10 julho, 2015
04 julho, 2015
Normal, normal
NORMAL, NORMAL
Parece
que temos a melhor colecção de coches do mundo. Não sei, mas o que temos é
francamente belo e deslumbrante sem dúvida alguma, constituindo uma grande
riqueza patrimonial. Já conhecia muitos dos exemplares expostos no novo museu,
das visitas ao Museu dos Coches original e também do Palácio de Vila Viçosa. A
maioria são peças sumptuosas, algumas barrocas, cheias de detalhes, viaturas de
gala e de passeio com tracção animal, construídas essencialmente em madeira, entre
o século XVI e XIX, para apoiar as deslocações da realeza portuguesa e dos seus
visitantes.
Sempre
que me deparo com uma viatura destas, imagino a história da gata borralheira.
Através da magia, a fada madrinha, voluntariosa, transformava rapidamente e
apenas com a sua varinha mágica, uma abóbora, numa esplendida carruagem, sem
perceber patavina de mecânica ou de marcenaria, sem fazer projectos, maquetes e
protótipos e, sem programas 3D e sem caderno de encargos, sem estar muito
preocupada com as leis do movimento, da aerodinâmica, da ergonomia e certamente
analfabeta em álgebra, aritmética e geometria, pois o prazo de validade das
suas criações nunca ultrapassava a meia-noite, prazo muito reduzido, quase
equivalente ao leite sem lactose ou ao requeijão (eheheh). Depois regresso ao
mundo real e sabendo que ainda não possuímos essa maravilha tecnológica, dos
contos de fadas, que é a fabulosa varinha, situo-me, vejo e avalio o trabalho
manual na construção de cada pormenor, com as ferramentas da época e agora as
operações de restauro, que suponho serem realizadas em continuidade, por
especialistas nestas coisas do carbono, da ferrugem, do caruncho e das térmitas
mais estranhas que adoram estar e reproduzirem-se nestas reais velharias, expostas
à humidade, à temperatura, à pressão atmosférica e à luz, gerando mofos, bolores
e outros agregados familiares pouco recomendados.
Desculpem as ironias, mas eu quero mesmo falar do
edifício. Para mim foi uma decepção já anunciada pelo que se foi tornando
visível durante a obra, semi-escondida e semi-visível. Nos dias de hoje, fazer
uma edificação daquela natureza, dimensão e custo, sem que ela garanta também,
para além da funcionalidade a que foi destinada, uma afirmação estética ao
nível da arquitectura do seu tempo, capaz de ser uma mais-valia numa cidade,
que marque a contemporaneidade de forma singular, é um verdadeiro tiro no pé.
Este edifício concebido pelo arquiteto brasileiro
Paulo Mendes da Rocha Prêmio Pritzker, em
parceria com os ateliês dos portugueses Ricardo Bak Gordon e Nuno Sampaio
integra o grupo de edifícios de Lisboa que não acrescentam nada à cultura
arquitectonica portuguesa e espero que não seja outra socratice
realizada nas entrelinhas. 35 milhões de euros previstos inicialmente para o
custo da obra, ir-se-ão transformar entre 200 a 300 milhões de euros, quando
ela for concluída. Entregaram-se projectos e obras a quem não sabe fazer
orçamentos ou os minimiza.
Um dos co-autores afirma que
pretende "fazer cidade a
partir da arquitetura" – pretende, mas não consegue. Fala bem,
argumenta melhor, cria uma teoria estruturante entre o edifício e a envolvente,
mas na prática, resolveu de forma vulgar, sem brilho, sem originalidade, sem genialidade,
que a localização e o programa mereceriam.
É pouco provável que
alguém se desloque de propósito a Lisboa para ver este edifício, por isso não
fará cidade, certamente. Há edifícios contemporâneos que fazem cidade ou já
fizeram, levando apreciadores de arquitectura a Lisboa, na época em que foram
construídos ou até mais tarde: o Centro Cultural de Belém, o Oceanário, a Torre
VTS, o Teatro Camões, o edifício Vodafone, a Caixa Geral de Depósitos, o Franjinhas,
a Torre do Tombo, a Gulbenkian, o Pavilhão de Portugal, o Adamastor, o Multiusos,
o novo Estoril Sol (Estoril), a Fundação Champalimaud, a Mesquita de Lisboa, A
Gare do Oriente; o Museu Paula Rego (Cascais), a Universidade Nova de Lisboa, a
Torre Monsanto, o Centro Ismaelita, o Heron Castilho, as Torres das Amoreiras, o
Castil, o Pavilhão do Conhecimento e a até aquela igreja louca, inacabada, do
Troufa Real, esta pelas piores razões… Neste momento para fazer cidade (Lisboa)
é preciso ultrapassar ou ombrear minimamente com Siza Vieira, Teotónio Pereira,
Vittorio Gregotti, Eduardo Souto Moura, Peter Chermayeff, Gonçalo Byrne, Charles
Correa, Tomás Taveira, Calatrava, Frederico Valsassina, Arsénio Cordeiro,
Conceição Silva e outros. Lisboa já tem uma coleção de boa arquitectura
contemporânea e portanto é preciso merecer para fazer cidade, não basta querer.
Dizem-me que a obra
ainda não está concluída, que faltam grandes painéis multimédia nas paredes
nuas interiores. Quanto a mim animará e enriquecerá o conteúdo, mas não o
edifício em si. Sorrio-me com as características apontadas pelos comentadores e
jornalistas, utilizando as palavras, geometria, brutalismo e minimalismo, como
se isso justificasse a pobreza estética do edifício e a falta de genialidade manifestada
pelos seus autores.
78 peças - coches,
berlindas, carruagens, cadeirinhas, carrinhos, liteiras, seges...
expostas num edifico normal, normal (imitando Ricardo Araújo Pereira no seu
boneco de calceteiro), que bem precisaria de uma varinha mágica com efeitos
especiais e permanentes.
Vale a pena visitar, pelos
coches. O resto funciona, mas não surpreende.
AQ – publicado em
Revoltando os dias no NVR 1/07/2015
Etiquetas:
Arquitectura,
Reflexões
28 junho, 2015
Entardecendo com Berlim
Entardecendo com Berlim
Talvez
fosse o último país para eu visitar. O preconceito de visitar um território
feito de histórias complicadas e de difícil digestão, onde o nazismo vingou por
um período de tempo, agredindo o mundo e a humanidade e pondo de luto a história
do século XX, possuía-me desde sempre. Os alemães não são todos iguais, passou
mais de um lustre de história, eu sei, mas Hitler falava às massas, com os seus
discursos inflamados e as massas estavam lá para o ouvir, para o aplaudir e
para o seguir. Isso é inegável.
Sabemos
que Hitler tinha consigo o génio da época da propaganda dos ideais, Joseph Goebbels defendendo que, uma “Uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade”, aglutinando
multidões e alucinando coletivamente milhares de jovens em torno do nazismo e
do seu Führer,… mesmo assim eles estavam lá, aplaudiam e deixavam-se seduzir. E
não eram poucos e não desapareceram com o final da 2ª guerra. As imagens do
ditador, fazem parte da minha formação cinéfila, tal como a de muitas gerações
pós-guerra e moldaram o meu desejo de
conhecer o mundo sempre orientado para outras paragens. Era como se no mapa da
europa não existisse tal país.
A
oportunidade de visitar Berlim bateu de frente com este preconceito e foi-se
diluindo durante a minha permanência, através da evidência da história da
cidade dividida e da cidade reunificada, com os últimos 25 anos de
arquitectura contemporânea, o meu ópio
para muitas dores.
E
tudo superou as minhas expectativas.
Berlim
é uma cidade martirizada pela história, uma cidade de muitas histórias
violentas, que parece ter renascido após 1990. Evoquei a transmissão em direto
pelas televisões do mundo, do concerto memorável do grupo Pink Floid, tendo
adaptado a música The Wall, concebida alguns anos antes para outras circunstâncias.
Li em Berlim um esforço meritório para unir a cidade, transformando as
fronteiras de duas cidades forçadas a virarem as costas durante a guerra fria, num
centro de grande interesse a muitos níveis. Berlim não é uma cidade para turista
ver, é uma cidade construída para os alemães, dando resposta sempre aos seus
interesses de cidade martirizada, mas capaz de curar as suas feridas.
Olhei
ao longe a obra de Siza Vieira, Bonjour Tristesse, que me transportou para
outras histórias de outros lugares, não menos tristes e sem qualquer anúncio de
um dia bom. Visitei o memorial do Holocausto, projeto de Eisenman, que consta
de uma escultura gigante feita de blocos que, em planta, são todos rectângulos
cujas dimensões me evocam sepulturas implantadas ordenadamente, mas cuja
volumetria causa sensações de labirinto, de desconforto, de confusão,… Visitei
também Daniel Libeskind… e o resto foi a festa da arquitectura, vidro e vidro,
aço e vidro, transparências e reflexos, rua sim, rua sim, praça sim praça sim.
Num
sábado ao fim do dia, sentei-me olhando as pessoas aproveitando os últimos
raios solares, deitadas pacificamente na relva da praça da catedral, no chão
onde Hitler proferiu um dos seus discursos mais exuberantes da história,
Lustgarten. Peguei no telemóvel e escrevi:
“19h43m num cruzamento de várias
realidades e sensibilidades, com a história - um relvado, uma fonte, um rio, uma
música clássica voando em sintonia com a brisa semi-nocturna, o museu de artes como
cenário de lusco-fusco a catedral à sua direita. Relaxamento de pessoas que
parecem pacíficas, numa urbanidade multicultural e multicolor, que pretende
sossegar consciências, através do seu desenho urbano planeado, numa epopeia de
raios laranja dum pôr-de-sol germânico. Talvez nunca mais estejamos comungantes
deste espaço, talvez este seja um momento único na vida de todos, numa letargia
de cansaço provocado por muitos e muitos quilómetros a percorrer e a conhecer
esta Berlim feita de tudos e de nadas. Talvez não nos encontremos jamais, mas
estamos aqui hoje, neste relvado simbólico, entardecendo com Berlim. Um frontão
grego e colunas dóricas a dialogar com capitéis coríntios, afirmando modelos
provenientes da Grécia antiga, grande berço da arquitectura, da filosofia e da
democracia, permanente do orgulho dos conceitos de humanismo do ocidente, que
afinal, não sei se todos teremos. O sol põe-se, vai iluminar outras urbanidades
do mundo e para onde vai cada um de nós?”
Publicado em NVR
Publicado em NVR
06 junho, 2015
GÉNESIS
GÉNESIS
Já
vou na terceira oportunidade de apreciar ao vivo e a preto e branco,
fotografias da autoria de Sebastião Salgado. Desta vez foi na Cordoaria em
Lisboa.
É
uma gigantesca exposição, com 245 fotografias de grande formato, que já foi
vista por cerca de 2 milhões de pessoas desde 2013, em vários pontos do mundo.
Está organizada em 5 partes, “ Amazónia e Pantanal”, Espaços a Norte”, “Sul do
Planeta”, “África” e “Santuários”.
O
grande tema “Génesis” (do grego Γένεσις, "origem",
"nascimento", "criação") abre-nos janelas para a origem do
planeta terra, tão mal estimado pelos nossos contemporâneos – uns porque
pertencem a países desenvolvidos e industrializados, outros porque pertencem
aos países em vias de desenvolvimento… mas, todos pecam.
O
seu autor referenciou-a como uma “história de amor ao planeta”, que expressa
uma década do seu trabalho, mostrando-nos através do seu olhar, as situações
mais primitivas que ainda hoje sobrevivem a este nosso mundo louco e idiota.
Todas as fotografias formam um registo de grande valor, para nós que vivemos
agora e para as gerações que se seguem, pois são um testemunho real dos
recantos do mundo não explorados e não corrompidos pelo Homem civilizado, pelos
seus negócios e pelo capital que tudo adultera.
Imagino
que são fotografias obtidas em locais de difícil acesso, depois de dias e dias
(meses?) cheios de privações, de obstáculos, de suor e de desânimo, que só uma
grande determinação como a de Sebastião Salgado, em partilhar connosco realidades tão
distantes e tão estranhas, consegue transformar estas expedições tão
singulares, em sucesso.
Percorri
a exposição de forma desorganizada, como tenho o hábito de fazer, devido a uma
certa impaciência em percorrer o caminho dos outros. Permaneci mais tempo,
vendo e revendo as fotografias de África, pois é por ali que mais me
identifico. Colhi fotografias de fotografias, para poder rever e escrever sobre
elas.
A
minha fotografia preferida foi obtida no sul Sudão, em 2006. Foca um
acampamento de gado em Amak, com múltiplas transparências de cinzentos,
resultantes de diversas fumaças que se destinam a afugentar insectos. Bovinos
magros de grandes armaduras, com ar pacífico, entremeados com os seus
guardadores que controlam e cuidam da manada, aliviando todo o acampamento de
insectos que martirizam todos, a certas horas do dia e da noite. È um belo
registo fotográfico e esta é a foto talvez mais popular.
Mas
há outras que mereceram a minha atenção. A investida do elefante que chama à
atenção para a dizimação dos elefantes que alimentam o negócio ilícito do
marfim (Zâmbia), as mulheres da tribo Mursi e Surma, últimas do mundo a usar
discos nos lábios (Etiópia)…
Todas
as fotografias têm uma mensagem implícita, induzindo-nos para a preservação do
planeta azul, assinada por este grande fotógrafo ambiental, acrescida de várias
histórias paralelas que cada visitante poderá imaginar sobre, toda a equipa que
apoiou o fotógrafo, tornando possível segundos de cliques invulgares em sítios recônditos do planeta, onde não passa
o comboio, não há aeroportos, não existem navios, e os jeeps ficam a muitos
quilómetros de distância, justificando-se verdadeiras peripécias, que são
deduzíveis e circunstanciadas pelo raciocínio de cada um.
Não
vos maço com mais descrições. Não percam, a exposição estará em Lisboa até
Agosto. Preparem-se para a fila a certas horas. Esta é a exposição que deveria
por o mundo a pensar.
Podem consultar:
http://www.terraesplendida.com/genesis/ TE_GENESIS_INFO_CM-JF.pdf
Publicado em NVR
06 maio, 2015
SOU UMA BABY BOOMER e não sabia, mas estou bem, obrigada.
SOU UMA BABY BOOMER e
não sabia, mas estou bem, obrigada.
Sou um misto
da geração Baby Boomer e da geração X, escrevendo num computador e usufruindo
de algumas ferramentas da geração Z. Não dispenso a televisão, nem a internet,
mas junto-me aos amigos para conversar e para me divertir. Leio livros em
qualquer suporte e utilizo as web2.0.
Não entendem
o que estou a escrever? Não sou socióloga, mas sei que as últimas gerações
encontram-se tipificadas segundo características… afinal, o mundo tem-se
alterado rapidamente e tipificar facilita o entendimento entre todos. Achei
piada às denominações, que também só por si espelham as grandes mudanças dos
séculos XX e XXI.
Antigamente
as gerações sucediam-se aproximadamente de 25 em 25 anos e o mundo rodava muito
devagar; quanto mais antigamente, mais devagar o mundo rodava, mas conservando
sempre os minutos, as horas, os dias e os anos, do grande relógio do universo.
Atualmente,
o relógio é o mesmo, mas as gerações sucedem-se mais rapidamente, de 10 em 10
anos e estão catalogadas da seguinte forma:
Boomer – Nascidos durante a 2ª guerra, hoje
aposentados, são pragmáticos, disciplinados, leais e admiram a autoridade.
Sofreram na pele os conflitos mundiais potencializados pela 2ª guerra mundial.
Foram criados em casa, pelos próprios pais, orientados pela moral e os “bons”
costumes e são carentes de habilidade tecnológica.
Baby Boomer (explosão de bébés, crescimento
demográfico) - Nascidos após a guerra, hoje têm mais de 45 anos, com grandes
capacidades de inovação, inventores de “Make love, not war” e têm aversão aos
exercícios bélicos. Favorecem as artes como forma de evolução humana. O
Woodstock e a guerra do Vietnam são pontos de referência nesta geração que
estudou as ideologias e viveu as “ revoluções” dos anos sessenta e setenta
(emancipação da mulher, movimento hippie, Che Guevara, liberdade sexual, direitos
civis, Martin Lutter King, ida à lua, rock and roll e a TV). Muitos ocupam hoje
cargos de chefia e privilegiam a gestão dos conflitos, num quadro de valores
libertários e otimistas, com ideais humanistas. Assistiram ao nascimento da
tecnologia. Desafiam o sistema onde actuam pois têm uma “genética”
revolucionária. Apesar de tudo é uma geração próspera, com alguma inabilidade
tecnológica, mas riquíssima em experiências vivenciais.
Geração X - É a geração percursora dos recursos tecnológicos, nascida nos anos
setenta, mas um pouco formatada, resistindo à inovação, sofrendo de alguma
insegurança em termos profissionais e pessoais. É a geração do aparecimento da
SIDA, da popularização do divórcio e do multiculturalismo, mesmo assim deseja
estabilidade, equilibrio e tranquilidade. É a primera geração que domina
verdadeiramnete os computadores, partilha informação e realiza trabalho de
equipa. Viveu em pleno a bipolaridade da guerra fria.
Geração Y – Contemporâneos da queda do muro de
Berlim, nasceram na década de 80 e num curto espaço de tempo viveram os grandes
avanços da tecnologia, desenvolvendo-lhes a capacidade de realizar várias
tarefas ao mesmo tempo – navegar na net, ler emails, ouvir musica, escrever,
falar ao telemóvel – alterando os seus hábitos (menos televisão e mais
computador). A geração Y ambiciona novas experiências e quer rapidamente chegar
ao topo das profissões. Quer movimento, inovação, rapidez, já que as
solicitações são cada vez maiores e efémeras. Para alcançar o topo,
sacrifica-se seja quem for, doa a quem doer. Tem dificuldade em entender o
mundo sem tecnologia. Os seus elementos vivem um permanente conflito, são
consumidores compulsivos e tem preocupações ambientais. Saem cada vez mais
tarde da casa dos pais, trabalham para viver, recusam trabalho servil e buscam
mais lazer.
Geração Z- Nascidos no final dos anos 90, são os
verdadeiros nativos digitais, que ainda não estão inseridos no mercado de
trabalho, mas já se constituem problemáticos para as gerações anteriores. Estar
sempre conectado com o mundo é a linha que traça o seu perfil individualista, antissocial
e que zela pouco pela sua privacidade. Nunca viveram num mundo sem computadores
pessoais, telemóvel, mp3, internet, playstation… Têm uma capacidade de
entendimento do mundo digital muito superior do que as gerações anteriores, mas
não sabem brincar ao ar livre, não sabem fazer amigos reais e levam uma vida
sedentária, com grande percentagem de obesos. O mundo real e a família secundarizaram-se.
Vivem apenas o presente, com pouca paciência para as gerações analógicas e são
um pouco desumanizados. Vivem em rede virtual, são inteligentes e tolerantes
perante outras culturas, mas não sabem trabalhar em equipa.
Como sou uma
Baby Boomer acredito na gestão de conflitos entre gerações, transformando os
constrangimentos em oportunidades de aprendizagem.
Todas as
gerações tem a aprender umas com as outras. Sempre foi assim.
Qual é a sua
geração? e o que virá a seguir?
AQ (revoltando os dias)
Publicado em NVR
01 maio, 2015
Génesis
SÒÒÒ 245 imagens a preto e branco, de grande formato, captadas entre 2004 e 2011 nos lugares mais recônditos e desconhecidos da Terra.
Estas já ninguém me tira!!!!.
Estas já ninguém me tira!!!!.
24 abril, 2015
Revoltar abril
REVOLTAR ABRIL
Constato
como se sentem penalizados, aqueles que ouvem falar da revolução de abril, mas
não tiveram oportunidade de a viver, ao vivo e a cores, aqui tão perto, tão
imprevisível, tão genuína e tão pensada, porque simplesmente ainda não eram
nascidos ou então, eram crianças e tudo lhes passou ao lado. Ainda hoje,
preparando a data, eu recordava abril com um colega e os outros ao lado,
viraram-se para nós, para ouvir melhor o que contávamos sobre os anos de 74 e
75.
- Oh! quantos anos tinhas em 74?
Certamente ainda comias cerelac!!!!- perguntei e afirmei eu provocatoriamente.
- Tinha 4,… tinha 5,… ainda não
tinha nascido…. Responderam com olhar triste, pois faltou-lhes um “bocadinho
assim” para viverem um grande momento histórico, que aliado à irreverência da
juventude, se tornou uma marca que une toda uma geração.
Geração
que hoje, olha tudo com uma enorme consciência critica, sobre a situação actual
deste pais pretensamente democrático, sobre algumas atrocidades feitas em nome
da liberdade e afirmando que ainda há muita história por contar, porque não
convém que se conte por enquanto, mas não conseguem fingir um brilho de olhar,
recordando aquela época.
Recordámos
os grandes murais pintados nas ruas, onde apareciam sempre a foice e o martelo,
realizados pelo PCP e pelo MRPP. Recordámos os cartazes e os autocolantes – as
artes gráficas ainda sem recursos tecnológicos ao serviço das máquinas
partidárias. Recordámos essencialmente as frases bombásticas, que apareciam nos
sítios mais inesperados e emanavam um sentido de humor fabuloso. Não saberemos
nunca quem as inventou, a maioria assinada pelos anarquistas (o A maiúsculo
rodeado de uma circunferência), mas algumas perduram nas nossas memórias, já
perdidos os contextos e as circunstâncias, mas recolocando um sorriso nos
nossos lábios, a saber:
- Abaixo a foice e o martelo,
Black and Decker ao poder!
- P—as ao poder, porque os filhos
já lá estão!
- O socialismo está em
construção, visite o andar modelo.
- A China vai de Mao a pior!
- A Madeira tem caruncho!
- Abaixo o odor corporal!
- Abaixo os ovos estrelados, os
pintainhos tem direito de nascer!
- Abaixo a reacção. Viva o motor
a hélice!
- Mortos da valas comuns, ocupem
os jazigos de família, já!
- Se Deus existe, porque não se
recenseou?
- O povo unido não precisa de
partido.
- Abaixo o sabão amarelo, abaixo
a tinta da china! Independência Nacional!
- Abaixo o café de saco e a
cevada, cimbalino ao poder!
- Mais vale uma na mão, do que
duas no soutien!
- Promoção
imediata do leitão a porco.
- Não há eleições. D. Sebastião
volta para a semana.
- Deixemo-nos
de Barreirinhas, vamos ao salto em altura.
- O
Governo é uma m--da. De quem é a culpa, da m--da ou do Governo?
- Queremos dormir com as nossas
mulheres!
- Nem mais um anticiclone para os
Açores!
- Nem mais um faroleiro para as
Berlengas!
- Os galos pedem a nacionalização
dos ovos.
- Anarquia sim, mas nem tanta!
- Viva isto, seja á o que for!
Muito
ainda se irá recontar sobre Abril e certamente também esta faceta alegre e
satírica dos jovens libertários.
AQ
Publicado em NVR
03 abril, 2015
07 dezembro, 2014
Parada na linha do tempo
Fotografia: Manuel Cosentino.
Eras tu, sem seres, parada e demente na linha do tempo. Sem orientação, sem rumo, parada sem bagagem no apeadeiro da vida, dando-nos a grande lição da vida, a aguardar pacientemente a morte anunciada.
Fomos-te perdendo, anos antes, em cada olhar que se despedia de nós, como uma paisagem que se some no horizonte. Fingíamos não perceber e fazíamos contigo, planos para o futuro, sabendo que o futuro já tinha ficada para trás há muito. Não tínhamos lágrimas, apenas surpresa e ansiedade por aquilo que ainda te estaria reservado, apelando todos os dias para a nossa força interior, que muitas vezes claudicava vertiginosamente. O desespero de não se perceber a demência. O desespero de não termos armas para lutar por ti. O desespero de em cada noite te tornares ainda mais distante e desconhecida de nós.
Eras tu, sem seres, parada e demente na linha do tempo. Sem orientação, sem rumo, parada sem bagagem no apeadeiro da vida, dando-nos a grande lição da vida, a aguardar pacientemente a morte anunciada.
Fomos-te perdendo, anos antes, em cada olhar que se despedia de nós, como uma paisagem que se some no horizonte. Fingíamos não perceber e fazíamos contigo, planos para o futuro, sabendo que o futuro já tinha ficada para trás há muito. Não tínhamos lágrimas, apenas surpresa e ansiedade por aquilo que ainda te estaria reservado, apelando todos os dias para a nossa força interior, que muitas vezes claudicava vertiginosamente. O desespero de não se perceber a demência. O desespero de não termos armas para lutar por ti. O desespero de em cada noite te tornares ainda mais distante e desconhecida de nós.
O entusiasmo, a
lucidez, a autonomia e a perseverança que te caracterizavam, abandonaram-te tão
cedo, que as manhãs poderiam ser tardes, e as tardes, as noites, como se a
linha do tempo se tivesse subitamente tornado quebrada, por determinação de
ninguém.
Eras tu, sem seres,
apaticamente estacionada no tempo, e nós, plateia forçada dessa despedida
dolorosamente injusta.
Bj mãe
21 novembro, 2014
O defunto falecido
O defunto
falecido
Há histórias que originam
verdadeiros filmes, pois são invulgares e com conteúdo forte, tornando-se bizarras
quando analisadas com sentido crítico. No Portugal profundo não há só as
histórias populares da tradição oral, também há outras histórias que possuem a
dualidade do real e da fantasia, capazes de dar algum contentamento a um
realizador neorrealista.
Conheci
uma figura impar, já desaparecida, que assinou como autor de algumas histórias
bizarras, e que, contadas e recontadas na 1ª pessoa, lhe pertencem do princípio
ao fim. Com personalidade aventureira, habituado às adversidades da vida, capaz
de imensas proezas inimagináveis, sem os valores bem aferidos, disposto a
correr riscos e com uma linguagem pejada de asneiras cabeludas constantes...
ele contou que, num momento da sua vida, entre diversas profissões ocasionais
que desempenhou, fazia com um automóvel citroen
“boca de sapo” com 4 vitesses para a
frente, viagens entre Portugal e França, servindo especialmente os emigrantes portugueses,
transportando-os ou realizando serviços legais e ou ilegais, dependendo do
ponto de vista e do preço. Não era zarolho, mas corria riscos na mesma, sem
grande responsabilidade e sem medir as consequências para ele e muito menos
para os outros. Penso que a ilegalidade era o fato que lhe assentava melhor.
Um
belo dia deparou-se com o desafio de transportar ilegalmente um defunto
falecido numa bidonville parisiense para Portugal, já que os familiares não
teriam dinheiro para a trasladação legal ou nem saberiam como faze-lo. O
transporte de um falecido envolve responsabilidade médica e jurídica, um
processo burocrático enorme, e ter a bolsa recheada de dinheiro para fazer face
às despesas. Os familiares tinham poucos recursos, apesar do carro em 2ª ou 3ª
mão guardado para vir de férias au Portugal.
Ele
dispôs-se a faze-lo sem grandes complicações, recebendo logo à partida a
remuneração combinada para lhe dar ânimo para a viagem. Recolheram alguns
francos pelos diversos filhos, e apostaram as “fichas” todas nesta solução.
Recolheu
o defunto que tinha falecido há menos de uma hora, vestiu-lhe um fato preto,
sentou-o e amarrou-o ao banco do passageiro do carro dele (ainda não havia
cintos de segurança), apertou-lhe o casaco, colocou-lhe un chapeau e a gravata e rematou com uns vérres bem escuros. Arrancou para Portugal, um Portugal que ainda
não era Europa, com a garrafa de bagaço no porta-luvas e os cigarros 3 vintes
no bolso da camisa. A família seguia noutra viatura, à derrière..
O
defunto falecido portou-se muito bem, parecendo dormir o caminho todo. Pararam
para dormir um pouco. Pararam para fazer as refeições – o farnel do arroz de
frango e umas sandes de fromage. O
defunto não teve fome, manteve-se sereno, abstémio e sempre com os seus óculos
escuros, que ora lhe filtravam o sol, ora lhe filtravam o luar…parecendo
dormitar. O queixo descaia um pouco e foi preciso reforçar o visual com um
cachecol. Numa das fronteiras, os carabineiros, rodearam o carro, espreitaram, pediram
documentos, interrogaram e respeitaram o sono do senhor adormecido. A família
em pânico dentro da sua viatura, visualizando todas estas operações, rezavam
pai nossos e avé marias à Nossa Senhora de Fátima, para que o defunto não fosse
convidado a sair….
O
motorista aventureiro quando recontava a história dizia que o pior estava para
vir.
Entraram
au Portugal com sucesso e chegaram à aldeia lá para os lados de Montezinho, onde
a urna e a cova no cemitério já estariam abertas e toda a papelada tratada,
pois previa-se o odor insuportável do final da viagem. De facto o pior estaria
para vir, e que seria retirar o defunto do veículo que o acolhera ainda quente
e por mais de 30 horas de viagem.
O post
mortem, a viagem, as fronteiras e o fumo do permanente cigarro 3 vintes do autor
desta proeza, endureceram-lhe os músculos, os tendões, o comportamento e até a
alma. O homem era grande, vinha bem encaixado entre a cadeira e o tablier, teso como um presunto, sem
maleabilidade alguma para se retirar do veículo.
-
Então Galdra? como resolveste le problèm?
- Ca,
ca ....lho. (ele era gago) titive que que lhe partir as pernas! Q’até deu jeito
para o meterem na urna, senão ela não fechava com as pernas dobradas.
No
final todos os ouvintes riam por imaginar o Gualdra com um martelo a fazer o
desencarceramento do defunto dorminhoco.
-
Olha lá e se os Carabineros tivessem percebido e mandassem sair o senhor do
chapéu?.
-Ca,
cara .... lho eu já estava a penpensar, pupu..a que pariu eu eu fingia que quia
buscar os dodocumentos ao cacarro queque nos seguia e fugia que nunnunca
mais ninguém meme apanhava!.
Pobres
dos familiares, que pagaram bem e seguiram confiantes este aventureiro, que nem
pensaria duas vezes em deixa-los a todos em maus lençóis.
Um
cromo esta figura!
Digam
lá se não dava um filme????!!!!!
In” Estórias de um Portugal
profundo” Anabela Quelhas
Etiquetas:
estórias do Portugal profundo
21 outubro, 2014
premio empreendouro 2014
Posso finalmente divulagar os meus cartazes candidatos ao
concurso empreendedouro 14.
Não fui selecionada e garanto que os trabalhos selecionados não
foram os melhores. De facto o gosto é discutível, é bom discutir o gosto, e o
gosto dos júris ~´e muito discutível.
Foram seleccionados cartazes que resultam apenas de um bom programa
de fotografia que faça tratamento artístico, forma selecionados cartazes com
uma composição gráfica pouco estética… enfim. Dá vontade de não participar mais,
nem motivar que outros participem acreditando que a qualidade vencerá..
Não sinto dor de derrotada, pois ando nisto há muitos anos,
e o meu entusiasmo por um projecto deste género, basta. O que me motiva
verdadeira mente é ter oportunidade para
ser construtora é isso que me premeia como pessoa e artista- Tenho pena que não
exibam on line todas os cartazes candidatos para que o publico tenha
oportunidade de constatar a avaliação que foi realizada. Exibem apenas 10 cartazes
escolhidos para se votar on line.
Ver projectos categoria 5
http://premio.empreendouro.pt/Pages/Projetos.aspxrojectos categoria 5
OS MEUS CARTAZES
MEMÓRIA DESCRITIVA
TÍTULO: O futuro é d’ouro
A proposta apresentada foi criada
essencialmente através do recurso fotográfico.
A junção da imagem de uma menina
de sorriso meigo e doce (como o porto branco), a um pormenor arquitectónico,
desenhado por Nicolau Nasoni, tem a intenção de colocar em diálogo, o antigo e
o contemporâneo.
Nicolau Nasoni, arquitecto
italiano da época barroca, que deixou imensas marcas neste vasto território do
Douro, continua a ser uma potencialidade cultural desta região, no presente e
no futuro.
As geometrias do barroco, expressas
na arquitectura religiosa e na arquitectura civil, evocam as linhas dos
socalcos, as progressões do crescimento dos braços da planta trepadeira que é a
parreira, e as gavinhas que assumem a parte mais delicada e eficaz do
crescimento da mesma. As linhas onduladas dos cabelos da menina e toda a
expressão sorridente e concordante das linhas curvas do seu rosto, representam
as gerações vindouras que continuarão a valorizar esta região e a preservar a
linha de água que é de ouro tal como o seu futuro. Toda a região do Douro tem
uma geometria rebuscada gémea do barroco, relaxante, sorridente que a converte única
e inesquecível.
As gentes, o património cultural
e o vinho são o ouro desta região – a consolidação no presente e a esperança no
futuro.
Motivação – Expressar artisticamente algo que é único no
mundo, o Douro. O Douro não seria o
mesmo Douro, sem o seu património construído, barroco, muito articulado com o
grande arquitecto Nicolau Nasoni. O barroco confere a toda a região distinção e
erudição., convertendo-se numa valia adicional ao vinho do Douro.
Identificação de lugares - O
pormenor apresentado foi recolhido na fachada principal da capela localizada no
solar de Mateus em Vila Real e abre-nos caminhos para além do vinho,
direccionados para diversas vertentes do património cultural comum a toda a
região.
MEMÓRIA DESCRITIVA
TÍTULO: Douro – é aqui
Apresenta-se
proposta globalizante do que é o Douro.
A
listagem dos concelhos cria um bloco único de cumplicidade e labor, criando o
equilíbrio com as linhas das vertentes, traçadas como gesto duplo desenhado de
uma só vez, como se o Homem tivesse o poder de rasgar o espaço e impor-se sobre
a natureza.
O Homem teve e tem esse poder.
“Deus desenhou as montanhas através
de um rio de ouro e o homem teve a inteligência e o empenho de as “socalcar”
com muros de suporte em xisto e enxada para obter o melhor vinho do mundo.”
Esta frase escrita pela autora reforça a imagem e surge assumidamente na
composição gráfica. Todo o cartaz é sóbrio para que o cacho de uvas, desenhado
no espaço de maior visibilidade, se expresse em todo o seu esplendor.
Motivação – Responder a um
desafio para promover o Douro, evocando Deus de forma simbólica como o grande
arquitecto de toda a região, já que a paisagem é divinal e única no mundo.
Identificação de lugares – Todos
os conselhos.
MEMÓRIA DESCRITIVA
TÍTULO: Douro - A
linha que une
A proposta
apresentada evidência de forma minimalista e contemporânea o relevo das margens
do rio Douro e o elemento que as une, numa linha ziguezagueante, única no
mundo, expressando o encontro feliz dos três elementos.
A riqueza paisagista, enriquecida
pelos socalcos criados e recriados pelo suor do homem do Douro, oferece-nos
diversos planos, que vão escondendo o rio e vão cultivando o nosso imaginário,
recortado de uvas e sabores generosos, que contribuem para o desenvolvimento
dos lugares, dos sítios, dos pequenos aglomerados habitacionais, sintetizados
nos diversos concelhos, que dão consistência à tal linha que une, o rio Douro.
O impacto
deste cartaz constrói-se a partir da junção de uma moderna simplicidade da
linha – a definição do relevo apenas com linhas coloridas distintas, porque
cada encosta é única – com a complexidade e
força da escrita, transformada em textura líquida simbolizando a
dependência dos lugares em relação à linha de água e ao micro clima que permite
o cultivo deste vinho único no mundo.
A cor que domina o cartaz associa-se à cor do
vinho, induzindo de imediato a potencialidade global desta região. É também uma
cor quente que tenta captar a parte psicológica do receptor conferindo
sensações de conforto, bem-estar, bom acolhimento e relaxamento que toda esta
região pode proporcionar aos seus visitantes.
Motivação – Juntar a criatividade minimalista ao Douro, convertendo os
concelhos e as sua gentes, nos grandes agentes dinamizadores desta região.
Identificação de lugares – Todos os concelhos
18 setembro, 2014
Portugal está um país feio
Portugal está um país feio
Uma
circunstância infeliz da minha vida forçou-me, a passar estas férias
circunscritas ao local onde vivo. Passei pelos mesmos sítios de sempre, repeti
fotos, descobri novas realidades que por vezes se apresentam invisíveis, estendi
olhares sem pressa, associados a reflexões outras vezes construídas, ou seja
aproveitei a imobilidade de forma criativa e como sempre obedecendo ao meu espirito
critico.
O
gosto educa-se? Aquela questão com que muitas vezes trunfamos para justificar
erros e alarvidades visuais, voltou a emergir na minha cabeça, onde as questões
estão armazenadas em abundância.
Portugal
está um país feio. MESMO FEIO! Acho eu e os outros.
Esta
é uma verdade incontornável.
A
arquitectura que invade o nosso horizonte, seja em que sítio for, é de péssimo
gosto.
Os
amantes da fotografia devem sempre ter o cuidado de confirmar os
enquadramentos, para eliminar ou esconder o que está a mais, os erros
arquitectónicos e as aberrações que nascem no meio da
arquitectura popular.
A
desordem urbanística é uma verdadeira anedota.
Quem
são os responsáveis? Os arquitectos e os engenheiros? Não.
Os
proprietários? Seria fácil dizer que sim, confirmar a sua culpa já que são eles
os agentes activos. Mas não são. Os proprietários só constroem o que lhes
deixam construir.
Os
grandes culpados são os autarcas deste país. Demoraram anos e anos para criar e
aprovar PDMs e entretanto iam aprovando atrocidades, dentro e especialmente
fora das cidades. Todos os autarcas deveriam ter uma política de organização do
território e aplica-la com rigor. Já sabemos que a maior parte dos autarcas não
tem formação nessa área, mas têm equipas e técnicos dentro das câmaras
municipais. Tiveram inclusivamente gabinetes de apoio técnico, os GATs que não
foram rentabilizados como deveriam ser, os técnicos estavam lá. Seria difícil
seguir o princípio da não invasão dos solos agrícolas com construção?
Cada
um fez a sua casa onde quis. As redes de abastecimento de água são redes
irracionais, dispersas, em que todos nós pagamos ao metro linear. Criar redes
de esgotos para esta maluqueira urbanística é uma utopia e assim cada
construção tem uma fossa que vaza os detritos para os terrenos adjacentes.
Os autarcas
assobiaram para o lado, durante 40 anos, têm fechado os olhos à sua própria
incompetência. Foram 40 anos de asneiras sucessivas, somadas e multiplicadas,
com ou sem PDMs.
E
a arquitectura?
Quem
domina o território são projetos de engenheiros sem qualquer formação estética.
Aquela afirmação, “Gostos não se discutem”, tem servido para viabilizar a
construção de edificações sem serem concebidas pelos profissionais que têm esse
saber e direito. Esta situação que se chama falta de ética profissional, foi
alastrando sobre a forma de vírus pelas cidades, aldeias e a natureza que as
rodeiam. Hoje temos um Portugal feio, muito feio. As aldeias estão
descaracterizadas, os solos agrícolas e as veigas entre montanhas estão
pulverizadas por construções que assumem o mau gosto dos proprietários, dos
seus autores e dos seus autarcas. Qual integração? Qual valor patrimonial? Qual
valor arquitectónico? Existe por vezes um excesso de rigor nas cidades e uma
permissividade catastrófica nos aglomerados rurais que definitivamente
comprometem a paisagem deste país. As construções novas surgem desintegradas da
paisagem e também não valem por si, porque arquitectonicamente são umas nódoas.
Costumo
dizer que, daqui a uns milénios, quando as gerações futuras ou então os ETs que
desaguem por aqui, avaliarem o Homem actual deste país chamado Portugal, deduzirão
que temos diversas neuropatias, entre as quais aquela que impede o Homem de se expressar
arquitectonicamente com uma linguagem própria do seu tempo, e assertiva com
todas as outras formas de arte suas contemporâneas.
Os
meus caros e amigos engenheiros que me desculpem, mas projectam com um papel
milimétrico dentro da cabeça, sem qualquer sensibilidade ao espaço, à
volumetria, à composição, à envolvente, à história e aos utentes. Projectam à
engenheiro como é o seu dever. Para eles, linguagem arquitectónica ou fruição
estética são verdadeiros palavrões. Temos que reconhecer que todos nós
saberemos desenhar uma casa, só que uns fazem-no melhor do que os outros.
O
resultado é este, é tudo aquilo que invadiu a paisagem portuguesa e nos faz
entristecer. Projectar bem é conciliar de forma criativa, a forma com a função,
assumindo com dignidade e orgulho a linguagem arquitectónica de cada tempo. As
construções fazem-se grandes e caras. Alguns proprietários fazem questão de dar
visibilidade à ostentação e ao seu poder económico, e estão no seu direito, mas
fazem-no tão mal! recorrem a técnicos, não a arquitectos. Surge por vezes um
maior cuidado em certos projectos, que infelizmente se resume a umas molduras
de granito, em cópias mal feitas do tempo de Raul Lino. Estamos no século XXI,
temos tecnologia do século XXI, aplicada em projectos do século XIX - uma
neuropatia de 2 séculos.
De
quem é a culpa?

Dos
autarcas. Desculpem eu insistir na acusação. Por vezes basta um conselho, basta
mostrar novas tipologias, basta até criar regulamentos municipais com
indicações claras sobre as intervenções, basta seguir as orientações de um
arquitecto e basta não misturar poder autárquico com lobbies, com especulação,
com tráfico de influências… é também da competência dos autarcas a educação
estética dos munícipes, e o exemplo tem que vir de cima, obviamente.
Houve
uma época, e não foi há muito, que as autarquias dispensavam o cargo de
arquitecto no seu quadro de técnicos, pois normalmente colavam-lhe o rótulo de
artista louco, incómodo e “pouco prático”, e quando o tinham, colocavam-no na “prateleira”
destinando-lhe a toponímia das ruas da urbe, impossibilitando que opinasse na
definição de linhas estratégicas de desenvolvimento. A única vez que me
candidatei a um concurso para vaga de arquitecto numa câmara municipal, fui
rejeitada por não ter telhados de vidro, ser interveniente, eventualmente não
ser permeável a partidarites e por ser mulher. Já foi depois de Abril!
Estamos a pagar uma factura elevada desta falta de
visão, desta inoperância e inércia autárquica global que afecta a todos. Cumprir
regulamentos não chega, mas nunca é tarde para mudar, apesar que praticámos
erros incorrigiveis… pelo menos agrada-me que peçam desculpa pela perturbação
que as obras municipais causam aos munícipes. A educação é sempre positiva e de
sublinhar.
In” Ensaios de escrita, um
projecto sempre adiado”
Anabela Quelhas (aprendente e
anotadora de espaços)
Sem acordo ortográfico
Publicado em NVR set 2014
14 junho, 2014
24 abril, 2014
Afinal onde é o meu lugar
Afinal onde é o meu
lugar?
Por onde
andava eu há 40 anos atrás???
O dia 25 de
abril de 74 apanhou-me a sair da adolescência, numa idade em que já era uma
observadora atenta do que me rodeava, sensível aos ideais ligados à igualdade e
à fraternidade multicoloridas, conscientemente contra o “orgulhosamente sós” de
Salazar, mas ainda saudavelmente ingénua e cheia de sonhos.
Como estava
no hemisfério sul, só tive conhecimento da revolução no final do dia seguinte,
muito em segredo antes do jantar, deixando-me de orelhas em pé, pois a
referência segredada foi segredada entre adultos apenas. Pareceu-me nascer ali
um entusiasmo cauteloso, que me fez ansiar pelos jornais do dia seguinte, para
finalmente ver Spínola como grande herói, com fotografias de página inteira,
remetendo Otelo para segundo plano e Salgueiro Maia para terceiríssimo e
desvalorizado plano. Nessa altura não me apercebi disso, logicamente.
Incomodava-me aquele monóculo e o pingalim que segurava na mão, desconfiando da
personagem, que tais objectos transportava, parecendo-me mais um tirano do
seculo XIX, do que um revolucionário do século XX. Aquele monóculo nada tinha
de modernidade. O modelo era Che.
Nada mais
foi igual, a sociedade de Luanda entrou em sobressalto progressivo. A ideia
doce e romântica de uma independência desejada e de um salto de liberdade para
um futuro de todos, rapidamente se transformou numa contagem decrescente para a
guerra civil, que tal como todas as guerras são injustas, sangrentas,
desumanas, mutiladoras e trágicas. A descolonização rápida, necessária, mas
pouco eficiente e nada assertiva, gerou meio milhão de retornados e refugiados,
seres humanos desprotegidos, incapazes de se organizar e lutar pela sua
permanência nos territórios independentes, que apenas tiveram como alternativa,
a saída.
Percebi, com
16 anos, que não tinha autonomia para tomar decisões sobre a minha vida e para
a minha vida. Descobri que devia obedecer às decisões dos meus pais, mesmo que
me desagradassem profundamente. Constatei que não era suficientemente crescida
para viver sozinha na terra que me viu nascer, nem era suficientemente criança,
para tudo me passar ao lado.
Após poucos
meses do 25 de abril, anunciaram-me que tinha duas horas para me despedir de
Luanda, pois provavelmente iria ter um bilhete de ida para Lisboa, sem volta. Já
passava das 18h30m.
Não fui
ouvida, nem achada!
Trinta
minutos foram para comprar dois agasalhos, um casaco de lã azul e uma camisola
roxa, que por mero acaso e sorte havia numa loja junto ao local onde vivia. O
resto foi a despedida. Despedi-me de lágrimas nos olhos, e vários nós na
garganta, de uma cidade linda. Ao longo desse tempo, revi alguns momentos das
minhas vivências frágeis e ingénuas, que farão eternamente parte de mim, retive
no olhar sítios da minha terra de nascimento e de coração. Faltou-me o tempo
para me despedir de amigos, para anotar contactos, para criar novas pontes de
ligação para o futuro. Nem queria acreditar que não voltaria, que poderia nunca
mais ver e estar com os meus amigos. Algo desconfortável e cada vez mais
aterrador se instalou na minha racionalidade, tornando-me incapaz de tudo,
excepto obedecer.
Naquela
noite, cresci de repente vários anos. Passei a ser adulta da noite para o dia
seguinte, lutando entre duas lógicas, a minha lógica dos afectos e a lógica da
descolonização, indiscutivelmente necessária, quanto a mim. Eu já entendia a
democracia como meta maior, já tinha observado a digestão difícil de várias
revoltas e era sensível ao conflito implícito da acção colonizadora.
As luzes
reflectidas na água negra da baía de Luanda, assumiram formas irregulares e
esborratadas, resultantes da luz e das minhas lágrimas silenciosas, que teimavam
correr-me pela face enquanto viajava no banco de trás do automóvel do meu pai
em direcção ao aeroporto. Conferi cada rua, cada avenida, cada cruzamento…
olhei pela última vez os sítios onde me encontrava com os meus amigos.
No dia
seguinte, passei a ser refugiada em terra europeia. A coincidência entre duas
realidades: a minha realidade geográfica intersectada com a minha realidade
afectiva, temperada pela revolta da não decisão. Entrei num mundo sem fortes
referências para mim, onde decorria uma revolução com alguns contratempos pelo
meio - eu, cheia de contradições e com novas e maiores responsabilidades, um
pouco entregue a mim mesma. O rótulo de retornada e não progressista também se
colou a mim em algumas situações menos felizes na integração na sociedade
portuguesa. A desconfiança sobre a minha caderneta escolar que testemunhava
bons resultados académicos, a desconfiança sobre os meus princípios e valores,
a falta de solidariedade entre colegas de escola, e a ausência de camaradagem
extra escola, premiaram-me em diversos momentos ao longo de 74/75, nas terras
“do choupal até à lapa”.
A ruptura
violenta e traumática nos meus afectos, converteu-me em jovem adulta
silenciosa, precoce e introvertida, com as sensibilidades adormecidas, ou
talvez anestesiadas, como forma de me proteger das novas realidades. A
racionalidade e as emoções, combateram-se num duelo entre uma aprendizagem
ideológica e as orientações do politicamente correcto, potencializada através
da pintura realizada em horas de ócio no Museu Machado de Castro, ao longo de
alguns meses.
Alguns
amigos foram reencontrados quase 30 anos depois, outros permanecerão sempre no
fio da navalha, entre o estar ou não estar vivos. Quem me desenhou o destino era graficamente inábil como
tenho confirmado ao longo da vida.
Costumo
dizer que a minha vida afectiva é um puzzle incompleto, onde faltam algumas
peças. Das peças recuperadas, nem todas me trouxeram alegria, pois os anos
passaram, e as peças tornaram-se menos luminosas, com contornos desligados da
minha história e por vezes contrários às minhas convicções.
Os anos
passaram, não voltei mais.
Passei a ser
assumidamente uma sem terra, ou contrariando e ampliando até ao absurdo, também
poderei dizer que passei a ser uma cidadã do mundo, o que em termos práticos dá
no mesmo. A lei diz que tenho nacionalidade portuguesa, o meu BI também, e eu
continuo a sentir-me sem raízes nos vários locais onde já vivi, neste país. Vivo
de sensações armazenadas, entre sombras de jacarandás e aromas de acácias rubras,
desconfiguradas em terra fria de bravos navegadores da cauda da europa e uma
vontade férrea de inovar com vistas para o futuro.
Sou
portuguesa sem ter nascido aqui e não sou angolana porque não vivo lá. Afinal
sou de onde? Um paradoxo desta coisa de se ser eternamente de algum lugar, sem
efectivamente o ser, mas que nos preenche os sonhos de todas as noites - a
crise de identidade que muitos angolanos sentem e vivem, provavelmente
entenderá o verdadeiro e profundo significado destas palavras rabiscadas a
partir do 25 de abril de 74.
Afinal onde é o meu lugar?
In” Ensaios de escrita, um
projecto sempre adiado”
Anabela Quelhas (aprendente e
anotadora de espaços)
(sem acordo ortográfico)
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