11 janeiro, 2007

Ainda Távora (fim, por agora)



Quando há dias, deu entrada no meu estirador um excerto do seu diário, que figura numa pequena publicação sobre o Prémio de Arquitectura Fernando Távora 2006, editada pela Ordem dos Arquitectos, realizei uma nostálgica viagem ao passado.
Recordei que, sempre que visito um sítio especial, por influência deste mestre da arquitectura, registo o que sinto, num papel. Não sou organizada, não tenho um diário, mas tenho umas folhas perdidas por aí. A minha ideia não é seguir ninguém, mas de facto é interessante o registo das nossas impressões, num dado momento de algo que nos impressionou, nos motivou ou que passou a ser uma referência. Ler esse registo passados uns anos, ajuda a concretização do feedback, e permite-nos fazer avaliações de nós, que de outro modo seriam impossíveis.
Revi Taliesin, em stereofonia, a dois tempos.
Não conheço Taliesin, mas vi Taliesin e a obra de Wright, com os olhos e o coração de Fernando Távora.

Sobre Frank Lloyd Wright (1867/1959) - o arquitecto americano que mais infuênciou a arquitectura moderna. Autor da habitação talvez mais espectacular de sempre: a casa da cascata, conhecida em todo mundo, e apesar de já ter mais de meio século continua a ser uma referência.
A arquitectura de Mr. Wright, denomina-se organicista, visto que este a entendia como um organismo que dava resposta, às necessidades das pessoas e do sítio onde se implantava. A solução arquitectónica em vez de se destacar da paisagem é um pouco o prolongamento da mesma, preocupando-se tanto com o exteriorcomo com o interior. Para Lloyd Wright a casa devia estar organicamente embebida na natureza, aberta à paisagem, estabelecendo sempre uma rigorosa conexão com o espaço envolvente.
Apesar de Frank Lloyd Wright ter desaparecido há mais de 50 anos, as suas obras mantêm-se e são visitadas por milhares de pessoas de todo o mundo.
Uma das suas casas em Taliesin, que funcionava de casa de Inverno, tinha um grande atelier onde acolhia diversos aprendizes de arquitectura, e possuía inclusivamente um teatro (foto publicada em 7/01/07), pois acreditava que a musica fazia parte da educação e todos os seus alunos tocavam um instrumento.
Esta casa é onde se localiza a actual Fundação de Arquitectura com o seu nome, fazendo parte dos “Tours” do país dos hamburguers.
Quem quiser ver fotos, visite o site:
http://luciana.misura.org/category/frank-lloyd-wright/

Museu Gugennheim em Nova Iorque

Duas das obras emblemáticas de Frank Lloyd Wright

Casa da Cascata


09 janeiro, 2007

Ainda Távora


Fernando Távora foi um daqueles professores que não se esquecem nunca.
Bom conversador, detinha um sentido de humor notável, homem de grande cultura, arquitecto de referência na arquitectura Portuguesa e pedagogo inigualável.

Desde estudante e durante toda a sua vida, Fernando Távora viajou incessantemente para estudar in loco a arquitectura de todas as épocas em todos os continentes, utilizando-a, desde 1958 até 2000, como conteúdo e método da sua actividade pedagógica. As suas aulas e a sua prática projectual consolidaram, em sucessivas gerações, em Portugal e no estrangeiro, a ideia de que o conhecimento da história e da cultura são indispensáveis para a produção da arquitectura contemporânea.”

Tive o privilégio em o ouvir diversas vezes… a abrir caminhos para os nossos projectos, a criticá-los, a comentar a ementa dos almoços, à hora do café e também a contar as suas viagens, uma delas a Taliesin.
Imaginem este homem a falar para um auditório de jovens, primeiras fornadas depois de Abril, que permaneciam naquele espaço a ouvi-lo uma tarde inteira, sem qualquer manifestação de cansaço, durante 3 ou 4 horas seguidas. Inacreditável. Tinha o poder de prender uma plateia de 200 alunos. Quando Fernando Távora dava seminário no anfiteatro da ESBAP, tinha que se chegar cedo para arranjar lugar, pois nem os acessos escapavam. Era lotação esgotadíssima!
Cada estória, era uma lição de arquitectura, contada na 1ª pessoa, sintetizando no entanto, as diversas influências, englobando o contraponto entre racionalismo e organicismo.
Visitei com ele, Caminha e a Serra do Soajo em Junho de 77, e passei a gostar de história; senti que nunca poderia ser arquitecta, divorciada dessa disciplina, que eu tinha abandonado lá no secundário, vitimada pelos três volumes Matoso ou Espinosa, que todos nós padecemos no antigo 5º ano do liceu.
Uma outra vez, teve a paciência de nos acompanhar a Tomar, Batalha e Alcobaça. Inesquecível, mestre Távora a recitar Camões em contraluz, no interior do mosteiro de Alcobaça, ao lado de Pedro e Inês.
Guardo com grande carinho esta foto, tirada perto de Caminha, eu do seu lado esquerdo, ouvindo-o atentamente, contornando o exterior de um convento abandonado. (cont)

Da esquerda para a direita: Sérgio Fernandes, Tatão, Fernando Távora e Anabela Quelhas.

Diario (parte final)


E onde acaba a arquitectura e começa o paisagismo ou o urbanismo?
Ninguém sabe.
Este homem consegue nos seus edifícios integrar as artes como o fizeram os góticos, por exemplo e veio provar-me de que é possível (embora com génio) resolver o tal dilema a que já me referi neste diário: dum lado, o funcionalismo mais ou menos prosaico nas arquitecturas, e do outro os museus cheios de pinturas e de esculturas mais ou menos modernas.
E Taliesin é também uma lição no que respeita à prisão dum edifício aos valores naturais e humanos. Ali uma família e um Homem presos a uma terra, um conjunto de edifícios nascendo duma paisagem, a tudo presidindo um pensamento e uma forma.
Ali uma força enorme liga coisas e seres.
E pensar eu que vi um templo indiano e uma casa de chá japoneza no Museu de Philadelphia e claustros românticos em Nova York!
O poder de integração em Taliesin é tão forte que chega a ofender-se Deus pensando que Wright também foi o creador daquela paisagem!
Vi muita coisa na América até hoje: desde as melhores Racket Girls do mundo, até à altura do Empire State, vi estatísticas e números e cadeias de montagem, vi edifícios e arquitecturas, vi museus e planos e planos, vi highways e prosperidade por todo o lado: mas a poesia, a humanidade e a grandeza, só as encontrei em Wright.
Tudo o que vi compreendi pela inteligência; aqui o pouco que vi permitiu-me sentir tudo sem nada me ter sido explicado.
Os edifícios de Taliesin não são crianças em idade; alguns terão os trinta ou quarenta anos, o que aliás o seu estado de conservação deixa advinhar, no entanto, mesmo que estivessem em ruínas, conteriam ainda um grande poder de expressão, como vi monumentos do passado; o que seria uma ruína da Vila Savoie ou uma ruína do Seagram Building? O tempo em Taliesin joga a forma da arquitectura e da paisagem, o que creio não acontece em 90% da arquitectura moderna.
Vi há tempo a casa de Gropius em Lincoln: quando vi Taliesin, a casa de Gropius pareceu-me um frigorifico pousado numa colina!
Não há dúvida que o Zevi tem razão: o Sr. Giedion enganou-se, ao por Wright no princípio e Le Corbusier no fim do seu livro; foi um pequeno engano… de pôr tudo ao contrário. E o mundo sente, todos nós sentimos (e eu chorei por isso mesmo) que me falta qualquer coisa, que a máquina está perturbada que o caminho não é exactamente este e que os anos passam…Estamos a fazer uma arquitectura de "esqueletos decorados"; e Wright conseguiu crear organismos. Quem se atreve a discutir a forma de um dedo, a cor de uma flor ou o bico de um pelicano? São assim… porque são assim.
É isso que nós precisamos de fazer em lugar de andar a vestir esqueletos com pinturas e esculturas ou a apresentar os esqueletos em pêlo como se um animal fosse apenas o seu esqueleto ou a qualidade dum vinho pudesse apreciar-se pela fórmula química que o representa… Está tudo doido.
Enfim isto é um pouco, muito pouco, do muito que meditei sobre Taliesin.
Lá repousei pelos campos desse Wisconsui que ele tanto amara e pelas cinco horas voltei a Spring Green. Comi alguma coisa (o mesmo hamburguer idêntico copo de cerveja) e vim para a estrada esperar o bus.
Estava já mais calmo mas longe ainda de estar calmo. E tão aéreo ainda que o bus passou e só quando passou é que lhe fiz sinal para parar. O homem ficou zangado e parou muito longe porque vinha largadíssimo.
Enfim cheguei a Madison perto das 8 da noite. O dia tinha sido extraordinariamente forte. Quando me deitei ainda as pernas me tremiam e ainda os olhos estavam molhados.
(Soube hoje, 11 de Abril, que no dia 9 em que visitei Taliesin fazia exactamente um ano que Wright morrera; talvez por isso mesmo a sua presença era tão forte neste dia…).

Fernando Távora, Prof

07 janeiro, 2007

Diário (cont3)

Sempre a paisagem magnífica, grande mas não desproporcionada, uma cor de amarelo queimado em tudo…
"E agora a casa…".
Passamos pela entrada principal mas ele achou melhor irmos pela entrada de serviço. Começamos a subir e por entre a vegetação comecei a descortinar planos vários de paredes e de coberturas lá em cima.
Os avisos sucediam-se:
"no visitors… no trespassing… no hunting… closed until May…"
Entramos num páteo de serviço, onde estavam vários automóveis.
Saí, vi e fiz umas fotografias, mas não tive coragem de avançar.
Senti que já tinha compreendido Taliesin e estava emocionalmente extenuado.
Sentei-me no carro e disse ao homem:
"é melhor não abusar".
Cá em baixo a água corria, no topo de um muro por grandes tubos de grés colocados em fiada…Eu estava realmente extenuado.
Vimos mais uma "farm" de Mr. Wright, despedi-me de tudo aquilo e voltamos para a aldeia. O homem tinha tomado conta de mim à meia-hora e deixou-me exactamente duas horas depois.
Quando me deixou eu estava longe de mim e longe de tudo.
Resolvi sair da aldeia e avançar pelo campo.
Tomei uma estrada poeirenta onde passava de vez em quando um carro.
Então chorei como uma criança… Taliesin não me saia (nem me sairá) dos olhos; até a cor do pó da estrada me lembrava Taliesin. Avancei pela estrada não sei até onde. Não podia pensar concretamente. Qualquer coisa se apoderara de mim. Sentei-me algures. Descansei.
Lágrimas várias: Notre Dame, Chartres, Cordova, Capela de Miguel Ângelo, - "olhos que nunca se molham mas vêm quando olham…" (Afº. Lopes Vieira).
Tinha razão o poeta:
"olhos que nunca se molham não vêm quando olham".
Naquelas duas horas eu tinha sofrido, estou certo, um dos maiores choques, talvez o maior da minha vida de arquitecto.
Taliesin, disse já, é mais do que um edifício, uma paisagem; mas acrescento agora, Taliesin é também uma vida e uma filosofia. Eu compreendi Wright e o seu chapéu, compreendi as suas formas e o seu amor à terra, o seu pensamento e o sentido das suas coisas… .
E ao sentir toda aquela vida de criação, tomei também contacto com outra realidade: a da morte do Homem no lugar do seu sonho.
Porque exactamente Taliesin impressionou-me pelo que possue de total, de cósmico, pelo que existe ali para além da pedra, da madeira, deste ou daquele requinte da forma.
Tudo se esquece ali de acidental da vida de Wright: os seus caprichos formalistas, a sua vaidade, o custo das suas obras, os seus automóveis, as suas pequenas coisas do dia a dia; tudo esquece a quem vir Taliesin como eu tive a oportunidade de ver e Taliesin aparece então com a força de uma rocha, a beleza de uma flor ou a calma de um lago.
Taliesin além de me fazer chorar durante as primeiras reacções obrigou-me a pensar muito. Um dia ouvi o Sr. Giedion dizer com um sorriso, a propósito da "famigerada" integração das artes, que "Mr. Wright afirma não existir para ele tal problema porque ele é pintor, escultor e arquitecto". Estou convencido que a integração das artes pela qual a entendem os funcionalistas é coisa estúpida (O Harvard Graduete´s Center é mais uma prova evidente) e estou convencidissimo de que Wright resolveu o problema como foi resolvido aliás nos velhos tempos, onde começa a arquitectura e acaba a escultura ou a pintura nos edifícos de Wright?

Diário (cont2)

Espreitei o teatro; um biombo japonez, o balcão de Wright, o palco… tudo parado… nem vivalma… mas os espaços falavam com um impacto extraordinário. Contornei o teatro e encontrei um terraço debruçado sobre a pequena colina.
Na escada que dá acesso à entrada do estúdio uma pequena escultura de Wright bate exactamente com o edifício. Não cuidei de ver pormenores mas pressenti em tudo uma riqueza de formas, dum à vontade, que nunca encontrara na arquitectura contemporânea.
Senti-me na Idade-Média, na Grécia ou no México, na presença de uma Catedral, de um Panteon ou de um templo azteca, tal é a integridade daquela arquitectura.
Vi o mais que pude.
Mas o homem já estava dentro do carro com o motor a trabalhar…Voltamos à estrada.
"Quer ver outra casa, dum arquitecto que trabalhava com Mr. Wright e comprou aqui uma quinta?"
Com certeza. Lá fomos. Um rico jogo de edifícios na paisagem, a nota de Wright por toda a parte.
"Aqui vamos ver aquela quinta perto da casa".
Novamente no carro subimos a pequena encosta até à quinta. Num ou noutro pormenor, Wright lá estava. Quando descemos da quinta o homem apontou para outra encosta e disse:
"Ali é a casa da irmã, também foi projectada por ele… mas está muito abandonada…".
Não insisti para irmos lá, tão amável era o homem. Mas vi nesse momemto, mais uma vez e melhor do que nunca, o velho moínho, o Romeu e Julieta que Wright desenhara nos princípios da sua carreira…Descemos.

06 janeiro, 2007

Diário (cont)

Passamos pela entrada da casa, cá em baixo e vimos uma grande represa, água doce.
"Quando Mr. Wright cá estava aquilo estava sempre cheio de água…"
Metemos à esquerda e apareceu-nos então uma pequena capela, muito simples, com um campanário, construída em madeira.
Paramos e o homem avançou.
"Está aqui".
Disse prosaicamente.
Ao lado da capela vi então um pequeno cemitério. Mais próximo da entrada a campa de Wright: pequenas pedras limitavam um rectângulo envolvido por um círculo, construído do mesmo modo; num dos vértices do rectângulo nasce da terra uma pedra, igual a tantas daquelas que ele usou nos seus edifícios, de forma irregular, mas cuja secçção aumenta à medida que se levanta; não sei se há qualquer simbolismo naquela pedra, eu permiti-me encontrá-lo. Atrás, uma pequena pedra, protegida por uma árvore, tem gravada esta inscrição:
MAMAH
BORTHWICK
CHENEY
1869
1914
É o túmulo de MAMAH, a mulher assassinada e queimada em Taliesin que Wright enterrou naquele lugar.
Não longe outra pedra gravada:
ANNA LLOYD WRIGHT / BELOVED MOTHER OF 7 FRANK, JANE AND MAGINEL 7 SHE LOVED THE TRUTH AND SOUGHT IT.
Ali repousa a mãe de Wright, a cuja família pertencera Taliesin.
Afastada, uma coluna branca, tem inscrito o nome JONES, creio que o avô de Wright.
Aqui e ali mais túmulos de pessoas que, pelos nomes se verifica pertencerem à mesma Família.
O sítio é extraordinariamente tranquilo e Taliesin vê-se ao longe.
Não escondo que as lágrimas me vieram aos olhos.
Mas o homem queria mostrar-me coisas…
"Vou agora mostrar-lhe outra quinta que Mr. Wright comprou… . Lá fomos ver mais um conjunto de edifícios. Aí nem saímos do carro. Um dos edifícios tinha o toque do Mestre. Os outros eram tradicionais edifícios da região."
Agora vou mostrar-lhe a escola onde eles trabalhavam…"
voltamos para tráz, passamos novamente pelo pequeno cemitério e metemos a um desvio; por todos os lados letreiros diziam
"No hunting, no trespassing".
"No visitors, closed until may",
mas nós avançamos.
O carro parou e eu como um louco avancei para o edifício, cuja localização aliás tinha pressentido da estrada; que dizer? Só posso dizer que fiquei maravilhado "Ali é o estúdio, ali atráz têm um teatro, vá e veja…".
Fui e espreitei pelos vidros; Lá estava a conhecida sala de trabalho, tendo na entrada uma grande fotografia de Wright e um poema de Walt Whitman.

05 janeiro, 2007

Durante uns dias vou vadiar por este diário

Durante uns dias vai-me apetecer ler, reler e saborear este diário que deu entrada no meu estirador. Algumas partes, foram-me contadas na primeira pessoa há três décadas atrás, e vai ser delicioso relembrar este grande SENHOR, visualizar cada pormenor, cada à parte que subtilmente era encaixada, na sua conversa suave, fluente e envolvente, delineada com nuances de humor inteligente. Há professores que teimam em permanecer no meu coração.
I LOVE TÁVORA


FERNANDO TÁVORA
"Diário da Viagem aos USA"


1960Abril, 9, Sábado
Dia grande!
Uma bela manhã de primavera.
Às 9 e pouco estava a perguntar ao homem do Hotel o caminho para Taliesin. "Talvez tomando um bus para Spring Green…", o melhor é perguntar ali em frente. Lá fui aos bus. Sim senhor, às 10,45 e está às 11,54 em Spring Green.
A viagem correu normalmente.
A paisagem bonita, com grandes campos e colinas suaves.
Spring Green é uma pequena aldeia rural.
Quando saí do bus sabia apenas que estava em Spring Green, nada mais. Achei por bem dirigir-me ao edifício dos correios, ali perto da paragem do bus.
Perguntei à Senhora: "Pode dizer-me como posso ir a Taliesin?"
"Tem de voltar para traz e atravessar a ponte nova, mas agora não está lá ninhguém; eles ainda não voltaram".
(A Senhora julgava que eu tinha carro e além disso que os queria ver).
"Mas eu não tenho carro, não é possível alugar um táxi, ou ir a pé?";
"A pé? São umas 6 ou 7 milhas e táxis… não me parece possível…"
Entrou então na conversa um homem de idade que depois soube ser o marido da Senhora (o correio estava mesmo para fechar); o homem coçou o queixo e insistiu.
"A Taliesin, mas o Sr. não vê nada e aqui não há táxis…; talvez numa garagem arranje alguém que o leve…".
"Não tenho pressa, disse, queria almoçar primeiro e seguir depois; volto para Madison às 7 e tal, portanto tenho muito tempo".
"Almoçar? Só se comer uma sandwich, ali (e apontou-me uma casa) porque aqui não há restaurantes… mas o mais difícil é ir a Taliesin…";
"…nemque eu tenha de ir a pé, vim de Portugal para ver Taliesin…".
O argumento foi decisivo.
O homem disse-me então: "Há-de-se arranjar transporte…".
Neste momento parou um carro em frente ao correio e o velhote, deu-me um pequeno empurrão e disse: "Peça áquele senhor, talvez ele possa lá ir…".
Cheio de coragem (a necessidade faz milagres) avancei e perguntei: "Please Sir, are you going to Taliesin?"
"I? Not now" e avançou sem me ligar importância. O velho então entrou em acção e contou-lhe a minha desdita;
"Mas eles não estão lá, está tudo fechado"
- "Mas eu tenho de ir…"
- "Vá então almoçar e à meia hora eu vou buscá-lo ali".
Dei um suspiro de alívio; se o correio fechava sem eu resolver o meu problema não sei o que seria de mim.
Para "variar" comi "hamburguer" e bebi um copo de cerveja e à hora combinada estava cá fora. O homem apareceu pontualmente.
Entramos no carro e eu contei-lhe com mais pormenor a minha história; "mostro- lhe tudo, conheço muito bem Taliesin e conheci Mr. Wright; trabalhei com ele algumas vezes…"
"O caminho agora é mais longo porque construiram uma ponte nova e é preciso ir à "highway". Lá saímos de Spring Green, entramos na dita "highway" num percurso pequeno e metemos à direita; "aquela pedra foi ali posta há tempo por Mr. Wright, naturalmente para gravar alguma coisa, mas nada fizeram depois dele morrer…"
"E pode ver-se o sítio onde ele está enterrado?". "Pode, está junto de uma pequena capela, eu mostro-lhe" -
Fomos andando. Em certa altura o homem parou o carro e mostrou-me o sitio da velha ponte sobre o rio;
"foi nesta estrada que morreu a filha de Mr. Wright, um desastre de automóvel, há anos; aqui (e centrou-me o lado oposto ao rio) Mr. Wright comprou uma "farm" e começaram a construir um edifício, creio que para um restaurante; ele queria construir sobre a estrada, mas "eles" não deixaram…".
Vi então a estrutura de um edifício que domina todo o rio e cuja construção deve estar suspensa já há tempo.
"É possível que a "fellowship" acabe a construção. Eles querem continuar os trabalhos de Mr. Wright…".
Seguindo um pouco e ao fim de uns segundos eu via, cortando o ponto mais alto de uma colina, a casa de Wright; afastada, uma outra colina, mas situado na encosta, o conjunto de edifícios vermelhos (dum vermelho terra), de uma "farm". É um momento que não posso esquecer, o desse primeiro contacto com Taliesin. A paisagem sem ser grandiosa é grande e os edifícios sem serem grandes sentem-se perfeitamente na paisagem, sem, de qualquer modo a desvalorizarem. A ideia de Taliesin como uma construção desfez-se nesse momento no meu espírito; Taliesin é uma paisagem, Taliesin é um conjunto, em que é porventura difícil distinguir a obra de Deus da obra dos Homens. Devo dizer, além disso que o sítio é duma beleza surpreendente… Mas o Senhor não me dava tempo para pensar; vamos ver agora o sítio onde Mr Wright está enterrado.
Seguimos.

04 janeiro, 2007

COSMOS DIPANDA FOREVER

A exposição colectiva de artistas angolanos "Cosmos Dipanda Forever" será inaugurada na próxima sexta-feira em Luanda, no âmbito da Trienal de Luanda. Estará patente ao público até 23 de Fevereiro em seis galerias da capital.

02 janeiro, 2007

SALVATORE FIUME



Não é Chirico, é Salvatore Fiume,

pittore,

scultore,

architetto,

scrittore

e

scenografo.

Consultei os astros e isto parece que sou eu!



Idade: 48 anos, 8 meses e 20 dias.

Signo: Peixes

Planeta regente :Neptuno

Elemento :Agua

Número de Ambição : 5

Número de Personalidade : 3

Número de Expressão: 8

Número de Destino: 4

Segundo seu dia de nascimento.....Você é versátil de natureza dupla e de inteligência, ao mesmo tempo, lógica e imaginativa. Você pode construir ou destruir, tão poderosa é a forca do número de seu pensamento. Você está sempre com um pé na terra e o outro no céu, tendo, condições de harmonizar as coisas práticas e espirituais. Gosta do que é novo e original, da mudança e da variedade. Isso poderá te levar a um excesso de experiências em vários campos, o que não será bom, pois, para vencer, precisará de estabilidade na profissão.

A sua ambição é .... Amar a liberdade, a mudança e a variedade, ter pensamentos progressistas. Ter possibilidades de criação.

Você é...Criativa, feliz, otimista e despreocupada.

Segundo seu número de Expressão.... Utilizando seu olho clínico para perceber o valor real das coisas. Deverá ser capaz de actuar de forma autoritária, perspicaz e preparada para trabalhar duro até atingir seus objetivos.

Segundo seu número de Destino ... Ser alguém prático e organizado. Seu destino te colocará sempre numa roda viva. Mesmo que tudo indique riqueza, esta somente será conseguida através de muito trabalho que exigirá atenção constante Mais do que isso: haverá ocasiões em sua vida em que você precisará fazer uma grande economia e assumir trabalhos e deveres, muitas vezes devido a sua própria saúde. Contudo não dê as costas aos demais, pois sua contribuição aos outros será essencial. Seu destino representa um alicerce e você deve ser paciente, pois sabe quanto trabalho é necessário para torná-lo resistente. As coisas chegam devagar para você. Seja uma pessoa responsável, eficiente e disposta a trabalhar muito, deste modo alcançará o sucesso. Não desanime ante os deveres e obrigações, já que você estará preparando o futuro.

01 janeiro, 2007



Canto de Iemanjá
Vinicius de Moraes
Composição: Vinicius de Moraes / Baden Powell


Iemanjá, lemanjá

lemanjá é dona Janaína que vem

Iemanjá, Iemanjá

lemanjá é muita tristeza que vem

Vem do luar no céu

Vem do luar

No mar coberto de flor, meu bem

De Iemanjá

De lemanjá a cantar o amor

E a se mirar

Na lua triste no céu, meu bem

Triste no mar

Se você quiser amar

Se você quiser amor

Vem comigo a Salvador

Para ouvir lemanjá

A cantar, na maré que vai

E na maré que vem

Do fim, mais do fim, do mar

Bem mais além

Bem mais além

Do que o fim do mar

Bem mais além

31 dezembro, 2006

Como correu o Natal? (cont)



Já que estamos nos presentes, eu prometi o Chaolin e cumpri! Não podia destruir as expectativas dos meus amigos e familiares, que andavam ansiosos, a espreitar a toda a hora as montras do Hiperchina. Se não foi o Chaolin foi o “plimo”, que é a mesma coisa!
Ainda pensei em oferecer livros, numa de promover o meu lado intelectual e o dos outros também,.. comprei até uma revista com conselhos bem adequados ao perfil dos meus amigos, … por exemplo:
…para o meu amigo Poliedro (fumador militante) eu poderia comprar”O pequeno livro para deixar de fumar”, para o Orlando Blume (vanguardista) seria “António Variações – entre Braga e Nova Iorque”; para o Vítor (namorado da minha filha), nada melhor que “Dê cabo da sua vida amorosa”, para o meu amigo Jota (que necessita de um bom modelo literário que o inspire na contagem regressiva à beira do Zulmarinho) seria, “Vou contar-te um segredo” da escritora de tão grande sucesso, Margarida Rebelo Pinto,… (ok, prontos… dou a mão à palmatória!!!! Embirro com ela!), para um compincha que vive lá na Normandia, um “prontuário da língua portuguesa” veria mesmo a calhar, para a prima Edite (que anda sempre com a carta astrológica e a desbaralhar-me com bolas de cristal, conchas, caranguejos, escorpiões, e outros que tais, que vivem à beira da agua, mas que são fogo…eu sei lá) iria levar com “O Livro das Respostas”, para o meu neto (que tem a mania q é super herói), “Capitão cuecas”, para o Naondinho (economista), “Freakonomics- o estranho mundo da economia”… e por aí fora!!!!

Se pensam que estou pra aqui a reinar, desenganem-se! Eu não inventei nada, edição numero 46 “os meus livros”….

Mas aí, pensei, pensei, repensei… afinal um livro é um amontoado de letras, algo impessoal, que se perde em qualquer estante, correndo o risco de não combinar com o tapete tipo persa… e bem espremido o que dá? Montes de pó e cotão, que dá um trabalhão a limpar! Depois são quase todos, uma seca, só letras… sem bonecos…ainda por cima letra miúda, daquela que para ler depois dos 40, só de braço estikado!!! … e pesam! se pesam antes de adormecer! acordando o leitor sempre que se esparrama no chão, quebrando a magia do iniciar dos sonhos. Por outro lado, toda esta gente está bem na vida, não têm nenhum móvel de perna bamba a necessitar de num calço literário, daí a completa inutilidade de um livro.

Olhem, revi a minha ideia, não seria uma boa prenda e decidi-me mesmo pelo Chaolin, com presentes personalizados, e com a qualidade do oriente. A estrela também não surgiu do oriente? Então!!!! Tem tudo a ver!
Sei lá… peúgas para o tio Zé, os três pastorinhos para a sogra, uma boina para a sogro, a oitava gravata para o tio Joaquim (que as estima de tal forma que nem as usa para não estragar), um suporte para telemóvel com forma de sapato de senhora, para a Miquelina, um pisa papeis, para o sobrinho António e lenços de assoar, com monograma bordado, para aqueles que já me ia faltando a imaginação.

Regressando ao repasto, pois foi uma mesa farta!
pois teve de tudo!
e pois foi com agrado e dranquilidade, que vi os menores de 10 anos, a chorar baba e ranho, por não quererem comer o bacalhau e o polvo, teimando graciosamente com os seus progenitores, que queriam pizzas e hambúrgueres.
São sempre cenas ternurentas destas que me fazem amar o Natal! E recordá-lo nos restantes dias do ano, como uma referência da harmonia familiar e do convívio ameno entre velhos e novos.

A acompanhar e a estabelecer a diferença deste natal, todos tiveram o prazer em ouvir ao longo das refeições “A noite feliz”, versão barriga de pai natal, que eu pendurei no lustre, central, e que ao mesmo tempo que emitia aquela sonoridade celestial, abanicava os braços e a cabeça – uma ternura!

Tirei fotos a todos, o mesmo cenário do ano anterior, com o barrete de pai natal na cabeça, face bem rosada e aquele sorriso de quem esta a pedir uma água das pedras com urgência. Aos menos fotogénicos, sugeri-lhes a pronúncia de “bananaaaaa” para melhorar a sua estrutura facial, e apresentarem uma xipala que não assuste a objectiva da câmara.

Os meus presentes?

Os que recebi?

Bem, voltei a receber um saleiro e um pimenteiro, um pijama, o tal livro do Dan Brown, os Ferrero Rocher (dos mais imaginativos), as luvas (já tenho seis pares e que me fazem imensas frieiras)….

Apresento o meu protesto!, ainda não foi desta q recebi ouro! Acho que tenho que divulgar melhor a estória dos três reis magros.

Entre frituras, açúcar e a canela mais conhecida por mirra, iam-me chegando sms dos mais variados sítios.
Agradeço a todos o carinho. Todo o mundo saudando a minha família em simultâneo, nem sei bem porquê, desconhecendo eu, que afinal todos se conheciam. Como o mundo é pequeno!

Simmmm, correu bem, parecia mais um exercício de restauração numa cantina de estudantes, do que refeições familiares caseiramente servidas por je. De bata caveada, socas nos pés e soquetes, foi assim que apurei os paladares gastronómicos.

Não acreditam? A esta hora, nem eu! São 23 horas e 45 minutos do dia 31 de Dezembro dde 2007 da era do Senhor (como o Senhor tá kota!!!).

Mas que ganza! Vou mazé para o reveillon e conversar com Iemanjá.

BOM ANO PARA TODOS E EU NA VOSSA COMPANHIA.

30 dezembro, 2006

Como correu o Natal? (cont)

Aproveitei o cima do aparador, para colocar o presépio, enquadrado entre as rabanadas, filhoses, sonhos e tudo aquilo que põe o colesterol saciado, o que foi enriquecer a perspectiva da manjedoura e das palhas do menino, num bom gosto, que se requinta ano após ano.

Engraçado que nem o menino Jesus cresce, nem a Nossa Senhora envelhece, nem o S. José adoece das cruzes, nem a consoada muda de dia. Tudo sempre igual, naquela monotonia recheada de azevinho e muito pinheiro de natal!
A vaca continua vaca, o burro continua burro com duas orelhas, e os três reis “magros”, marados pela astronomia, continuam naquela perseguição astronómica da estrela com cauda, convencidos que vão presenciar um encontro imediato de vários graus, e que tem a xateza da repetição anual, tendo de dar pelo nome de, Baltasar, Belchior e Gaspar… e de carregar o ouro, o incenso e a mirra, sempre de lado, em cima de um camelo, que percorre o deserto, seguindo a loucuro do seu dono. O ouro, o incenso e a mirra ninguém sabe para que servia aquilo, pois o trio precisava mesmo duns biberons de leite, umas fraldas, e uma gase para o umbigo do filho de Deus … seguiram a tal estrela, mas cá pra mim, o que os orientou mesmo, foi o cheiro a caril ou a açafrão!

Sobre o ouro…que eu me lembre nunca ninguém me ofereceu ouro pelo Natal, o que está mal!!!! afinal deviam, isso é que é presente de reis?… incenso e mirra, desconheço! Nem sei se é vegetal, animal ou mineral.

… será que era aquela jarreta que a tia Hemengarda me ofereceu há dois anos, e que eu coloquei no sitio mais perigoso e desiquilibrante da casa, cai não cai, teria incenso? Não reparei quando atirei com os cacos no lixo. Ou terá sido aquele perfume “já cheguei, estou aqui” que eu rapidamente reofereci, à prima Ofélia que tem a sorte de ter perdido o olfacto? nã!!!! os livros do Dan Brown, que a cunhada acha que eu leio em repetição, tipo rodísio, varias vezes ao ano…esses regressam à livraria para outros incautos compradores, normalmente só leio um livro, uma única vez…desconheço por falta de apresentação desses presentes da tal mirra etc e tal! Quando muito um licorzito dentro dum baci!
Ahhh estou a ver, a mirra é aquela cena de polvilhar as filhoses!!! Será que substitui o pó de talco e o halibut? (acho que continua)

Como correu o Natal? (cont)



(as imagens publico agora, apenas porque está dificil inserir imagens juntamente com texto)

Como correu o Natal?

Como correu o Natal?
BEMMMMM!!!!!! Correu bem! Tudo naquela medianazinha a que já me habituei!!!! Sem surpresas de maior, sempre aquela monotonia dos zero graus centígrados, ou mais ou menos por aí.
O Natal é aquele acontecimento que se repete todos os anos - a maior concentração de família por metro quadrado.
Verdade!
Ora a sala de jantar, tem aproximadamente 20m2, deduzindo a esta área, o aparador Queen Anne, as duas mesas adquiridas em Paços de Ferreira, extensíveis com 2,20 X 0,90m, o louceiro dos Limoges, a cristaleira para ostentar os cristais d’ Arques, e os dois dálmatas imobilizados para sempre junto à porta da entrada… fazendo as contas por alto… as andorinhas da parede não contam, o lustre da feira de paris, pago a peso de ouro na caixa de pandora, também não, a ceia de Cristo, idem, o menino a verter a lágrima, aussi… portanto resta aproximadamente e com números redondos… 1,98X2+ 0,6X1,50X3….= 3,96+2,70= 6,66 (que número!!!!)… logo 20-6,66=13,34.
Vá 13m2
13m2 a dividir pela família, com características flutuantes, mas que se aproxima sempre dos 22, temos sensivelmente 0,5m2 por individuo! Desprezando as diferenças…. Sim já sabemos que o tio Zé Maria, calça 47 e que a bunda da prima Esperança ronda os 56 do pronto a vestir… mas também os putos estando quietinhos, ocupam menos espaço. Ora na China é muito pior, e não é por isso que eles deixam de ser amarelinhos e ter olhos em bico!
A(s) mesa(s) foi decorada a preceito! Alinhada como convém no eixo da ceia de Cristo, colocada no extremo da sala, toalha vermelha, centro de mesa dourado, pratos vermelhos, colocados naquela geometria original, um seguir ao outro, copos em frente, faca de um lado, garfo do outro e guardanapo na esquerda como exige a Bobone, mas de papel, pois eu não tenho pastel para depois andar a fazer limpezas de babas de canela e vinho tinto, em 66 guardanapos. Sim porque o Natal, em casa minha, rende ao pessoal no mínimo 3 refeições à borliu. …muita vela, muito pastel de bacalhau, muita batata doce, para elevar o astral até ao hemisfério sul, muito anjo barroco, muita bola de vidro, suspensa entre os reposteiros adamascados que limitam as janelas de alumínio, com muita estrela colada nos vidros, estrelas polares e outras que tais, de cinco pontas, sempre.
(continua)

20 dezembro, 2006

Noite de Natal


Atravessei a rua, naquele passo que não tem pressa de chegar, mas num ritmo acelerado de fuga ao frio, e de engano ao nevoeiro, que teimava atravessar-nos de uma ponta à outra.
A respiração se transformava rapidamente em nuvem de vapor, que eu aproveitava para fazer efeitos visuais, que saíam por entre o cachecol e me distraiam o olhar, das vitrines cheias de agasalhos, e das ruas decoradas e brilhantemente em festa.
Atravessei mais uma rua e entrei pelo mercado da praça de Lisboa… olhei o início da noite a desertificar o espaço urbano sob aquela nuvem amarela que paira sobre a baixa, e ia-me perdendo num jogo de andar e colocar as passadas, exactamente em sítios determinados, numa geometria de pauta musical, que me habituei a construir no espaço multidimensional, que é a mente.
Os eléctricos já passavam quase vazios, com o trinca a consultar o relógio e ansiando pela ceia melhorada.
E eu caminhava… ia partindo o frio, com essa caminhada lúdica e embalada por esta cidade de cor de prata, contornando a faculdade de ciências, com intenção de me dirigir para Carlos Alberto… escutando a noite de Inverno a valer, voltando-me, para admirar mais uma vez, a lua cheia por trás dos Clérigos, alegremente imaginando o calor da lareira e os odores que já estariam a ser fabricados com a canela, e que certamente, já me esperavam àquela hora, sob a forma de ceia de Natal.


No vão de uma porta, encostado ao granito da ombreira, permanecia imóvel um corpo em volume, com jornais como tapetes, que eu olhei, inesperadamente, em diagonal, naquele meu jogo pedestre.

Parei, fiquei imóvel também!

Senti a aorta a latejar, conseguindo facilmente calcular as pulsações sem qualquer aritmética ou máquina de calcular.

Identifiquei aquele velho casaco, gasto e mesclado a cinza.

Não sei rezar, mas naquele momento rezei com convicção.

Rezei para que, por baixo do chapéu, eu não conseguisse avistar uma barba, com longos fios de cabelo alvos, alvos como a neve.
O meu coração de repente se recusou a bater com as imagens que lhe chegavam do olhar.
Os fios alvos como a neve, despontavam por entre o casaco sujo, nos intervalos dos botões e por debaixo do chapéu. Não havia dúvidas, pois eles eram únicos.

Os cabelos, que eu tanta vez contornei e penteei sobre os meus papéis, desenhando-os a várias cores, por serem alvos. Os cabelos, que tanta beleza davam a um corpo alquebrado de ancião... estavam ali, permaneciam ali, abandonados num corpo enfrentando uma noite sem fim à vista.
Quantos lápis se perderam naquele cabelo? Quantos esfumados se diluíram entre as suas mãos angulosas, com unhas bem desenhadas? Quantas aguarelas se misturaram no olhar doce daquele rosto? Quanto carvão contou as suas rugas, que se iam adicionando com a idade, até se tornarem septuagenárias… octogenárias talvez?
Ele foi Zeus, ele foi Júpiter, ele foi Neptuno, ele foi Moisés, ele foi João de Deus, ele foi Marx, ele foi Engels, ele foi Eiffel, ele foi Antero de Quental, ele foi Guerra Junqueiro… ele foi José, ele foi tudo, o que nós queríamos que ele fosse.
Posicionava-se como cada um queria: nu, vestido, de verão ou de inverno, sentado, de pé, contorcendo-se… ora facilitando o esquisso, ora valorizando a torção do tronco, ora distinguindo a luz sobre um músculo, ora disfarçando a imperfeição dos nossos traços através do melhor ângulo da anatomia de seu corpo...
Conheceu mestres e aprendizes, e estes, quando se tornaram mestres, também, num rodopiar de anos e décadas, alternando com diversas gerações numa escola de artistas.
Ele era o modelo anatómico perfeito.
Era o nosso homem vitruviano, inscrito simultaneamente, num circulo e num quadrado! Com o seu crâneo estampado antropométricamente no nosso lápis, aprendíamos a proporcionar os traços, repetindo-o mais sete vezes, tal como um módulo, até chegar aos pés… um esquemazinho de linhas paralelas, essencial para orientar e estruturar toda a construção de um corpo ainda sem alma, com centro no umbigo, harmonizando e redescobrindo as razões de ouro.
Foi esboço, ele foi esquisso, foi retrato, foi escultura, foi tela, foi cenário, foi emoldurado, foi inaugurado, sempre com alma de alguém importante… ao sabor do naturalismo ou deformado e decompostamente cubista.
Ele foi Apolo, foi Adónis… e foi mudando de identidade conforma os anos se lhe iam entranhando na pele e embaciando a vivacidade do olhar.
Horas e horas á nossa frente, destilando dias, sem horário, em troca da refeição e de um mísero salário, que minguava, conforme envelhecia, inversamente proporcional às muitas horas que já não conseguia posar em pé.

Silencioso.

Discreto.

Como se exige a uma estátua!

Por vezes esquecido.

Frequentemente substituído, curiosamente por ele mesmo, ou do que ele sobrava numa folha de papel, abandonada anos e anos, numa pasta amarrada por uma fita azul.

Nessa noite, soube que era sozinho e que tinha doado o seu corpo à Ciência.

Chamei por ele!

_ Senhor António???!!!...

19 dezembro, 2006

feliz natal



ESTOU QUASE QUASE A PARTIR PARA A LAPÓNIA!!!!!!!!!
Um feliz natal para todos.

18 dezembro, 2006

17 dezembro, 2006

GOSTO DE+

Armanda Passos
goossssstttttttooooo!

16 dezembro, 2006

Lindíssima


Que espanto de fotografia! Apeteceu-me mudar o fundo do blog, para negro, só para publicar esta foto.
Lindíssima!
Não sei quem a fez, a única referência é, "AP".
A moldagem do ferro ao fogo, numa concentração realçada no martelo e no local onde ele bate, sobre a bigorna.
Uma profissão dura, a de ferreiro!

15 dezembro, 2006

Infância

Lembram-se destas imagens na tv?
Afeganistão.
Estas crianças não estão a brincar, estão a trabalhar de sol a sol, numa fabrica de tijolos. A sua tarefa é virar tijolos em contínuo para possibilitar a sua secagem ao sol.
Dizem que a adolescência nasceu com a entrada tardia dos jovens no mundo do trabalho. A partir do momento que o jovem entra na luta pela sobrevivência, a adolescência termina. Isto são as teorias do ocidente e dos países ricos.
Não esqueçam que há crianças que nem infância tem!!!!!!!
Ser jovem não implica ser adolescente e ser criança não implica ter infância. Há crianças que mal saem do colo da mãe, se convertem em adultos. TRÁGICO!!!!

14 dezembro, 2006

A Foto da Sra Professora


A foto da senhora professora
(depois de duas dezenas de tentativas para publicar, e teve que ser separada do texto.... oh este mundo digital!!!!! quando dá para se negar ao trabalho!!!!::::)

13 dezembro, 2006

Senhora Professora

Já lá vai uma vida!
Conheci-a numa altura algo controversa e indefinida da minha existência.
Confesso que tive sorte. Uma imensa sorte!
Ensinou-me o valor da mais pura e simples amizade.
Inequívoca!
Sentida!
Verdadeira!
Ela sabe apaixonar-se facilmente pela vida e, entregar-se totalmente a ela. Com amor e dedicação. Sabe apreciar as coisas, as pessoas e os actos quando são belos, assumidamente perfeitos, onde tudo, infelizmente soa a falso e a imperfeito.
Tem um sentido de oportunidade preciso e intenso, bem guardado em si.
Revela um companheirismo e uma presença constantes nos instantes difíceis, penosos e dolorosos.
É inqualificável na ternura solidária, pois, abraça os momentos com o que pode dar e não dar! É um portento de alegria e satisfação na ajuda solidária a tudo o que a envolve e a tudo o que a rodeia. Preocupa-se e reage sempre como sente e vê as coisas, fiel ao seu pensamento que nunca atraiçoa e nunca o violenta.
-Cala-te! Estás a exagerar!
- Só consigo dizer: -Nunca estive a ser o mais sincero em toda a minha Vida! E,faço questão que se congele esta afirmação no livro da vida para que nunca se perca! Tomem nota: bem congelada porque é visível. É real. Não! Não é uma professora qualquer. É uma Professora Especial que se aprende a gostar, sem a qual a Educação, a autêntica Educação e, falo de Seres Humanos que são os alunos, ficariam mais pobres, mais desamparados.
Quem disser que é uma professora como qualquer outra, não sabe, ignora, o que de mais puro e belo é uma entrega incondicional aos alunos, ao futuro destes, num mundo tão competitivo e exigente que lhes vai surgir pela frente. A conquistarem o direito pleno a serem felizes e a viverem a sua própria felicidade!
Esqueceram-se que a felicidade existe?
A felicidade existe na escola e fora dela! Perguntem-lhe porque ela é assim. Porque age assim? É um convite! Façam-no!
Aprendi com ela a preservar um carácter. Aprendi a guardar e a lutar pelos valores e os ideais que transporto em mim. Por tudo isto a que sempre me habitou e faz parte do que sou. Do que penso! Do que sinto!O valor da pedagogia! O valor da magia de ensinar e educar! O valor de me transcender quando é preciso e quando não é preciso! O imenso valor da entrega à Arte de Ser! O valor de viver num abraço a todos os que se agitam e movem num estabelecimento escolar, minimamente organizado, cuidado, respeitado.
A estimar tudo o que mexe ali!
O valor de inovar!
O valor de criar!
O valor de imaginar!
Até o valor de sonhar!
E, eu tenho de fazer uma pausa. Prolongada. Reflexiva.
Comecei a olhar. Comecei a apurar o olhar para tudo à minha volta. Matutei e matutei! Comecei a ver tudo feito de crianças, a compreender e a conquistar o seu encanto! A ajudá-las no seu sofrimento, porque às vezes sofrem, na angústia, nos momentos menos bons.
Ali tudo respira. Tudo tem sentimentos. Ali tudo ama.
Como tudo ali poderia ser BELO! Ela ensinou-me a ser eu próprio. Sim! A ser livre de pensar! A acabar com o alheamento e a minha forma de vivenciar uma personalidade amargamente silenciosa e remetida ao meu interior, como a minha personalidade era feita.
Ela descobriu-me algo.
Sempre vivi de livros.
Sempre me escrevi e escrevi os outros.
Ela descobriu que havia algo. Algo na minha conduta que valia a pena apurar. Perscrutar. Esclarecer. E, eu descobri-me! Descobri-me a olhar os corações das crianças repletos de bondade, ansiosos por serem amados, aconchegados, estimados e escutados. Descobri-me a ensinar, a ouvir atentamente porque contam uma vida? Porque contam imensas vidas?
Fizemos ambos isto tudo.
Tiramos o adesivo da boca em que estávamos amordaçados num eterno silêncio de há muito e inspirámos-lhes o amor de viver! A realizarem sonhos. A realizarem os seus mais belos sonhos escondidos e por concretizar. Inacabados!Sofridos!Sonhos de heróis incompreendidos, por serem como são. Verdadeiros lutadores inconsequentes e de fibra! Pequenos Heróis que lambem e limpam o suor com a manga da camisa que não têm, com o desejo de serem compreendidos e amados. Afagados num abraço desmedido e sem fronteiras de qualquer espécie.
Só compreendidos e amados!
Sim!
Ficariam satisfeitos e eternamente agradecidos.
Sentir-se-iam bem, creio.
Ela tudo isto me ensinou. Sim! Ensinou. Sorrindo!
Com um sorriso inesquecível!
Se fosse quem de direito: PREMIAVA-A! Dava-lhe um louvor! Dava-lhe um certificado de compreensão de vida! Não que ela o desejasse ou quisesse, mas sim porque merece. Merece, PLENAMENTE! Ela sabe fazer as pessoas estarem de bem consigo próprio! Ela sabe o que é a amizade! Ela sabe amar as crianças como ninguém. Não rindo, mas sorrindo! Entregue a uma capa oculta por ser bela. E, acima de tudo sabe dar tudo o que tem e o que não tem!Enche-me de orgulho conhecê-la!
-Quem é? - Perguntam, apenas com curiosidade. E, eu respondo, convicto de que nem todas a merecem:-Ela sabe!- E, isso é o que importa! Isso é que me importa! Considero-a como da minha família. Com a ternura de uma irmã. Lado a lado.
OBRIGADO, Senhora Professora por ser assim!
OBRIGADO por me ensinar a eu ser como sou! Penso que fui um bom aluno e posso dizer o que disse. Repetir, se for imperioso, tudo outra vez ou mais vezes, as vezes que forem necessárias, para que não a tomem como uma Professora qualquer, que não é! Um bem-haja, Senhora Professora! E, perdoe-me a franqueza! A franqueza de uma imensa amizade que não confunde as coisas, não as mistura, mas respeita-as!
De forma inconfundivelmente sincera!
Pode crer!
By Poliedro Dezembro de 2006

12 dezembro, 2006

SALVADOR ALLENDE


A primeira vez na vida que cumpri um minuto de silêncio, foi por Salvador Allende, em 12 de Setembro de 73.
Viajava de comboio, ainda não havia comboios alfa, a CP apenas dispunha de foguetes e rápidos. Era uma tarde quente de final de verão, e eu fazia a viagem Porto - Lisboa, de regresso a Luanda; permanecia em pé, no corredor junto à janela, a apanhar as lufadas de ar fresco, no meu rosto de adolescente.
Apercebi-me que o comboio desacelerou, entrou numa marcha cada vez mais lenta, até que se imobilizou.
Alguém que se deslocava rapidamente se cruzou comigo, e passou-me para a mão um panfleto, apelando para eu fazer um minuto de silêncio.
Surpreendida, seguindo com o olhar aquela personagem que rapidamente desaparecia no final do corredor, senti a mão do meu pai, a puxar-me delicadamente para dentro da cabine e a correr a porta de vidro.
Não foi preciso explicar nada a ninguém! Rapidamente escondi o panfleto e sentei-me.
Momentos mais tarde, quando dois indivíduos vestindo totalmente de preto se acercaram da nossa cabine e espreitaram, todos nós fingimos dormir.

10 dezembro, 2006

Chema Madoz



Esta foto tem habitado o meu arquivo, sem identificação. Guardei-a para ilustrar um poema, mas acabei por não a utilizar, pois entendi que uma foto tão invulgarmente bonita como esta, deveria ser identificada com o seu autor. Hoje, recebo um mail em power point, de fotos surreais e cá está ela.

CHEMA MADOZ, o nome do autor, fotografo castelhano, possuidor de um vasto curriculum, curiosamente da minha idade.

http://www.chemamadoz.com/

Vão gostar de visitar.

06 dezembro, 2006

Que força é essa



Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr'ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força pra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força pra pouco dinheiro

Que força é essa [bis]
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer

Que força é essa, amigo [bis]
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo [bis 3]

Não me digas que não me compr'endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr'endes

(Que força...)

(Vi-te a trabalhar...)

Que força é essa [bis]
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo [bis]
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo [bis 10]

Sérgio Godinho, in Sobreviventes




FORUM INTERNACIONAL DE TÓQUIO, projectado por Rafael Vinoly.
A utopia cada vez mais próxima de nós, só falta mesmo resolver o problema da gravidade... quando for possível utilizar uma escada em ambas as faces, vai haver uma revolução na arquitectura... tanto problema que será resolvido apenas com esse pormenor.

05 dezembro, 2006

António Gedeão


Tenho sofrido a poesia
como quem anda no mar.
Um enjoo.
Uma agonia.
Sabor a sal.
Maresia.
Vidro côncavo a boiar.
António Gedeão

04 dezembro, 2006

03 dezembro, 2006

VAZIO em continuação


Convém distinguir entre o vazio, o nada e o vácuo – três “figurinhas” que nos dão cabo dos neurónios, quando acordamos à 4 horas da manhã, com a boca a saber a papel de música.
O vácuo é mais que vazio, e vazio é mais do que nada, o nada não existe.
Reparem,

- o vácuo é um espaço não ocupado por matéria, mas ocupado por energia e luz.
- o vazio é um espaço que nada contém mas existe como espaço.

- do nada nem se pode dizer que está esvaziado de tudo, porque no nada, nada existe, em sítio nenhum, assim o nada, fisicamente não existe pura e simplesmente, no entanto existe processado pela nossa mente.


António Gedeão referia que o Universo é feito de coisa nenhuma.
Heidegger e Sartre defendiam que o nada afinal seria uma entidade de existência real oposta ao ser.
Afinal, com tanta gente a reflectir sobre o vazio, leva-nos a ter a certeza que existe e deve ter um grande peso, para atrair tanto neurónio.
Já que se fala de vazio ou seja de quase nada, importa lembrar Gilles Lipovetsky que escreveu um ensaio sobre “A Era do Vazio”.

Talvez o vazio das mentes e das consciências nos diga mais, do que as experiências físicas de universos de electrões, protões e neutrões.
Toda a mediocridade produzida pelo capitalismo e pela sociedade consumista, empurra-nos para uma despersonalização humana, ausente de valores e traduzida numa apatia politica, autentica ditadura do vazio, que se expressa no dia a dia através do deixa andar, do não tomar partido, do não ser politico, do não discutir, do não questionar, do não votar,… do olhar apenas para o nosso umbigo instalado num espaço vazio.

01 dezembro, 2006

O VAZIO ou filosofia de sex ta-feira, postada numa 5ª, repescada num sábado e para reflectir em qualquer dia da semana


Quanto pesa o vazio?
Se existe vazio é porque ocupa espaço, tem dimensões…
…então posso enchê-lo!!!
E posso esvaziá-lo!
Posso manipulá-lo!
Delimitá-lo, atribuir-lhe quantidades e qualidades, mesmo que sejam de vazio. Não interessa de que, mas tem a qualidade de conter…
...será?
Se tem essa função é porque estará implícito um espaço interior e outro exterior, que pode ou não ser vazio. Touché!!!
O que delimita, o que fará fronteira…???

Quanto pesa o vazio? Será que pesa zero?
Zero é aquele limite, aquela referência entre o positivo e o negativo, o ponto de encontro de algo que se auto-anula.
Que outras características terá o vazio?
Será que o vazio é igual ao vácuo?
Há uma máquina (utilidade doméstica) de fazer vácuo, será que existe uma para fazer o vazio.
Os filósofos da antiguidade embrenharam-se nesta reflexão - não da máquina mas das questões do vazio e do não vazio.
A aceitação da existência do vazio implica a não aceitação de Deus. A omnipresença de Deus é insustentável com um espaço vazio….
Mas o vazio existe de facto?

O vazio é o oposto ao cheio, é o não ser que se opõe ao ser, ao existir… então o vazio não existe!!!???
Em 1656 o físico Otto von Guericke obteve a primeira prova experimental da existência do vácuo. Com uma bomba de ar modificada que ele mesmo havia inventado, Guerick tirou o ar de dois hemisférios de metal que tinham sido postos em união. A seguir ele atrelou um grupo de oito cavalos a cada um dos hemisférios e fez com que eles tentassem separar o conjunto.
Apesar de todo o esforço, os cavalos foram incapazes de separá-los.
O que impedia a separação era a pressão exercida pelo ar sobre a superfície externa dos hemisférios. Esta experiência foi feita na cidade alemã de Magdeburg e os hemisférios passaram a ser conhecidos como "hemisférios de Magdeburg".
(continua)

Dia mundial de luta contra a SIDA

2001–2010 continua a ser
«Stop AIDS. Keep the Promise»,
«Acaba com a Sida. Mantém a promessa».

30 novembro, 2006

mudar de página


"Começava a escrever sem saber o que ia escrever. Acreditava que eram as palavras que se iam escrevendo umas às outras, cada uma trazendo consigo a seguinte, pois que a vontade e a premeditação me impediriam de atingir o meu objectivo, que desconhecia, que só se revelaria pouco a pouco conforme as frases, o parágrafos, se fossem escrevendo. Qualquer frase pensada antes de se escrever não prestava para nada, disso tinha a certeza. O que mais importava era o que transportava sem que pudesse saber para onde. Tinha também a superstição de que o tamanho da história que escrevia não podia ultrapassar um página, simplesmente porque o ter de mudar de página quebrava a magia de que ela, a história, precisava para viver. Eram, por isso, histórias do tamanho de uma mão."

Pedro Paixão, in " Asfixia"


29 novembro, 2006