27 maio, 2013
22 maio, 2013
05 maio, 2013
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Neste fazer e desfazer de anos, de assuntos e preocupações, há algo que permanece: Tu, mãe.
Já te escrevi tantas
outras vezes!... mas onde estás? se é que estás, nem sei se é possível algumas
destas escritas chegarem aí, a sítio nenhum.
Fico nesta eterna dúvida, de um monólogo estéril, ou diálogo
comigo mesma e nesta incapacidade eterna de comunicar.
Lembro-te apenas neste dia como lembro de outros, e fica
sempre a nostalgia de já não existires, a frustração de não te ter mais.
Por acaso hoje vivo um dia tranquilo e sereno, esquecendo as
ansiedades, intervalando as preocupações, esquecendo os enganos, desformatando
os esquecimentos. Olho-me e vejo-me sentada a dormitar, sonhando sonhos
intemporais onde a presença e ausência valem exactamente o mesmo, porque o
espaço e o tempo oníricos, são parecidos mas não são a mesma coisa.
Sabes? ofereceram-me um pequeno ramo de urze perfumada e um
abraço que abracei disfarçando a comoção repentina. Senti-me teluricamente bem,
num mar de pedras junto ao céu.
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela
Quelhas
01 maio, 2013
30 abril, 2013
Cheguei do liceu
Cheguei do liceu.
A mesa está posta, tem churrasco do bar América, acompanhado com aquelas batatas fritas deliciosas, em cima da mesa me esperando. Já todos almoçaram, pois as aulas ao sábado terminam à mesma hora que de durante a semana. Não interessa se é sábado ou não, as aulas são sempre no mesmo horário, não adianta nem discutir, nem xingar, nem apresentar razões… é assim porque é e pronto!
Sorte a minha ter aulas de manhã.
As aulas terminaram e eu saí correndo, saltando as escadas duas a duas, em saltos ensaiados tanta vez, vestindo bata branca de emblema azul LGL e calções, correndo em direção do portão do liceu feminino, apressada e olhando o relógio. Nem olhei quem esperava quem, quem se atrasava a vir buscar, quem catrapiscava como… quem passava na três e meio fazendo banga, quem parava no descapotável…NADA! Xêêê sai correndo e apressando o passo até chegar na Combatentes, vários cruzamentos depois, vários bares de seguida, atravessando finalmente na passadeira do café Mónaco em direcção à loja Paris.
Luanda toda já se prepara para sair da mesa e atirar-se para a sesta no fresco de uma varanda, ou na direcção de uma ventoinha obediente, pretendendo jiboiar sem ninguém por perto para xingar. Luanda quer xonar a sesta tropical como a preguiça e a digestão exigem. Um sofá sabe bem, mas uma cadeira de tirinhas de plástico sabe bem melhor, arejada e fresca.
O churrasco me espera ainda morno devido aos cuidados da minha mãe, mas ainda vou tomar um duche rápido, para depois me apressar, pois os amigos esperam.
Combinação do dia anterior, ir no cinema Estúdio na primeira matiné da tarde ver Jean-Louis Trintignant - bilhetes já comprados para não haver surpresas em coisa combinada e recombinada por todos. O filme nem sei qual é. É um qualquer que seja, o que interessa é ir.
Está na moda esse Tritignant filmado em francês, o que para nós é uma cena nice, dando-nos uma certa intelectualidade na cabeça, dando-nos a ilusão que nos tornará adultos logo à saída da matiné. Entramos adolescentes de 14, mas saímos com mentalidade de 20 anos no mínimo.
O filme é para maiores de 18, mas nós achamos que aparentamos ter… já passamos noutros sítios, basta entrar sério e com ar de responsável,…. aliás na saída já teremos ultrapassado largamente essa idade de 18.
Sabemos que filmes franceses são mais invulgares e só por isso já gostamos, e já nos sentimos alguns degraus acima da estupidez da adolescência que não acaba nunca, para poder ir merengar toda a noite e passar fi ns de semana no Mussúlo, como os mais velhos fazem e contam.
O cinema Estúdio, cheira-nos a sala europeia. Pouco arejada, pequena, metida dentro do Restauração, sem jardins, sem ar livre, mas se tem na Europa deve ser bom aqui também, e nós vamos ver o Trintignant, o policial, o actor sério cheio de personalidade, que fala com os erres todos. Não é um borracho, mas não é mau de todo.
Me sento à mesa de cabelo molhado, vestida, perfumada e fresca. Lá finesse preta e camisa aos quadradinhos azuis bem cintada, sandália de pneu, anéis e pulseiras quebê e coloco o meu sorriso de feliz dum sábado de tarde, com os amigos à espera e os especiais também e ataco a coxa do churrasco, pois que o fastio se esqueceu de mim lá no final da infância. Ataco de mão no osso como é bom comer e só assim sabe bem, sem a etiqueta de alguns cotas, rodando o pernil, crocanteando as batatas e pingando gindungo de quando em vez.
Sleppp!
Coisa deliciosa de boa, acompanhada de uma coca cola.
Manga para terminar, daquelas de muitos fios, sabor de resina e cheiro doce, não há que enganar, daquelas que de seguida exigem uma escovagem meticulosa dos dentes.
Desço o elevador, depois de ter dado um cuidado às pestanas, e lá vou eu encontrar os amigos junto à Bonzão, carregando o meu ar de Joplin escondido atrás de uns óculos com 10cm de diâmetro, degradê não vá o sol estragar a pestana… ehehehh.
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas
22 abril, 2013
Como diz MEC ”a vida sempre termina mal”.
Tento viver como se fosse a ultima vez, porque de facto, a vida mais dia menos dia termina mesmo mal, porque ela termina sempre mal. Esta é uma das verdades irrefutáveis. Neste intervalo de tempo em que a vivo, melhor ou pior, tento vive-la com sabor, tento apreciar cada minuto, cada gesto, cada situação, pois no minuto seguinte poderei não ter mais.
Isto não converte a minha vida em algo catastroficamente paranoico.
Não.
A vida converte-se em algo delicioso, porque pânico por tudo e por nada, porque me emociono , porque vivo o antes, o durante e o depois. Memorizo cada detalhe para recordar depois e assim tenho a sensação que vivo, não uma vez mas duas vezes. Se antecipo o que vou viver, vivo 3 vezes. Tento não adiar para amanhã, o que posso viver hoje, porque hoje tem o sabor de hoje e amanha poderá ter o saber indefinido ou indeterminado, ou a tender para o infinito ou simplesmente não ter sabor. Invisto na vida, não me limito a vive-la, tempero-a a meu gosto. Analiso-a, disseco-a, seleccino aquilo que de fato mais me interessa adiciono-lhe alguns pormenores que me estão próximos ou não, mas podem fazer a diferença, e delicio-me.
Por vezes são pormenores mínimos, naturais, vulgares, que se localizam perto de mim, outras vezes é necessário procura-los, descobri-los e inventá-los, por vezes são dissociados do que estou a viver, mas juntando-os dão cor à vivência, valorizando-a. Por analoogia é a diferença entre andar e dançar, entre falar e sussurrar, entre olhar e observar, alumiar e iluminar, entre tocar e sentir….
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas
Tento viver como se fosse a ultima vez, porque de facto, a vida mais dia menos dia termina mesmo mal, porque ela termina sempre mal. Esta é uma das verdades irrefutáveis. Neste intervalo de tempo em que a vivo, melhor ou pior, tento vive-la com sabor, tento apreciar cada minuto, cada gesto, cada situação, pois no minuto seguinte poderei não ter mais.
Isto não converte a minha vida em algo catastroficamente paranoico.
Não.
A vida converte-se em algo delicioso, porque pânico por tudo e por nada, porque me emociono , porque vivo o antes, o durante e o depois. Memorizo cada detalhe para recordar depois e assim tenho a sensação que vivo, não uma vez mas duas vezes. Se antecipo o que vou viver, vivo 3 vezes. Tento não adiar para amanhã, o que posso viver hoje, porque hoje tem o sabor de hoje e amanha poderá ter o saber indefinido ou indeterminado, ou a tender para o infinito ou simplesmente não ter sabor. Invisto na vida, não me limito a vive-la, tempero-a a meu gosto. Analiso-a, disseco-a, seleccino aquilo que de fato mais me interessa adiciono-lhe alguns pormenores que me estão próximos ou não, mas podem fazer a diferença, e delicio-me.
Por vezes são pormenores mínimos, naturais, vulgares, que se localizam perto de mim, outras vezes é necessário procura-los, descobri-los e inventá-los, por vezes são dissociados do que estou a viver, mas juntando-os dão cor à vivência, valorizando-a. Por analoogia é a diferença entre andar e dançar, entre falar e sussurrar, entre olhar e observar, alumiar e iluminar, entre tocar e sentir….
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas
19 abril, 2013
O tempo
“O relógio, da parede, do pulso, o digital do computador e do telemóvel… Não pára… com tic, tic, ou sem tic tac, o tempo acontece. Por vezes parece-nos ilógico, outras parece-nos hiperactivo, nessa ansia egocêntrica de deslocar os ponteiros sempre no mesmo sentido.
Faz-nos contar os dias e os anos, faz-nos olhar ao espelho repetidas vezes.
Pensem: porque nos olhamos ao espelho todos os dias?
Já sabemos que somos nós os reflectidos a uns centímetros de distância. Mas irreflectidamente olhamos, num gesto narcisista do olhar. Porque o fazemos todos os dias? nós insistimos… olhamos o espelho como se fosse a primeira vez, como se fossemos encontrar o George Cloony, ou o Indiana a convidar-nos para o pequeno almoço! Sabemos que nunca será assim, mas nós insistimos teimosamente. Depois tomamos consciência que afinal olhamos o espelho para ver o tempo que se concretiza em mais uma ruga, em mais um olhar ensonado e triste. Penso que o tempo nos espreita também, disfarçado de coisa nenhuma lá do outro lado do espelho, e deve achar-nos mentecaptos, por todas as manhãs e ao longo do dia, e da vida, debruçarmo-nos sobre o espelho, para ver sempre a mesma catástrofe.
Certos dias olho o espelho de viés, para não lhe dar grande confiança, e ele permanece lá impávido e sereno, fazendo-se de morto, mas eu sei que ele está atento.
Prefiro o tempo contado com a projeção do sol. Em vez de contar as rugas, centro a atenção nos erros de paralaxe, imaginando eixos que possam configurar novos horizontes e que me presenteiem com novas perspetivas da força da gravidade, que tanto amo e que tanto odeio. “
In “Ensaios de escrita, um projeto sempre adiado”. Anabela Quelhas
Faz-nos contar os dias e os anos, faz-nos olhar ao espelho repetidas vezes.
Pensem: porque nos olhamos ao espelho todos os dias?
Já sabemos que somos nós os reflectidos a uns centímetros de distância. Mas irreflectidamente olhamos, num gesto narcisista do olhar. Porque o fazemos todos os dias? nós insistimos… olhamos o espelho como se fosse a primeira vez, como se fossemos encontrar o George Cloony, ou o Indiana a convidar-nos para o pequeno almoço! Sabemos que nunca será assim, mas nós insistimos teimosamente. Depois tomamos consciência que afinal olhamos o espelho para ver o tempo que se concretiza em mais uma ruga, em mais um olhar ensonado e triste. Penso que o tempo nos espreita também, disfarçado de coisa nenhuma lá do outro lado do espelho, e deve achar-nos mentecaptos, por todas as manhãs e ao longo do dia, e da vida, debruçarmo-nos sobre o espelho, para ver sempre a mesma catástrofe.
Certos dias olho o espelho de viés, para não lhe dar grande confiança, e ele permanece lá impávido e sereno, fazendo-se de morto, mas eu sei que ele está atento.
Prefiro o tempo contado com a projeção do sol. Em vez de contar as rugas, centro a atenção nos erros de paralaxe, imaginando eixos que possam configurar novos horizontes e que me presenteiem com novas perspetivas da força da gravidade, que tanto amo e que tanto odeio. “
In “Ensaios de escrita, um projeto sempre adiado”. Anabela Quelhas
30 março, 2013
Viver só
Quando me confronto com os
espaços do sim, do não e do talvez, digo sempre que nasci ´sozinha e morrerei sozinha.
Eu e os outros também, obviamente. Ninguém fica fora desta certeza.
Entre um e outro momento, temo-nos mais ou menos preenchidos e tentamos
ser felizes – a realidade da vida..
Há uma frase que não sei quem escreveu mas muito acertada.
“A melhor maneira de ser feliz com alguém é aprender a ser feliz sozinho.
Daí a companhia ser uma questão de
escolha e não de necessidade. “
Ser-se sozinho ou ser-se solitário, onde começa um, onde termina o
outro? O que distingue estes dois estados: o só e o solitário? … e a
solitude????
Enquanto a solidão pode evidenciar dor, a solitude é um prazer. Entre
os dois o estar só ou ser só indicam situações distintas.
Quando estamos sós confrontamo-nos connosco mesmo, com os desejos com
os medos, com as frustrações e com os sucessos. Temos de nos ouvir, de dialogar
de nós para nós e por vezes temos medo desse confronto, pois ressuscitamos
fantasmas, mas é um medo que pode ser libertador.
Fernando Pessoa dizia:
"Se te é impossível viver só, nasceste escravo”.
“Melhor só que mal acompanhado” – diz o povo.
O que fazer? Nunca há situações perfeitas e quem diz que as
tem, mente!.
Solução: ter
criatividade para gerir o equilíbrio entre essas duas
necessidades.
Não é fácil!
In “Ensaios de escritas, um projecto sempre adiado” Anabela Quelhas
28 março, 2013
11 março, 2013
FRANCISCO MOITA FLORES
À minha amiga
Anabela
Com um beijinho
11.03.2013
Ass: Francisco Moita Flores
Este foi o autógrafo que Moita
Flores escreveu no livro que adquiri “A opereta dos vadios”, hoje após o
encontro realizado na Biblioteca Municipal de Vila Real, promovido pela Rede de
Bibliotecas de Vila Real, no âmbito da Semana da Leitura 2013. Este encontro
foi organizado pela Editora Leya e pela professora bibliotecária do Agrupamento
de Morgado Mateus, Maria Manuel Carvalhais em articulação com a Biblioteca Municipal
de Vila Real e restantes bibliotecas da RBVR (Rede de Bibliotecas de Vila Real),
com o objetivo de dar a conhecer aos alunos presentes os escritores portugueses
contemporâneos.
As apresentações foram realizadas
por Isabel Machado, representando a Biblioteca Municipal de Vila Real, José Maria
Magalhães, diretor do Agrupamento Diogo Cão e António Carvalho presidente da
CAP do Agrupamento Morgado de Mateus, tendo este último dissertado sobre o tema
da Semana da Leitura, “O Mar”, referindo algumas atividades a concretizar ao
longo desta semana para dar à leitura, o destaque que obrigatoriamente merece.
De seguida Moita Flores começou por
apresentar o seu percurso de vida, que ouvi atentamente, e deixei-me levar pelo
seu tom pausado e sóbrio com que expôs a sua biografia, até que despertei
pensando como era tudo tão interessante e como o seu discurso fluente e fácil era
profundo, sentido e cheio de conteúdo, com alguns apontamentos de humor subtil,
e comecei a tomar notas na minha pequena agenda, que partilharei aqui neste meu
modesto registo.
Falou do conflito entre o sonho de
atingir a imortalidade e a morte, sendo esta o que nós temos como certo, apesar
de desconhecermos o dia, o ano e a hora em que vai acontecer. Sublinhou a sua
ligação aos livros, como objeto físico, com cheiro, com textura, com forma e
volume, onde se pode sublinhar, anotar, dobrar, abrir, e que a internet apesar
de ser um ótimo meio de comunicação/informação, falta-lhe o corpo, o abraço, o
carinho, o sorriso e o beijo, que só existem na vida real. Evidenciou que quem
lê, está melhor preparado para a vida, tem mais sucesso… os que lêem mais são
melhores amantes! …e a propósito declamou….
João
Roiz de Castelo Branco (séc. XV)
Senhora, partem tão tristes
meus olhos, por vós, meu bem,
que nunca tão tristes viestes
outros nenhuns por ninguém.
Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
tão fora de esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
Declamou
Camões:
Estavas,
linda Inês, posta em sossego
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes ensinando e às ervinhas,
O nome que no peito escrito tinhas.
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes ensinando e às ervinhas,
O nome que no peito escrito tinhas.
Interrogou-se (nos): Como se pode ser bom amante sem ler “Amor de
perdição” e “Os Maias”?
Confessou a sua paixão pela Ferreirinha.
Explicou que a família e a escola são as almofadas de ¼ da vida. Os
outros 3/4 tem que ser vividos em autonomia. Expôs as suas dificuldades como
estudante trabalhador proveniente de uma família humilde e da sua grande
ambição de dar aulas na Sorbonne, sonho esse que se tornou realidade e que correu
o risco de resvalar perigosamente para a vaidade, travado logo nos primeiros cinco
minutos com um telefonema para o seu pai, onde este lhe lembrava que a sua
obrigação era trabalhar.
Evocou João de Deus, Camões, Florbela Espanca, Miguel Torga, Eça
de Queirós, Sophia de Mello Breyner, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade,
Shakespeare, Gil Vicente, Espinosa,
Pedro Nunes..
Finalmente deixou uma mensagem a todos os presentes. Referiu que
pela sua experiencia na secção de homicídios na PJ, viu e mexeu em centenas de
mortos, constatou como é ténue e rápido, o espaço que medeia entre o nosso
nascimento e a nossa morte, e assim refletindo sobre isso, decidiu nunca perder
tempo com coisas que não lhe interessam, investindo todo o tempo em fazer ou
procurar fazer aquilo que gosta.
Grata pela sua presença e pela partilha que tive o privilégio de
usufruir.
Anabela Quelhas
Etiquetas:
Literatura,
personalidades
28 fevereiro, 2013
A noite ainda não abriu...
Olho todo o céu que já nem sei se é céu ou abobada celeste exuberante, vestida em tons de fogo – cor de laranjéee, cor de mamão, cor de cajú, cor de pitanga, cor de goiaba, cor de acácia rubra e ainda cor de chama, de fogo, de fogueira. … A pele humedece, o céu desta cidade parece que me esmaga e a tudo que me envolve, encurtando distancias verticais, ficando cada vez mais terreno… quase se toca com a mão.
De repente só existe céu.
Não existe terra, não existe mar… existe céu, aquele céu grande forrado cada vez mais a cetim fogo.
As energias pesam sem se verem, parece que Ele estará para desarrumar o céu, num de repente sem plano nem organização e sem avisar ninguém, dirigindo todo processo no pleno da sua omnipotência.
Começa uma leve corrente de ar rasteira e depois outra e … bruscamente todos os móveis do Grande Arquitecto mudam de sitio ao mesmo tempo por alguém descuidado que os deixa cair da levitação celestial e a trovoada tropical começa com toda a pujança"…
In “Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado”, Anabela Quelhas
23 fevereiro, 2013
22 fevereiro, 2013
13 fevereiro, 2013
Sofro de distância
“Sofrer de distância, é talvez das enfermidades que mais
padeço. Alguém me diagnosticou, mas não soube medicar, apesar da vasta experiência.
Aliás salvo erro inclui-se na mesma maleita incurável desde os tempos que são
tempos de distância. Falta o cheiro de terra vermelha, falta o olhar daquele céu,
falta a linha do horizonte a nos cegar, falta o cacimbo e os mangais, falta
ritmo de batuque para adormecer, falta a falta de tudo e mais a falta dos sábados
intermináveis de nada fazer e tudo abarcar. Ausências, distancias… qual milongo
pode curar tamanha sintomatologia? Te falei de reincarnação… reincarnação no mesmo
lugar da Lua é que eu quero, outras nem pensar. Quero brincar na areia, quero
corimbar, quero ver-te da minha janela estendida em malhas de crescer sem
parar. Quero repousar à sombra de jacarandás e sonhar que sou uma onça pintada,
que sou uma palanca negra, que sou uma formiga salélé…, sei lá, o que mais
sempre habitou nas imaginações que sofrem de distância.
Sofro de distância. Olho o olhar do outro lado do espelho e
vejo como sofro.”
In Ensaios de escrita
um projecto sempre adiado, Anabela
Quelhas
04 fevereiro, 2013
13 janeiro, 2013
Para nos posicionarmos mais uma vez
Mais uma vez iremos para a rua – 26 de Janeiro de 2013.
A opinião pública entende os professores como uma classe privilegiada,
e então em tempo de crise, aproveita-se para nivelar tudo por igual – temos que
ser funcionários públicos como os outros! Esta frase é capaz de gerar
unanimidade e consensos. E aqueles que não concordam, incluindo professores, acordam
os falsos problemas de consciência, impedindo-os de assumir que há muitas
particularidades na profissão de professor que os impede de entrar no mesmo saco.
Se bem se lembram as escolas começaram a aparecer nos
jornais desde o tempo da Maria de Lurdes. Isto é uma estratégia concebida há
muito para destruir a escola pública que foi progredindo passo a passo,
subtilmente - denegrir a imagem do professor, colocar pais contra os
professores, colocar os pais dentro da escola, mudar a gestão da escola, mudar
estatutos, etc. etc. Quando um governo pretende algo, primeiro tem de ter a opinião
pública do seu lado. Diga-se opinião pública ignorante e manipulável. Foi um
longo caminho, que continua em aberto.
Nos mass média, as excepções de professores incompetentes
transformam-se em regra, comportamento disruptivos de certos alunos, passam a
ser o perfil dos alunos, o insucesso ganha destaque e toma lugar ao sucesso.
Rankings, estatísticas, números enchem os écrans e esquecem-se das pessoas e dos
seus problemas.
Logo à cabeça e repetindo-me porque é algo que me causa
grande desconforto: O paradigma da escola a tempo inteiro é termos as crianças
e jovens na escola mais tempo que os trabalhadores estão nas fábricas, nas
empresas, nos escritórios. Encerrar uma criança numa escola durante 10 horas é
um crime. Façam as contas: das 8 às 18h.
Vamos lá mais uma vez desfazer a teia enrodilhada dos pré conceitos,
para nos posicionarmos perante a luta que não acaba nunca.
Quem quiser reforce a
lista.
A escola deve ser para todos? SIM
A escola deve essencialmente ensinar? SIM
A educação é função dos pais? SIM
Os pais passam pouco tempo com os filhos? SIM
Os alunos passam horas a mais na escola? SIM
A maioria dos professores são bons profissionais? SIM
A escola pode atenuar as desigualdades sociais? SIM
As práticas artísticas, cada vez têm menos valor nos currículos?
SIM
A escola deve estar direccionada para o sucesso escolar? SIM
Os alunos e o seu desenvolvimento beneficiam com as pausas
lectivas? SIM
Actualmente na escola, os professores têm funções de pais,
amigos, psicólogos, sociólogos e administrativas, afastando-os cada vez mais da
sua verdadeira missão que é ensinar? SIM
A escola deve combater a exclusão social? SIM
Há vantagens em turmas heterogéneas? SIM
Há vantagens em turmas homogéneas? SIM
É necessário cada vez mais reforçar a articulação vertical e
horizontal e a partilha do conhecimento? SIM
A docência é uma profissão de desgaste rápido? SIM
Existem professores com 11 turmas X 30 alunos= 330 alunos?
SIM
A escola pode e deve contrariar a desigualdade no acesso à
informação? SIM
A agressividade dos
alunos e mau comportamento atenua-se através da exploração dos domínios relacionados
com a arte? SIM
Existe inercia e algum complexo injustificado nos docentes
ao defender a sua classe profissional? SIM
A escola é um espaço essencial para a socialização? SIM.
Deixou de haver uma eleição directa e democrática dos órgãos
de gestão da escola? SIM
Turmas de 30 alunos e menos professores a leccionar são medidas
exclusivamente financeiras? SIM
Os governos têm que decidir se querem uma escola para todos
ou se querem sucesso escolar? SIM
É possível ministrar uma aprendizagem com qualidade em
turmas de 30 alunos? NÃO
É possível avaliar a acção de uma escola através da estatística?
NÃO
Actualmente a avaliação dos alunos traduz rigorosamente o
seu conhecimento? NÃO
A escola deve ser um armazém de alunos? NÃO
Os professores devem ser entertainers? NÃO
Os pais devem interferir na vida pedagógica da escola? NÃO
Um aluno que não reconhece o poder paternal, é um aluno que
obedece às regras da escola? NÃO
Os professores trabalham apenas 22h? NÃO
Os professores têm tempo para fazerem uma actualização de
conhecimento constante como a nossa sociedade exige? NÃO
É possível a um professor conhecer as capacidades e dificuldades
de mais de 150 alunos por ano? NÃO.
Os professores faltam quando querem? NÃO
Os professores têm mais dias de férias que os outros
trabalhadores? NÃO
A escola possui espaços e equipamentos suficientes para que
os docentes possam a exercer toda a sua actividade no espaço escola? NÃO
O Estado atribui alguma compensação financeira ao docente,
por este utilizar a sua casa como espaço de trabalho diário? NÃO
A maioria dos professores tem tempo para acompanhar os
progressos tecnológicos no acesso e utilização da informação? NÃO
A escola actual consegue dar resposta aos problemas da
sociedade? NÃO
O facto dos professores terem 22h de componente lectiva e
mais de 14h de componente não lectiva ocupada com inúmeras tarefas pedagógicas,
converte-os em privilegiados? NÃO
"A
maioria dos professores portugueses devia ser condecorada pela resistência,
pela capacidade de sobrevivência, pela Arte de constante renovação da
esperança. Às escolas de hoje, às públicas claro, exige-se tudo: - Que se
ensine, que se eduque, que se acompanhem alunos, que se giram diferenças, que
se encontrem estratégias para combater desinteresse, insucesso, consumos de
drogas, consumo de tabaco, sinais de esquizofrenia, problemas familiares,
práticas sexuais de risco, etc. Nas escolas de hoje há clubes de saúde, clubes
europeus, clubes de solidariedade, clubes de alimentação, clubes de ciência,
clubes de tudo aquilo que se possa imaginar porque, na escola de hoje, cabe
tudo! Só começa a não haver espaço para se ser professor." Opinião in "O Distrito de Portalegre" - Maria Luísa Moreira
Aconselho a leitura de:
(continua actualizado)
Anabela Quelhas (desrespeitando o acordo ortográfico)
11 janeiro, 2013
05 janeiro, 2013
Faz anos...talvez
Faz talvez ... anos
Ainda não se falava do tal de buraco de ozono, já ele fazia
das suas lá na banda.
Progenitor Quelhas, usando e abusando de cautelas não se
atrevia com ele, fazendo-nos a cabeça num oito, quando nós só queríamos mesmo,
muito bronze.
Gozávamos as delicias do mar na ilha, mesmo junto à
barracuda, agarrando o sol com a imaginação e ele ficava em casa.
Brincávamos dentro de duas brutais camaras de ar de camião
nas manhãs de domingo na Corimba, fazendo o sol rir, como só ele sabe, e ele
ficava na esplanada à sombra, lendo o jornal até ao limite das 11 horas.
Boiávamos nas águas paradas da baía, mais parecia mar morto,
fazendo o sol bocejar e ele desconhecia que estávamos lá.
Aventurávamos nas ondas das calemas da Restinga, fazendo
perigar até o sol e a ele nem lhe passava pela imaginação.
Lhe adivinhava, com
rosto fechado umas horas depois, quando o queimado do sol avermelhava sobre o
nariz, dando-nos aquele ar saudável que rapidamente dourava a nossa pele
tropical.
Um dia se aventurou a fazer picnic lá para as praias de
Belas, debaixo de um cajueiro se não me falha a minha memória de botânica
tropical, ou de um velho embonda, já nem sei.
Levou tenda!
Tenda com forma de prisma triangular, amarela e azul, que
nunca ninguém usava, para não perder nenhum dos raios eficaz na pintura solar
tropical.
Vestiu calções, e ficou debaixo da tenda aberta, lendo A
Provincia de Angola” e destilando suor, salteando água com Cuca e Cuca com água.
Nós, fazendo trinta por uma linha na água.
Agua morna, água tépida, daquela que nada arrepia ao mergulhar.
Água que nos acaricia e nos acolhe muitas horas e nos faz soltar gargalhadas como se fossem borboletas, até ao sol se por, em tons vibrantes de laranja, mesmo ao nosso lado.
Agua morna, água tépida, daquela que nada arrepia ao mergulhar.
Água que nos acaricia e nos acolhe muitas horas e nos faz soltar gargalhadas como se fossem borboletas, até ao sol se por, em tons vibrantes de laranja, mesmo ao nosso lado.
Sol da manhã, sol do meio dia, sol do entardecer, com musicalidades diferentes das ondas que
visitam a areia naquela cadencia fresca e ritmada… shuá….. shuáááá… shuá...
Ele distante e com calor dentro de uma tenda azul e amarela.
Vira pagina, vira dum lado, vira do outro, até páginas de precisa-se, aluga-se e vende-se ele leu.
Leu a necrologia.
Leu a LoLa.
Releu as noticias importantes. Mudou para o livro que andava a ler, romance de 8cm de altura que custava a segurar na mão.
Vira pagina, vira dum lado, vira do outro, até páginas de precisa-se, aluga-se e vende-se ele leu.
Leu a necrologia.
Leu a LoLa.
Releu as noticias importantes. Mudou para o livro que andava a ler, romance de 8cm de altura que custava a segurar na mão.
Nós, abraçando as pequenas vagas, e andando, andando quase
até ao Mussúlo, sempre com pé. De quando em vez, um gritava,
- atenção à alforreca!!! Umas vezes verdade, outra só para destabilizar. De costas de bruços, guerra d’água…. Dar palmadas na agua só para xingar.
- atenção à alforreca!!! Umas vezes verdade, outra só para destabilizar. De costas de bruços, guerra d’água…. Dar palmadas na agua só para xingar.
- Não te armes que
levas, depois vem-me pedir o Patinhas que levas com ele na tromba!!!!
- Pópilas, Xê minha,
não zanga não, que faz ruga ná tésta!!!
-Te atreve, então!!! Queres mais o que? A kianda te leva no
mar, e fico a rir!
Shaaaaapppp!
- Vais levar, mana atrevida, te pego e te dou um pirolito!
- Só quero ver, tens de comer muita ginguba!
Almoço de prato na mão, sentados na areia.
Alguém enterrou todas as ervilhas da salada de atum na areia
fina e branca, demonstrando por A+B o agrado pelo primeiro prato. (Lena quem
foi?!)
Passou o almoço, passou o lanche, nos vestimos para vir
embora e mais um mergulho mesmo com o vestido encharcado a agarrar ao corpo
para despedir e manter o sorriso aberto e feliz de diversos lábios. Uma ultima
corrida de pega pega à volta do ultimo coqueiro.
- Me vão molhar os estofos do carro e encher de areia! Não
chegou de brincadeira? Se portem bem, senão vos deixo cá!
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Um desconforto lhe chegou lentamente aos pés, até chegar à
noite, já em casa. Um ardor, uma quentura com a forma de meias vermelhas
desenhadas, enquanto lia o jornal com os pés de fora.
Moral da estória: O sol quando nasce é para todos. Mais
vermelho menos vermelho.
In Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado, Anabela Quelhas
31 dezembro, 2012
Rascunho de 2012
Acabei de guardar o rascunho do ano de 2012.
Praguejei, recordei especialmente algo que não me deu o sucesso esperado, esmaguei e deitei fora!
Só agora, claro!
Em matéria de calendário a vida é um permanente rascunho de letras imperfeitas, rodeado por uma esquadria de pontos de interrogação.
Passei ao desenho definitivo há poucos minutos e estou a iniciar o novo rascunho que se irá rasurando e redefinindo ao longo de 2013.
Estranha esta vida, onde nada é previsível, onde não existem certezas de nada. A única certeza que temos é que não temos a certeza de coisa nenhuma. Mesmo assim sonhamos. Tentamos construir cenários com alguma confiança de que se irão concretizar, feitos de convicções, mas a maior parte das vezes, aos poucos vamos desconstruindo tudo que imaginamos, peça a peça, reforçando a incerteza de tudo.
A maioria das certezas vão-se desvanecendo e as que restam, já não são bem certezas, são apenas sonhos vulneráveis e frágeis, imaginados em noites de insónia, depois de muito querer, depois de muito desejar. São sonhos que flutuam num espaço de ninguém. Não adianta protege-los, não adianta orientá-los, não adianta acrescentar-lhes vigor, porque certa ou incertamente, eles flutuarão apenas, grávidos de esperança, mas vazios de probabilidade de concretização, O rascunho da vida, iniciado em cada ciclo anual, evolui cada vez mais no formato de rascunho. A sabedoria nasce com a incerteza, e nos tentamos, mas tentamos sempre ser capazes de delinear o tal rascunho, tendo fé em algo que chamamos sorte.
Na transição para um novo ciclo da vida, confiamos na sorte e desejamos isto e aquilo, fazemos até rituais, para que tudo tenha a progressão desejada.
(In Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado – A. Quelhas)
Praguejei, recordei especialmente algo que não me deu o sucesso esperado, esmaguei e deitei fora!
Só agora, claro!
Em matéria de calendário a vida é um permanente rascunho de letras imperfeitas, rodeado por uma esquadria de pontos de interrogação.
Passei ao desenho definitivo há poucos minutos e estou a iniciar o novo rascunho que se irá rasurando e redefinindo ao longo de 2013.
Estranha esta vida, onde nada é previsível, onde não existem certezas de nada. A única certeza que temos é que não temos a certeza de coisa nenhuma. Mesmo assim sonhamos. Tentamos construir cenários com alguma confiança de que se irão concretizar, feitos de convicções, mas a maior parte das vezes, aos poucos vamos desconstruindo tudo que imaginamos, peça a peça, reforçando a incerteza de tudo.
A maioria das certezas vão-se desvanecendo e as que restam, já não são bem certezas, são apenas sonhos vulneráveis e frágeis, imaginados em noites de insónia, depois de muito querer, depois de muito desejar. São sonhos que flutuam num espaço de ninguém. Não adianta protege-los, não adianta orientá-los, não adianta acrescentar-lhes vigor, porque certa ou incertamente, eles flutuarão apenas, grávidos de esperança, mas vazios de probabilidade de concretização, O rascunho da vida, iniciado em cada ciclo anual, evolui cada vez mais no formato de rascunho. A sabedoria nasce com a incerteza, e nos tentamos, mas tentamos sempre ser capazes de delinear o tal rascunho, tendo fé em algo que chamamos sorte.
Na transição para um novo ciclo da vida, confiamos na sorte e desejamos isto e aquilo, fazemos até rituais, para que tudo tenha a progressão desejada.
(In Ensaios de escrita, um projecto sempre adiado – A. Quelhas)
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