PONTEVEDRA
Voz: Anabela Quelhas
file:///E:/radio/audio/277%20-%20mae%20negra-%20Alda%20lara.mp3
Poema adaptado e cantado por Paulo de Carvalho
https://www.youtube.com/watch?v=O2WwaO2owlQ&list=RDO2WwaO2owlQ&start_radio=1
Ao longo da história, a
Humanidade tem criado expressões que, de forma criativa e simbólica,
representam situações quotidianas, facilitando a comunicação e a compreensão
rápida de conceitos complexos. O "voto de Minerva", termo que,
actualmente, é utilizado para indicar o voto decisivo, que resolve um empate
numa votação, especialmente comum em contextos políticos, judiciais ou
administrativos, onde a decisão final pode depender de uma única pessoa com
autoridade para desempatar.
A origem do "voto
de Minerva" remete à mitologia, embora muitas vezes seja associada
erradamente à deusa romana Minerva. Na verdade, a sua origem está na mitologia
grega, onde ela é conhecida como Palas Atena, filha de Zeus e Métis. Atena era
a deusa da sabedoria, da justiça, da paz e da razão, além de ser patrona das
artes, da literatura, da filosofia, da música e das actividades intelectuais. A
sua importância na cultura grega é imensa, e muitas histórias mitológicas
ilustram a sua sabedoria e o seu sentido de justiça.
A história que
realmente consolidou a ideia do "voto de Minerva" acontece na
mitologia grega através do julgamento de Orestes, narrado na tragédia "As
Euménides", de Ésquilo.
Orestes era filho do
rei Agamémnon de Micenas e da rainha Clitemnestra, e irmão mais novo de Ifigénia.
Quando Agamémnon
voltava da Guerra de Tróia, foi assassinado pela esposa Clitemnestra e o seu
amante, Egisto. Orestes fugiu para Fócida, com medo de que também fosse morto
pelo amante da mãe.
Mais tarde, quando já
era adulto Orestes recebeu ordens do deus Apolo para se vingar, matando a
própria mãe e Egisto. Ele praticou o crime e foi perseguido pelas as Erínias
(ou Fúrias), deusas da vingança, que atormentam Orestes pelo matricídio, um
crime hediondo. Orestes foge para o oráculo de Delfos, onde Apolo, (que lhe
ordenara a vingança) o aconselha a ir à cidade de Atenas , buscar a protecção
da deusa Atena. Pouco depois desse período, acabou por ser capturado e julgado.
A questão do homicídio
de uma mãe pelo seu filho era um tabu antigo e considerado um crime de sangue,
que despertava a ira das Fúrias, ou Erínias, deusas que puniam severamente os
crimes de sangue e vingança familiar sobretudo o matricídio.
Atena padroeira da
cidade de Atenas, surge antes da execução de Orestes e ordena a realização de
um julgamento no local, cria o tribunal do Areópago em Atenas para julgar o
caso, instituindo um corpo de juízes formado pelos 12 melhores cidadãos,
visando resolver o conflito entre a vingança ancestral e a nova justiça.
O julgamento foi
marcado por uma disputa acirrada entre as divindades e as testemunhas humanas,
e terminou com um empate, onde os votos estavam divididos. Apolo actua como
defensor de Orestes. Argumenta que Clitemnestra cometeu um crime superior ao
matar o marido (um rei) e que o vínculo biológico da mãe não é superior ao do
pai. Nesse momento decisivo, Atena, agindo como juíza suprema, deu o seu voto
de desempate, o "voto de Minerva", que decidiu a absolvição de
Orestes.
A decisão de Atena foi
fundamental, pois estabeleceu um precedente jurídico importante. A deusa
justificou o seu voto dizendo que, apesar do matricídio, ela própria por não
ter mãe que a tenha gerado, a sua afinidade está inteiramente com o masculino e
com a figura paterna, por isso a justiça deve ser ponderada, racional e capaz de superar a vingança
cega.
Com a sua decisão,
Atena também transformou as Erínias em Euménides, divindades benevolentes que
passaram a proteger a cidade de Atenas, simbolizando a mudança de uma justiça
baseada na vingança para uma justiça racional e ponderada.
Esse episódio
mitológico é considerado uma das primeiras manifestações do conceito de justiça
racional na história ocidental. A história de Orestes e o "voto de
Minerva" simbolizam uma transição importante: do direito do mais forte ou
da vingança pessoal para a justiça baseada na razão, na lei e na
imparcialidade. A decisão de Atena, embora tenha sido tomada por uma deusa,
acabou por consolidar a ideia de que, em momentos de dúvida ou empate, a
decisão mais sábia e ponderada deve prevalecer — uma lição que perdura até aos
dias atuais.
Assim, o "voto de
Minerva" transcende o seu significado original, tornando-se símbolo de
sabedoria e de decisão justa em momentos de impasse.
Que os deuses te
sorriam. Alegra-te! Kairé!
[Emissão “Zeus não
dorme”, descubra a mitologia grega na sua vida – Rádio Universidade FM – 24|25|26
de Julho de 2026]
Publicado em NVR 26|08|2026
FICAR EM PÂNICO
A expressão “ficar em
pânico” possui uma origem profundamente enraizada na mitologia grega,
reflectindo uma antiga associação entre O medo súbito e as forças
sobrenaturais. O termo “pânico” deriva do grego “Panikós”, relacionado com o
deus Pã, uma divindade que personificava o medo repentino e avassalador,
especialmente na natureza selvagem das florestas e das montanhas. Para
compreender essa conexão, é fundamental explorar a mitologia de Pã e a evolução
do conceito ao longo do tempo até a sua incorporação na linguagem moderna e na
psiquiatria.
Na mitologia grega, Pã
era considerado o deus dos pastores, dos rebanhos, das florestas e das áreas
selvagens. A sua filiação é controversa. Supostamente, era filho de Hermes, o
deus mensageiro, e de uma filha de Dríope. Quando nasceu a sua mãe ficou
assustada ao ver o aspecto do seu filho recém-nascido (grotesco,
semi-animalesco, com patas, cascos e chifres de bode, rosto disforme com a pele
enrugada e o cabelo desgrenhado).
Hermes embrulhou então
o pequeno monstro numa pele de lebre e levou-o para a montanha sagrada, o
Olimpo, morada dos deuses. Ali o pôs ao lado de Zeus, mostrando-o aos outros
deuses. Estes ficaram felizes ao ver a estranha criança divina, principalmente
Dionísio, que mais tarde o integrou no seu ruidoso e caótico cortejo, pois era
muito parecido com Sileno ou com os Sátiros.
O seu nome, Pã, foi-lhe
dado pelos deuses olímpicos. Pan significa "tudo" (embora este termo
nada tenha a ver com o deus).
A sua aparência
semi-animalesca, com patas, chifres, rosto disforme e cabelos desgrenhados,
reflectia a sua ligação com o mundo natural e o instinto primário e selvagem.
Segundo as lendas, Pã possuía uma habilidade especial: o seu grito ou sopro
podia provocar um medo súbito e irracional a quem o ouvisse, causando uma
sensação de terror intenso e inesperado – o que, na antiguidade, foi
interpretado como um “pânico” provocado por uma força divina ou sobrenatural.
A narrativa conta que
Pã habitava regiões isoladas, como as florestas do Peloponeso, e que o seu
grito podia assustar viajantes, caminhantes e até tropas em batalha. Essa
capacidade de induzir medo repentino levou os gregos a associar o seu nome à
experiência de terror súbito e inexplicável. Também é frequentemente associado
à fertilidade, à Primavera e, fundamentalmente, a um insaciável apetite sexual.
Representado como um sátiro (metade homem, metade bode), Pã simboliza o impulso
sexual selvagem e descontrolado, assediando ninfas e rapazes, sendo também
associado a práticas de bestialidade, como retratado em esculturas romanas.
Assim, a palavra
“Panikós” passou a referir-se tanto ao deus quanto ao medo avassalador que ele
simbolizava. Com o tempo, “pânico” passou a designar qualquer estado de medo
intenso e descontrolado, seja na mitologia ou na linguagem quotidiana.
Ao longo dos séculos, o
conceito de pânico evoluiu de uma força mítica para uma condição psicológica
reconhecida na medicina e na psiquiatria. No século XIX, Sigmund Freud
classificou o transtorno do pânico inicialmente como uma “neurose ansiosa”,
caracterizada por ataques inesperados de ansiedade intensa. Esses ataques, que
hoje chamamos de crises de pânico, aparecem de forma súbita, sem aviso prévio,
dominando a vida do indivíduo que os sofre.
Os sintomas do
transtorno do pânico incluem taquicardia, sudorese, tremores, sensação de falta
de ar ou sufocamento, dor ou desconforto torácico, náusea, tontura, alucinação,
despersonalização, formigamento, calafrios ou ondas de calor, além de medo de
perder o controle, enlouquecer ou morrer. Esses sintomas aparecem de forma
recorrente e inesperada, gerando um ciclo de ansiedade antecipatória — o “medo
do medo” — que leva o indivíduo a evitar ambientes onde já experimentou esse
medo, prejudicando a sua rotina social, profissional e emocional.
A associação com a
mitologia é relevante não só pela origem etimológica, mas também pelo
simbolismo do medo como uma força que surge de forma imprevisível, dominando a
pessoa e afectando a sua qualidade de vida. O transtorno do pânico, portanto,
não representa apenas uma resposta emocional, mas uma condição clínica que
requer atenção e tratamento adequado.
A compreensão da origem
do termo “pânico” ajuda a humanizar o fenómeno, reconhecendo-o como uma
experiência antiga, mas ainda muito presente na vida moderna.
Que os deuses te
sorriam. Alegra-te! Kairé!
[Emissão
“Zeus não dorme”, descubra a mitologia grega na sua vida – Rádio Universidade
FM – 10|11|12 de Julho de 2026]