei um, traduzido por Rui Pires Cabral, sobre o qual não opino. Não tenho opinião atendendo ao respeito que tenho pela poesia, pelo tradutor e agora, pela poetisa Nobel.

            Confesso que quando soube do prémio, mexi-me na cadeira e reconheci mais uma vez a minha ignorância, mas sem dramas. Não tenho que conhecer tudo, nem ter opinião acerca de tudo. Calmamente fui constatando a ignorância dos outros e a minha falta de entusiasmo para conhecer a sua obra, já que não aprecio poesia traduzida. 

            A poesia é uma das artes que exprime o que nos habita na alma, utilizando as palavras como meio de expressão estética, para mim só possível na minha língua, o português. Tenho de ler com o coração. É uma visão muito limitada acerca da poesia…. Será certamente, mas é assim que me entendo, entendendo (a).

Publicado em NVR 20/10/2020

13 outubro, 2020

CIRCUNSTRIT@

 Exposição virtual