












TARTARUGA EM CIMA DUM POSTE
Enquanto suturava uma ferida na mão de um velho lavrador, o médico e o doente começaram a conversar sobre a recente manifestação de professores e o descontentamento da classe, relativamente às políticas educativas do Governo.
Então o velhinho disse:
- Bom, o senhor sabe... Essa tal ministra, é uma tartaruga em cima dum poste...
Sem saber o que o camponês queria dizer, o médico perguntou o que era uma tartaruga num poste.
O camponês explicou:
- É quando o senhor vai por uma estradinha e vê um poste de vedação, em arame farpado, com uma tartaruga equilibrando-se em cima dele. Isto é, uma tartaruga em cima dum poste...
O velho camponês olhou para a cara de espanto do médico e, vendo que ele ainda não tinha compreendido, continuou com a explicação:
- Você não entende como ela chegou lá;
você não acredita que ela esteja lá;
você sabe que ela não subiu para lá sozinha; você sabe que ela não deveria nem poderia estar lá; você sabe que ela não vai conseguir fazer absolutamente nada enquanto estiver lá;
então tudo o que temos a fazer é ajudá-la a descer de lá!
TEXTO DE JOSÉ MATIAS ALVES ( ex elemento da CCAP )Quinta-feira, Outubro 30, 20088 de Novembro Sempre pensei e escrevi e disse que este modelo de avaliação de desempenho era impossível. Sempre pensei e escrevi e disse que era desejável que este ano lectivo se seguisse a recomendação nº 2 do CCAP. Porque permitia às escolas e aos professores organizarem-se numa outra lógica de acção: mais sensata, mais económica, mais holística. Com, provavelmente, menos danos colaterais. Com menos falsificações. Com menos faz-de-conta. Não que se resolvesse o problema de fundo. Mas, a meu ver, atenuava-se e poderia permitir ambientes mais respiráveis até uma revisão obrigatória para o 2º ciclo avaliativo. Que vai ser inevitável.
Agora, um número indeterminado de escolas e de docentes vivem na asfixia. Na maldição do tempo. Na invenção de realidades. Na fuga. Na revolta mais ou menos latente. A raiar o esgotamento e a desmotivação. Não serão todas. Mas serão, provavelmente, a maioria.
E isto causa dilacerantes problemas éticos. Ameaças identitárias cujos impactos no ser e estar na profissão são muito difíceis de prever. Ninguém está a ganhar nestes ambientes. Todos estão a perder. Os alunos, as famílias, os professores, as escolas. Em última análise, o próprio Ministério. Obviamente.
Salvam-se apenas aquelas (suponho que poucas) escolas que tiveram a inteligência (e alguma ousadia) de colocar os alunos primeiro. De centrarem a acção e o tempo dos professores na tarefa de ensinar e de avaliar o resultado da sua acção profissional. De criarem dispositivos de securização.
Como professor que procura ler e compreender o que (não) se passa, não posso deixar de compreender as razões e os sentimentos que vão levar os professores e educadores a Lisboa no dia 8 de Novembro (no que à avaliação de desempenho diz respeito). E de desejar que um compromisso seja possível em nome do mais importante: as pessoas e as suas aprendizagens.




