28 março, 2018

O nosso silêncio e o hospital


O nosso silêncio e o hospital


            O nosso hospital foi inaugurado há 26 anos. Nessa época permaneci por lá internada por uns dias e tudo me pareceu relativamente bem. Voltei outras vezes, felizmente a maioria das vezes, como visita, construindo sempre uma opinião positiva em relação aos cuidados prestados. Nestes últimos dias aconteceu de novo.
            Defendo a saúde pública, o Sistema Nacional de Saúde, os hospitais públicos, médicos e enfermeiros que aí trabalham, e até acho que deveriam ganhar mais, para que a exclusividade fosse uma realidade maior e mais consistente. Em todas as profissões há bons e maus profissionais, mas os que tratam doentes, admiro-lhes a paciência e a resiliência. Não é fácil trabalhar nas condições em que trabalham nos hospitais públicos.
            Não sei se têm os equipamentos necessários ou os mais modernos, não sei quantas horas trabalham, desconheço por completo as suas carreiras… esta minha reflexão remete-se exclusivamente à posição de utente. Trabalhar num edifício, com 26 anos, em que os pequenos detalhes arquitectónicos denunciam falta de manutenção e um envelhecimento continuado das instalações, merece já por si uma medalha de mérito para quem lá trabalha.
            Os vidros das janelas, já não são transparentes, são apenas translúcidos devido ao acumular de limpezas inexistentes, funcionando quase como quebra sol nos dias de verão. Os parapeitos exteriores têm várias camadas de pó e detritos que parecem vestígios do Jurássico. O revestimento do chão, em linóleo, tem 26 anos, todos os dias é limpo de esfregona e lixívia que vai acumulando milhares de micróbios, nos remates do rodapé, nas emendas do material, que aí residem felizes e contentes, admitindo sempre novos residentes – cabe sempre mais umas dezenas por dia! Há um percurso traçado através do linóleo menos brilhante, por onde se realiza a maioria dos passos dos utentes e profissionais, semelhantes aos jardins pisados em carreirinhos para chegar mais rapidamente ao lado oposto, sem os contornar. Se apurarmos o olhar, o linóleo é feito de uma camada superficial de diversas texturas vincadas que expressam os 26 anos de desgaste diário. Os cortinados que funcionam como separadores entre as camas das enfermarias, tem mais argolas soltas do que as que funcionam. Resultam como um plano de contorno irregular, assemelhando-se a formas fantasmagóricas que se devem adensar nos delírios febris de cada doente. Nunca vejo ninguém a limpar paredes, a desinfectar camas, a lavar azulejos das instalações sanitárias, muito menos interruptores e puxadores de portas… aquilo que nas nossas casas fazemos com regularidade, quando nós somos os únicos que lá vivem. Não me pronuncio sobre as condutas de ventilação, mas fico a pensar numa rede invisível, que deve estar inclassificável. Tudo isto confere ao edifício um odor que mistura sofrimento humano com limpezas imperfeitas, acentuadas pela degradação natural dos materiais. Os maiores inimigos das bactérias são efectivamente as máscaras, as luvas e o doseador de desinfectante de mãos, que estão no lugar certo. Os técnicos de saúde são uns verdadeiros heróis e anatomicamente especiais, pois já nascem com anti-corpos para enfrentar toda esta amálgama de potenciais infecções.
            Anteriormente, em cada piso, havia um compartimento no final do corredor, com 2 camas, para que médicos e enfermeiros pudessem eventualmente repousar durante a noite. O último piso era destinado a doentes que necessitassem de apoio familiar. Tudo isto desapareceu para aumentar as enfermarias. Não vi camas nos corredores, aqui não, nas urgências tantas vezes.
            Os doentes queixam-se dos enfermeiros que os atendem tardiamente, quando tocam à campainha. Não os vejo parados e quando os vejo, estão a escrever. Também devem ter que fazer relatórios por tudo e por nada. 
            Vi doentes com o tabuleiro da refeição à espera durante uma hora, que alguém chegasse para lhes dar à boca, vi enfermeiros a tentar salvar vidas, como acto solitário, vi-lhes a paciência infinita, vi voluntários a tentar ajudar… vi as refeições, o jantar desmotiva qualquer doente! É provável que nos quarteis e nos estabelecimentos prisionais se coma melhor. Há panados servidos a negro, depois de passados em óleo queimado e requeimado. Quem controla a qualidade das refeições executadas por empresas que apresentam o orçamento mais barato?
            [O sr. presidente Marcelo, agora que constatou que há pobres em Portugal, poderia de repente aparecer de surpresa numa enfermaria do Hospital de Vila Real, e comer a refeição de um dos doentes, num sábado ao jantar…]
             Percorro o longo corredor da medicina interna, vou olhando para o interior das enfermarias e vejo pernas esqueléticas de velhos no final da linha, expostas aos olhares, solitários no zelo pela sua intimidade/dignidade.
            Nem refiro os problemas das consultas… esperei 3 anos por uma consulta de pneumonologia/apneia do sono, mas percebi que havia quem tivesse esperado mais e parei de reclamar.
            Sou altamente alérgica a ácaros, ou coloco uma máscara quando entro nas enfermarias ou sou atingida por ataques de tosse violenta. Tenho um filho, que com 22 anos, esteve entre a vida e a morte, e foi tratado neste hospital durante 15 dias. Teve uma equipa fantástica a tratar dele, Dr. Rui Couto, Dr.a Filipa e Dr. Diogo Portugal, a quem estarei eternamente grata. Num fim-de-semana o meu filho pediu-me que lhe levasse uma máscara protectora, com vários filtros, daquelas que uso para pintar com sprays, pois era insuportável o cheiro de urina, que exalava do doente da cama ao lado. Descobriu um quarto banho no 1º piso, que raramente era utilizado, e descia 4 andares todos os dias, para ali fazer a sua higiene.
            Por vezes é impossível eliminar ou atenuar o sofrimento humano, mas há universos de situações que precisam de ser denunciadas e solucionadas, porque têm solução. A morte não tem solução, mas amaciar o seu caminho, tem muitas soluções. Cada doente, devido à sua vulnerabilidade, raramente reclama ou manifesta a sua indignação. Quer apenas ir para casa rapidamente, livrar-se daquilo e não olhar para trás. Ir à secretaria, denunciar, ou reclamar sobre isto e aquilo, é um processo que não cabe na mente daqueles que querem chegar a sua casa rapidamente e que receiam ter de voltar para lá.
                                               (…) e o nosso silêncio significa legitimar situações.
            Há aqui a urgência de se juntarem vontades políticas para se resolver tudo isto, com máquina de calcular, mas estabelecendo como prioridade a saúde pública. O que interessam festivais da canção, grandes congressos de partidos políticos, fundações disto e daquilo, institutos público-privados, grandes lucros na EDP, PETROGAL e PINGO DOCE,  guerras do futebol, perdões de divida dos nossos ladrões figuras públicas, apoios financeiros a escolas e a hospitais privados?
             A fuga para os hospitais privados, não são a solução. A atitute, cada um safa-se como pode, não é dignificante, nem civilizacional.   
            Para finalizar, a nossa actual ministra do mar, Ana Paula Vitorino, há dias numa entrevista na televisão, abordou corajosamente a problemática da experiencia que teve, como paciente oncológica, numa mensagem racional, positiva e optimista. Esteve hospitalizada na Fundação Champalimaut, mas afirmou que a única diferença em relação ao serviço público são questões de “aspecto”.
                                                 (…) e o nosso silêncio significa legitimar situações.
“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons.” Martin Luther -King

Publicado emNVR,  28/03/2018

14 março, 2018

Capela da dupla espiral

 Capela projetada por Hiroshi Nakamura localizada na base de um resort de luxo no Japão.
A dupla espiral foi a inspiração para a concepção deste projecto, simbolizando a união de duas pessoas através do casamento.
Estrutura delicada que proporciona imagens brutais, sempre diferentes.
Localização: Hiroshima

O corte é muito interessante. 

08 março, 2018

Ahed Tamimi


Ahed Tamimi
"Eu gostaria que toda a minha família fosse libertada assim como todos os outros prisioneiros palestinianos. Quero ver o meu grande sonho de um dia viver numa Palestina livre".
         Desta vez, antecipo-me ao Dia Internacional da Mulher, reflectindo sobre uma declaração de Ahed Tamimi, uma menina palestiniana de 16 anos, acusada de 12 crimes.
         A guerra não tem sexo, assim como o terror e a injustiça. Mas exactamente por ser uma menina e corajosa, os relatos das suas acções continuadas de protesto e de revolta, correm o mundo, apenas porque a guerra se vulgarizou. Todos os dias somos bombardeados por imagens da Síria e da Palestina. Por vezes até as confundo, umas com as outras, quando chocam com uma barreira que eu própria construí na minha mente, para proteger a minha sensibilidade. E como a guerra se vulgarizou, esta menina parece que desperta consciências. Por quanto tempo?
         Ahed deveria estar a sonhar com príncipes e princesas, ir aos festivais rock, criar a sua primeira maquilhagem, ler os primeiros romances de amor a sério, jogar ao Stardolls, ansiar pelas festinhas com os amigos, aborrecer-se com os pais por querer mais vezes comer hambúrgeres, experienciar as suas primeiras saídas nocturnas e dedicar-se às novidades tantas vezes fúteis que invadem a vida das adolescentes, revoltando-se com as rotinas e obrigações familiares.
         Ahed personifica todos os meninos e meninas do mundo com experiências diárias ligadas a situações de guerra, de morte, de detenção dos familiares e amigos, quando deveria viver em paz, frequentar a escola e respirar educação, conforto e amor.         Imaginem-se na situação destes seres humanos em miniatura, que lhes tiram o direito de serem crianças e de serem adolescentes. Passam directamente à idade adulta, sem viverem essas fases de desenvolvimento do ser humano, preciosas na construção das suas personalidades. Uma passagem rápida e sofrida, que resvala diariamente em direcção à luta pela sobrevivência e de luto permanente por aqueles que lhes são próximos e que vão desaparecendo numa guerra estúpida.
         Todas as guerras são estúpidas.
         E todas as guerras geram angústia, depressão e revolta em quem sofre.
         Ahed Tamimi encontra-se detida desde Dezembro de 2017, para que os seus protestos se anulem, se emudeçam, por isso é necessário falar acerca dela e sobre o que ela representa.
         Segundo a Amnistia Internacional, há actualmente 350 crianças ou adolescentes palestinianos na cadeia, regularmente sujeitos a "maus tratos, sendo vendados, ameaçados, colocados em prisão solitária, ou interrogados sem a presença dos seus advogados ou familiares".
         Isto não é uma humilhação para o exército israelita, isto é uma humilhação para o mundo.

Publicado em NVR
Anabela Quelhas

03 março, 2018

O cuspe - certificado de garantia


O cuspe – certificado de garantia


            A caldeira de aquecimento aqui de casa começou a fanicar há uns dias e percebi que a sua revisão estava com um ano de atraso. Telefonei para o número que consta no auto-colante posicionado na lateral do aparelho, onde está escrito  - EMERGÊNCIA.
….
            Estou exausta!
            Acabo de assistir a uma formação intensiva sobre caldeiras a gasóleo e penso que estarei preparada para me candidatar a uma  certificação qualquer. Agora estou, tu cá, tu lá, com turbinas, bombas, resíduos, rendimento, segurança, “bábulas”, membranas, pressão, “Bares” (não bares de shots, mas Bars), manómetros, técnica do cuspe e da bába, temperatura, torneiras de corte, ignição, queimador, “anormalias”, aparelho de regulação, corrosão, “sedimeintos” ... após duas horas e meia a tratar da revisão de uma Lamborguini. A minha Lamborguini! não tenho o meu automóvel preferido, mas tenho uma parente afastada. Já é alguma coisa. Não tem o design do Lamborghini Gallardo, mas pronto! para o paralelepípedo, não está mal.
            Passo por várias fases:
1 – Chega o técnico que conheço, acompanhado de um jovem e inicio-me com a expectativa que será coisa rápida, já que estão dois homens a “caldeirar” – engano o meu, o jovem é estagiário de um curso profissional. Hummm a coisa afinal complica-se! Ele está a aprender tal como eu.
2 - Depois tiro algumas dúvidas e registo no telemóvel, fotografo também, para que numa emergência daquelas que só me acontecem depois das 19h, eu consiga resolver. Este botão para que serve, o outro e o outro?…
3 – Surge aquela pergunta idiotamente pertinente: Então agora o que fica mais económico, caldeiras de gás, gasóleo ou pelletes? E vem a resposta igualmente idiota: todas são boas, mas tenho em casa uma lareira, aproveito e asso lá uns chouriços. Um luxo!
4 - A fase de olhar para o relógio, instala-se após uma hora. Tenho um discurso muito limitado sobre caldeiras, e não convém trocar mimos da minha ignorância, com quem mistura bares com Bars.
5 - Arrumo a garagem, deito fora o lixo, limpo a teia de aranha e o estagiário aprende a despejar baldes de água no meu quintal.
6 - Entro na fase do bocejo… e eles continuam sorridentes a esvaziar a caldeira de água de cor da ferrugem. Como é possível? É esta água que vai para o meu duche? Não, apenas vai para os radiadores…. Fico mais descansada! Bocejo muiiiito, mas de nada adianta, exaspero-me a olhar os técnicos à volta daquele paralelepípedo prenho de tubos e ligações.
7 - Penso no Carnaval que se aproxima e no Natal que já passou. Penso no Costa, na Geringonça, no Rio, na Supernanny, neste país de jovens emigrantes, nos velhos do Restelo e nas pitonisas, que afirmam categoricamente e com uma pontinha de orgulho, que voltaremos às troikas ou pior. Penso nos velhos que morrem em casa e só dão por eles muitos dias ou meses depois. Penso nos Correios a encerrar. Penso nas obras intermináveis da minha rua…
            Não adianta bocejar, falar para dentro, nem olhar repetidamente para o relógio, pois o que tem que se fazer, tem que se fazer no seu tempo que é lento,… obedecendo à calma da caldeira, à serenidade e sabedoria dos Sor Costa faxavor, técnico de caldeiras, acompanhado por um ajudante estagiário, especialista na técnica do cuspe para detectar fugas. Faz bolha tem fuga, o cuspe escorre languidamente, ´não tem fuga. O cuspe é fixe, barato e fiável! Se contiver vestígios do vinho ingerido ao almoço ou do bagaço, já não sei!!!! Convém ter as portas abertas e boa circulação de ar, não vá a coisa explodir! Mas isso é para o gás… o que não é o caso, mesmo assim convém.
            O melhor é respirar fundo e tentar carregar alguns bars de paciência. Inventar pequenas tarefas que amorteçam a espera e aliviem a ansiedade.
8 - Passeio pela garagem e pelo quintal, tipo Napoleão, acariciando a gastrite, e imaginando a retirada deste exército de 2, com passo de brigada das caldeiras em formação na parada do quartel.
9 - Semicerro os olhos olhando para o sol, e vejo elefantes com asas, multicolores e polifuncionais, tal capa de álbum Osibisa.
10 - Assobio, trauteio “Pictures at na exhibition”, imaginando teclas tocando-se dentro de uma caldeira musical, de decibéis e claves do sol, com o cuspe como certificado de garantia. O que comi ao almoço? Cogumelos? Não, isso foi ontem!
            Não sei como alguém pode gostar de mecânica. Certamente alguém irá perguntar sobre quem gosta de cimento, ferro e areia.
Publicado NVR, 2018

17 janeiro, 2018

IMPLICAÇÕES INTEMPORAIS

            A construção de instalações sanitárias obedece obviamente a regras, que foram evoluindo ao longo do tempo, dando resposta às exigências fisiológicas e ao bem-estar dos seres humanos. Os arquitectos conhecem-nas de cor e salteado e tentam até convertê-las em espaços belos e elegantes, que conferem distinção ao seu proprietário e até algum glamour.
            Se esses espaços forem de utilização privada, coordena-se o gosto e os hábitos do proprietário com a estética, resultando soluções únicas e personalizadas. Se forem de uso colectivo, as normas de bem construir elevam os padrões de exigência da funcionalidade, pois está em causa a saúde pública, e a imagem/qualidade do espaço público. Os espaços que mais utilizo são os dos restaurantes, museus e centros comerciais e acompanham-me certas implicações intemporais, que a minha maturidade já me permite partilhar.
            É frequente chegar a um restaurante e a única mesa vaga que existe é precisamente aquela que deveria ser anulada pela sua localização estratégica, junto à entrada das instalações sanitárias. Assim desde as entradas do pão com manteiga até ao carioca de limão que assinala o final da minha refeição, presencio em directo, o entra e sai, masculino e feminino, daqueles que vão lavar as mãos, os que vão soltar a bufa, os que vão fazer o xixi e o cócó. Obriga-me a visualizar o aperto da entrada e o relaxamento da saída, ainda envolto dos actos finais de compostura, o fechar a braguilha, a pinga indisfarçável e o ajuste da cueca, e que infelizmente nem sempre remata no lavatório. No lavatório é duro e caricato, eu ter que manter o recato e não me espalhar a rir, com a postura que cada um adopta em frente ao espelho - lavar as mãos é quase um pretexto, a olhadela ao espelho sim, uma miragem reflectida com as caretas para alisar rugas e conferir que se está cada vez mais velho, ou se está a parecer mais novo, e verificar o sorriso encantador que confere ao ser humano um estilo de primata que só se deveria manifestar na intimidade mais recôndita. O problema da não existência do secador de mãos e muito menos toalhetes de papel, tem como reflexo instintivo e primário, no meu sistema auditivo apurado, de um porra, uma merda ou até pior, e por vezes ainda levo com o sacudir de mãos para onde calha.

            Mas mau, mau é quando sou eu que utilizo as ditas instalações em qualquer dos locais acima referidos. Quem me conhece pessoalmente sabe que as minhas joias ou adereços são uma mochila, uma máquina fotográfica pendurada ao pescoço, os óculos de sol e guarda-chuva eventualmente. E é assim que eu entro numa instalação sanitária e vivo a esperança que esta dê resposta às minhas exigências. Por vezes torna-se difícil escolher a porta pois o designer quis ser tão, tão criativo, que nem sempre a sinalética é esclarecedora. Depois da escolha vem a constatação que os fechos das portas já não são os originais - os originais avariaram e é sempre mais fácil aplicar um fecho de correr comprado na loja de ferragens tradicional, que também vende penicos, pregos, baldes, mangueiras – criando-me a incerteza se conseguirei sair dali.
            A minha grande embirração é não ter onde pendurar a mochila e a máquina fotográfica, assim tenho que continuar com elas às costas e no pescoço. A posição protectora que todas as mulheres adoptam, para não tocar na sanita, faz-nos praticar a posição shiko-dachi dos japoneses, nem de pé nem sentada, o que para mim me acresce a complicação da máquina fotográfica suspensa no meu pescoço, parecendo um pendulo, oscilando para trás e para a frente, no meio das minhas pernas, perturbando-me o equilíbrio e a concentração, fazendo-me praguejar através de palavras para maiores de 18 anos, e perigar a pontaria. Então a luz automática desliga-se e nasce o caos - shiko-dachi, movimento pendular e eu a esbracejar, vendo-me numa situação completamente ridícula, pois nunca tive jeito para o ballet, que naquele momento mais parece os movimentos de braços de um afogado a pedir por socorro em alto mar.
            Depois deste número circense de cueca nos joelhos, verifico que não há papel higiénico e tenho ainda que ter acesso à minha mochila para retirar lenços de papel ou toalhetes, convertendo tudo num exercício de contorcionismo que por várias vezes me fez cair os óculos de sol dentro da sanita – agora percebem porque tenho sempre imensos óculos e todos de marca roskof?
            O aviso não “deite papel na sanita, utilize o caixote”, é o primeiro sinal de alarme que denuncia obras feitas à doc, com saneamento improvisado, impróprio para um espaço público, com autoclismo super económico de descarga reduzida, sem fluxo para arrastar os detritos, e não adianta repetir a descarga, eu tenho mesmo de abandonar a retrete com a limpeza incompleta.
            Chega o momento de lavar as mãos na ante-câmara e a indecisão se a água funciona por pedal ou por célula eléctrica e onde está localizada. Pareço uma invisual a tatear o espaço… e há sempre uma madame que passa e me olha de soslaio, como se eu fosse a maior ignorante tecnológica do mundo. Finalmente a água sai da torneira e eu fico feliz, porém o sabão…. o doseador suspenso na parede, não funciona ou está vazio. Aligeiro a higiene querendo passar apenas as mãos pela água, mas entretanto a água deixou de correr e tenho que repetir o momento do invisual. Também pode acontecer o contrário: a minha excessiva confiança e optimismo, faz-me por vezes acreditar que tudo correrá bem, levando-me a retirar primeiro o sabão do doseador e depois não conseguir ligar a torneira.
            Finalmente quando o secador de mãos está avariado ou já não existem toalhetes de papel, eu já perdi a paciência e então recorro ao truque de meter as mãos molhadas nos bolsos traseiros das calças, para elas enxugarem ligeiramente.
            Já nem descrevo o balde e a esfregona arrumados num canto, destruindo todo o encanto dum wc e quando a precisão é urgente, ter o dom de escolher sempre um WC em manutenção.

            Imaginem a minha cara ao sair destas instalações sanitárias: não, não se trata de obstipação ou gastroenterite, é apenas mais uma aventura sanitária que chegou ao fim.
Publicado em NVR, 17/01/2018

17 dezembro, 2017

NATURALIS

NATURALIS é uma mostra de pintura executada em suportes de vidro, sobre temas da natureza.
           A natureza andou sempre arredada do percurso artístico da autora e agora expressa-se excepcionalmente nesta exposição, como reflexo de uma acção investigativa sobre a utilização dos elementos naturais nas obras de arte e nas artes que se converteram em decorativas, por vezes muito próximas do saber popular.
Van Gogh, M. C. Escher assim como o movimento Arts & Crafts são inimitáveis, porém, neste caso, foram a alavanca para a descoberta da obra de outros artistas plásticos e para a reflexão que deu suporte a este acto de pintar quase clandestino, por ser divergente à formação da autora, transportando-a para outros saberes por vezes tão femininos e tão associados às românticas “fadas do lar”. Tapeçarias, rendas, bordados, arte gráfica de consumo doméstico, estampagem de tecidos e tatuagens foram alguns dos caminhos explorados nesta obra em tinta dourada sobre fundo negro, sóbria e delicada, como delicada é a natureza.
A técnica e a composição de cada Naturalis recusam o excesso, não admitindo erros nem insegurança na gestualidade do traço, implicando assim um grande rigor.  A economia da cor e a riqueza das texturas complementam-se na construção da simplicidade e delicadeza, num enquadramento estético proposto pela autora, convidando cada observador a dialogar serenamente com o seu mundo interior.







 



 


































13 novembro, 2017

só falta fazer um desenho

Só falta fazer um desenho
         Agora percebo a polémica de quem tem direito a ir passar o resto dos dias até à eternidade no Panteão Nacional.
         Finalmente fez-se-me luz. A morte tem muito que se lhe diga. Uma coisa é morrer e ir para o cemitério, ficar lá eternamente sempre em filinha e em esquadria e ser visitado pelas viúvas e viúvos chorosos, a tresandar a naftalina e a crisântemos, outra coisa é morrer e ir ocupar  espaços alternativos e comerciais da DGPC (Direcção Geral do Património Cultural). Pode-se morrer e ser tumulado (acabei  de inventar a palavra), num espaço onde vão os turistas mórbidos e as visitas de estudo de adolescente endiabrados – nesta situação a qualidade de morte é mais elevada, menos monótona que a primeira.     Mas bom, bom é morrer e ser tumulado em espaço com vista para salão de festas, por onde passam as ladies de vestidos cheios de brilhos e transparências e  os mens com asa de grilo e muito gel na repa, perfumando o espaço, com perfume “Já cheguei”. Estes últimos podem deliciar-se em visualizar verdadeiros manjares de rei, sentir os odores da alta gastronomia. Uma coisa é cheirar o chicharro frito que salta a parede do reles cemitério, outra coisa é sentir o aroma da lagosta em vapor e do caviar. Uma coisa é sentir o pisar dos sapatos ortopédicos que se moldam aos calos da terceira idade, outra coisa é sentir o pisar delicado de um tacão de 10cm da Diamond Shoe. Uma coisa é ouvir o fru fru da meia calça comprada no Jumbo. Outra coisa é ouvir o fru fru da meia de fio fino de seda adquirido em Londres na Pantyhose. Uma coisa é um cuecão que rola há varias décadas já sem etiqueta, outra coisa são uns boxers anatómicos Calvin Klein. Uma coisa são os perfumes de marca branca comprados nas parafarmácias, outra coisa são os perfumes originais Dior. Uma coisa é ouvir um reles Fiat a estacionar à porta do cemitério, outra coisa é ouvir o ronrorar de um Ferrari. Uma coisa é uma carraspana de tinto carrascão outro coisa é um alegrete no final de vários Moet Chandons. Uma coisa é teres um coveiro desdentado a ordenar as campas rasas, outra coisa é teres a sra diretora do Panteão a rentabilizar e a seleccionar a clientela.
         Quem teve  a sorte de estar no Panteão, saiu-lhe a sorte grande, pois segundo parece (Isabel Melo), muitos jantares se organizam por ali.
         "Demitir-me? Nem pensar" diz a senhora directora. E eu concordo com ela, reanimar os mortos é uma boa acção e faz-se muito dinheiro para suportar a manutenção destes edifícios. É preciso lixívia para os sanitários, palha d’aço para os cromados, naftalina para os túmulos, óleo para as dobradiças, … 
         “Aqui não há corpos. Há sempre essa confusão. Sempre que há algum evento aqui no corpo central, as salas tumulares estão todas fechadas” – essa parte é que eu acho mal, já me parece do tipo estraga-prazeres. Então só o corpo central pode assistir  à comerzaina e os outros corpos? Assim, os que lá estão já nem se podem organizar para socializar:
- Oh people passem para cá uns tournedos de Rossini,
         eu quero uma Vichyssoise,
                   que saudades de um croquete,
                            raisparta o gourmet eu quero comida bem portuguesa, sardinhas, peixinhos da horta, favas com chouriço.
         Acho mal, fecharem-lhes a porta.
         Comigo, a partir de agora, já vou avisando, é assim: Jantar especial tem de ser em Paris junto do Napoleão. O resto é um deja vu.

         Escrevendo a sério, esta não novidade foi hilariante. A corrida desenfreada ao lucro dá nisto.
         Fui ler o despacho 8356/2014, as minhas gargalhadas duplicaram.
Artigo 3.º
Princípios Gerais
1. Todas as atividades e eventos a desenvolver terão que respeitar o posicionamento associado ao prestígio histórico e cultural do espaço cedido.
2. Serão rejeitados os pedidos de carácter político ou sindical.
3. Serão, ainda, rejeitados os pedidos que colidam com a dignidade dos Monumentos, Museus e Palácios ou que perturbem o acesso e circuito de visitantes bem como as atividades planeadas ou já em curso.

         Ora políticos e sindicalistas não são recomendados. Se for o casamento de um Salgado vá que não vá, agora se for jantar de Natal de um sindicato, isso não.
Uma coisa é um jantar de Halloween, outra coisa é um jantar da Web Summit O Halloween´está para o MacDonald, assim como a WEB Summit está para o Panteão Nacional.  Mai nada!
         Se for uma reunião de carteiristas, poderá ser? E se for apresentação de um livro sobre Alves dos Reis?
         Se for um baile de debutantes pode? E se for uma dança de varão, não pode? E se for Pole Dance integrada em feira medieval ou seja a bailarina vestida de D. Urraca, já pode?
         Onde anda o bom senso dos que aprovam estes eventos? Ainda é preciso mais legislação? Acho que só falta fazer um desenho!

Por favor parem, senão salto em andamento!!!!

10 novembro, 2017

PEREGRINAÇÃO

 Não fico em casa porque está em exibição o filme “Peregrinação” de João Botelho.
O tema e o herói interessa-me,  o realizador também e tinha curiosidade em saber como se interligou a música “Por este rio acima” do Fausto.
Valeu a pena ver. Mais uma obra de arte assinada por João Botelho, que ultimamente nos presenteia muito acima do bom.
Quem viu O desassossego, que para mim que não sou cinéfila, é o top do top, não se decepciona com Peregrinação.
As aventuras e desventuras desta figura histórica que navegou pelo Oriente durante 21 anos, onde foi “13 vezes cativo e 16 ou 17 vendido, são tratadas com grande inteligência e sensibilidade. Não há cenas a mais nem a menos. É um relato de imagem personalizado pela imaginação do realizador, sabiamente articulado com o coro personificado pelos companheiros de Fernão Mendes Pinto.
Predominam cenas com pouca luz, que propositadamente evita erros de cenário e converte todo o registo muito intimista.  Só falhou o pormenor das cordas, sempre novas, sempre branquinhas, acabadas de sair da cordoaria.