10 julho, 2015

Experiência Miró

Grande experiência que merece estar no estirador.

04 julho, 2015

Normal, normal


NORMAL, NORMAL

                Parece que temos a melhor colecção de coches do mundo. Não sei, mas o que temos é francamente belo e deslumbrante sem dúvida alguma, constituindo uma grande riqueza patrimonial. Já conhecia muitos dos exemplares expostos no novo museu, das visitas ao Museu dos Coches original e também do Palácio de Vila Viçosa. A maioria são peças sumptuosas, algumas barrocas, cheias de detalhes, viaturas de gala e de passeio com tracção animal, construídas essencialmente em madeira, entre o século XVI e XIX, para apoiar as deslocações da realeza portuguesa e dos seus visitantes.

                Sempre que me deparo com uma viatura destas, imagino a história da gata borralheira. Através da magia, a fada madrinha, voluntariosa, transformava rapidamente e apenas com a sua varinha mágica, uma abóbora, numa esplendida carruagem, sem perceber patavina de mecânica ou de marcenaria, sem fazer projectos, maquetes e protótipos e, sem programas 3D e sem caderno de encargos, sem estar muito preocupada com as leis do movimento, da aerodinâmica, da ergonomia e certamente analfabeta em álgebra, aritmética e geometria, pois o prazo de validade das suas criações nunca ultrapassava a meia-noite, prazo muito reduzido, quase equivalente ao leite sem lactose ou ao requeijão (eheheh). Depois regresso ao mundo real e sabendo que ainda não possuímos essa maravilha tecnológica, dos contos de fadas, que é a fabulosa varinha, situo-me, vejo e avalio o trabalho manual na construção de cada pormenor, com as ferramentas da época e agora as operações de restauro, que suponho serem realizadas em continuidade, por especialistas nestas coisas do carbono, da ferrugem, do caruncho e das térmitas mais estranhas que adoram estar e reproduzirem-se nestas reais velharias, expostas à humidade, à temperatura, à pressão atmosférica e à luz, gerando mofos, bolores e outros agregados familiares pouco recomendados.

                Desculpem as ironias, mas eu quero mesmo falar do edifício. Para mim foi uma decepção já anunciada pelo que se foi tornando visível durante a obra, semi-escondida e semi-visível. Nos dias de hoje, fazer uma edificação daquela natureza, dimensão e custo, sem que ela garanta também, para além da funcionalidade a que foi destinada, uma afirmação estética ao nível da arquitectura do seu tempo, capaz de ser uma mais-valia numa cidade, que marque a contemporaneidade de forma singular, é um verdadeiro tiro no pé. Este edifício concebido pelo arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha Prêmio Pritzker, em parceria com os ateliês dos portugueses Ricardo Bak Gordon e Nuno Sampaio integra o grupo de edifícios de Lisboa que não acrescentam nada à cultura arquitectonica portuguesa e espero que não seja outra socratice realizada nas entrelinhas. 35 milhões de euros previstos inicialmente para o custo da obra, ir-se-ão transformar entre 200 a 300 milhões de euros, quando ela for concluída. Entregaram-se projectos e obras a quem não sabe fazer orçamentos ou os minimiza.

                Um dos co-autores afirma que pretende "fazer cidade a partir da arquitetura" – pretende, mas não consegue. Fala bem, argumenta melhor, cria uma teoria estruturante entre o edifício e a envolvente, mas na prática, resolveu de forma vulgar, sem brilho, sem originalidade, sem genialidade, que a localização e o programa mereceriam.

                É pouco provável que alguém se desloque de propósito a Lisboa para ver este edifício, por isso não fará cidade, certamente. Há edifícios contemporâneos que fazem cidade ou já fizeram, levando apreciadores de arquitectura a Lisboa, na época em que foram construídos ou até mais tarde: o Centro Cultural de Belém, o Oceanário, a Torre VTS, o Teatro Camões, o edifício Vodafone, a Caixa Geral de Depósitos, o Franjinhas, a Torre do Tombo, a Gulbenkian, o Pavilhão de Portugal, o Adamastor, o Multiusos, o novo Estoril Sol (Estoril), a Fundação Champalimaud, a Mesquita de Lisboa, A Gare do Oriente; o Museu Paula Rego (Cascais), a Universidade Nova de Lisboa, a Torre Monsanto, o Centro Ismaelita, o Heron Castilho, as Torres das Amoreiras, o Castil, o Pavilhão do Conhecimento e a até aquela igreja louca, inacabada, do Troufa Real, esta pelas piores razões… Neste momento para fazer cidade (Lisboa) é preciso ultrapassar ou ombrear minimamente com Siza Vieira, Teotónio Pereira, Vittorio Gregotti, Eduardo Souto Moura, Peter Chermayeff, Gonçalo Byrne, Charles Correa, Tomás Taveira, Calatrava, Frederico Valsassina, Arsénio Cordeiro, Conceição Silva e outros. Lisboa já tem uma coleção de boa arquitectura contemporânea e portanto é preciso merecer para fazer cidade, não basta querer.

                Dizem-me que a obra ainda não está concluída, que faltam grandes painéis multimédia nas paredes nuas interiores. Quanto a mim animará e enriquecerá o conteúdo, mas não o edifício em si. Sorrio-me com as características apontadas pelos comentadores e jornalistas, utilizando as palavras, geometria, brutalismo e minimalismo, como se isso justificasse a pobreza estética do edifício e a falta de genialidade manifestada pelos seus autores.

78 peças - coches, berlindas,  carruagens, cadeirinhas, carrinhos, liteiras, seges... expostas num edifico normal, normal (imitando Ricardo Araújo Pereira no seu boneco de calceteiro), que bem precisaria de uma varinha mágica com efeitos especiais e permanentes.

Vale a pena visitar, pelos coches. O resto funciona, mas não surpreende.

AQ – publicado em Revoltando os dias  no NVR 1/07/2015

28 junho, 2015

Entardecendo com Berlim


Entardecendo com Berlim

                Talvez fosse o último país para eu visitar. O preconceito de visitar um território feito de histórias complicadas e de difícil digestão, onde o nazismo vingou por um período de tempo, agredindo o mundo e a humanidade e pondo de luto a história do século XX, possuía-me desde sempre. Os alemães não são todos iguais, passou mais de um lustre de história, eu sei, mas Hitler falava às massas, com os seus discursos inflamados e as massas estavam lá para o ouvir, para o aplaudir e para o seguir. Isso é inegável.

                Sabemos que Hitler tinha consigo o génio da época da propaganda dos ideais, Joseph Goebbels defendendo que, uma “Uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade”, aglutinando multidões e alucinando coletivamente milhares de jovens em torno do nazismo e do seu Führer,… mesmo assim eles estavam lá, aplaudiam e deixavam-se seduzir. E não eram poucos e não desapareceram com o final da 2ª guerra. As imagens do ditador, fazem parte da minha formação cinéfila, tal como a de muitas gerações pós-guerra e moldaram o  meu desejo de conhecer o mundo sempre orientado para outras paragens. Era como se no mapa da europa não existisse tal país.

                A oportunidade de visitar Berlim bateu de frente com este preconceito e foi-se diluindo durante a minha permanência, através da evidência da história da cidade dividida e da cidade reunificada, com os últimos 25 anos de arquitectura  contemporânea, o meu ópio para muitas dores. 

                E tudo superou as minhas expectativas.

                Berlim é uma cidade martirizada pela história, uma cidade de muitas histórias violentas, que parece ter renascido após 1990. Evoquei a transmissão em direto pelas televisões do mundo, do concerto memorável do grupo Pink Floid, tendo adaptado a música The Wall, concebida alguns anos antes para outras circunstâncias. Li em Berlim um esforço meritório para unir a cidade, transformando as fronteiras de duas cidades forçadas a virarem as costas durante a guerra fria, num centro de grande interesse a muitos níveis. Berlim não é uma cidade para turista ver, é uma cidade construída para os alemães, dando resposta sempre aos seus interesses de cidade martirizada, mas capaz de curar as suas feridas.

                Olhei ao longe a obra de Siza Vieira, Bonjour Tristesse, que me transportou para outras histórias de outros lugares, não menos tristes e sem qualquer anúncio de um dia bom. Visitei o memorial do Holocausto, projeto de Eisenman, que consta de uma escultura gigante feita de blocos que, em planta, são todos rectângulos cujas dimensões me evocam sepulturas implantadas ordenadamente, mas cuja volumetria causa sensações de labirinto, de desconforto, de confusão,… Visitei também Daniel Libeskind… e o resto foi a festa da arquitectura, vidro e vidro, aço e vidro, transparências e reflexos, rua sim, rua sim, praça sim praça sim.

                Num sábado ao fim do dia, sentei-me olhando as pessoas aproveitando os últimos raios solares, deitadas pacificamente na relva da praça da catedral, no chão onde Hitler proferiu um dos seus discursos mais exuberantes da história, Lustgarten. Peguei no telemóvel e escrevi:

“19h43m num cruzamento de várias realidades e sensibilidades, com a história - um relvado, uma fonte, um rio, uma música clássica voando em sintonia com a brisa semi-nocturna, o museu de artes como cenário de lusco-fusco a catedral à sua direita. Relaxamento de pessoas que parecem pacíficas, numa urbanidade multicultural e multicolor, que pretende sossegar consciências, através do seu desenho urbano planeado, numa epopeia de raios laranja dum pôr-de-sol germânico. Talvez nunca mais estejamos comungantes deste espaço, talvez este seja um momento único na vida de todos, numa letargia de cansaço provocado por muitos e muitos quilómetros a percorrer e a conhecer esta Berlim feita de tudos e de nadas. Talvez não nos encontremos jamais, mas estamos aqui hoje, neste relvado simbólico, entardecendo com Berlim. Um frontão grego e colunas dóricas a dialogar com capitéis coríntios, afirmando modelos provenientes da Grécia antiga, grande berço da arquitectura, da filosofia e da democracia, permanente do orgulho dos conceitos de humanismo do ocidente, que afinal, não sei se todos teremos. O sol põe-se, vai iluminar outras urbanidades do mundo e para onde vai cada um de nós?” 
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06 junho, 2015

GÉNESIS


GÉNESIS

            Já vou na terceira oportunidade de apreciar ao vivo e a preto e branco, fotografias da autoria de Sebastião Salgado. Desta vez foi na Cordoaria em Lisboa.

            É uma gigantesca exposição, com 245 fotografias de grande formato, que já foi vista por cerca de 2 milhões de pessoas desde 2013, em vários pontos do mundo. Está organizada em 5 partes, “ Amazónia e Pantanal”, Espaços a Norte”, “Sul do Planeta”, “África” e “Santuários”.

            O grande tema “Génesis” (do grego Γένεσις, "origem", "nascimento", "criação") abre-nos janelas para a origem do planeta terra, tão mal estimado pelos nossos contemporâneos – uns porque pertencem a países desenvolvidos e industrializados, outros porque pertencem aos países em vias de desenvolvimento… mas, todos pecam.

            O seu autor referenciou-a como uma “história de amor ao planeta”, que expressa uma década do seu trabalho, mostrando-nos através do seu olhar, as situações mais primitivas que ainda hoje sobrevivem a este nosso mundo louco e idiota. Todas as fotografias formam um registo de grande valor, para nós que vivemos agora e para as gerações que se seguem, pois são um testemunho real dos recantos do mundo não explorados e não corrompidos pelo Homem civilizado, pelos seus negócios e pelo capital que tudo adultera. 

            Imagino que são fotografias obtidas em locais de difícil acesso, depois de dias e dias (meses?) cheios de privações, de obstáculos, de suor e de desânimo, que só uma grande determinação como a de Sebastião Salgado,  em partilhar connosco realidades tão distantes e tão estranhas, consegue transformar estas expedições tão singulares, em sucesso.

            Percorri a exposição de forma desorganizada, como tenho o hábito de fazer, devido a uma certa impaciência em percorrer o caminho dos outros. Permaneci mais tempo, vendo e revendo as fotografias de África, pois é por ali que mais me identifico. Colhi fotografias de fotografias, para poder rever e escrever sobre elas.

            A minha fotografia preferida foi obtida no sul Sudão, em 2006. Foca um acampamento de gado em Amak, com múltiplas transparências de cinzentos, resultantes de diversas fumaças que se destinam a afugentar insectos. Bovinos magros de grandes armaduras, com ar pacífico, entremeados com os seus guardadores que controlam e cuidam da manada, aliviando todo o acampamento de insectos que martirizam todos, a certas horas do dia e da noite. È um belo registo fotográfico e esta é a foto talvez mais popular.

            Mas há outras que mereceram a minha atenção. A investida do elefante que chama à atenção para a dizimação dos elefantes que alimentam o negócio ilícito do marfim (Zâmbia), as mulheres da tribo Mursi e Surma, últimas do mundo a usar discos nos lábios (Etiópia)…

            Todas as fotografias têm uma mensagem implícita, induzindo-nos para a preservação do planeta azul, assinada por este grande fotógrafo ambiental, acrescida de várias histórias paralelas que cada visitante poderá imaginar sobre, toda a equipa que apoiou o fotógrafo, tornando possível segundos de cliques invulgares em sítios recônditos do planeta, onde não passa o comboio, não há aeroportos, não existem navios, e os jeeps ficam a muitos quilómetros de distância, justificando-se verdadeiras peripécias, que são deduzíveis e circunstanciadas pelo raciocínio de cada um.

            Não vos maço com mais descrições. Não percam, a exposição estará em Lisboa até Agosto. Preparem-se para a fila a certas horas. Esta é a exposição que deveria por o mundo a pensar.

Podem consultar:

http://www.terraesplendida.com/genesis/ TE_GENESIS_INFO_CM-JF.pdf
Publicado em NVR
 

 

06 maio, 2015

SOU UMA BABY BOOMER e não sabia, mas estou bem, obrigada.


SOU UMA BABY BOOMER e não sabia, mas estou bem, obrigada.

            Sou um misto da geração Baby Boomer e da geração X, escrevendo num computador e usufruindo de algumas ferramentas da geração Z. Não dispenso a televisão, nem a internet, mas junto-me aos amigos para conversar e para me divertir. Leio livros em qualquer suporte e utilizo as web2.0.

            Não entendem o que estou a escrever? Não sou socióloga, mas sei que as últimas gerações encontram-se tipificadas segundo características… afinal, o mundo tem-se alterado rapidamente e tipificar facilita o entendimento entre todos. Achei piada às denominações, que também só por si espelham as grandes mudanças dos séculos XX e XXI.

            Antigamente as gerações sucediam-se aproximadamente de 25 em 25 anos e o mundo rodava muito devagar; quanto mais antigamente, mais devagar o mundo rodava, mas conservando sempre os minutos, as horas, os dias e os anos, do grande relógio do universo.

            Atualmente, o relógio é o mesmo, mas as gerações sucedem-se mais rapidamente, de 10 em 10 anos e estão catalogadas da seguinte forma:

Boomer – Nascidos durante a 2ª guerra, hoje aposentados, são pragmáticos, disciplinados, leais e admiram a autoridade. Sofreram na pele os conflitos mundiais potencializados pela 2ª guerra mundial. Foram criados em casa, pelos próprios pais, orientados pela moral e os “bons” costumes e são carentes de habilidade tecnológica.  

Baby Boomer (explosão de bébés, crescimento demográfico) - Nascidos após a guerra, hoje têm mais de 45 anos, com grandes capacidades de inovação, inventores de “Make love, not war” e têm aversão aos exercícios bélicos. Favorecem as artes como forma de evolução humana. O Woodstock e a guerra do Vietnam são pontos de referência nesta geração que estudou as ideologias e viveu as “ revoluções” dos anos sessenta e setenta (emancipação da mulher, movimento hippie, Che Guevara, liberdade sexual, direitos civis, Martin Lutter King, ida à lua, rock and roll e a TV). Muitos ocupam hoje cargos de chefia e privilegiam a gestão dos conflitos, num quadro de valores libertários e otimistas, com ideais humanistas. Assistiram ao nascimento da tecnologia. Desafiam o sistema onde actuam pois têm uma “genética” revolucionária. Apesar de tudo é uma geração próspera, com alguma inabilidade tecnológica, mas riquíssima em experiências vivenciais.

Geração X - É a geração percursora dos recursos tecnológicos, nascida nos anos setenta, mas um pouco formatada, resistindo à inovação, sofrendo de alguma insegurança em termos profissionais e pessoais. É a geração do aparecimento da SIDA, da popularização do divórcio e do multiculturalismo, mesmo assim deseja estabilidade, equilibrio e tranquilidade. É a primera geração que domina verdadeiramnete os computadores, partilha informação e realiza trabalho de equipa. Viveu em pleno a bipolaridade da guerra fria.

Geração Y – Contemporâneos da queda do muro de Berlim, nasceram na década de 80 e num curto espaço de tempo viveram os grandes avanços da tecnologia, desenvolvendo-lhes a capacidade de realizar várias tarefas ao mesmo tempo – navegar na net, ler emails, ouvir musica, escrever, falar ao telemóvel – alterando os seus hábitos (menos televisão e mais computador). A geração Y ambiciona novas experiências e quer rapidamente chegar ao topo das profissões. Quer movimento, inovação, rapidez, já que as solicitações são cada vez maiores e efémeras. Para alcançar o topo, sacrifica-se seja quem for, doa a quem doer. Tem dificuldade em entender o mundo sem tecnologia. Os seus elementos vivem um permanente conflito, são consumidores compulsivos e tem preocupações ambientais. Saem cada vez mais tarde da casa dos pais, trabalham para viver, recusam trabalho servil e buscam mais lazer.

Geração Z- Nascidos no final dos anos 90, são os verdadeiros nativos digitais, que ainda não estão inseridos no mercado de trabalho, mas já se constituem problemáticos para as gerações anteriores. Estar sempre conectado com o mundo é a linha que traça o seu perfil individualista, antissocial e que zela pouco pela sua privacidade. Nunca viveram num mundo sem computadores pessoais, telemóvel, mp3, internet, playstation… Têm uma capacidade de entendimento do mundo digital muito superior do que as gerações anteriores, mas não sabem brincar ao ar livre, não sabem fazer amigos reais e levam uma vida sedentária, com grande percentagem de obesos. O mundo real e a família secundarizaram-se. Vivem apenas o presente, com pouca paciência para as gerações analógicas e são um pouco desumanizados. Vivem em rede virtual, são inteligentes e tolerantes perante outras culturas, mas não sabem trabalhar em equipa.

            Como sou uma Baby Boomer acredito na gestão de conflitos entre gerações, transformando os constrangimentos em oportunidades de aprendizagem.

            Todas as gerações tem a aprender umas com as outras. Sempre foi assim.

            Qual é a sua geração? e o que virá a seguir?
 
AQ (revoltando os dias)
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01 maio, 2015

Génesis

SÒÒÒ 245 imagens a preto e branco, de grande formato, captadas entre 2004 e 2011 nos lugares mais recônditos e desconhecidos da Terra.
Estas já ninguém me tira!!!!.

24 abril, 2015

Revoltar abril



REVOLTAR ABRIL

                Constato como se sentem penalizados, aqueles que ouvem falar da revolução de abril, mas não tiveram oportunidade de a viver, ao vivo e a cores, aqui tão perto, tão imprevisível, tão genuína e tão pensada, porque simplesmente ainda não eram nascidos ou então, eram crianças e tudo lhes passou ao lado. Ainda hoje, preparando a data, eu recordava abril com um colega e os outros ao lado, viraram-se para nós, para ouvir melhor o que contávamos sobre os anos de 74 e 75.

- Oh! quantos anos tinhas em 74? Certamente ainda comias cerelac!!!!- perguntei e afirmei eu provocatoriamente.

- Tinha 4,… tinha 5,… ainda não tinha nascido…. Responderam com olhar triste, pois faltou-lhes um “bocadinho assim” para viverem um grande momento histórico, que aliado à irreverência da juventude, se tornou uma marca que une toda uma geração.

                Geração que hoje, olha tudo com uma enorme consciência critica, sobre a situação actual deste pais pretensamente democrático, sobre algumas atrocidades feitas em nome da liberdade e afirmando que ainda há muita história por contar, porque não convém que se conte por enquanto, mas não conseguem fingir um brilho de olhar, recordando aquela época.

                Recordámos os grandes murais pintados nas ruas, onde apareciam sempre a foice e o martelo, realizados pelo PCP e pelo MRPP. Recordámos os cartazes e os autocolantes – as artes gráficas ainda sem recursos tecnológicos ao serviço das máquinas partidárias. Recordámos essencialmente as frases bombásticas, que apareciam nos sítios mais inesperados e emanavam um sentido de humor fabuloso. Não saberemos nunca quem as inventou, a maioria assinada pelos anarquistas (o A maiúsculo rodeado de uma circunferência), mas algumas perduram nas nossas memórias, já perdidos os contextos e as circunstâncias, mas recolocando um sorriso nos nossos lábios, a saber:

- Abaixo a foice e o martelo, Black and Decker ao poder!

- P—as ao poder, porque os filhos já lá estão!

- O socialismo está em construção, visite o andar modelo.

- A China vai de Mao a pior!

- A Madeira tem caruncho!

- Abaixo o odor corporal!

- Abaixo os ovos estrelados, os pintainhos tem direito de nascer!

- Abaixo a reacção. Viva o motor a hélice!

- Mortos da valas comuns, ocupem os jazigos de família, já!

- Se Deus existe, porque não se recenseou?

- O povo unido não precisa de partido.

- Abaixo o sabão amarelo, abaixo a tinta da china! Independência Nacional!

- Abaixo o café de saco e a cevada, cimbalino ao poder!

- Mais vale uma na mão, do que duas no soutien!

- Promoção imediata do leitão a porco.

- Não há eleições. D. Sebastião volta para a semana.

- Deixemo-nos de Barreirinhas, vamos ao salto em altura.

- O Governo é uma m--da. De quem é a culpa, da m--da ou do Governo?

- Queremos dormir com as nossas mulheres!

- Nem mais um anticiclone para os Açores!

- Nem mais um faroleiro para as Berlengas!

- Os galos pedem a nacionalização dos ovos.

- Anarquia sim, mas nem tanta!

- Viva isto, seja á o que for!

                Muito ainda se irá recontar sobre Abril e certamente também esta faceta alegre e satírica dos jovens libertários.

AQ

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03 abril, 2015

07 dezembro, 2014

Parada na linha do tempo

 

Fotografia: Manuel Cosentino.
Eras tu, sem seres, parada e demente na linha do tempo. Sem orientação, sem rumo, parada sem bagagem no apeadeiro da vida, dando-nos a grande lição da vida, a aguardar pacientemente a morte anunciada.
Fomos-te perdendo, anos antes, em cada olhar que se despedia de nós, como uma paisagem que se some no horizonte. Fingíamos não perceber e fazíamos contigo, planos para o futuro, sabendo que o futuro já tinha ficada para trás há muito. Não tínhamos lágrimas, apenas surpresa e ansiedade por aquilo que ainda te estaria reservado, apelando todos os dias para a nossa força interior, que muitas vezes claudicava vertiginosamente. O desespero de não se perceber a demência. O desespero de não termos armas para lutar por ti. O desespero de em cada noite te tornares ainda mais distante e desconhecida de nós.

 O entusiasmo, a lucidez, a autonomia e a perseverança que te caracterizavam, abandonaram-te tão cedo, que as manhãs poderiam ser tardes, e as tardes, as noites, como se a linha do tempo se tivesse subitamente tornado quebrada, por determinação de ninguém.

 Eras tu, sem seres, apaticamente estacionada no tempo, e nós, plateia forçada dessa despedida dolorosamente injusta.

 Bj mãe


21 novembro, 2014

O defunto falecido


O defunto falecido      

            Há histórias que originam verdadeiros filmes, pois são invulgares e com conteúdo forte, tornando-se bizarras quando analisadas com sentido crítico. No Portugal profundo não há só as histórias populares da tradição oral, também há outras histórias que possuem a dualidade do real e da fantasia, capazes de dar algum contentamento a um realizador neorrealista.

 

            Conheci uma figura impar, já desaparecida, que assinou como autor de algumas histórias bizarras, e que, contadas e recontadas na 1ª pessoa, lhe pertencem do princípio ao fim. Com personalidade aventureira, habituado às adversidades da vida, capaz de imensas proezas inimagináveis, sem os valores bem aferidos, disposto a correr riscos e com uma linguagem pejada de asneiras cabeludas constantes... ele contou que, num momento da sua vida, entre diversas profissões ocasionais que desempenhou, fazia com um automóvel citroen “boca de sapo” com 4 vitesses para a frente, viagens entre Portugal e França, servindo especialmente os emigrantes portugueses, transportando-os ou realizando serviços legais e ou ilegais, dependendo do ponto de vista e do preço. Não era zarolho, mas corria riscos na mesma, sem grande responsabilidade e sem medir as consequências para ele e muito menos para os outros. Penso que a ilegalidade era o fato que lhe assentava melhor.

            Um belo dia deparou-se com o desafio de transportar ilegalmente um defunto falecido numa bidonville parisiense para Portugal, já que os familiares não teriam dinheiro para a trasladação legal ou nem saberiam como faze-lo. O transporte de um falecido envolve responsabilidade médica e jurídica, um processo burocrático enorme, e ter a bolsa recheada de dinheiro para fazer face às despesas. Os familiares tinham poucos recursos, apesar do carro em 2ª ou 3ª mão guardado para vir de férias au Portugal.

            Ele dispôs-se a faze-lo sem grandes complicações, recebendo logo à partida a remuneração combinada para lhe dar ânimo para a viagem. Recolheram alguns francos pelos diversos filhos, e apostaram as “fichas” todas nesta solução.

            Recolheu o defunto que tinha falecido há menos de uma hora, vestiu-lhe um fato preto, sentou-o e amarrou-o ao banco do passageiro do carro dele (ainda não havia cintos de segurança), apertou-lhe o casaco, colocou-lhe un chapeau e a gravata e rematou com uns vérres bem escuros. Arrancou para Portugal, um Portugal que ainda não era Europa, com a garrafa de bagaço no porta-luvas e os cigarros 3 vintes no bolso da camisa. A família seguia noutra viatura, à derrière..

            O defunto falecido portou-se muito bem, parecendo dormir o caminho todo. Pararam para dormir um pouco. Pararam para fazer as refeições – o farnel do arroz de frango e umas sandes de fromage. O defunto não teve fome, manteve-se sereno, abstémio e sempre com os seus óculos escuros, que ora lhe filtravam o sol, ora lhe filtravam o luar…parecendo dormitar. O queixo descaia um pouco e foi preciso reforçar o visual com um cachecol. Numa das fronteiras, os carabineiros, rodearam o carro, espreitaram, pediram documentos, interrogaram e respeitaram o sono do senhor adormecido. A família em pânico dentro da sua viatura, visualizando todas estas operações, rezavam pai nossos e avé marias à Nossa Senhora de Fátima, para que o defunto não fosse convidado a sair….

            O motorista aventureiro quando recontava a história dizia que o pior estava para vir.

            Entraram au Portugal com sucesso e chegaram à aldeia lá para os lados de Montezinho, onde a urna e a cova no cemitério já estariam abertas e toda a papelada tratada, pois previa-se o odor insuportável do final da viagem. De facto o pior estaria para vir, e que seria retirar o defunto do veículo que o acolhera ainda quente e por mais de 30 horas de viagem.

            O post mortem, a viagem, as fronteiras e o fumo do permanente cigarro 3 vintes do autor desta proeza, endureceram-lhe os músculos, os tendões, o comportamento e até a alma. O homem era grande, vinha bem encaixado entre a cadeira e o tablier, teso como um presunto, sem maleabilidade alguma para se retirar do veículo.

            - Então Galdra? como resolveste le problèm?

            - Ca, ca ....lho. (ele era gago) titive que que lhe partir as pernas! Q’até deu jeito para o meterem na urna, senão ela não fechava com as pernas dobradas.

            No final todos os ouvintes riam por imaginar o Gualdra com um martelo a fazer o desencarceramento do defunto dorminhoco.

            - Olha lá e se os Carabineros tivessem percebido e mandassem sair o senhor do chapéu?.

            -Ca, cara .... lho eu já estava a penpensar, pupu..a que pariu eu eu fingia que quia buscar os dodocumentos ao cacarro queque  nos seguia e fugia que nunnunca mais ninguém meme apanhava!.

            Pobres dos familiares, que pagaram bem e seguiram confiantes este aventureiro, que nem pensaria duas vezes em deixa-los a todos em maus lençóis.

            Um cromo esta figura!

            Digam lá se não dava um filme????!!!!!

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In” Estórias de um Portugal profundo” Anabela Quelhas

21 outubro, 2014

premio empreendouro 2014


Posso finalmente divulagar os meus cartazes candidatos ao concurso empreendedouro 14.

Não fui selecionada e garanto que os trabalhos selecionados não foram os melhores. De facto o gosto é discutível, é bom discutir o gosto, e o gosto dos júris ~´e muito discutível.

Foram seleccionados cartazes que resultam apenas de um bom programa de fotografia que faça tratamento artístico, forma selecionados cartazes com uma composição gráfica pouco estética… enfim. Dá vontade de não participar mais, nem motivar que outros participem acreditando que a qualidade vencerá..

Não sinto dor de derrotada, pois ando nisto há muitos anos, e o meu entusiasmo por um projecto deste género, basta. O que me motiva verdadeira mente é  ter oportunidade para ser construtora é isso que me premeia como pessoa e artista- Tenho pena que não exibam on line todas os cartazes candidatos para que o publico tenha oportunidade de constatar a avaliação que foi realizada. Exibem apenas 10 cartazes escolhidos para se votar on line.
Ver projectos categoria 5
http://premio.empreendouro.pt/Pages/Projetos.aspxrojectos categoria 5

 
OS MEUS CARTAZES 

 

MEMÓRIA DESCRITIVA

TÍTULO: O futuro é d’ouro

A proposta apresentada foi criada essencialmente através do recurso fotográfico.

A junção da imagem de uma menina de sorriso meigo e doce (como o porto branco), a um pormenor arquitectónico, desenhado por Nicolau Nasoni, tem a intenção de colocar em diálogo, o antigo e o contemporâneo.

Nicolau Nasoni, arquitecto italiano da época barroca, que deixou imensas marcas neste vasto território do Douro, continua a ser uma potencialidade cultural desta região, no presente e no futuro.

As geometrias do barroco, expressas na arquitectura religiosa e na arquitectura civil, evocam as linhas dos socalcos, as progressões do crescimento dos braços da planta trepadeira que é a parreira, e as gavinhas que assumem a parte mais delicada e eficaz do crescimento da mesma. As linhas onduladas dos cabelos da menina e toda a expressão sorridente e concordante das linhas curvas do seu rosto, representam as gerações vindouras que continuarão a valorizar esta região e a preservar a linha de água que é de ouro tal como o seu futuro. Toda a região do Douro tem uma geometria rebuscada gémea do barroco, relaxante, sorridente que a converte única e inesquecível.

As gentes, o património cultural e o vinho são o ouro desta região – a consolidação no presente e a esperança no futuro.

Motivação – Expressar artisticamente algo que é único no mundo, o Douro. O Douro  não seria o mesmo Douro, sem o seu património construído, barroco, muito articulado com o grande arquitecto Nicolau Nasoni. O barroco confere a toda a região distinção e erudição., convertendo-se numa valia adicional ao vinho do Douro.

Identificação de lugares - O pormenor apresentado foi recolhido na fachada principal da capela localizada no solar de Mateus em Vila Real e abre-nos caminhos para além do vinho, direccionados para diversas vertentes do património cultural comum a toda a região.

 

MEMÓRIA DESCRITIVA

TÍTULO: Douro – é aqui

                Apresenta-se proposta globalizante do que é o Douro.

                A listagem dos concelhos cria um bloco único de cumplicidade e labor, criando o equilíbrio com as linhas das vertentes, traçadas como gesto duplo desenhado de uma só vez, como se o Homem tivesse o poder de rasgar o espaço e impor-se sobre a natureza.

O Homem teve e tem esse poder.

“Deus desenhou as montanhas através de um rio de ouro e o homem teve a inteligência e o empenho de as “socalcar” com muros de suporte em xisto e enxada para obter o melhor vinho do mundo.” Esta frase escrita pela autora reforça a imagem e surge assumidamente na composição gráfica. Todo o cartaz é sóbrio para que o cacho de uvas, desenhado no espaço de maior visibilidade, se expresse em todo o seu esplendor.

Motivação – Responder a um desafio para promover o Douro, evocando Deus de forma simbólica como o grande arquitecto de toda a região, já que a paisagem é divinal e única no mundo.

Identificação de lugares – Todos os conselhos.
 
 
 

MEMÓRIA DESCRITIVA

TÍTULO: Douro - A linha que une

            A proposta apresentada evidência de forma minimalista e contemporânea o relevo das margens do rio Douro e o elemento que as une, numa linha ziguezagueante, única no mundo, expressando o encontro feliz dos três elementos.

            A riqueza paisagista, enriquecida pelos socalcos criados e recriados pelo suor do homem do Douro, oferece-nos diversos planos, que vão escondendo o rio e vão cultivando o nosso imaginário, recortado de uvas e sabores generosos, que contribuem para o desenvolvimento dos lugares, dos sítios, dos pequenos aglomerados habitacionais, sintetizados nos diversos concelhos, que dão consistência à tal linha que une, o rio Douro.

            O impacto deste cartaz constrói-se a partir da junção de uma moderna simplicidade da linha – a definição do relevo apenas com linhas coloridas distintas, porque cada encosta é única – com a complexidade e   força da escrita, transformada em textura líquida simbolizando a dependência dos lugares em relação à linha de água e ao micro clima que permite o cultivo deste vinho único no mundo.

             A cor que domina o cartaz associa-se à cor do vinho, induzindo de imediato a potencialidade global desta região. É também uma cor quente que tenta captar a parte psicológica do receptor conferindo sensações de conforto, bem-estar, bom acolhimento e relaxamento que toda esta região pode proporcionar aos seus visitantes.

Motivação – Juntar a criatividade  minimalista ao Douro, convertendo os concelhos e as sua gentes, nos grandes agentes dinamizadores desta região.

Identificação de lugares – Todos os concelhos
 

18 setembro, 2014

Portugal está um país feio


Portugal está um país feio

                Uma circunstância infeliz da minha vida forçou-me, a passar estas férias circunscritas ao local onde vivo. Passei pelos mesmos sítios de sempre, repeti fotos, descobri novas realidades que por vezes se apresentam invisíveis, estendi olhares sem pressa, associados a reflexões outras vezes construídas, ou seja aproveitei a imobilidade de forma criativa e como sempre obedecendo ao meu espirito critico.

                O gosto educa-se? Aquela questão com que muitas vezes trunfamos para justificar erros e alarvidades visuais, voltou a emergir na minha cabeça, onde as questões estão armazenadas em abundância.

                Portugal está um país feio. MESMO FEIO! Acho eu e os outros.

                Esta é uma verdade incontornável.

                A arquitectura que invade o nosso horizonte, seja em que sítio for, é de péssimo gosto.

                Os amantes da fotografia devem sempre ter o cuidado de confirmar os enquadramentos, para eliminar ou esconder o que está a mais, os erros arquitectónicos e as aberrações que nascem no meio da arquitectura popular.

                A desordem urbanística é uma verdadeira anedota.

                Quem são os responsáveis? Os arquitectos e os engenheiros? Não.

                Os proprietários? Seria fácil dizer que sim, confirmar a sua culpa já que são eles os agentes activos. Mas não são. Os proprietários só constroem o que lhes deixam construir.

                Os grandes culpados são os autarcas deste país. Demoraram anos e anos para criar e aprovar PDMs e entretanto iam aprovando atrocidades, dentro e especialmente fora das cidades. Todos os autarcas deveriam ter uma política de organização do território e aplica-la com rigor. Já sabemos que a maior parte dos autarcas não tem formação nessa área, mas têm equipas e técnicos dentro das câmaras municipais. Tiveram inclusivamente gabinetes de apoio técnico, os GATs que não foram rentabilizados como deveriam ser, os técnicos estavam lá. Seria difícil seguir o princípio da não invasão dos solos agrícolas com construção?

                Cada um fez a sua casa onde quis. As redes de abastecimento de água são redes irracionais, dispersas, em que todos nós pagamos ao metro linear. Criar redes de esgotos para esta maluqueira urbanística é uma utopia e assim cada construção tem uma fossa que vaza os detritos para os terrenos adjacentes.

                Os autarcas assobiaram para o lado, durante 40 anos, têm fechado os olhos à sua própria incompetência. Foram 40 anos de asneiras sucessivas, somadas e multiplicadas, com ou sem PDMs.

                E a arquitectura?

                Quem domina o território são projetos de engenheiros sem qualquer formação estética. Aquela afirmação, “Gostos não se discutem”, tem servido para viabilizar a construção de edificações sem serem concebidas pelos profissionais que têm esse saber e direito. Esta situação que se chama falta de ética profissional, foi alastrando sobre a forma de vírus pelas cidades, aldeias e a natureza que as rodeiam. Hoje temos um Portugal feio, muito feio. As aldeias estão descaracterizadas, os solos agrícolas e as veigas entre montanhas estão pulverizadas por construções que assumem o mau gosto dos proprietários, dos seus autores e dos seus autarcas. Qual integração? Qual valor patrimonial? Qual valor arquitectónico? Existe por vezes um excesso de rigor nas cidades e uma permissividade catastrófica nos aglomerados rurais que definitivamente comprometem a paisagem deste país. As construções novas surgem desintegradas da paisagem e também não valem por si, porque arquitectonicamente são umas nódoas.

                Costumo dizer que, daqui a uns milénios, quando as gerações futuras ou então os ETs que desaguem por aqui, avaliarem o Homem actual deste país chamado Portugal, deduzirão que temos diversas neuropatias, entre as quais aquela que impede o Homem de se expressar arquitectonicamente com uma linguagem própria do seu tempo, e assertiva com todas as outras formas de arte suas contemporâneas.

                Os meus caros e amigos engenheiros que me desculpem, mas projectam com um papel milimétrico dentro da cabeça, sem qualquer sensibilidade ao espaço, à volumetria, à composição, à envolvente, à história e aos utentes. Projectam à engenheiro como é o seu dever. Para eles, linguagem arquitectónica ou fruição estética são verdadeiros palavrões. Temos que reconhecer que todos nós saberemos desenhar uma casa, só que uns fazem-no melhor do que os outros.

                O resultado é este, é tudo aquilo que invadiu a paisagem portuguesa e nos faz entristecer. Projectar bem é conciliar de forma criativa, a forma com a função, assumindo com dignidade e orgulho a linguagem arquitectónica de cada tempo. As construções fazem-se grandes e caras. Alguns proprietários fazem questão de dar visibilidade à ostentação e ao seu poder económico, e estão no seu direito, mas fazem-no tão mal! recorrem a técnicos, não a arquitectos. Surge por vezes um maior cuidado em certos projectos, que infelizmente se resume a umas molduras de granito, em cópias mal feitas do tempo de Raul Lino. Estamos no século XXI, temos tecnologia do século XXI, aplicada em projectos do século XIX - uma neuropatia de 2 séculos.

                De quem é a culpa?

                Dos autarcas. Desculpem eu insistir na acusação. Por vezes basta um conselho, basta mostrar novas tipologias, basta até criar regulamentos municipais com indicações claras sobre as intervenções, basta seguir as orientações de um arquitecto e basta não misturar poder autárquico com lobbies, com especulação, com tráfico de influências… é também da competência dos autarcas a educação estética dos munícipes, e o exemplo tem que vir de cima, obviamente.

                Houve uma época, e não foi há muito, que as autarquias dispensavam o cargo de arquitecto no seu quadro de técnicos, pois normalmente colavam-lhe o rótulo de artista louco, incómodo e “pouco prático”, e quando o tinham, colocavam-no na “prateleira” destinando-lhe a toponímia das ruas da urbe, impossibilitando que opinasse na definição de linhas estratégicas de desenvolvimento. A única vez que me candidatei a um concurso para vaga de arquitecto numa câmara municipal, fui rejeitada por não ter telhados de vidro, ser interveniente, eventualmente não ser permeável a partidarites e por ser mulher. Já foi depois de Abril!

                Estamos a pagar uma factura elevada desta falta de visão, desta inoperância e inércia autárquica global que afecta a todos. Cumprir regulamentos não chega, mas nunca é tarde para mudar, apesar que praticámos erros incorrigiveis… pelo menos agrada-me que peçam desculpa pela perturbação que as obras municipais causam aos munícipes. A educação é sempre positiva e de sublinhar.   

In” Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado”

Anabela Quelhas (aprendente e anotadora de espaços)

Sem acordo ortográfico
Publicado em NVR set 2014

14 junho, 2014

Zaha Hadid

ENCONTRO IMEDIATO DE 3º GRAU
Zaha Hadid
Londres
Serpentine
 



 
Reencontro com outro mito

24 abril, 2014

Afinal onde é o meu lugar

Afinal onde é o meu lugar? 
            Por onde andava eu há 40 anos atrás???
            O dia 25 de abril de 74 apanhou-me a sair da adolescência, numa idade em que já era uma observadora atenta do que me rodeava, sensível aos ideais ligados à igualdade e à fraternidade multicoloridas, conscientemente contra o “orgulhosamente sós” de Salazar, mas ainda saudavelmente ingénua e cheia de sonhos.
            Como estava no hemisfério sul, só tive conhecimento da revolução no final do dia seguinte, muito em segredo antes do jantar, deixando-me de orelhas em pé, pois a referência segredada foi segredada entre adultos apenas. Pareceu-me nascer ali um entusiasmo cauteloso, que me fez ansiar pelos jornais do dia seguinte, para finalmente ver Spínola como grande herói, com fotografias de página inteira, remetendo Otelo para segundo plano e Salgueiro Maia para terceiríssimo e desvalorizado plano. Nessa altura não me apercebi disso, logicamente. Incomodava-me aquele monóculo e o pingalim que segurava na mão, desconfiando da personagem, que tais objectos transportava, parecendo-me mais um tirano do seculo XIX, do que um revolucionário do século XX. Aquele monóculo nada tinha de modernidade. O modelo era Che.  
           
Nos dias que se seguiram, o monóculo virou moda e era simulado de forma irreverente por caricas de coca-cola, para posarmos nas fotografias de grupos de amigos adolescentes, crentes num futuro risonho e livre. O poster de Che Guevara colado nas paredes dos quartos, os discos clandestinos de Zeca Afonso, a ideia de um líder chamado Agostinho Neto, deixou de ser utopia e passou a ser tema de conversa constante, num processo de descoberta e aprendizagem rápida da democracia e da liberdade. Eu vivia com o BO (bairro operário) mesmo ao lado, suscitando muita conversa clandestina que o meu espirito curioso retinha, nos anos de adolescente. Contavam-se histórias… o cartão de visita da miscigenação urbana não colhia no meu lado, impulsionando diversas questões que eu ia organizando na cabeça, e que todos omitiam os esclarecimentos de que era ávida.
            Nada mais foi igual, a sociedade de Luanda entrou em sobressalto progressivo. A ideia doce e romântica de uma independência desejada e de um salto de liberdade para um futuro de todos, rapidamente se transformou numa contagem decrescente para a guerra civil, que tal como todas as guerras são injustas, sangrentas, desumanas, mutiladoras e trágicas. A descolonização rápida, necessária, mas pouco eficiente e nada assertiva, gerou meio milhão de retornados e refugiados, seres humanos desprotegidos, incapazes de se organizar e lutar pela sua permanência nos territórios independentes, que apenas tiveram como alternativa, a saída.
            Percebi, com 16 anos, que não tinha autonomia para tomar decisões sobre a minha vida e para a minha vida. Descobri que devia obedecer às decisões dos meus pais, mesmo que me desagradassem profundamente. Constatei que não era suficientemente crescida para viver sozinha na terra que me viu nascer, nem era suficientemente criança, para tudo me passar ao lado.
            Após poucos meses do 25 de abril, anunciaram-me que tinha duas horas para me despedir de Luanda, pois provavelmente iria ter um bilhete de ida para Lisboa, sem volta. Já passava das 18h30m.
            Não fui ouvida, nem achada!
            Trinta minutos foram para comprar dois agasalhos, um casaco de lã azul e uma camisola roxa, que por mero acaso e sorte havia numa loja junto ao local onde vivia. O resto foi a despedida. Despedi-me de lágrimas nos olhos, e vários nós na garganta, de uma cidade linda. Ao longo desse tempo, revi alguns momentos das minhas vivências frágeis e ingénuas, que farão eternamente parte de mim, retive no olhar sítios da minha terra de nascimento e de coração. Faltou-me o tempo para me despedir de amigos, para anotar contactos, para criar novas pontes de ligação para o futuro. Nem queria acreditar que não voltaria, que poderia nunca mais ver e estar com os meus amigos. Algo desconfortável e cada vez mais aterrador se instalou na minha racionalidade, tornando-me incapaz de tudo, excepto obedecer.
            Naquela noite, cresci de repente vários anos. Passei a ser adulta da noite para o dia seguinte, lutando entre duas lógicas, a minha lógica dos afectos e a lógica da descolonização, indiscutivelmente necessária, quanto a mim. Eu já entendia a democracia como meta maior, já tinha observado a digestão difícil de várias revoltas e era sensível ao conflito implícito da acção colonizadora.
            As luzes reflectidas na água negra da baía de Luanda, assumiram formas irregulares e esborratadas, resultantes da luz e das minhas lágrimas silenciosas, que teimavam correr-me pela face enquanto viajava no banco de trás do automóvel do meu pai em direcção ao aeroporto. Conferi cada rua, cada avenida, cada cruzamento… olhei pela última vez os sítios onde me encontrava com os meus amigos.
            No dia seguinte, passei a ser refugiada em terra europeia. A coincidência entre duas realidades: a minha realidade geográfica intersectada com a minha realidade afectiva, temperada pela revolta da não decisão. Entrei num mundo sem fortes referências para mim, onde decorria uma revolução com alguns contratempos pelo meio - eu, cheia de contradições e com novas e maiores responsabilidades, um pouco entregue a mim mesma. O rótulo de retornada e não progressista também se colou a mim em algumas situações menos felizes na integração na sociedade portuguesa. A desconfiança sobre a minha caderneta escolar que testemunhava bons resultados académicos, a desconfiança sobre os meus princípios e valores, a falta de solidariedade entre colegas de escola, e a ausência de camaradagem extra escola, premiaram-me em diversos momentos ao longo de 74/75, nas terras “do choupal até à lapa”.
            A ruptura violenta e traumática nos meus afectos, converteu-me em jovem adulta silenciosa, precoce e introvertida, com as sensibilidades adormecidas, ou talvez anestesiadas, como forma de me proteger das novas realidades. A racionalidade e as emoções, combateram-se num duelo entre uma aprendizagem ideológica e as orientações do politicamente correcto, potencializada através da pintura realizada em horas de ócio no Museu Machado de Castro, ao longo de alguns meses. 
            Alguns amigos foram reencontrados quase 30 anos depois, outros permanecerão sempre no fio da navalha, entre o estar ou não estar vivos.          Quem me desenhou o destino era graficamente inábil como tenho confirmado ao longo da vida.
            Costumo dizer que a minha vida afectiva é um puzzle incompleto, onde faltam algumas peças. Das peças recuperadas, nem todas me trouxeram alegria, pois os anos passaram, e as peças tornaram-se menos luminosas, com contornos desligados da minha história e por vezes contrários às minhas convicções.
            Os anos passaram, não voltei mais.
            Passei a ser assumidamente uma sem terra, ou contrariando e ampliando até ao absurdo, também poderei dizer que passei a ser uma cidadã do mundo, o que em termos práticos dá no mesmo. A lei diz que tenho nacionalidade portuguesa, o meu BI também, e eu continuo a sentir-me sem raízes nos vários locais onde já vivi, neste país. Vivo de sensações armazenadas, entre sombras de jacarandás e aromas de acácias rubras, desconfiguradas em terra fria de bravos navegadores da cauda da europa e uma vontade férrea de inovar com vistas para o futuro.
            Sou portuguesa sem ter nascido aqui e não sou angolana porque não vivo lá. Afinal sou de onde? Um paradoxo desta coisa de se ser eternamente de algum lugar, sem efectivamente o ser, mas que nos preenche os sonhos de todas as noites - a crise de identidade que muitos angolanos sentem e vivem, provavelmente entenderá o verdadeiro e profundo significado destas palavras rabiscadas a partir do 25 de abril de 74.
Afinal onde é o meu lugar? 
In” Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado”
Anabela Quelhas (aprendente e anotadora de espaços)

(sem acordo ortográfico)