21 outubro, 2014

premio empreendouro 2014


Posso finalmente divulagar os meus cartazes candidatos ao concurso empreendedouro 14.

Não fui selecionada e garanto que os trabalhos selecionados não foram os melhores. De facto o gosto é discutível, é bom discutir o gosto, e o gosto dos júris ~´e muito discutível.

Foram seleccionados cartazes que resultam apenas de um bom programa de fotografia que faça tratamento artístico, forma selecionados cartazes com uma composição gráfica pouco estética… enfim. Dá vontade de não participar mais, nem motivar que outros participem acreditando que a qualidade vencerá..

Não sinto dor de derrotada, pois ando nisto há muitos anos, e o meu entusiasmo por um projecto deste género, basta. O que me motiva verdadeira mente é  ter oportunidade para ser construtora é isso que me premeia como pessoa e artista- Tenho pena que não exibam on line todas os cartazes candidatos para que o publico tenha oportunidade de constatar a avaliação que foi realizada. Exibem apenas 10 cartazes escolhidos para se votar on line.
Ver projectos categoria 5
http://premio.empreendouro.pt/Pages/Projetos.aspxrojectos categoria 5

 
OS MEUS CARTAZES 

 

MEMÓRIA DESCRITIVA

TÍTULO: O futuro é d’ouro

A proposta apresentada foi criada essencialmente através do recurso fotográfico.

A junção da imagem de uma menina de sorriso meigo e doce (como o porto branco), a um pormenor arquitectónico, desenhado por Nicolau Nasoni, tem a intenção de colocar em diálogo, o antigo e o contemporâneo.

Nicolau Nasoni, arquitecto italiano da época barroca, que deixou imensas marcas neste vasto território do Douro, continua a ser uma potencialidade cultural desta região, no presente e no futuro.

As geometrias do barroco, expressas na arquitectura religiosa e na arquitectura civil, evocam as linhas dos socalcos, as progressões do crescimento dos braços da planta trepadeira que é a parreira, e as gavinhas que assumem a parte mais delicada e eficaz do crescimento da mesma. As linhas onduladas dos cabelos da menina e toda a expressão sorridente e concordante das linhas curvas do seu rosto, representam as gerações vindouras que continuarão a valorizar esta região e a preservar a linha de água que é de ouro tal como o seu futuro. Toda a região do Douro tem uma geometria rebuscada gémea do barroco, relaxante, sorridente que a converte única e inesquecível.

As gentes, o património cultural e o vinho são o ouro desta região – a consolidação no presente e a esperança no futuro.

Motivação – Expressar artisticamente algo que é único no mundo, o Douro. O Douro  não seria o mesmo Douro, sem o seu património construído, barroco, muito articulado com o grande arquitecto Nicolau Nasoni. O barroco confere a toda a região distinção e erudição., convertendo-se numa valia adicional ao vinho do Douro.

Identificação de lugares - O pormenor apresentado foi recolhido na fachada principal da capela localizada no solar de Mateus em Vila Real e abre-nos caminhos para além do vinho, direccionados para diversas vertentes do património cultural comum a toda a região.

 

MEMÓRIA DESCRITIVA

TÍTULO: Douro – é aqui

                Apresenta-se proposta globalizante do que é o Douro.

                A listagem dos concelhos cria um bloco único de cumplicidade e labor, criando o equilíbrio com as linhas das vertentes, traçadas como gesto duplo desenhado de uma só vez, como se o Homem tivesse o poder de rasgar o espaço e impor-se sobre a natureza.

O Homem teve e tem esse poder.

“Deus desenhou as montanhas através de um rio de ouro e o homem teve a inteligência e o empenho de as “socalcar” com muros de suporte em xisto e enxada para obter o melhor vinho do mundo.” Esta frase escrita pela autora reforça a imagem e surge assumidamente na composição gráfica. Todo o cartaz é sóbrio para que o cacho de uvas, desenhado no espaço de maior visibilidade, se expresse em todo o seu esplendor.

Motivação – Responder a um desafio para promover o Douro, evocando Deus de forma simbólica como o grande arquitecto de toda a região, já que a paisagem é divinal e única no mundo.

Identificação de lugares – Todos os conselhos.
 
 
 

MEMÓRIA DESCRITIVA

TÍTULO: Douro - A linha que une

            A proposta apresentada evidência de forma minimalista e contemporânea o relevo das margens do rio Douro e o elemento que as une, numa linha ziguezagueante, única no mundo, expressando o encontro feliz dos três elementos.

            A riqueza paisagista, enriquecida pelos socalcos criados e recriados pelo suor do homem do Douro, oferece-nos diversos planos, que vão escondendo o rio e vão cultivando o nosso imaginário, recortado de uvas e sabores generosos, que contribuem para o desenvolvimento dos lugares, dos sítios, dos pequenos aglomerados habitacionais, sintetizados nos diversos concelhos, que dão consistência à tal linha que une, o rio Douro.

            O impacto deste cartaz constrói-se a partir da junção de uma moderna simplicidade da linha – a definição do relevo apenas com linhas coloridas distintas, porque cada encosta é única – com a complexidade e   força da escrita, transformada em textura líquida simbolizando a dependência dos lugares em relação à linha de água e ao micro clima que permite o cultivo deste vinho único no mundo.

             A cor que domina o cartaz associa-se à cor do vinho, induzindo de imediato a potencialidade global desta região. É também uma cor quente que tenta captar a parte psicológica do receptor conferindo sensações de conforto, bem-estar, bom acolhimento e relaxamento que toda esta região pode proporcionar aos seus visitantes.

Motivação – Juntar a criatividade  minimalista ao Douro, convertendo os concelhos e as sua gentes, nos grandes agentes dinamizadores desta região.

Identificação de lugares – Todos os concelhos
 

18 setembro, 2014

Portugal está um país feio


Portugal está um país feio

                Uma circunstância infeliz da minha vida forçou-me, a passar estas férias circunscritas ao local onde vivo. Passei pelos mesmos sítios de sempre, repeti fotos, descobri novas realidades que por vezes se apresentam invisíveis, estendi olhares sem pressa, associados a reflexões outras vezes construídas, ou seja aproveitei a imobilidade de forma criativa e como sempre obedecendo ao meu espirito critico.

                O gosto educa-se? Aquela questão com que muitas vezes trunfamos para justificar erros e alarvidades visuais, voltou a emergir na minha cabeça, onde as questões estão armazenadas em abundância.

                Portugal está um país feio. MESMO FEIO! Acho eu e os outros.

                Esta é uma verdade incontornável.

                A arquitectura que invade o nosso horizonte, seja em que sítio for, é de péssimo gosto.

                Os amantes da fotografia devem sempre ter o cuidado de confirmar os enquadramentos, para eliminar ou esconder o que está a mais, os erros arquitectónicos e as aberrações que nascem no meio da arquitectura popular.

                A desordem urbanística é uma verdadeira anedota.

                Quem são os responsáveis? Os arquitectos e os engenheiros? Não.

                Os proprietários? Seria fácil dizer que sim, confirmar a sua culpa já que são eles os agentes activos. Mas não são. Os proprietários só constroem o que lhes deixam construir.

                Os grandes culpados são os autarcas deste país. Demoraram anos e anos para criar e aprovar PDMs e entretanto iam aprovando atrocidades, dentro e especialmente fora das cidades. Todos os autarcas deveriam ter uma política de organização do território e aplica-la com rigor. Já sabemos que a maior parte dos autarcas não tem formação nessa área, mas têm equipas e técnicos dentro das câmaras municipais. Tiveram inclusivamente gabinetes de apoio técnico, os GATs que não foram rentabilizados como deveriam ser, os técnicos estavam lá. Seria difícil seguir o princípio da não invasão dos solos agrícolas com construção?

                Cada um fez a sua casa onde quis. As redes de abastecimento de água são redes irracionais, dispersas, em que todos nós pagamos ao metro linear. Criar redes de esgotos para esta maluqueira urbanística é uma utopia e assim cada construção tem uma fossa que vaza os detritos para os terrenos adjacentes.

                Os autarcas assobiaram para o lado, durante 40 anos, têm fechado os olhos à sua própria incompetência. Foram 40 anos de asneiras sucessivas, somadas e multiplicadas, com ou sem PDMs.

                E a arquitectura?

                Quem domina o território são projetos de engenheiros sem qualquer formação estética. Aquela afirmação, “Gostos não se discutem”, tem servido para viabilizar a construção de edificações sem serem concebidas pelos profissionais que têm esse saber e direito. Esta situação que se chama falta de ética profissional, foi alastrando sobre a forma de vírus pelas cidades, aldeias e a natureza que as rodeiam. Hoje temos um Portugal feio, muito feio. As aldeias estão descaracterizadas, os solos agrícolas e as veigas entre montanhas estão pulverizadas por construções que assumem o mau gosto dos proprietários, dos seus autores e dos seus autarcas. Qual integração? Qual valor patrimonial? Qual valor arquitectónico? Existe por vezes um excesso de rigor nas cidades e uma permissividade catastrófica nos aglomerados rurais que definitivamente comprometem a paisagem deste país. As construções novas surgem desintegradas da paisagem e também não valem por si, porque arquitectonicamente são umas nódoas.

                Costumo dizer que, daqui a uns milénios, quando as gerações futuras ou então os ETs que desaguem por aqui, avaliarem o Homem actual deste país chamado Portugal, deduzirão que temos diversas neuropatias, entre as quais aquela que impede o Homem de se expressar arquitectonicamente com uma linguagem própria do seu tempo, e assertiva com todas as outras formas de arte suas contemporâneas.

                Os meus caros e amigos engenheiros que me desculpem, mas projectam com um papel milimétrico dentro da cabeça, sem qualquer sensibilidade ao espaço, à volumetria, à composição, à envolvente, à história e aos utentes. Projectam à engenheiro como é o seu dever. Para eles, linguagem arquitectónica ou fruição estética são verdadeiros palavrões. Temos que reconhecer que todos nós saberemos desenhar uma casa, só que uns fazem-no melhor do que os outros.

                O resultado é este, é tudo aquilo que invadiu a paisagem portuguesa e nos faz entristecer. Projectar bem é conciliar de forma criativa, a forma com a função, assumindo com dignidade e orgulho a linguagem arquitectónica de cada tempo. As construções fazem-se grandes e caras. Alguns proprietários fazem questão de dar visibilidade à ostentação e ao seu poder económico, e estão no seu direito, mas fazem-no tão mal! recorrem a técnicos, não a arquitectos. Surge por vezes um maior cuidado em certos projectos, que infelizmente se resume a umas molduras de granito, em cópias mal feitas do tempo de Raul Lino. Estamos no século XXI, temos tecnologia do século XXI, aplicada em projectos do século XIX - uma neuropatia de 2 séculos.

                De quem é a culpa?

                Dos autarcas. Desculpem eu insistir na acusação. Por vezes basta um conselho, basta mostrar novas tipologias, basta até criar regulamentos municipais com indicações claras sobre as intervenções, basta seguir as orientações de um arquitecto e basta não misturar poder autárquico com lobbies, com especulação, com tráfico de influências… é também da competência dos autarcas a educação estética dos munícipes, e o exemplo tem que vir de cima, obviamente.

                Houve uma época, e não foi há muito, que as autarquias dispensavam o cargo de arquitecto no seu quadro de técnicos, pois normalmente colavam-lhe o rótulo de artista louco, incómodo e “pouco prático”, e quando o tinham, colocavam-no na “prateleira” destinando-lhe a toponímia das ruas da urbe, impossibilitando que opinasse na definição de linhas estratégicas de desenvolvimento. A única vez que me candidatei a um concurso para vaga de arquitecto numa câmara municipal, fui rejeitada por não ter telhados de vidro, ser interveniente, eventualmente não ser permeável a partidarites e por ser mulher. Já foi depois de Abril!

                Estamos a pagar uma factura elevada desta falta de visão, desta inoperância e inércia autárquica global que afecta a todos. Cumprir regulamentos não chega, mas nunca é tarde para mudar, apesar que praticámos erros incorrigiveis… pelo menos agrada-me que peçam desculpa pela perturbação que as obras municipais causam aos munícipes. A educação é sempre positiva e de sublinhar.   

In” Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado”

Anabela Quelhas (aprendente e anotadora de espaços)

Sem acordo ortográfico
Publicado em NVR set 2014

14 junho, 2014

Zaha Hadid

ENCONTRO IMEDIATO DE 3º GRAU
Zaha Hadid
Londres
Serpentine
 



 
Reencontro com outro mito

24 abril, 2014

Afinal onde é o meu lugar

Afinal onde é o meu lugar? 
            Por onde andava eu há 40 anos atrás???
            O dia 25 de abril de 74 apanhou-me a sair da adolescência, numa idade em que já era uma observadora atenta do que me rodeava, sensível aos ideais ligados à igualdade e à fraternidade multicoloridas, conscientemente contra o “orgulhosamente sós” de Salazar, mas ainda saudavelmente ingénua e cheia de sonhos.
            Como estava no hemisfério sul, só tive conhecimento da revolução no final do dia seguinte, muito em segredo antes do jantar, deixando-me de orelhas em pé, pois a referência segredada foi segredada entre adultos apenas. Pareceu-me nascer ali um entusiasmo cauteloso, que me fez ansiar pelos jornais do dia seguinte, para finalmente ver Spínola como grande herói, com fotografias de página inteira, remetendo Otelo para segundo plano e Salgueiro Maia para terceiríssimo e desvalorizado plano. Nessa altura não me apercebi disso, logicamente. Incomodava-me aquele monóculo e o pingalim que segurava na mão, desconfiando da personagem, que tais objectos transportava, parecendo-me mais um tirano do seculo XIX, do que um revolucionário do século XX. Aquele monóculo nada tinha de modernidade. O modelo era Che.  
           
Nos dias que se seguiram, o monóculo virou moda e era simulado de forma irreverente por caricas de coca-cola, para posarmos nas fotografias de grupos de amigos adolescentes, crentes num futuro risonho e livre. O poster de Che Guevara colado nas paredes dos quartos, os discos clandestinos de Zeca Afonso, a ideia de um líder chamado Agostinho Neto, deixou de ser utopia e passou a ser tema de conversa constante, num processo de descoberta e aprendizagem rápida da democracia e da liberdade. Eu vivia com o BO (bairro operário) mesmo ao lado, suscitando muita conversa clandestina que o meu espirito curioso retinha, nos anos de adolescente. Contavam-se histórias… o cartão de visita da miscigenação urbana não colhia no meu lado, impulsionando diversas questões que eu ia organizando na cabeça, e que todos omitiam os esclarecimentos de que era ávida.
            Nada mais foi igual, a sociedade de Luanda entrou em sobressalto progressivo. A ideia doce e romântica de uma independência desejada e de um salto de liberdade para um futuro de todos, rapidamente se transformou numa contagem decrescente para a guerra civil, que tal como todas as guerras são injustas, sangrentas, desumanas, mutiladoras e trágicas. A descolonização rápida, necessária, mas pouco eficiente e nada assertiva, gerou meio milhão de retornados e refugiados, seres humanos desprotegidos, incapazes de se organizar e lutar pela sua permanência nos territórios independentes, que apenas tiveram como alternativa, a saída.
            Percebi, com 16 anos, que não tinha autonomia para tomar decisões sobre a minha vida e para a minha vida. Descobri que devia obedecer às decisões dos meus pais, mesmo que me desagradassem profundamente. Constatei que não era suficientemente crescida para viver sozinha na terra que me viu nascer, nem era suficientemente criança, para tudo me passar ao lado.
            Após poucos meses do 25 de abril, anunciaram-me que tinha duas horas para me despedir de Luanda, pois provavelmente iria ter um bilhete de ida para Lisboa, sem volta. Já passava das 18h30m.
            Não fui ouvida, nem achada!
            Trinta minutos foram para comprar dois agasalhos, um casaco de lã azul e uma camisola roxa, que por mero acaso e sorte havia numa loja junto ao local onde vivia. O resto foi a despedida. Despedi-me de lágrimas nos olhos, e vários nós na garganta, de uma cidade linda. Ao longo desse tempo, revi alguns momentos das minhas vivências frágeis e ingénuas, que farão eternamente parte de mim, retive no olhar sítios da minha terra de nascimento e de coração. Faltou-me o tempo para me despedir de amigos, para anotar contactos, para criar novas pontes de ligação para o futuro. Nem queria acreditar que não voltaria, que poderia nunca mais ver e estar com os meus amigos. Algo desconfortável e cada vez mais aterrador se instalou na minha racionalidade, tornando-me incapaz de tudo, excepto obedecer.
            Naquela noite, cresci de repente vários anos. Passei a ser adulta da noite para o dia seguinte, lutando entre duas lógicas, a minha lógica dos afectos e a lógica da descolonização, indiscutivelmente necessária, quanto a mim. Eu já entendia a democracia como meta maior, já tinha observado a digestão difícil de várias revoltas e era sensível ao conflito implícito da acção colonizadora.
            As luzes reflectidas na água negra da baía de Luanda, assumiram formas irregulares e esborratadas, resultantes da luz e das minhas lágrimas silenciosas, que teimavam correr-me pela face enquanto viajava no banco de trás do automóvel do meu pai em direcção ao aeroporto. Conferi cada rua, cada avenida, cada cruzamento… olhei pela última vez os sítios onde me encontrava com os meus amigos.
            No dia seguinte, passei a ser refugiada em terra europeia. A coincidência entre duas realidades: a minha realidade geográfica intersectada com a minha realidade afectiva, temperada pela revolta da não decisão. Entrei num mundo sem fortes referências para mim, onde decorria uma revolução com alguns contratempos pelo meio - eu, cheia de contradições e com novas e maiores responsabilidades, um pouco entregue a mim mesma. O rótulo de retornada e não progressista também se colou a mim em algumas situações menos felizes na integração na sociedade portuguesa. A desconfiança sobre a minha caderneta escolar que testemunhava bons resultados académicos, a desconfiança sobre os meus princípios e valores, a falta de solidariedade entre colegas de escola, e a ausência de camaradagem extra escola, premiaram-me em diversos momentos ao longo de 74/75, nas terras “do choupal até à lapa”.
            A ruptura violenta e traumática nos meus afectos, converteu-me em jovem adulta silenciosa, precoce e introvertida, com as sensibilidades adormecidas, ou talvez anestesiadas, como forma de me proteger das novas realidades. A racionalidade e as emoções, combateram-se num duelo entre uma aprendizagem ideológica e as orientações do politicamente correcto, potencializada através da pintura realizada em horas de ócio no Museu Machado de Castro, ao longo de alguns meses. 
            Alguns amigos foram reencontrados quase 30 anos depois, outros permanecerão sempre no fio da navalha, entre o estar ou não estar vivos.          Quem me desenhou o destino era graficamente inábil como tenho confirmado ao longo da vida.
            Costumo dizer que a minha vida afectiva é um puzzle incompleto, onde faltam algumas peças. Das peças recuperadas, nem todas me trouxeram alegria, pois os anos passaram, e as peças tornaram-se menos luminosas, com contornos desligados da minha história e por vezes contrários às minhas convicções.
            Os anos passaram, não voltei mais.
            Passei a ser assumidamente uma sem terra, ou contrariando e ampliando até ao absurdo, também poderei dizer que passei a ser uma cidadã do mundo, o que em termos práticos dá no mesmo. A lei diz que tenho nacionalidade portuguesa, o meu BI também, e eu continuo a sentir-me sem raízes nos vários locais onde já vivi, neste país. Vivo de sensações armazenadas, entre sombras de jacarandás e aromas de acácias rubras, desconfiguradas em terra fria de bravos navegadores da cauda da europa e uma vontade férrea de inovar com vistas para o futuro.
            Sou portuguesa sem ter nascido aqui e não sou angolana porque não vivo lá. Afinal sou de onde? Um paradoxo desta coisa de se ser eternamente de algum lugar, sem efectivamente o ser, mas que nos preenche os sonhos de todas as noites - a crise de identidade que muitos angolanos sentem e vivem, provavelmente entenderá o verdadeiro e profundo significado destas palavras rabiscadas a partir do 25 de abril de 74.
Afinal onde é o meu lugar? 
In” Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado”
Anabela Quelhas (aprendente e anotadora de espaços)

(sem acordo ortográfico)

19 março, 2014

Nunca me imaginei sem ele

Nunca me imaginei sem ele*
Nunca me imaginei sem ele.
Foi personagem essencial de muitas fotografias minhas, as primeiras que me tiraram quando decidi nascer, que ainda conservo num velho álbum de folhas de cartolina negra. Fotografias minúsculas recortadas com perímetro ziguezagueante, coladas com cantinhos vermelhos, em que ele me pega ao colo, fazendo-me parecer mais crescida, do que efectivamente era. Com dois meses parecia que tinha quatro ou cinco. Com chupeta, sem chupeta, de repas ruivas ao vento, fazendo caretas …. Sempre a preto e branco, não para fazer estilo, mas por incapacidade da máquina fotográfica daquela época…. Sempre ao colo do sr. Quelhas , o meu querido pai.
Gostava da voz dele, apreciava a sua agilidade, era um homem bonito e culto, era um lutador, era sensível, era teimoso e resistente,  a fragilidade era a sua força para criar soluções para ultrapassar barreiras. Chorava quando ria, exactamente como eu. Usava mais os óculos na cabeça do que no nariz, exactamente como eu faço. Não gostava de compromissos assumidos a longo prazo, porque mudava de ideias…gostava de decidir na hora, olhem eu!
A genética não falha nem mente, para o bem e para o mal.
Acho que foi o melhor pai do mundo, mas provavelmente teria os defeitos que todos têm. Os meus olhos já mais maduros de filha caçula, protegida e mimada, continuam a vê-lo como o melhor.
Quando estava contente trabalhava assobiando. Assobiava muitas vezes a banda sonora do filme ”A ponte do rio kwai”. E cantava bem, muito bem, como tenor.
Sempre o respeitei e sempre o admirei. Pus em causa muitas certezas que ele tinha, mas foi a minha maior referência, quando era criança, quando cresci, quando já pensava que era alguém sem o ser, e depois de ele faltar.
Raramente me deu brinquedos, mas deu-me 2 dicionários Lello Universal quase tão pesados como eu (na época), cujas páginas separadoras coloridas, coloriram muitas horas da minha infância - os serões monótonos do inverno. as horas desocupadas depois da escola, os fins de semana vazios de obrigações…
Deu-me uma bússula, uma clarineta Honner e um catálogo de cores das tintas Cin….
Não riam, pois eu gostei!
Não me contou histórias de princesas e bruxas más…
Contou-me histórias sobre Humberto Delegado, contou-me histórias de mineiros e de explorações de volframite, contou-me histórias sobre as constelações, contou-me histórias sobre Hitler e a resistência francesa, contou-me histórias sobre escravos e sobre heróis como Galileu e Nuno Álvares Pereira, contou-me histórias de viagens… histórias vividas e recontadas na 1ª pessoa.
Também gostava de rir, apresentou-me Cantinflas, Charlot, Sordi, Fernandel e Louis de Funés.
Foi ele que me levou a primeira vez, a um observatório do espaço, a um zoológico, a um porto de mar, a um autódromo, a um teatro, a uma catedral, a uma mina de água, a um museu, a uma fábrica, a uma fortaleza, a um pântano com jacarés…
Não riam, porque eu adorei! Aprendi até a subir a um edifício pelo lado de fora, com andaimes obviamente.
Mostrou-me casas, muitas casas…
Leu-me jornais, a tira do Ruca, partes dos Lusíadas e leu-me Saramago. Lia-me sempre algo do que estivesse a ler. Lia, contava e recontava.
Sempre que eu me sentia entediada com a brincadeira das bonecas e das casinhas ensinava-me a fazer muita coisa, outras coisas, coisas que não se ensinam às crianças por mero preconceito idiota.
Foi ele que me ensinou a articular conhecimento, ensinou-me a fazer paredes assentando tijolos, ensinou-me a fazer vigotas de pré-esforçado, ensinou-me a trocar uma lâmpada, ensinou-me a esticar aço e a fazer grampos, ensinou-me a juntar cimento com areia, ensinou-me a olhar o granito, ensinou-me a fazer escadas, ensinou-me a conduzir, ensinou-me os lagos e as montanhas, ensinou-me a ganhar e a perder, ensinou-me a ser tolerante, ensinou-me a raiz quadrada, ensinou-me a gostar de amarelo, ensinou-me a apanhar girinos nas poças de água, ensinou-me a traçar circunferências em jardins e a fazer tiro ao alvo, ensinou-me a não roubar ninhos, ensinou-me a amar a minha avó Felisbela e a ouvi-la, ensinou-me a gostar de mangas, ensinou-me a andar na rua, ensinou-me a admirar um camaleão, ensinou-me a construir um baloiço, ensinou-me a apanhar cogumelos, ensinou-me a compreender a trovoada, ensinou-me a dar nós, ensinou-me os cuidados a ter com a electricidade, ensinou-me o nome das ferramentas (alguns já esqueci), ensinou-me a respeitar os mais velhos, ensinou-me a ter cuidados básicos de saúde, ensinou-me a respeitar o mar, ensinou-me a educar uma vertigem de estimação, ensinou-me a gostar de teatro, ensinou-me a importância das minhas raízes e da família, ensinou-me a ter consciência social, ensinou-me o que era diplomacia, ensinou-me a ser inquieta e a não saber esperar, ensinou-me a justiça, ensinou-me a autonomia, ensinou-me quem era David Mourão Ferreira e quem era Einstein, ensinou-me a ceder e a resistir, ensinou-me a distinguir o bem do mal, ensinou-me o valor real das coisas,… ensinou-me a pensar diferente, …
                                                     ….ensinou-me a liberdade.

“Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado”
Anabela Quelhas (arquitecta) aprendente e anotadora de espaços.
*Homenagem a todos os pais do mundo que amam os seus filhos.
(Sem acordo ortográfico)


14 fevereiro, 2014

Cupido

O Cupido é um deus grego demasiado descuidado, insolente,... preguiçoso, trapalhão... o Júpiter pai dos deuses é que tinha razão em querer elimina-lo à nascença, pois como deus maior sabia bem a complicação e a incompetência deste ser com asas, mas sem bico, com crise de identidade, mamífero e ave, dois em um. Um deus que é deus, não dorme, descansa, medita, reflecte... sempre com um olho no burro e outro no "cigano", pois desatenções podem ser fatais.

O Cupido em vez de estar atento 24h por dia, não, entretém-se a tirar setinhas sem pontaria nenhuma e depois dá mau resultado. ... sei lá se padece de estrabismo?! Cupido é o responsável por tanta ralação e relação amorosa falhada e por tanta gente sofrer de solidão.

Ah deus vagabundo e fatela!

Quero lá saber do ar fofinho, angelical de anjo papudo que transporta... é um verdadeiro incompetente.

Cria paixões impossíveis, daquelas que todos sabem que não darão certo, e só mesmo os envolvidos acreditam que sim. Mas o tempo é fatal, passados dois anos, cumprindo-se o tempo biológico da paixão, esta faz as malas e abala, restando dois ilustres desconhecidos que raramente aceitam o erro, desfazendo-o.

Cria paixões unívocas: só atira uma seta, em vez de duas, e assim só um é que fica apaixonado, do género um ama e outro deixa-se amar. Este deve ser o maior grupo de todos. Este grupo é daqueles que parecem felizes a vida toda, mas na verdade não se passa nada, fazem teatro o tempo todo.

O grupo menor, bem menor é aquele que é constituído pelos felizardos, sortudos que ganharam a "lotaria": O Cupido acertou em cheio após período de investigação apurada.! Esses vestem-se de amor egoísta. Parafraseando o que diz uma amiga: Querem o mundo para eles e um corno para os outros.

Por fim estão os solitários, que podem ser os esquecidos do Cupido ou então integram um subgrupo, o da reciclagem amorosa

Os primeiros já esperaram tanto que a solidão passa a ser a companheira ideal, ou então já viram tanta burrice junta que quando vislumbram o Cupido ao longe, fogem e desaparecem da circulação. Não conhecem o Cupido, não querem conhecer o Cupido e tem raiva de quem o conhece.

Os segundos são aqueles que assumem a teoria dos 3 Rs, REDUZIR, REUTILIZAR E RECICLAR e esperam e desesperam pela atenção do dito cujo infatiloide, que está a olhar para os abismos e quer lá saber da quercus e do greenpeace.

Sinceramente não admiro o Cupido, não sei o que a Psiquê viu nele. Será que viu ou deixou-se apenas amar.

E os locais que o Cupido escolhe para manobrar as setas?

è do pior...

Bem, quando os casais se apaixonam no museu da presidência da republica, na igreja do Troufa Real em Lisboa, nas áreas vip de certas discotecas, no Portugal dos Pequeninos, durante as malfadas praxes, no panteão nacional ou até na loja Chao Lin,... eu acho que o Cupido está gravemente embriagado ou anda a fumar coisas estapafurdias.

in "Ensaios de escrita um projecto sempre adiado" Anabela Quelhas

26 janeiro, 2014

4Kg e 60gramas

Demorei anos a tomar a decisão.
Fiz estudo prévio, fiz ante-projecto, fiz projecto, fiz caderno de encargos com mapa de medições e de acabamentos… e finalmente a execução.
O mais problemático deste processo era a irreversibilidade da decisão. Esta questão de não poder mudar de ideias é algo que sempre me atrapalha em qualquer vertente da minha vida e em todos os momentos da mesma. Decido tudo no momento, porque me conheço… quando decido antes, chego ao momento e… já não é bem assim.
Fiz planos com régua e esquadro numa geometria espacial de fazer corar qualquer arquitecto da grécia antiga… escolhi mês, escolhi lua e escolhi sexo, num rigor matemático infalível.
No início eu só dormia, parece que todo o sono do mundo tinha desabado em cima de mim, sob a forma de sestas do solstício de verão. Depois deliciei-me com uvas deliciosas do Douro, moscatel.
Preparei o enxoval, eu mesma desenhei e confeccionei vestuário, quentinho para aquecer os dias e as noites do 1º Inverno. O cesto do tricot passou a habitar por baixo do meu estirador, com delicadas cores pastel, tendendo para o azul.
Um pacote de bolachas foi-se esvaziando nos primeiros meses na mesinha de cabeceira para evitar o enjoo matinal, pois eu queria mesmo ter uma gravidez sem dramas.
Ao terceiro mês, tive aquilo que um exotérico chama de um sonho premonitório. Conheci o meu filho em sonhos já com a idade de 2 anos. Incomodou-me, causou-me uma sensação estranha, que se confirmou exactamente passados dois anos. A criança que me acordava de noite junto à minha cama era a criança do sonho, sem tirar nem por.
Passou a ter nome curto e belo, inspirado numa história antiga das páginas centrais de livros conhecidíssimo da BD da Disney, cujo herói se encontrava entre dois exércitos, um que evocava S. Jorge e outro clamava por Santiago. Sempre foi esse o seu nome desde que fui menina também.
Um dia ao descer uma rampa, achei estranho o meu barrigão afinal pesar-me tanto. No dia seguinte já estava a fazer um almoço só de sopa e maçãs, para preparar as nove e meia da noite. 
Era domingo como hoje, há 22 anos.
O primeiro contacto com esta minha melhor criação, não foi através da visão, pois eu recuperava de uma brutal anestesia, foi algo muito mais profundo e inesquecível: o tacto. Ao tocar o meu rosto no seu rosto, pele na pele, como eu tanto aprecio e a nova vida presenteou-me a melhor sensação do mundo – a temperatura igual à minha e a textura macia da sua pele parecia nuvens de cetim, aconchegadas junto ao meu peito e ao meu pescoço – 4kg e 60gramas.

Só aí percebi como é bom o compromisso de uma nova vida e para sempre.

17 janeiro, 2014

O lado C

Todos nós temos o nosso lado A, o lado das atitudes politicamente correctas que assumimos nas relações sociais, dizemos que somos tolerantes sem o sermos, apenas porque parece bem, manifestamos paciência quando nos apetece mesmo esbofetear alguém que nos multou o carro quase bem estacionado, tentamos assumir o lado sério da vida, escondendo as nossas megalómanas fraquezas, incompetências e outras coisitas mais … enfim, é o nosso cartão de visita… do tipo – sabes quem é? Aquele fulano simpático, competente, charmoso, compreensivo e diplomata , que abre sempre a porta do automóvel às senhoras… tás a ver quem é?
Depois temos o nosso lado B, que só os mais íntimos ousam conhecer,… somos aquele que canta no duche e solta uns palavrões quando lhe pisam os calos ou quando já se esgotou a paciência. Temos conceitos por vezes desfasados do lado A, senão opostos e contraditórios, e ai aflora por vezes o nosso humor negro, a acutilância da critica e do parecer, e o acre do revanchismo, do machismo, do oportunismo, e outros ismos tal como narcisismo e egocentrismo. O lado B somos nós com letra grande, doa a quem doer, com taras, paradoxos e paradigmas no seu melhor. É por vezes um lado solitário que só se encarna quando nos fechamos connosco mesmo na cabine do duche, ou quando muito na retrete… os que são por norma solitários tem mais espaços para denunciar o lado B – eu por exemplo praguejo do pior quando cozinho, porque abomino cozinhar. O lado B é o lado mais interessante de cada um de nós, é aqui que somos francos, directos e honestos. Aqui também habita a sensibilidade, que por vezes, francamente só atrapalha. Aqui aflora a nossa alma de artista que todos somos, mesmo que só cantemos brejeirices do tipo “ bonito, bonito eram os tomates a bater….” Ou “sabão grá grá, sabão gré, gré"… salta-nos a fera que há em nós e discursamos, discursamos alto e bom som e inúmeras vezes, repetidamente e cada vez mais efusivamente, porque gostamos de nos ouvir a discursar para o nosso chefe, do tipo, “Caríssimo senhor administrador, isto é tudo uma merda, uma grande e valente e monstruosa merda, parece que estamos no saneamento do pingo doce, e a sua ignorância mata mais do que o cancro. A sua descompetência parece uma tábua de engomar roupa depois de ter engomado a roupa de 40.000 comboios de prostitutas, a sua organização parece a cidade de Monbai em hora de ponta…” ( o discurso só se interrompe quando nos cai o sabonete na base do duche, ou quando reparamos que estamos sem toalhão de banho na saída da banheira).
Depois e finalmente temos o nosso lado C, que nem nós conhecemos muito bem. É o lado misterioso e complexo que habita em nós, não sei onde, e se manifesta sempre que dormimos, no nosso sonho que raramente lembramos. O nosso lado C faz longas e longas metragens de tudo e de nada com milhentos personagens, guiões bizarros, mas com realizador desmiolado, que somos nós, que pouco retemos de metros e metros de fita, deixando escapar autênticos filmes dignos de vários óscares na classe SURREALISMO..
É aí que a nossa complexidade se alia à omnipresença, dando a cara a todos os recursos possíveis e impossíveis, remetendo a ficção cieníifica, para o depósito das ciências menores. Já mergulhei em situações extraordinárias neste lado C, as minhas, como cinéfila competente de REM, não me lembro, mas as dos outros, traduzem-se no mundo real, normalmente em palavras balbuciadas, em diálogos pespontados, em comunicações ilógicas e consistentes de tudo. Como interlocutora e investigadora desse lado C, aconselho a nada contrariar, nos balbuciamentos imprevisíveis. Numa hora ouvimos discursos sobre estantes italianas, noutra hora apresentam-nos um diálogo feito apenas de preposições, e temos também a fase narcisista, “Diz-me há alguém melhor, que eu, há? Há alguém melhor que eu?…. Claro que devemos responder, Não claro que não, só Deus!!!!. Não se confunda tudo isto com sonambulismo. Não, Um sonâmbulo é pacifico, levanta os braços e dá corda aos membros inferiores e o máximo que pode acontecer, é querer deitar-se dentro da casota do Boby… Eu refiro-me ao lado C que se manifesta por vezes intervalado com o lado B. O interlocutor fala de alhos e o autor do lado C responde bugalhos, um dialogo inteligente (!?) e hermético (!?)onde o interlocutor tenta construir um fio condutor no dialogo e o artista do lado C ora fala da comida congelada que esta na arca frigorifica, como do tsunami do Rio de Janeiro que ainda irá acontecer, passando pelos botox corbusianos implantados na capela de Ronchamp, e o globo de ouro do sr Aristides da mercearia… e afinal dá-me os cotonetes e os coentros. Esta visão esofágica do exterior para o profundo do lado C, através de um sonilóquio, aparentemente desgovernado, ora sereno, ora emotivo, ora melodramático ensonado, devolve-me sorrisos angelicais que se desconseguem de outra forma. A delicadeza da situação, dessa algraviada de palavras na língua do proprietário, proferidas na 1ª pessoa cheias de convicção, contrastam com a sua negação logo que o lado C se transfere para o B ou para o A. Não vale a pena insistir ou contrariar, é pura perda de tempo, resta-nos apenas a delícia de dialogar sem nexo, entrando nesse mundo virtual de pantufas, como se entra num conto de fadas. O resto… resta-me escrever.
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas

16 janeiro, 2014

o desassossego


Há consciências incapazes de viver sossegadas nos seus invólucros. De repente entre o sol e a chuva entre as horas e os quartos, acordam de forma violenta da dormência de horas a fio de trabalho mecânico de sobrevivência e subserviência, despertam todas as melancolias existentes no mundo e abatem-se em tsunamis de questionamentos … antigos e novos, os questionamentos demolidores da tranquilidade. Depuram a solidão entre todas as solidões que já sentiram juntos em cais desertos, refinando a tristeza e a mágoa existentes em cada maré de outono , decantando todas as melodias que nunca ouviram.
Acácias em flor passam no pensamento, a negro e branco, em vez de rubras oscilando languidamente entre brisas mornas de outras existências. Sobe a vontade incontornável de desistir, integrando-se um xadrez de peças insólitas com rotas paradigmáticas, nas vertentes da nossa existência, de forma ininterrupta e disruptiva. Onde está tudo aquilo que nós queremos que esteja? Porque não está aquilo que não está no sítio que queremos que esteja? Corre vento nas veias profetizando outros desassossegos de inverdades possíveis, outras complicações que virão por aí. Estes afastamentos conscientes das rotinas que me estrangulam, vestem-se de indignação por detrás de uma almofada de rendas delicadas, matizadas de dor. Contradições que se vão alinhavando na antecipação do futuro que pode muito bem ser amanhã ou mesmo hoje, com sabor a lágrimas salgadas, que desaguam em rios de esquecimentos e nos fazem querer desistir, que nos fazem fugir das margens que não somos e não queremos percorrer e simultaneamente nos impedem de fechar o mundo por tempo incerto no tempo certo.
In”Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas

09 janeiro, 2014

Simone de Beauvoir


No motor de busca Google, hoje, divulga-se o 106º aniversário de Simone de Beauvoir com um design gráfico bem pobrezinho por sinal.
Há escritores que nos marcam, porque são bons porque escrevem sobre coisas interessantes, porque nós os lemos no momento certo, porque os conteúdos mexem connosco, porque influenciam de alguma forma a nossa personalidade em desenvolvimento… Simone de Beauvoir foi exactamente uma das escritoras que mais informação me proporcionou porque me abriu caminhos para Sarte, Camus e Boris Vian. Li-a na transição entre a adolescência e a idade adulta, e foi determinante para eu ser quem sou. Li a convidada, li o segundo sexo, li os mandarins,  li a força da idade e a força das coisas… leituras que me deram o enquadramento do existencialismo, do feminismo, da personalidade de Jean Paul Sartre, e a vivência da 2º guerra e do pós guerra. Um amigo especial emprestou-me a Força da idade que li rapidamente e seguiram-se todos os outros, acho que em 3 meses, amadureci e renasci-me noutra pessoa que nunca mais despi ao longo dos anos. Seguiu-se a náusea, o diabo e o bom Deus, o estrangeiro e depois o mergulho em Boris Vian (o meu preferido de sempre) iniciado com Outono em Pequim, esgotando todas as obras deste francês bizarro e surreal, amante do jazz.
106 anos…
9/01/2014
AQ

08 janeiro, 2014

momentos

Espreito-te em distância cautelosa de te desconhecer. A arte transforma-se em desejo e reflecte-se em espelho dourado suspenso no infinito, que me devolve aquilo que sou e aquilo que não sou . Paro de respirar, para que nada mexa e um segundo se converta na eternidade dialectica de outro segundo consumido na tarefa de viver. Subi a noite marcando os eixos de simetria coincidentes com as abcissas e desenrolei o olhar marcado num pontilhismo constante de ti, decidida a esperar como quem espera as baleias em pleno oceano. Espero dias, espero noites, convencendo –me que será o ultimo dia ou a ultima noite, restando-me depois todo o tempo do mundo para reflectir. Espreito e escuto o silêncio mergulhada no desespero que toda a espera encerra, em que o céu e o mar se conjugaram para agonizar o tempo. Corro ortogonalmente as inseguranças e as fragilidades que me fazem não olhar para trás e adivinhar as contracurvas da esperança. Ignoro pensares e comportamentos que afectam a minha espera, porque uma espera é uma repetição pacientemente ordenada de momentos.
In "Ensaios de escrita um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas

03 janeiro, 2014

click

Olho-te numa fotografia, a cabeça lisa desnudada, que se repete como caleidoscópio na minha mente, nos meus desenhos na minha paleta de cores, desde sempre. Cabeças desnudadas vindas de um outro planeta, que me vigiam constantemente, anunciando ou denunciando algo. Estruturas cranianas por vezes assexuadas, que me fazem recuar e avançar na minha orfandade universal que se afoga em lágrimas texturadas de claves de sol nascidas num kissange.
Escuto-me. Tento desconstruir labirintos juvenis que me parecem levar a lado nenhum. Estendo o olhar por terras ocres, embarcando em caravelas azuis repletas de jacarandás e oiço o meu batimento cardíaco dissolvido em Distant Gardens. Organizo palavras que possam expressar os labirintos que me retiram o ar suspenso como mobilies da minha existência.
Quero dar e receber, equacionando cada dia de um equilíbrio de sensações capazes de contrariar e impedir o regresso a casa, mais parecendo um verdadeiro jogo de xadrez. Sento-me e espreguiço-me na espuma deste início de noite tempestuosa, marcada pela fúria invernosa dos elementos, recolho o mundo e desligo-o!
Click!!!!!
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas

07 dezembro, 2013

...existir, não existindo. (1923-1996)



Passei a mão no teu rosto e senti-o frio e marmóreo numa manhã de dezembro. Gelei a mão no teu rosto imóvel, confirmando a falta de esperança há muito congelada, num diagnóstico fatal. Foi numa madrugada gélida, atravessei 2 ou 3 ruas a correr após um telefonema previsível.
Chorei convulsivamente, num desenlace aguardado há muito, cavalgado em progressiva demência incontrolada, em que ninguém entendia nada de nada, onde a medicina mostrou a sua magistral incapacidade para resolver o teu problema. Mais uma vez senti, que nós, seres viventes do seculo XXI estamos muitas vezes na idade da pedra e não descolamos. O teu rosto parecia uma escultura de alabastro, macio e frio… frio de morte.
Despedi-me de ti ao longo de quase 2 anos, ias deixando de ser tu, conforme as horas passavam. Cada dia estavas mais diferente e mais ausente de nós, apesar do nosso esforço para que tudo se tornasse real, fácil e confortável para ti… mas o teu olhar saía da tua zona de conforto e viajava para o vazio, onde não sei o que existe, nem onde se localiza. Foi uma despedida dolorosa e progressiva até não me identificar mais com o corpo de quem tratava, pois ele estava sem alma, inerte e amorfo.
Só fiz o teu luto décadas mais tarde… ainda o faço, cada vez que escrevo sobre ti.
Coisa estranha a alma separar-se do corpo com ele ainda vivo. Para onde ela vai? Que estranho lugar é esse para onde as almas emigram antes do tempo! Assisti a uma decomposição seguida da desconstrução de ti, hora após hora, dia após dia. Percebi os limites da resistência dos humanos, percebi o quanto somos frágeis, tomei consciência da forma como poderemos desejar a morte a quem queremos tão bem – a contradição feita “pecado” que habita sempre em mim. Nunca mais fui a mesma, perdi frescura e entusiasmo, nesta inversão de papéis, de quem trata quem. Nunca mais a nossa família voltou a ser o que era antes, não por tu faltares, mas por a despedida ser tão longa, tão penosa e desumana, tendo afectado cada elemento. Perdemos alegria, perdemos brilho e criamos uma resistência brutal às contrariedades da vida… afinal, ela é tão estranha, com memórias a várias velocidades!  Os papéis de cada uma de nós definidos ao longo dos anos, inverteram-se completamente, deixaste de nos dar “colo” e passaste tu a precisar dele, num retrocesso diário para um espaço indefinido e tenebroso. A certeza que cada dia seria pior que o anterior, nunca nos abandonou e preenchia cada vez mais a esperança que nunca conseguimos possuir. Questionava-me diariamente sobre o que seria ainda pior. Nada mais voltou a ser igual…. deixou de haver aquela cumplicidade serena de silêncios, só possível nas mães.
Como lidar com tudo com dignidade? Como lidar com as situações mais penosas com sentido de humor e entusiasmo para que não te apercebesses que estavas mal e cada vez pior e pior. As fases sucederam-se, a perda de voz, a perda de orientação, a perda de movimentos, a perda da deglutição, a perda da visão, a perda do conhecimento… a fase do colo, a fase da cadeira de rodas, a fase da cadeira dentro da banheira, a fase dos resguardos, a fase das fraldas, a fase da rigidez, a fase das sondas e das seringas, a fase das escaras, a tua pele abrindo e mostrando o interior de uma anatomia moribunda… a fase da vigilância permanente. O pai não resistiu pura e simplesmente e sucumbiu de exaustão e desgosto, ainda o problema se iniciava. Todos ficamos marcados por esta violência que se denomina alzeimer, sentença que te deram quase 6 anos antes, perante a nossa surpresa e desconhecimento total desta sentença mortal. Ficou mágoa, revolta, desapontamento e frustração, de uma batalha perdida de ti, mulher bonita, afável, carinhosa e de gargalhada livre. Ficou uma textura baça e sem brilho nesta recordação dolorosa do não existir, existindo.
Bj      

In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado”, Anabela Quelhas

09 novembro, 2013

eu quero a carica Crush

Meu amigo Henrique é um cola, que me xinga noite e dia. Nossos mambos se resumem na arte de brincar com 9 e 10 anos de idade, sem mais qualquer responsa no sábado de tarde.
Eu quero brincar com as bonecas, e aos reis e rainhas e ele quer brincar de pista com caricas, de joelho no meio do chão, cobrindo o chão de água e sabão para as caricas deslizarem mais rápido, na pressa de sempre ganhar, e isso por vezes dá maka entre nós.
- Ele me xinga, mâéeeee! O Henrique me xinga, não quer brincar comigo!!!!
Henrique espreita rindo da janela do quintal.
- Aka, Ana vambora! Vem brincar no quintal, trouxe shuingas e minha colecção de caricas!!! Vamos brincar deixo-te escolher e desenho a pista rápido, é só completar a pista de há dias.
- Eu quero a carica da Crush!
- Eu fico com a carica Nocal, vai correr como um Ferrari e te vou ganhar!!! Vais ver – diz Henrique olhando-me já com ar vitorioso, de quem olha para um rival desportivo de quinta categoria. Eu te ganho sempre, só sabes brincar com aquelas bonecas malaikas de meter medo. 
Pópilas, não tenho mais ninguém para brincar, vou fazer mais como?
Ele traça a pista no cimento, com giz trazido do nosso colégio. Marca a partida e a chegada, vincando bem o giz no chão. É um circuito feito de duas linhas paralelas, cheio de curvas entre os dois pontos, parecendo mazé uma gibóia de muitas curvas, às voltas dos dois mamoeiros e do tamarineiro, que mais parecem três ilhas no meio do quintal de cimento, que a esta hora bate a sombra; quintal escaldante num sábado de tarde de um mês qualquer de um tempo sem tempo na rua Pompilio Pompeu de Castro na Vila Alice, em frente da Texaco.
Quem começa?
Pim pam pum cada bala mata um, lá em cima do Huambo tem um copo com veneno quem bebeu morreuuuuuuu ….
Henrique treinado no impulso com o dedo indicador, não sei mais como se chama, dispara a carica percorrendo quase completamente o primeiro troço da pista, não saindo nem mais um milímetro fora do traçado riscado a giz. Muita prática de jogar com os vizinhos rapazolas e borbulhentos. Ele imita com um vrrrummm de automóvel que arranca a grande velocidade. 
Passa barona na rua e nos olha, nós kandengues descalços e em calções, mastigando shuinga, atirando caricas numa pista que nem fosse fórmula um do Fitipaldi, lá nas Europa. Passa machimbombo também e passa quitandeira apreguando… éééé´bananéeeeee, bananéeee.
Eu atiro com a carica crush, que não chega nem perto da carica Nocal colocando-me logo no clube dos perdedores.
Jogamos mais uma e outra e outra vez ainda, ficando eu cada vez mais para trás. Se a carica vai para fora regresso à partida, eu lhe xingando de matumbo, pois desconsigo atingir a meta. 
- Ei mininos venham lanchar pão com manteiga, bolinho de côco e Quick… tem ginguba e pipocas…hoje tem cana do açúcar que fui comprar no mercado de S. Paulo. 
- Oh agora que eu estou a ganhar!!!!… reclama Henrique
-Tu ganhas sempre…
- Não faz mal, voltam depois, vão lavar as mãos ai na mangueira do quintal.
Lavo as mãos e previsivelmente aproveito para aprontar, molhando as pernas do Henrique vingando-me de tanta corrida! Quero as minhas bonecas que ele odeia e que atira ao ar para me xingar.
- Cruaaak! Ginguba!!!!!! Dá ginguba ao jacó!!!!! 
- Ué que bolinhos bons!!! Estão deliciosos.
-No final vamos brincar de táxi, de levar e trazer em frente à Versailhes.
-Sim vamos, o teu cota ainda não chegou, Henrique? 
-Ainda! Hoje chega tarde e minha cota foi no cabeleireiro.
- Primas!!!!! começo eu a conduzir. 
Entro no cônsul preto que está na porta de casa, esperando o passeio de fim de semana e onde todo o dia nos deliciamos a simular a condução, como se fossemos um carro de aluguer circulando nas ruas de imaginação de S. Paulo de Loanda, as Ingombotas, a Maianga, a CAOP. É cônsul 17éme, só sei isso, preto e bonito, ano não sei mais, que não me interessa. Interessa o brilho de nós reflectidos na chapa negra daquele carrão que nos leva a todo lado sem gasóleo nem gasolina.
Ligo rádio e desligo. Ouve-se Nelson Ned no seu, o que é que você vai fazer nos domingo de tarde…., faço pisca e meto velocidades de verdade, junto ao volante, com a embraiagem no fundo,1ª, 2ª, 3ª e prise, depois reduzo, 3ª, 2ª ate fingir que paro para apanhar o meu cliente que entra para o banco da frente, à homem armando-se numa nice com estilo de homem gingão. Quando ele faz de motorista, põe boné na cabeça e estica os braços como um homem bem alto. Eu vou no banco de trás com o vidro aberto e finjo que fumo, uso um lápis para fazer a vez, olho com olhar de dáma que vai nas bumba, e coloco uma fita vermelha no cabelo (vi no cinema Kipaka)….
- Boa Tarde, me leva no Cacuaco!!!!
Ou 
- Por favor me leva na Restinga da Ilha para jantar!
Xê!!!! Assim mesmo horas e horas, ora eu de motorista ora ele. Ele ate limpa o volante com a flanela laranja e imita os tiques de braço na janela, conduzindo só com uma mão e toda a gestualidade de colocar a mão de fora, para parar ou deixar passar. Buzina também é importante mas a maioria das vezes é o jacó que buzina igual, pondo loucos, os vizinhos.

Paro no destino e peço o kumbú que ele faz de conta me dar.
- Me dá de troco uma quinhenta, o resto é gasosa.
. Ana dá ginguba ao Jacó! Henrique é bandido não dá ginguba!!! CRRRUÁÁKKK!!!!!

In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas
Para o meu amigo de infância Henrique Martinho que desencontrei há tantos anos
.

30 outubro, 2013

Podia muito bem ser eu

Podia muito bem ser eu. Juntava a água com sabão e

procurava uma palhinha feita de fibra vegetal verdadeira para soprar. Não havia detergente. Governava-me com o sabão rosa da cozinha. Ia até uma das varandas da minha casa, mal chegava à parte superior do gradeamento e soprava. Entrava num sonho circular feito de transparências de azul e anil e acreditava que a vida dos adultos era muito melhor que a minha. Se eu fosse adulta não teria de usar tranças, nem soquetes, nem laçarotes e poderia ocupar-me com as coisas que eu considerava verdadeiramente boas - andar na carroçaria de uma carrinha e em pé, tomar banho de mar sem bóia, conduzir uma mota, pintar com trinchas, fazer contas de cabeça com ar de preocupada... poderia comer bife com batata frita todos os dias, poderia usar saltos altos e bigodins nos cabelos e podia recolher todos os cães perdidos. Poderia ter um jacó, que conversasse permanentemente comigo.
As bolas soltavam-se e levitavam no ar por segundos que para mim pareciam eternidades.
in "Ensaios de escrita um projecto sempre adiado" Anabela Quelhas.

28 setembro, 2013

Eleições


“Era uma vez numa pequena aldeia no norte de Portugal, situada nas coordenadas do Portugal profundo, onde se preparavam as 1ªas eleições para a junta de freguesia. Os partidos seleccionaram entre os seus simpatizantes os mais capazes e ou os mais militantes e ou os mais bem formados, para as respectivas listas.
Isildo das Fontes, meu vizinho, homem para uns 50 anos de idade, com apelido morfológico e toponímico (nem sei o que quer dizer mas acho que fica bem) primo do tio do irmão de não sei quem, homem das leis, que se candidatava à assembleia municipal, viu-se empurrado para a politica socialista, após a abrilada dos cravos, sem saber ler nem escrever, por influência do tal primo do tio do irmão de não sei de quem, homem das leis, advogado, candidato a presidente da Câmara… Eram parentes afastados mas a politica estava-lhes no sangue!!!
Isildo das Fontes, homem honesto, leal, trabalhador rural de sol a sol, de mãos grandes, robustas e calejadas, habituado a cavar pela madrugada e a anoitecer forrando vacas da lavoira e preparando arados para a madrugada seguinte, sem domingos, sem feriados, nem dias santo, viu-se orgulhosamente metido nesta empreitada da politica.
Candidato a presidente da junta.
Percebia de politica?
Sabia lá ele!
Ele sabia quando devia semear o nabal, e quando arrancava as batatas, sabia quando levava as vacas ao touro da coberta e não se enganava nunca. Era honesto, não devia na mercearia. Das contas ele sabia, até tinha um calendário pendurado na cozinha e todos os anos punha-se a caminho para a cidade, com a sua samarra, guarda-chuva e chapeu e ia pagar a décima pontualmente. Gostava da sua aldeia, que o viu nascer, assim como viu o seu pai e o seu avô. Ele conhecia os campos, os marcos… daqui é deste, e dali é daquele,… ele apaziguava as rixas entre vizinhos desavindos e águas mal divididas.
Portanto poderia ser um bom presidente da junta, porque não?.
E ele rejubilou, a sua autoestima ficou em alta com o convite do primo do tio do irmão de não sei quem, homem das leis, que se candidatava à assembleia municipal: Começou a limpar melhor os socos, a aprumar a camisa e a samarra, e a juntar-se ao domingo no fim de missa ao povo que iria votar nele, com sorriso largo e franco. Começou a substituir os Bes pelos Ves, para linguajar mais fino e fazia o trabalho de casa. Se fazia!!!! Como fazia e não era nada fácil!
Como vos disse ele viu-se empurrado para a politica sem saber ler nem escrever, e era verdade, não sabia ler nem escrever, era analfabeto de pai e de mãe o que não seria impedimento de maior, desde que soubesse assinar a papelada. E era esse o seu trabalho de casa que ele realizava com aprumo e empenho.
Todos os bocadinhos livres a seguir à ceia, ou após o almoço de domingo, Isildo das Fontes puxava dum papel e da caneta, arrumados atrás do escano e treinava a assinatura. Os dedos grossos e rijos, desprovidos de qualquer motricidade fina, mal dobrando as falanges, copiavam ISILDO DAS FONTES com a língua ao canto da boca e de fora, ajudando nas curvas e contracurvas do desenho do I e do EFE, numa assinatura espalhafatosa, como ele tinha visto e admirado num tabelião no tempo do minério, e rematando com gesto largo num rabiosque e ponto final. A coisa não era fácil, mais fácil seria carregar um carro de estrume ou malhar o centeio..
A tarefa só ficava concluída levantando o papel e olhando-a de braço esticado, cuja distância era proporcional à vista cansada produzida pela sua candeia.
Magnifico! magnânimo! “

In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas

28I09I2013