23 abril, 2014
19 março, 2014
Nunca me imaginei sem ele
Nunca me imaginei sem ele*
Nunca me
imaginei sem ele.
Foi personagem
essencial de muitas fotografias minhas, as primeiras que me tiraram quando
decidi nascer, que ainda conservo num velho álbum de folhas de cartolina negra.
Fotografias minúsculas recortadas com perímetro ziguezagueante, coladas com
cantinhos vermelhos, em que ele me pega ao colo, fazendo-me parecer mais crescida,
do que efectivamente era. Com dois meses parecia que tinha quatro ou cinco. Com
chupeta, sem chupeta, de repas ruivas ao vento, fazendo caretas …. Sempre a
preto e branco, não para fazer estilo, mas por incapacidade da máquina
fotográfica daquela época…. Sempre ao colo do sr. Quelhas , o meu querido pai.
Gostava da voz
dele, apreciava a sua agilidade, era um homem bonito e culto, era um lutador, era
sensível, era teimoso e resistente, a
fragilidade era a sua força para criar soluções para ultrapassar barreiras.
Chorava quando ria, exactamente como eu. Usava mais os óculos na cabeça do que
no nariz, exactamente como eu faço. Não gostava de compromissos assumidos a
longo prazo, porque mudava de ideias…gostava de decidir na hora, olhem eu!
A genética não
falha nem mente, para o bem e para o mal.
Acho que foi o
melhor pai do mundo, mas provavelmente teria os defeitos que todos têm. Os meus
olhos já mais maduros de filha caçula, protegida e mimada, continuam a vê-lo
como o melhor.
Quando estava
contente trabalhava assobiando. Assobiava muitas vezes a banda sonora do filme ”A
ponte do rio kwai”. E cantava bem, muito bem, como tenor.
Sempre o respeitei e
sempre o admirei. Pus em causa muitas certezas que ele tinha, mas foi a minha
maior referência, quando era criança, quando cresci, quando já pensava que era
alguém sem o ser, e depois de ele faltar.
Raramente me
deu brinquedos, mas deu-me 2 dicionários Lello Universal quase tão pesados como
eu (na época), cujas páginas separadoras coloridas, coloriram muitas horas da
minha infância - os serões monótonos do inverno. as horas desocupadas depois da
escola, os fins de semana vazios de obrigações…
Deu-me uma
bússula, uma clarineta Honner e um catálogo de cores das tintas Cin….
Não riam, pois
eu gostei!
Não me contou
histórias de princesas e bruxas más…
Contou-me histórias
sobre Humberto Delegado, contou-me histórias de mineiros e de explorações de
volframite, contou-me histórias sobre as constelações, contou-me histórias
sobre Hitler e a resistência francesa, contou-me histórias sobre escravos e
sobre heróis como Galileu e Nuno Álvares Pereira, contou-me histórias de
viagens… histórias vividas e recontadas na 1ª pessoa.
Também gostava
de rir, apresentou-me Cantinflas, Charlot, Sordi, Fernandel e Louis de Funés.
Foi ele que me
levou a primeira vez, a um observatório do espaço, a um zoológico, a um porto
de mar, a um autódromo, a um teatro, a uma catedral, a uma mina de água, a um
museu, a uma fábrica, a uma fortaleza, a um pântano com jacarés…
Não riam,
porque eu adorei! Aprendi até a subir a um edifício pelo lado de fora, com
andaimes obviamente.
Mostrou-me
casas, muitas casas…
Leu-me
jornais, a tira do Ruca, partes dos Lusíadas e leu-me Saramago. Lia-me sempre
algo do que estivesse a ler. Lia, contava e recontava.
Sempre que eu
me sentia entediada com a brincadeira das bonecas e das casinhas ensinava-me a
fazer muita coisa, outras coisas, coisas que não se ensinam às crianças por
mero preconceito idiota.
Foi ele que me ensinou a articular conhecimento, ensinou-me a fazer
paredes assentando tijolos, ensinou-me a fazer vigotas de pré-esforçado, ensinou-me
a trocar uma lâmpada, ensinou-me a esticar aço e a fazer grampos, ensinou-me a
juntar cimento com areia, ensinou-me a olhar o granito, ensinou-me a fazer
escadas, ensinou-me a conduzir, ensinou-me os lagos e as montanhas, ensinou-me
a ganhar e a perder, ensinou-me a ser tolerante, ensinou-me a raiz quadrada, ensinou-me
a gostar de amarelo, ensinou-me a apanhar girinos nas poças de água, ensinou-me
a traçar circunferências em jardins e a fazer tiro ao alvo, ensinou-me a não
roubar ninhos, ensinou-me a amar a minha avó Felisbela e a ouvi-la, ensinou-me a
gostar de mangas, ensinou-me a andar na rua, ensinou-me a admirar um camaleão, ensinou-me
a construir um baloiço, ensinou-me a apanhar cogumelos, ensinou-me a
compreender a trovoada, ensinou-me a dar nós, ensinou-me os cuidados a ter com
a electricidade, ensinou-me o nome das ferramentas (alguns já esqueci), ensinou-me
a respeitar os mais velhos, ensinou-me a ter cuidados básicos de saúde, ensinou-me
a respeitar o mar, ensinou-me a educar uma vertigem de estimação, ensinou-me a
gostar de teatro, ensinou-me a importância das minhas raízes e da família, ensinou-me
a ter consciência social, ensinou-me o que era diplomacia, ensinou-me a ser
inquieta e a não saber esperar, ensinou-me a justiça, ensinou-me a autonomia, ensinou-me
quem era David Mourão Ferreira e quem era Einstein, ensinou-me a ceder e a
resistir, ensinou-me a distinguir o bem do mal, ensinou-me o valor real das
coisas,… ensinou-me a pensar diferente, …
….ensinou-me a liberdade.
“Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado”
Anabela Quelhas (arquitecta) aprendente e anotadora de espaços.
*Homenagem a todos os pais do mundo que amam os seus filhos.
(Sem acordo ortográfico)
14 fevereiro, 2014
Cupido
O Cupido é um deus grego demasiado descuidado, insolente,...
preguiçoso, trapalhão... o Júpiter pai dos deuses é que tinha razão em querer
elimina-lo à nascença, pois como deus maior sabia bem a complicação e a
incompetência deste ser com asas, mas sem bico, com crise de identidade,
mamífero e ave, dois em um. Um deus que é deus, não dorme, descansa, medita,
reflecte... sempre com um olho no burro e outro no "cigano",
pois desatenções podem ser fatais.
O Cupido em vez de estar atento 24h por dia, não, entretém-se a tirar setinhas sem pontaria nenhuma e depois dá mau resultado. ... sei lá se padece de estrabismo?! Cupido é o responsável por tanta ralação e relação amorosa falhada e por tanta gente sofrer de solidão.
Ah deus vagabundo e fatela!
Quero lá saber do ar fofinho, angelical de anjo papudo que transporta... é um verdadeiro incompetente.
Cria paixões impossíveis, daquelas que todos sabem que não darão certo, e só mesmo os envolvidos acreditam que sim. Mas o tempo é fatal, passados dois anos, cumprindo-se o tempo biológico da paixão, esta faz as malas e abala, restando dois ilustres desconhecidos que raramente aceitam o erro, desfazendo-o.
Cria paixões unívocas: só atira uma seta, em vez de duas, e assim só um é que fica apaixonado, do género um ama e outro deixa-se amar. Este deve ser o maior grupo de todos. Este grupo é daqueles que parecem felizes a vida toda, mas na verdade não se passa nada, fazem teatro o tempo todo.
O grupo menor, bem menor é aquele que é constituído pelos felizardos, sortudos que ganharam a "lotaria": O Cupido acertou em cheio após período de investigação apurada.! Esses vestem-se de amor egoísta. Parafraseando o que diz uma amiga: Querem o mundo para eles e um corno para os outros.
Por fim estão os solitários, que podem ser os esquecidos do Cupido ou então integram um subgrupo, o da reciclagem amorosa
Os primeiros já esperaram tanto que a solidão passa a ser a companheira ideal, ou então já viram tanta burrice junta que quando vislumbram o Cupido ao longe, fogem e desaparecem da circulação. Não conhecem o Cupido, não querem conhecer o Cupido e tem raiva de quem o conhece.
Os segundos são aqueles que assumem a teoria dos 3 Rs, REDUZIR, REUTILIZAR E RECICLAR e esperam e desesperam pela atenção do dito cujo infatiloide, que está a olhar para os abismos e quer lá saber da quercus e do greenpeace.
Sinceramente não admiro o Cupido, não sei o que a Psiquê viu nele. Será que viu ou deixou-se apenas amar.
E os locais que o Cupido escolhe para manobrar as setas?
è do pior...
Bem, quando os casais se apaixonam no museu da presidência da republica, na igreja do Troufa Real em Lisboa, nas áreas vip de certas discotecas, no Portugal dos Pequeninos, durante as malfadas praxes, no panteão nacional ou até na loja Chao Lin,... eu acho que o Cupido está gravemente embriagado ou anda a fumar coisas estapafurdias.
in "Ensaios de escrita um projecto sempre adiado" Anabela Quelhas
O Cupido em vez de estar atento 24h por dia, não, entretém-se a tirar setinhas sem pontaria nenhuma e depois dá mau resultado. ... sei lá se padece de estrabismo?! Cupido é o responsável por tanta ralação e relação amorosa falhada e por tanta gente sofrer de solidão.
Ah deus vagabundo e fatela!
Quero lá saber do ar fofinho, angelical de anjo papudo que transporta... é um verdadeiro incompetente.
Cria paixões impossíveis, daquelas que todos sabem que não darão certo, e só mesmo os envolvidos acreditam que sim. Mas o tempo é fatal, passados dois anos, cumprindo-se o tempo biológico da paixão, esta faz as malas e abala, restando dois ilustres desconhecidos que raramente aceitam o erro, desfazendo-o.
Cria paixões unívocas: só atira uma seta, em vez de duas, e assim só um é que fica apaixonado, do género um ama e outro deixa-se amar. Este deve ser o maior grupo de todos. Este grupo é daqueles que parecem felizes a vida toda, mas na verdade não se passa nada, fazem teatro o tempo todo.
O grupo menor, bem menor é aquele que é constituído pelos felizardos, sortudos que ganharam a "lotaria": O Cupido acertou em cheio após período de investigação apurada.! Esses vestem-se de amor egoísta. Parafraseando o que diz uma amiga: Querem o mundo para eles e um corno para os outros.
Por fim estão os solitários, que podem ser os esquecidos do Cupido ou então integram um subgrupo, o da reciclagem amorosa
Os primeiros já esperaram tanto que a solidão passa a ser a companheira ideal, ou então já viram tanta burrice junta que quando vislumbram o Cupido ao longe, fogem e desaparecem da circulação. Não conhecem o Cupido, não querem conhecer o Cupido e tem raiva de quem o conhece.
Os segundos são aqueles que assumem a teoria dos 3 Rs, REDUZIR, REUTILIZAR E RECICLAR e esperam e desesperam pela atenção do dito cujo infatiloide, que está a olhar para os abismos e quer lá saber da quercus e do greenpeace.
Sinceramente não admiro o Cupido, não sei o que a Psiquê viu nele. Será que viu ou deixou-se apenas amar.
E os locais que o Cupido escolhe para manobrar as setas?
è do pior...
Bem, quando os casais se apaixonam no museu da presidência da republica, na igreja do Troufa Real em Lisboa, nas áreas vip de certas discotecas, no Portugal dos Pequeninos, durante as malfadas praxes, no panteão nacional ou até na loja Chao Lin,... eu acho que o Cupido está gravemente embriagado ou anda a fumar coisas estapafurdias.
in "Ensaios de escrita um projecto sempre adiado" Anabela Quelhas
26 janeiro, 2014
4Kg e 60gramas
Demorei anos a tomar a decisão.
Fiz estudo prévio, fiz ante-projecto, fiz projecto, fiz
caderno de encargos com mapa de medições e de acabamentos… e finalmente a
execução.
O mais problemático deste processo era a irreversibilidade
da decisão. Esta questão de não poder mudar de ideias é algo que sempre me
atrapalha em qualquer vertente da minha vida e em todos os momentos da mesma.
Decido tudo no momento, porque me conheço… quando decido antes, chego ao
momento e… já não é bem assim.
Fiz planos com régua e esquadro numa geometria espacial de
fazer corar qualquer arquitecto da grécia antiga… escolhi mês, escolhi lua e
escolhi sexo, num rigor matemático infalível.
No início eu só dormia, parece que todo o sono do mundo
tinha desabado em cima de mim, sob a forma de sestas do solstício de verão.
Depois deliciei-me com uvas deliciosas do Douro, moscatel.
Preparei o enxoval, eu mesma desenhei e confeccionei
vestuário, quentinho para aquecer os dias e as noites do 1º Inverno. O cesto do
tricot passou a habitar por baixo do meu estirador, com delicadas cores pastel,
tendendo para o azul.
Um pacote de bolachas foi-se esvaziando nos primeiros meses
na mesinha de cabeceira para evitar o enjoo matinal, pois eu queria mesmo ter
uma gravidez sem dramas.
Ao terceiro mês, tive aquilo que um exotérico chama de um
sonho premonitório. Conheci o meu filho em sonhos já com a idade de 2 anos. Incomodou-me,
causou-me uma sensação estranha, que se confirmou exactamente passados dois
anos. A criança que me acordava de noite junto à minha cama era a criança do
sonho, sem tirar nem por.
Passou a ter nome curto e belo, inspirado numa história
antiga das páginas centrais de livros conhecidíssimo da BD da Disney, cujo
herói se encontrava entre dois exércitos, um que evocava S. Jorge e outro clamava por Santiago. Sempre foi esse o seu nome desde que fui menina também.
Um dia ao descer uma rampa, achei estranho o meu barrigão
afinal pesar-me tanto. No dia seguinte já estava a fazer um almoço só de sopa e
maçãs, para preparar as nove e meia da noite.
Era domingo como hoje, há 22 anos.
O primeiro contacto com esta minha melhor criação, não foi
através da visão, pois eu recuperava de uma brutal anestesia, foi algo muito
mais profundo e inesquecível: o tacto. Ao tocar o meu rosto no seu rosto, pele
na pele, como eu tanto aprecio e a nova vida presenteou-me a melhor sensação do
mundo – a temperatura igual à minha e a textura macia da sua pele parecia
nuvens de cetim, aconchegadas junto ao meu peito e ao meu pescoço – 4kg e
60gramas.
Só aí percebi como é bom o compromisso de uma nova vida e
para sempre.
17 janeiro, 2014
O lado C
Todos nós temos o nosso lado A, o lado das atitudes
politicamente correctas que assumimos nas relações sociais, dizemos que somos
tolerantes sem o sermos, apenas porque parece bem, manifestamos paciência
quando nos apetece mesmo esbofetear alguém que nos multou o carro quase
bem estacionado, tentamos assumir o lado sério da vida, escondendo as nossas
megalómanas fraquezas, incompetências e outras coisitas mais … enfim, é o nosso
cartão de visita… do tipo – sabes quem é? Aquele fulano simpático, competente,
charmoso, compreensivo e diplomata , que abre sempre a porta do automóvel às
senhoras… tás a ver quem é?
Depois temos o nosso lado B, que só os mais íntimos ousam conhecer,… somos
aquele que canta no duche e solta uns palavrões quando lhe pisam os calos ou
quando já se esgotou a paciência. Temos conceitos por vezes desfasados do lado
A, senão opostos e contraditórios, e ai aflora por vezes o nosso humor negro, a
acutilância da critica e do parecer, e o acre do revanchismo, do machismo, do
oportunismo, e outros ismos tal como narcisismo e egocentrismo. O lado B somos
nós com letra grande, doa a quem doer, com taras, paradoxos e paradigmas no seu
melhor. É por vezes um lado solitário que só se encarna quando nos fechamos
connosco mesmo na cabine do duche, ou quando muito na retrete… os que são por
norma solitários tem mais espaços para denunciar o lado B – eu por exemplo
praguejo do pior quando cozinho, porque abomino cozinhar. O lado B é o lado
mais interessante de cada um de nós, é aqui que somos francos, directos e
honestos. Aqui também habita a sensibilidade, que por vezes, francamente só
atrapalha. Aqui aflora a nossa alma de artista que todos somos, mesmo que só
cantemos brejeirices do tipo “ bonito, bonito eram os tomates a bater….” Ou
“sabão grá grá, sabão gré, gré"… salta-nos a fera que há em nós e
discursamos, discursamos alto e bom som e inúmeras vezes, repetidamente e cada
vez mais efusivamente, porque gostamos de nos ouvir a discursar para o nosso
chefe, do tipo, “Caríssimo senhor administrador, isto é tudo uma merda, uma
grande e valente e monstruosa merda, parece que estamos no saneamento do pingo
doce, e a sua ignorância mata mais do que o cancro. A sua descompetência parece
uma tábua de engomar roupa depois de ter engomado a roupa de 40.000 comboios de
prostitutas, a sua organização parece a cidade de Monbai em hora de ponta…” ( o
discurso só se interrompe quando nos cai o sabonete na base do duche, ou quando
reparamos que estamos sem toalhão de banho na saída da banheira).
Depois e finalmente temos o nosso lado C, que nem nós conhecemos muito bem. É o
lado misterioso e complexo que habita em nós, não sei onde, e se manifesta
sempre que dormimos, no nosso sonho que raramente lembramos. O nosso lado C faz
longas e longas metragens de tudo e de nada com milhentos personagens, guiões
bizarros, mas com realizador desmiolado, que somos nós, que pouco retemos de
metros e metros de fita, deixando escapar autênticos filmes dignos de vários
óscares na classe SURREALISMO..
É aí que a nossa complexidade se alia à omnipresença, dando a cara a todos os
recursos possíveis e impossíveis, remetendo a ficção cieníifica, para o
depósito das ciências menores. Já mergulhei em situações extraordinárias neste
lado C, as minhas, como cinéfila competente de REM, não me lembro, mas as dos outros,
traduzem-se no mundo real, normalmente em palavras balbuciadas, em diálogos
pespontados, em comunicações ilógicas e consistentes de tudo. Como
interlocutora e investigadora desse lado C, aconselho a nada contrariar, nos
balbuciamentos imprevisíveis. Numa hora ouvimos discursos sobre estantes
italianas, noutra hora apresentam-nos um diálogo feito apenas de preposições, e
temos também a fase narcisista, “Diz-me há alguém melhor, que eu, há? Há alguém
melhor que eu?…. Claro que devemos responder, Não claro que não, só Deus!!!!.
Não se confunda tudo isto com sonambulismo. Não, Um sonâmbulo é pacifico,
levanta os braços e dá corda aos membros inferiores e o máximo que pode
acontecer, é querer deitar-se dentro da casota do Boby… Eu refiro-me ao lado C
que se manifesta por vezes intervalado com o lado B. O interlocutor fala de
alhos e o autor do lado C responde bugalhos, um dialogo inteligente (!?) e
hermético (!?)onde o interlocutor tenta construir um fio condutor no dialogo e
o artista do lado C ora fala da comida congelada que esta na arca frigorifica,
como do tsunami do Rio de Janeiro que ainda irá acontecer, passando pelos botox
corbusianos implantados na capela de Ronchamp, e o globo de ouro do sr
Aristides da mercearia… e afinal dá-me os cotonetes e os coentros. Esta visão
esofágica do exterior para o profundo do lado C, através de um sonilóquio,
aparentemente desgovernado, ora sereno, ora emotivo, ora melodramático
ensonado, devolve-me sorrisos angelicais que se desconseguem de outra forma. A
delicadeza da situação, dessa algraviada de palavras na língua do proprietário,
proferidas na 1ª pessoa cheias de convicção, contrastam com a sua negação logo
que o lado C se transfere para o B ou para o A. Não vale a pena insistir ou
contrariar, é pura perda de tempo, resta-nos apenas a delícia de dialogar sem
nexo, entrando nesse mundo virtual de pantufas, como se entra num conto de
fadas. O resto… resta-me escrever.
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas
16 janeiro, 2014
o desassossego
Há consciências incapazes de viver sossegadas nos seus
invólucros. De repente entre o sol e a chuva entre as horas e os quartos,
acordam de forma violenta da dormência de horas a fio de trabalho mecânico de
sobrevivência e subserviência, despertam todas as melancolias existentes no
mundo e abatem-se em tsunamis de questionamentos … antigos e novos, os
questionamentos demolidores da tranquilidade. Depuram a solidão entre todas as
solidões que já sentiram juntos em cais desertos, refinando a tristeza e a
mágoa existentes em cada maré de outono , decantando todas as melodias que
nunca ouviram.
Acácias em flor passam no pensamento, a negro e branco, em vez de rubras
oscilando languidamente entre brisas mornas de outras existências. Sobe a
vontade incontornável de desistir, integrando-se um xadrez de peças insólitas
com rotas paradigmáticas, nas vertentes da nossa existência, de forma
ininterrupta e disruptiva. Onde está tudo aquilo que nós queremos que esteja?
Porque não está aquilo que não está no sítio que queremos que esteja? Corre
vento nas veias profetizando outros desassossegos de inverdades possíveis,
outras complicações que virão por aí. Estes afastamentos conscientes das
rotinas que me estrangulam, vestem-se de indignação por detrás de uma almofada
de rendas delicadas, matizadas de dor. Contradições que se vão alinhavando na
antecipação do futuro que pode muito bem ser amanhã ou mesmo hoje, com sabor a
lágrimas salgadas, que desaguam em rios de esquecimentos e nos fazem querer
desistir, que nos fazem fugir das margens que não somos e não queremos
percorrer e simultaneamente nos impedem de fechar o mundo por tempo incerto no
tempo certo.
In”Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas
09 janeiro, 2014
Simone de Beauvoir
No motor de busca Google, hoje, divulga-se o 106º
aniversário de Simone de Beauvoir com um design gráfico bem pobrezinho por
sinal.
Há escritores que nos marcam, porque são bons porque
escrevem sobre coisas interessantes, porque nós os lemos no momento certo,
porque os conteúdos mexem connosco, porque influenciam de alguma forma a nossa
personalidade em desenvolvimento… Simone de Beauvoir foi exactamente uma das
escritoras que mais informação me proporcionou porque me abriu caminhos para
Sarte, Camus e Boris Vian. Li-a na transição entre a adolescência e a idade
adulta, e foi determinante para eu ser quem sou. Li a convidada, li o segundo
sexo, li os mandarins, li a força da
idade e a força das coisas… leituras que me deram o enquadramento do
existencialismo, do feminismo, da personalidade de Jean Paul Sartre, e a vivência
da 2º guerra e do pós guerra. Um amigo especial emprestou-me a Força da idade
que li rapidamente e seguiram-se todos os outros, acho que em 3 meses,
amadureci e renasci-me noutra pessoa que nunca mais despi ao longo dos anos.
Seguiu-se a náusea, o diabo e o bom Deus, o estrangeiro e depois o mergulho em Boris
Vian (o meu preferido de sempre) iniciado com Outono em Pequim, esgotando todas
as obras deste francês bizarro e surreal, amante do jazz.
106 anos…
9/01/2014
AQ
08 janeiro, 2014
momentos
Espreito-te em distância cautelosa de te desconhecer. A arte
transforma-se em desejo e reflecte-se em espelho dourado suspenso no infinito,
que me devolve aquilo que sou e aquilo que não sou . Paro de respirar, para que
nada mexa e um segundo se converta na eternidade dialectica de outro segundo
consumido na tarefa de viver. Subi a noite marcando os eixos de simetria
coincidentes com as abcissas e desenrolei o olhar marcado num pontilhismo
constante de ti, decidida a esperar como quem espera as baleias em pleno
oceano. Espero dias, espero noites, convencendo –me que será o ultimo dia ou a
ultima noite, restando-me depois todo o tempo do mundo para reflectir. Espreito
e escuto o silêncio mergulhada no desespero que toda a espera encerra, em que o
céu e o mar se conjugaram para agonizar o tempo. Corro ortogonalmente as
inseguranças e as fragilidades que me fazem não olhar para trás e adivinhar as
contracurvas da esperança. Ignoro pensares e comportamentos que afectam a minha
espera, porque uma espera é uma repetição pacientemente ordenada de momentos.
In "Ensaios de escrita um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas
03 janeiro, 2014
click
Olho-te numa fotografia, a cabeça lisa desnudada, que se
repete como caleidoscópio na minha mente, nos meus desenhos na minha paleta de
cores, desde sempre. Cabeças desnudadas vindas de um outro planeta, que me
vigiam constantemente, anunciando ou denunciando algo. Estruturas cranianas por
vezes assexuadas, que me fazem recuar e avançar na minha orfandade universal
que se afoga em lágrimas texturadas de claves de sol nascidas num kissange.
Escuto-me. Tento desconstruir labirintos juvenis que me parecem levar a lado
nenhum. Estendo o olhar por terras ocres, embarcando em caravelas azuis
repletas de jacarandás e oiço o meu batimento cardíaco dissolvido em Distant
Gardens. Organizo palavras que possam expressar os labirintos que me retiram o
ar suspenso como mobilies da minha existência.
Quero dar e receber, equacionando cada dia de um equilíbrio de sensações
capazes de contrariar e impedir o regresso a casa, mais parecendo um verdadeiro
jogo de xadrez. Sento-me e espreguiço-me na espuma deste início de noite
tempestuosa, marcada pela fúria invernosa dos elementos, recolho o mundo e
desligo-o!
Click!!!!!
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas
07 dezembro, 2013
...existir, não existindo. (1923-1996)
Passei a mão no teu rosto e
senti-o frio e marmóreo numa manhã de dezembro. Gelei a mão no teu rosto
imóvel, confirmando a falta de esperança há muito congelada, num diagnóstico
fatal. Foi numa madrugada gélida, atravessei 2 ou 3 ruas a correr após um telefonema
previsível.
Chorei convulsivamente, num
desenlace aguardado há muito, cavalgado em progressiva demência incontrolada,
em que ninguém entendia nada de nada, onde a medicina mostrou a sua magistral
incapacidade para resolver o teu problema. Mais uma vez senti, que nós, seres
viventes do seculo XXI estamos muitas vezes na idade da pedra e não descolamos.
O teu rosto parecia uma escultura de alabastro, macio e frio… frio de morte.
Despedi-me de ti ao longo de
quase 2 anos, ias deixando de ser tu, conforme as horas passavam. Cada dia
estavas mais diferente e mais ausente de nós, apesar do nosso esforço para que
tudo se tornasse real, fácil e confortável para ti… mas o teu olhar saía da tua
zona de conforto e viajava para o vazio, onde não sei o que existe, nem onde se
localiza. Foi uma despedida dolorosa e progressiva até não me identificar mais
com o corpo de quem tratava, pois ele estava sem alma, inerte e amorfo.
Só fiz o teu luto décadas mais
tarde… ainda o faço, cada vez que escrevo sobre ti.
Coisa estranha a alma separar-se
do corpo com ele ainda vivo. Para onde ela vai? Que estranho lugar é esse para
onde as almas emigram antes do tempo! Assisti a uma decomposição seguida da desconstrução
de ti, hora após hora, dia após dia. Percebi os limites da resistência dos
humanos, percebi o quanto somos frágeis, tomei consciência da forma como
poderemos desejar a morte a quem queremos tão bem – a contradição feita
“pecado” que habita sempre em mim. Nunca mais fui a mesma, perdi frescura e
entusiasmo, nesta inversão de papéis, de quem trata quem. Nunca mais a nossa
família voltou a ser o que era antes, não por tu faltares, mas por a despedida
ser tão longa, tão penosa e desumana, tendo afectado cada elemento. Perdemos alegria,
perdemos brilho e criamos uma resistência brutal às contrariedades da vida…
afinal, ela é tão estranha, com memórias a várias velocidades! Os papéis de cada uma de nós definidos ao
longo dos anos, inverteram-se completamente, deixaste de nos dar “colo” e passaste
tu a precisar dele, num retrocesso diário para um espaço indefinido e tenebroso.
A certeza que cada dia seria pior que o anterior, nunca nos abandonou e preenchia
cada vez mais a esperança que nunca conseguimos possuir. Questionava-me diariamente
sobre o que seria ainda pior. Nada mais voltou a ser igual…. deixou de haver
aquela cumplicidade serena de silêncios, só possível nas mães.
Como lidar com tudo com dignidade?
Como lidar com as situações mais penosas com sentido de humor e entusiasmo para
que não te apercebesses que estavas mal e cada vez pior e pior. As fases
sucederam-se, a perda de voz, a perda de orientação, a perda de movimentos, a
perda da deglutição, a perda da visão, a perda do conhecimento… a fase do colo,
a fase da cadeira de rodas, a fase da cadeira dentro da banheira, a fase dos
resguardos, a fase das fraldas, a fase da rigidez, a fase das sondas e das
seringas, a fase das escaras, a tua pele abrindo e mostrando o interior de uma
anatomia moribunda… a fase da vigilância permanente. O pai não resistiu pura e simplesmente
e sucumbiu de exaustão e desgosto, ainda o problema se iniciava. Todos ficamos
marcados por esta violência que se denomina alzeimer, sentença que te deram
quase 6 anos antes, perante a nossa surpresa e desconhecimento total desta sentença
mortal. Ficou mágoa, revolta, desapontamento e frustração, de uma batalha
perdida de ti, mulher bonita, afável, carinhosa e de gargalhada livre. Ficou uma
textura baça e sem brilho nesta recordação dolorosa do não existir, existindo.
Bj
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado”, Anabela
Quelhas
05 dezembro, 2013
09 novembro, 2013
eu quero a carica Crush
Meu amigo Henrique é um cola, que me
xinga noite e dia. Nossos mambos se resumem na arte de brincar com 9 e 10 anos
de idade, sem mais qualquer responsa no sábado de tarde.
Eu quero brincar com as bonecas, e aos reis e rainhas e ele quer brincar de pista com caricas, de joelho no meio do chão, cobrindo o chão de água e sabão para as caricas deslizarem mais rápido, na pressa de sempre ganhar, e isso por vezes dá maka entre nós.
- Ele me xinga, mâéeeee! O Henrique me xinga, não quer brincar comigo!!!!
Henrique espreita rindo da janela do quintal.
- Aka, Ana vambora! Vem brincar no quintal, trouxe shuingas e minha colecção de caricas!!! Vamos brincar deixo-te escolher e desenho a pista rápido, é só completar a pista de há dias.
- Eu quero a carica da Crush!
- Eu fico com a carica Nocal, vai correr como um Ferrari e te vou ganhar!!! Vais ver – diz Henrique olhando-me já com ar vitorioso, de quem olha para um rival desportivo de quinta categoria. Eu te ganho sempre, só sabes brincar com aquelas bonecas malaikas de meter medo.
Pópilas, não tenho mais ninguém para brincar, vou fazer mais como?
Ele traça a pista no cimento, com giz trazido do nosso colégio. Marca a partida e a chegada, vincando bem o giz no chão. É um circuito feito de duas linhas paralelas, cheio de curvas entre os dois pontos, parecendo mazé uma gibóia de muitas curvas, às voltas dos dois mamoeiros e do tamarineiro, que mais parecem três ilhas no meio do quintal de cimento, que a esta hora bate a sombra; quintal escaldante num sábado de tarde de um mês qualquer de um tempo sem tempo na rua Pompilio Pompeu de Castro na Vila Alice, em frente da Texaco.
Quem começa?
Pim pam pum cada bala mata um, lá em cima do Huambo tem um copo com veneno quem bebeu morreuuuuuuu ….
Henrique treinado no impulso com o dedo indicador, não sei mais como se chama, dispara a carica percorrendo quase completamente o primeiro troço da pista, não saindo nem mais um milímetro fora do traçado riscado a giz. Muita prática de jogar com os vizinhos rapazolas e borbulhentos. Ele imita com um vrrrummm de automóvel que arranca a grande velocidade.
Passa barona na rua e nos olha, nós kandengues descalços e em calções, mastigando shuinga, atirando caricas numa pista que nem fosse fórmula um do Fitipaldi, lá nas Europa. Passa machimbombo também e passa quitandeira apreguando… éééé´bananéeeeee, bananéeee.
Eu atiro com a carica crush, que não chega nem perto da carica Nocal colocando-me logo no clube dos perdedores.
Jogamos mais uma e outra e outra vez ainda, ficando eu cada vez mais para trás. Se a carica vai para fora regresso à partida, eu lhe xingando de matumbo, pois desconsigo atingir a meta.
- Ei mininos venham lanchar pão com manteiga, bolinho de côco e Quick… tem ginguba e pipocas…hoje tem cana do açúcar que fui comprar no mercado de S. Paulo.
- Oh agora que eu estou a ganhar!!!!… reclama Henrique
-Tu ganhas sempre…
- Não faz mal, voltam depois, vão lavar as mãos ai na mangueira do quintal.
Lavo as mãos e previsivelmente aproveito para aprontar, molhando as pernas do Henrique vingando-me de tanta corrida! Quero as minhas bonecas que ele odeia e que atira ao ar para me xingar.
- Cruaaak! Ginguba!!!!!! Dá ginguba ao jacó!!!!!
- Ué que bolinhos bons!!! Estão deliciosos.
-No final vamos brincar de táxi, de levar e trazer em frente à Versailhes.
-Sim vamos, o teu cota ainda não chegou, Henrique?
-Ainda! Hoje chega tarde e minha cota foi no cabeleireiro.
- Primas!!!!! começo eu a conduzir.
Entro no cônsul preto que está na porta de casa, esperando o passeio de fim de semana e onde todo o dia nos deliciamos a simular a condução, como se fossemos um carro de aluguer circulando nas ruas de imaginação de S. Paulo de Loanda, as Ingombotas, a Maianga, a CAOP. É cônsul 17éme, só sei isso, preto e bonito, ano não sei mais, que não me interessa. Interessa o brilho de nós reflectidos na chapa negra daquele carrão que nos leva a todo lado sem gasóleo nem gasolina.
Ligo rádio e desligo. Ouve-se Nelson Ned no seu, o que é que você vai fazer nos domingo de tarde…., faço pisca e meto velocidades de verdade, junto ao volante, com a embraiagem no fundo,1ª, 2ª, 3ª e prise, depois reduzo, 3ª, 2ª ate fingir que paro para apanhar o meu cliente que entra para o banco da frente, à homem armando-se numa nice com estilo de homem gingão. Quando ele faz de motorista, põe boné na cabeça e estica os braços como um homem bem alto. Eu vou no banco de trás com o vidro aberto e finjo que fumo, uso um lápis para fazer a vez, olho com olhar de dáma que vai nas bumba, e coloco uma fita vermelha no cabelo (vi no cinema Kipaka)….
- Boa Tarde, me leva no Cacuaco!!!!
Ou
- Por favor me leva na Restinga da Ilha para jantar!
Xê!!!! Assim mesmo horas e horas, ora eu de motorista ora ele. Ele ate limpa o volante com a flanela laranja e imita os tiques de braço na janela, conduzindo só com uma mão e toda a gestualidade de colocar a mão de fora, para parar ou deixar passar. Buzina também é importante mas a maioria das vezes é o jacó que buzina igual, pondo loucos, os vizinhos.
Eu quero brincar com as bonecas, e aos reis e rainhas e ele quer brincar de pista com caricas, de joelho no meio do chão, cobrindo o chão de água e sabão para as caricas deslizarem mais rápido, na pressa de sempre ganhar, e isso por vezes dá maka entre nós.
- Ele me xinga, mâéeeee! O Henrique me xinga, não quer brincar comigo!!!!
Henrique espreita rindo da janela do quintal.
- Aka, Ana vambora! Vem brincar no quintal, trouxe shuingas e minha colecção de caricas!!! Vamos brincar deixo-te escolher e desenho a pista rápido, é só completar a pista de há dias.
- Eu quero a carica da Crush!
- Eu fico com a carica Nocal, vai correr como um Ferrari e te vou ganhar!!! Vais ver – diz Henrique olhando-me já com ar vitorioso, de quem olha para um rival desportivo de quinta categoria. Eu te ganho sempre, só sabes brincar com aquelas bonecas malaikas de meter medo.
Pópilas, não tenho mais ninguém para brincar, vou fazer mais como?
Ele traça a pista no cimento, com giz trazido do nosso colégio. Marca a partida e a chegada, vincando bem o giz no chão. É um circuito feito de duas linhas paralelas, cheio de curvas entre os dois pontos, parecendo mazé uma gibóia de muitas curvas, às voltas dos dois mamoeiros e do tamarineiro, que mais parecem três ilhas no meio do quintal de cimento, que a esta hora bate a sombra; quintal escaldante num sábado de tarde de um mês qualquer de um tempo sem tempo na rua Pompilio Pompeu de Castro na Vila Alice, em frente da Texaco.
Quem começa?
Pim pam pum cada bala mata um, lá em cima do Huambo tem um copo com veneno quem bebeu morreuuuuuuu ….
Henrique treinado no impulso com o dedo indicador, não sei mais como se chama, dispara a carica percorrendo quase completamente o primeiro troço da pista, não saindo nem mais um milímetro fora do traçado riscado a giz. Muita prática de jogar com os vizinhos rapazolas e borbulhentos. Ele imita com um vrrrummm de automóvel que arranca a grande velocidade.
Passa barona na rua e nos olha, nós kandengues descalços e em calções, mastigando shuinga, atirando caricas numa pista que nem fosse fórmula um do Fitipaldi, lá nas Europa. Passa machimbombo também e passa quitandeira apreguando… éééé´bananéeeeee, bananéeee.
Eu atiro com a carica crush, que não chega nem perto da carica Nocal colocando-me logo no clube dos perdedores.
Jogamos mais uma e outra e outra vez ainda, ficando eu cada vez mais para trás. Se a carica vai para fora regresso à partida, eu lhe xingando de matumbo, pois desconsigo atingir a meta.
- Ei mininos venham lanchar pão com manteiga, bolinho de côco e Quick… tem ginguba e pipocas…hoje tem cana do açúcar que fui comprar no mercado de S. Paulo.
- Oh agora que eu estou a ganhar!!!!… reclama Henrique
-Tu ganhas sempre…
- Não faz mal, voltam depois, vão lavar as mãos ai na mangueira do quintal.
Lavo as mãos e previsivelmente aproveito para aprontar, molhando as pernas do Henrique vingando-me de tanta corrida! Quero as minhas bonecas que ele odeia e que atira ao ar para me xingar.
- Cruaaak! Ginguba!!!!!! Dá ginguba ao jacó!!!!!
- Ué que bolinhos bons!!! Estão deliciosos.
-No final vamos brincar de táxi, de levar e trazer em frente à Versailhes.
-Sim vamos, o teu cota ainda não chegou, Henrique?
-Ainda! Hoje chega tarde e minha cota foi no cabeleireiro.
- Primas!!!!! começo eu a conduzir.
Entro no cônsul preto que está na porta de casa, esperando o passeio de fim de semana e onde todo o dia nos deliciamos a simular a condução, como se fossemos um carro de aluguer circulando nas ruas de imaginação de S. Paulo de Loanda, as Ingombotas, a Maianga, a CAOP. É cônsul 17éme, só sei isso, preto e bonito, ano não sei mais, que não me interessa. Interessa o brilho de nós reflectidos na chapa negra daquele carrão que nos leva a todo lado sem gasóleo nem gasolina.
Ligo rádio e desligo. Ouve-se Nelson Ned no seu, o que é que você vai fazer nos domingo de tarde…., faço pisca e meto velocidades de verdade, junto ao volante, com a embraiagem no fundo,1ª, 2ª, 3ª e prise, depois reduzo, 3ª, 2ª ate fingir que paro para apanhar o meu cliente que entra para o banco da frente, à homem armando-se numa nice com estilo de homem gingão. Quando ele faz de motorista, põe boné na cabeça e estica os braços como um homem bem alto. Eu vou no banco de trás com o vidro aberto e finjo que fumo, uso um lápis para fazer a vez, olho com olhar de dáma que vai nas bumba, e coloco uma fita vermelha no cabelo (vi no cinema Kipaka)….
- Boa Tarde, me leva no Cacuaco!!!!
Ou
- Por favor me leva na Restinga da Ilha para jantar!
Xê!!!! Assim mesmo horas e horas, ora eu de motorista ora ele. Ele ate limpa o volante com a flanela laranja e imita os tiques de braço na janela, conduzindo só com uma mão e toda a gestualidade de colocar a mão de fora, para parar ou deixar passar. Buzina também é importante mas a maioria das vezes é o jacó que buzina igual, pondo loucos, os vizinhos.
Paro
no destino e peço o kumbú que ele faz de conta me dar.
- Me dá de troco uma quinhenta, o resto é gasosa.
. Ana dá ginguba ao Jacó! Henrique é bandido não dá ginguba!!! CRRRUÁÁKKK!!!!!
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas
Para o meu amigo de infância Henrique Martinho que desencontrei há tantos anos.
- Me dá de troco uma quinhenta, o resto é gasosa.
. Ana dá ginguba ao Jacó! Henrique é bandido não dá ginguba!!! CRRRUÁÁKKK!!!!!
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas
Para o meu amigo de infância Henrique Martinho que desencontrei há tantos anos.
30 outubro, 2013
Podia muito bem ser eu
Podia muito bem ser eu.
Juntava a água com sabão e
procurava uma palhinha feita de fibra vegetal
verdadeira para soprar. Não havia detergente. Governava-me com o sabão rosa da
cozinha. Ia até uma das varandas da minha casa, mal chegava à parte superior do
gradeamento e soprava. Entrava num sonho circular feito de transparências de
azul e anil e acreditava que a vida dos adultos era muito melhor que a minha. Se eu fosse adulta não teria de usar tranças, nem
soquetes, nem laçarotes e poderia ocupar-me com as coisas que eu considerava
verdadeiramente boas - andar na carroçaria de uma carrinha e em pé, tomar banho
de mar sem bóia, conduzir uma mota, pintar com trinchas, fazer contas de cabeça
com ar de preocupada... poderia comer bife com batata frita todos os dias,
poderia usar saltos altos e bigodins nos cabelos e podia recolher todos os cães
perdidos. Poderia ter um jacó, que conversasse permanentemente comigo.
As bolas soltavam-se e levitavam no ar por segundos
que para mim pareciam eternidades.
in "Ensaios de escrita um projecto sempre
adiado" Anabela Quelhas.
28 setembro, 2013
Eleições
“Era uma vez numa pequena aldeia no norte de Portugal,
situada nas coordenadas do Portugal profundo, onde se preparavam as 1ªas eleições
para a junta de freguesia. Os partidos seleccionaram entre os seus simpatizantes
os mais capazes e ou os mais militantes e ou os mais bem formados, para as respectivas
listas.
Isildo das Fontes, meu vizinho, homem para uns 50 anos de
idade, com apelido morfológico e toponímico (nem sei o que quer dizer mas acho
que fica bem) primo do tio do irmão de não sei quem, homem das leis, que se
candidatava à assembleia municipal, viu-se empurrado para a politica socialista,
após a abrilada dos cravos, sem saber ler nem escrever, por influência do tal
primo do tio do irmão de não sei de quem, homem das leis, advogado, candidato a
presidente da Câmara… Eram parentes afastados mas a politica estava-lhes no sangue!!!
Isildo das Fontes, homem honesto, leal, trabalhador rural de
sol a sol, de mãos grandes, robustas e calejadas, habituado a cavar pela
madrugada e a anoitecer forrando vacas da lavoira e preparando arados para a
madrugada seguinte, sem domingos, sem feriados, nem dias santo, viu-se orgulhosamente
metido nesta empreitada da politica.
Candidato a presidente da junta.
Percebia de politica?
Sabia lá ele!
Ele sabia quando devia semear o nabal, e quando arrancava as
batatas, sabia quando levava as vacas ao touro da coberta e não se enganava
nunca. Era honesto, não devia na mercearia. Das contas ele sabia, até tinha um
calendário pendurado na cozinha e todos os anos punha-se a caminho para a
cidade, com a sua samarra, guarda-chuva e chapeu e ia pagar a décima
pontualmente. Gostava da sua aldeia, que o viu nascer, assim como viu o seu pai
e o seu avô. Ele conhecia os campos, os marcos… daqui é deste, e dali é daquele,…
ele apaziguava as rixas entre vizinhos desavindos e águas mal divididas.
Portanto poderia ser um bom presidente da junta, porque não?.
E ele rejubilou, a sua autoestima ficou em alta com o convite
do primo do tio do irmão de não sei quem, homem das leis, que se candidatava à
assembleia municipal: Começou a limpar melhor os socos, a aprumar a camisa e a
samarra, e a juntar-se ao domingo no fim de missa ao povo que iria votar nele,
com sorriso largo e franco. Começou a substituir os Bes pelos Ves, para
linguajar mais fino e fazia o trabalho de casa. Se fazia!!!! Como fazia e não
era nada fácil!
Como vos disse ele viu-se empurrado para a politica sem saber
ler nem escrever, e era verdade, não sabia ler nem escrever, era analfabeto de
pai e de mãe o que não seria impedimento de maior, desde que soubesse assinar a
papelada. E era esse o seu trabalho de casa que ele realizava com aprumo e empenho.
Todos os bocadinhos livres a seguir à ceia, ou após o almoço
de domingo, Isildo das Fontes puxava dum papel e da caneta, arrumados atrás do
escano e treinava a assinatura. Os dedos grossos e rijos, desprovidos de
qualquer motricidade fina, mal dobrando as falanges, copiavam ISILDO DAS FONTES
com a língua ao canto da boca e de fora, ajudando nas curvas e contracurvas do desenho
do I e do EFE, numa assinatura espalhafatosa, como ele tinha visto e admirado num
tabelião no tempo do minério, e rematando com gesto largo num rabiosque e ponto
final. A coisa não era fácil, mais fácil seria carregar um carro de estrume ou
malhar o centeio..
A tarefa só ficava concluída levantando o papel e olhando-a
de braço esticado, cuja distância era proporcional à vista cansada produzida
pela sua candeia.
Magnifico! magnânimo! “
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela
Quelhas
28I09I2013
22 setembro, 2013
Amo a lógica.
Uma das matérias académicas que mais me influenciou como
pessoa e cidadã foi a lógica, área do saber que estuda os processos e os elementos
que poderão levar à verdade. Comecei a estudar Lógica através da matemática visualizando
o quadro de ardósia do mestre Serra , apenas com 15 anos, em fins de tardes
tropicais. Escrevi “comecei”, porque esta aprendizagem tem inicio mas não tem
fim, é uma aprendizagem constante, evolutiva e dialéctica. O conhecimento das leis do pensamento alteraram
a minha vida, cedo despi uma adolescência primária e ingénua e iniciei um
caminho marcado pela lógica matemática ensinada com mestria pelo simpático e
competente mestre Serra, desenvolvendo e manipulando princípios da negação,
dupla negação, conjunção, disjunção etc etc até aos silogismos mais fáceis
capazes de serem entendidos e interiorizados por uma teenager.
Rápidamente descobri que o caminho que eu iniciava já vinha
lá da Grécia antiga λογική, sendo
Aristóteles uma referência fundamental, apresentando-se também como conteúdo da
filosofia e depois parindo até hoje ruas e vielas do conhecimento e da acção,
sendo fundamental na advocacia, na engenharia, na arquitectura ,na biologia … e
a todas as áreas da investigação cientifica constituindo-se como base nas ciências
informáticas e na formação da inteligência artificial. Defino-a como o pilar
estrutural do processo avaliação-decisão seja em que domínio for.
Não sendo perita em
nada, mas atenta aquilo que me interessa, a lógica está sempre presente na
minha vida, psico-motora, na minha vida afectiva e no conhecimento do
conhecimento e da vida, permitindo-me avaliar melhor, decidir melhor e errar
melhor também. Por vezes erro porque quero errar e porque é bom errar. Nada
melhor do que um erro calculado e perfeitamente consciente, quando este assume
facetas de algum prazer ou de muito prazer.
Recomendo vivamente
o estudo desta área do saber. Nada se descobre, nada se deduz sem conhecermos
os mecanismos escondidos dos raciocínios lógicos ou ilógicos.
A verdade nem
sempre é a verdade, A verdade pode ser apenas meia verdade ou um completo
disparate. Premissas verdadeiras podem ter conclusões supostamente verdades ou inverdades e por isso existe a falacia que
tanto jeito dá em certas situações.
Há questões que são
verdadeiras sem o ser, e há questões supostamente falsas que podem ser um mar
de verdade.
Há perguntas evitáveis
pois sabemos que irão levar sempre a inverdades sem serem falsas.
Há conclusões
verdadeiras que estão muito longe da verdade, mesmo que as premissas sejam
fiáveis. Mas isto parece um jogo!!!! Sim é um jogo de elasticidade menta, cujos
actores podem ser peritos, ignorantes ou assim, assiml. Não se entreguem a Deus,
entreguem-se à lógica gritando por Deus de vez em quando
- Ai meu Deus, não
há pachorra!
O raciocínio dedutivo
é fundamental. Nem tudo o que luz é oiro, e nem tudo que é oiro, brilha. A
verdade poder ser sem o ser. A verdade pode conter nuances que sem serem falsas
são inverdades. A verdade para um, não é obrigatoriamente a verdade para outro.
Mas afinal?!!!!!
Sim afinal!!!!
A passagem do geral
para o particular e do particular para o geral não são processos lineares, ai
de quem achar que são. As armadilhas lógicas de certas argumentações conduzem à
falsa verdade.
Joga-se com as palavras,
com os seus significados e com o entendimento da relação entre elas. A
ambiguidade é um campo fértil da inverdade, formando raciocínios inconsistentes,
Joga-se com o poder das palavras. Joga-se com o efeito que as palavras tem em
certas pessoas, joga-se com a vontade de acreditar em inverdades. Joga-se de
feição e joga-se pela conveniência.
A distorção dos
factos, a explicação incompleta e superficial, as lacunas propositadas,
resultam por vezes em verdades obscuras, ilógicas e hilariantes. Acreditar cegamente
na dicotomia logica das afirmações e ignorando as 3ªs vias, é um exercício ingénuo
do acreditar na suposta verdade. A meia verdade nem sempre é igual à meia
mentira e nem sempre a mentira é gémea da inverdade. Nem sempre a nossa verdade
autêntica passa pelo absurdo. Só passa quando queremos que passe, quando
queremos ser cegos. Não há pior cego do que aquele que não quer ver.
Na verdade, a lógica é tão simples, é sim ou
não.
Verdadeiro
X Verdadeiro=Verdadeiro; verdadeiro X Falso= Falso Falso X falso= falso
Será?
E há conceitos que
por mais voltas e maquilhagens que se lhes faça, significam sempre o mesmo.
Amo a lógica.
(Sim esta reflexão não
é para ti mesmo sendo.)
In “Ensaios de
escrita, um projecto sempre adiado”
13 agosto, 2013
a rebeldia da arte de pensar
Sonhos que se desconfiguram e se desintegram na ressonância
de alerta de um despertador diariamente odiado. Voltas em sons murmurados por lençóis
frescos e engomados no dia anterior… fruáaa fruáaa . Nasce a tentativa de
esquecer o som do relógio só por mais uns minutos, que me permita por em ordem
a desarrumação sonhada, numa lógica fabricada no meu inconsciente. Estendo a
mão para o vazio de um ninguém permanente, que me acolhe no abraço sempre
desejado, durante o tempo que o meu pensamento permite.
Não disfarço esta rebeldia da arte de pensar
Olho em plano rasante sobre uma cidade adormecida, que desperta caso
a caso, casa a casa, com os raios de sol indiscretos que entram pelas vidraças
sem pedir licença, criando ângulos agudos de luminosidades ténues da madrugada
de cada um. Apanho com as mãos, os cabelos longos que livremente se espalham por
mim acolhendo-me suavemente, restando como prova que se vive diferente em cada
dia.
Retomo questões, repesco incertezas, procuro mediar conflitos e gerar equilíbrios. Sorrio.
Que atitude tomaria o mundo se deixássemos de pensar?
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela
Quelhas
31 julho, 2013
AVEIRO COTA ZERO... ou quase
Clique em
http://issuu.com/anabelaquelhas/docs/aveiro_cota_zero_ou_quase
AVEIRO CIDADE ESCONDIDA
COTA ZERO... ou quase.
Narrativa como aprendente
Curso "Aveiro: a cidade escondida - património e leituras históricas“
Formador: Prof. Rui Tavares
Trabalho final – Anabela Quelhas
Maio 2013
29 julho, 2013
15 julho, 2013
A mecânica e a psiquiatria
Julguei que a mecânica seria uma
ciência exacta, como a matemática, como os cálculos que eu tão bem sabia fazer
na disciplina de física (a estática, a dinâmica e a quântica) (acelerações e
movimentos, forças, peso, vectores, and so on) dentro daquelas salas de calor
constante entremeado com frescas correntes de ar a cheirar a acácia rubra.
Tenho verificado que talvez não
seja bem assim.
Observo os mecânicos, abrem o capô
e coçam a cabeça, embaralhando os cabelos mesmo que eles sejam pente 3,
grisalhos ou negros ou até que nem existam.
O meu psiquiatra também faz o
mesmo. Homem sexagenário de perfil freudiano sentado no seu cadeirão, de olhar
atento e curioso, pronto a descobrir o ninho de cucos que poderá existir em
mim.
Os raciocínios que obrigam a essa
esfregação não devem ser matemáticos, suponho. Tenho reflectido sobre isso,
tenho-me questionada para melhor conhecer o mundo.
Quando falo das minhas fobias,
dos meus sonhos, dos meus pesadelos diurnos e nocturnos, das minhas
inseguranças, o psi afaga a barba e invariavelmente passa disfarçadamente os
dedos levando a sua caneta credenciada entre eles e esfrega a cabeça. Não há
matemática que não se vergue à sua caneta parker rialto (acredito eu).
O que quererá isso dizer?
Será a lógica ilógica das minhas dúvidas
esofágicas que assanham a circulação da cabeça do meu psi?
O mecânico faz igual,
evidentemente com as mãos oleadas em massa consistente, menos elegante,
vestindo um fato de macaco azul muito manchado e com odor a escape, óleo queimado
e transpiração quê bê, mas imbuído do mesmo gestual e com o mesmo brilho
preocupado reflectido nos olhos, ávido pela descoberta e pelo prazer de navegar
pelo desconhecido. Olhos que vêm, cabos, baterias, carburadores, pistons, tubos
e bombas injectoras, análogos aos olhos que vêm frustrações, desejos, sonhos e
complexos. Um cruza as mãos atrás das costas e circunda a frente do meu jeep, o
outro permanece sentado no seu cadeirão e escreve, escreve…e no fim levanta-se
cruza as mãos atrás das costas e circunda a long chaise onde estou semideitada.
Um tem a reprodução da “Nua
sentada num divã” de Modigliani pendurada ao lado da sua secretária bem
organizada com receituário, um pequeno martelo, um pisa papeis da Marinha Grande,
e pequenos blocos de apontamentos com publicidade farmacêutica. O outro tem um
calendário Pirelli de gajas descascadas ao lado da sua mesa de trabalho cheia
de facturas para pagar, chaves inglesas e chaves de fendas parecendo perdidas,
mas que não estão. O pisa papéis é uma roda dentada.
Estou mesmo a ver que é tudo
igual. Mecânicas semelhantes em contextos diversos. Análises idênticas em enquadramentos
distintos.
Afinal quem somos nós?
In “Ensaios de escrita, um
projecto sempre adiado” Anabela Quelhas
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