27 maio, 2013
22 maio, 2013
05 maio, 2013
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Neste fazer e desfazer de anos, de assuntos e preocupações, há algo que permanece: Tu, mãe.
Já te escrevi tantas
outras vezes!... mas onde estás? se é que estás, nem sei se é possível algumas
destas escritas chegarem aí, a sítio nenhum.
Fico nesta eterna dúvida, de um monólogo estéril, ou diálogo
comigo mesma e nesta incapacidade eterna de comunicar.
Lembro-te apenas neste dia como lembro de outros, e fica
sempre a nostalgia de já não existires, a frustração de não te ter mais.
Por acaso hoje vivo um dia tranquilo e sereno, esquecendo as
ansiedades, intervalando as preocupações, esquecendo os enganos, desformatando
os esquecimentos. Olho-me e vejo-me sentada a dormitar, sonhando sonhos
intemporais onde a presença e ausência valem exactamente o mesmo, porque o
espaço e o tempo oníricos, são parecidos mas não são a mesma coisa.
Sabes? ofereceram-me um pequeno ramo de urze perfumada e um
abraço que abracei disfarçando a comoção repentina. Senti-me teluricamente bem,
num mar de pedras junto ao céu.
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela
Quelhas
01 maio, 2013
30 abril, 2013
Cheguei do liceu
Cheguei do liceu.
A mesa está posta, tem churrasco do bar América, acompanhado com aquelas batatas fritas deliciosas, em cima da mesa me esperando. Já todos almoçaram, pois as aulas ao sábado terminam à mesma hora que de durante a semana. Não interessa se é sábado ou não, as aulas são sempre no mesmo horário, não adianta nem discutir, nem xingar, nem apresentar razões… é assim porque é e pronto!
Sorte a minha ter aulas de manhã.
As aulas terminaram e eu saí correndo, saltando as escadas duas a duas, em saltos ensaiados tanta vez, vestindo bata branca de emblema azul LGL e calções, correndo em direção do portão do liceu feminino, apressada e olhando o relógio. Nem olhei quem esperava quem, quem se atrasava a vir buscar, quem catrapiscava como… quem passava na três e meio fazendo banga, quem parava no descapotável…NADA! Xêêê sai correndo e apressando o passo até chegar na Combatentes, vários cruzamentos depois, vários bares de seguida, atravessando finalmente na passadeira do café Mónaco em direcção à loja Paris.
Luanda toda já se prepara para sair da mesa e atirar-se para a sesta no fresco de uma varanda, ou na direcção de uma ventoinha obediente, pretendendo jiboiar sem ninguém por perto para xingar. Luanda quer xonar a sesta tropical como a preguiça e a digestão exigem. Um sofá sabe bem, mas uma cadeira de tirinhas de plástico sabe bem melhor, arejada e fresca.
O churrasco me espera ainda morno devido aos cuidados da minha mãe, mas ainda vou tomar um duche rápido, para depois me apressar, pois os amigos esperam.
Combinação do dia anterior, ir no cinema Estúdio na primeira matiné da tarde ver Jean-Louis Trintignant - bilhetes já comprados para não haver surpresas em coisa combinada e recombinada por todos. O filme nem sei qual é. É um qualquer que seja, o que interessa é ir.
Está na moda esse Tritignant filmado em francês, o que para nós é uma cena nice, dando-nos uma certa intelectualidade na cabeça, dando-nos a ilusão que nos tornará adultos logo à saída da matiné. Entramos adolescentes de 14, mas saímos com mentalidade de 20 anos no mínimo.
O filme é para maiores de 18, mas nós achamos que aparentamos ter… já passamos noutros sítios, basta entrar sério e com ar de responsável,…. aliás na saída já teremos ultrapassado largamente essa idade de 18.
Sabemos que filmes franceses são mais invulgares e só por isso já gostamos, e já nos sentimos alguns degraus acima da estupidez da adolescência que não acaba nunca, para poder ir merengar toda a noite e passar fi ns de semana no Mussúlo, como os mais velhos fazem e contam.
O cinema Estúdio, cheira-nos a sala europeia. Pouco arejada, pequena, metida dentro do Restauração, sem jardins, sem ar livre, mas se tem na Europa deve ser bom aqui também, e nós vamos ver o Trintignant, o policial, o actor sério cheio de personalidade, que fala com os erres todos. Não é um borracho, mas não é mau de todo.
Me sento à mesa de cabelo molhado, vestida, perfumada e fresca. Lá finesse preta e camisa aos quadradinhos azuis bem cintada, sandália de pneu, anéis e pulseiras quebê e coloco o meu sorriso de feliz dum sábado de tarde, com os amigos à espera e os especiais também e ataco a coxa do churrasco, pois que o fastio se esqueceu de mim lá no final da infância. Ataco de mão no osso como é bom comer e só assim sabe bem, sem a etiqueta de alguns cotas, rodando o pernil, crocanteando as batatas e pingando gindungo de quando em vez.
Sleppp!
Coisa deliciosa de boa, acompanhada de uma coca cola.
Manga para terminar, daquelas de muitos fios, sabor de resina e cheiro doce, não há que enganar, daquelas que de seguida exigem uma escovagem meticulosa dos dentes.
Desço o elevador, depois de ter dado um cuidado às pestanas, e lá vou eu encontrar os amigos junto à Bonzão, carregando o meu ar de Joplin escondido atrás de uns óculos com 10cm de diâmetro, degradê não vá o sol estragar a pestana… ehehehh.
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas
22 abril, 2013
Como diz MEC ”a vida sempre termina mal”.
Tento viver como se fosse a ultima vez, porque de facto, a vida mais dia menos dia termina mesmo mal, porque ela termina sempre mal. Esta é uma das verdades irrefutáveis. Neste intervalo de tempo em que a vivo, melhor ou pior, tento vive-la com sabor, tento apreciar cada minuto, cada gesto, cada situação, pois no minuto seguinte poderei não ter mais.
Isto não converte a minha vida em algo catastroficamente paranoico.
Não.
A vida converte-se em algo delicioso, porque pânico por tudo e por nada, porque me emociono , porque vivo o antes, o durante e o depois. Memorizo cada detalhe para recordar depois e assim tenho a sensação que vivo, não uma vez mas duas vezes. Se antecipo o que vou viver, vivo 3 vezes. Tento não adiar para amanhã, o que posso viver hoje, porque hoje tem o sabor de hoje e amanha poderá ter o saber indefinido ou indeterminado, ou a tender para o infinito ou simplesmente não ter sabor. Invisto na vida, não me limito a vive-la, tempero-a a meu gosto. Analiso-a, disseco-a, seleccino aquilo que de fato mais me interessa adiciono-lhe alguns pormenores que me estão próximos ou não, mas podem fazer a diferença, e delicio-me.
Por vezes são pormenores mínimos, naturais, vulgares, que se localizam perto de mim, outras vezes é necessário procura-los, descobri-los e inventá-los, por vezes são dissociados do que estou a viver, mas juntando-os dão cor à vivência, valorizando-a. Por analoogia é a diferença entre andar e dançar, entre falar e sussurrar, entre olhar e observar, alumiar e iluminar, entre tocar e sentir….
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas
Tento viver como se fosse a ultima vez, porque de facto, a vida mais dia menos dia termina mesmo mal, porque ela termina sempre mal. Esta é uma das verdades irrefutáveis. Neste intervalo de tempo em que a vivo, melhor ou pior, tento vive-la com sabor, tento apreciar cada minuto, cada gesto, cada situação, pois no minuto seguinte poderei não ter mais.
Isto não converte a minha vida em algo catastroficamente paranoico.
Não.
A vida converte-se em algo delicioso, porque pânico por tudo e por nada, porque me emociono , porque vivo o antes, o durante e o depois. Memorizo cada detalhe para recordar depois e assim tenho a sensação que vivo, não uma vez mas duas vezes. Se antecipo o que vou viver, vivo 3 vezes. Tento não adiar para amanhã, o que posso viver hoje, porque hoje tem o sabor de hoje e amanha poderá ter o saber indefinido ou indeterminado, ou a tender para o infinito ou simplesmente não ter sabor. Invisto na vida, não me limito a vive-la, tempero-a a meu gosto. Analiso-a, disseco-a, seleccino aquilo que de fato mais me interessa adiciono-lhe alguns pormenores que me estão próximos ou não, mas podem fazer a diferença, e delicio-me.
Por vezes são pormenores mínimos, naturais, vulgares, que se localizam perto de mim, outras vezes é necessário procura-los, descobri-los e inventá-los, por vezes são dissociados do que estou a viver, mas juntando-os dão cor à vivência, valorizando-a. Por analoogia é a diferença entre andar e dançar, entre falar e sussurrar, entre olhar e observar, alumiar e iluminar, entre tocar e sentir….
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas
19 abril, 2013
O tempo
“O relógio, da parede, do pulso, o digital do computador e do telemóvel… Não pára… com tic, tic, ou sem tic tac, o tempo acontece. Por vezes parece-nos ilógico, outras parece-nos hiperactivo, nessa ansia egocêntrica de deslocar os ponteiros sempre no mesmo sentido.
Faz-nos contar os dias e os anos, faz-nos olhar ao espelho repetidas vezes.
Pensem: porque nos olhamos ao espelho todos os dias?
Já sabemos que somos nós os reflectidos a uns centímetros de distância. Mas irreflectidamente olhamos, num gesto narcisista do olhar. Porque o fazemos todos os dias? nós insistimos… olhamos o espelho como se fosse a primeira vez, como se fossemos encontrar o George Cloony, ou o Indiana a convidar-nos para o pequeno almoço! Sabemos que nunca será assim, mas nós insistimos teimosamente. Depois tomamos consciência que afinal olhamos o espelho para ver o tempo que se concretiza em mais uma ruga, em mais um olhar ensonado e triste. Penso que o tempo nos espreita também, disfarçado de coisa nenhuma lá do outro lado do espelho, e deve achar-nos mentecaptos, por todas as manhãs e ao longo do dia, e da vida, debruçarmo-nos sobre o espelho, para ver sempre a mesma catástrofe.
Certos dias olho o espelho de viés, para não lhe dar grande confiança, e ele permanece lá impávido e sereno, fazendo-se de morto, mas eu sei que ele está atento.
Prefiro o tempo contado com a projeção do sol. Em vez de contar as rugas, centro a atenção nos erros de paralaxe, imaginando eixos que possam configurar novos horizontes e que me presenteiem com novas perspetivas da força da gravidade, que tanto amo e que tanto odeio. “
In “Ensaios de escrita, um projeto sempre adiado”. Anabela Quelhas
Faz-nos contar os dias e os anos, faz-nos olhar ao espelho repetidas vezes.
Pensem: porque nos olhamos ao espelho todos os dias?
Já sabemos que somos nós os reflectidos a uns centímetros de distância. Mas irreflectidamente olhamos, num gesto narcisista do olhar. Porque o fazemos todos os dias? nós insistimos… olhamos o espelho como se fosse a primeira vez, como se fossemos encontrar o George Cloony, ou o Indiana a convidar-nos para o pequeno almoço! Sabemos que nunca será assim, mas nós insistimos teimosamente. Depois tomamos consciência que afinal olhamos o espelho para ver o tempo que se concretiza em mais uma ruga, em mais um olhar ensonado e triste. Penso que o tempo nos espreita também, disfarçado de coisa nenhuma lá do outro lado do espelho, e deve achar-nos mentecaptos, por todas as manhãs e ao longo do dia, e da vida, debruçarmo-nos sobre o espelho, para ver sempre a mesma catástrofe.
Certos dias olho o espelho de viés, para não lhe dar grande confiança, e ele permanece lá impávido e sereno, fazendo-se de morto, mas eu sei que ele está atento.
Prefiro o tempo contado com a projeção do sol. Em vez de contar as rugas, centro a atenção nos erros de paralaxe, imaginando eixos que possam configurar novos horizontes e que me presenteiem com novas perspetivas da força da gravidade, que tanto amo e que tanto odeio. “
In “Ensaios de escrita, um projeto sempre adiado”. Anabela Quelhas
30 março, 2013
Viver só
Quando me confronto com os
espaços do sim, do não e do talvez, digo sempre que nasci ´sozinha e morrerei sozinha.
Eu e os outros também, obviamente. Ninguém fica fora desta certeza.
Entre um e outro momento, temo-nos mais ou menos preenchidos e tentamos
ser felizes – a realidade da vida..
Há uma frase que não sei quem escreveu mas muito acertada.
“A melhor maneira de ser feliz com alguém é aprender a ser feliz sozinho.
Daí a companhia ser uma questão de
escolha e não de necessidade. “
Ser-se sozinho ou ser-se solitário, onde começa um, onde termina o
outro? O que distingue estes dois estados: o só e o solitário? … e a
solitude????
Enquanto a solidão pode evidenciar dor, a solitude é um prazer. Entre
os dois o estar só ou ser só indicam situações distintas.
Quando estamos sós confrontamo-nos connosco mesmo, com os desejos com
os medos, com as frustrações e com os sucessos. Temos de nos ouvir, de dialogar
de nós para nós e por vezes temos medo desse confronto, pois ressuscitamos
fantasmas, mas é um medo que pode ser libertador.
Fernando Pessoa dizia:
"Se te é impossível viver só, nasceste escravo”.
“Melhor só que mal acompanhado” – diz o povo.
O que fazer? Nunca há situações perfeitas e quem diz que as
tem, mente!.
Solução: ter
criatividade para gerir o equilíbrio entre essas duas
necessidades.
Não é fácil!
In “Ensaios de escritas, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas
28 março, 2013
11 março, 2013
FRANCISCO MOITA FLORES
À minha amiga
Anabela
Com um beijinho
11.03.2013
Ass: Francisco Moita Flores
Este foi o autógrafo que Moita
Flores escreveu no livro que adquiri “A opereta dos vadios”, hoje após o
encontro realizado na Biblioteca Municipal de Vila Real, promovido pela Rede de
Bibliotecas de Vila Real, no âmbito da Semana da Leitura 2013. Este encontro
foi organizado pela Editora Leya e pela professora bibliotecária do Agrupamento
de Morgado Mateus, Maria Manuel Carvalhais em articulação com a Biblioteca Municipal
de Vila Real e restantes bibliotecas da RBVR (Rede de Bibliotecas de Vila Real),
com o objetivo de dar a conhecer aos alunos presentes os escritores portugueses
contemporâneos.
As apresentações foram realizadas
por Isabel Machado, representando a Biblioteca Municipal de Vila Real, José Maria
Magalhães, diretor do Agrupamento Diogo Cão e António Carvalho presidente da
CAP do Agrupamento Morgado de Mateus, tendo este último dissertado sobre o tema
da Semana da Leitura, “O Mar”, referindo algumas atividades a concretizar ao
longo desta semana para dar à leitura, o destaque que obrigatoriamente merece.
De seguida Moita Flores começou por
apresentar o seu percurso de vida, que ouvi atentamente, e deixei-me levar pelo
seu tom pausado e sóbrio com que expôs a sua biografia, até que despertei
pensando como era tudo tão interessante e como o seu discurso fluente e fácil era
profundo, sentido e cheio de conteúdo, com alguns apontamentos de humor subtil,
e comecei a tomar notas na minha pequena agenda, que partilharei aqui neste meu
modesto registo.
Falou do conflito entre o sonho de
atingir a imortalidade e a morte, sendo esta o que nós temos como certo, apesar
de desconhecermos o dia, o ano e a hora em que vai acontecer. Sublinhou a sua
ligação aos livros, como objeto físico, com cheiro, com textura, com forma e
volume, onde se pode sublinhar, anotar, dobrar, abrir, e que a internet apesar
de ser um ótimo meio de comunicação/informação, falta-lhe o corpo, o abraço, o
carinho, o sorriso e o beijo, que só existem na vida real. Evidenciou que quem
lê, está melhor preparado para a vida, tem mais sucesso… os que lêem mais são
melhores amantes! …e a propósito declamou….
João
Roiz de Castelo Branco (séc. XV)
Senhora, partem tão tristes
meus olhos, por vós, meu bem,
que nunca tão tristes viestes
outros nenhuns por ninguém.
Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
tão fora de esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
Declamou
Camões:
Estavas,
linda Inês, posta em sossego
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes ensinando e às ervinhas,
O nome que no peito escrito tinhas.
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes ensinando e às ervinhas,
O nome que no peito escrito tinhas.
Interrogou-se (nos): Como se pode ser bom amante sem ler “Amor de
perdição” e “Os Maias”?
Confessou a sua paixão pela Ferreirinha.
Explicou que a família e a escola são as almofadas de ¼ da vida. Os
outros 3/4 tem que ser vividos em autonomia. Expôs as suas dificuldades como
estudante trabalhador proveniente de uma família humilde e da sua grande
ambição de dar aulas na Sorbonne, sonho esse que se tornou realidade e que correu
o risco de resvalar perigosamente para a vaidade, travado logo nos primeiros cinco
minutos com um telefonema para o seu pai, onde este lhe lembrava que a sua
obrigação era trabalhar.
Evocou João de Deus, Camões, Florbela Espanca, Miguel Torga, Eça
de Queirós, Sophia de Mello Breyner, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade,
Shakespeare, Gil Vicente, Espinosa,
Pedro Nunes..
Finalmente deixou uma mensagem a todos os presentes. Referiu que
pela sua experiencia na secção de homicídios na PJ, viu e mexeu em centenas de
mortos, constatou como é ténue e rápido, o espaço que medeia entre o nosso
nascimento e a nossa morte, e assim refletindo sobre isso, decidiu nunca perder
tempo com coisas que não lhe interessam, investindo todo o tempo em fazer ou
procurar fazer aquilo que gosta.
Grata pela sua presença e pela partilha que tive o privilégio de
usufruir.
Anabela Quelhas
Etiquetas:
Literatura,
personalidades
28 fevereiro, 2013
A noite ainda não abriu...
Olho todo o céu que já nem sei se é céu ou abobada celeste exuberante, vestida em tons de fogo – cor de laranjéee, cor de mamão, cor de cajú, cor de pitanga, cor de goiaba, cor de acácia rubra e ainda cor de chama, de fogo, de fogueira. … A pele humedece, o céu desta cidade parece que me esmaga e a tudo que me envolve, encurtando distancias verticais, ficando cada vez mais terreno… quase se toca com a mão.
De repente só existe céu.
Não existe terra, não existe mar… existe céu, aquele céu grande forrado cada vez mais a cetim fogo.
As energias pesam sem se verem, parece que Ele estará para desarrumar o céu, num de repente sem plano nem organização e sem avisar ninguém, dirigindo todo processo no pleno da sua omnipotência.
Começa uma leve corrente de ar rasteira e depois outra e … bruscamente todos os móveis do Grande Arquitecto mudam de sitio ao mesmo tempo por alguém descuidado que os deixa cair da levitação celestial e a trovoada tropical começa com toda a pujança"…
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado”, Anabela Quelhas
23 fevereiro, 2013
22 fevereiro, 2013
13 fevereiro, 2013
Sofro de distância
“Sofrer de distância, é talvez das enfermidades que mais
padeço. Alguém me diagnosticou, mas não soube medicar, apesar da vasta experiência.
Aliás salvo erro inclui-se na mesma maleita incurável desde os tempos que são
tempos de distância. Falta o cheiro de terra vermelha, falta o olhar daquele céu,
falta a linha do horizonte a nos cegar, falta o cacimbo e os mangais, falta
ritmo de batuque para adormecer, falta a falta de tudo e mais a falta dos sábados
intermináveis de nada fazer e tudo abarcar. Ausências, distancias… qual milongo
pode curar tamanha sintomatologia? Te falei de reincarnação… reincarnação no mesmo
lugar da Lua é que eu quero, outras nem pensar. Quero brincar na areia, quero
corimbar, quero ver-te da minha janela estendida em malhas de crescer sem
parar. Quero repousar à sombra de jacarandás e sonhar que sou uma onça pintada,
que sou uma palanca negra, que sou uma formiga salélé…, sei lá, o que mais
sempre habitou nas imaginações que sofrem de distância.
Sofro de distância. Olho o olhar do outro lado do espelho e
vejo como sofro.”
In Ensaios de escrita
um projecto sempre adiado, Anabela
Quelhas
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