12 janeiro, 2007
11 janeiro, 2007
Ainda Távora (fim, por agora)
Quando há dias, deu entrada no meu estirador um excerto do seu diário, que figura numa pequena publicação sobre o Prémio de Arquitectura Fernando Távora 2006, editada pela Ordem dos Arquitectos, realizei uma nostálgica viagem ao passado.
Não conheço Taliesin, mas vi Taliesin e a obra de Wright, com os olhos e o coração de Fernando Távora.
Sobre Frank Lloyd Wright (1867/1959) - o arquitecto americano que mais infuênciou a arquitectura moderna. Autor da habitação talvez mais espectacular de sempre: a casa da cascata, conhecida em todo mundo, e apesar de já ter mais de meio século continua a ser uma referência.
A arquitectura de Mr. Wright, denomina-se organicista, visto que este a entendia como um organismo que dava resposta, às necessidades das pessoas e do sítio onde se implantava. A solução arquitectónica em vez de se destacar da paisagem é um pouco o prolongamento da mesma, preocupando-se tanto com o exteriorcomo com o interior. Para Lloyd Wright a casa devia estar organicamente embebida na natureza, aberta à paisagem, estabelecendo sempre uma rigorosa conexão com o espaço envolvente.
Apesar de Frank Lloyd Wright ter desaparecido há mais de 50 anos, as suas obras mantêm-se e são visitadas por milhares de pessoas de todo o mundo.
Uma das suas casas em Taliesin, que funcionava de casa de Inverno, tinha um grande atelier onde acolhia diversos aprendizes de arquitectura, e possuía inclusivamente um teatro (foto publicada em 7/01/07), pois acreditava que a musica fazia parte da educação e todos os seus alunos tocavam um instrumento.
http://luciana.misura.org/category/frank-lloyd-wright/

Museu Gugennheim em Nova Iorque
Duas das obras emblemáticas de Frank Lloyd Wright
Casa da Cascata

09 janeiro, 2007
Ainda Távora
Fernando Távora foi um daqueles professores que não se esquecem nunca.
Bom conversador, detinha um sentido de humor notável, homem de grande cultura, arquitecto de referência na arquitectura Portuguesa e pedagogo inigualável.
“ Desde estudante e durante toda a sua vida, Fernando Távora viajou incessantemente para estudar in loco a arquitectura de todas as épocas em todos os continentes, utilizando-a, desde 1958 até 2000, como conteúdo e método da sua actividade pedagógica. As suas aulas e a sua prática projectual consolidaram, em sucessivas gerações, em Portugal e no estrangeiro, a ideia de que o conhecimento da história e da cultura são indispensáveis para a produção da arquitectura contemporânea.”
Tive o privilégio em o ouvir diversas vezes… a abrir caminhos para os nossos projectos, a criticá-los, a comentar a ementa dos almoços, à hora do café e também a contar as suas viagens, uma delas a Taliesin.
Cada estória, era uma lição de arquitectura, contada na 1ª pessoa, sintetizando no entanto, as diversas influências, englobando o contraponto entre racionalismo e organicismo.
Visitei com ele, Caminha e a Serra do Soajo em Junho de 77, e passei a gostar de história; senti que nunca poderia ser arquitecta, divorciada dessa disciplina, que eu tinha abandonado lá no secundário, vitimada pelos três volumes Matoso ou Espinosa, que todos nós padecemos no antigo 5º ano do liceu.
Uma outra vez, teve a paciência de nos acompanhar a Tomar, Batalha e Alcobaça. Inesquecível, mestre Távora a recitar Camões em contraluz, no interior do mosteiro de Alcobaça, ao lado de Pedro e Inês.
Guardo com grande carinho esta foto, tirada perto de Caminha, eu do seu lado esquerdo, ouvindo-o atentamente, contornando o exterior de um convento abandonado. (cont)
Da esquerda para a direita: Sérgio Fernandes, Tatão, Fernando Távora e Anabela Quelhas.
Diario (parte final)
E onde acaba a arquitectura e começa o paisagismo ou o urbanismo?

Fernando Távora, Prof
07 janeiro, 2007
Diário (cont3)
Diário (cont2)
Espreitei o teatro; um biombo japonez, o balcão de Wright, o palco… tudo parado… nem vivalma… mas os espaços falavam com um impacto extraordinário. Contornei o teatro e encontrei um terraço debruçado sobre a pequena colina. 06 janeiro, 2007
Diário (cont)
BORTHWICK
CHENEY
1869
o e metemos a um desvio; por todos os lados letreiros diziam 05 janeiro, 2007
Durante uns dias vou vadiar por este diário
FERNANDO TÁVORA
"Diário da Viagem aos USA"

04 janeiro, 2007
COSMOS DIPANDA FOREVER
02 janeiro, 2007
Consultei os astros e isto parece que sou eu!

Idade: 48 anos, 8 meses e 20 dias.
Signo: Peixes
Planeta regente :Neptuno
Elemento :Agua
Número de Ambição : 5
Número de Personalidade : 3
Número de Expressão: 8
Número de Destino: 4
Segundo seu dia de nascimento.....Você é versátil de natureza dupla e de inteligência, ao mesmo tempo, lógica e imaginativa. Você pode construir ou destruir, tão poderosa é a forca do número de seu pensamento. Você está sempre com um pé na terra e o outro no céu, tendo, condições de harmonizar as coisas práticas e espirituais. Gosta do que é novo e original, da mudança e da variedade. Isso poderá te levar a um excesso de experiências em vários campos, o que não será bom, pois, para vencer, precisará de estabilidade na profissão.
A sua ambição é .... Amar a liberdade, a mudança e a variedade, ter pensamentos progressistas. Ter possibilidades de criação.
Você é...Criativa, feliz, otimista e despreocupada.
Segundo seu número de Expressão.... Utilizando seu olho clínico para perceber o valor real das coisas. Deverá ser capaz de actuar de forma autoritária, perspicaz e preparada para trabalhar duro até atingir seus objetivos.
Segundo seu número de Destino ... Ser alguém prático e organizado. Seu destino te colocará sempre numa roda viva. Mesmo que tudo indique riqueza, esta somente será conseguida através de muito trabalho que exigirá atenção constante Mais do que isso: haverá ocasiões em sua vida em que você precisará fazer uma grande economia e assumir trabalhos e deveres, muitas vezes devido a sua própria saúde. Contudo não dê as costas aos demais, pois sua contribuição aos outros será essencial. Seu destino representa um alicerce e você deve ser paciente, pois sabe quanto trabalho é necessário para torná-lo resistente. As coisas chegam devagar para você. Seja uma pessoa responsável, eficiente e disposta a trabalhar muito, deste modo alcançará o sucesso. Não desanime ante os deveres e obrigações, já que você estará preparando o futuro.
01 janeiro, 2007

Canto de Iemanjá
Vinicius de Moraes
Composição: Vinicius de Moraes / Baden Powell
Iemanjá, lemanjá
lemanjá é dona Janaína que vem
Iemanjá, Iemanjá
lemanjá é muita tristeza que vem
Vem do luar no céu
Vem do luar
No mar coberto de flor, meu bem
De Iemanjá
De lemanjá a cantar o amor
E a se mirar
Na lua triste no céu, meu bem
Triste no mar
Se você quiser amar
Se você quiser amor
Vem comigo a Salvador
Para ouvir lemanjá
A cantar, na maré que vai
E na maré que vem
Do fim, mais do fim, do mar
Bem mais além
Bem mais além
Do que o fim do mar
Bem mais além
31 dezembro, 2006
Como correu o Natal? (cont)

…para o meu amigo Poliedro (fumador militante) eu poderia comprar”O pequeno livro para deixar de fumar”, para o Orlando Blume (vanguardista) seria “António Variações – entre Braga e Nova Iorque”; para o Vítor (namorado da minha filha), nada melhor que “Dê cabo da sua vida amorosa”, para o meu amigo Jota (que necessita de um bom modelo literário que o inspire na contagem regressiva à beira do Zulmarinho) seria, “Vou contar-te um segredo” da escritora de tão grande sucesso, Margarida Rebelo Pinto,… (ok, prontos… dou a mão à palmatória!!!! Embirro com ela!), para um compincha que vive lá na Normandia, um “prontuário da língua portuguesa” veria mesmo a calhar, para a prima Edite (que anda sempre com a carta astrológica e a desbaralhar-me com bolas de cristal, conchas, caranguejos, escorpiões, e outros que tais, que vivem à beira da agua, mas que são fogo…eu sei lá) iria levar com “O Livro das Respostas”, para o meu neto (que tem a mania q é super herói), “Capitão cuecas”, para o Naondinho (economista), “Freakonomics- o estranho mundo da economia”… e por aí fora!!!!
Se pensam que estou pra aqui a reinar, desenganem-se! Eu não inventei nada, edição numero 46 “os meus livros”….
Mas aí, pensei, pensei, repensei… afinal um livro é um amontoado de letras, algo impessoal, que se perde em qualquer estante, correndo o risco de não combinar com o tapete tipo persa… e bem espremido o que dá? Montes de pó e cotão, que dá um trabalhão a limpar! Depois são quase todos, uma seca, só letras… sem bonecos…ainda por cima letra miúda, daquela que para ler depois dos 40, só de braço estikado!!! … e pesam! se pesam antes de adormecer! acordando o leitor sempre que se esparrama no chão, quebrando a magia do iniciar dos sonhos. Por outro lado, toda esta gente está bem na vida, não têm nenhum móvel de perna bamba a necessitar de num calço literário, daí a completa inutilidade de um livro.
Olhem, revi a minha ideia, não seria uma boa prenda e decidi-me mesmo pelo Chaolin, com presentes personalizados, e com a qualidade do oriente. A estrela também não surgiu do oriente? Então!!!! Tem tudo a ver!
Sei lá… peúgas para o tio Zé, os três pastorinhos para a sogra, uma boina para a sogro, a oitava gravata para o tio Joaquim (que as estima de tal forma que nem as usa para não estragar), um suporte para telemóvel com forma de sapato de senhora, para a Miquelina, um pisa papeis, para o sobrinho António e lenços de assoar, com monograma bordado, para aqueles que já me ia faltando a imaginação.
Regressando ao repasto, pois foi uma mesa farta!
A acompanhar e a estabelecer a diferença deste natal, todos tiveram o prazer em ouvir ao longo das refeições “A noite feliz”, versão barriga de pai natal, que eu pendurei no lustre, central, e que ao mesmo tempo que emitia aquela sonoridade celestial, abanicava os braços e a cabeça – uma ternura!
Tirei fotos a todos, o mesmo cenário do ano anterior, com o barrete de pai natal na cabeça, face bem rosada e aquele sorriso de quem esta a pedir uma água das pedras com urgência. Aos menos fotogénicos, sugeri-lhes a pronúncia de “bananaaaaa” para melhorar a sua estrutura facial, e apresentarem uma xipala que não assuste a objectiva da câmara.
Os meus presentes?
Os que recebi?
Bem, voltei a receber um saleiro e um pimenteiro, um pijama, o tal livro do Dan Brown, os Ferrero Rocher (dos mais imaginativos), as luvas (já tenho seis pares e que me fazem imensas frieiras)….

Apresento o meu protesto!, ainda não foi desta q recebi ouro! Acho que tenho que divulgar melhor a estória dos três reis magros.
Entre frituras, açúcar e a canela mais conhecida por mirra, iam-me chegando sms dos mais variados sítios.
Agradeço a todos o carinho. Todo o mundo saudando a minha família em simultâneo, nem sei bem porquê, desconhecendo eu, que afinal todos se conheciam. Como o mundo é pequeno!
Simmmm, correu bem, parecia mais um exercício de restauração numa cantina de estudantes, do que refeições familiares caseiramente servidas por je. De bata caveada, socas nos pés e soquetes, foi assim que apurei os paladares gastronómicos.
Não acreditam? A esta hora, nem eu! São 23 horas e 45 minutos do dia 31 de Dezembro dde 2007 da era do Senhor (como o Senhor tá kota!!!).

Mas que ganza! Vou mazé para o reveillon e conversar com Iemanjá.
BOM ANO PARA TODOS E EU NA VOSSA COMPANHIA.
30 dezembro, 2006
Como correu o Natal? (cont)
Aproveitei o cima do aparador, para colocar o presépio, enquadrado entre as rabanadas, filhoses, sonhos e tudo aquilo que põe o colesterol saciado, o que foi enriquecer a perspectiva da manjedoura e das palhas do menino, num bom gosto, que se requinta ano após ano. Engraçado que nem o menino Jesus cresce, nem a Nossa Senhora envelhece, nem o S. José adoece das cruzes, nem a consoada muda de dia. Tudo sempre igual, naquela monotonia recheada de azevinho e muito pinheiro de natal!
Sobre o ouro…que eu me lembre nunca ninguém me ofereceu ouro pelo Natal, o que está mal!!!! afinal deviam, isso é que é presente de reis?… incenso e mirra, desconheço! Nem sei se é vegetal, animal ou mineral.
… será que era aquela jarreta que a tia Hemengarda me ofereceu há dois anos, e que eu coloquei no sitio mais perigoso e desiquilibrante da casa, cai não cai, teria incenso? Não reparei quando atirei com os cacos no lixo. Ou terá sido aquele perfume “já cheguei, estou aqui” que eu rapidamente reofereci, à prima Ofélia que tem a sorte de ter perdido o olfacto? nã!!!! os livros do Dan Brown, que a cunhada acha que eu leio em repetição, tipo rodísio, varias vezes ao ano…esses regressam à livraria para outros incautos compradores, normalmente só leio um livro, uma única vez…desconheço por falta de apresentação desses presentes da tal mirra etc e tal! Quando muito um licorzito dentro dum baci!
Ahhh estou a ver, a mirra é aquela cena de polvilhar as filhoses!!! Será que substitui o pó de talco e o halibut? (acho que continua)
Como correu o Natal?
BEMMMMM!!!!!! Correu bem! Tudo naquela medianazinha a que já me habituei!!!! Sem surpresas de maior, sempre aquela monotonia dos zero graus centígrados, ou mais ou menos por aí.
O Natal é aquele acontecimento que se repete todos os anos - a maior concentração de família por metro quadrado.
Verdade!
Ora a sala de jantar, tem aproximadamente 20m2, deduzindo a esta área, o aparador Queen Anne, as duas mesas adquiridas em Paços de Ferreira, extensíveis com 2,20 X 0,90m, o louceiro dos Limoges, a cristaleira para ostentar os cristais d’ Arques, e os dois dálmatas imobilizados para sempre junto à porta da entrada… fazendo as contas por alto… as andorinhas da parede não contam, o lustre da feira de paris, pago a peso de ouro na caixa de pandora, também não, a ceia de Cristo, idem, o menino a verter a lágrima, aussi… portanto resta aproximadamente e com números redondos… 1,98X2+ 0,6X1,50X3….= 3,96+2,70= 6,66 (que número!!!!)… logo 20-6,66=13,34.
Vá 13m2
13m2 a dividir pela família, com características flutuantes, mas que se aproxima sempre dos 22, temos sensivelmente 0,5m2 por individuo! Desprezando as diferenças…. Sim já sabemos que o tio Zé Maria, calça 47 e que a bunda da prima Esperança ronda os 56 do pronto a vestir… mas também os putos estando quietinhos, ocupam menos espaço. Ora na China é muito pior, e não é por isso que eles deixam de ser amarelinhos e ter olhos em bico!
A(s) mesa(s) foi decorada a preceito! Alinhada como convém no eixo da ceia de Cristo, colocada no extremo da sala, toalha vermelha, centro de mesa dourado, pratos vermelhos, colocados naquela geometria original, um seguir ao outro, copos em frente, faca de um lado, garfo do outro e guardanapo na esquerda como exige a Bobone, mas de papel, pois eu não tenho pastel para depois andar a fazer limpezas de babas de canela e vinho tinto, em 66 guardanapos. Sim porque o Natal, em casa minha, rende ao pessoal no mínimo 3 refeições à borliu. …muita vela, muito pastel de bacalhau, muita batata doce, para elevar o astral até ao hemisfério sul, muito anjo barroco, muita bola de vidro, suspensa entre os reposteiros adamascados que limitam as janelas de alumínio, com muita estrela colada nos vidros, estrelas polares e outras que tais, de cinco pontas, sempre.
20 dezembro, 2006
Noite de Natal

Atravessei a rua, naquele passo que não tem pressa de chegar, mas num ritmo acelerado de fuga ao frio, e de engano ao nevoeiro, que teimava atravessar-nos de uma ponta à outra.
A respiração se transformava rapidamente em nuvem de vapor, que eu aproveitava para fazer efeitos visuais, que saíam por entre o cachecol e me distraiam o olhar, das vitrines cheias de agasalhos, e das ruas decoradas e brilhantemente em festa.
Atravessei mais uma rua e entrei pelo mercado da praça de Lisboa… olhei o início da noite a desertificar o espaço urbano sob aquela nuvem amarela que paira sobre a baixa, e ia-me perdendo num jogo de andar e colocar as passadas, exactamente em sítios determinados, numa geometria de pauta musical, que me habituei a construir no espaço multidimensional, que é a mente.
Os eléctricos já passavam quase vazios, com o trinca a consultar o relógio e ansiando pela ceia melhorada.
E eu caminhava… ia partindo o frio, com essa caminhada lúdica e embalada por esta cidade de cor de prata, contornando a faculdade de ciências, com intenção de me dirigir para Carlos Alberto… escutando a noite de Inverno a valer, voltando-me, para admirar mais uma vez, a lua cheia por trás dos Clérigos, alegremente imaginando o calor da lareira e os odores que já estariam a ser fabricados com a canela, e que certamente, já me esperavam àquela hora, sob a forma de ceia de Natal.
No vão de uma porta, encostado ao granito da ombreira, permanecia imóvel um corpo em volume, com jornais como tapetes, que eu olhei, inesperadamente, em diagonal, naquele meu jogo pedestre.
Parei, fiquei imóvel também!
Senti a aorta a latejar, conseguindo facilmente calcular as pulsações sem qualquer aritmética ou máquina de calcular.
Identifiquei aquele velho casaco, gasto e mesclado a cinza.
Não sei rezar, mas naquele momento rezei com convicção.
Rezei para que, por baixo do chapéu, eu não conseguisse avistar uma barba, com longos fios de cabelo alvos, alvos como a neve.
O meu coração de repente se recusou a bater com as imagens que lhe chegavam do olhar.
Os fios alvos como a neve, despontavam por entre o casaco sujo, nos intervalos dos botões e por debaixo do chapéu. Não havia dúvidas, pois eles eram únicos.
Os cabelos, que eu tanta vez contornei e penteei sobre os meus papéis, desenhando-os a várias cores, por serem alvos. Os cabelos, que tanta beleza davam a um corpo alquebrado de ancião... estavam ali, permaneciam ali, abandonados num corpo enfrentando uma noite sem fim à vista.
Quantos lápis se perderam naquele cabelo? Quantos esfumados se diluíram entre as suas mãos angulosas, com unhas bem desenhadas? Quantas aguarelas se misturaram no olhar doce daquele rosto? Quanto carvão contou as suas rugas, que se iam adicionando com a idade, até se tornarem septuagenárias… octogenárias talvez?
Ele foi Zeus, ele foi Júpiter, ele foi Neptuno, ele foi Moisés, ele foi João de Deus, ele foi Marx, ele foi Engels, ele foi Eiffel, ele foi Antero de Quental, ele foi Guerra Junqueiro… ele foi José, ele foi tudo, o que nós queríamos que ele fosse.
Posicionava-se como cada um queria: nu, vestido, de verão ou de inverno, sentado, de pé, contorcendo-se… ora facilitando o esquisso, ora valorizando a torção do tronco, ora distinguindo a luz sobre um músculo, ora disfarçando a imperfeição dos nossos traços através do melhor ângulo da anatomia de seu corpo...
Conheceu mestres e aprendizes, e estes, quando se tornaram mestres, também, num rodopiar de anos e décadas, alternando com diversas gerações numa escola de artistas.
Ele era o modelo anatómico perfeito.
Era o nosso homem vitruviano, inscrito simultaneamente, num circulo e num quadrado! Com o seu crâneo estampado antropométricamente no nosso lápis, aprendíamos a proporcionar os traços, repetindo-o mais sete vezes, tal como um módulo, até chegar aos pés… um esquemazinho de linhas paralelas, essencial para orientar e estruturar toda a construção de um corpo ainda sem alma, com centro no umbigo, harmonizando e redescobrindo as razões de ouro.
Foi esboço, ele foi esquisso, foi retrato, foi escultura, foi tela, foi cenário, foi emoldurado, foi inaugurado, sempre com alma de alguém importante… ao sabor do naturalismo ou deformado e decompostamente cubista.
Ele foi Apolo, foi Adónis… e foi mudando de identidade conforma os anos se lhe iam entranhando na pele e embaciando a vivacidade do olhar.
Horas e horas á nossa frente, destilando dias, sem horário, em troca da refeição e de um mísero salário, que minguava, conforme envelhecia, inversamente proporcional às muitas horas que já não conseguia posar em pé.
Silencioso.
Discreto.
Como se exige a uma estátua!
Por vezes esquecido.
Frequentemente substituído, curiosamente por ele mesmo, ou do que ele sobrava numa folha de papel, abandonada anos e anos, numa pasta amarrada por uma fita azul.
Nessa noite, soube que era sozinho e que tinha doado o seu corpo à Ciência.
Chamei por ele!
_ Senhor António???!!!...
19 dezembro, 2006
18 dezembro, 2006
17 dezembro, 2006
16 dezembro, 2006
Lindíssima

Que espanto de fotografia! Apeteceu-me mudar o fundo do blog, para negro, só para publicar esta foto.
Lindíssima!
Não sei quem a fez, a única referência é, "AP".
A moldagem do ferro ao fogo, numa concentração realçada no martelo e no local onde ele bate, sobre a bigorna.
Uma profissão dura, a de ferreiro!
15 dezembro, 2006
Infância
14 dezembro, 2006
A Foto da Sra Professora
13 dezembro, 2006
Senhora Professora
12 dezembro, 2006
SALVADOR ALLENDE

Viajava de comboio, ainda não havia comboios alfa, a CP apenas dispunha de foguetes e rápidos. Era uma tarde quente de final de verão, e eu fazia a viagem Porto - Lisboa, de regresso a Luanda; permanecia em pé, no corredor junto à janela, a apanhar as lufadas de ar fresco, no meu rosto de adolescente.
Apercebi-me que o comboio desacelerou, entrou numa marcha cada vez mais lenta, até que se imobilizou.
Alguém que se deslocava rapidamente se cruzou comigo, e passou-me para a mão um panfleto, apelando para eu fazer um minuto de silêncio.
Surpreendida, seguindo com o olhar aquela personagem que rapidamente desaparecia no final do corredor, senti a mão do meu pai, a puxar-me delicadamente para dentro da cabine e a correr a porta de vidro.
Não foi preciso explicar nada a ninguém! Rapidamente escondi o panfleto e sentei-me.
Momentos mais tarde, quando dois indivíduos vestindo totalmente de preto se acercaram da nossa cabine e espreitaram, todos nós fingimos dormir.
11 dezembro, 2006
10 dezembro, 2006
Chema Madoz

Esta foto tem habitado o meu arquivo, sem identificação. Guardei-a para ilustrar um poema, mas acabei por não a utilizar, pois entendi que uma foto tão invulgarmente bonita como esta, deveria ser identificada com o seu autor. Hoje, recebo um mail em power point, de fotos surreais e cá está ela.
CHEMA MADOZ, o nome do autor, fotografo castelhano, possuidor de um vasto curriculum, curiosamente da minha idade.
Vão gostar de visitar.
06 dezembro, 2006
Que força é essa

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr'ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força pra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força pra pouco dinheiro
Que força é essa [bis]
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo [bis]
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo [bis 3]
Não me digas que não me compr'endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr'endes
(Que força...)
(Vi-te a trabalhar...)
Que força é essa [bis]
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo [bis]
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo [bis 10]
Sérgio Godinho, in Sobreviventes
05 dezembro, 2006
António Gedeão
04 dezembro, 2006
03 dezembro, 2006
VAZIO em continuação

Convém distinguir entre o vazio, o nada e o vácuo – três “figurinhas” que nos dão cabo dos neurónios, quando acordamos à 4 horas da manhã, com a boca a saber a papel de música.
O vácuo é mais que vazio, e vazio é mais do que nada, o nada não existe.
Reparem,
- o vácuo é um espaço não ocupado por matéria, mas ocupado por energia e luz.
- o vazio é um espaço que nada contém mas existe como espaço.
- do nada nem se pode dizer que está esvaziado de tudo, porque no nada, nada existe, em sítio nenhum, assim o nada, fisicamente não existe pura e simplesmente, no entanto existe processado pela nossa mente.
António Gedeão referia que o Universo é feito de coisa nenhuma.
Heidegger e Sartre defendiam que o nada afinal seria uma entidade de existência real oposta ao ser.
Afinal, com tanta gente a reflectir sobre o vazio, leva-nos a ter a certeza que existe e deve ter um grande peso, para atrair tanto neurónio.
Já que se fala de vazio ou seja de quase nada, importa lembrar Gilles Lipovetsky que escreveu um ensaio sobre “A Era do Vazio”.
Talvez o vazio das mentes e das consciências nos diga mais, do que as experiências físicas de universos de electrões, protões e neutrões.
Toda a mediocridade produzida pelo capitalismo e pela sociedade consumista, empurra-nos para uma despersonalização humana, ausente de valores e traduzida numa apatia politica, autentica ditadura do vazio, que se expressa no dia a dia através do deixa andar, do não tomar partido, do não ser politico, do não discutir, do não questionar, do não votar,… do olhar apenas para o nosso umbigo instalado num espaço vazio.
01 dezembro, 2006
O VAZIO ou filosofia de sex ta-feira, postada numa 5ª, repescada num sábado e para reflectir em qualquer dia da semana
Quanto pesa o vazio?
...será?
Se tem essa função é porque estará implícito um espaço interior e outro exterior, que pode ou não ser vazio. Touché!!!
O que delimita, o que fará fronteira…???
Quanto pesa o vazio? Será que pesa zero?
Será que o vazio é igual ao vácuo?
A aceitação da existência do vazio implica a não aceitação de Deus. A omnipresença de Deus é insustentável com um espaço vazio….
Mas o vazio existe de facto?
O vazio é o oposto ao cheio, é o não ser que se opõe ao ser, ao existir… então o vazio não existe!!!???
(continua)
Dia mundial de luta contra a SIDA
30 novembro, 2006
mudar de página

"Começava a escrever sem saber o que ia escrever. Acreditava que eram as palavras que se iam escrevendo umas às outras, cada uma trazendo consigo a seguinte, pois que a vontade e a premeditação me impediriam de atingir o meu objectivo, que desconhecia, que só se revelaria pouco a pouco conforme as frases, o parágrafos, se fossem escrevendo. Qualquer frase pensada antes de se escrever não prestava para nada, disso tinha a certeza. O que mais importava era o que transportava sem que pudesse saber para onde. Tinha também a superstição de que o tamanho da história que escrevia não podia ultrapassar um página, simplesmente porque o ter de mudar de página quebrava a magia de que ela, a história, precisava para viver. Eram, por isso, histórias do tamanho de uma mão."
Pedro Paixão, in " Asfixia"























