17 janeiro, 2018

IMPLICAÇÕES INTEMPORAIS

            A construção de instalações sanitárias obedece obviamente a regras, que foram evoluindo ao longo do tempo, dando resposta às exigências fisiológicas e ao bem-estar dos seres humanos. Os arquitectos conhecem-nas de cor e salteado e tentam até convertê-las em espaços belos e elegantes, que conferem distinção ao seu proprietário e até algum glamour.
            Se esses espaços forem de utilização privada, coordena-se o gosto e os hábitos do proprietário com a estética, resultando soluções únicas e personalizadas. Se forem de uso colectivo, as normas de bem construir elevam os padrões de exigência da funcionalidade, pois está em causa a saúde pública, e a imagem/qualidade do espaço público. Os espaços que mais utilizo são os dos restaurantes, museus e centros comerciais e acompanham-me certas implicações intemporais, que a minha maturidade já me permite partilhar.
            É frequente chegar a um restaurante e a única mesa vaga que existe é precisamente aquela que deveria ser anulada pela sua localização estratégica, junto à entrada das instalações sanitárias. Assim desde as entradas do pão com manteiga até ao carioca de limão que assinala o final da minha refeição, presencio em directo, o entra e sai, masculino e feminino, daqueles que vão lavar as mãos, os que vão soltar a bufa, os que vão fazer o xixi e o cócó. Obriga-me a visualizar o aperto da entrada e o relaxamento da saída, ainda envolto dos actos finais de compostura, o fechar a braguilha, a pinga indisfarçável e o ajuste da cueca, e que infelizmente nem sempre remata no lavatório. No lavatório é duro e caricato, eu ter que manter o recato e não me espalhar a rir, com a postura que cada um adopta em frente ao espelho - lavar as mãos é quase um pretexto, a olhadela ao espelho sim, uma miragem reflectida com as caretas para alisar rugas e conferir que se está cada vez mais velho, ou se está a parecer mais novo, e verificar o sorriso encantador que confere ao ser humano um estilo de primata que só se deveria manifestar na intimidade mais recôndita. O problema da não existência do secador de mãos e muito menos toalhetes de papel, tem como reflexo instintivo e primário, no meu sistema auditivo apurado, de um porra, uma merda ou até pior, e por vezes ainda levo com o sacudir de mãos para onde calha.

            Mas mau, mau é quando sou eu que utilizo as ditas instalações em qualquer dos locais acima referidos. Quem me conhece pessoalmente sabe que as minhas joias ou adereços são uma mochila, uma máquina fotográfica pendurada ao pescoço, os óculos de sol e guarda-chuva eventualmente. E é assim que eu entro numa instalação sanitária e vivo a esperança que esta dê resposta às minhas exigências. Por vezes torna-se difícil escolher a porta pois o designer quis ser tão, tão criativo, que nem sempre a sinalética é esclarecedora. Depois da escolha vem a constatação que os fechos das portas já não são os originais - os originais avariaram e é sempre mais fácil aplicar um fecho de correr comprado na loja de ferragens tradicional, que também vende penicos, pregos, baldes, mangueiras – criando-me a incerteza se conseguirei sair dali.
            A minha grande embirração é não ter onde pendurar a mochila e a máquina fotográfica, assim tenho que continuar com elas às costas e no pescoço. A posição protectora que todas as mulheres adoptam, para não tocar na sanita, faz-nos praticar a posição shiko-dachi dos japoneses, nem de pé nem sentada, o que para mim me acresce a complicação da máquina fotográfica suspensa no meu pescoço, parecendo um pendulo, oscilando para trás e para a frente, no meio das minhas pernas, perturbando-me o equilíbrio e a concentração, fazendo-me praguejar através de palavras para maiores de 18 anos, e perigar a pontaria. Então a luz automática desliga-se e nasce o caos - shiko-dachi, movimento pendular e eu a esbracejar, vendo-me numa situação completamente ridícula, pois nunca tive jeito para o ballet, que naquele momento mais parece os movimentos de braços de um afogado a pedir por socorro em alto mar.
            Depois deste número circense de cueca nos joelhos, verifico que não há papel higiénico e tenho ainda que ter acesso à minha mochila para retirar lenços de papel ou toalhetes, convertendo tudo num exercício de contorcionismo que por várias vezes me fez cair os óculos de sol dentro da sanita – agora percebem porque tenho sempre imensos óculos e todos de marca roskof?
            O aviso não “deite papel na sanita, utilize o caixote”, é o primeiro sinal de alarme que denuncia obras feitas à doc, com saneamento improvisado, impróprio para um espaço público, com autoclismo super económico de descarga reduzida, sem fluxo para arrastar os detritos, e não adianta repetir a descarga, eu tenho mesmo de abandonar a retrete com a limpeza incompleta.
            Chega o momento de lavar as mãos na ante-câmara e a indecisão se a água funciona por pedal ou por célula eléctrica e onde está localizada. Pareço uma invisual a tatear o espaço… e há sempre uma madame que passa e me olha de soslaio, como se eu fosse a maior ignorante tecnológica do mundo. Finalmente a água sai da torneira e eu fico feliz, porém o sabão…. o doseador suspenso na parede, não funciona ou está vazio. Aligeiro a higiene querendo passar apenas as mãos pela água, mas entretanto a água deixou de correr e tenho que repetir o momento do invisual. Também pode acontecer o contrário: a minha excessiva confiança e optimismo, faz-me por vezes acreditar que tudo correrá bem, levando-me a retirar primeiro o sabão do doseador e depois não conseguir ligar a torneira.
            Finalmente quando o secador de mãos está avariado ou já não existem toalhetes de papel, eu já perdi a paciência e então recorro ao truque de meter as mãos molhadas nos bolsos traseiros das calças, para elas enxugarem ligeiramente.
            Já nem descrevo o balde e a esfregona arrumados num canto, destruindo todo o encanto dum wc e quando a precisão é urgente, ter o dom de escolher sempre um WC em manutenção.

            Imaginem a minha cara ao sair destas instalações sanitárias: não, não se trata de obstipação ou gastroenterite, é apenas mais uma aventura sanitária que chegou ao fim.
Publicado em NVR, 17/01/2018

17 dezembro, 2017

NATURALIS

NATURALIS é uma mostra de pintura executada em suportes de vidro, sobre temas da natureza.
           A natureza andou sempre arredada do percurso artístico da autora e agora expressa-se excepcionalmente nesta exposição, como reflexo de uma acção investigativa sobre a utilização dos elementos naturais nas obras de arte e nas artes que se converteram em decorativas, por vezes muito próximas do saber popular.
Van Gogh, M. C. Escher assim como o movimento Arts & Crafts são inimitáveis, porém, neste caso, foram a alavanca para a descoberta da obra de outros artistas plásticos e para a reflexão que deu suporte a este acto de pintar quase clandestino, por ser divergente à formação da autora, transportando-a para outros saberes por vezes tão femininos e tão associados às românticas “fadas do lar”. Tapeçarias, rendas, bordados, arte gráfica de consumo doméstico, estampagem de tecidos e tatuagens foram alguns dos caminhos explorados nesta obra em tinta dourada sobre fundo negro, sóbria e delicada, como delicada é a natureza.
A técnica e a composição de cada Naturalis recusam o excesso, não admitindo erros nem insegurança na gestualidade do traço, implicando assim um grande rigor.  A economia da cor e a riqueza das texturas complementam-se na construção da simplicidade e delicadeza, num enquadramento estético proposto pela autora, convidando cada observador a dialogar serenamente com o seu mundo interior.














































13 novembro, 2017

só falta fazer um desenho

Só falta fazer um desenho
         Agora percebo a polémica de quem tem direito a ir passar o resto dos dias até à eternidade no Panteão Nacional.
         Finalmente fez-se-me luz. A morte tem muito que se lhe diga. Uma coisa é morrer e ir para o cemitério, ficar lá eternamente sempre em filinha e em esquadria e ser visitado pelas viúvas e viúvos chorosos, a tresandar a naftalina e a crisântemos, outra coisa é morrer e ir ocupar  espaços alternativos e comerciais da DGPC (Direcção Geral do Património Cultural). Pode-se morrer e ser tumulado (acabei  de inventar a palavra), num espaço onde vão os turistas mórbidos e as visitas de estudo de adolescente endiabrados – nesta situação a qualidade de morte é mais elevada, menos monótona que a primeira.     Mas bom, bom é morrer e ser tumulado em espaço com vista para salão de festas, por onde passam as ladies de vestidos cheios de brilhos e transparências e  os mens com asa de grilo e muito gel na repa, perfumando o espaço, com perfume “Já cheguei”. Estes últimos podem deliciar-se em visualizar verdadeiros manjares de rei, sentir os odores da alta gastronomia. Uma coisa é cheirar o chicharro frito que salta a parede do reles cemitério, outra coisa é sentir o aroma da lagosta em vapor e do caviar. Uma coisa é sentir o pisar dos sapatos ortopédicos que se moldam aos calos da terceira idade, outra coisa é sentir o pisar delicado de um tacão de 10cm da Diamond Shoe. Uma coisa é ouvir o fru fru da meia calça comprada no Jumbo. Outra coisa é ouvir o fru fru da meia de fio fino de seda adquirido em Londres na Pantyhose. Uma coisa é um cuecão que rola há varias décadas já sem etiqueta, outra coisa são uns boxers anatómicos Calvin Klein. Uma coisa são os perfumes de marca branca comprados nas parafarmácias, outra coisa são os perfumes originais Dior. Uma coisa é ouvir um reles Fiat a estacionar à porta do cemitério, outra coisa é ouvir o ronrorar de um Ferrari. Uma coisa é uma carraspana de tinto carrascão outro coisa é um alegrete no final de vários Moet Chandons. Uma coisa é teres um coveiro desdentado a ordenar as campas rasas, outra coisa é teres a sra diretora do Panteão a rentabilizar e a seleccionar a clientela.
         Quem teve  a sorte de estar no Panteão, saiu-lhe a sorte grande, pois segundo parece (Isabel Melo), muitos jantares se organizam por ali.
         "Demitir-me? Nem pensar" diz a senhora directora. E eu concordo com ela, reanimar os mortos é uma boa acção e faz-se muito dinheiro para suportar a manutenção destes edifícios. É preciso lixívia para os sanitários, palha d’aço para os cromados, naftalina para os túmulos, óleo para as dobradiças, … 
         “Aqui não há corpos. Há sempre essa confusão. Sempre que há algum evento aqui no corpo central, as salas tumulares estão todas fechadas” – essa parte é que eu acho mal, já me parece do tipo estraga-prazeres. Então só o corpo central pode assistir  à comerzaina e os outros corpos? Assim, os que lá estão já nem se podem organizar para socializar:
- Oh people passem para cá uns tournedos de Rossini,
         eu quero uma Vichyssoise,
                   que saudades de um croquete,
                            raisparta o gourmet eu quero comida bem portuguesa, sardinhas, peixinhos da horta, favas com chouriço.
         Acho mal, fecharem-lhes a porta.
         Comigo, a partir de agora, já vou avisando, é assim: Jantar especial tem de ser em Paris junto do Napoleão. O resto é um deja vu.

         Escrevendo a sério, esta não novidade foi hilariante. A corrida desenfreada ao lucro dá nisto.
         Fui ler o despacho 8356/2014, as minhas gargalhadas duplicaram.
Artigo 3.º
Princípios Gerais
1. Todas as atividades e eventos a desenvolver terão que respeitar o posicionamento associado ao prestígio histórico e cultural do espaço cedido.
2. Serão rejeitados os pedidos de carácter político ou sindical.
3. Serão, ainda, rejeitados os pedidos que colidam com a dignidade dos Monumentos, Museus e Palácios ou que perturbem o acesso e circuito de visitantes bem como as atividades planeadas ou já em curso.

         Ora políticos e sindicalistas não são recomendados. Se for o casamento de um Salgado vá que não vá, agora se for jantar de Natal de um sindicato, isso não.
Uma coisa é um jantar de Halloween, outra coisa é um jantar da Web Summit O Halloween´está para o MacDonald, assim como a WEB Summit está para o Panteão Nacional.  Mai nada!
         Se for uma reunião de carteiristas, poderá ser? E se for apresentação de um livro sobre Alves dos Reis?
         Se for um baile de debutantes pode? E se for uma dança de varão, não pode? E se for Pole Dance integrada em feira medieval ou seja a bailarina vestida de D. Urraca, já pode?
         Onde anda o bom senso dos que aprovam estes eventos? Ainda é preciso mais legislação? Acho que só falta fazer um desenho!

Por favor parem, senão salto em andamento!!!!

10 novembro, 2017

PEREGRINAÇÃO

 Não fico em casa porque está em exibição o filme “Peregrinação” de João Botelho.
O tema e o herói interessa-me,  o realizador também e tinha curiosidade em saber como se interligou a música “Por este rio acima” do Fausto.
Valeu a pena ver. Mais uma obra de arte assinada por João Botelho, que ultimamente nos presenteia muito acima do bom.
Quem viu O desassossego, que para mim que não sou cinéfila, é o top do top, não se decepciona com Peregrinação.
As aventuras e desventuras desta figura histórica que navegou pelo Oriente durante 21 anos, onde foi “13 vezes cativo e 16 ou 17 vendido, são tratadas com grande inteligência e sensibilidade. Não há cenas a mais nem a menos. É um relato de imagem personalizado pela imaginação do realizador, sabiamente articulado com o coro personificado pelos companheiros de Fernão Mendes Pinto.
Predominam cenas com pouca luz, que propositadamente evita erros de cenário e converte todo o registo muito intimista.  Só falhou o pormenor das cordas, sempre novas, sempre branquinhas, acabadas de sair da cordoaria.

06 outubro, 2017

A grande onda

A grande onda de Kanagawa

uma famosa xilogravura do mestre japonês Hokusai.Foi publicada em 1830. Nesta gravura observa-se uma enorme onda que ameaça um barco de pescadores, na província de Kanagawa, estando o monte Fuji visível ao fundo. Apesar da sua dimensão, esta onda pode não retratar um tsunami, mas uma onda normal criada pelo efeito do vento e das marés.
… E DEPOIS

Sou eu a brincar
Ana Kanagawa

05 outubro, 2017

Catedral Patriarcal da Sagrada Ascensão de Deus





 Diário de Viagem - Veliko Tornovo - Bulgária
A Catedral Patriarcal da Sagrada Ascensão de Deus está localizada no topo da colina Tsarevets. Tem um acesso apenas pedestre. Vale o esforço da subida. O patriarcado de Tsarevets é uma fortaleza, muralhada e a Catedral Patriarcal fica no topo da elevação.
 Não considero relevante a situação arquitectónica bizantina. A decoração interior, que foi actualizada nas obras de reconstrução do século XX,  é fabulosa e invulgar. O pintor Teofan Sokerov, registou momentos importantes da história búlgara medieval, mas num traço modernista e libertário. Devido a esses murais, a igreja nunca foi reconsagrada e permanece inativa. As figuras representadas são enormes, com tonalidades de negro, cinza e vermelho, e criam um grande impacto no visitante. Eu não sou excepção. Nunca mais perderei esta memória.