Voz: Anabela Quelhas
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ACESSO AO ENSINO SUPERIOR
Os alunos de contextos socioeconómicos mais desfavorecidos enfrentam
múltiplos obstáculos interligados, que dificultam o seu acesso e permanência no
ensino superior – 3% na 1ª fase.
São menos inteligentes? Não, provavelmente até poderão ter capacidades
superiores e competências para resolver problemas, já que a sua experiência de
vida lida com carências, o motor que desperta o interesse, a vontade e a
determinação.
Existem dois problemas para análise desta realidade, recheados de
diversos factores estruturais e socioeconómicos.
De onde vêm e para onde vão estes alunos?
No ensino básico e secundário, as escolas são próximas ao local de
origem destes alunos, o que facilita económicamente a sua frequência. Quando
concluem o 3º ciclo e transitam para o ensino secundário, o nível de exigência
aumenta e a competição entre alunos é desenfreada. O processo de selecção para
entrada na universidade é um muro inultrapassável para os alunos carenciados.
No ensino secundário não se luta por uma classificação de 14, que poderá
identificar um bom aluno, a luta é pelo 20. Apesar de as escolas proporcionarem
apoios, é necessário muito mais. O apoio da família sensível a este processo é
fundamental. É necessário ter condições de estudo em casa, não perder tempo em
transportes escolares e usufruir de boas explicações extra-escola, com o foco
de um bom treino para os exames. São três anos intensos e decisivos.
Alunos da classe média alta têm maior acesso a explicações particulares
(apoio escolar privado e individual), materiais escolares complementares e actividades
extracurriculares que enriquecem o currículo e a preparação para os exames
nacionais e de ingresso, favorecendo a participação desses estudantes nos
processos selectivos
Considere-se também o fenómeno de auto-exclusão - os jovens de meios
desfavorecidos auto-excluem-se por considerarem que a universidade "não é
para eles", optando mais cedo pelas vias profissionais. Antigamente a
universidade funcionava como elevador de desenvolvimento social, agora, é
considerado por muitos, uma perda de tempo – “para ter um emprego, o que
interessa é ter uma boa cunha ou estar num partido político”. O conhecimento,
só por si, não é valorizado, nem entendido. Não é dado como certo, que mais
conhecimento pode abrir outras portas na empregabilidade. Os modelos de sucesso divulgados na
comunicação social induzem os jovens a descredibilizar a formação superior.
Histórias de bilionários sem diploma ganham destaque – Cristiano Ronaldo, Bill
Gates, Mark Zuckerberg, Amancio Ortega, Rui Nabeiro, Américo Amorim, Salvador
Caetano, Jorge Mendes, Paulo Futre, Lionel Messi… - esquecem-se de alertar os
mais ingénuos, que são uma minoria.
Na universidade surge a segunda parte do problema – propinas, alojamento
e deslocações.
Para alunos que precisam de mudar de cidade, o preço dos quartos ou
residências universitárias constitui a maior barreira financeira. A escassez de
alojamento público acessível agrava este cenário. Muitas famílias dependem da
entrada rápida dos jovens no mercado de trabalho para complementar o rendimento
familiar. Escolher estudar significa abdicar de um salário imediato. Embora,
existam bolsas de estudo e contingentes de acesso para beneficiários da Ação
Social Escolar, os critérios de atribuição baseados nos rendimentos declarados
nem sempre reflectem a pobreza real ou o custo de vida actual das grandes
cidades. Os transportes são mais um obstáculo: metro, autocarro, barco,
trotinetes, tudo se transforma em euros… Ter um carrinho à porta e ir para a
faculdade é outro andamento!!!!
Depois há que contar com os atrasos. O tempo que decorre entre a candidatura
a uma bolsa de estudo e o primeiro pagamento financeiro obriga a um
investimento inicial que muitas famílias simplesmente não conseguem suportar.
Essa disparidade evidencia a necessidade de acções mais incisivas para
promover a equidade no acesso ao ensino superior, garantindo que estudantes de
todas as classes sociais tenham oportunidades reais de ingresso e permanência
na universidade. Não está a acontecer!
Publicado em NVR 09|09|2026
Voz: Anabela Quelhas
Voz: Anabela Quelhas
file:///E:/radio/audio/277%20-%20mae%20negra-%20Alda%20lara.mp3
Poema adaptado e cantado por Paulo de Carvalho
https://www.youtube.com/watch?v=O2WwaO2owlQ&list=RDO2WwaO2owlQ&start_radio=1
Ao longo da história, a
Humanidade tem criado expressões que, de forma criativa e simbólica,
representam situações quotidianas, facilitando a comunicação e a compreensão
rápida de conceitos complexos. O "voto de Minerva", termo que,
actualmente, é utilizado para indicar o voto decisivo, que resolve um empate
numa votação, especialmente comum em contextos políticos, judiciais ou
administrativos, onde a decisão final pode depender de uma única pessoa com
autoridade para desempatar.
A origem do "voto
de Minerva" remete à mitologia, embora muitas vezes seja associada
erradamente à deusa romana Minerva. Na verdade, a sua origem está na mitologia
grega, onde ela é conhecida como Palas Atena, filha de Zeus e Métis. Atena era
a deusa da sabedoria, da justiça, da paz e da razão, além de ser patrona das
artes, da literatura, da filosofia, da música e das actividades intelectuais. A
sua importância na cultura grega é imensa, e muitas histórias mitológicas
ilustram a sua sabedoria e o seu sentido de justiça.
A história que
realmente consolidou a ideia do "voto de Minerva" acontece na
mitologia grega através do julgamento de Orestes, narrado na tragédia "As
Euménides", de Ésquilo.
Orestes era filho do
rei Agamémnon de Micenas e da rainha Clitemnestra, e irmão mais novo de Ifigénia.
Quando Agamémnon
voltava da Guerra de Tróia, foi assassinado pela esposa Clitemnestra e o seu
amante, Egisto. Orestes fugiu para Fócida, com medo de que também fosse morto
pelo amante da mãe.
Mais tarde, quando já
era adulto Orestes recebeu ordens do deus Apolo para se vingar, matando a
própria mãe e Egisto. Ele praticou o crime e foi perseguido pelas as Erínias
(ou Fúrias), deusas da vingança, que atormentam Orestes pelo matricídio, um
crime hediondo. Orestes foge para o oráculo de Delfos, onde Apolo, (que lhe
ordenara a vingança) o aconselha a ir à cidade de Atenas , buscar a protecção
da deusa Atena. Pouco depois desse período, acabou por ser capturado e julgado.
A questão do homicídio
de uma mãe pelo seu filho era um tabu antigo e considerado um crime de sangue,
que despertava a ira das Fúrias, ou Erínias, deusas que puniam severamente os
crimes de sangue e vingança familiar sobretudo o matricídio.
Atena padroeira da
cidade de Atenas, surge antes da execução de Orestes e ordena a realização de
um julgamento no local, cria o tribunal do Areópago em Atenas para julgar o
caso, instituindo um corpo de juízes formado pelos 12 melhores cidadãos,
visando resolver o conflito entre a vingança ancestral e a nova justiça.
O julgamento foi
marcado por uma disputa acirrada entre as divindades e as testemunhas humanas,
e terminou com um empate, onde os votos estavam divididos. Apolo actua como
defensor de Orestes. Argumenta que Clitemnestra cometeu um crime superior ao
matar o marido (um rei) e que o vínculo biológico da mãe não é superior ao do
pai. Nesse momento decisivo, Atena, agindo como juíza suprema, deu o seu voto
de desempate, o "voto de Minerva", que decidiu a absolvição de
Orestes.
A decisão de Atena foi
fundamental, pois estabeleceu um precedente jurídico importante. A deusa
justificou o seu voto dizendo que, apesar do matricídio, ela própria por não
ter mãe que a tenha gerado, a sua afinidade está inteiramente com o masculino e
com a figura paterna, por isso a justiça deve ser ponderada, racional e capaz de superar a vingança
cega.
Com a sua decisão,
Atena também transformou as Erínias em Euménides, divindades benevolentes que
passaram a proteger a cidade de Atenas, simbolizando a mudança de uma justiça
baseada na vingança para uma justiça racional e ponderada.
Esse episódio
mitológico é considerado uma das primeiras manifestações do conceito de justiça
racional na história ocidental. A história de Orestes e o "voto de
Minerva" simbolizam uma transição importante: do direito do mais forte ou
da vingança pessoal para a justiça baseada na razão, na lei e na
imparcialidade. A decisão de Atena, embora tenha sido tomada por uma deusa,
acabou por consolidar a ideia de que, em momentos de dúvida ou empate, a
decisão mais sábia e ponderada deve prevalecer — uma lição que perdura até aos
dias atuais.
Assim, o "voto de
Minerva" transcende o seu significado original, tornando-se símbolo de
sabedoria e de decisão justa em momentos de impasse.
Que os deuses te
sorriam. Alegra-te! Kairé!
[Emissão “Zeus não
dorme”, descubra a mitologia grega na sua vida – Rádio Universidade FM – 24|25|26
de Julho de 2026]
Publicado em NVR 26|08|2026