14 fevereiro, 2014

Cupido

O Cupido é um deus grego demasiado descuidado, insolente,... preguiçoso, trapalhão... o Júpiter pai dos deuses é que tinha razão em querer elimina-lo à nascença, pois como deus maior sabia bem a complicação e a incompetência deste ser com asas, mas sem bico, com crise de identidade, mamífero e ave, dois em um. Um deus que é deus, não dorme, descansa, medita, reflecte... sempre com um olho no burro e outro no "cigano", pois desatenções podem ser fatais.

O Cupido em vez de estar atento 24h por dia, não, entretém-se a tirar setinhas sem pontaria nenhuma e depois dá mau resultado. ... sei lá se padece de estrabismo?! Cupido é o responsável por tanta ralação e relação amorosa falhada e por tanta gente sofrer de solidão.

Ah deus vagabundo e fatela!

Quero lá saber do ar fofinho, angelical de anjo papudo que transporta... é um verdadeiro incompetente.

Cria paixões impossíveis, daquelas que todos sabem que não darão certo, e só mesmo os envolvidos acreditam que sim. Mas o tempo é fatal, passados dois anos, cumprindo-se o tempo biológico da paixão, esta faz as malas e abala, restando dois ilustres desconhecidos que raramente aceitam o erro, desfazendo-o.

Cria paixões unívocas: só atira uma seta, em vez de duas, e assim só um é que fica apaixonado, do género um ama e outro deixa-se amar. Este deve ser o maior grupo de todos. Este grupo é daqueles que parecem felizes a vida toda, mas na verdade não se passa nada, fazem teatro o tempo todo.

O grupo menor, bem menor é aquele que é constituído pelos felizardos, sortudos que ganharam a "lotaria": O Cupido acertou em cheio após período de investigação apurada.! Esses vestem-se de amor egoísta. Parafraseando o que diz uma amiga: Querem o mundo para eles e um corno para os outros.

Por fim estão os solitários, que podem ser os esquecidos do Cupido ou então integram um subgrupo, o da reciclagem amorosa

Os primeiros já esperaram tanto que a solidão passa a ser a companheira ideal, ou então já viram tanta burrice junta que quando vislumbram o Cupido ao longe, fogem e desaparecem da circulação. Não conhecem o Cupido, não querem conhecer o Cupido e tem raiva de quem o conhece.

Os segundos são aqueles que assumem a teoria dos 3 Rs, REDUZIR, REUTILIZAR E RECICLAR e esperam e desesperam pela atenção do dito cujo infatiloide, que está a olhar para os abismos e quer lá saber da quercus e do greenpeace.

Sinceramente não admiro o Cupido, não sei o que a Psiquê viu nele. Será que viu ou deixou-se apenas amar.

E os locais que o Cupido escolhe para manobrar as setas?

è do pior...

Bem, quando os casais se apaixonam no museu da presidência da republica, na igreja do Troufa Real em Lisboa, nas áreas vip de certas discotecas, no Portugal dos Pequeninos, durante as malfadas praxes, no panteão nacional ou até na loja Chao Lin,... eu acho que o Cupido está gravemente embriagado ou anda a fumar coisas estapafurdias.

in "Ensaios de escrita um projecto sempre adiado" Anabela Quelhas

26 janeiro, 2014

4Kg e 60gramas

Demorei anos a tomar a decisão.
Fiz estudo prévio, fiz ante-projecto, fiz projecto, fiz caderno de encargos com mapa de medições e de acabamentos… e finalmente a execução.
O mais problemático deste processo era a irreversibilidade da decisão. Esta questão de não poder mudar de ideias é algo que sempre me atrapalha em qualquer vertente da minha vida e em todos os momentos da mesma. Decido tudo no momento, porque me conheço… quando decido antes, chego ao momento e… já não é bem assim.
Fiz planos com régua e esquadro numa geometria espacial de fazer corar qualquer arquitecto da grécia antiga… escolhi mês, escolhi lua e escolhi sexo, num rigor matemático infalível.
No início eu só dormia, parece que todo o sono do mundo tinha desabado em cima de mim, sob a forma de sestas do solstício de verão. Depois deliciei-me com uvas deliciosas do Douro, moscatel.
Preparei o enxoval, eu mesma desenhei e confeccionei vestuário, quentinho para aquecer os dias e as noites do 1º Inverno. O cesto do tricot passou a habitar por baixo do meu estirador, com delicadas cores pastel, tendendo para o azul.
Um pacote de bolachas foi-se esvaziando nos primeiros meses na mesinha de cabeceira para evitar o enjoo matinal, pois eu queria mesmo ter uma gravidez sem dramas.
Ao terceiro mês, tive aquilo que um exotérico chama de um sonho premonitório. Conheci o meu filho em sonhos já com a idade de 2 anos. Incomodou-me, causou-me uma sensação estranha, que se confirmou exactamente passados dois anos. A criança que me acordava de noite junto à minha cama era a criança do sonho, sem tirar nem por.
Passou a ter nome curto e belo, inspirado numa história antiga das páginas centrais de livros conhecidíssimo da BD da Disney, cujo herói se encontrava entre dois exércitos, um que evocava S. Jorge e outro clamava por Santiago. Sempre foi esse o seu nome desde que fui menina também.
Um dia ao descer uma rampa, achei estranho o meu barrigão afinal pesar-me tanto. No dia seguinte já estava a fazer um almoço só de sopa e maçãs, para preparar as nove e meia da noite. 
Era domingo como hoje, há 22 anos.
O primeiro contacto com esta minha melhor criação, não foi através da visão, pois eu recuperava de uma brutal anestesia, foi algo muito mais profundo e inesquecível: o tacto. Ao tocar o meu rosto no seu rosto, pele na pele, como eu tanto aprecio e a nova vida presenteou-me a melhor sensação do mundo – a temperatura igual à minha e a textura macia da sua pele parecia nuvens de cetim, aconchegadas junto ao meu peito e ao meu pescoço – 4kg e 60gramas.

Só aí percebi como é bom o compromisso de uma nova vida e para sempre.

17 janeiro, 2014

O lado C

Todos nós temos o nosso lado A, o lado das atitudes politicamente correctas que assumimos nas relações sociais, dizemos que somos tolerantes sem o sermos, apenas porque parece bem, manifestamos paciência quando nos apetece mesmo esbofetear alguém que nos multou o carro quase bem estacionado, tentamos assumir o lado sério da vida, escondendo as nossas megalómanas fraquezas, incompetências e outras coisitas mais … enfim, é o nosso cartão de visita… do tipo – sabes quem é? Aquele fulano simpático, competente, charmoso, compreensivo e diplomata , que abre sempre a porta do automóvel às senhoras… tás a ver quem é?
Depois temos o nosso lado B, que só os mais íntimos ousam conhecer,… somos aquele que canta no duche e solta uns palavrões quando lhe pisam os calos ou quando já se esgotou a paciência. Temos conceitos por vezes desfasados do lado A, senão opostos e contraditórios, e ai aflora por vezes o nosso humor negro, a acutilância da critica e do parecer, e o acre do revanchismo, do machismo, do oportunismo, e outros ismos tal como narcisismo e egocentrismo. O lado B somos nós com letra grande, doa a quem doer, com taras, paradoxos e paradigmas no seu melhor. É por vezes um lado solitário que só se encarna quando nos fechamos connosco mesmo na cabine do duche, ou quando muito na retrete… os que são por norma solitários tem mais espaços para denunciar o lado B – eu por exemplo praguejo do pior quando cozinho, porque abomino cozinhar. O lado B é o lado mais interessante de cada um de nós, é aqui que somos francos, directos e honestos. Aqui também habita a sensibilidade, que por vezes, francamente só atrapalha. Aqui aflora a nossa alma de artista que todos somos, mesmo que só cantemos brejeirices do tipo “ bonito, bonito eram os tomates a bater….” Ou “sabão grá grá, sabão gré, gré"… salta-nos a fera que há em nós e discursamos, discursamos alto e bom som e inúmeras vezes, repetidamente e cada vez mais efusivamente, porque gostamos de nos ouvir a discursar para o nosso chefe, do tipo, “Caríssimo senhor administrador, isto é tudo uma merda, uma grande e valente e monstruosa merda, parece que estamos no saneamento do pingo doce, e a sua ignorância mata mais do que o cancro. A sua descompetência parece uma tábua de engomar roupa depois de ter engomado a roupa de 40.000 comboios de prostitutas, a sua organização parece a cidade de Monbai em hora de ponta…” ( o discurso só se interrompe quando nos cai o sabonete na base do duche, ou quando reparamos que estamos sem toalhão de banho na saída da banheira).
Depois e finalmente temos o nosso lado C, que nem nós conhecemos muito bem. É o lado misterioso e complexo que habita em nós, não sei onde, e se manifesta sempre que dormimos, no nosso sonho que raramente lembramos. O nosso lado C faz longas e longas metragens de tudo e de nada com milhentos personagens, guiões bizarros, mas com realizador desmiolado, que somos nós, que pouco retemos de metros e metros de fita, deixando escapar autênticos filmes dignos de vários óscares na classe SURREALISMO..
É aí que a nossa complexidade se alia à omnipresença, dando a cara a todos os recursos possíveis e impossíveis, remetendo a ficção cieníifica, para o depósito das ciências menores. Já mergulhei em situações extraordinárias neste lado C, as minhas, como cinéfila competente de REM, não me lembro, mas as dos outros, traduzem-se no mundo real, normalmente em palavras balbuciadas, em diálogos pespontados, em comunicações ilógicas e consistentes de tudo. Como interlocutora e investigadora desse lado C, aconselho a nada contrariar, nos balbuciamentos imprevisíveis. Numa hora ouvimos discursos sobre estantes italianas, noutra hora apresentam-nos um diálogo feito apenas de preposições, e temos também a fase narcisista, “Diz-me há alguém melhor, que eu, há? Há alguém melhor que eu?…. Claro que devemos responder, Não claro que não, só Deus!!!!. Não se confunda tudo isto com sonambulismo. Não, Um sonâmbulo é pacifico, levanta os braços e dá corda aos membros inferiores e o máximo que pode acontecer, é querer deitar-se dentro da casota do Boby… Eu refiro-me ao lado C que se manifesta por vezes intervalado com o lado B. O interlocutor fala de alhos e o autor do lado C responde bugalhos, um dialogo inteligente (!?) e hermético (!?)onde o interlocutor tenta construir um fio condutor no dialogo e o artista do lado C ora fala da comida congelada que esta na arca frigorifica, como do tsunami do Rio de Janeiro que ainda irá acontecer, passando pelos botox corbusianos implantados na capela de Ronchamp, e o globo de ouro do sr Aristides da mercearia… e afinal dá-me os cotonetes e os coentros. Esta visão esofágica do exterior para o profundo do lado C, através de um sonilóquio, aparentemente desgovernado, ora sereno, ora emotivo, ora melodramático ensonado, devolve-me sorrisos angelicais que se desconseguem de outra forma. A delicadeza da situação, dessa algraviada de palavras na língua do proprietário, proferidas na 1ª pessoa cheias de convicção, contrastam com a sua negação logo que o lado C se transfere para o B ou para o A. Não vale a pena insistir ou contrariar, é pura perda de tempo, resta-nos apenas a delícia de dialogar sem nexo, entrando nesse mundo virtual de pantufas, como se entra num conto de fadas. O resto… resta-me escrever.
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas

16 janeiro, 2014

o desassossego


Há consciências incapazes de viver sossegadas nos seus invólucros. De repente entre o sol e a chuva entre as horas e os quartos, acordam de forma violenta da dormência de horas a fio de trabalho mecânico de sobrevivência e subserviência, despertam todas as melancolias existentes no mundo e abatem-se em tsunamis de questionamentos … antigos e novos, os questionamentos demolidores da tranquilidade. Depuram a solidão entre todas as solidões que já sentiram juntos em cais desertos, refinando a tristeza e a mágoa existentes em cada maré de outono , decantando todas as melodias que nunca ouviram.
Acácias em flor passam no pensamento, a negro e branco, em vez de rubras oscilando languidamente entre brisas mornas de outras existências. Sobe a vontade incontornável de desistir, integrando-se um xadrez de peças insólitas com rotas paradigmáticas, nas vertentes da nossa existência, de forma ininterrupta e disruptiva. Onde está tudo aquilo que nós queremos que esteja? Porque não está aquilo que não está no sítio que queremos que esteja? Corre vento nas veias profetizando outros desassossegos de inverdades possíveis, outras complicações que virão por aí. Estes afastamentos conscientes das rotinas que me estrangulam, vestem-se de indignação por detrás de uma almofada de rendas delicadas, matizadas de dor. Contradições que se vão alinhavando na antecipação do futuro que pode muito bem ser amanhã ou mesmo hoje, com sabor a lágrimas salgadas, que desaguam em rios de esquecimentos e nos fazem querer desistir, que nos fazem fugir das margens que não somos e não queremos percorrer e simultaneamente nos impedem de fechar o mundo por tempo incerto no tempo certo.
In”Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas

09 janeiro, 2014

Simone de Beauvoir


No motor de busca Google, hoje, divulga-se o 106º aniversário de Simone de Beauvoir com um design gráfico bem pobrezinho por sinal.
Há escritores que nos marcam, porque são bons porque escrevem sobre coisas interessantes, porque nós os lemos no momento certo, porque os conteúdos mexem connosco, porque influenciam de alguma forma a nossa personalidade em desenvolvimento… Simone de Beauvoir foi exactamente uma das escritoras que mais informação me proporcionou porque me abriu caminhos para Sarte, Camus e Boris Vian. Li-a na transição entre a adolescência e a idade adulta, e foi determinante para eu ser quem sou. Li a convidada, li o segundo sexo, li os mandarins,  li a força da idade e a força das coisas… leituras que me deram o enquadramento do existencialismo, do feminismo, da personalidade de Jean Paul Sartre, e a vivência da 2º guerra e do pós guerra. Um amigo especial emprestou-me a Força da idade que li rapidamente e seguiram-se todos os outros, acho que em 3 meses, amadureci e renasci-me noutra pessoa que nunca mais despi ao longo dos anos. Seguiu-se a náusea, o diabo e o bom Deus, o estrangeiro e depois o mergulho em Boris Vian (o meu preferido de sempre) iniciado com Outono em Pequim, esgotando todas as obras deste francês bizarro e surreal, amante do jazz.
106 anos…
9/01/2014
AQ

08 janeiro, 2014

momentos

Espreito-te em distância cautelosa de te desconhecer. A arte transforma-se em desejo e reflecte-se em espelho dourado suspenso no infinito, que me devolve aquilo que sou e aquilo que não sou . Paro de respirar, para que nada mexa e um segundo se converta na eternidade dialectica de outro segundo consumido na tarefa de viver. Subi a noite marcando os eixos de simetria coincidentes com as abcissas e desenrolei o olhar marcado num pontilhismo constante de ti, decidida a esperar como quem espera as baleias em pleno oceano. Espero dias, espero noites, convencendo –me que será o ultimo dia ou a ultima noite, restando-me depois todo o tempo do mundo para reflectir. Espreito e escuto o silêncio mergulhada no desespero que toda a espera encerra, em que o céu e o mar se conjugaram para agonizar o tempo. Corro ortogonalmente as inseguranças e as fragilidades que me fazem não olhar para trás e adivinhar as contracurvas da esperança. Ignoro pensares e comportamentos que afectam a minha espera, porque uma espera é uma repetição pacientemente ordenada de momentos.
In "Ensaios de escrita um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas

03 janeiro, 2014

click

Olho-te numa fotografia, a cabeça lisa desnudada, que se repete como caleidoscópio na minha mente, nos meus desenhos na minha paleta de cores, desde sempre. Cabeças desnudadas vindas de um outro planeta, que me vigiam constantemente, anunciando ou denunciando algo. Estruturas cranianas por vezes assexuadas, que me fazem recuar e avançar na minha orfandade universal que se afoga em lágrimas texturadas de claves de sol nascidas num kissange.
Escuto-me. Tento desconstruir labirintos juvenis que me parecem levar a lado nenhum. Estendo o olhar por terras ocres, embarcando em caravelas azuis repletas de jacarandás e oiço o meu batimento cardíaco dissolvido em Distant Gardens. Organizo palavras que possam expressar os labirintos que me retiram o ar suspenso como mobilies da minha existência.
Quero dar e receber, equacionando cada dia de um equilíbrio de sensações capazes de contrariar e impedir o regresso a casa, mais parecendo um verdadeiro jogo de xadrez. Sento-me e espreguiço-me na espuma deste início de noite tempestuosa, marcada pela fúria invernosa dos elementos, recolho o mundo e desligo-o!
Click!!!!!
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas

07 dezembro, 2013

...existir, não existindo. (1923-1996)



Passei a mão no teu rosto e senti-o frio e marmóreo numa manhã de dezembro. Gelei a mão no teu rosto imóvel, confirmando a falta de esperança há muito congelada, num diagnóstico fatal. Foi numa madrugada gélida, atravessei 2 ou 3 ruas a correr após um telefonema previsível.
Chorei convulsivamente, num desenlace aguardado há muito, cavalgado em progressiva demência incontrolada, em que ninguém entendia nada de nada, onde a medicina mostrou a sua magistral incapacidade para resolver o teu problema. Mais uma vez senti, que nós, seres viventes do seculo XXI estamos muitas vezes na idade da pedra e não descolamos. O teu rosto parecia uma escultura de alabastro, macio e frio… frio de morte.
Despedi-me de ti ao longo de quase 2 anos, ias deixando de ser tu, conforme as horas passavam. Cada dia estavas mais diferente e mais ausente de nós, apesar do nosso esforço para que tudo se tornasse real, fácil e confortável para ti… mas o teu olhar saía da tua zona de conforto e viajava para o vazio, onde não sei o que existe, nem onde se localiza. Foi uma despedida dolorosa e progressiva até não me identificar mais com o corpo de quem tratava, pois ele estava sem alma, inerte e amorfo.
Só fiz o teu luto décadas mais tarde… ainda o faço, cada vez que escrevo sobre ti.
Coisa estranha a alma separar-se do corpo com ele ainda vivo. Para onde ela vai? Que estranho lugar é esse para onde as almas emigram antes do tempo! Assisti a uma decomposição seguida da desconstrução de ti, hora após hora, dia após dia. Percebi os limites da resistência dos humanos, percebi o quanto somos frágeis, tomei consciência da forma como poderemos desejar a morte a quem queremos tão bem – a contradição feita “pecado” que habita sempre em mim. Nunca mais fui a mesma, perdi frescura e entusiasmo, nesta inversão de papéis, de quem trata quem. Nunca mais a nossa família voltou a ser o que era antes, não por tu faltares, mas por a despedida ser tão longa, tão penosa e desumana, tendo afectado cada elemento. Perdemos alegria, perdemos brilho e criamos uma resistência brutal às contrariedades da vida… afinal, ela é tão estranha, com memórias a várias velocidades!  Os papéis de cada uma de nós definidos ao longo dos anos, inverteram-se completamente, deixaste de nos dar “colo” e passaste tu a precisar dele, num retrocesso diário para um espaço indefinido e tenebroso. A certeza que cada dia seria pior que o anterior, nunca nos abandonou e preenchia cada vez mais a esperança que nunca conseguimos possuir. Questionava-me diariamente sobre o que seria ainda pior. Nada mais voltou a ser igual…. deixou de haver aquela cumplicidade serena de silêncios, só possível nas mães.
Como lidar com tudo com dignidade? Como lidar com as situações mais penosas com sentido de humor e entusiasmo para que não te apercebesses que estavas mal e cada vez pior e pior. As fases sucederam-se, a perda de voz, a perda de orientação, a perda de movimentos, a perda da deglutição, a perda da visão, a perda do conhecimento… a fase do colo, a fase da cadeira de rodas, a fase da cadeira dentro da banheira, a fase dos resguardos, a fase das fraldas, a fase da rigidez, a fase das sondas e das seringas, a fase das escaras, a tua pele abrindo e mostrando o interior de uma anatomia moribunda… a fase da vigilância permanente. O pai não resistiu pura e simplesmente e sucumbiu de exaustão e desgosto, ainda o problema se iniciava. Todos ficamos marcados por esta violência que se denomina alzeimer, sentença que te deram quase 6 anos antes, perante a nossa surpresa e desconhecimento total desta sentença mortal. Ficou mágoa, revolta, desapontamento e frustração, de uma batalha perdida de ti, mulher bonita, afável, carinhosa e de gargalhada livre. Ficou uma textura baça e sem brilho nesta recordação dolorosa do não existir, existindo.
Bj      

In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado”, Anabela Quelhas

09 novembro, 2013

eu quero a carica Crush

Meu amigo Henrique é um cola, que me xinga noite e dia. Nossos mambos se resumem na arte de brincar com 9 e 10 anos de idade, sem mais qualquer responsa no sábado de tarde.
Eu quero brincar com as bonecas, e aos reis e rainhas e ele quer brincar de pista com caricas, de joelho no meio do chão, cobrindo o chão de água e sabão para as caricas deslizarem mais rápido, na pressa de sempre ganhar, e isso por vezes dá maka entre nós.
- Ele me xinga, mâéeeee! O Henrique me xinga, não quer brincar comigo!!!!
Henrique espreita rindo da janela do quintal.
- Aka, Ana vambora! Vem brincar no quintal, trouxe shuingas e minha colecção de caricas!!! Vamos brincar deixo-te escolher e desenho a pista rápido, é só completar a pista de há dias.
- Eu quero a carica da Crush!
- Eu fico com a carica Nocal, vai correr como um Ferrari e te vou ganhar!!! Vais ver – diz Henrique olhando-me já com ar vitorioso, de quem olha para um rival desportivo de quinta categoria. Eu te ganho sempre, só sabes brincar com aquelas bonecas malaikas de meter medo. 
Pópilas, não tenho mais ninguém para brincar, vou fazer mais como?
Ele traça a pista no cimento, com giz trazido do nosso colégio. Marca a partida e a chegada, vincando bem o giz no chão. É um circuito feito de duas linhas paralelas, cheio de curvas entre os dois pontos, parecendo mazé uma gibóia de muitas curvas, às voltas dos dois mamoeiros e do tamarineiro, que mais parecem três ilhas no meio do quintal de cimento, que a esta hora bate a sombra; quintal escaldante num sábado de tarde de um mês qualquer de um tempo sem tempo na rua Pompilio Pompeu de Castro na Vila Alice, em frente da Texaco.
Quem começa?
Pim pam pum cada bala mata um, lá em cima do Huambo tem um copo com veneno quem bebeu morreuuuuuuu ….
Henrique treinado no impulso com o dedo indicador, não sei mais como se chama, dispara a carica percorrendo quase completamente o primeiro troço da pista, não saindo nem mais um milímetro fora do traçado riscado a giz. Muita prática de jogar com os vizinhos rapazolas e borbulhentos. Ele imita com um vrrrummm de automóvel que arranca a grande velocidade. 
Passa barona na rua e nos olha, nós kandengues descalços e em calções, mastigando shuinga, atirando caricas numa pista que nem fosse fórmula um do Fitipaldi, lá nas Europa. Passa machimbombo também e passa quitandeira apreguando… éééé´bananéeeeee, bananéeee.
Eu atiro com a carica crush, que não chega nem perto da carica Nocal colocando-me logo no clube dos perdedores.
Jogamos mais uma e outra e outra vez ainda, ficando eu cada vez mais para trás. Se a carica vai para fora regresso à partida, eu lhe xingando de matumbo, pois desconsigo atingir a meta. 
- Ei mininos venham lanchar pão com manteiga, bolinho de côco e Quick… tem ginguba e pipocas…hoje tem cana do açúcar que fui comprar no mercado de S. Paulo. 
- Oh agora que eu estou a ganhar!!!!… reclama Henrique
-Tu ganhas sempre…
- Não faz mal, voltam depois, vão lavar as mãos ai na mangueira do quintal.
Lavo as mãos e previsivelmente aproveito para aprontar, molhando as pernas do Henrique vingando-me de tanta corrida! Quero as minhas bonecas que ele odeia e que atira ao ar para me xingar.
- Cruaaak! Ginguba!!!!!! Dá ginguba ao jacó!!!!! 
- Ué que bolinhos bons!!! Estão deliciosos.
-No final vamos brincar de táxi, de levar e trazer em frente à Versailhes.
-Sim vamos, o teu cota ainda não chegou, Henrique? 
-Ainda! Hoje chega tarde e minha cota foi no cabeleireiro.
- Primas!!!!! começo eu a conduzir. 
Entro no cônsul preto que está na porta de casa, esperando o passeio de fim de semana e onde todo o dia nos deliciamos a simular a condução, como se fossemos um carro de aluguer circulando nas ruas de imaginação de S. Paulo de Loanda, as Ingombotas, a Maianga, a CAOP. É cônsul 17éme, só sei isso, preto e bonito, ano não sei mais, que não me interessa. Interessa o brilho de nós reflectidos na chapa negra daquele carrão que nos leva a todo lado sem gasóleo nem gasolina.
Ligo rádio e desligo. Ouve-se Nelson Ned no seu, o que é que você vai fazer nos domingo de tarde…., faço pisca e meto velocidades de verdade, junto ao volante, com a embraiagem no fundo,1ª, 2ª, 3ª e prise, depois reduzo, 3ª, 2ª ate fingir que paro para apanhar o meu cliente que entra para o banco da frente, à homem armando-se numa nice com estilo de homem gingão. Quando ele faz de motorista, põe boné na cabeça e estica os braços como um homem bem alto. Eu vou no banco de trás com o vidro aberto e finjo que fumo, uso um lápis para fazer a vez, olho com olhar de dáma que vai nas bumba, e coloco uma fita vermelha no cabelo (vi no cinema Kipaka)….
- Boa Tarde, me leva no Cacuaco!!!!
Ou 
- Por favor me leva na Restinga da Ilha para jantar!
Xê!!!! Assim mesmo horas e horas, ora eu de motorista ora ele. Ele ate limpa o volante com a flanela laranja e imita os tiques de braço na janela, conduzindo só com uma mão e toda a gestualidade de colocar a mão de fora, para parar ou deixar passar. Buzina também é importante mas a maioria das vezes é o jacó que buzina igual, pondo loucos, os vizinhos.

Paro no destino e peço o kumbú que ele faz de conta me dar.
- Me dá de troco uma quinhenta, o resto é gasosa.
. Ana dá ginguba ao Jacó! Henrique é bandido não dá ginguba!!! CRRRUÁÁKKK!!!!!

In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas
Para o meu amigo de infância Henrique Martinho que desencontrei há tantos anos
.

30 outubro, 2013

Podia muito bem ser eu

Podia muito bem ser eu. Juntava a água com sabão e

procurava uma palhinha feita de fibra vegetal verdadeira para soprar. Não havia detergente. Governava-me com o sabão rosa da cozinha. Ia até uma das varandas da minha casa, mal chegava à parte superior do gradeamento e soprava. Entrava num sonho circular feito de transparências de azul e anil e acreditava que a vida dos adultos era muito melhor que a minha. Se eu fosse adulta não teria de usar tranças, nem soquetes, nem laçarotes e poderia ocupar-me com as coisas que eu considerava verdadeiramente boas - andar na carroçaria de uma carrinha e em pé, tomar banho de mar sem bóia, conduzir uma mota, pintar com trinchas, fazer contas de cabeça com ar de preocupada... poderia comer bife com batata frita todos os dias, poderia usar saltos altos e bigodins nos cabelos e podia recolher todos os cães perdidos. Poderia ter um jacó, que conversasse permanentemente comigo.
As bolas soltavam-se e levitavam no ar por segundos que para mim pareciam eternidades.
in "Ensaios de escrita um projecto sempre adiado" Anabela Quelhas.

28 setembro, 2013

Eleições


“Era uma vez numa pequena aldeia no norte de Portugal, situada nas coordenadas do Portugal profundo, onde se preparavam as 1ªas eleições para a junta de freguesia. Os partidos seleccionaram entre os seus simpatizantes os mais capazes e ou os mais militantes e ou os mais bem formados, para as respectivas listas.
Isildo das Fontes, meu vizinho, homem para uns 50 anos de idade, com apelido morfológico e toponímico (nem sei o que quer dizer mas acho que fica bem) primo do tio do irmão de não sei quem, homem das leis, que se candidatava à assembleia municipal, viu-se empurrado para a politica socialista, após a abrilada dos cravos, sem saber ler nem escrever, por influência do tal primo do tio do irmão de não sei de quem, homem das leis, advogado, candidato a presidente da Câmara… Eram parentes afastados mas a politica estava-lhes no sangue!!!
Isildo das Fontes, homem honesto, leal, trabalhador rural de sol a sol, de mãos grandes, robustas e calejadas, habituado a cavar pela madrugada e a anoitecer forrando vacas da lavoira e preparando arados para a madrugada seguinte, sem domingos, sem feriados, nem dias santo, viu-se orgulhosamente metido nesta empreitada da politica.
Candidato a presidente da junta.
Percebia de politica?
Sabia lá ele!
Ele sabia quando devia semear o nabal, e quando arrancava as batatas, sabia quando levava as vacas ao touro da coberta e não se enganava nunca. Era honesto, não devia na mercearia. Das contas ele sabia, até tinha um calendário pendurado na cozinha e todos os anos punha-se a caminho para a cidade, com a sua samarra, guarda-chuva e chapeu e ia pagar a décima pontualmente. Gostava da sua aldeia, que o viu nascer, assim como viu o seu pai e o seu avô. Ele conhecia os campos, os marcos… daqui é deste, e dali é daquele,… ele apaziguava as rixas entre vizinhos desavindos e águas mal divididas.
Portanto poderia ser um bom presidente da junta, porque não?.
E ele rejubilou, a sua autoestima ficou em alta com o convite do primo do tio do irmão de não sei quem, homem das leis, que se candidatava à assembleia municipal: Começou a limpar melhor os socos, a aprumar a camisa e a samarra, e a juntar-se ao domingo no fim de missa ao povo que iria votar nele, com sorriso largo e franco. Começou a substituir os Bes pelos Ves, para linguajar mais fino e fazia o trabalho de casa. Se fazia!!!! Como fazia e não era nada fácil!
Como vos disse ele viu-se empurrado para a politica sem saber ler nem escrever, e era verdade, não sabia ler nem escrever, era analfabeto de pai e de mãe o que não seria impedimento de maior, desde que soubesse assinar a papelada. E era esse o seu trabalho de casa que ele realizava com aprumo e empenho.
Todos os bocadinhos livres a seguir à ceia, ou após o almoço de domingo, Isildo das Fontes puxava dum papel e da caneta, arrumados atrás do escano e treinava a assinatura. Os dedos grossos e rijos, desprovidos de qualquer motricidade fina, mal dobrando as falanges, copiavam ISILDO DAS FONTES com a língua ao canto da boca e de fora, ajudando nas curvas e contracurvas do desenho do I e do EFE, numa assinatura espalhafatosa, como ele tinha visto e admirado num tabelião no tempo do minério, e rematando com gesto largo num rabiosque e ponto final. A coisa não era fácil, mais fácil seria carregar um carro de estrume ou malhar o centeio..
A tarefa só ficava concluída levantando o papel e olhando-a de braço esticado, cuja distância era proporcional à vista cansada produzida pela sua candeia.
Magnifico! magnânimo! “

In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas

28I09I2013

22 setembro, 2013

Amo a lógica.


Uma das matérias académicas que mais me influenciou como pessoa e cidadã foi a lógica, área do saber que estuda os processos e os elementos que poderão levar à verdade. Comecei a estudar Lógica através da matemática visualizando o quadro de ardósia do mestre Serra , apenas com 15 anos, em fins de tardes tropicais. Escrevi “comecei”, porque esta aprendizagem tem inicio mas não tem fim, é uma aprendizagem constante,  evolutiva e dialéctica.  O conhecimento das leis do pensamento alteraram a minha vida, cedo despi uma adolescência primária e ingénua e iniciei um caminho marcado pela lógica matemática ensinada com mestria pelo simpático e competente mestre Serra, desenvolvendo e manipulando princípios da negação, dupla negação, conjunção, disjunção etc etc até aos silogismos mais fáceis capazes de serem entendidos e interiorizados por uma teenager.
Rápidamente descobri que o caminho que eu iniciava já vinha lá da Grécia antiga  λογική, sendo Aristóteles uma referência fundamental, apresentando-se também como conteúdo da filosofia e depois parindo até hoje ruas e vielas do conhecimento e da acção, sendo fundamental na advocacia, na engenharia, na arquitectura ,na biologia … e a todas as áreas da investigação cientifica constituindo-se como base nas ciências informáticas e na formação da inteligência artificial. Defino-a como o pilar estrutural do processo avaliação-decisão seja em que domínio for.
Não sendo perita em nada, mas atenta aquilo que me interessa, a lógica está sempre presente na minha vida, psico-motora, na minha vida afectiva e no conhecimento do conhecimento e da vida, permitindo-me avaliar melhor, decidir melhor e errar melhor também. Por vezes erro porque quero errar e porque é bom errar. Nada melhor do que um erro calculado e perfeitamente consciente, quando este assume facetas de algum prazer ou de muito prazer.
Recomendo vivamente o estudo desta área do saber. Nada se descobre, nada se deduz sem conhecermos os mecanismos escondidos dos raciocínios lógicos ou ilógicos.
A verdade nem sempre é a verdade, A verdade pode ser apenas meia verdade ou um completo disparate. Premissas verdadeiras podem ter conclusões supostamente verdades ou  inverdades e por isso existe a falacia que tanto jeito dá em certas situações.
Há questões que são verdadeiras sem o ser, e há questões supostamente falsas que podem ser um mar de verdade.
Há perguntas evitáveis pois sabemos que irão levar sempre a inverdades sem serem falsas.
Há conclusões verdadeiras que estão muito longe da verdade, mesmo que as premissas sejam fiáveis. Mas isto parece um jogo!!!! Sim é um jogo de elasticidade menta, cujos actores podem ser peritos, ignorantes ou assim, assiml. Não se entreguem a Deus, entreguem-se à lógica gritando por Deus de vez em quando
- Ai meu Deus, não há pachorra!
O raciocínio dedutivo é fundamental. Nem tudo o que luz é oiro, e nem tudo que é oiro, brilha. A verdade poder ser sem o ser. A verdade pode conter nuances que sem serem falsas são inverdades. A verdade para um, não é obrigatoriamente a verdade para outro.
Mas afinal?!!!!!
Sim afinal!!!!
A passagem do geral para o particular e do particular para o geral não são processos lineares, ai de quem achar que são. As armadilhas lógicas de certas argumentações conduzem à falsa verdade.
Joga-se com as palavras, com os seus significados e com o entendimento da relação entre elas. A ambiguidade é um campo fértil da inverdade, formando raciocínios inconsistentes, Joga-se com o poder das palavras. Joga-se com o efeito que as palavras tem em certas pessoas, joga-se com a vontade de acreditar em inverdades. Joga-se de feição e joga-se pela conveniência.
A distorção dos factos, a explicação incompleta e superficial, as lacunas propositadas, resultam por vezes em verdades obscuras, ilógicas e hilariantes. Acreditar cegamente na dicotomia logica das afirmações e ignorando as 3ªs vias, é um exercício ingénuo do acreditar na suposta verdade. A meia verdade nem sempre é igual à meia mentira e nem sempre a mentira é gémea da inverdade. Nem sempre a nossa verdade autêntica passa pelo absurdo. Só passa quando queremos que passe, quando queremos ser cegos. Não há pior cego do que aquele que não quer ver.
 Na verdade, a lógica é tão simples, é sim ou não.
  Verdadeiro X Verdadeiro=Verdadeiro; verdadeiro X Falso= Falso  Falso X falso= falso  
Será?
E há conceitos que por mais voltas e maquilhagens que se lhes faça, significam sempre o mesmo.
Amo a lógica.
(Sim esta reflexão não é para ti mesmo sendo.)

In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado”

13 agosto, 2013

a rebeldia da arte de pensar

Sonhos que se desconfiguram e se desintegram na ressonância de alerta de um despertador diariamente odiado. Voltas em sons murmurados por lençóis frescos e engomados no dia anterior… fruáaa fruáaa . Nasce a tentativa de esquecer o som do relógio só por mais uns minutos, que me permita por em ordem a desarrumação sonhada, numa lógica fabricada no meu inconsciente. Estendo a mão para o vazio de um ninguém permanente, que me acolhe no abraço sempre desejado, durante o tempo que o meu pensamento permite.
Não disfarço esta rebeldia da arte de pensar
Olho em plano rasante  sobre uma cidade adormecida, que desperta caso a caso, casa a casa, com os raios de sol indiscretos que entram pelas vidraças sem pedir licença, criando ângulos agudos de luminosidades ténues da madrugada de cada um. Apanho com as mãos, os cabelos longos que livremente se espalham por mim acolhendo-me suavemente, restando como prova que se vive diferente em cada dia.
Retomo questões, repesco  incertezas, procuro mediar conflitos e gerar  equilíbrios. Sorrio.  
Que atitude tomaria o mundo se deixássemos de pensar?

In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas

31 julho, 2013

AVEIRO COTA ZERO... ou quase


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AVEIRO CIDADE ESCONDIDA
COTA ZERO... ou quase.
Narrativa como aprendente
Curso "Aveiro: a cidade escondida - património e leituras históricas“
Formador: Prof. Rui Tavares
Trabalho final – Anabela Quelhas
Maio 2013

15 julho, 2013

A mecânica e a psiquiatria

Julguei que a mecânica seria uma ciência exacta, como a matemática, como os cálculos que eu tão bem sabia fazer na disciplina de física (a estática, a dinâmica e a quântica) (acelerações e movimentos, forças, peso, vectores, and so on) dentro daquelas salas de calor constante entremeado com frescas correntes de ar a cheirar a acácia rubra.
Tenho verificado que talvez não seja bem assim.
Observo os mecânicos, abrem o capô e coçam a cabeça, embaralhando os cabelos mesmo que eles sejam pente 3, grisalhos ou negros ou até que nem existam.
O meu psiquiatra também faz o mesmo. Homem sexagenário de perfil freudiano sentado no seu cadeirão, de olhar atento e curioso, pronto a descobrir o ninho de cucos que poderá existir em mim.
Os raciocínios que obrigam a essa esfregação não devem ser matemáticos, suponho. Tenho reflectido sobre isso, tenho-me questionada para melhor conhecer o mundo.  
Quando falo das minhas fobias, dos meus sonhos, dos meus pesadelos diurnos e nocturnos, das minhas inseguranças, o psi afaga a barba e invariavelmente passa disfarçadamente os dedos levando a sua caneta credenciada entre eles e esfrega a cabeça. Não há matemática que não se vergue à sua caneta parker rialto (acredito eu).
O que quererá isso dizer?
Será a lógica ilógica das minhas dúvidas esofágicas que assanham a circulação da cabeça do meu psi?
O mecânico faz igual, evidentemente com as mãos oleadas em massa consistente, menos elegante, vestindo um fato de macaco azul muito manchado e com odor a escape, óleo queimado e transpiração quê bê, mas imbuído do mesmo gestual e com o mesmo brilho preocupado reflectido nos olhos, ávido pela descoberta e pelo prazer de navegar pelo desconhecido. Olhos que vêm, cabos, baterias, carburadores, pistons, tubos e bombas injectoras, análogos aos olhos que vêm frustrações, desejos, sonhos e complexos. Um cruza as mãos atrás das costas e circunda a frente do meu jeep, o outro permanece sentado no seu cadeirão e escreve, escreve…e no fim levanta-se cruza as mãos atrás das costas e circunda a long chaise onde estou semideitada.
Um tem a reprodução da “Nua sentada num divã” de Modigliani pendurada ao lado da sua secretária bem organizada com receituário, um pequeno martelo, um pisa papeis da Marinha Grande, e pequenos blocos de apontamentos com publicidade farmacêutica. O outro tem um calendário Pirelli de gajas descascadas ao lado da sua mesa de trabalho cheia de facturas para pagar, chaves inglesas e chaves de fendas parecendo perdidas, mas que não estão. O pisa papéis é uma roda dentada.
Estou mesmo a ver que é tudo igual. Mecânicas semelhantes em contextos diversos. Análises idênticas em enquadramentos distintos.
Afinal quem somos nós?

In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas

12 julho, 2013

Não me ensinaste mecânica



Ontem as lágrimas transbordaram desgovernadamente e espelharam-se em frente a mim, pelos mesmos motivos, entre a chávena de café e a torrada da manhã. As lágrimas verteram-se como se estivessem ali à espera da ordem de saída, de um pequeno sinal que lhes permitissem rolar pela face abaixo, sem defesas, sem caminhos escolhidos no seu percurso, sem anúncios do que vai ser… um chorando o pai, o outro chorando a mãe.
A saudade que o tempo não mata. Alivia um pouco, mas não mata nem cura. Junto das lágrimas as palavras custam a sair, juntam-se de forma estranha e ficam presas na garganta como se esta fosse um desfiladeiro de palavras retidas. A saudade fica assim meio adormecida em nós, sem almofada, sem edredon, sem sedativo, fazendo de conta que já não existe, confirmando a nossa certeza que já tudo passou. Um belo dia normalíssimo, como muitos mais deste verão infernal, olhando e tomando a brisa entre as nove e as dez, e desenhando o meu olhar sobre outro olhar, a saudade apanha boleia nas lágrimas sedentas de luz e resolve me dizer que afinal a saudade acordou mais uma vez, espreguiçando-se despudoradamente perante o olhar sobre mim de mim, não se incomodando com a paisagem, com quem estava presente, se eu tinha ou não lenço de papel.
Hoje dando continuidade dessa saudade e sintetizando-a nas lembranças de tantos aniversários teus, verifiquei que não me ensinaste mecânica. Ensinaste-me muita coisa. Ensinaste-me a fazer paredes de tijolos, ensinaste-me a juntar areia e cimento, ensinaste-me a esticar aço, ensinaste-me a fazer cal, ensinaste-me a modelar estribos, ensinaste-me a misturar tintas e adaptar diluentes, ensinaste-me os cuidados para manipular a electricidade. Sei lá tanta coisa útil que me ensinaste, ensinaste-me até a chorar e não ter vergonha disso, mas não me ensinaste mecânica ou eu não quis aprender, não sei bem e hoje me fez falta.
Mais um aniversario pai e eu cá em baixo a fingir que não te lembro-
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas 12julho2013




07 julho, 2013

deslizo

“Deslizo vertiginosamente nos caminhos imaginados de ti, sem controle e sem ter a certeza de nada.
As contradições surgem num labirinto de vontades, desejos que me fazem sobreviver à velocidade uniformemente acelerada do existir, que me envolve sem eu mesma querer ou opinar.
Deslizo como se acariciasse cetim, implodindo as espumas dos dias que passam devagar, querendo reter apenas o sensorial. Vou escalando as emoções, vou circunscrevendo as sensações, como se te desenhasse numa motricidade fina de registo. As linhas seguras, os traços indecisos, as tonalidades de valores contados, exprimem contradições entre o tudo e o nada de nós e certamente os sabores do universo planeados não sei por quem.“
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas