
30 dezembro, 2006
Como correu o Natal?
BEMMMMM!!!!!! Correu bem! Tudo naquela medianazinha a que já me habituei!!!! Sem surpresas de maior, sempre aquela monotonia dos zero graus centígrados, ou mais ou menos por aí.
O Natal é aquele acontecimento que se repete todos os anos - a maior concentração de família por metro quadrado.
Verdade!
Ora a sala de jantar, tem aproximadamente 20m2, deduzindo a esta área, o aparador Queen Anne, as duas mesas adquiridas em Paços de Ferreira, extensíveis com 2,20 X 0,90m, o louceiro dos Limoges, a cristaleira para ostentar os cristais d’ Arques, e os dois dálmatas imobilizados para sempre junto à porta da entrada… fazendo as contas por alto… as andorinhas da parede não contam, o lustre da feira de paris, pago a peso de ouro na caixa de pandora, também não, a ceia de Cristo, idem, o menino a verter a lágrima, aussi… portanto resta aproximadamente e com números redondos… 1,98X2+ 0,6X1,50X3….= 3,96+2,70= 6,66 (que número!!!!)… logo 20-6,66=13,34.
Vá 13m2
13m2 a dividir pela família, com características flutuantes, mas que se aproxima sempre dos 22, temos sensivelmente 0,5m2 por individuo! Desprezando as diferenças…. Sim já sabemos que o tio Zé Maria, calça 47 e que a bunda da prima Esperança ronda os 56 do pronto a vestir… mas também os putos estando quietinhos, ocupam menos espaço. Ora na China é muito pior, e não é por isso que eles deixam de ser amarelinhos e ter olhos em bico!
A(s) mesa(s) foi decorada a preceito! Alinhada como convém no eixo da ceia de Cristo, colocada no extremo da sala, toalha vermelha, centro de mesa dourado, pratos vermelhos, colocados naquela geometria original, um seguir ao outro, copos em frente, faca de um lado, garfo do outro e guardanapo na esquerda como exige a Bobone, mas de papel, pois eu não tenho pastel para depois andar a fazer limpezas de babas de canela e vinho tinto, em 66 guardanapos. Sim porque o Natal, em casa minha, rende ao pessoal no mínimo 3 refeições à borliu. …muita vela, muito pastel de bacalhau, muita batata doce, para elevar o astral até ao hemisfério sul, muito anjo barroco, muita bola de vidro, suspensa entre os reposteiros adamascados que limitam as janelas de alumínio, com muita estrela colada nos vidros, estrelas polares e outras que tais, de cinco pontas, sempre.
20 dezembro, 2006
Noite de Natal

Atravessei a rua, naquele passo que não tem pressa de chegar, mas num ritmo acelerado de fuga ao frio, e de engano ao nevoeiro, que teimava atravessar-nos de uma ponta à outra.
A respiração se transformava rapidamente em nuvem de vapor, que eu aproveitava para fazer efeitos visuais, que saíam por entre o cachecol e me distraiam o olhar, das vitrines cheias de agasalhos, e das ruas decoradas e brilhantemente em festa.
Atravessei mais uma rua e entrei pelo mercado da praça de Lisboa… olhei o início da noite a desertificar o espaço urbano sob aquela nuvem amarela que paira sobre a baixa, e ia-me perdendo num jogo de andar e colocar as passadas, exactamente em sítios determinados, numa geometria de pauta musical, que me habituei a construir no espaço multidimensional, que é a mente.
Os eléctricos já passavam quase vazios, com o trinca a consultar o relógio e ansiando pela ceia melhorada.
E eu caminhava… ia partindo o frio, com essa caminhada lúdica e embalada por esta cidade de cor de prata, contornando a faculdade de ciências, com intenção de me dirigir para Carlos Alberto… escutando a noite de Inverno a valer, voltando-me, para admirar mais uma vez, a lua cheia por trás dos Clérigos, alegremente imaginando o calor da lareira e os odores que já estariam a ser fabricados com a canela, e que certamente, já me esperavam àquela hora, sob a forma de ceia de Natal.
No vão de uma porta, encostado ao granito da ombreira, permanecia imóvel um corpo em volume, com jornais como tapetes, que eu olhei, inesperadamente, em diagonal, naquele meu jogo pedestre.
Parei, fiquei imóvel também!
Senti a aorta a latejar, conseguindo facilmente calcular as pulsações sem qualquer aritmética ou máquina de calcular.
Identifiquei aquele velho casaco, gasto e mesclado a cinza.
Não sei rezar, mas naquele momento rezei com convicção.
Rezei para que, por baixo do chapéu, eu não conseguisse avistar uma barba, com longos fios de cabelo alvos, alvos como a neve.
O meu coração de repente se recusou a bater com as imagens que lhe chegavam do olhar.
Os fios alvos como a neve, despontavam por entre o casaco sujo, nos intervalos dos botões e por debaixo do chapéu. Não havia dúvidas, pois eles eram únicos.
Os cabelos, que eu tanta vez contornei e penteei sobre os meus papéis, desenhando-os a várias cores, por serem alvos. Os cabelos, que tanta beleza davam a um corpo alquebrado de ancião... estavam ali, permaneciam ali, abandonados num corpo enfrentando uma noite sem fim à vista.
Quantos lápis se perderam naquele cabelo? Quantos esfumados se diluíram entre as suas mãos angulosas, com unhas bem desenhadas? Quantas aguarelas se misturaram no olhar doce daquele rosto? Quanto carvão contou as suas rugas, que se iam adicionando com a idade, até se tornarem septuagenárias… octogenárias talvez?
Ele foi Zeus, ele foi Júpiter, ele foi Neptuno, ele foi Moisés, ele foi João de Deus, ele foi Marx, ele foi Engels, ele foi Eiffel, ele foi Antero de Quental, ele foi Guerra Junqueiro… ele foi José, ele foi tudo, o que nós queríamos que ele fosse.
Posicionava-se como cada um queria: nu, vestido, de verão ou de inverno, sentado, de pé, contorcendo-se… ora facilitando o esquisso, ora valorizando a torção do tronco, ora distinguindo a luz sobre um músculo, ora disfarçando a imperfeição dos nossos traços através do melhor ângulo da anatomia de seu corpo...
Conheceu mestres e aprendizes, e estes, quando se tornaram mestres, também, num rodopiar de anos e décadas, alternando com diversas gerações numa escola de artistas.
Ele era o modelo anatómico perfeito.
Era o nosso homem vitruviano, inscrito simultaneamente, num circulo e num quadrado! Com o seu crâneo estampado antropométricamente no nosso lápis, aprendíamos a proporcionar os traços, repetindo-o mais sete vezes, tal como um módulo, até chegar aos pés… um esquemazinho de linhas paralelas, essencial para orientar e estruturar toda a construção de um corpo ainda sem alma, com centro no umbigo, harmonizando e redescobrindo as razões de ouro.
Foi esboço, ele foi esquisso, foi retrato, foi escultura, foi tela, foi cenário, foi emoldurado, foi inaugurado, sempre com alma de alguém importante… ao sabor do naturalismo ou deformado e decompostamente cubista.
Ele foi Apolo, foi Adónis… e foi mudando de identidade conforma os anos se lhe iam entranhando na pele e embaciando a vivacidade do olhar.
Horas e horas á nossa frente, destilando dias, sem horário, em troca da refeição e de um mísero salário, que minguava, conforme envelhecia, inversamente proporcional às muitas horas que já não conseguia posar em pé.
Silencioso.
Discreto.
Como se exige a uma estátua!
Por vezes esquecido.
Frequentemente substituído, curiosamente por ele mesmo, ou do que ele sobrava numa folha de papel, abandonada anos e anos, numa pasta amarrada por uma fita azul.
Nessa noite, soube que era sozinho e que tinha doado o seu corpo à Ciência.
Chamei por ele!
_ Senhor António???!!!...
19 dezembro, 2006
18 dezembro, 2006
17 dezembro, 2006
16 dezembro, 2006
Lindíssima

Que espanto de fotografia! Apeteceu-me mudar o fundo do blog, para negro, só para publicar esta foto.
Lindíssima!
Não sei quem a fez, a única referência é, "AP".
A moldagem do ferro ao fogo, numa concentração realçada no martelo e no local onde ele bate, sobre a bigorna.
Uma profissão dura, a de ferreiro!
15 dezembro, 2006
Infância
14 dezembro, 2006
A Foto da Sra Professora
13 dezembro, 2006
Senhora Professora
12 dezembro, 2006
SALVADOR ALLENDE

Viajava de comboio, ainda não havia comboios alfa, a CP apenas dispunha de foguetes e rápidos. Era uma tarde quente de final de verão, e eu fazia a viagem Porto - Lisboa, de regresso a Luanda; permanecia em pé, no corredor junto à janela, a apanhar as lufadas de ar fresco, no meu rosto de adolescente.
Apercebi-me que o comboio desacelerou, entrou numa marcha cada vez mais lenta, até que se imobilizou.
Alguém que se deslocava rapidamente se cruzou comigo, e passou-me para a mão um panfleto, apelando para eu fazer um minuto de silêncio.
Surpreendida, seguindo com o olhar aquela personagem que rapidamente desaparecia no final do corredor, senti a mão do meu pai, a puxar-me delicadamente para dentro da cabine e a correr a porta de vidro.
Não foi preciso explicar nada a ninguém! Rapidamente escondi o panfleto e sentei-me.
Momentos mais tarde, quando dois indivíduos vestindo totalmente de preto se acercaram da nossa cabine e espreitaram, todos nós fingimos dormir.
11 dezembro, 2006
10 dezembro, 2006
Chema Madoz

Esta foto tem habitado o meu arquivo, sem identificação. Guardei-a para ilustrar um poema, mas acabei por não a utilizar, pois entendi que uma foto tão invulgarmente bonita como esta, deveria ser identificada com o seu autor. Hoje, recebo um mail em power point, de fotos surreais e cá está ela.
CHEMA MADOZ, o nome do autor, fotografo castelhano, possuidor de um vasto curriculum, curiosamente da minha idade.
Vão gostar de visitar.
06 dezembro, 2006
Que força é essa

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr'ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força pra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força pra pouco dinheiro
Que força é essa [bis]
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo [bis]
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo [bis 3]
Não me digas que não me compr'endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr'endes
(Que força...)
(Vi-te a trabalhar...)
Que força é essa [bis]
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo [bis]
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo [bis 10]
Sérgio Godinho, in Sobreviventes
05 dezembro, 2006
António Gedeão
04 dezembro, 2006
03 dezembro, 2006
VAZIO em continuação

Convém distinguir entre o vazio, o nada e o vácuo – três “figurinhas” que nos dão cabo dos neurónios, quando acordamos à 4 horas da manhã, com a boca a saber a papel de música.
O vácuo é mais que vazio, e vazio é mais do que nada, o nada não existe.
Reparem,
- o vácuo é um espaço não ocupado por matéria, mas ocupado por energia e luz.
- o vazio é um espaço que nada contém mas existe como espaço.
- do nada nem se pode dizer que está esvaziado de tudo, porque no nada, nada existe, em sítio nenhum, assim o nada, fisicamente não existe pura e simplesmente, no entanto existe processado pela nossa mente.
António Gedeão referia que o Universo é feito de coisa nenhuma.
Heidegger e Sartre defendiam que o nada afinal seria uma entidade de existência real oposta ao ser.
Afinal, com tanta gente a reflectir sobre o vazio, leva-nos a ter a certeza que existe e deve ter um grande peso, para atrair tanto neurónio.
Já que se fala de vazio ou seja de quase nada, importa lembrar Gilles Lipovetsky que escreveu um ensaio sobre “A Era do Vazio”.
Talvez o vazio das mentes e das consciências nos diga mais, do que as experiências físicas de universos de electrões, protões e neutrões.
Toda a mediocridade produzida pelo capitalismo e pela sociedade consumista, empurra-nos para uma despersonalização humana, ausente de valores e traduzida numa apatia politica, autentica ditadura do vazio, que se expressa no dia a dia através do deixa andar, do não tomar partido, do não ser politico, do não discutir, do não questionar, do não votar,… do olhar apenas para o nosso umbigo instalado num espaço vazio.
01 dezembro, 2006
O VAZIO ou filosofia de sex ta-feira, postada numa 5ª, repescada num sábado e para reflectir em qualquer dia da semana
Quanto pesa o vazio?
...será?
Se tem essa função é porque estará implícito um espaço interior e outro exterior, que pode ou não ser vazio. Touché!!!
O que delimita, o que fará fronteira…???
Quanto pesa o vazio? Será que pesa zero?
Será que o vazio é igual ao vácuo?
A aceitação da existência do vazio implica a não aceitação de Deus. A omnipresença de Deus é insustentável com um espaço vazio….
Mas o vazio existe de facto?
O vazio é o oposto ao cheio, é o não ser que se opõe ao ser, ao existir… então o vazio não existe!!!???
(continua)














