14 maio, 2017
10 maio, 2017
Mas que aventura é esta, Madame?
Mas que
aventura é esta, Madame?
(Publicado em NVR)
(Publicado em NVR)
Deveria escrever sobre as eleições
francesas, mas vou ser um pouquinho egoísta, egocêntrica, narcisista e escreverei
sobre mim. Não é todos os dias que se publica um livro…
A mala do meu carro está cheia de
livros e agora tenho que lhes dar rumo, soltá-los no mundo. Publiquei o meu
primeiro livro como escritora. Esta designação não me assenta bem, pois sou uma
humilde aprendente da arte de escrever, que me tem encantado ao longo dos anos,
sem estilo, fragmentada e em contramão. Costumo estar no lado dos desenhos, mas
agora… Ser escritora sugere algo de profissional, que não sou. Não resisto a um
desafio, tenho a mania de meter o nariz onde não sou chamada e não me intimido
o suficiente, em percorrer caminhos que não domino.
Enfim, sou mesmo assim!
Poderia estar quietinha a viver a
maturidade, sentada num sofá, olhando a televisão, fazendo tricot para olear as
artroses das mãos, chupar rebuçados para a tosse, cortando os dias no
calendário um após outro e queixando-me todos os dias, desta vida madrasta.
Levaria uma vida mansa cheirando a mofo, mas santa, sem trambolhões, respirando
todos os dias da mesma forma, conservando o batimento cardíaco na mediana,
rezando a Deus para me manter a tensão arterial estável e substituindo as
gargalhadas por um mero esgar dorido da mandíbula.
Pois, mas essa não sou eu.
Tenho uma mala cheia de livros de
cor azul-cueca, com um título polissémico e uma fotografia minha, com rosto que
oscila entre o desconfiado e o aborrecido, como se estivesse no tal sofá da
vida mansa - fotografia de adolescente incompreendida em idade do armário, sempre
a descobrir uma forma de questionar, de protestar contra tudo e contra todos-
Tenho um filho maravilhoso, nunca
plantei uma árvore, pois a botânica dá-se mal comigo e o livro não passa da
primeira parte de uma aventura, que nem sei como irá terminar. O que dirão os
verdadeiros escritores que muito respeito, deste “projecto de livro”?
Nestes dias, permaneço meia obtusa,
quando percebo que criei grandes expectativas naqueles que me estão próximos….
E agora? A responsabilidade cresce e desgasta. Sou assaltada pela insegurança. Onde
arrumei os Kompensan? E se eles não gostarem? ou forem indiferentes, o que é
muito pior? A obra deixará de ser minha e passará a ser pública. Cada um lerá e
interpretará do seu jeito, que poderá não coincidir com o meu.
Porque não criei mais um pseudónimo,
que me assegurasse o anonimato, livrando-me deste desconforto que me acelera o
ritmo cardíaco? Lá está o meu nome, a fotografia, a biografia e o conteúdo,
multiplicados por muitos exemplares – todos seguidinhos azuis; á espera de
destino. Não bastava um!!!…
Socorro quero sair em andamento!!!!!
Tirem-me deste filme!!!! Grito para mim mesma, nesta postura de conversar de
mim para mim, olhando os livros agrupados em pacotes plastificados, aguardando
decisões e apelando para o bom senso que emigrou da minha vida há muito tempo.
Mas que aventura é esta, Madame?
Meto-me em trabalhos e agora? Ando sem filtro, sem airbag, sem rede, sem cinto
de segurança e estiquei-me demais…
E agora o que fazer com a adrenalina
em excesso?
- Coloco chapéu e óculos escuros e vou
fingir que não me conheço. E os espelhos cá de casa?
- Aproveito e vou de fim-de-semana para
a Islândia durante 30 dias? Todos sabem que nunca fugirei para norte.
- Invento doença contagiosa,
daquelas de pintar a pele com bolhas gigantes? Certamente me irão esperar na
saída do hospital
- Salto da ponte? Colocar-me-ão um
elástico à cinta e gritarão: SALTA! SALTA! S-A-L-T-A!
Fazer o quê?
- Transformar os livros numa bela
escultura azul cueca?
“O fato que nunca
vestimos”
No Centro Cultural e
Regional de Vila Real, dia 11 de maio pelas 21h15m.
Vestirei coragem e lá
estarei. J
09 abril, 2017
AGORA É TARDE!
Estava a 1000km de Vila Real e recebo três sms com a notícia
da demolição da panificadora, e mensagens respectivas:
1 – Sem comentários
2 – Olha para isto!!! Quelhas, não fazes nada?
3 – Professora, perdemos a luta, rebentaram com a panificadora,
não serviu de nada o trabalho que fizemos na escola.
Nem sei o que devo dizer/escrever e não ouso partilhar o que
já me passou pelo pensamento.
Sinto-me triste.
Vila Real acaba de perder um edifício com algum valor
arquitectónico e a culpa não é de ninguém, dizem. Nunca ninguém tem culpa de
nada. Dizem que a culpa morre sempre solteira.
Se alguém pensa que um edifício de apartamentos será um ponto
de atração para forasteiros virem visitar à cidade….
Se alguém pensa que um caixote qualquer pode gerar orgulho nos
habitantes desta cidade…
Se alguém pensa que uma máquina a derrubar paredes dará
brilho à nossa identidade…
….tstststst desenganem-se.
Não culpo o proprietário do edifício, seja um tal senhor da
Régua ou seja a cadeia dos supermercados LIDL, ou seja quem for…. Até admiro a
sua paciência e tolerância pela indefinição que certamente rodeia este investimento.
Sinto-me triste pela inercia das instituições, pelo “deixa
andar” ao longo de 20 anos, dos que gerem a nossa cultura e o nosso património,
…
mesmo sem dinheiro é possível fazer tanta coisa, entre as quais classificar,
proteger, legislar e informar.
Não deveriam ser os cidadãos a propor a integração de
determinado edifício como património, o IPPAR, a Secretaria de Estado da Cultura,
as Câmaras Municipais e Juntas de freguesia, deveriam ter os seus territórios
inventariados, evitando a revolta e a indignação dos cidadãos. As instituições estão
cheias de arquitectos, engenheiros, economistas e a fina flor do conhecimento,
e o q fazem?
Sabem, fico triste porque o Pioledo já não existe, os SLAT também
não, a casinha dos azulejos da rua Visconde de Carnaxide cedeu espaço para a
rotunda, a tasca do alemão fechou, o Excelssior eclipsou-se, o jardim da
avenida foi decepado, os brasões estão esquecidos nas bordas de um jardim… Sabem, fico triste, porque a seguir, serão as
adufas que irão apodrecer, será a varanda renascentista que se irá desmontar, serão
os brasões que irão perecendo em nome do progresso. Um dia cairá o coreto do
jardim da carreira, o jardim será transformado em parque de estacionamento, o
telhado da igreja de S. Dinis ruirá completamente, já ninguém saberá do Espadeiro
e a casa de Diogo Cão passará a ter um chinês na máquina registadora. Nesse dia
o Carvalho Araújo fará um manguito a esta cidade. Somos pobres, cada vez mais
pobres, com a mania que somos os maiores.
Isto representa trinta anos de sucessivas asneiras e perdas.
Ah mas
temos um LiDL, um Continente, um Shoping, um MacDonald, um teatro, um museu, rotundas
e edifícios gigantescos que parecem caixotes fatiados, que tanto poderiam estar
aqui como em qualquer ponto do planeta.
“Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC)
abriu agora o processo de forma “a impedir danos continuados no imóvel em vias
de classificação”, informou este organismo, que considerou que o edifício está
em risco.”
AGORA É TARDE!!!!!
Sinto-me triste… uma tristeza que engloba dezenas de alunos, respectivas famílias,
e alguns Vila-Realenses que acompanharam toda a tentativa de preservar o
edifício.
- Bruno, confirmo, perdemos a luta, não serviu de nada o
nosso trabalho.
- … e não faço nada, já fiz a minha parte e há um registo na
net para quem quiser consultar.
Copio a parte final da minha acção (9/06/2014)
Avaliação
Este foi um tema muito
oportuno para levar os alunos a pensar na sua cidade, despertando as suas
consciências como cidadãos críticos e intervenientes e ampliando os seus
conhecimentos culturais e estéticos.
Lancei este tema sem
antecipar que seria desenvolvido em simultâneo com o desaparecimento do grande
artista plástico. Tive o privilégio de provocar ainda os últimos sorrisos de
Nadir ao comunicar-lhe o entusiasmo que rodeava este projeto de trabalho.
A minha tarefa termina
aqui.
Relembrei à população
de Vila Real, como é necessário estar atenta para conservar o seu património,
divulguei a obra de Nadir Afonso e solicitei à Câmara Municipal a classificação
da panificadora de Vila Real.
Fica aqui o registo de
toda a dinâmica realizada.
Bem hajam a todos
Anabela Quelhas
21 março, 2017
Sendo dia de poesia
Sendo dia de poesia
Sendo dia da poesia, escrevo em
prosa e não em verso, para que a distinção se sinta nesta minha atitude ousada
de insistir em juntar as palavras sem regra. Escrevo sem rima, sem métrica, sem
estrofes, sem versos, ao meu ritmo e ao meu estilo, aventurando-me em
território desconhecido e que não domino. Escrevo como vivo, um pouco em
desalinho, um pouco em contramão, abrindo os canais das vivências interiores e
dando-lhes forma, sem filtros, sem regras, ensaiando a liberdade plena que só
os ignorantes praticam. Nem sempre distingo o verso da prosa. Para mim tudo o
que dou um sentido mais estético e mais profundo, mais temperado com toda a ansiedade
e carência afectiva que habitam em mim, é poesia.
Gosto de poemar.
Gosto de me expressar em linguagem
intrigante, inquieta e misteriosa, que tenha impactos diversos para quem a lê
ou quando se lê. Descubro-me só, nestes momentos mágicos da escrita, não
conseguindo prever quando escrevo, o que escrevo e para quem escrevo. É uma
aventura dialéctica que flui na primeira pessoa, como se fosse um auto-retrato primaveril,
que me tranquiliza desenhá-lo e vive-lo, descobrindo sensações diversas no meu
íntimo sentimental.
Poemar é viver sempre na linha que
divide o real do onírico, realçando o sublime e o simbólico, é ser capaz de dar
brilho a encantamentos obscuros que desconheço em mim. É um grito imprevisto, é
um gozo profundo, traduzidos numa linguagem feita de corpo e de alma, que pode
ser doce, elegante, com fragância a jasmim, mas também pode ser agressiva e
violenta, capaz de rasgar preconceitos, mover precipícios, derrubar muros e
libertar lágrimas salgadas de mim. É melodia sem pauta, é dança com fogo, é
geometria sem teoremas, é mar solto sem horizonte, é tempo intemporal e sem
dimensão com perspectivas diversas.
É ouro… é prata recortada de luar.
Escrevo para quem?
Mas tem de
haver alguém no destino?
Escrevo
para a terra vermelha, escrevo para um homem que não existe, escrevo para a
paixão infinitamente trancada no meu coração, escrevo para quem se irmana
comigo neste desespero desassossegado e profano de estar e não estar, escrevo
para aqueles que acreditam no arco-iris, escrevo para o universo que me inclui e
me respeita, vestida na minha reduzida dimensão.
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” – Anabela Quelhas
19 março, 2017
18 março, 2017
Tulipeira da Virgínia
Ontem tive a honra de conhecer uma Tulipeira da Virgínia,
com mais de 250 anos, a mais antiga de Portugal. Apresentaram-ma no Jardim do
Museu dos Biscaínhos. É daquelas arvores em que são necessárias várias pessoas
para a abraçar.
Sempre me sensibilizam árvores idosas. Permanecem
silenciosas centenas de anos, testemunhando a história dos dias e das noites,
conferindo cada pessoa que passa, cada afago, cada gesto ternurento dos casais
apaixonados, absorvendo o riso das crinaças e constituindo abrigo e poiso da
passarada.
Muito prazer em conhecer, Liriodendron Tulipifera.
AQ
13 março, 2017
13 de março
O dia 13 é o teu dia. Um algarismo sem azares e cheio de
afectos de mãe, manifestados desde onde o meu conhecimento não alcança.
Gostava das tuas mãos que me acariciavam, dos teus olhos que
me protegiam, do teu colo que me acolhia, da tua gargalhada que me entusiasmava,
da tua determinação que me iluminava caminhos, da tua resistência que eu
tentava copiar, da tua força que nunca tive.
Aos 6 anos usei os teus vestidos, davam-me até aos pés, arrastavam
pelo chão, calçava os teus sapatos e pavoneava-me ao espelho, querendo
imitar-te e tu sempre me ensinaste a construir a minha própria identidade.
Tinhas a sabedoria de converter o árido em confortável, o
insalubre em gostoso, o desinteressante em útil e o impossível em realizável.
Quase nunca te vi doente antes da hecatombe final, nunca te
ouvi uma queixa, nunca percebi um desaire, um desânimo…
Por onde andarás?
AQ
11 março, 2017
Três Estudos de Lucian Freud
O tríptico
«Três Estudos de Lucian Freud», de 1969 - 106 milhões de euros foi o seu valor
pago em leilão. Uma das obras mais valiosas do mundo (2013).
Um tríptico cuja
repetição sugere a 4ª dimensão, o tempo, e associa efeitos visuais que perturbam
pelo isolamento deduzido na observação. Francis Bacon faz um enquadramento geometrizado, com
linhas de projecção, constituindo cenário variável, referenciando o vazio e definindo
o limite entre interior e exterior.
As faces
distorcidas do próprio rosto causam inquietação – teremos em nós, um mostro
adormecido? – tornando visível o invisível. A multiplicidade de interpretações
e sensações provocadas é evidente. Obra de grande valor para a psicanálise. Este
tríptico continua a ser motivo de estudo, de análise e de reflexão filosófica,
situada entre os conceitos de sensação e emoção.
AQ
08 março, 2017
Uma competência desmedida
Uma
competência desmedida de diversos desempenhos – ser mulher.
Faz todo o sentido, dar destaque a um
dia sobre a mulher. E não é porque é mais um dia para comemorar, para jantar
com as amigas, com o namorado ou com o marido, como tantos outros… apenas porque
há quem continue a remeter a condição de mulher para a indignidade, tornando-se
necessário criar alertas.
Enquanto houver mulheres que são
discriminadas, porque são mulheres, vale a pena falar, dizer, escrever e até
gritar, neste dia e em todos os outros… mas neste dia pode ser que nos oiçam
melhor.
Há coisas inacreditáveis:
“Rússia vota lei que
permite bater na mulher e nos filhos uma vez por ano.” então senhor Putin?!
“Eurodeputado diz
que mulheres são menos inteligentes que os homens.” este Janusz Korwin-Mike mede as mulheres pelo xadrez?!
“Mais de seis mil
mulheres em Portugal submetidas a mutilação genital feminina” sublinho em
Portugal… sabiam? São guineenses, mas vivem em Portugal.
“Em 2016, em
Portugal foram registados 15.724 crimes de violência doméstica contra as
mulheres” acham pouco?
“Os salários das mulheres representam
entre 70 e 90% dos salários de seus colegas masculinos.” a estatística da ONU,
incidiu só sobre calceteiros, pedreiros, guarda-costas, estivadores e outras
profissões onde se exige força muscular?
“A maternidade continua a ser uma fonte de discriminação no
trabalho.” os que discriminam nasceram de chocadeira?
Esta luta
diária que envolve a maioria das mulheres, merece reflexão e destaque. É
preciso DIA DA MULHER, sim!
Claro que há
mulheres entediantes, chatas, histéricas e fúteis, assim como há homens
canastrões, primários, com mau hálito, com pêlos a transbordar das orelhas e
com a unha do dedo mínimo sempre a crescer, mas conhecem acto mais altruísta,
do que ser mãe?
Aos doze anos,
enquanto os rapazes jogam à bola, nadam na praia e estão sempre prontos para
todo o tipo de tropelias, as jovenzinhas adolescentes, doí-lhes a barriga e é
aquilo todos os meses.
Quando os
homens não assumem a paternidade, imaginem para quem sobra aquele acto de amor
tresloucado sem protecção?
Ser mulher é
quase uma missão com lutas diárias na afirmação pela igualdade em relação ao
homem, é ter uma competência desmedida de diversos desempenhos, para avaliar
constantemente fragilidades, e propor assertividade e equilíbrio, anulando
desigualdades.
Ser mulher é
ser sensível, mas determinada nos seus objectivos e tem algo intrínseco à sua
condição de género, que a leva a gerir contrariedades e ser pacificadora. A
mulher tem pouca força muscular, mas tem força mental para dar e vender. Há um
encantamento que lhe vem dos genes e da alma, que a torna delicada e feminina. Tenho
orgulho em ser mulher.
Mas se for
apenas um pretexto para ir jantar fora com o marido, quebrando a rotina duma
relação, ou para alguém lhe oferecer uma flor, qual é o problema?
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05 março, 2017
04 março, 2017
Há brancos que invadem as noites
Há brancos que invadem as noites
Parecendo um mar que invade a montanha,
Mar sereno e tranquilo,
Que se escuta pelo silêncio do nosso olhar.
Cobrem penedos e os ângulos mais agudos,
Gelando o calor e a melancolia,
Tornando as horas sem tempo
Mais longas e fechadas sobre si.
A lua vira prata, a escuridão vira luar,
O hoje escorrega para o amanhã,
E eu permaneço aqui, imóvel,
Recordando para onde voltarei,…
Cassiopeia!
AQ
23 fevereiro, 2017
15 fevereiro, 2017
Sei sentir a desolação
Sei sentir a desolação
Dois
dias de vendaval e duas noites de arrepiar, com o vento a assobiar
transformando qualquer casa, em casa assombrada, permitem que tudo voe
fustigado pela chuva. As telhas resolvem sair do lugar, as árvores vergam-se
parecendo feitas de plasticina, os rios transbordam e o S. Pedro lá em cima,
esquecido de nós, navegando na net ou jogando numa playstation celestial. Depois de tudo isto e das peripécias que se
adivinham, há que acordar cedo para abraçar a montanha. O frio gelado e seco
penetra pelas malhas das camisolas de lã, pelas solas do calçado, entre os
dedos das luvas, doptando o meu nariz da sensibilidade de num marco geodésico.
Hoje
foi assim: as rochas graníticas, a montanha, os regatos, o mato rasteiro, os líquens,
a floresta, a visão ampla com 360 graus de amplitude, as pessoas habituadas a
lidar com o frio agreste das montanhas beirãs, e eu….
Os
bombos, tocados por habitantes de aldeias vizinhas, exibem sonoramente a
consideração por S. Brás, no dia cinco de fevereiro, competindo na percussão
ritmada, dando voltas à pequena capela onde cabe pouca gente.
Não
interessa o frio, não interessa o vento cortante vindo de norte, não interessam
as nuvens negras, que correm no céu sem cerimónia, anunciando que o vendaval
ainda não passou e certamente a chuva desabará de novo sobre nós. Afinal todos
os anos é assim. Estamos em pleno Inverno – tempo de meias de lã, ceroulas,
gorros, camisolas interiores, cachecóis, samarras, comidas e bebidas fortes e
tudo que possa aquecer o frio.
Interessa
o encontro entre várias gerações em S. Brás dos Montes, junto à capelinha, onde
se rezará a missa de festa por volta do meio-dia. Desfilam os homens com os
bombos conforme vão chegando ao cimo do monte. As crianças socorrem-se dos
gorros de orelhas, cobertos de casacos quentes com carapuço, para fintar as
otites e os resfriados. Os homens cobrem a cabeça com um chapéu…
PUM,
PUM; PUM; PUM
…
e cada grupo encaminha-se para o espaço reservado à sua comunidade, onde irá
merendar os petiscos saborosos desta região, trazidos de casa. Apeiam-se os
bombos e ensarilham-se as mocas e varapaus do povo, que os acompanham, para que
não haja a possibilidade de haver agressões mal pensadas, depois de um copo de
vinho, para acertar contas antigas ou contas mal feitas. Parece que antigamente
houve uma lei que determinou este comportamento, fazer descansar as mocas
durante a permanência naquele recinto – vale mais prevenir do que remediar.
Ouvi
lamentos:
-
Este ano está menos gente! Antes, as pessoas cobriam os montes.
-
Não vieram nem metade dos bombos, porque não há quem os toque.
-
O povo não afluiu, talvez receando o mau tempo.
-
Não, não, saíu muita gente! Há gente que foi para fora, lutar pela vida.
Eu
como forasteira não consigo avaliar, mas já li este desânimo, lamentado e
escrito noutros lugares com paisagens semelhantes, onde reina o granito, o céu
e o frio, e onde as pessoas escasseiam cada vez mais. O desânimo por ver
desaparecer tradições, que se foram repetindo durante séculos, criando
identidades e unindo pessoas, conferindo orgulho a quem vive nestas regiões
inóspitas e lembrando periodicamente a parte simbólica da sua cultura, espelha-se
na perda do brilho no olhar, dos que restam e que teimam em permanecer, comendo
uma lasca de presunto a um canto, observando os espaços vazios da sua gente.
Sei sentir a desolação da morte agonizante
deste Portugal, perdido entre auto-estradas e caminhos de terra enlameados, descoordenado
com a vida contemporânea feita de políticas pouco assertivas e desumanizadas,
onde as pessoas têm de desistir dos locais que as viram nascer… abandonando,
família, amigos, afectos e território.
AQ
Publicado a 15/02/2017
em NVR
13 fevereiro, 2017
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