Da fartura à sardinha (2)
A tradição de comer
sardinhas assadas durante os Santos Populares tem raízes na cultura do nosso
país. No início do Verão, a costa portuguesa ficava repleta de sardinhas, que
eram acessíveis, abundantes e alimentavam principalmente as classes menos
favorecidas. Além disso, há uma ligação religiosa especial com Santo António,
conhecido pelo seu milagre de pregar aos peixes, o que reforça essa associação.
Actualmente essa
tradição mantem-se, mas a realidade mudou um pouco. Nos últimos anos, o preço
da sardinha subiu, impulsionado pelo aumento do consumo nesta época e por
rumores de que as sardinhas escasseavam no mar. Ainda assim, Junho continua a
ser a época em que as sardinhas estão no seu melhor: maiores, mais gordas, mais
saborosas, perfeitas para serem o centro das atenções nas festas de rua,
acompanhadas de pão, pimentos assados e um bom vinho.
O mais bonito nesta
celebração é perceber que, quando comemos uma sardinha numa noite quente de Junho,
cercados de amigos, música e o cheiro a carvão a fumegar, estamos a participar
numa tradição que atravessa séculos, costumes populares, devoção religiosa e
identidade comunitária - uma festa do Verão, da luz e da comunidade que
atravessou gerações e mantém-se viva e vibrante. Poucos países celebram o
início do verão com tanta alma como Portugal. São festas que celebram o
Solstício de Verão, a fertilidade e a abundância - uma celebração que Portugal
mantém viva com muito entusiasmo.
Por aqui, há poucos
sítios onde se pode comer sardinhas, fora das festas de São João. Eu, que adoro
sardinhas — sejam grandes, pequenas, gordas, magras ou mais ou menos — só as
como em ambientes agradáveis ao ar livre ou em restaurantes bem arejados. Em
casa, não vale “o gosto, pelo desgosto”. Odeio, quando um vizinho resolve
colocar o grelhador na janela, deixando o cheiro entrar na minha habitação e
ficar grudado em tudo: roupas, cortinas, sofás… Depois, são horas de limpeza e
arejamento para tentar eliminar aquele odor forte. Por isso, prefiro sentar-me
numa esplanada, apreciar as sardinhas no prato e deixar-me envolver pelo
ambiente.
Para assar sardinhas
perfeitas, o segredo é usar brasas bem fortes e uniformes. Temperar as
sardinhas apenas com sal grosso, cerca de 20 a 30 minutos antes de grelhar,
ajuda a realçar o sabor. A grelha deve estar bem quente, para evitar que o
peixe cole, e o tempo de assadura deve ser curto, de modo a manter a
suculência. Nunca vire a sardinha mais de uma vez, para que ela não perca o seu
bom aspecto.
Ao servir, coloque a
sardinha quente sobre uma fatia de broa de milho ou pão caseiro. O pão vai
absorver toda a gordura saborosa do peixe, e é no final que se aprecia o melhor
— comer tudo com calma, saboreando cada dentada. Como alternativa, pode
acompanhar com batatas cozidas com casca e uma salada de pimentos assados,
temperada com azeite, vinagre, alho e uma pitada de sal.
O toque final: Regar as
sardinhas e as batatas com um fio de azeite virgem extra de boa qualidade, que
realça ainda mais o sabor.
Para comer sardinhas
assadas, o ideal é usar as mãos sem cerimónia: segure a cabeça e o rabo, dê uma
dentada num dos lados do lombo até chegar à espinha, vire a sardinha e repita
do outro lado. A espinha deve ficar totalmente limpa no final, um sinal de que
a sardinha foi bem apreciada.
E, para completar a
festa, para mim, nada melhor do que uma boa sangria, servida em boa companhia,
para celebrar a vida, o Verão e as tradições que nos unem.
Deixo uma nota final
para os ambientalistas, sempre ansiosos com o que devem e não devem, podem
comer à vontadinha!!! Segundo um
relatório divulgado no Dia Mundial dos Oceanos, a quantidade de sardinha
quadruplicou na última década, graças a mudanças nas práticas de gestão da
pesca.
Dia 24 de Junho
É dia de São João
Pimentos e vinho
Sardinhas no pão.
Com a sardinha na brasa,
Dou a cheirar o manjerico
Ninguém fica hoje em casa,
Vamos todos p’ró bailarico
O S. Pedro lá nas alturas
Tem as chaves do Céu na mão
Já lhe cheira a sardinhada
Como manda a tradição.
Publicado em NVR 24|06|2026

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