27 agosto, 2015

Casa Barbot - Vila Nova de Gaia

Casa Barbot
A casa mais bela da cidade de Gaia, uma das mais belas da zona do Porto e do norte do país, funcionando como instalações do Pelouro da Cultura. Património e Turismo e denominando-se Casa Municipal da Cultura é indicada aos turistas como local a visitar e onde se faz, parte da mostra da Bienal de Arte de Gaia 2015.
Prefiro chamar-lhe Casa Barbot, como sempre lhe chamei. Construída em 1915, localizada na Av. da República, Vila Nova de Gaia, marca uma época, sendo o único exemplar de arte nova desta cidade e foi classificada em 1962 como imóvel de interesse público. Na informação on line consta que a casa foi alvo de obras de recuperação realizadas pela Câmara Municipal.
Experimentem entrar.
Nos últimos dois anos visitei-a duas vezes e duas vezes me decepcionei. É visível a degradação progressiva da casa. Se houve obras de recuperação foram certamente mal executadas ou não se garantiu posteriormente, a conservação do edifício. Infiltração de águas, fissuras, vidros partidos, abajurs mal substituídos, pavimentos sujos, gessos a cair, papel de parede descolado, cheiro a tabaco, e… uma máquina de bebidas …. emparedaram o fundo do jardim…  adicione-se  um desleixo visível da parte de quem lá trabalha: automóvel estacionado no jardim, caixotes no chão, mangueiras no jardim, tapete de gosto duvidoso, escova do cabelo na instalação sanitária…. enfim…. observem as fotografias, ampliem e observem.
Não tive acesso a toda a casa. Isto foi apenas o que eu vi. Tive dificuldade em fotografar e disfarçar esta realidade. Eu sei que talvez tenha espreitado onde não devia,  eu sei que não há dinheiro, eu sei que , eu sei , eu…
Eu sei que a entrada é gratuita, mas eu preferia pagar.
Como é gaienses, temos um teleférico para apreciar o Porto e não temos uma casa Barbot para deliciar o olhar?
Não tenho palavras, apenas indignação.
AQ
 (clique na imagem para ampliar)

Qual chafariz, qual que???? uma torneira à maneira




 
Os guarda chuvas, os caixotes e o cheiro a tabaco










O caminho traçado no pavimento que esbarra com uma parede


O tapete improvisado, com os dois pézinhos
 



À esquerda o pormenor do secador de cabelo e da escova; à direita o doseador

Os abajours, até um verde teve lugar neste candeeiro





Lindo!
 



O veículo que insiste em ficar na fotografia

Isto pretende ser um jardim




 

 

Construção localizada ao fundo do jardim


Janelas fechadas


 

 

15 agosto, 2015

MAZGANI


Assisti hoje a momentos de rara beleza.
 Um pequeno concerto ao ar livre, junto a uma esplanada integrada num grande parque com relva, árvores e rio, e supostamente com um pôr-do-sol, a poente. O pôr-do-sol ausentou-se entre o céu nublado, mas tudo o resto foi mágico. O silêncio do espaço verde, recortado por pequenos sons infantis, das crianças que brincavam ao longe e as soberbas baladas de Mazgani. Cantor, guitarrista, escritor das canções que interpreta e que encanta quem as ouve, levando-nos a mundos imaginários.
 Só perdeu quem não esteve - o ambiente bucólico de final do dia e as baladas de Mazgani a tocar-nos na alma, são oportunidades únicas na nossa vida para nos sentirmos privilegiados.
 O público desta vila, ainda não se habituou a estas bolsas de alta qualidade musical que vão acontecendo por aqui e que são irrepetíveis.
 A primeira vez que vi e ouvi Mazgani foi na FNAC, há mais de ???? 4 ou 6 anos… depois assisti a 2 espectáculos nesta cidade e agora conforme se foi tornando numa estrela, pensei que deixaria de ter oportunidade de o ouvir ao vivo. Engano meu - Mazgani , sozinho, sem banda, ao pôr-do-sol que não houve, a escassos metros de distância de mim, bebericando chá e brincando com as palavras e com a música.
 Excelente,

 AQ

 

11 julho, 2015

Camaro lindo


Camaro Lindo

                Um amigo meu, olhou-me de soslaio com olhar crítico, pensando que eu tinha enloucado, quando afirmei que até do cheiro a combustível queimado, eu tinha saudades. Gostava do som dos motores, dos arranques, do chiar dos pneus nas curvas, dos estampanços… Claro que era eu a dissertar sobre as corridas de Vila Real, realçando que várias gerações vibram ou já vibraram com este grande evento de rua, que Vila Real se habituou a ter, umas vezes tendo e outras não tendo, mas fazendo parte da identidade desta cidade e dos seus cidadãos. Velhos e novos, geralmente gostam dos motores a acelerar. Venham-me dizer que o som dos automóveis é todo igual… não é mesmo! Em 1931 que este gosto germinou e cresceu até hoje, com muitas intermitências, alimentando as emoções, as vivências e constituindo memória logo após a chegada dos automóveis à meta.

                Costumo receber os meus amigos em Trás-os-Montes, brindando-os com uma miniatura de um pucarinho de Bisalhães atada a um texto de Camilo Castelo Branco. Depois numa segunda volta, ofereço um livro da Graça Morais, “ilustrado” com o Reino Maravilhoso de Torga. Numa terceira volta, é um livro sobre as corridas de Vila Real que eu selecciono para oferecer. Este evento, só da minha parte, já correu mundo: Brasil, Canadá, Austrália, India, Rússia, Chile… levar Vila Real a todos estes lugares, é obra! Alguns maluquinhos das máquinas corredoras, não sabem bem se Portugal é uma região de Espanha, mas sabem onde fica Vila Real das corridas pelo seu circuito urbano.

                Nesta cidade, sou sempre um ser de passagem e portanto não fui assídua entre os motores, mas fui assistindo à mudança das metas: primeiro em frente ao parque florestal, depois na avenida Aureliano Barrigas, Mateus e no sítio actual. Comecei o meu currículo, ainda muito criança, em Julho de 1966.

                Não posso deixar de escrever que assisti a uma final memorável, em 1973, na sua 20ª edição, entre Ernesto Neves e Pêquêpé, ambos corriam com Chevrolets Camaros, de trabalhar inconfundívelmente manso, sereno, eficaz e silencioso, primos direitos de um carro do meu pai, que nos tinha transportado até à aldeia da Bouça, para vermos as corridas no percurso de Abambres. Foi emoção até ao fim, num despique frenético… Emoção, ansiedade, nervosismo, roer de unhas, palmas e palmas, para o Camaro lindo, amarelinho, que acelerava potentemente estrada fora e nós em cima de um muro, virando rapidamente a cabeça para acompanhar a velocidade ao passar, sob um sol escaldante do mês de Julho.

                Durante alguns anos, assisti na curva da salsicharia, ou curva da Areias, que remata a ponte metálica… o melhor sítio para ver e ouvir a curva e por vezes, presenciar a lata a bater nos railes, circunscrevendo alguns peões no desfazer da curva, desenhada em ângulo recto entre as casas novecentistas. Punha uma mesa grande, recheada de deliciosos petiscos de Vila Real e muita bebida… sempre abastecida durante 3 dias, apoiando os treinos e as finais, para a família e para os amigos, que iam rodando em minha casa, assistindo com visão privilegiada em plano picado, sobre os automóveis em movimento. Ter os automóveis a correr à porta de casa, gerava conflitos óbvios com as entradas e as saídas, dos que já nasceram velhos e com mau feitio.

                Numa cidade deserta de eventos como era Vila Real há uns anos atrás, as corridas eram o raio de soll que batia para cá do Marão. Não interessava apenas o espectáculo em si, anunciado, organizado num calendário, com horas marcadas e pista vedada… durante a noite, nascia uma festa dentro de outra festa. Os mais fanáticos, loucos, divertidos e palhaços, criavam a corrida dos aceleras, que tinha tanto de hilariante e divertida, como de perigosa e inconsciente. Jogava-se de gato e de rato com a polícia, numa corrida clandestina de veículos barulhentos, feitos de lata velha e sem matrícula, que arriscavam tangências, peões, engasgadelas de motor e outras peripécias improvisadas, colhendo grandes aplausos das plateias já organizadas para o efeito. Todos calçávamos sapatilhas, no caso de ter que lhes dar corda e rapidamente ir para os locais vazios da polícia, ou ter que escapar a situações complicadas. Isto passava-se depois das 22h e estendia-se até às tantas.  

                Não há gosto sem desgosto! Tenho engolido rotundas limitadas por pneus, semi-rotundas, “uma espécie” de rotunda, trânsito condicionado, vedações e rails… quando se fazem opções, ganha-se e normalmente sempre se perde alguma coisa. Eu que não me sensibilizo com as grandes questões da mecânica e muito menos de competição, desconhecendo a função e a articulação entre motores, escapes, válvulas, carburadores, turbos, mergulho nesta adrenalina das 4 rodas, nem sei bem porquê. Até me agrada o cheiro do combustível queimado e o ronrorar dos motores são música para os meus ouvidos! Venha o diabo e o Deus explicar isto, mas que se sentem numa bancada para assistir a uma final. Tragam chapéu!

10 julho, 2015

Experiência Miró

Grande experiência que merece estar no estirador.

04 julho, 2015

Normal, normal


NORMAL, NORMAL

                Parece que temos a melhor colecção de coches do mundo. Não sei, mas o que temos é francamente belo e deslumbrante sem dúvida alguma, constituindo uma grande riqueza patrimonial. Já conhecia muitos dos exemplares expostos no novo museu, das visitas ao Museu dos Coches original e também do Palácio de Vila Viçosa. A maioria são peças sumptuosas, algumas barrocas, cheias de detalhes, viaturas de gala e de passeio com tracção animal, construídas essencialmente em madeira, entre o século XVI e XIX, para apoiar as deslocações da realeza portuguesa e dos seus visitantes.

                Sempre que me deparo com uma viatura destas, imagino a história da gata borralheira. Através da magia, a fada madrinha, voluntariosa, transformava rapidamente e apenas com a sua varinha mágica, uma abóbora, numa esplendida carruagem, sem perceber patavina de mecânica ou de marcenaria, sem fazer projectos, maquetes e protótipos e, sem programas 3D e sem caderno de encargos, sem estar muito preocupada com as leis do movimento, da aerodinâmica, da ergonomia e certamente analfabeta em álgebra, aritmética e geometria, pois o prazo de validade das suas criações nunca ultrapassava a meia-noite, prazo muito reduzido, quase equivalente ao leite sem lactose ou ao requeijão (eheheh). Depois regresso ao mundo real e sabendo que ainda não possuímos essa maravilha tecnológica, dos contos de fadas, que é a fabulosa varinha, situo-me, vejo e avalio o trabalho manual na construção de cada pormenor, com as ferramentas da época e agora as operações de restauro, que suponho serem realizadas em continuidade, por especialistas nestas coisas do carbono, da ferrugem, do caruncho e das térmitas mais estranhas que adoram estar e reproduzirem-se nestas reais velharias, expostas à humidade, à temperatura, à pressão atmosférica e à luz, gerando mofos, bolores e outros agregados familiares pouco recomendados.

                Desculpem as ironias, mas eu quero mesmo falar do edifício. Para mim foi uma decepção já anunciada pelo que se foi tornando visível durante a obra, semi-escondida e semi-visível. Nos dias de hoje, fazer uma edificação daquela natureza, dimensão e custo, sem que ela garanta também, para além da funcionalidade a que foi destinada, uma afirmação estética ao nível da arquitectura do seu tempo, capaz de ser uma mais-valia numa cidade, que marque a contemporaneidade de forma singular, é um verdadeiro tiro no pé. Este edifício concebido pelo arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha Prêmio Pritzker, em parceria com os ateliês dos portugueses Ricardo Bak Gordon e Nuno Sampaio integra o grupo de edifícios de Lisboa que não acrescentam nada à cultura arquitectonica portuguesa e espero que não seja outra socratice realizada nas entrelinhas. 35 milhões de euros previstos inicialmente para o custo da obra, ir-se-ão transformar entre 200 a 300 milhões de euros, quando ela for concluída. Entregaram-se projectos e obras a quem não sabe fazer orçamentos ou os minimiza.

                Um dos co-autores afirma que pretende "fazer cidade a partir da arquitetura" – pretende, mas não consegue. Fala bem, argumenta melhor, cria uma teoria estruturante entre o edifício e a envolvente, mas na prática, resolveu de forma vulgar, sem brilho, sem originalidade, sem genialidade, que a localização e o programa mereceriam.

                É pouco provável que alguém se desloque de propósito a Lisboa para ver este edifício, por isso não fará cidade, certamente. Há edifícios contemporâneos que fazem cidade ou já fizeram, levando apreciadores de arquitectura a Lisboa, na época em que foram construídos ou até mais tarde: o Centro Cultural de Belém, o Oceanário, a Torre VTS, o Teatro Camões, o edifício Vodafone, a Caixa Geral de Depósitos, o Franjinhas, a Torre do Tombo, a Gulbenkian, o Pavilhão de Portugal, o Adamastor, o Multiusos, o novo Estoril Sol (Estoril), a Fundação Champalimaud, a Mesquita de Lisboa, A Gare do Oriente; o Museu Paula Rego (Cascais), a Universidade Nova de Lisboa, a Torre Monsanto, o Centro Ismaelita, o Heron Castilho, as Torres das Amoreiras, o Castil, o Pavilhão do Conhecimento e a até aquela igreja louca, inacabada, do Troufa Real, esta pelas piores razões… Neste momento para fazer cidade (Lisboa) é preciso ultrapassar ou ombrear minimamente com Siza Vieira, Teotónio Pereira, Vittorio Gregotti, Eduardo Souto Moura, Peter Chermayeff, Gonçalo Byrne, Charles Correa, Tomás Taveira, Calatrava, Frederico Valsassina, Arsénio Cordeiro, Conceição Silva e outros. Lisboa já tem uma coleção de boa arquitectura contemporânea e portanto é preciso merecer para fazer cidade, não basta querer.

                Dizem-me que a obra ainda não está concluída, que faltam grandes painéis multimédia nas paredes nuas interiores. Quanto a mim animará e enriquecerá o conteúdo, mas não o edifício em si. Sorrio-me com as características apontadas pelos comentadores e jornalistas, utilizando as palavras, geometria, brutalismo e minimalismo, como se isso justificasse a pobreza estética do edifício e a falta de genialidade manifestada pelos seus autores.

78 peças - coches, berlindas,  carruagens, cadeirinhas, carrinhos, liteiras, seges... expostas num edifico normal, normal (imitando Ricardo Araújo Pereira no seu boneco de calceteiro), que bem precisaria de uma varinha mágica com efeitos especiais e permanentes.

Vale a pena visitar, pelos coches. O resto funciona, mas não surpreende.

AQ – publicado em Revoltando os dias  no NVR 1/07/2015

28 junho, 2015

Entardecendo com Berlim


Entardecendo com Berlim

                Talvez fosse o último país para eu visitar. O preconceito de visitar um território feito de histórias complicadas e de difícil digestão, onde o nazismo vingou por um período de tempo, agredindo o mundo e a humanidade e pondo de luto a história do século XX, possuía-me desde sempre. Os alemães não são todos iguais, passou mais de um lustre de história, eu sei, mas Hitler falava às massas, com os seus discursos inflamados e as massas estavam lá para o ouvir, para o aplaudir e para o seguir. Isso é inegável.

                Sabemos que Hitler tinha consigo o génio da época da propaganda dos ideais, Joseph Goebbels defendendo que, uma “Uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade”, aglutinando multidões e alucinando coletivamente milhares de jovens em torno do nazismo e do seu Führer,… mesmo assim eles estavam lá, aplaudiam e deixavam-se seduzir. E não eram poucos e não desapareceram com o final da 2ª guerra. As imagens do ditador, fazem parte da minha formação cinéfila, tal como a de muitas gerações pós-guerra e moldaram o  meu desejo de conhecer o mundo sempre orientado para outras paragens. Era como se no mapa da europa não existisse tal país.

                A oportunidade de visitar Berlim bateu de frente com este preconceito e foi-se diluindo durante a minha permanência, através da evidência da história da cidade dividida e da cidade reunificada, com os últimos 25 anos de arquitectura  contemporânea, o meu ópio para muitas dores. 

                E tudo superou as minhas expectativas.

                Berlim é uma cidade martirizada pela história, uma cidade de muitas histórias violentas, que parece ter renascido após 1990. Evoquei a transmissão em direto pelas televisões do mundo, do concerto memorável do grupo Pink Floid, tendo adaptado a música The Wall, concebida alguns anos antes para outras circunstâncias. Li em Berlim um esforço meritório para unir a cidade, transformando as fronteiras de duas cidades forçadas a virarem as costas durante a guerra fria, num centro de grande interesse a muitos níveis. Berlim não é uma cidade para turista ver, é uma cidade construída para os alemães, dando resposta sempre aos seus interesses de cidade martirizada, mas capaz de curar as suas feridas.

                Olhei ao longe a obra de Siza Vieira, Bonjour Tristesse, que me transportou para outras histórias de outros lugares, não menos tristes e sem qualquer anúncio de um dia bom. Visitei o memorial do Holocausto, projeto de Eisenman, que consta de uma escultura gigante feita de blocos que, em planta, são todos rectângulos cujas dimensões me evocam sepulturas implantadas ordenadamente, mas cuja volumetria causa sensações de labirinto, de desconforto, de confusão,… Visitei também Daniel Libeskind… e o resto foi a festa da arquitectura, vidro e vidro, aço e vidro, transparências e reflexos, rua sim, rua sim, praça sim praça sim.

                Num sábado ao fim do dia, sentei-me olhando as pessoas aproveitando os últimos raios solares, deitadas pacificamente na relva da praça da catedral, no chão onde Hitler proferiu um dos seus discursos mais exuberantes da história, Lustgarten. Peguei no telemóvel e escrevi:

“19h43m num cruzamento de várias realidades e sensibilidades, com a história - um relvado, uma fonte, um rio, uma música clássica voando em sintonia com a brisa semi-nocturna, o museu de artes como cenário de lusco-fusco a catedral à sua direita. Relaxamento de pessoas que parecem pacíficas, numa urbanidade multicultural e multicolor, que pretende sossegar consciências, através do seu desenho urbano planeado, numa epopeia de raios laranja dum pôr-de-sol germânico. Talvez nunca mais estejamos comungantes deste espaço, talvez este seja um momento único na vida de todos, numa letargia de cansaço provocado por muitos e muitos quilómetros a percorrer e a conhecer esta Berlim feita de tudos e de nadas. Talvez não nos encontremos jamais, mas estamos aqui hoje, neste relvado simbólico, entardecendo com Berlim. Um frontão grego e colunas dóricas a dialogar com capitéis coríntios, afirmando modelos provenientes da Grécia antiga, grande berço da arquitectura, da filosofia e da democracia, permanente do orgulho dos conceitos de humanismo do ocidente, que afinal, não sei se todos teremos. O sol põe-se, vai iluminar outras urbanidades do mundo e para onde vai cada um de nós?” 
Publicado em NVR

06 junho, 2015

GÉNESIS


GÉNESIS

            Já vou na terceira oportunidade de apreciar ao vivo e a preto e branco, fotografias da autoria de Sebastião Salgado. Desta vez foi na Cordoaria em Lisboa.

            É uma gigantesca exposição, com 245 fotografias de grande formato, que já foi vista por cerca de 2 milhões de pessoas desde 2013, em vários pontos do mundo. Está organizada em 5 partes, “ Amazónia e Pantanal”, Espaços a Norte”, “Sul do Planeta”, “África” e “Santuários”.

            O grande tema “Génesis” (do grego Γένεσις, "origem", "nascimento", "criação") abre-nos janelas para a origem do planeta terra, tão mal estimado pelos nossos contemporâneos – uns porque pertencem a países desenvolvidos e industrializados, outros porque pertencem aos países em vias de desenvolvimento… mas, todos pecam.

            O seu autor referenciou-a como uma “história de amor ao planeta”, que expressa uma década do seu trabalho, mostrando-nos através do seu olhar, as situações mais primitivas que ainda hoje sobrevivem a este nosso mundo louco e idiota. Todas as fotografias formam um registo de grande valor, para nós que vivemos agora e para as gerações que se seguem, pois são um testemunho real dos recantos do mundo não explorados e não corrompidos pelo Homem civilizado, pelos seus negócios e pelo capital que tudo adultera. 

            Imagino que são fotografias obtidas em locais de difícil acesso, depois de dias e dias (meses?) cheios de privações, de obstáculos, de suor e de desânimo, que só uma grande determinação como a de Sebastião Salgado,  em partilhar connosco realidades tão distantes e tão estranhas, consegue transformar estas expedições tão singulares, em sucesso.

            Percorri a exposição de forma desorganizada, como tenho o hábito de fazer, devido a uma certa impaciência em percorrer o caminho dos outros. Permaneci mais tempo, vendo e revendo as fotografias de África, pois é por ali que mais me identifico. Colhi fotografias de fotografias, para poder rever e escrever sobre elas.

            A minha fotografia preferida foi obtida no sul Sudão, em 2006. Foca um acampamento de gado em Amak, com múltiplas transparências de cinzentos, resultantes de diversas fumaças que se destinam a afugentar insectos. Bovinos magros de grandes armaduras, com ar pacífico, entremeados com os seus guardadores que controlam e cuidam da manada, aliviando todo o acampamento de insectos que martirizam todos, a certas horas do dia e da noite. È um belo registo fotográfico e esta é a foto talvez mais popular.

            Mas há outras que mereceram a minha atenção. A investida do elefante que chama à atenção para a dizimação dos elefantes que alimentam o negócio ilícito do marfim (Zâmbia), as mulheres da tribo Mursi e Surma, últimas do mundo a usar discos nos lábios (Etiópia)…

            Todas as fotografias têm uma mensagem implícita, induzindo-nos para a preservação do planeta azul, assinada por este grande fotógrafo ambiental, acrescida de várias histórias paralelas que cada visitante poderá imaginar sobre, toda a equipa que apoiou o fotógrafo, tornando possível segundos de cliques invulgares em sítios recônditos do planeta, onde não passa o comboio, não há aeroportos, não existem navios, e os jeeps ficam a muitos quilómetros de distância, justificando-se verdadeiras peripécias, que são deduzíveis e circunstanciadas pelo raciocínio de cada um.

            Não vos maço com mais descrições. Não percam, a exposição estará em Lisboa até Agosto. Preparem-se para a fila a certas horas. Esta é a exposição que deveria por o mundo a pensar.

Podem consultar:

http://www.terraesplendida.com/genesis/ TE_GENESIS_INFO_CM-JF.pdf
Publicado em NVR
 

 

06 maio, 2015

SOU UMA BABY BOOMER e não sabia, mas estou bem, obrigada.


SOU UMA BABY BOOMER e não sabia, mas estou bem, obrigada.

            Sou um misto da geração Baby Boomer e da geração X, escrevendo num computador e usufruindo de algumas ferramentas da geração Z. Não dispenso a televisão, nem a internet, mas junto-me aos amigos para conversar e para me divertir. Leio livros em qualquer suporte e utilizo as web2.0.

            Não entendem o que estou a escrever? Não sou socióloga, mas sei que as últimas gerações encontram-se tipificadas segundo características… afinal, o mundo tem-se alterado rapidamente e tipificar facilita o entendimento entre todos. Achei piada às denominações, que também só por si espelham as grandes mudanças dos séculos XX e XXI.

            Antigamente as gerações sucediam-se aproximadamente de 25 em 25 anos e o mundo rodava muito devagar; quanto mais antigamente, mais devagar o mundo rodava, mas conservando sempre os minutos, as horas, os dias e os anos, do grande relógio do universo.

            Atualmente, o relógio é o mesmo, mas as gerações sucedem-se mais rapidamente, de 10 em 10 anos e estão catalogadas da seguinte forma:

Boomer – Nascidos durante a 2ª guerra, hoje aposentados, são pragmáticos, disciplinados, leais e admiram a autoridade. Sofreram na pele os conflitos mundiais potencializados pela 2ª guerra mundial. Foram criados em casa, pelos próprios pais, orientados pela moral e os “bons” costumes e são carentes de habilidade tecnológica.  

Baby Boomer (explosão de bébés, crescimento demográfico) - Nascidos após a guerra, hoje têm mais de 45 anos, com grandes capacidades de inovação, inventores de “Make love, not war” e têm aversão aos exercícios bélicos. Favorecem as artes como forma de evolução humana. O Woodstock e a guerra do Vietnam são pontos de referência nesta geração que estudou as ideologias e viveu as “ revoluções” dos anos sessenta e setenta (emancipação da mulher, movimento hippie, Che Guevara, liberdade sexual, direitos civis, Martin Lutter King, ida à lua, rock and roll e a TV). Muitos ocupam hoje cargos de chefia e privilegiam a gestão dos conflitos, num quadro de valores libertários e otimistas, com ideais humanistas. Assistiram ao nascimento da tecnologia. Desafiam o sistema onde actuam pois têm uma “genética” revolucionária. Apesar de tudo é uma geração próspera, com alguma inabilidade tecnológica, mas riquíssima em experiências vivenciais.

Geração X - É a geração percursora dos recursos tecnológicos, nascida nos anos setenta, mas um pouco formatada, resistindo à inovação, sofrendo de alguma insegurança em termos profissionais e pessoais. É a geração do aparecimento da SIDA, da popularização do divórcio e do multiculturalismo, mesmo assim deseja estabilidade, equilibrio e tranquilidade. É a primera geração que domina verdadeiramnete os computadores, partilha informação e realiza trabalho de equipa. Viveu em pleno a bipolaridade da guerra fria.

Geração Y – Contemporâneos da queda do muro de Berlim, nasceram na década de 80 e num curto espaço de tempo viveram os grandes avanços da tecnologia, desenvolvendo-lhes a capacidade de realizar várias tarefas ao mesmo tempo – navegar na net, ler emails, ouvir musica, escrever, falar ao telemóvel – alterando os seus hábitos (menos televisão e mais computador). A geração Y ambiciona novas experiências e quer rapidamente chegar ao topo das profissões. Quer movimento, inovação, rapidez, já que as solicitações são cada vez maiores e efémeras. Para alcançar o topo, sacrifica-se seja quem for, doa a quem doer. Tem dificuldade em entender o mundo sem tecnologia. Os seus elementos vivem um permanente conflito, são consumidores compulsivos e tem preocupações ambientais. Saem cada vez mais tarde da casa dos pais, trabalham para viver, recusam trabalho servil e buscam mais lazer.

Geração Z- Nascidos no final dos anos 90, são os verdadeiros nativos digitais, que ainda não estão inseridos no mercado de trabalho, mas já se constituem problemáticos para as gerações anteriores. Estar sempre conectado com o mundo é a linha que traça o seu perfil individualista, antissocial e que zela pouco pela sua privacidade. Nunca viveram num mundo sem computadores pessoais, telemóvel, mp3, internet, playstation… Têm uma capacidade de entendimento do mundo digital muito superior do que as gerações anteriores, mas não sabem brincar ao ar livre, não sabem fazer amigos reais e levam uma vida sedentária, com grande percentagem de obesos. O mundo real e a família secundarizaram-se. Vivem apenas o presente, com pouca paciência para as gerações analógicas e são um pouco desumanizados. Vivem em rede virtual, são inteligentes e tolerantes perante outras culturas, mas não sabem trabalhar em equipa.

            Como sou uma Baby Boomer acredito na gestão de conflitos entre gerações, transformando os constrangimentos em oportunidades de aprendizagem.

            Todas as gerações tem a aprender umas com as outras. Sempre foi assim.

            Qual é a sua geração? e o que virá a seguir?
 
AQ (revoltando os dias)
Publicado em NVR

01 maio, 2015

Génesis

SÒÒÒ 245 imagens a preto e branco, de grande formato, captadas entre 2004 e 2011 nos lugares mais recônditos e desconhecidos da Terra.
Estas já ninguém me tira!!!!.

24 abril, 2015

Revoltar abril



REVOLTAR ABRIL

                Constato como se sentem penalizados, aqueles que ouvem falar da revolução de abril, mas não tiveram oportunidade de a viver, ao vivo e a cores, aqui tão perto, tão imprevisível, tão genuína e tão pensada, porque simplesmente ainda não eram nascidos ou então, eram crianças e tudo lhes passou ao lado. Ainda hoje, preparando a data, eu recordava abril com um colega e os outros ao lado, viraram-se para nós, para ouvir melhor o que contávamos sobre os anos de 74 e 75.

- Oh! quantos anos tinhas em 74? Certamente ainda comias cerelac!!!!- perguntei e afirmei eu provocatoriamente.

- Tinha 4,… tinha 5,… ainda não tinha nascido…. Responderam com olhar triste, pois faltou-lhes um “bocadinho assim” para viverem um grande momento histórico, que aliado à irreverência da juventude, se tornou uma marca que une toda uma geração.

                Geração que hoje, olha tudo com uma enorme consciência critica, sobre a situação actual deste pais pretensamente democrático, sobre algumas atrocidades feitas em nome da liberdade e afirmando que ainda há muita história por contar, porque não convém que se conte por enquanto, mas não conseguem fingir um brilho de olhar, recordando aquela época.

                Recordámos os grandes murais pintados nas ruas, onde apareciam sempre a foice e o martelo, realizados pelo PCP e pelo MRPP. Recordámos os cartazes e os autocolantes – as artes gráficas ainda sem recursos tecnológicos ao serviço das máquinas partidárias. Recordámos essencialmente as frases bombásticas, que apareciam nos sítios mais inesperados e emanavam um sentido de humor fabuloso. Não saberemos nunca quem as inventou, a maioria assinada pelos anarquistas (o A maiúsculo rodeado de uma circunferência), mas algumas perduram nas nossas memórias, já perdidos os contextos e as circunstâncias, mas recolocando um sorriso nos nossos lábios, a saber:

- Abaixo a foice e o martelo, Black and Decker ao poder!

- P—as ao poder, porque os filhos já lá estão!

- O socialismo está em construção, visite o andar modelo.

- A China vai de Mao a pior!

- A Madeira tem caruncho!

- Abaixo o odor corporal!

- Abaixo os ovos estrelados, os pintainhos tem direito de nascer!

- Abaixo a reacção. Viva o motor a hélice!

- Mortos da valas comuns, ocupem os jazigos de família, já!

- Se Deus existe, porque não se recenseou?

- O povo unido não precisa de partido.

- Abaixo o sabão amarelo, abaixo a tinta da china! Independência Nacional!

- Abaixo o café de saco e a cevada, cimbalino ao poder!

- Mais vale uma na mão, do que duas no soutien!

- Promoção imediata do leitão a porco.

- Não há eleições. D. Sebastião volta para a semana.

- Deixemo-nos de Barreirinhas, vamos ao salto em altura.

- O Governo é uma m--da. De quem é a culpa, da m--da ou do Governo?

- Queremos dormir com as nossas mulheres!

- Nem mais um anticiclone para os Açores!

- Nem mais um faroleiro para as Berlengas!

- Os galos pedem a nacionalização dos ovos.

- Anarquia sim, mas nem tanta!

- Viva isto, seja á o que for!

                Muito ainda se irá recontar sobre Abril e certamente também esta faceta alegre e satírica dos jovens libertários.

AQ

Publicado em NVR

03 abril, 2015