05 outubro, 2017

Catedral Patriarcal da Sagrada Ascensão de Deus





 Diário de Viagem - Veliko Tornovo - Bulgária
A Catedral Patriarcal da Sagrada Ascensão de Deus está localizada no topo da colina Tsarevets. Tem um acesso apenas pedestre. Vale o esforço da subida. O patriarcado de Tsarevets é uma fortaleza, muralhada e a Catedral Patriarcal fica no topo da elevação.
 Não considero relevante a situação arquitectónica bizantina. A decoração interior, que foi actualizada nas obras de reconstrução do século XX,  é fabulosa e invulgar. O pintor Teofan Sokerov, registou momentos importantes da história búlgara medieval, mas num traço modernista e libertário. Devido a esses murais, a igreja nunca foi reconsagrada e permanece inativa. As figuras representadas são enormes, com tonalidades de negro, cinza e vermelho, e criam um grande impacto no visitante. Eu não sou excepção. Nunca mais perderei esta memória.
































 


 



Escada infinita

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A escultura Escada Infinita foi desenhada por Olafur Eliasson e encontra-se em Munique, Alemanha.. A forma curva liga-se a si mesma, criando uma estrutura contínua que parece mais uma ilusão de óptica. Difícil de contemplar por um longo tempo sem ficar um tanto tonto, a escada de 9 metros parece estar indo para cima e para baixo ao mesmo tempo. Esta escada em espiral sem fim está localizada no exterior de um edifício da firma de contabilidade da KPMG, em Munique, na Alemanha, o que facilita os passeios ou dá um rápido treino nas pausas do almoço sem ter que se afastar muito.

23 setembro, 2017

AnimaiZ





 AnimaiZ
         Maria Amparo de Oliveira Rainha apresentou a sua nova obra “AnimaiZ”, destinada ao público infanto-juvenial, na tarde de 23 de setembro de 2017, no auditório do IPJ em Vila Real.
         Esta obra tem um título invulgar, já que aproveitou a palavra “animais” para esta simbolizar de A a Z relacionando-a com o conteúdo, expressando a ideia de dicionário. AnimaiZ é de facto um livro de poesia sobre animais e que vai de A a Z. 
          A poesia é rimada e ritmada, a maioria está construída em quadras, com uma linguagem concreta adaptada às exigências juvenis, motivando o imaginário e proporcionando um melhor conhecimento de cada espécie. Contém mensagens ecológicas e de protecção ambiental, descreve habitats, o sistema alimentar de alguns animais, alguns aspectos anatómicos e temperamentais, a sua locomoção, as migrações e a hibernação – os animais escolhidos são diversos, uns mais conhecidos do que outros.
         A ilustração é de Alcina Rabaço Gonçalves que tem ilustrado todos os livros da Amparo - este já é o terceiro. Neste livro a ilustração é muito realista, policromada, muito exuberante, alternando planos gerais com planos de pormenor, introduzindo numa dinâmica diferente em cada página, provocando conforto e curiosidade ao leitor. Cada página tem uma cor concordante com o colorido da ilustração.
         É muito interessante associar a poesia aos animais certamente vai fazer sucesso entre as crianças e jovens. Animais e crianças ou jovens é algo que combina bem. Qual é a criança que não gostaria de ter um animal de estimação? Todas gostariam. Quem fica insensível com momentos de ternura que alguns animais nos oferecem?
         A apresentação foi partilhada com a arquitecta Anabela Quelhas, que realçou a biografia da autora e a sua resiliência em escrever, sublinhou a sua determinação em ser professora, a forma de interagir com os pequenos leitores e divagou por uma serie de memórias que lhe suscitou o livro AnimaiS – de Einstein até Walt Disney, passando por Spilberg, Saramago, Luís Sepulveda e Albert Durer.
AQ


09 setembro, 2017

A BALLET STORY

Há espectáculos que são imperdiveis, Este é um deles.
‘A BALLET STORY’
VICTOR HUGO PONTES 

‘A Ballet Story’ tem como ponto de partida o bailado clássico ‘Zephyrtine’, de David Chesky. No entanto, não se trata da representação teatral ou da ilustração da história original, mas de um exercício de abstracção que parte do movimento dos corpos no espaço em articulação com a música. Não há contos de fadas, nem elementos do maravilhoso ou do fantástico. A moral é outra, o desenlace, diferente. Em ‘A Ballet Story’ não sabemos se a história se ajusta à música ou se a dança se ajusta à história. A narrativa será fabricada por cada espectador (ou não). Não se trata de uma articulação linear entre música, narrativa e dança, mas sim de um processo de influências mútuas e afinidades electivas que originam uma peça manipulável de modos diversos e, tanto quanto possível, inteira.

Numa coreografia que mistura sem complexos elementos do bailado, da dança contemporânea e do street dance, os sete intérpretes formam uma estranha tribo urbana, um grupo de seres talvez humanos, que vão ocupando a plataforma ondulada onde se encontram, num equilíbrio frágil entre o indivíduo e o colectivo. Não há contos de fadas, mas o ambiente permanece misterioso e intrigante do início ao fim.

Direcção artística: Victor Hugo Pontes
Música: David Chesky
Versão musical: Fundação Orquestra Estúdio, sob a direcção do Maestro Rui Massena
Cenografia: F. Ribeiro
Direcção técnica e desenho de luz: Wilma Moutinho
Intérpretes: André Mendes, João Dias, Joana Castro, Iuri Costa, Liliana Garcia, Marco da Silva Ferreira e Valter Fernandes.
Figurinos: Victor Hugo Pontes
Produção executiva: Joana Ventura
Co-produção: Nome Próprio, Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura
Apoio: Ao Cabo Teatro, Ginasiano Escola de Dança e Lugar Instável
Aqui fica para memória
https://www.youtube.com/watch?v=NsG7wkrk_18&feature=youtu.be

06 setembro, 2017

Moholy Nagy

Quando tinha 15 anos,  o meu pai presenteou-me com um livro de Moholy Nagy, “História ilustrada de la evolucion de la ciudad” da editorial Blume. Nessa época este livro era um luxo, as fotografias são a preto e branco, mas é um livro bem concebido, com papel de qualidade e eu enchi-me de orgulho pois já nessa época me interessava por cidades.
Quando vim para Portugal reduzi  1 quilo na minha bagagem para trazer esse meu livro. Este livro sobre cidades já viveu em várias cidades pois reboco-o sempre comigo. Nessa altura nem fazia ideia quem era Moholy Nagy . Já consultei outras obras dele mas há dias cruzei-me pela primeira vez com o seu caminho. 
Deparei com uma pintura original da sua autoria à minha frente, no museu Thyssen em Madrid, e várias décadas sobre muita coisa passaram na minha cabeça tal como um filme.

Gostaria de ter uma máquina para filmar o meu pensamento. Apenas fiz uma selfie.

30 agosto, 2017

em maré de elogio rasgado

em maré de elogio rasgado
- Porque é que eles têm saudades de Portugal? Achas que é lamechice?
- Devemos viver onde temos trabalho, o resto é treta. E agora temos que saber andar de casa às costas, permanentemente, pois teremos que fazer várias migrações ao longo da vida. Voltamos a ser nómadas tal como os nossos antepassados.
- Sim, mas porque querem sempre voltar ao país que não lhes garante trabalho?
Estava eu na conversa sobre o que acima se enquadra em diálogo.

            Porque querem voltar, porque manifestam saudades, porque gostam de reencontrar portugueses onde quer que estejam? 

            Eu nasci a sul do equador, sou uma sem terra, pertenço a sítio nenhum, qualquer sítio me serve para viver, mas considero que Portugal é um dos melhores países do mundo para se viver e portanto as saudades e toda a lamechice que envolve a distância forçada deste país, é compreensível. Vivemos aqui diariamente e não entendemos bem a dimensão desse “bordado regional” que se chama saudade, único no mundo, que só nós entendemos, quando estamos fora do país.
            O sol, a morfologia variada, a paisagem, o oceano atlântico como fronteira, a gastronomia e a localização na Europa, são cinco de vários parâmetros a considerar.
            Temos clima mediterrânico, cerca de 216 dias sem chuva, 3.000 horas de sol por ano, as temperaturas raramente baixam dos zero graus centígrados, a paisagem é lindíssima – planície, planalto, montanha, cerca de 526 praias, cidades cheias de património, os portugueses são afáveis e acolhedores, mistura de várias raças, boa rede de vias de comunicação, excelente e variada gastronomia, 900 anos de história, é um país seguro, com baixos índices de criminalidade,…
            Os portugueses não gostam de viver com espartilho vivencial, gostam de convívio, agora cada vez mais na rua, gostam de festejar as festas tradicionais, quer populares, quer as eruditas, gostam do bailarico e dos foguetes no ar. Até os compreendo porque isto de andar deprimido não leva a lado nenhum.  
            Isto é um povo com a cultura do serão. Ninguém gosta de se deitar com as galinhas. O estar com alguém após o jantar, seja a família em casa, seja os amigos no café ou na esplanada, é essencial para o equilíbrio psicológico. O clima permite, exige e promove o convívio social fora de casa.
            Temos um país pequenino, mas temos muitas cidades com história e com património – Lisboa, Porto, Coimbra, Viseu, Braga, Guimarães, Évora,… cada uma com a sua gastronomia própria e agora começamos a ter orgulho naquilo que é nosso e faz parte de nós, os nossos artistas plásticos – Paula Rego, Cutileiro, Joana Vasconcelos, Graça Morais, Bandarra, Amadeo, Almada – os nossos músicos – Abrunhosa, Rui Veloso, Camané, os Xutos, Carminho – os nossos escritores – Saramago, Afonso Cruz, Lobo Antunes,… temos os dois melhores poetas do mundo que fazem invejinha a muita gente – Camões e Pessoa – temos o melhor vinho do mundo – Porto – aqui bebe-se o melhor café do mundo e somos o pais-estado mais antigo da Europa.
            Nós somos, os azulejos, a sericaia, o queijo da serra, os canastros, as filigranas, o fito, a francesinha, a bica, o bairro-alto, o Douro, a guitarra portuguesa, a alheira, as gravuras do Côa, o barroco, os pauliteiros, o templo de Diana, a caravela, as marchas populares, o galo de Barcelos, o futebol, os descobrimentos, o Favaios, Sintra, os cravos de abril, o cantochão, o cacilheiro, a salsa e os coentros, o marnoto, as cavacas… e isto só há aqui, em Portugal.

(Revoltando os dias, em maré de elogio rasgado a Portugal)
Publicado em NVR a 30/08/2017

09 agosto, 2017

Relógio astronómico



Olhem para a minha cara depois de viver um voyeurismo tótó – um sorriso à Mona Lisa, que não é carne, nem é peixe, um verdadeiro sorriso amarelo, sem ofensa para a cor que eu adoro.
Aguardei pelas 12h para ver o relógio astronómico e medieval, a funcionar, uma relíquia da cidade de Praga, concebido pelo relojoeiro Mikulas, em 1410, que a determinadas horas adquire movimento através de pequenas estátuas que contém.
40 graus ao sol, centenas de pessoas a aguardar pelas 12h, para escolher estratégicamente um local ortogonal na horizontal (o que eu invento!!! J ), tive que dizer muitos com licenças, muitos sorrys e vários pleases, e finalmente batem as 12 horas e apenas 2 estátuas vieram simplesmente espreitar e recolheram-se… não há pachorra, que praga!

Diário de viagem, VIII/17 Praga

Apetece perder-me

Apetece perder-me por estas ruas, sem hora de regresso e sem mapa. Dobrar cada esquina, obedecendo à curiosidade do olhar e ao desejo de desvendar o desconhecido, sem rumo e sem destino, sem preocupações de sentido ou direção. Gostaria de afagar cada porta e cada janela, confirmando a harmonia naturalista da arte nova, a simetria da art decô e o geometrismo do cubismo analítico… e quando estivesse perdida e já tivesse passado várias vezes no mesmo lugar, chamaria um táxi para me levar de regresso ao hotel. Praga é uma cidade para visitar sem mapa. É uma cidade para gerar paixão e regressões a várias épocas. Parece que está á nossa espera, aguardando pacientemente a nossa chegada, para se revelar e nos envolver em cada detalhe.

Diário de viagem, VIII/2017 

08 agosto, 2017

Edifício Cordeiro













Identificar ruas e edifícios, é assinalar a história de uma cidade, é sublinhar a identidade local. É como passar rimmel pelas pestanas, tornando-as mais belas e elevando o nosso ego. Em Praga tudo se encontra bem assinalado e juntamente com a identificação das ruas, podemos encontrar os níveis de cheias dos rios Elba e Moldava, permitindo-nos avaliar e imaginar uma cidade inundada de água e outras placas que certamente os praguenses entenderão. Mas o invulgar deste registo é o facto dos edifícios antes de terem numeração, eram identificados por um elemento decorativo colocado na parte superior da porta principal. A casa cordeiro, é a que está assinalada nesta imagem, com o desenho emoldurado de um cordeiro, com paisagem de fundo e um elemento heráldico na parte inferior. Uma identificação muito naif que dá brilho a esta cidade.

Diário de viagem, VIII/2017    









   




07 agosto, 2017

Aguardando Kafka

São 7h da manha, chego à janela de uma cidade que se abre para mim. Ensonada digo.lhe bom dia, e abraço.a. Recuo para um dia de primavera, lá longe em que se festejava a liberdade. Tal como eu era jovem, sonhadora, com flores nos cabelos e muito determinada a cumprir os meus ideais. (Primavera de Praga)
....

Sentada numa esplanada, na frescura possível da sombra de um sol ardente, penso no bizarro da vida, no imprevisível, naquilo que nunca poderia acontecer, mas que acontece. Sinto.me surreal, aguardando Kafka que deve chegar a qualquer momento, metamorfoseado de um insecto qualquer com aroma a Trdelnik. Pausa para saborear um pecena kachna. Faca e garfo aí vou eu. Uhhhh delicia! 



....

Encerro o dia pela noite fora entre os reflexos do Elba e do Vitava, de queixo em repouso sobre a minha mão esquerda e sonho sonhos já acontecidos e outros que poderão acontecer. Recordo o paganismo dos eslavos lido num livro já sem nome na minha memória, os cristãos e os judeus.... e eu eternamente procurando de onde sou.
Diário de viagem VIII/2017

Café Alba

Sento-me no café Alba, vigiando as escadas que dão acesso à igreja mais popular de Praga, Igreja de Nossa Senhora Vitoriosa.

Sobem e descem às centenas, pessoas de todo o mundo, crentes e ateus, para homenagear, o Menino Jesus de Praga  -  estátua com estrutura de madeira e enchimento de cera, ícone de devoção de muitos católicos. Reparo num casal de idosos, ela com mobilidade reduzida, que chegaram de táxi. Falam espanhol da América do Sul. Têm ainda uma dezena de escadas para subir. Ela arrasta-se
Um menino vaidoso que troca de roupa várias vezes e cujos vestidos estão aqui também expostos numa sala da torre desta igreja barroca. 
Ele é ouro, ele é prata, ele é brilhantes, sedas, veludos, bordados e brocados. O objecto em si não tem nada de especial, há cópias bem mais giras, em todas as montras da cidade.
Aprecio a devoção e a fé e acho piada ao Menino, parece um boneco com o qual as meninas religiosas vestem e despem… o poky game do barrocão.
No interior há uma pequena imagem com a bandeira brasileira – um verdadeiro ícone internacional..
Encontro aqui o primeiro de vários…. Não sei como lhes chamar…. Penitente, dobrado de quatro com os antebraços e joelhos apoiados no chão, pedindo esmola. Permanecem horas nessa posição. O que será isto? As práticas sadomasoquistas das religiões que me convertem em afastada e observadora crítica.


Diário de viagem, VIII/2017


25 julho, 2017

A lealdade anima-me,
A fome deprime-me,
A arte inquieta-me,
A arrogância revolta-me,
A paciência engrandece-me,
A guerra tolhe-me,
A liberdade fascina-me,
A mentira enoja-me,
A paixão transcende-me.

AQ

08 julho, 2017

MBANZA CONGO


O centro histórico da cidade de Mbanza Congo, norte de Angola, foi declarada pela Unesco como Património Mundial da Humanidade – 2017/07/08.
Mbanza Congo é a capital do antigo Reino do Congo, do século XIII.
A área classificada envolve um conjunto cujos limites abrangem uma colina a 570 metros de altitude e que se estende por seis corredores. Inclui ruínas e espaços entretanto alvo de escavações e estudos arqueológicos, que envolveram especialistas nacionais e estrangeiros.
Referência para as pedras da fundação do antigo palácio real, Tadi dia Bukukua (transformado em museu), o levantamento da missão católica, da casa do secretário do rei, do túmulo da Dona Mpolo (mãe do rei Dom Afonso I, enterrada com vida por desobediência às leis da corte) e do cemitério dos reis do antigo Reino do Congo, as ruínas de Kulumbimbi, a árvore Yala Nkuwu, o Súnguilo - local sagrado considerado tribunal tradicional
O fundador do reino do Congo Nimy-a-Luqueny, sendo uma autoridade espiritual, quando chegou aquela região reconheceu na árvore Yala Nkuwu o poder especial de pressagiar coisas boas ou más. E assim acontece até aos dias de hoje.
As Ruínas de Kulumbimbi têm despertado interesse da comunidade científica internacional pela sua singular arquitectura. É a primeira igreja construída na África subsariana, por missionários católicos que faziam parte da primeira expedição portuguesa liderada por Diogo Cão quando chegou a Angola em 1482.





O FUNK DO PEDRO ABRUNHOSA

Experienciar um concerto de Pedro Abrunhosa é sempre bom e fica registado na nossa memória para sempre. Existem sempre dois espectáculos, o do palco e o que acontece entre o público. Todo o mundo sabe as letras, canta, dança, responde aos desafios interagindo com o Pedro, como se este fosse alguém muito próximo de nós, fazendo parte da nossa identidade. E ele de facto faz parte de nós, pois a sua música, a sua voz, faz-se presente em diversos momentos da nossa vida. É exactamente como ele diz, a música anula barreiras e une-nos.
Hoje aconteceu de novo, desta vez ao ar livre, não permitindo um certo intimismo que se gera nos espaços mais pequenos, mas a entrada livre dá a oportunidade de participação a muitos que não têm outra forma de o fazer.
Obrigada Pedro, por voltares mais uma vez ao Reino Maravilhoso, acompanhado sempre de uma mensagem de paz e de amor, iluminando o nosso mundo interior.
Vivemos tempos de esperança e a partilha da tua música faz-nos acreditar ainda mais em que este país, ainda é um projecto possível. O momento de evocação dos que perderam a vida há dias tentando salvar-se, foi profundo e emocionante, mas houve outros momentos ternos e irrepetíveis. Registo aqui o momento em que um casal de certa idade que assistia ao concerto à minha frente, se abraçou ternamente ouvindo uma certa música, ainda conseguindo vislumbrar romantismo através das tuas palavras. Foi lindo.

Pedro volta sempre.   Fazes-nos bem!





05 julho, 2017

Aguardo pelo Messias

Aguardo pelo Messias
         Copiei esta imagem da internet numa rede social. Não sei quem é o autor, alguém copiou de alguém e eu copei descaradamente a seguir, mas sei com certeza que a sua profissão é ser professor. Só um professor entende esta imagem que é um verdadeiro pedido por socorro. 
         Um professor para além ensinar e tentar educar (escrevo “tentar”, porque a educação adquire-se em casa), lida com uma rede de problemas de grande complexidade que é o reflexo da nossa sociedade, o bom e o mau, dispondo de poucos recursos e reinventando estratégias para ser bem-sucedido, através de práticas resultantes de um trabalho intrínseco à arte de ensinar e em paralelo, que consta em planear, articular, partilhar, avaliar, acompanhar, reflectir. Até aqui, tudo bem… mas exige-se algo verdadeiramente esgotante, sem grande visibilidade e utilidade, o registo, a prova, a evidência em como fez e em como desempenhou bem o seu papel, com se ensinar se convertesse num processo jurídico onde é necessário reunir provas consistentes para exibir no tribunal. Ao professor não basta esgotar-se, falando alto para se fazer ouvir, não basta interromper o seu raciocínio de cinco em cinco minutos, para mandar calar, para evitar confusão na sala, para captar a atenção dos distraídos, para dar autorização para ir ao WC, para… para…, não basta fingir que não ouve comentários desagradáveis e rudes proferidos a baixa voz, não basta estimular aqueles que de facto querem aprender, não basta proteger os tímidos e os mais sensíveis, não basta refrear os mais rebeldes, não basta servir de mãe, de pai, de psicólogo, de sociólogo, de pedagogo, de enfermeiro, de mediador de conflitos, de amigo e de cúmplice, não basta cuidar da socialização e das interações em grupo, não basta! o professor ainda deve ser uma máquina de produção de documentos supérfluos, teoricamente correctos e necessários, mas que na prática adormecem e apodrecem nos dossiers, reais ou digitais.
         Os documentos são imensos e agora felizmente já é tudo informatizado, reduzindo substancialmente a quantidade de papel - as árvores agradecem. A grande papelada que a imagem refere, já é uma papelada digital, mas que não deixa de ser uma catrafiada de documentos distribuídos por pastas, subpastas e mini pastas que carregamos no computador pessoal e que de pouco serve.
         As salas dos professores, onde se respirava alguma tranquilidade entre uma aula e outra, onde todos carregavam energias para ir à luta, foram transformadas em algo parecido com um call center, onde os professores se sentam aproveitando o tempo para teclar desesperadamente documentos para entregar aos coordenadores, aos diretores, ou aos encarregados de educação, olhando apenas para os monitores, alucinados com as evidências da sua competência. Documentos que ninguém mais lerá. Eventualmente se houver uma queixa ou uma reclamação, todos terão informação escrita para exibir, ninguém lerá, mas importa ter. Quem tem, é competente, quem não tem é um calaceiro incompetente. Não interessa se o professor tem raciocínio, criatividade, memória, experiência, se reflete sobre os desafios do dia-a-dia e tem a arte de gerar empatias com os alunos, tentando dar a melhor resposta e o melhor de si. O que interessa é ter muitos documentos para exibir e em ordem. Quem lê os documentos? Quem cruza a informação? Poucos ou ninguém.
         É necessário ter papelada para mostrar e manter os professores ocupados. Porque os professores são duma raça, que gosta de praia e de piqueniques em todas as estações do ano e são os campeões das pontes e das esplanadas. Ai do professor que dá uma negativa, se não tiver tudo bem documentado e justificado! Ao aluno não basta não estudar, perturbar as aulas, ter testes negativos e estar a marimbar-se para escola e para o cota do prof. São necessárias análises, reflexões, estratégias, objectivos, articulações, partilhas, reforços positivos, diálogos assertivos, motivações personalizadas, trabalho colaborativo, comunicações aos DTs e aos encarregados de educação… e não basta praticar-se é necessário escrever-se e repetir-se em diversos documentos. E cada caso é um caso, feito de domínios sócio-afectivo, cognitivo e psico-motor… agora multipliquem por 170 casos/professor, cada um com pai e mãe, ambos a achar que o professor tem boa vida, é um baldas, é um verdadeiro vilão cheio de preguiça e incompetência, lerdo das ideias, não faz nada, passa a vida em férias e faz greves durante o ano sempre em momentos errados, e ainda por cima faz queixa dos seus queridos e adorados filhinhos que são sempre uns anjinhos e as más companhias é que lixam tudo (esta é a imagem que a sociedade infelizmente resolveu construir nos últimos anos sobre os professores). Como pais brilhantes, não lhes ensinam que se diz com licença, faz favor, obrigado, bom dia e até amanhã, que não se dizem palavrões e que é obrigatório respeitar o outro.    
         Mas voltando à papelada… no meu tempo (não gosto da expressão, mas por vezes é imperiosa), quando na pauta estava escrito 10 valores queria dizer que passei à rasquinha, e ia ter os meus pais de trombas por umas semanas, quando tinha 8 valores queria dizer que tinha andado a vadiar o 1º período e que os meus pais iriam suspender tudo o que me desse prazer até eu recuperar, e quando tinha 14 valores, eu respirava de alívio, mas os meus pais ainda iriam perguntar porque não tirei melhor nota e quando tinha 17 valores, finalmente os meus pais sorriam. Numa escala de zero a vinte, com os números alinhados numa pauta, eu sabia exactamente onde tinha acertado, onde tinha errado, e os meus pais não precisavam de mais nenhuma explicação ou esclarecimento.

         Ai, ai papelada… aguardo com certa urgência pelo Messias do ensino, que entenda quão nobre é a profissão que prepara a sociedade do futuro. Devolvam-nos o tempo que é necessário para nos despirmos dos problemas da escola, o tempo para reciclar informação, o tempo para regenerar a mente e a paciência, o tempo para actualizar conhecimento. Devolvam-nos a dignidade, pois os nossos alunos são os vossos filhos!
Anabela Quelhas
Publicado em NVR a 5/07/2017