22 maio, 2019

Hey Joe


Hey Joe
Hey Joe,
Huh, and that ain't too cool[1]
            Sempre achei estranho o homem vestido de preto, elegante, de sotaque complicado de ilhéu, que nasceu pobre, mas, enriqueceu de tal forma, permitindo-se coleccionar obras de arte e ter o espírito magnânimo de as partilhar com os outros. Uma imagem trabalhada, um estilo criado para homem bem-sucedido, amigo das artes e para celebrar a vigarice e o oportunismo, conclui-se.
            Berardo foi condecorado e agora poderá juntar-se à prateleira do Armando Vara, Carlos Cruz e José Sócrates.
            Gostaria de saber como, em meia dúzia de anos, se tem dinheiro para comprar minas de ouro? Tenho-me esforçado e não consigo, nem entender, nem juntar dinheiro para comprar um filãozinho…
            Há uma teoria simples que raramente falha. Só há 3 formas de enriquecer rápido:
1 — por herança
2 — na “horizontal”
3 — roubando ou atropelando a ética e o direito.  
            Vi-o na TV há dias e percebi que tudo é uma rede de negócios bem montada por ele, por quem lhe dá suporte jurídico e por quem permite que esta rede funcione.
Hey Joe,
Huh, and that ain't too cool
            BCP, OPA do Benfica, os truques da comunicação social, a PT, a SOGRAPE, o museu no CCB, são os cruzamentos da teia, urdida sabiamente através de fundações e associações, que lhe retiram responsabilidades directas acerca de dívidas. Não há crime perfeito, mas Berardo explorou bem as frestas, os meandros e os contornos das leis, em seu benefício e nem sei se isso poderá ser considerado crime. Não é ético, mas crime, não sei. O novelo de situações que a Assembleia da Republica tentou desmontar, sem sucesso, serviu apenas para tornar mais visível quem é este homem de vida full, como ele se classificava, cujos negócios são complexos, sempre traduzidos em milhões e que aos comuns mortais, resta apenas a desconfiança de que vai sobrar para todos nós.
Hey Joe,
Huh, and that ain't too cool
            Teoricamente rolarão outras cabeças, porque neste caso há alguém que prevarica e alguém que deixa prevaricar, porém,…
            Quando pedi empréstimo à banca para fazer a minha casa, a garantia do meu salário não foi suficiente, tive que hipotecar o terreno aonde iria construir.
            Não entendo!



[1] Jimi Hendrix [tema diferente, com a semelhança de um “Joe” a asneirar]


In Revoltando os dias. NVR 22/05/2019

27 abril, 2019

Os sítios, a história e a necessidade de não esquecer


Os sítios, a história e a necessidade de não esquecer
            Nós seres sociais, que habitamos em aglomerados, ruas, avenidas, alamedas, becos e travessas, somos insensíveis, ou melhor, pouco atentos à nossa envolvente (espaço e tempo). Despertamos para uma montra, os locais onde podemos estacionar, as ruas que mais rapidamente nos levam de um local a outro, o sítio da feira, um jardim qualquer, o shopping, o cinema, o teatro e uma igreja barroca que nos assalta o olhar pela sua exuberância. Por vezes sabemos o nome da rua, raramente sabemos a razão da toponímia e quase nunca sabemos o que se passou naquela rua, há 10, há 100, há 500 anos. Esquecemo-nos que os sítios e as suas construções são testemunhos mudos da nossa história.
            Já imaginaram como seria interessante chegarmos a uma rua e conseguirmos, talvez com uns óculos virtuais, sintonizar o passado? Se pudéssemos olhar para uma gravura de um local, suspensa numa parede, e ela ganhasse movimento e vida, poderíamos falar com as pessoas retratadas. Que perguntas lhes colocaríamos?
            Para quem me lê pode pensar que comi cogumelos mágicos ao almoço, devido à utopia desta ideia. Não comi. Hoje é dia 25 de abril e amanheci a ver um filme inédito da RTP sobre a cidade do Porto, realizado nas ruas da cidade, no dia 26 de abril de 1974. As novas gerações passam pelo actual Museu Militar, localizado no Largo Soares dos Reis, e não imaginam que no dia 26 de abril de 74, aquele largo estava cheio de cidadãos inquietos, aguardando o que os militares iriam fazer à PIDE/DGS, com sede nesse edifício. As pessoas sorriam, com expectativa nos olhares e uma esperança colectiva indisfarçável, vivendo um momento histórico irrepetível. Esses momentos foram-se diluindo ano após ano, sobrevivendo apenas o reconto, também cada vez mais esfumado.
            Os edifícios assistiram a tudo, ao antes, ao depois e ao durante – desse tempo e de outros ainda mais antigos. Edifícios feitos de janelas e varandas, assistiram imoveis e invisíveis ao que se passou na rua, ao bom, ao mau, à agitação das pessoas, e ao esvaziamento no início da noite. Fizeram parte do despertar e do adormecer das cidades. As ruas ouviram nomes de pessoas, sentiram as emoções destas, o seu linguajar e os seus sotaques, o choro ou o riso das crianças, o relinchar de cavalos e o zurrar dos burros… por vezes foram agredidas pela roda de uma carroça que rompeu o pavimento ou um cunhal.
            E as gaivotas a sobrevoar as zonas ribeirinhas.
            Os edifícios e o espaço que os envolve assistiram à agressão entre iguais, à privação da liberdade e aos abusos em relação a esta. Viveram o engenho das trocas comerciais, o encontro e desencontro entre apaixonados, a ansiedade do carteirista, a humildade do pedinte e o ódio do assassino. Registaram o assobio, o pregão, o tocar do sino, o faducho cantado com cheiro de peixe frito, o cortejo de carnaval e o cortejo fúnebre, e conhecem o levitar das almas vibrantes ou adormecidas de cada um. Uns nascem, outros morrem, a roda do tempo comanda tudo e os sítios permanecem renovando-se em cada dia de sol ou de chuva, contrariando epidemias, injustiças, martírios, torturas e festas populares, em cada dia diferentes do anterior, mas sempre grávidos de história e de memórias.
            Umas cidades são livres, outras prisioneiras, algumas estão dentro das outras, mudando de face consoante a estação do ano. Umas são grandes metrópoles, outras são pequeninas, com terraços, telhados, campanários, cúpulas e claraboias que se aproximam do céu, ora luminoso, ora plúmbeo, ora escuro como breu. Umas crescem pelos novos caminhos que as ligam às outras suas irmãs, e algumas crescem para o céu, muitas vezes numa paranoia competitiva de ser melhor e mais importante do que as suas iguais.
            Em cada época os cidadãos usufruem aquele momento, aquele dia, aquela década, mas só os curiosos e estudiosos da toponímia (fio condutor ao passado), conseguem entender esta dimensão do olhar da memória. Há edifícios que são demolidos, traçados viários que se alteram, os moradores mudam, mas o sítio permanece sagrado aguardando o futuro, com uma grande carga de vivências.
            Quando regressamos a um sítio onde vivemos, abraça-nos um sentimento de pertença, feito de diversos segmentos que integram a nossa identidade – uma pequena memória resgatada do sítio.
            Segundo Italo Calvino em As cidades invisíveis, “… a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas, das grades das janelas, nos corrimãos das escadas, nas antenas dos pára-raios, dos mastros das bandeiras, cada segmento riscado por arranhões, serradelas, entalhes, esfoladuras.”


In Revoltando os dias, NVR  8/05/2019

24 abril, 2019

17 abril, 2019

Ovos/coelhos


Ovos/coelhos

            Só passei por aqui para vos desejar uma feliz Páscoa, se isso ainda for possível.
            Não é fácil resistir ao Domingo de Ramos. O singelo ramo de oliveira degenerou e quem ficou a ganhar foram as floristas. Todos vamos à florista comprar um elemento floral para cumprir o ritual de ofertar os nossos padrinhos. Se chegamos cedo, temos por onde escolher, ramos e ramalhetes já pré-confeccionados, por vezes de gosto requintado, por vezes de gosto duvidoso. É só escolher e pagar, sem grandes esperas, até porque o nosso carro ficou mal estacionado e a fila cresce. Se já vamos tarde, encontramos a loja da florista como se tivesse sido invadida por um elefante desatinado.
            Não tem tulipas amarelas? Levas gerberas cor-de-rosa! Não tem rosas? Levas malmequeres! sei lá, levas o que há embrulhado em papel celofane de todas as cores, perfeitamente consciente que a botânica fresca só resiste dois ou três dias, e tanto faz. Queres gastar mais dinheiro, adquires o top do top da floricultura: a bela, a frágil, a delicada e a temperamental orquídea, que eu considero horrenda.
            Novos e menos novos, perfilam para entregar o ramo aos padrinhos, quando já ninguém sabe o que é pedir a bênção, nem o significado do ramo. Os mais novos candidatam-se com entusiasmo a um folar constituído por jogos e às inúmeras ofertas cativantes dos supermercados da secção infantil. Os menos novos, com menos entusiasmo, receberão uma peça de roupa da Zara ou os mais sortudos um envelope com euros no seu interior. Onde fica o antigo folar? O bolo?  
            As casas levam uma limpeza melhorada para receber os afilhados, que tanto podem aparecer logo de manhã, como ao fim do dia. Se não houver tempo, sempre se varre para debaixo dos tapetes, dá-se uma arejadela à casa e limpam-se os vidros da sala. Só os da sala.
            Se estavam a pensar dormir até tarde, porque é Domingo, é melhor não. É deselegante receber as visitas em chinelos, a arrastar os pés, com o pijama amassado, o cabelo em desalinho e ainda com a boca a saber a papel de música, consequência das caipirinhas de sábado à noite.
            Cumprida essa etapa, entramos na Semana Santa a preparar-nos para a tal Páscoa. É uma semana agitada que oscila entre as compras dos “folares”, da preparação do almoço melhorado da Páscoa e as emissões televisivas, com filmes religiosos sobre a Paixão de Cristo, onde abunda o sangue, a violência e em que todos já sabem o final do filme, sem surpresas, mas insistem em ver novamente.
            Mas, só passei por aqui para vos desejar uma feliz Páscoa e para partilhar convosco esta coisa mal resolvida dos ovos e dos coelhinhos de chocolate. As criancinhas, taditas, todos os anos confundem aves com mamíferos, ovíparos com vivíparos, e ficam com os conceitos meio abalados, pois, coelhos não põem ovos e Cristo, nada tem a ver com isto. Haverá uma quinta especial no reino de Deus?
            — Oh, meu Deus, perdoai-me!
            Por favor não se intoxiquem com ovos de chocolate, pão-de-ló e finalmente com o cordeiro, que é anho, e ou cabrito. A glicose e o colesterol alimentam-se vorazmente e sem misericórdia, nestas épocas de grande comilança. E deixo um conselho: é preferível acreditar em coelhinhos de Páscoa, do que em buracos negros, em políticos supostamente ingénuos, promessas eleitorais, familygate, o concurso ridículo para 86 médicos de família e a velha roubalheira do tempo de serviço dos professores.
            Eu até prefiro acreditar que a Terra já não é redonda e não gira à volta do Sol!

Nota:
Ovos/ Coelhos
Versão 1 — Para os pagãos, a lebre era símbolo da fertilidade, representava a esperança de novas vidas e foi adoptada pelos Cristãos, associando-a à Páscoa e à Ressurreição, como renovação da vida e transformando-se ao longo dos tempos, em coelho. O significado dos ovos é idêntico.
 Versão 2 — Lenda sobre uma mulher pobre que coloriu alguns ovos de galinha e os escondeu, para os dar aos seus filhos como presente de Páscoa. Quando as crianças descobriram os ovos, um coelho passou correndo e estas passaram a acreditar que o coelho trazia os ovos.

In Revoltando os dias, NVR 17/04/2019

16 abril, 2019

SINAGOGA PORTUGUESA


SINAGOGA PORTUGUESA
Amesterdão
Após a expulsão dos judeus de Espanha pelos "Reis Católicos" em  1492, cerca de 130.000 fugiram para Portugal, onde havia 50.000 judeus portugueses.
Em 1496/1497, no reinado de D. Manuel I, todos eles seriam obrigados à conversão ao catolicismo, quer fossem judeus portugueses ou espanhóis, convertendo-se em "cristãos-novos". Começava a perseguição activa aos judeus em Portugal, que se iria consolidar com a entrada em funcionamento em 1540 do Tribunal da Inquisição, que perdurou até 1821.
Por volta de 1596, muitas famílias portuguesas de ascendência judaica, cansadas da opressão em Portugal e desejosas de voltar a praticar abertamente a sua religião, rumaram a Amesterdão (entre muitos outros destinos de refúgio).
A Sinagoga Portuguesa de Amesterdão, denominada de "Esnoga", está situada numa rua (Visserplein) próxima do centro histórico de Amesterdão, em frente ao Museu da História Judaica de Amesterdão. É um edifício monumental que foi construído no século XVII  pela congregação de judeus de origem sefardita da cidade (judeus ibéricos), a Congregação Portuguesa Israelita de Amesterdão. Hoje existem cerca de  700 membros da congregação. Apesar disso, o imponente edifício, que escapou milagrosamente à destruição pelos nazis (a maioria das sinagogas alemãs foram incendiadas)..
A sinagoga foi projectada pelo arquitecto neerlandês Elias Bouman, é um edificio quadrangular contornado por um pequeno acesso invisível do exterior. Toda a vivência e rituais estão duplamente resguardados do exterior. 
Seguem-se as fotos da minha visita.



































06 março, 2019

A GRANDE ESTRADA DO MAR


A grande estrada do mar

                Tive oportunidade de assistir à apresentação pública das iniciativas da educação no âmbito das Comemorações do V Centenário da Primeira Viagem de Circum-navegação que decorreu no Teatro Municipal de Vila Real no dia 1 de Março de 2019.
                Começarei por saudar o evento, a organização, o plano de acção, a matriz programática das comemorações, os participantes músicos que abrilhantaram a sessão, mas sobretudo a intervenção do cientista Fernando Carvalho Rodrigues, conhecido pelo “pai” do satélite português. PoSAT 1. Tenho uma profunda admiração por este senhor, pelo seu valor no mundo da ciência — membro de diversas academias científicas internacionais, galardoado com vários prémios, entre os quais o Prémio Pfizer, o Prémio Gulbenkian de Ciência e Tecnologia e o Prémio Albert J. Myer — e pela sua capacidade de comunicar, rigorosa, simples e irónica, que prende a atenção de qualquer ouvinte.
                Conheci-o através da televisão há muitos anos, explicando alguns dos mistérios da física, evidenciando e homenageando a personalidade de outra figura ligada também à ciência, Rómulo de Carvalho ou António Gedeão para os poetas. Ele transforma o mundo da ciência, por vezes complexo, em interpretações fáceis, atractivas e cheias de humor. Com ele tudo parece simples e acessível ao nosso entendimento. Quem o ouve fica seduzido pelo seu mundo – em poucos minutos ele ganha um auditório a escutá-lo com atenção. Ficaria horas a ouvi-lo, sem me maçar, pois, facilmente entro no seu discurso e deixo-me levar nas suas palavras e conceitos. Todas as suas teorias têm o poder de pendurar um sorriso nos meus lábios e congratular-me pela oportunidade que me dou de o escutar. É sempre surpreendente. Desta vez o foco foi Fernão de Magalhães e a sua viagem considerando-a como a primeira grande “estrada por mar”, a descoberta que será replicada daqui a muitas gerações.
                Segundo ele, quando a nossa civilização terminar, as gerações do futuro irão ter como referências passadas, as cinco grandes estradas: a Via Appia dos romanos, a grande estrada por mar de Magalhães, a estrada do ar de Gago Coutinho, a estrada interplanetária dos Russos e a estradas do tempo (digitais). Considero interessante esta teoria que sintetiza em 5 vias a evolução da humanidade.
                A sua intervenção correu solta, livre como o seu entusiasmo contagiante. Registei algumas referências e conceitos que partilho aqui:
- a diferença entre globalização e mundialização, a esfericidade da terra, Saramago, Darwin, a via Appia que unia Roma a Cápua, a teoria das cinco estradas, o desejo dos portugueses em ter opinião, os professores escravos, as estradas por mar, descobertas pelos portugueses, o biombos de Nambam, que considera a 1º retrato da humanidade, os seres de silício, as estradas do tempo,… 
                Bem-haja professor, sem si a ciência não seria a mesma coisa. Foi uma boa aposta trazê-lo às terras de Magalhães para partilhar connosco a sua visão do mundo.

Publicado em NVR - 6/03/2019

20 fevereiro, 2019

Amor é para amar, cuidar e proteger




Amor é para amar, cuidar e proteger
            Nunca é demais falar, repetir uma vez, dezenas de vezes sobre as mulheres que são vítimas de violência doméstica. Está tudo dito, mas continuamos a envergonhar o ser humano.
             A minha geração tinha a ilusão que a emancipação da mulher, mais década menos década, a violência entre casais se extinguiria, que os nossos parceiros masculinos da geração make love not war teriam dado um passo em frente na evolução da espécie e seriam nossos aliados  contra esta faceta deplorável da sociedade e das relações humanas. Imaginámos que na geração dos nossos filhos já todo o mundo teria esquecido os olhos roxos, os dentes partidos e as nódoas negras no leito conjugal.
            Nada disto bateu certo.
            Estamos em 2019 e tudo continua semelhante, a única diferença é que tudo já começa no namoro e estando ou não casado, a violência persiste, os hematomas afloram no corpo feminino e em qualquer classe social.
            A nossa sociedade ainda não arranjou uma estratégia para proteger mulheres e filhos, mas o lado masculino já aprendeu até a bater sem deixar marcas para não haver evidências perante a polícia.
            Imagino o terror que a mulher sente ao denunciar e ainda o gozo a que é sujeita nas esquadras de polícia, submersa em questionários intermináveis, tendo que expor o que quer, e o que não quer, numa situação de grande fragilidade, para depois voltar para casa correndo o risco do companheiro estar à sua espera na saída da esquadra com dois bofetões dentro das mãos e vários outros de reserva. 
            Considero que tudo isto deveria funcionar ao contrário, em vez da vítima disfarçar, se controlar, se proteger e até se esconder, deveria ser o  agressor, o alvo da alteração da sua rotina: ser detido ou vigiado!
            Na dúvida prefiro apostar no antes preventivo do que a certeza de um depois dramático e fatalmente irreversível.
            Há mentalidades obtusas que teimam em não mudar — de homens e de mulheres. Há uma culpa em duplicado. As mulheres toleram e os homens abusam recorrendo à sua superioridade em tamanho e força física e à sua brutalidade boçal. Há mulheres idiotas que associam a violência e o ciúme, ao amor que os companheiros sentem por elas, como se houvesse qualquer possibilidade de haver uma ligação saudável entre estas palavras.
            — Meninas acordem, por amor não se faz tudo. Por amor nunca se faz aquilo que vos magoa. Quem vos trata a berrar, quem controla muito, quem proíbe, quem vos tira aos poucos os vossos direitos e a vossa liberdade, quem vos agride e pede desculpa a seguir, será o vosso futuro carrasco. Ninguém é dono de ninguém. Nada justifica a violência.
            Amor é para amar, cuidar e proteger.

Publicado em NVR 20/02/2019

06 fevereiro, 2019

Esta semana fui ao teatro


Esta semana fui ao teatro.


         Esta semana fui ao teatro.
         Já há muito que não assistia a uma peça de teatro tradicional, com diálogos audíveis de uma história clara para partilhar, numa narrativa que chega ao público, e é interpretada por este, de forma rigorosa, sem subterfúgios e sem lugares “incomuns” completamente subjectivos e intergalácticos.       
         Até o cenário, apesar de ter um toque contemporâneo, representa exactamente aquilo que vemos: uma sala de estar de uma casa qualquer.
         Já me saturam peças que estão muito na moda, em que a criatividade, numa tentativa de afirmação, se excede atingindo o ininteligível. Enigma, mistério, interpretação, drama, comédia, ironia e beleza, devem atingir o público de forma inteligente capaz de despertar emoções. Quando o público é incapaz de entender o que se passa no palco, questionando-se se o problema será dele, isso não é um bom espectáculo de teatro. Por vezes, os espectadores não entendem o que veem, mas envergonham-se de o dizer, sentindo-se estúpidos e imbecis, e então elogiam, não querendo parecer desenquadrados - um elogio curto… um falso elogio, que se desmoronaria se fossem obrigados a justificar-se.
         As novas correntes da contemporaneidade são férteis em ocultar a incompetência de actores, encenadores… e não só, outros agentes culturais, pintores, poetas, arquitectos, cineastas, músicos, etc, etc.
         A vida foi-me dando oportunidade de assistir a peças (umas boas outras más) interpretadas por grandes actores, alguns já desaparecidos — Eunice Munoz, Rui de Carvalho, Paulo Renato, Rui Mendes, Laura Soveral, Maria do Céu Guerra, Vera Mónica, Camilo de Oliveira, Laura Alves, Joaquim Rosa, Victor de Sousa, Delfina Cruz — que me permite não me deslumbrar com um palco iluminado. Quando não gosto ou não percebo, sou honesta e emito opinião.
         Detesto que passem para o espectador a sensação de imbecilidade, por manifesta incompetência, de quem escolheu o texto, do encenador ou até do actor, em transportar emocionalmente o público para o que se passa no palco.      Aquilo que se estranha, nem sempre se entranha. Por vezes aquilo que se estranha é mesmo mau, e não temos que ter complexos em o reconhecer e afirmar. A falsa intelectualidade aliada a um certo surrealismo abstracto, imbuído numa estética futurista é muito competente em me provocar o vómito ou o abandono da sala a meio da cena.
         Já tinha saudades de uma peça assim, de conteúdo real, num cenário real, com bons actores e cuja encenação é contagiante e transposta o espectador para interpretações reais e outras suposições, que cada um poderá construir a seu gosto, e consoante a sua personalidade.
         Grata, Diogo Infante — encenador e actor em “O Deus da carnificina”.
— “Alô Maurício!” J


AQ
Publicado em NVR

09 janeiro, 2019

Notícia jornal


Publicado em NVR 9/01/2019

02 janeiro, 2019

OS TRISTINHOS DO NATAL


Os tristinhos do Natal
            Há quem abomine o Natal e assuma uma postura crítica apelando ao consumismo exagerado, à hipocrisia das famílias reunidas à volta da mesa, à obrigação de dar presentes, aos presépios, às árvores de Natal sem sentido, às iluminações de rua, à música que enche as ruas das cidades e à troca de votos de felicidade entre os amigos, às questões religiosas...
            Normalmente os verdadeiros motivos não são esses. Porque se fossem, seria fácil… cada um organiza o Natal como quer. Se quer comprar presentes, compra, se não quer, não compra. Se quer fazer árvore de Natal, faz, se não quer, não faz, se quer enviar felicitações envia, se não quer, não envia. Só passa o Natal em família quem quer. Se há problemas, se considera hipocrisia não compareça à reunião familiar. Quem recebe a família tem uma atitude altruísta e sobretudo dispendiosa, portanto, quem não está bem, não deve comparecer — serão menos lugares na mesa, menos rabanadas para fazer e menos um presente para comprar. Na festa da família deve reinar a paz e a harmonia, se assim não for, não faz sentido e o melhor é não comparecer. Não se junte à família apenas pelos bolos de bacalhau.
            Quando o argumentário é desconstruído, sob o diálogo paciente com um amigo, tornam-se visíveis as mágoas, a perda de alguém e os desencontros familiares. Não é fácil essa desconstrução, porque a reação primeira é sempre a teimosia e a negação. Só mediante muita pressão é que as lágrimas saltam e as palavras se libertam. Os argumentos dilatam para o Reveillon, para o Carnaval e todos os momentos em que a alegria e os afectos  se conjugam, se exteriorizam e se convertem na verborreia do “contra”, com “olhar de cão”, atestando toda a infelicidade do mundo.
            Não compram presentes, desligam o telemóvel dia 24, às 15 h da tarde e só voltam a liga-lo no dia 26, para que ninguém comunique com eles. Metem-se em casa, de preferência na cama e cultivam a infelicidade, entre refeições de chá e torradas. Nem sequer lhes resta a imaginação de irem passear. Metem-se na caverna, isolados do mundo.   
            A morte de um familiar, uma separação, a ausência dos filhos, são motivos válidos para a tristeza de todos os dias e não só no Natal. Quando perdemos alguém de quem gostamos esquecemos que há outras pessoas que gostam de nós e da nossa presença. Todos nós perdemos alguém! Os tristinhos do Natal poderiam pensar na felicidade que as suas presenças podem despertar nos outros, investir na companhia dos amigos e tentar convertê-los na sua família. Os tristinhos do Natal não fazem isso e evitam construir outras redes de afectos; assumem que são casos únicos no mundo para despertar a compaixão dos outros.
            Todos nós já perdemos alguém muito querido e a vida é isto. A vida tem esta faceta cruel e não precisa de ajuda para a tornarmos ainda mais cinzenta.
            Vem aí o Reveillon, um dia igual aos outros, como todos dizem. Vamos chorar toda a tristeza, guardá-la no meio de um papel de seda e olhar à volta… aceitar o convite que nos enviaram para esperar o Ano Novo, olhando as estrelas e o fogo de artifício, e de seguida descer até o mar oferecendo flores a Iemanjá.
            E não esqueça de presentear os amigos, em qualquer momento do ano (tudo menos peúgas, pijamas e cuecas). Eles gostam. Quem não gosta? O carinho é sempre reconfortante. E não precisa de comer orelhas-de-abade, nem assistir pela trigésima vez ao filme “Sozinho em casa” e nem de suportar o mau hálito da tia Elsie.
            Os tristinhos do Natal só têm uma vantagem, a roupa não encolhe.
            Boas entradas.

18 dezembro, 2018

Pode ou não pode


Pode ou não pode?
            A organização PETA, Pessoas pela Ética no Tratamento de Animais divulgou a pretensão para alterar os provérbios com animais, e alterar expressões que reforcem comportamentos negativos contra os animais. Isto desencadeou na sociedade portuguesa indignação e muita gargalhada, porque esta situação pode considerar-se menor e um pouco ridícula perante a urgência de proteger os animais de maus tratos, abusos e contrariar o abandono dos animais. É urgente o reforço de valores e de medidas concretas de respeito pelo mundo animal, mas nada disto tem a ver com provérbios e expressões que fazem parte da cultura portuguesa e que não passam de palavras, sem consequência.
            Os portugueses invadiram as redes sociais com comentários irónicos sobre a proposta da PETA. Fico surpreendida com o nosso sentido de humor, oportuno rápido e firmando o exagero, como deve ser a estrutura do mesmo. Ri às gargalhadas com algumas perguntas pertinentes que muitos colocaram, para se inteirarem se seria ofensivo para os animais, se pode, ou não pode, que comportamentos já geraram e como alterar expressões, a saber: O burro e vaca sairão do presépio? Continuará a haver missa do galo? Retiram-se as renas dos postais de Natal? Como iremos recontar as histórias da arca do Noé e do Capuchinho Vermelho? Os polos Lacoste deixarão de ser fabricados? Será melhor deixar de comprar os queijinhos, “La vache que rit”?
            Devemos anular expressões, como: “Tenho uma vida de cão”, “Vou pegar o touro pelos cornos”, “ Cantas como um rouxinol”, “Olhar de lince”, “Andar de pantera”, “Riso de hiena”, “Cada macaco no seu galho”, “Os ratos são os primeiros a abandonar o navio”, “Estou pior que urso”?
            Letras de música que poderão ser altamente violentas:
“A pulga salta e a pulga grita, vai-te embora ó pulga maldita”
“Atirei o pau ao gato-to”
            Histórias de La Fontaine, pode?
            Insultos? Cavalona, filho de uma cabra, cabrão, cáfila, asno, galinha, estás uma baleia, trombas de elefante…
            Elogios? És uma gata, meu leãozinho.
            Diogo Cão, ficara sem cão? E como ficam os nomes dos meus amigos -- Pedro Cordeiro, José Canário, Luís Leitão, Luísa Cigarra, Ana Coelho, Joaquim Peixinho,…
            Nunca mais comeremos Punheta de Bacalhau?
            “A curiosidade matou o gato” – será caso de polícia?
            “A cavalo dado não se olha o dente” – olha?
            “Grão a grão enche a galinha o papo” – será possível que ela fique enfartada?
            “Burro velho não aprende línguas” – aprende?
            “Cão que ladra não morde”- e se morder?
 Publicado em NVR, 18/12/2018

05 dezembro, 2018

AI OS HUMANOS





Ai os humanos

1. A propósito da pedreira de Borba nós humanos revelamos espanto e indignação perante aquelas crateras gigantescas de ausência de matérias geradas na natureza há mais de 280 milhões de anos. É em Borba e em muitos locais deste país por onde passamos por acaso e deparamos por esta paisagem revolvida e esventrada, em milhares de metros cúbicos de mármore, calcário, granito, xisto e outras pedras, alterando a morfologia das regiões.

2. A mesma indignação aflora com os eucaliptais devido à desertificação do clima e dos solos. Também somos contra os herbicidas e outros agro-toxicos.

3. Surpreende-nos o desmatamento da Amazónia, que aumentou 40% nos últimos 12 meses, e que uma grande parte deve-se à extração selectiva da madeira.

4. Criamos movimentos anti–barragens se por acaso, as escavações deparam com vestígios arqueológicos ou gravuras rupestres, ou se o impacto ambiental excede o “razoável” (uma barragem sempre tem, devido à sua dimensão), chegando ao ponto de anularmos a sua construção.

5. Somos todos a favor da proteção de certas espécies animais que estão em vias de extinção — coitadinhos, do lobo ibérico, do lince, da águia, do abutre-preto e do saramugo.

6. É proibido pescar petinga, pois claro!

7. Somos contra a poluição proveniente dos automóveis, das fábricas e dos lixos.

8. Somos contra a estanquicidade dos solos, para que a água siga os seus cursos naturais.

9. Somos contra a poluição dos rios e dos mares.

10. Interrogamo-nos sobre os incêndios e apregoamos até à exaustão a limpeza regular das matas.

11. Somos contra a poluição visual.

12. Não suportamos a poluição sonora.

13. Coitadinhos dos peixinhos que morrem enclausurados dentro dos sacos de plástico!

14. Somos contra as centrais nucleares.

15. Até somos contra as touradas…

Mas nós humanos, não trocamos o nosso conforto por nada…
1. Ambicionamos ter um quarto de banho revestido a mármore e esquecemos as pedreiras;
2. Orgulhamo-nos por preferir ler em suporte de papel, gostamos do cheiro, do tacto… adoro ler um livro e saborear uma bela maçã sem manchas e sem bichos. Esqueço-me dos eucaliptos e dos pesticidas.
3. Queremos móveis em madeira exótica e um bom soalho por toda a casa e lá vai a Amazónia!
4. Todos os anos tememos a seca e então reconhecemos a necessidade de armazenar água. Já somos a favor das barragens.
5. Mas nós gostamos de caçar e de aumentar pastagens para as vaquinhas… e o lobo ibérico?
6. É proibido pescar petinga, mas o dono do restaurante se já nos conhece, lá vem a petinga muito em segredo com nome de carapau.
7. Queremos andar de automóvel, queremos consumir produtos baratos resultantes do fabrico em série, e adoramos tudo embalado. Que se lixe a poluição e o excesso de plástico.
8. Estanquicidade do solo convém não saber o que é. É preciso muitos parques de estacionamento subterrâneos, e jardins pavimentados para tudo estar clean e com o pópó sempre por perto!
9. Sempre que possível lançamos toda a porcaria aos rios e aos mares, porque depois o mar leva tudo.
10. Os opinadores anti isto e aquilo, por acaso vão à mata recolher caruma para fazer estrume?
11. Este ano, nas férias bora lá curtir Las Vegas ou Hong Kong! Quanto mais reclames melhor!
12. Não gostamos de barulho, mas na queima das fitas os jovens precisam de se divertir e os nossos filhos já não sabem viver sem discotecas e bares abertos até as 6 da manhã – movida nocturna é isso!
13. E o plástico continua: sacos, saquinhos e saquetas. Sacos das compras, sacos para congelar, sacos para o pão, sacos para lanches, sacos para a fruta, sacos para os cereais… dá tanto jeito no transporte e na arrumação!
14. Queremos a energia cada vez mais barata e queremos estar sempre à mesma temperatura, quer seja Inverno, quer seja Verão. Viva o ar condicionado, os radiadores, as caldeiras a gasóleo e as lareiras, com grandes chaminés a fumegar!
15. Até somos contra as touradas, mas como é um acto cultural ver o touro furioso a esvair-se em sangue, tudo muda de figura.
Ai os humanos!
Publicado em NVR a 5/12/2018

21 novembro, 2018

O marketing hipócrita


O marketing hipócrita


            Sinto-me ridícula quando saio do supermercado. As compras não são muitas, mas a tira de papel imprimido na caixa registadora, que resulta do meu pagamento, mede quase 50 cm, dividida em 3 ou 4 partes, de talões e talõezinhos de descontos disto e daquilo. Deveria sentir-me orgulhosa ou quiçá agradecida?
            Há o desconto da gasolina, o desconto da cafetaria, o desconto da tenda exterior, o desconto da lixívia e de todos os produtos de limpeza excepto os de promoção. Há descontos do dia e os descontos com prazo de validade para renovar outros descontos…
            Há uma máquina na entrada do supermercado que só imprime as senhas dos descontos a que cada um tem direito, caso me tenha esquecido dos talões em casa, e ainda há os descontos registados no telemóvel, caso me tenha dado um ataque de fúria e tenha atirado as senhas amassadas a cabeça da senhora da charcutaria. Aqui nada falha, as desmemórias não existem, que a entidade comercial está sempre atenta.  
            Essa máquina imprime senhas todas seguidinhas, coladas umas às outras, parecendo umas bandeirolas de enfeitar as árvores de Natal e eu entro no supermercado já a meio atrapalhada a ter que puxar dos óculos para selecionar 1 desconto entre as 20 senhas que saíram da máquina e que irei utilizar. Sofro do azar em que a maioria dos produtos que compro, nunca está em promoção. Como não as irei utilizar poderia oferecê-las a outro consumidor praticando a boa acção do dia, tal como faço aos tickets do estacionamento, mas não dá, elas são intransmissíveis. Dá-me a sensação que é como no euro milhões, se acerto só eu posso levantar a massa. Aí está uma sensação de segurança dada ao consumidor. Pena que nunca tenha ganho o euro milhões, aqui também nunca gastei os 20 descontos das senhas.
            O que é ridículo é nós consumidores, acreditarmos que nos estão a dar alguma coisa por simpatia, gentileza ou por sermos bons clientes. Puro engano, nós pagamos todos os descontos e todas as promoções, mas mesmo tendo consciência disso, o grande estratega comercial/marketing inventou e urdiu uma teia em volta do consumidor, muito eficaz, convertendo-o no seu cúmplice - as compras do supermercado proporcionam desconto na bomba da gasolina e o abastecimento da gasolina proporciona desconto nas compras do supermercado, para além das 20 senhas de desconto imprimidas na máquina da entrada: uma verdadeira pescadinha de rabo na boca, num círculo sem princípio e sem fim. O estratega acabou por inventar as dependências de consumo e de fidelidade, muito eficazes.
            No meu caso, não entrar no círculo das compras e da gasolina, significa que perco cerca de 7 euros por semana, 28 euros por mês, 346 euros por ano e é esta engenharia de marketing hipócrita que me agarrou. Sinto-me vulnerável, mas com vontade de rasgar todas as senhas aos pedacinhos e atirá-los ao ar na entrada do supermercado e subir para o tapete das caixas e gritar bem alto: Marketing hipócrita! Fazer o quê? Complica-me com os nervos esta bipolaridade, esta correria entre a bomba da gasolina e o supermercado. Que cansaço!
            Já juntei senhas para peluches, tabuleiros pirex, copos, tupperware e outros produtos que não preciso. Quando haverá senhas para fruta, carne, arroz, massa?...
AQ
Publicado em NVR

11 novembro, 2018

CATAFALCO . Sé de Luanda





Dos catafalcos erigidos em Portugal e nas suas colónias, restaram alguns projectos, entre os quais um, merece atenção pelo remate de coroa real fechada sobre volutas, trata-se daquele, desenhado pelo sobrinho de Santos Pacheco para a Sé da cidade de São Paulo de Luanda em 1751. Este carpinteiro de nome ainda desconhecido, foi degredado para Angola durante o governo de D. Antônio Soares Portugal, Conde do Lavradio, que dirigiu as exéquias em honra de D. João V (pela sua morte).

No catafalco da Sé de Luanda uma pequena coroa real fechada sobre seis volutas rematam, juntamente com dois anjos sobre os ressaltos fronteiros do entablamento, o baldaquino, que têm como elementos de sustentação, oito colunas coríntias de fustes lisos com o terço inferior destacado com estrias helicoidais, sendo o seu limite cingido por pontas de folhas.

No centro do entablamento fica a segunda coroa real fechada de onde pendem cortinas delgadas, sustentada por anjos esvoaçantes, ficando a terceira coroa real sobre almofada por cima da Essa. O carácter desta solução são as volutas que evoluem em curvas e contracurvas, em três secções, além das oito colunas.




Fig.2


A configuração do catafalco de Luanda deve muito ao desenho de altar elaborado por G. M. Oppenord (Paris1672-1742) e publicado no seu livro “D’Autels et Tombeaux” (Fig. 3).

 Neste altar concebido para um ambiente doméstico palaciano, quatro colunas compósitas de fustes lisos sustentam um entablamento rematado por quatro volutas que sustentam uma pequena coroa real fechada que tem por baixo dois querubins. As volutas deste baldaquino são sinuosas ou ondeadas, podendo ter influenciado o formato das volutas do catafalco de Luanda, que entretanto, têm formato mais expressivo e movimentado. 


Fig. 3

  
Figura 1 - Catafalco das pompas fúnebres de D. João V, erguido na Sé da cidade De São Paulo de Luanda, projeto do sobrinho de Santos Pacheco. Arquivo Histórico Ultramarino - Lisboa
Figura 2 - Planta baixa do catafalco da Sé de Luanda - Arquivo Histórico Ultramarino - Lisboa
Figura 3 - Proposta para altar doméstico, gravura nº 5, do Livro de altares e túmulos de G. M. Oppenord. Faculdade de Belas Artes da UP – Portugal.

 Fonte: adaptação realizada a partir de:

A GÊNESE FORMAL E SIMBÓLICA DO RETÁBULO DE N. SR. DO BONFIM DA BAHIA E SEUS DERIVADOS, Luiz Alberto Ribeiro Freire, revista OHUM (revista do programa de pós graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia).

  
Catafalco ou Essa, estrado erguido numa igreja para nele se colocar o caixão de um defunto, enquanto se procede às cerimónias fúnebres.
 Voluta, ornamento enrolado em espiral.
 Entablamento, conjunto de elementos horizontais assentes em colunas ou em pilares.
Baldaquino, remate arquitectónico ou escultórico que resguarda um portal, um altar, ou escultura importante.
  
A. Quelhas